A Papisa Joana

Donna Woolfolk Cross · Capítulo 8 de 9 · parte 4/4

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A Papisa Joana

Capítulo 22 · Geraldo suspirou de alívio quando desceu, juntamente com os seus

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

pragmático. — Devias ter mandado cortar-lhe o pescoço no momento em que o assunto ficou tratado. Bem, agora, acabou. Temos de olhar para o futuro.

— Para o futuro? — repetiu Anastácio. — Que futuro? — O desespero é para os fracos, meu filho, não para pessoas como

tu ou como eu.

— Mas, o que hei-de fazer? A situação não tem emenda possível! — Tens de sair de Roma. Agora. Esta noite.

— Oh, Deus!

Anastácio enterrou o rosto nas mãos. O seu mundo desabava

completamente à sua volta.

Arsénio disse num tom firme:

— Basta! Lembra-te de quem és e do que és.

Arsénio levantou-se, lutando para se dominar.

— Vais para Aachen — disse Arsénio — para a corte do

imperador.

Anastácio estava destroçado. O medo que lhe apertava o coração

impedia-o de pensar com clareza.

— Mas... Lothar sabe que eu o denunciei na eleição papal. — Sim e também sabe porque foste obrigado a fazê-lo. Ele é um

homem que compreende as contingências políticas — senão, como pensas que ele teria usurpado o trono ao seu pai e aos seus irmãos? E, além disso, também é um homem que gosta de dinheiro.

Arsénio tirou uma bolsa em cabedal da sua secretária e deu-a a

Anastácio.

— Se o imperador ainda estiver arrufado, esta bolsa irá ajudar a

acalmá-lo.

Anastácio ficou a olhar para o pesado saco de moedas.

Tenho mesmo que sair de Roma? A ideia de viver o resto dos seus

dias no meio de uma tribo de francos bárbaros enchia-o de repugnância. Talvez seja melhor do que morrer agora e acabar com tudo.

— Considera isto como uma oportunidade — dizia o seu pai. —

Uma oportunidade para ganhar amigos poderosos na corte imperial. Vais precisar deles, quando fores papa.

Quando for papa. As palavras penetraram no espesso nevoeiro do

desespero de Anastácio. Então, ele não ia ficar exilado para sempre.

— Eu olho pelos teus interesses aqui, não tenhas medo — disse

Arsénio. — A maré da opinião não pode continuar a favor de Leão para sempre. Pode ser que suba e, depois, desça. Quando eu achar que é tempo de agir, mando-te chamar.

A náusea fria que Anastácio sentia começou a acalmar-se. O seu

pai ainda não tinha desistido de ter esperança, por isso, ele também não podia desistir.

— Arranjei-te uma escolta — disse Arsénio. — Doze dos meus

melhores homens. Anda, eu acompanho-te aos estábulos.

Os doze guardas estavam montados e prontos, armados com

espadas, lanças e maças. Anastácio não teria falta de protecção nas estradas perigosas. A sua montada estava perto, batendo com os cascos impacientemente — um animal forte e com carácter, Anastácio reconheceu-a como o garanhão preferido do pai.

— Ainda têm duas ou três horas de luz — o suficiente para um

bom começo — disse Arsénio. — Hoje, não vêm à tua procura porque não têm forma de saber que tu suspeitas de algo e Leão tomará, certamente, a precaução de redigir um decreto oficial para a tua prisão. Só começarão à tua procura amanhã de manhã e começarão por São Marcelo. Quando pensarem em vir aqui, já estarás longe.

Atingido por uma súbita preocupação, Anastácio disse: — E vós, Pai?

— Não têm qualquer motivo para suspeitar de mim. Se tentarem

interrogar-me acerca do teu paradeiro, descobrirão que agarraram um lobo pela cauda.

Pai e filho abraçaram-se.

Isto está mesmo a acontecer, pensou Arsénio. Era espantoso como

tudo estava a acontecer tão depressa.

— Deus te acompanhe, meu filho — disse Arsénio. — E a vós, Pai.

Anastácio montou e virou o cavalo rapidamente para que o pai não

visse que as lágrimas começavam a chegar-lhe aos olhos.

Mesmo ao pé do portão, virou-se para trás, mais uma vez, para

uma última despedida.

O Sol estava a pôr-se, lançando sombras alongadas sobre os

contornos suaves das colinas romanas, pintando com tons dourado-avermelhados as ruínas majestosas do Fórum e do Coliseu.

Roma. Tudo aquilo para que ele tinha trabalhado, tudo quanto lhe

importava, ficava por trás dos seus muros sagrados.

O seu último olhar foi para o seu pai — sofrendo, mas decidido,

firme e seguro como o rochedo de São Pedro.

— Membrum putridum et insanibile, ferro excommunicationis a

corpore Ecclesiae abscidamus...

Na escuridão fria da Basílica de Latrão, Joana ouviu Leão

pronunciar as palavras solenes e terríveis que expulsariam para sempre Anastácio da Santa Madre Igreja. Reparou que Leão tinha escolhido a expressão excommunicatio minor, a forma menor de excomunhão, na qual o condenado estava proibido de administrar ou receber os sacramentos (excepto os últimos ritos, dos quais nenhuma alma podia ser excluída), mas não de todo o contacto com os seus irmãos cristãos. Realmente, pensou Joana, Leão tem um coração bom.

O clero de Roma estava reunido para testemunhar a cerimónia

solene, até mesmo Arsénio estava presente porque não ia pôr em risco a sua posição de bispo de Horta por causa de uma inútil manifestação pública de oposição. Leão suspeitava, evidentemente, que Arsénio tinha sido cúmplice na fuga do seu filho à justiça. Mas, não havia provas para consubstanciar uma acusação dessas e não havia qualquer outro motivo para apresentar queixa contra ele, uma vez que era certo que não era crime ser pai de um homem.

Quando a vela que representava a alma imortal de Anastácio foi

virada ao contrário e apagada no pó, Joana sentiu, inesperadamente, uma certa tristeza. Que deperdicio trágico, pensou ela. Uma mente tão brilhante como a de Anastácio podia ter sido usada para fazer o bem, se o seu coração não tivesse sido distorcido pela ambição obsessiva.

 

Capítulo 26

A construção do Muro Leonino — como todos lhe chamavam

agora — prosseguia rapidamente. O fogo que tinha pretendido destruí-lo, na realidade, não tinha causado grandes danos, os andaimes em madeira utilizados pelos trabalhadores tinham ardido completamente e uma das plataformas ocidentais tinha ficado muito chamuscada, mas era tudo. Os problemas que tinham atacado o projecto desde o início, agora, tinham cessado, graças a Deus. O trabalho prosseguiu sem interrupções durante o Inverno e a Primavera seguintes porque o tempo se manteve abençoadamente ameno, marcado por dias grandes, frescos, solarengos e sem chuva. As pedreiras forneciam constantemente pedra de primeira qualidade e os trabalhadores vindos dos campos ao redor apareciam para trabalhar lado a lado, num uníssono produtivo.

No Pentecostes, o muro já atingia a altura de um homem. Agora, ninguém considerava que o projecto era uma loucura,

ninguém se queixava do tempo e do dinheiro que ele gastava. Os romanos sentiam cada vez mais orgulho no trabalho, cujas dimensões faziam lembrar os dias do antigo Império, quando estes prodígios da construção eram lugares-comuns e não uma raridade. Quando estivesse terminado, o muro seria magnífico, monumental, uma barreira que nem os sarracenos conseguiriam transpor ou quebrar.

Mas, o tempo passava. Nas calendas de Julho, chegaram

mensageiros à cidade com notícias aterradoras: estava a reunir-se uma frota de sarracenos em Totarium, uma ilhazinha ao largo da costa oriental da Sardenha. Preparava-se outro ataque a Roma.

Ao contrário de Sérgio, que tinha procurado o poder da oração

para proteger a cidade, Leão optou por uma reacção mais agressiva.

Mandou chamar imediatamente à grande cidade marítima de

Nápoles uma frota de navios armados, para combaterem o inimigo no mar.

A ideia era corajosa e arriscada. Nápoles continuava a manter uma

aliança formal com Constantinopla, apesar de, na realidade, ser independente havia muitos anos. Será que o duque de Nápoles iria ajudar Roma na sua hora de necessidade?

Ou utilizaria a oportunidade para juntar forças aos sarracenos e

atacar a sede romana em nome do Patriarcado do Oriente? O plano estava cheio de perigos. Mas, qual era a alternativa?

A cidade esperou durante dez dias numa expectativa tensa. Quando a armada napolitana chegou ao Porto na embocadura do

Tibre, finalmente, Leão partiu ao seu encontro, acompanhado por uma grande comitiva de milícias armadas sob o comando de Geraldo.

A ansiedade dos romanos acalmou quando Cesário, o comandante

da frota, se prostrou diante de Leão e lhe beijou os pés, humildemente. Com um alívio que não demonstrou, Leão abençoou Cesário, encomendando solenemente à sua protecção os despojos sagrados dos apóstolos Pedro e Paulo.

Tinham sobrevivido à primeira jogada, os seus futuros dependiam

da próxima.

Na manhã seguinte, a armada dos sarracenos apareceu. As velas

latinas enfunadas espalharam-se pelo horizonte como garras abertas. Joana contou-as: cinquenta, cinquenta e três, cinquenta e sete — e continuavam a aparecer — oitenta, oitenta e cinco, noventa — havia tantos navios no mundo? — cem, cento e dez, cento e vinte! Deo, juva nos! Os navios napolitanos eram apenas sessenta e um, com os birremes romanos que ainda estavam em condições de serem utilizados, perfaziam um total de sessenta e sete. Entre eles havia uma desproporção de quase dois para um.

Leão ficou nas escadas perto da Igreja de Santa Aurea e fez uma

oração com os cidadãos assustados de Porto.

— Senhor, Vós que haveis salvado Pedro de se afogar, quando ele

andou sobre as ondas, Vós que haveis arrancado Paulo às profundezas do mar, ouvi-nos. Concedei poder às armas dos Vossos servos que lutam contra os inimigos da Vossa Igreja. Que, pela sua vitória, o Vosso santo nome seja glorificado entre todas as nações.

As vozes do povo ecoaram ao ar livre com um Ámen. Cesário gritou as suas ordens do convés do navio que comandava.

Os napolitanos acorreram aos remos, vigorosamente.

Por um momento, os birremes pesados ficaram imóveis na água. Depois, com um ruído tremendo de madeira a ranger, os navios

começaram a mover-se. Os remos erguiam-se e mergulhavam, erguiam-se e mergulhavam, brilhando como pedras preciosas, o vento bateu nas velas e os grandes birremes avançaram com as suas proas revestidas a metal rasgando a água turquesa e fazendo sulcos duplos de espuma.

Os navios sarracenos viraram-se para os enfrentarem. Mas, antes

que as frotas inimigas se confrontassem, um trovão ensurdecedor anunciou a chegada de uma tempestade. O céu escureceu e nuvens negras rolaram a toda a velocidade sobre o mar. Os navios napolitanos bem equipados conseguiram regressar a porto seguro. Mas, os navios sarracenos, armados com obras mortas baixas para conseguirem maior velocidade e manobrabilidade em combate, eram demasiado fracos para conseguirem resistir à tempestade. Baloiçavam nas ondas crispadas, abanavam como cascas de árvore, com os seus esporões em metal atingindo os navios irmãos e despedaçando-os.

Vários navios dirigiram-se para o porto, mas, mal chegaram,

foram atacados. Instigados pela ira violenta que se segue ao terror, os romanos massacraram a tripulação sem dó nem piedade, arrastando-os para fora dos seus navios e enforcando-os em patíbulos construidos ao longo da costa. Ao testemunhar o destino dos seus camaradas, os outros navios sarracenos tentaram desesperadamente dirigir-se para alto mar, onde foram despedaçados pelas ondas gigantescas.

No momento da vitória inesperada, Joana estava a observar Leão.

Ele estava de pé nas escadas da igreja, de braços erguidos, com os olhos levantados ao Céu, em acção de graças.

Parecia santo e beatífico como se fosse tocado pela presença

divina.

Talvez ele faça milagres, pensou ela. Os seus joelhos dobraram-se

voluntariamente, fazendo-lhe uma vénia.

— Vitória! Vitória em Ostia!

As notícias foram anunciadas jubilosamente pelas ruas. Os

romanos saíram das suas casas, os armazéns papais foram abertos e o vinho correu livremente, durante três dias, a cidade mergulhou numa celebração estrondosa e ébria.

Quinhentos sarracenos foram conduzidos para a cidade, perante a

multidão que os escarnecia e hostilizava. Muitos foram apedrejados ou espancados, morrendo nas ruas. Os sobreviventes, cerca de trezentos, foram acorrentados e levados para um campo no Planalto Neroniano, onde foram colocados como trabalhadores forçados na construção do Muro Leonino.

Com a ajuda desta mão-de-obra suplementar, o muro ergueu-se

mais rapidamente ainda. Em três anos, ficou pronto — uma obra-prima da engenharia medieval, a construção mais extraordinária que a cidade tinha visto nos últimos quatrocentos anos. O território do Vaticano estava completamente protegido dentro de uma estrutura com doze pés de grossura e quarenta pés de altura, defendida por quarenta e quatro torres maciças. Havia duas galerias sobrepostas, uma superior e outra inferior, a galeria inferior era sustentada por uma série de arcadas graciosas com uma abertura interior.

Três portas permitiam a entrada: a Posterula SantAngeli, a

Posterula Saxonum, assim chamada porque dava para o bairro saxónio, e a Posterula San Peregrinus, a entrada principal pela qual as futuras gerações de reis e príncipes passariam para venerar o santuário sagrado de São Pedro.

Apesar de o muro ser notável, era apenas o início dos planos

ambiciosos que Leão tinha para a cidade. Decidido a proceder à restauração de todos os locais santos, Leão deu início a um grande plano de reconstrução. O som das bigornas ouvia-se dia e noite por toda a cidade, à medida que o trabalho passava de uma igreja da cidade para outra. A basílica saxónica, que tinha ardido, foi restaurada, assim como a igreja frígia de São Miguel e a Igreja de Sancti Quattro Coronati, da qual Leão tinha sido cardeal em tempos.

Mas, o mais importante foi que Leão iniciou a reconstrução de São

Pedro. O pórtico queimado e destruído foi completamente restaurado, as portas, despojadas dos seus metais preciosos pelos sarracenos, foram cobertas com novos revestimentos em prata, nos quais miríades de histórias sagradas foram gravadas com uma arte impressionante. O grande tesouro tinha sido tirado do lugar pelos sarracenos, o altar-mor foi revestido com placas em prata e ouro e decorado com um crucifixo em ouro maciço, coberto de pérolas, esmeraldas e diamantes, por cima dele, foi suspenso um cibório em prata pesando mais de mil libras, colocado sobre quatro colunas do mais puro mármore travertino, ornamentado com grinaldas de lilases. O altar era alumiado por lâmpadas suspensas por correntes em prata, ornadas com esferas em ouro.

A sua luz tremeluzente iluminava um verdadeiro tesouro de

cálices com jóias encrostadas, estantes em prata, ricas tapeçarias e cortinas em seda. A grande basílica brilhava com um esplendor que excedia a sua antiga magnificência.

Joana ficou preocupada ao ver as grandes quantias de dinheiro

retiradas do tesouro papal. Leão tinha recriado um santuário de beleza inspirada.

Mas, a maioria daqueles que viviam à sombra desta magnificência

esplendorosa passavam os seus dias numa pobreza embrutecedora e degradante. Uma só das salvas em prata maciça de São Pedro, fundida e transformada em dinheiro, podia alimentar e vestir a população do Campo de Marte durante um ano. Será que o culto a Deus exigia mesmo tal sacrifício?

Só havia uma pessoa no mundo a quem Joana se atrevia a pôr essa

questão. Quando lha pôs, Geraldo ficou a pensar antes de responder.

— Já ouvi dizer — disse ele, finalmente — que a beleza de um

santuário sagrado dá aos fiéis uma forma diferente de alimento — alimento para a alma, não para o corpo.

— É difícil ouvir a voz de Deus quando se tem o estômago vazio. Geraldo abanou a cabeça:

— Não mudaste. Lembras-te daquela vez em que perguntaste a

Odo como é que ele podia ter a certeza de que a Ressurreição tinha acontecido, uma vez que não havia testemunhas oculares?

— Lembro-me.

Joana esfregou a mão.

— Também me lembro da resposta que ele me deu. — Quando eu vi a ferida que Odo te tinha provocado — disse

Geraldo — quis bater-lhe — e tê-lo-ia feito, se não soubesse que isso ainda tornaria as coisas mais difíceis para ti.

Joana sorriu:

— Foste sempre o meu protector.

— E tu — gracejou ele — tiveste sempre a alma de uma hereje. —

sempre tinham podido falar assim, livres dos constrangimentos do mundo. Fazia parte da intimidade especial que os ligava desde o início.

Ele olhou para ela com um carinho familiar. Joana reparou, sentiu

a sua proximidade como se ele tocasse na sua pele nua.

Mas, ela tinha aprendido a esconder os seus sentimentos. Apontou para uma pilha de petições que se encontravam sobre a

mesa entre ambos.

— Tenho de ir ouvir estes peticionários.

— Não devia ser Leão a fazer isso? — perguntou Geraldo. — Ele pediu-me que eu o fizesse.

Havia já algum tempo que Leão tinha começado a delegar cada

vez mais nela as suas responsabilidades quotidianas para se poder dedicar à continuação dos planos de reconstrução. Joana tinha-se tornado a embaixadora de Leão junto do povo, cumpria tão bem os seus deveres de caridade nas diferentes regiões da cidade que era conhecida por toda a parte como o pequeno Papa e saudada com algum do afecto reservado ao próprio Leão.

Quando ia a pegar na pilha de papéis, Geraldo tocou-lhe na mão. Ela retirou-a bruscamente, como se se tivesse queimado. — É... é melhor eu ir — disse ela, embaraçada. Ficou imensamente aliviada, ainda que um pouco desapontada por

ele não a ter seguido.

Insuflada pelo sucesso do Muro Leonino e pela renovação de São

Pedro, a popularidade de Leão crescia. Chamavam-lhe o Restaurator Urbis, Restaurador da Cidade. O povo dizia que ele era outro Adriano, outro Aurélio. Por todo o lado para onde ia, as multidões aclamavam-no. Roma ressoava com os ecos do seu louvor.

Por todo o lado, quer dizer, excepto no palácio na Colina Palatina,

onde Arsénio esperava com impaciência crescente o dia em que poderia mandar regressar Anastácio.

As coisas não tinham corrido como se esperava. Não havia forma

de depor Leão, como Arsénio tinha pensado inicialmente, nem sequer havia a mínima esperança de que o trono ficasse vago através do feliz acidente da morte. Saudável e vigoroso, Leão parecia dar sinais de que ia viver para sempre.

Agora, a fortuna da família tinha recebido outro golpe. Na semana

anterior, o segundo filho de Arsénio, Eleutério, tinha morrido. Cavalgava pela Via Recta abaixo, quando um porco se meteu no meio das patas do seu cavalo, o cavalo tropeçou e Eleutério caiu, partindo o fémur. Ao princípio, ninguém se preocupou porque a ferida não era profunda. Mas, uma desgraça atrai sempre outra desgraça. A ferida infectou. Arsénio mandou chamar Enódio, que fez uma sangria a Eleutério, mas não resolveu nada. O seu filho morreu dali a dois dias. Arsénio ordenou imediatamente uma busca ao dono do porco, quando o descobriu, mandou-lhe cortar a garganta de orelha a orelha.

Mas, tal vingança era pouco reconfortante, porque não podia

trazer Eleutério de volta.

Não que se tivesse perdido muito amor entre pai e filho. Eleutério era exactamente o oposto do seu irmão — indolente,

preguiçoso e indisciplinado desde criança, tinha rejeitado a oferta de Arsénio de uma educação na igreja, escolhendo em vez dela as gratificações mais imediatas de uma existência laica — mulheres, vinho, jogo e outros deboches.

Não, Arsénio não chorava Eleutério por causa do homem que ele

tinha sido ou podia ter sido, mas por causa daquilo que ele representava: outro ramo da árvore da família, um ramo que talvez ainda pudesse vir a dar um fruto promissor.

A família deles tinha sido, durante séculos, a família mais

importante de Roma. Arsénio era capaz de reconstituir a sua árvore genealógica até ao próprio César Augusto. Mas, esta herança ilustre foi atingida pelo fracasso porque nenhum dos seus filhos nobres tinha alcançado a honra máxima em Roma: o Trono de São Pedro. Quantos homens menores tinham sido colocados no trono, pensava Arsénio, amargamente, e com que resultados trágicos? Roma — em tempos, a maravilha do mundo — estava afundada numa decadência ruinosa e embaraçosa. Os bizantinos troçavam dela abertamente, apontando para o esplendor da sua própria Constantinopla. Quem, senão um dos membros da família de Arsénio, herdeiros de César, podia reconduzir a cidade à sua antiga grandeza?

Agora, Eleutério tinha desaparecido e Anastácio era o último da

sua linhagem, a única oportunidade que restava para a família redimir a sua honra e a de Roma.

E Anastácio tinha sido banido para o país dos francos. Arsénio sentiu-se desesperado. Libertou-se bruscamente desse

sentimento, como se fosse um manto indesejado. A grandeza não esperava uma oportunidade, criava-a. Aqueles que haveriam de governar tinham de estar dispostos a pagar o preço do poder, por muito alto que ele fosse.

Durante a missa no dia da Festa de São João Baptista, Joana

apercebeu-se de que algo se passava com Leão. As suas mãos tremiam ao receber as oferendas e hesitou de uma forma incaracterística durante o Nobis quoque peccatoribus.

Mais tarde, quando Joana lhe perguntou, ele não deu importância

aos seus sintomas, considerando-os resultado do calor e de uma indigestão.

No dia seguinte, não estava melhor, nem no dia a seguir e no

outro. Doía-lhe constantemente a cabeça e queixava-se de dores nas mãos e nos pés. Começou a enfraquecer de dia para dia, fazendo cada dia um esforço maior para se levantar da cama.

Joana começou a ficar alarmada. Tentou todos os remédios que

conhecia para doenças que enfraquecem. Nada ajudou. Leão continuava a caminhar para a morte.

As vozes do coro ergueram-se no Te Deum, o cântico final da

missa. Anastácio esforçava-se por se manter sem expressão, tentando esconder um sorriso provocado pelo barulho.

Nunca tinha conseguido acostumar-se ao canto franco, cujos

acentos bruscos e desconhecidos lhe soavam aos ouvidos como o grasnar de corvos. Sentiu saudades de casa, ao lembrar-se das harmonias puras e suaves do canto romano.

Não que desse por perdido o tempo passado em Aachen. Seguindo as instruções do seu pai, Anastácio tinha procurado

conquistar o apoio do imperador. Começou por cortejar os amigos e íntimos de Lothar e por agradar à esposa do imperador, Hermengarda. Encantava e elogiava com insistência a nobreza franca, impressionando-os a todos com o seu conhecimento das Escrituras e, especialmente, do grego — um talento raro. Hermengarda e os seus amigos intercederam junto do imperador e Anastácio foi readmitido à presença real.

Lothar esqueceu qualquer ressentimento que tivesse tido contra

ele, em tempos, Anastácio voltou a gozar da confiança e apoio do imperador.

Fiz tudo quanto o pai dise e mais ainda. Mas, quando virá a

recompensa? Havia momentos, como agora, em que Anastácio temia ser deixado para sempre naquele frio e bárbaro pântano.

Ao regressar aos seus aposentos depois da missa, encontrou uma

carta que tinha chegado na sua ausência. Reconhecendo a letra do seu pai, pegou numa faca e quebrou o selo ansiosamente. Leu as primeiras linhas e deu um grito de júbilo.

Chegou a hora, escrevia o seu pai. Vem reclamar o teu destino. Leão estava deitado de lado, com as pernas encolhidas, torturado

por dores terríveis no estômago. Joana preparou-lhe uma poção emoliente à base de clara de ovo batida com leite açucarado, à qual acrescentou um pouco de funcho como carminativo. Ficou a vê-lo a beber o líquido.

— Era bom — disse ele.

Ela esperou para ver se ele era capaz de o manter no estômago, o

que aconteceu e fez com que ele dormisse mais descansado do que nas últimas semanas. Quando acordou algumas horas depois, sentia-se melhor.

Joana decidiu fazer-lhe uma dieta à base da poção, proibindo-o de

comer ou beber qualquer outra coisa.

Waldipert protestou:

— Ele está tão fraco, certamente, precisa de algo mais substancial

para recuperar as forças.

Joana respondeu com firmeza:

— O tratamento ajuda-o. Ele não pode tomar mais nada senão a

poção.

Vendo que ela estava determinada, Waldipert desistiu: — Como quiserdes, Nomenclator.

Leão continuou a melhorar durante a semana seguinte. Deixou de

ter dores, recuperou a cor, parecia até estar a recuperar alguma da sua antiga energia. Quando, uma noite, Joana lhe trouxe o medicamento, ele olhou para a mistura leitosa com um ar triste.

— E que tal um pastel de carne, em vez disto? — Estais a recuperar o apetite — é um bom sinal. Mas, é melhor

não ter pressa. Observar-vos-ei de manhã, se ainda tiverdes fome, autorizar-vos-ei a comer um pouco de caldo simples.

— Tirano — respondeu Leão. Ela sorriu. Era bom vê-lo a gracejar

com ela novamente.

Na manhã do dia seguinte, ao chegar, ela constatou que Leão tinha

voltado a sofrer uma crise. Gemia na cama, com demasiadas dores para lhe responder quando ela lhe falou.

Joana apressou-se a preparar outra dose de poção emoliente. Ao fazê-lo, os seus olhos depararam com um prato com restos, na

mesa ao lado da cama.

— O que é isto? — perguntou ela a Renato, camareiro pessoal de

Leão.

— É o pastel de carne que vós haveis mandado vir — respondeu o

rapaz.

— Eu não mandei vir nada — disse Joana.

Renato parecia confuso.

— Mas... o meu senhor vicedominus disse que vós havíeis pedido

isto expressamente.

Joana olhou para Leão dobrado com dores. Despertou nela uma

suspeita terrível.

— Correi! — disse ela a Renato. — Chamai o superista e os

guardas. Não deixeis Waldipert sair do palácio.

O rapaz hesitou um pouco, depois, saiu a correr do quarto. Com as mãos a tremer, Joana preparou um emético forte de

mostarda e de raiz de sabugueiro, vertendo-o pela boca meio-fechada de Leão. Pouco depois, o espasmo de limpeza tomou conta dele, o seu corpo tremia convulsivamente, mas só vomitou um pouco de bílis.

Demasiado tarde. O veneno já não está no estômago. Joana viu,

com desgosto, que ele já tinha começado a actuar mortalmente, prendendo os músculos dos maxilares e a garganta de Leão, sufocando-o.

Desesperada, tentou pensar em mais alguma coisa que pudesse

fazer.

* * *

Geraldo ordenou uma busca a todos os compartimentos do

palácio. Waldipert não apareceu. Foi declarado imediatamente como criminoso e fugitivo e foi instaurada uma perseguição intensa por toda a cidade e arredores. Mas, procuraram em vão, Waldipert tinha desaparecido completamente.

Quando estavam quase a desistir da perseguição, encontraram-no.

Flutuava no Tibre, com a garganta cortada de orelha a orelha e o rosto com um esgar de surpresa.

O clero e os altos funcionários de Roma reuniram-se na câmara

papal. Formavam uma fila compacta aos pés da cama, como que para se confortarem com a presença uns dos outros.

As lâmpadas de óleo de papoila ardiam nos seus fanais em prata.

Ao raiar do dia, o deão dos camareiros veio apagá-las.

Joana ficou a ver enquanto o ancião soltava os cabos e baixava as

correntes cuidadosamente para que não se perdesse nenhuma gota da substância preciosa. Aquele simples gesto doméstico parecia deslocado na atmosfera carregada do quarto.

Joana não tinha esperado que Leão sobrevivesse àquela noite.

Tinha deixado de responder havia muito à voz ou ao contacto. Havia horas que a sua respiração se mantinha inalterável, cada vez

mais ruidosa e em estertor, até atingir uma intensidade alarmante, interrompendo-se abruptamente. Fez-se uma pausa, durante a qual ninguém se mexeu, depois o ciclo terrível recomeçou.

O movimento de uma veste chamou a atenção de Joana. Do outro

lado do quarto, Eustácio, o arcipreste, chorava, tapando a boca com a manga, para abafar o som.

Leão soltou um suspiro longo e ruidoso depois ficou em silêncio,

um silêncio que se prolongou infinitamente. Joana aproximou-se da cama. A vida tinha partido do rosto de Leão.

Ela fechou-lhe os olhos depois ajoelhou-se ao lado da cama. Eustácio gritou de dor. Os bispos e optimates ajoelharam-se a

rezar. Pascal, o primicerius, benzeu-se, depois, saiu, para dar a notícia aos que esperavam lá fora.

Leão, Pontiféx Maximus, Servu Servorum Dei, Primaz dos Bispos

da Igreja e Senhor Papa da Sede Apostólica de Roma, tinha morrido.

Fora do Patriarchium, começou o choro.

Leão foi sepultado em São Pedro, diante do altar de um oratório

novo, que lhe foi dedicado. Os rituais fúnebres foram feitos com rapidez, por causa da altura do ano em que ocorreu a morte.

De facto, por muito santa que a alma que o tinha habitado fosse ,

um corpo não resistia muito à corrupção no calor de Julho, em Roma.

Pouco depois do funeral, o triunvirato regente anunciou que, dali a

três dias, haveria uma eleição pontifical. Com Lothar a norte, os sarracenos a sul e os lombardos e bizantinos no meio, a situação de Roma era demasiado precária para permitir que o Trono de Pedro ficasse vacante por mais tempo.

Demasiado cedo, pensou Arsénio desgostoso, mal ouviu a notícia.

A eleição é cedo de mais. Anastácio não chegará antes. Waldipert, aquele tolo, tinha estragado tudo. Tinha recebido instruções expressas acerca da forma como administrar o veneno gradualmente, em pequenas doses, assim, Leão teria sobrevivido um mês ou mais — e a sua morte não teria levantado suspeitas.

Mas, Waldipert tinha entrado em pânico e tinha administrado uma

dose demasiado forte, matando logo Leão. Depois, tinha tido a deselegância de vir à procura de protecção junto de Arsénio. Bem, agora a justiça não lhe pode chegar, apesar de não ser da forma que ele estava a pensar, pensou Arsénio.

Já tinha mandado matar homens antes, fazia parte do preço a pagar

pelo poder e só os fracos hesitavam em pagar. Mas, nunca tinha tido de eliminar ninguém que conhecesse tão de perto como Waldipert. Por muito desagradável que aquilo tivesse sido, era inevitável. Se Waldipert fosse apanhado e interrogado, teria confessado sob tortura tudo quanto sabia.

Arsénio tinha-se limitado a fazer o que tinha de fazer para se

proteger a si próprio e à sua família. Destruiria qualquer pessoa que ameaçasse a segurança da família, esmagá-la-ia como se esmaga uma mosca que nos mordeu.

Mesmo assim, a morte de Waldipert tinha-o deixado deprimido e

desconfortável. Aqueles actos de violência, por muito necessários que fossem, custavam sempre.

Com um esforço de vontade, Arsénio desviou o pensamento para

assuntos mais urgentes. A ausência do seu filho complicava as coisas, a sua eleição para o papado, agora, seria mais difícil, mas não impossível. A primeira coisa a fazer era conseguir que Eustácio, o arcipreste, revogasse a sentença de excomunhão contra ele. Para tanto, eram necessárias algumas manobras políticas.

Pegando numa campainha em prata que se encontrava sobre a sua

mesa, Arsénio chamou o seu secretário. Havia muito que fazer em pouquíssimo tempo.

Joana estava sentada num banco na sua oficina no Patriarchium,

esmagando algumas folhas de hissope secas, transformando-as num pó fino no seu almofariz. Esmagar e moer e esmagar e moer, os movimentos familiares da mão e do pulso eram um bálsamo para o desgosto que lhe atormentava o coração.

Leão tinha morrido. Parecia impossível. Ele era tão vigoroso, tão

forte, parecia ainda cheio de vida. Se tivesse sobrevivido, teria feito muito para tirar Roma do charco de ignorância e pobreza em que tinha caído havia séculos, ele tinha força para isso e vontade. Mas, não tinha tido tempo.

A porta abriu-se e Geraldo entrou. Ela olhou para os seus olhos,

sentindo a sua presença de uma forma tão próxima como se ele a tivesse tocado.

— Acabei de receber a notícia — disse ele, bruscamente. —

Anastácio saiu de Aachen.

— Não pensas que vem para aqui?

— Penso que sim. Senão, porque teria deixado a corte do

imperador de forma tão súbita? Vem reclamar o trono que lhe foi negado há seis anos.

— Mas, ele não pode ser eleito, está excomungado. — Arsénio está a tentar convencer o arcipreste a levantar a

sentença de excomunhão.

— Benedicite!

As notícias eram más. Depois dos seus anos de exílio na corte

imperial, Anastácio era certamente um homem do imperador, mais do que nunca. Se fosse eleito, o poder de Lothar estender-se-ia a Roma e a todos os seus territórios.

Geraldo disse:

— Ele não terá esquecido a maneira como falaste na eleição de

Leão. É perigoso para ti ficares em Roma com ele como papa. Anastácio não é homem para perdoar uma ofensa.

A acrescentar à emoção ainda viva provocada pela morte de Leão,

aquele pensamento era de mais. Os olhos da Joana encheram-se de lágrimas.

— Não chores, coração.

Geraldo abraçou-a. Os seus braços, fortes e seguros, confortaram-

na. Os seus lábios afloraram a sua testa, a sua face, despertando nela o desejo.

— Já fizeste muito, já basta de sacrifícios. Vem comigo e

viveremos como sempre quisemos — juntos, como marido e mulher.

Ao levantar os olhos, apercebeu-se do rosto dele junto ao dela.

Depois, ele beijou-a.

— Diz que sim — disse ele, ansioso. — Diz que sim.

Ela sentiu-se como se estivesse a ser puxada sob a superfície da

sua consciência e transportada por uma corrente poderosa de desejo.

— Sim — murmurou ela, quase sem se aperceber do que estava a

dizer. — Sim.

Tinha falado involuntariamente, respondendo por impulso à força

da sua paixão. Mas, mal as palavras lhe saíram da boca, abateu-se sobre ela uma grande calma. Tinha tomado a decisão que parecia tanto certa quanto inevitável.

Ele inclinou-se e beijou-a novamente. O sino tocou nesse preciso

momento, convocando todos para a refeição da tarde.

Pouco depois, ouviram-se vozes e passos apressados do outro lado

da porta.

Eles separaram-se rapidamente, murmurando carinhos,

prometendo voltar a encontrar-se depois da eleição do papa.

No dia da eleição, Joana foi rezar na igrejinha inglesa que tinha

sido sua quando chegou a Roma.

Completamente destruída pelo incêndio, a igreja tinha sido

reconstruída com materiais retirados aos velhos templos e monumentos romanos. Quando Joana se ajoelhou diante do altar-mor, viu que o pedestal de mármore sobre o qual ele se encontrava continha o símbolo inequívoco da Magna Mater, antiga deusa da Terra, venerada pelas tribos pagãs em tempos imemoriais. Por baixo do desenho rude estava escrito em latim: "Neste mármore, foi oferecido incenso à Deusa." Era óbvio que, quando a grande placa de mármore tinha sido trazida para ali, ninguém tinha compreendido o símbolo ou a sua inscrição. Isto não era nenhuma surpresa porque muitos dos membros do clero romano mal sabiam ler, sendo incapazes de decifrar a letra antiga, muito menos de compreender o seu significado.

A incongruência do altar sagrado e da sua base pagã pareceu à

Joana um símbolo perfeito da sua própria condição: padre cristão, continuava a sonhar com os deuses pagãos da sua mãe, um homem aos olhos do mundo, era atormentada pelo seu coração secreto de mulher, em busca da fé, vivia dividida entre o desejo de conhecer Deus e o medo de que Ele não existisse.

Mente e coração, fé e dúvida, vontade e desejo. Será que as

contradições dolorosas da sua natureza alguma vez se resolveriam?

Amava Geraldo, não tinha dúvida. Mas, será que poderia ser sua

esposa? Nunca tinha vivido como mulher. Será que podia começar agora, tão tarde?

— Ajudai-me, Senhor — rezava Joana, erguendo os olhos para o

crucifixo em prata que se encontrava sobre o altar. — Mostrai-me o caminho. Dai-me a conhecer o que devo fazer. Bom Deus! Iluminai-me!

As suas palavras elevavam-se, mas o seu espírito continuava preso

à terra, carregado com a sua incerteza.

Uma porta rangeu atrás dela. Ela levantou-se do lugar onde se

encontrava junto do altar e viu uma cabeça a espreitar pela porta, desaparecendo imediatamente.

— Está aqui! — gritou uma voz. — Encontrei-o. O seu coração saltou-lhe com um medo súbito. Será que Anastácio

ia agir contra ela tão depressa? Levantou-se.

As portas abriram-se de par em par e entraram sete proceres,

secundados por acólitos transportando os estandartes do seu ofício. Seguia-se-lhe o clero cardinalício e, depois, os sete optimates da cidade. Foi só quando viu Geraldo entre eles que Joana se convenceu de que não ia ser presa.

Numa procissão lenta, a delegação desceu a nave da igreja e parou

diante de Joana.

— João Anglicus — disse Pascal, o primicerius, dirigindo-se-lhe

num tom solene. — Por vontade de Deus e do povo de Roma, fostes eleito Senhor Papa de Roma, Bispo da Sé Romana.

Depois, prostrou-se diante dela e beijou-lhe os pés. Joana ficou a olhar para ele, sem querer acreditar. Era alguma

brincadeira de mau gosto? Ou uma armadilha para a levar a exprimir deslealdade ao novo papa?

Olhou para Geraldo. O seu rosto estava tenso e sério quando caiu

de joelhos diante dela.

O resultado da eleição tinha apanhado todos de surpresa. A facção

imperial, chefiada por Arsénio, tinha tomado o partido de Anastácio. A facção papal contra-atacou, propondo Adriano, padre da Igreja de São Marcos. Ele não era propriamente um guia carismático. Baixo e forte, com o rosto desfigurado por bexigas, tinha os ombros arqueados como se já estivesse carregado com a responsabilidade que lhe queriam impor. Era um homem piedoso, um bom padre, mas poucos o teriam escolhido para chefe espiritual do mundo.

Era evidente que Adriano concordava com a opinião geral porque,

inesperadamente, retirou a sua candidatura, informando a assembleia que, depois de muita oração e profunda reflexão, tinha decidido declinar a grande honra que lhe queriam dar.

Este anúncio provocou alguns comentários entre os membros do

partido papal, que não tinham sido informados da decisão de Adriano antecipadamente. Ouve grandes manifestações de júbilo da parte imperial. Agora, a vitória de Anastácio parecia certa.

Depois, ouviu-se um clamor vindo da assembleia, onde estavam

reunidas as fileiras dos leigos mais humildes.

— João Anglicus! — gritavam eles. — João Anglicus! Pascal, o primicerius, mandou guardas para os calarem, mas eles

não se queriam calar. Conheciam os seus direitos, a constituição de 824 dava a todos os romanos — leigos e clero, da classe alta ou baixa — o direito de votarem na eleição papal.

Arsénio tentou resolver este problema inesperado fazendo uma

tentativa descarada para comprar a lealdade do povo, os seus agentes circularam diligentemente pelo meio da multidão, oferecendo subornos em vinho, mulheres e dinheiro. Mas, nem mesmo estas fortes seduções resultaram, o povo pôs-se contra Anastácio, que o seu amado papa Leão tinha considerado bom excomungar. Aclamavam o pequeno Papa vociferando, o amigo de Leão e seu ajudante, João Anglicus, e não se deixavam convencer.

Mesmo assim, não estava garantido que tivessem ganho porque a

aristocracia no poder não ia deixar que a sua vontade fosse vencida pela populaça, estivesse isso na constituição ou não.

Mas, o partido do Papa, vendo nesta insurreição popular uma

forma inesperada de impedir Anastácio de aceder ao Trono, juntou as suas vozes às do povo. Estava resolvido — Joana foi eleita.

Anastácio e o seu partido estavam acampados perto de Perugia, a

noventa milhas de Roma, quando o mensageiro chegou com a notícia. Anastácio mal tinha acabado de ler a mensagem quando lançou um grito de dor. Sem dizer palavra aos seus companheiros surpreendidos, virou as costas e voltou a entrar na tenda, tapando a entrada para impedir que alguém o seguisse.

Dentro da tenda, os seus homens ouviram-no chorar copiosa e

furiosamente. Pouco depois, o choro transformou-se num uivo animalesco que se prolongou durante toda a noite.

Revestida com uma túnica em seda púrpura, enfeitada a ouro e

sentada sobre um palafrém também revestido e decorado a ouro, Joana encaminhava-se solenemente para a sua coroação. Fitas e bandeiras adejavam de todas as portas e janelas da Via Sacra, com cores garridas, o chão estava coberto com mirto aromático.

Magotes de pessoas aclamando-a bordejavam a rua, empurrando-

se para verem o novo Senhor Papa.

Perdida nos seus próprios pensamentos, Joana mal ouvia o barulho

da multidão. Pensava em Mateus, no seu velho mestre Asclépios, no irmão Benjamim. Eles tinham todos acreditado nela, tinham-na encorajado, mas nenhum deles tinha sonhado com uma coisa daquelas. Ela própria mal podia acreditar.

Quando se tinha disfarçado de homem pela primeira vez para ser

aceite na irmandade de Fulda, Deus não tinha levantado a Sua mão contra ela. Mas, será que Ele iria mesmo permitir que uma mulher ascendesse ao sagrado Trono de São Pedro? A pergunta volteava-lhe na cabeça.

A guarda papal, comandada por Geraldo, escoltava Joana. Geraldo não tirava os olhos da multidão que se apinhava ao longo

do caminho. Havia sempre tentativas para romper a fila da guarda e, cada vez que acontecia, Geraldo deitava a mão à espada, pronto a defender Joana de qualquer ataque. Mas, não foi preciso desembainhá-la porque, cada vez que aquilo acontecia, o intruso só queria beijar a orla do manto de Joana e receber a sua bênção.

Desta forma lenta e entrecortada, a longa procissão seguiu o seu

caminho através das ruas, até Latrão. O Sol estava no zénite quando eles chegaram diante da catedral papal. Quando Joana desmontou, os cardeais, os bispos e os diáconos ocuparam os seus lugares atrás dela. Ela subiu lentamente os degraus e entrou no interior sombrio da grande basílica.

Repleta de rituais antigos e complicados, a Ordo coronationis ou

cerimónia de coroação demorou várias horas.

Dois bispos conduziram Joana à sacristia, onde ela foi

paramentada solenemente com uma alba, uma dalmática e uma pénula, antes de se aproximar do altar-mor para ser entoada a Litania e o longo ritual da consagração ou unção. Durante a recitação do vere dignum, Desidério, o arquidiácono e dois dos diáconos regionais seguraram um livro aberto, com os Evangelhos, sobre a sua cabeça. Depois, foi a missa propriamente dita, muito mais longa do que o habitual por causa das numerosas orações e formulários próprios da solenidade da ocasião.

Durante todo este tempo, Joana manteve-se numa postura solene e

direita, suportando o peso das vestes litúrgicas, tão carregadas de ouro como as de um príncipe bizantino. Apesar da magnificência do seu aspecto, sentia-se muito pequena e mal preparada para a responsabilidade enorme que lhe tinha sido colocada nos ombros. Pensou que aqueles que tinham estado naquela posição antes dela também deviam ter tremido e duvidado. No entanto, tinham acabado por conseguir levar por diante a sua missão.

Mas, tinham sido todos homens.

Eustácio, o arcipreste, começou a bênção final: — Senhor Todo-poderoso, estendei a Vossa dextra sobre o Vosso

bendito, o Vosso servo João Anglicus e derramai sobre ele o dom da Vossa misericórdia...

Será que Deus me vai abençoar agora?, pensou Joana. Ou será que

me derrubará no momento em que a coroa papal for colocada sobre a minha cabeça?

O bispo de Ostia avançou, trazendo a coroa sobre uma almofada

em seda branca. Joana engoliu em seco quando ele levantou a coroa por cima da sua cabeça. Depois, o peso do círculo em ouro pousou sobre a sua fronte.

Não aconteceu nada.

— Viva o nosso ilustre Senhor João Anglicus, declarado por Deus

como nosso Bispo Supremo e Papa Universal! — proclamou Eustácio.

O coro cantou Laudes quando Joana enfrentou a assembleia. Ao aparecer ao cimo da escadaria da basílica, foi saudada por uma

aclamação estrondosa. Milhares de pessoas tinham esperado horas ao sol ardente para saudarem o seu Papa recém-consagrado. O seu desejo era que ela fosse coroada.

Agora, manifestavam essa vontade num grande coro de

aclamações jubilosas:

— Papa João! Papa João! Papa João!

Joana abriu-lhes os braços, sentindo que o seu espírito começava a

elevar-se. Invadiu-a uma beatitude que, ainda na véspera, lhe parecia inalcançável e que, agora, era plena.

Deus tinha permitido que aquilo acontecesse, portanto, não podia

ser contra a Sua vontade. Desapareceram todas as dúvidas e medos, agora substituídos por uma certeza gloriosa, esplendorosa: Este é o meu destino e este é o meu povo.

Sentia-se inundada do amor que lhes tinha. Servi-los-ia em nome

do Senhor todos os dias da sua vida.

E talvez, no fim, Deus lhe perdoasse.

A curta distância, Geraldo olhava-a deslumbrado. Ela

resplandecia, transfigurada por uma alegria indizível, com o rosto brilhando, belo como uma luz. Só ele — que a conhecia tão bem — sabia o que ia no íntimo do seu espírito, muito mais importante do que a cerimónia anterior. Ao vê-la receber a aclamação da multidão, o seu coração ficou despedaçado por uma verdade insuportável: tinha perdido para sempre a mulher que ele amava, mas amava-a mais do que nunca.