A Severa
Primeira Parte
CAPÍTULO I
Decididamente, o Romão Alquilé, com a cara luzidia pelo sol, desajeitado e alegre, com a jaqueta a apertar-lhe o peito, a espora a tilintar no sapato de bezerro, todo o seu ar de alentejano ricaço, testudo como os asnos de Alvalade e torto como as azinheiras da sua terra, decididamente — como ia dizendo — o Romão Alquilé era o mais patego dos troquilhas(*1) de Portugal. Conhecido como “o cão ruivo”, tratava de igual para igual ciganos e marialvas(*2), homens de negócios e mendigos de rua. De bom coração, é verdade, mas com o olho sobre o ombro, de poucas falas, desconfiado como sete e parvo como vinte. Tinha uma fraqueza: as carroças. Era uma tentação.
[(*) 1 Troquilha = aquele que troca, um comerciante, ligado sobretudo e venda de animais nas feiras. 2 Marialva = Cavalheiro, fidalgo; o equivalente do inglês “gentleman”. Também está associado a um homem mulherengo, um “playboy” que gosta de seduzir mulheres e que gosta de atividades ligadas à cavalaria e ás touradas.]
— Ainda, um dia me troco a mim mesmo! — rosnava ele, a coçar a cabeça, depois de perder umas pratas na taverna do Penim.
Ia a caminho das feiras, a bolsa de chita cheia de ouro, chambão e contente, e na volta, vinha alagado em suor, com um lenço entalado no pescoço e os olhos a rirem-lhe da vitória, trazendo umas moedas a menos, e a mais algum triste cavalito mazelento de carga.
Ao fim e ao cabo, era esperto: a carroça, que nem servia para uma atafona(*), estava a modos que a desfazer-se; mas nem por isso o amigo Romão deixava de gabar-se, às pessoas que passavam ou que trabalhavam nas hortas:
— Mas enganei-os! Enganei-os, com mil diabos!
[(*) moinho movido à mão ou por força animal]
Quando começava com bazófias, era rir só de o ver.
O que ele contava de truques e de manhas, santo Deus! Contava sempre a história de certo cavalo rodado, velho que podia ser avô dele, e com mazelas procedidas de curas, que era um verdadeiro S. Lázaro(*). Tinha-o vendido a um espanhol, na Agualva, por quinze moedas. Bom dinheirinho.
[(*) O homem a quem Cristo ressuscitou]
— Limei-lhe os dentes por causa da idade, pus-lhe mel na boca para fazer boa escuma e grosei-lhe os cascos por via da moléstia, — explicava o bom do Romão nas reuniões dos troquilhas.
— É porque o espanhol era cego! — disse uma vez, um cigano. E, se os não afastassem dessa vez, corria sangue.
Mas havia uma raça de animais que Romão gostava tanto como às carroças: eram as mulheres da vida. Galdrana (*) que passava, na sua saia de ganga amarela, era vê-lo logo fungar e a piscar-lhe o olho:
[(*) Prostituta]
— Égua de raça! Égua de raça!
Certa noite, ao voltar da Charneca, ali pelo S. Bartolomeu, depois de ter deixado o cavalo numa estalagem do Arco do Marquês de Alegrete, com a calça de belbutina coberta de poeira, a cara tisnada pelo sol, a espora pintada de sangue, o nosso Romão foi subindo a rua. Quem o visse, havia de dizer que ele ia a pensar na vida. Nalguma baldroca infeliz, ou nalguma outra besta esparavonada paga a peso de ouro na feira. Pois enganavam-se. O Romão ia a pensar, nada mais, nada menos, do que num saiote encarnado que tinha visto numa rapariga bonitota, lá para os lados da Ameixoeira, ao sol, entre a vegetação loura de um campo ceifado.
O raio daquele saiote tinha-lhe dado a volta ao miolo. E não era bem a rapariga que o turvava: era o saiote, um saiote vermelho, vivo como uma pastada de sangue, no meio do ouro dos restolhos. Ainda chegara a parar o cavalo, numa curva da estrada, quando viu a rapariga: o coração bateu-lhe forte, a vista embaciou-se! Podia vir alguma carga de paus nos lombos, que valia a pena.
O Romão era um homem cauteloso e prudente. Mandou o cavalo andar, e ele aí foi, sem olhar para trás.
Quando, chegado ao Arco, já de volta, deixou o bicho na estalagem, levava a sua fisgada.
O objetivo era topar uma mulher com um saiote vermelho. O resto, segundo o seu bordão habitual, "batia certo".
Subiu a rua — essa rua triste do velho bairro mourisco — bebeu algures a sua bagaceira, foi andando, voltou à direita, e meteu pela rua do Capelão, toda alpendrada de ressaltos em cujos baixos a luz do sol amarelecia.
Logo à entrada, três ou quatro aventais de pau(*1), sozinhos, bocejavam. Mais à frente, numa portinha encimada por duas tábuas, a curvar para o Beco do Forno, uma boneja(*2) de chinela polida e saia gomada barrou-lhe a passagem:
[(*) 1- O “avental de pau” era um tipo de avental pelo qual se reconhecia uma prostituta, chamar pois “avental de pau” a alguém é estar a referir-se sobre a profissão da mulher. 2 - Calão para prostituta; Puta]
— Eh, tripas de Judas! Vendes o cachucho? (*)
[(*) cachucho = anel]
O Romão olhou-a, chegou-se a ela, com o sangue no olho e os lábios a tremer, e tomou-lhe o pulso:
— Tens um saiote vermelho, hein? Um saiote vermelho?
Mas a resposta foi um murro atirado ao cachaço e um "desaparece, calmeirão" que lhe deram nos lombos do nosso homem de encontro à esquina fronteira.
— Já vou! Já vou!
Pela sombra, a mão direita na cava do colete e o anel luzindo no polegar, Romão voltou para trás. Não estava com sorte, pensava ele. E, depois, era decididamente um tímido. Sempre lá metido na charneca do Vimieiro, sozinho, a olhar para o frade de tijolo da parede e a tratar da criação das éguas, tinha já perdido o trato para com as mulheres. Corava à frente delas como uma criança e dava o que lhe pediam. Uma vez, lá em baixo nos Álamos, viu uma ruiva sardenta a chorar à porta, pôs-se a falar com ela, pensando que era fome, resmungou um "porca de vida", e acabaram por chorar os dois, toda a santa noite, agarrados às pontas de um lenço.
— Desgraças do mundo! Mas o saiote vermelho dançava-lhe à frente dos olhos. Era preciso acabar com aquilo. Ainda não tinham dado as Avé-Marias;(*) a hora era má. Mas, que diabo, Trazia o sol das estradas a arder-lhe na pele, e o raio do saiote não lhe saía dos olhos.
[(*) As doze badaladas da meia-noite]
Meteu pela Rua do João do Outeiro, deu a volta, parou um bocado para ler uma lápide encravada numa frontaria de grades, desceu ao Beco do Jasmim e foi desembocar outra vez ao Capelão, num alargamento da rua, ao cimo, onde uma imagem de azulejo esplendia, numa parede de ressalto, com a sua candeia de azeite piedosamente acesa.
Ia a virar para a Amendoeira, quando, deu com os olhos na saia vermelha de certa puta remendada, que, sentada sobre uma joelheira velha, passava a pano a soleira da porta.
Por fim! Um saiote encarnado! E o Romão, com o sangue a pintar-lhe na cara e os olhos como bugalhos a arder, parou à frente dela, a olhar, com o seu ar bestial de comerciante rico, a sujidade empastada sob o chapéu, os polegares nas cavas do colete de peles...
Ao fim de um momento, a mulher que se erguera e arredara a joelheira com a ponta da chinela, quebrou o embevecimento do homem, dizendo-lhe da porta:
— Eh lá, ó tu! Isto é para casar ou para me meter para freira, hein?
Era a Malhada, uma das mais célebres da altura no Capelão, conhecida por uma certa mancha roxa, de nascença, que tinha na cara. A cachorrada de proa, de boa arquitetura, as belezas encaracolando na testa, um grande ar minhoto e a chinelinha branca pendurada no bico do pé, a Malhada era, depois da Cesária Cigana, que morava em baixo, a mais querida dos marialvas que rondavam a Mouraria. A mancha dava-lhe graça, pintando-lhe como um borrão de vinho uma ilharga da testa, descendo até à orelha esquerda e tocando o lóbulo, como se o brinco de ouro nascesse dela.
— Para casar ou para freira, ouviste?
E o alentejano, que ainda não despregara os olhos da saia vermelha, agarrou-a num repelão viscoso e rolou com ela para dentro da loja. A cortina de ramagens caiu atrás deles. Quando a Malhada veio fechar a porta, ainda se ouvia de dentro o Romão:
— Casar, pois está visto! Égua de raça, nombre de Diós! Não me vou daqui, a não ser de madrugada!
Com efeito, o Romão partira antes do sol ter nascido. Arranjos de vida, que se não podiam aguardar para o dia de S. Serejo. Mas com todos os Diabos, levava o papo cheio das carnes tronchudas da Malhada. Bem empregados os magotes de prata, que lhe tinha esvaziado no regaço! E depois, o raio da puta era meiga como uma cadela, tinha carne a valer, e uns braços que não havia aí entalhador que os abrisse mais. Se não fosse ter a mãe viva, lá no Vimieiro, era ele que a levava consigo, o raio da Malhada!
Mandaram buscar peixe e ovos cozidos a um taverneiro do sítio, regaram-nos com bom vinho, puxaram uma mesa de pé-de-galo, a Malhada acendeu o candeeiro de latão de três bicos, e lá cearam, na santa paz do Senhor, à frente de uma estampa do registo de Santa Rita de Cássia e de um oratório iluminado, onde luzia um Santo António com a sua coleira de mealhas.
O Romão estava em mangas de camisa, com o eterno lenço de Alcobaça entalado na pescoceira, perna cá, perna lá, sobre uma cadeira de roca.
A Malhada, quase despida, em meias de algodão azul e branco, com um xaile pelos ombros, deixara-se ficar sentada na cama, um velho leito de cabeceira de bilros, umas das muitas preciosidades que se encontravam ainda pelas vielas escuras da Mouraria.
— E a respeito da vida? — grunhiu o Romão.
— Bem. E a ti...?
— Como Deus é servido. A gente é como os patos, que quanto mais os dão ao diabo, mais crescem!
E enquanto a Malhada trincava um ovo cozido, o Romão, olhando em volta, fazia considerações sobre os prováveis haveres da rapariga.
— Esta vida deve custar.. — disse ele.
— Custa.
— Tu hás de ser rica.
— Eu?
— Mas tens que chegue.
— Chega.
— Pois a mim, também não vai mal.
— Pelos vistos, é mais ouro que sarna, hein?(*)
[(*) Sarna é uma doença de pela que leva uma pessoa a coçar-se, quer a expressão dizer que é o peso do ouro que leva o homem a ajeitar-se/a coçar-se e não sarna.]
— Um homem arranja-se.
— Comerciante?
— Comerciante.
— És daqui?
— Do Alentejo. Abalo esta madrugada. Tu como te chamas?
— Chamam- me Malhada, por via desta mancha que tenho. A minha mãe também tinha. Os homens gostam.
— Da mancha?
— Sim.
— Eu entrei por causa do saiote.
— Gostam muito de mim. Anda então aí um da fidalguia, que...
— Quê...?
— A bem dizer, são dois.
— E vêm cá?
— Um deles. O outro, o mais trigueiro, é da cigana, da Cesária.
— Fidalgos, hein?
— Penso eu.
— Desses marialvazinhos que picam os touros?
— Um deles. O outro, não.
— Então, conta-me mais! É por isso que tu tens chelpa.(*)
[(*) chelpa = dinheiro]
— Não. Esses não deixam nada.
— Nada...? Homessa! Então quem é que deixa?
— São os outros, como tu.
— Mas se eles não deixam nada, para que é que os recebes?
— Só recebo um.
— Para quê, se ele não te dá dinheiro?
— Para quê...?
Ao arriscar este “para que?”, os olhos da Malhada molharam-se de lágrimas, subiu-lhe o sangue à cara, e a mancha, de pálida que estava, tornou-se de um roxo vivo. Mas o nosso Romão não se apercebeu. Levantou-se, numa atitude de dignidade, tirou da algibeira das calças um saquinho de chita encarnada, tirou três moedas, de boa prata, e fê-los retinir sobre a cómoda, à luz do candeeiro de três bicos:
— Eu cá não sou como os outros, que vivem à custa das mulheres. Eu cá, pago!
E voltou a sentar-se, tendo conseguido ficar bem com a sua consciência pelo preço módico de três pintos.(*)
[(*) pintos= calão para dinheiro]
A Malhada, acostumada às clássicas duas rondas, agarrou nervosamente nos três cruzados, radiante, fechou-os nas cimeiras da cómoda, e atirou-se ao pescoço do alquilador, que a arredou num encolher de ombros:
— Eu cá sou dos outros, dos que pagam.
Foi à jaqueta, que estava aos pés da cama e envergou-a, sozinho, resmungando.
— Vais-te já embora? — arriscou a Malhada.
— Não tinha intenção. Mas talvez te esteja a estorvar.
— Não estorvas.
— Então, fico.
— Despe a jaqueta, anda.
— E se vier o outro?
— O outro? Se vier, digo-lhe...
— O quê?
— Digo-lhe que estou a ganhar a vida.
O Romão deixou-se cair sobre o canapé de palha, abanou a cabeça com um ar de quem diz que o mundo é mundo, e ficou-se, numa grande tristeza, fazendo tilintar os fechos de prata da jaqueta:
— Sim, tens razão. Tu estás a ganhar a vida...
Enquanto o Romão a erguia em peso e a atirava sobre a colcha de bilros, bateram na aldraba da porta.
— Espera! — disse a Malhada, a meia voz.
— Quem será? — grunhiu o Romão, dando um salto para agarrar a manta.
Mas, ao toque do ferrolho, seguiu-se uma forte punhada no postigo.
— Abre. Sou eu.
Era uma voz fresca, de rapaz, um pouco metálica, picada de um leve sotaque estrangeirado.
— Sou eu. Abre.
O Romão compunha sobre o colete de peles um fio de ouro, pesadote, e olhava a porta, num grande ar bestial, o olho esbugalhado, a face caída.
— Agora não pode ser. Dá uma voltinha, — gritou a Malhada para fora, resmungando ao mesmo tempo, à esconsa, para o Romão:
— Boca calada, ouviste?
Mas, a uma punhada mais forte, o ferrolho do postigo saltou fora, apareceu um braço, e uma mão branca, luzente de anéis, avançou para a tranqueta.
O Romão não se conteve e de um salto, empurrou o postigo. Houve um rugido de dor, e o braço que avançara, pendeu entalado na gateira. Pela mão robusta do alquilé, congestionava-se. O bruto partia-lho certamente, se a Malhada, como uma fera, não se lhe atirasse às costas, ferrando-lhe os dentes no pescoço.
— Eh, Malhada, que me deixaste a escorrer sangue! — rouquejou o Romão, levando ao pescoço a manápula e recolhendo-a ensanguentada.
Mas a rapariga pouco se importou com a sangueira.
Recuou o alentejano, saltou para o postigo, e disse qualquer coisa, em voz baixa, ao rapazola das mãos cheias de anéis, que se afastou, falando com outro.
Romão, do canto de sombra onde estava, ainda pode enxergar, pela abertura da porta, uma cabeça fina, de uma frescura flamenga, em cuja cara apontava o primeiro ar da puberdade..
— Se te fosses embora, ó Romão! — gemeu a Malhada, com ternura, fechando o postigo.
— Era o outro, hein?
E num erguer de ombros, botando pelas costas a jaqueta de riscas, resmungão e desdenhoso, o Romão encaminhou-se para a porta:
— Vais bem, fandangueira! Lá isso vais. Vais bem!
Já nos degraus, ao bulir na tranqueta, a rapariga agradecia-lhe:
— Quando voltares do Alentejo, não te esqueças da Malhada, ouviste?
— Sim... Adeus, adeus! Vais bem nessa vida... Não te desfaças!
A Malhada, na soleira da porta, com o candeeiro de latão de três bicos erguido no dedo em garra, ainda lhe iluminou os primeiros passos. Depois, como não visse nenhum vulto na rua, recolheu-se. Dava uma hora da madrugada na torre da Sé.
Mas antes de passar o Beco do Forno, na descida do Capelão, o nosso alentejano parou.
— Epá, que eles eram dois!
Temendo uma emboscada, lembrou-se de voltar para trás. Procurou a navalha, não fosse o diabo que a tivesse perdido. À cautela, torceu no antebraço uma ponta do casaco e carregou para os sobrolhos o seu chapéu.
— A puta ainda trabalha! — roía ele entre dentes.
Voltou para trás, passou de novo à frente da porta da Malhada e espreitou pelo ferrolho: ainda tinha a luz acesa.
— Aquilo, está à espera do maríalvete, — pensou consigo o Romão.
E, como sentisse um rumor de passos lá para os fundos da rua, subiu até ao Beco do Jasmim, e pôs-se à espreita, na encruzilhada, resguardado na parede roída de uma esquina.
O avental de pau da Malhada ficava na parede onde havia o nicho de azulejo; de modo que a luz batia na cara de quem entrasse a porta.
— Já agora, vou conhecer o tipo, — dizia consigo o Romão, à medida que os passos se aproximavam. — Sempre lhe quero ver melhor a cara!
Nisto, os dois vultos que vinham subindo o Capelão, apareceram, desenhando-se no fundo da casaria cinzenta.
Um deles era o mesmo que vira, o das mãos cheias de anéis, buçozinho loiro a apontar, uma capa escura sobre os ombros, seco de corpo, quase franzino. O outro, da mesma idade talvez, mas trigueiro, reforçado, jaqueta de veludo com fechos de prata chapéu desabado e esporas tinindo nas lajes da rua.
— O comerciante foi-se, — dizia o do buço loiro para o outro.
— Ias ficando sem braço, hein? Foi noite cheia para a Malhada. O ciganão tinha pinta de rico.
— Aquilo negoceia em gado.
— Talvez.
— Ficas?
— Fico.
— Em sendo cinco horas vais-me buscar a casa da Cesária, hein?
— Vou.
— Sem falta?
— Sem falta.
Os dois apertaram-se as mãos. A porta da Malhada abriu-se, e o marialva entrou. Seguiram-se risos e beijos. Depois, o bater da porta que se fecha e o morder do palhetão da chave na fechadura.
Nada mais.
O outro, o da jaqueta de veludo, desceu o Capelão, mãos nas algibeiras, cantarolando o fado.
— Já agora, vamos a ver também para onde este vai! — disse com os seus botões o alentejano.
E, cosido com a parede, tendo arrancado a espora do pé direito para não tinir nas pedras, lá se foi, na peugada do rapaz, Capelão abaixo, mascando as palavras que lhe ouvia:
— Pinta de rico, o ciganão! Malandros! Pinta de rico!
Mas, quase ao fim da rua, o vulto esgueirou-se pela segunda porta de um casebre velho de dois ressaltos, à mão esquerda, e enquanto as esporas de prata tilintavam na sombra das escadas, numa janela com um persiana(*)por cima da porta, uma vozinha de criança chilreou:
— Mãe! Mãe!
[(*) Proteção formada por pequenas tábuas de madeira colocadas por fora da janela]
Depois, a luz da janela apagou-se e tudo caiu no silêncio.
— Deve ser aqui a casa da cigana, — pensou o Romão consigo.
E parou à frente desses dois curiosos casinholos da esquina, sombra ainda do velho bairro do século XVI, com grades pintadas de verde e bancos a bocejar na sombra.
Nesse tempo, a Mouraria adormecia mais cedo. À meia-noite, já todas as portas estavam fechadas. A não ser alguma bêbada miserável, que ficava aos caídos, o resto das raparigas, ao darem as onze horas na Sé, recolhiam o candeeiro e fechavam a porta. O ar pitoresco da velha Rua Suja, com o seu ar triste de mercado humano, lenços vermelhos sobre cabelos, saias de ganga lustrando à luz, toda a farraparia da desgraça de bruços sobre os aventais de pau, aqui um serpão(*1) de ouro a luzir numa orelha, ali uma dedada de almagre(*2) a ensanguentar uma boca, — todo esse ar pitoresco do velho Capelão morria antes do cantar do galo, como uma grande chaga que se envergonha do sol.
[(*) Serpão = brinco em forma de flor, geralmente uma rosa. Almagre = argila vermelha que se usava para pintar os lábios, os primeiros batons]
Depois, a Mouraria inteira tombava num sossego morto. Essas pobres criaturas sacrificadas, maltratadas, capazes de todas as abjeções e de todas as misérias durante umas horas de mercado, agora, adentro das casinholas cerradas, nos braços do único homem que verdadeiramente as possuía, do “seu homem”, amavam, elas, as tristes, com a alegria e a candura das mulheres honestas...
E o Romão Alquilé, levando à flor dos lábios o sabor dos beijos da Malhada, foi andando, Mouraria abaixo, taciturno e gingão, pelo grande silêncio das ruas desertas.
— Os dois lá ficaram! E eu por aqui à toa! — dizia ele consigo.
Custava-lhe a crer, na sua ingenuidade sentimental, que o raio da Malhada, a quem dera o melhor do seu coração e do seu sangue no espaço de uma noite, tivesse podido pô-lo fora da porta, com toda aquela limpeza, para ficar com o outro, o liró(*), o das mãos cheias de joias.
[(*) liró = janota; emproado]
— São umas cabras! — rematava ele.
Queria ele sinceridade, amor, apego, alma, coração... por três pintos, o bronco!(*)
[(*) bronco = idiota]
— São umas cabras! — Porque a ideia que mais o azedava era justamente essa, a de que o fidalguete lá estava, afocinhando as carnes da Malhada, os lindos peitos que eram dois pêssegos dourados de sol, e talvez a rir-se dele —quem sabe? — do comerciante pateta, que largou três pratas e foi enxotado.
— Porcas!
Mas, em meio de todo este ciúme grosseiro e bestial, havia a lembrança da vozinha doce que lhe soara aos ouvidos, há pouco, na sombra de uma persiana:
— Mãe! Mãe!
E o bruto do alentejano, sem querer, sem pensar, sorriu.
“Quem seria a pequena?” — pensava ele. Naquela rua desgraçada, nas traseiras daquela casinhola velha aonde o outro subira, num tilintar de esporas, — na casa da cigana, enfim, quem poderia ser essa pobre criança, por certo tão linda, que pela voz se lhe adivinhava a lindeza?
— Mas pronto, vida é vida! — rosnava o Romão, com os seus botões, para arredar enternecimentos. — Vida é vida!
E de pensamento em pensamento, foi cair de novo na ideia da Malhada. Viu, ainda uma vez, à frente dos olhos, o braço do outro, entalado no postigo, e aquela mão fina, cintilante de anéis. Era talvez por isso, pensava ele. E instintivamente, à luz de um candeeiro, ao voltar de uma rua, olhou para a sua grande mão rude, gadelhuda e calosa(*)...
[(*) com calos]
— São umas cabras!
Porque diabo não havia ele de voltar para trás? Que raio de cobardia era aquela? Numa brusca resolução de tímido, botou de novo ao ombro a tralha alentejana que lhe descaíra no braço, e, com uma onda de sangue a queimar-lhe a cara, desandou na rua do Capelão.
Haviam de ver! Entrava para dentro do postigo com dois murros tesos, de modo que lhe saltassem as visagras, e depois — com os diabos! — era só deitar a mão à chave.
— Está decidido!
E todo o plano se lhe desenhava, nítido. Enxotar o outro, como o outro o enxotara a ele — mas, desta vez, à ponta do sapato, ou, se preciso fosse, à ponta da navalha.
Ao voltar à ermida da Saúde, apressou o passo. Levava o coração aos pulos.
— Faço-o correr as sete partidas, o bandido!
E pela cara passou-lhe um cheiro acre de sangue.
— Está decidido!
O resto, estava feito. A noite, a sombra, a casaria silenciosa... Agarrar os pulsos da Malhada, derrubá-la sobre a arca ou vergá-la sob o joelho, até gemer... Depois erguê-la em peso, peito contra peito, bafo contra bafo, alma contra alma, cair de novo no soalho, mordê-la, beijá-la, estortegá-la, e numa selvageria do seu amor de macho, num ímpeto do seu rancor de expulso, deixar-lhe descair a cabeça fatigada, e seguir-lhe, voluptuosamente, as revoluções dos olhos...
— Está decidido! Está decidido!
Mas então, quase ao chegar à Rua do Capelão, ouviu um choro aflito de uma criança.
E — coisa curiosa! — parecia-lhe a mesma vozinha infantil e meiga, que há pouco ouvira rir, na janela da cigana.
— Mãe! Mãe!
Mas, desta vez, a linda voz chegava-lhe aos ouvidos toda cortada de soluços:
— Mãe!
Com efeito, logo ao começo da rua, nos degraus da porta por onde subira o outro, o da jaqueta de veludo, uma pobre criança chorava.
Era uma rapariguita dos seus oito anos, com uma saínha de folhos, magra e viva, mãos compridas e nervosas, uns vagos tons de cobre na pele quente de cigana, e uns olhos negros, luminosos e profundos.
A pobre criança, sobre os degraus de pedra, ao frio, debatia-se numa aflição de encontro à porta fechada.
Ao alto, na janela, não havia luz.
O bom do Romão, abalado por aquelas lágrimas inocentes, aproximou-se de mansinho:
— Que tens tu, pequena?
A pobre ciganinha coseu-se mais com a porta, cheia de medo. Os soluços agitavam o seu pequeno peito de magra em estremeções violentos.
— Que tens? Que tens?
E, na intenção carinhosa de alegrá-la, o alentejano começou a rir:
— Olha que eu não te faço mal, pequena! Eu sou o Romão...
E o certo é, que havia tanta ternura na voz desse comerciante ricaço e bodegão, tanta graça piedoso nos seus trejeitos, que a pequenita, esquecida de chorar, se pôs-se a rir para ele.
— Então que tens?
— Foi a minha mãe, que me botou fora da porta, — gemeu a rapariguinha.
— A tua mãe? E quem é a tua mãe?
— É a minha mãe.
— Mas como se chama?
— Chamam-lhe a Cesária.
— E eras tu que estavas ainda agora ali, naquela janela?
— Era.
— Então porque foi que a tua mãe te botou fora, pequena?
— Porque estava lá com o homem, e eu…
— E tu?
Mas a voz embargou-se-lhe, e a pobre criança desatou a soluçar outra vez.
— Cabras! Cabras! — rugia o Romão, comovido.
E tirando do golpe da jaqueta o seu grande lenço, com uma ternura de espantar num bronco, sentou-se no poial da porta, encostou a pequena aos joelhos e limpou-lhe as lágrimas.
— Então, diz lá, anda. Que foi que tu fizeste, para a mãe te pôr fora de casa?
E a pobre criança, a tremer, olhando a janela num jeito de terror, balbuciou:
— Espreitei…
Naquela alma rude de comerciante, infiltrou-se pouco a pouco uma tão forte comoção, abalou-se de uma tão viva piedade, comoveu-se tanto o velho Romão, que chegou a passar-lhe pela cabeça a ideia de salvar aquela criança, de a levar consigo dali para fora, de arrancar às misérias da Rua Suja aqueles grandes olhos luminosos.
— Mas, que diabo! Vida é vida! Ficar com a pequena às costas, assim de um momento para o outro, ia trazer-lhe prisões, gastos, e depois, “aquilo”, o sangue da mãe, havia de fazer das suas...
“Que raio de ideia!” — rematou ele consigo, apeando o chapéu e passando a mão pela cabeça, com o ar de quem afasta um pensamento ruim.
Mas a pequena era tão linda, com os seus olhos rasgados e cheios de sol, a sua carita já alegre, a sua pele cigana, de grão quente e dourado... Havia uma pureza tão grande no seu jeito de olhar, uma graça tão fina nos seus movimentos, uma atração tão grande em toda a sua pequena pessoa, que o bom do alentejano, sem saber porquê, embevecido e com um nó de choro na garganta, olhava, para ela, embasbacadamente.
— Olha lá, pequena... Como te chamas?
— Severa.
— Deus nosso Senhor te dê boa fortuna, assim, como eu a quero para mim. E tomando a manta sobre o ombro, o Romão levantou-se do poial. Tinha de partir de madrugada. Era preciso abalar. Ainda tinha que ir pagar à hospedeira, de dar umas ordens à vida e de passar na estalagem do Arco. Não contando ainda com uma francisquinha(*), servida sob os tetos do Penim.
[(*) cerveja]
E enquanto a pequena o olhava, seguindo-lhe os movimentos, encostada ao umbral de pedra roída, o Romão tirou da algibeira da jaqueta a sua bolsa de chita encarnada, desatou-a e tirou um cruzado novo.
A pequena, mal viu luzir a prata, riram-lhe os olhos.
— Queres? — perguntou o alentejano, estendendo-lhe a moeda, na palma da manzorra bruta. Queres, Severa?
Mas a rapariguita, desconfiada, escondendo a cabeça no braço, achando talvez demasiado aquela moeda de prata tão grande, choramingou:
— Não quero...
— Quando o Romão ia procurar convencê-la, já a sua mãozinha magra e sorrateira avançava para o dinheiro, enquanto o outro braço, tapando a cara, escondia um riso satisfeito de miúda.
— O sangue da mãe! O diabo é o sangue da mãe!
Tinha que ir, que já eram horas. Mas e a pequena? Havia de ficar ali, ao relento?
Ainda pensou em bater à aldraba da porta, para a mãe a recolher. Mas a cigana estava lá com o outro, era capaz de vir por aí abaixo, com o fogo na garupa, para bater na pequena. Não! O melhor era não mexer em baralhos alheios. A pequena havia de estar habituada àquilo. A mãe que viesse quando quisesse.
— Adeus, pequena! Até mais ver!
— Adeus, senhor homem...
— E enquanto a rapariguita, sem já se importar com ele, fazia tinir a prata sobre os degraus de pedra, o alentejano foi descendo a lobrega rua.
— Mal empregada! O sangue da mãe... Mas, que diabo! Vida é vida!
Às seis da manhã, já com sol nascido, o Romão, alquilador, a caminho do Alentejo, embarcava no Cais da Ribeira.