A Severa
Capítulo II · A manhã foi de sol. Mas por…
A manhã foi de sol. Mas por volta do meio-dia começou a chover tão desabaladamente, que a tourada dos fidalgos foi adiada para quando melhor conviesse.
A senhora Infanta, que já tinha saído em almadraquexas de damasco vermelho numa rica berlinda dourada, raivou contra a chuva, num arranco felino de leoa sem garras.
Entretanto, fora feita a participação ao Patriarcado de que Sua Majestade a Rainha completara o seu oitavo mês de gravidez, e expedida ordem para se dizerem na Sé, nas paróquias e nas igrejas dos mosteiros de religiosas, as orações pro felici parta.
A sociedade romântica de 1840 continuava a delirar, no S. Carlos, pelos ronds de jambe das bailarinas, pela garganta de ouro da Boccabadati, e a ressurgir, nos salões do Rato e das Laranjeiras, os velhos provérbios representados atrás de biombos de seda. A alta política atravessava as câmaras de damasco da Assembleia Estrangeira, entre os soluços das cabeças e as túnicas de veludo cor de cereja, na solenidade das suas fardas bordadas a palmas de ouro, discutindo o último jantar do corpo diplomático ou a última nota política da Gazeta de Wartzboarg.
E não se desmanchavam, os hirtos leões do Parlamento e da Diplomacia, tendo para si próprios, como La Rochefoucauld, que “a gravidade é um mistério do corpo inventado para esconder os defeitos do espírito”.
O eterno feminino — as belezas profissionais da altura — desdobrando pelos salões uma nuvem de musselina branca e de rosas, os diáfanos cotpaly que os abraços não amachucavam, as jáconas de lã impressas na Itália, toda a ourivesaria dos seus braços nus sob os xailes de cachemira e dos seus ombros admiráveis onde escorria a luz, — o eterno feminino, esse, discutia febrilmente ora a Rossi Cássia, encrespando a boquinha em desdéns pelas cómicas, ora a loura e hirta M. Barrow, ministra dos Estados-Unidos, que cometera a audácia inqualificável de aparecer sem joias nos bailes das Laranjeiras.
Neste meio de supremo mundanismo onde Garrett era o leão da moda, D. João, inteiramente deslocado, aborrecia-se de uma maneira mortal.
A Marquesa continuava a persegui-lo com uma insistência doentia, empavonando a sua linda cabeça fulva na expressão vitoriosa de quem mostra um amante ao ciúme das outras.
Garrett, sempre superior e desdenhoso na impassibilidade dos seus olhos azuis de flamengo, via a perseguição sistemática, e sorria. A piedosa menina dos bandós pretos e dos gestos pré-rafaelitas, envolvia-o agora num ingénuo flirt, e toda ela se oferecia ao divino poeta como um cordeiro de sacrifício.
No entanto, a Marquesa compreendia o sorriso de Garrett, via-o abrir a “caixa de ouro das execuções”, e, não contando muito com a sua generosidade, sentia-se estremecer.
O Marquês de Seide, esse, alheio a tudo, entretinha-se a comer folhas de rosa pelos cantos e a discutir, numa roda de damas velhas, as dificuldades dos bordados a ouro e a missanga.
No entanto, o elegante Soto-Maior, de casaca verde-bronze, uma abotoadura de camafeus no colete de seda branca, aproximou-se da Marquesa distraída, e perguntou-lhe, de repente:
— Em que pensa vossa excelência?
E a divina Seide respondia, com o morder de lábios que se usava na altura:
— Perguntar a uma mulher o que ela pensa, é obrigá-la a mentir, Visconde...
E os serões do Rato iam correndo, na sensaboria vulgar do espírito romântico, entre cabeleiras falvas à Capoul, coletes amarelos de Werther, ombros nus onde faiscavam topázios, e ondas frias e brancas de camélias do Japão.
D. João, já resignado a sucumbir na luta, debatia-se ainda em hesitações dolorosas.
Toda aquela cena da espera de touros, o assomo turbulento da Severa numa alegria bárbara de evasão, a chapada de luz que lhe batera na cara, a escuridão em volta, todo o mistério daquela aparição momentânea, a sua fuga a galope levantado as violas e os chocalhos a retinirem-lhe na cabeça como se os levasse consigo, numa vertigem de febre, — tudo aquilo o perturbava, o envolvia ainda, como se tivesse acordado de um grande sonho tumultuoso.
Não tinha visto a Severa. A luz que lhe batera nos olhos cegara-o inteiramente. Galgara a estribeira, montara a cavalo, e, contente daquela vitória sobre si próprio, partira a galope.
Não a vira, é certo; mas ouvira-a.
A sua voz doce cantava-lhe aos ouvidos, quente e musical, retinindo entre os rugidos roucos da multidão, como uma campânula de prata batida pelo vento.
E depois, o brusco repelão da dança, o estalar das socas no chão seco, o vibrar surdo da viola roçando nas roupas, toda aquela confusão de sons se combinava, se harmonizava, de forma a completar na sua imaginação a figura musical dessa mulher, consubstanciação melodiosa do fado no corpo trigueiro e dourado de uma cigana.
Ávido por saber o que se passara, D. João procurou o Niza em S. Carlos. Decerto o Marquês teria presenciado tudo e poderia dizer-lhe que espécie de impressão o seu súbito aparecimento produzira no espírito da Severa. O Marialva, ao cravar as esporas no cavalo, tinha compreendido apenas que ela se calara. Depois, ficara-lhe para trás um rumor indistinto e confuso. Depois envolvera-o o silêncio da estrada deserta, onde apenas se ouvia, acordando as sombras, o tropear vertiginoso de um cavalo...
A sua curiosidade era enorme.
Mas ao chegar ao S. Carlos, já tarde, soube que o Marquês de Niza acabara de bater em duas carruagens de boleia, com a Boldrini e outras, a caminho da Ameixoeira.
Pensou ainda em ir também ao serão galante do Domingos Peres, sempre tão fértil e pitoresco, em decotes escandalosos, em fandangos italianos, e onde, na alegria do loiro Reno e do velho Fronfignan, as prima-donas costumavam mostrar os fechos de ouro das ligas.
Mas estaria inteiramente deslocado naquele meio, entre o maquillage da última ópera e o fel da última intriga. Não foi.
Mais tarde encontraria o Marquês, livre de peias e de embaraços, de cómicos e de imbecis, e contar-lhe-ia tudo, todas as incertezas da sua crise sentimental, pedindo-lhe em troca a narração do que se passara naquela noite, em pleno terreiro, enquanto as esquilas tilintavam nas carruagens e os chocalhos dos cabrestos badalavam.
No entanto, a Marquesa esperava-o à meia-noite, no seu próprio palácio do Rato, e a velha criada, embrulhada num amplo saiote verdoengo, esperava a meio do largo a chegada do Conde.
D. João apareceu finalmente, na sua carruagem de boleia, abateu o alçapão de couro, e, ao descer, a velha agarrou-lhe o braço, em modos de alcoviteira, fazendo jus à libra que lhe havia de escorregar pela manga do capote.
A noite estava linda, e de umas amendoeiras floridas, que se debruçavam sobre um muro, caía, como a dobra de um pálio invisível, um perfume quente e perturbador.
A criada introduziu o Conde no palácio. Os passos de D. João abafaram-se num, ninho de tapeçarias. A vaga penumbra dourada de uma alcova envolveu-o, como uma palpitação misteriosa. Um brando cicio, um leve mover de roupas e de rendas acariciaram-lhe os ouvidos. Sentiu, já perto, a tepidez de um leito. Uns passos mais e no silêncio, apaixonadamente, dois braços mornos e nus, como serpentes de veludo, rodearam-lhe o pescoço e uma boca procurou a dele, numa carícia, num gemido, num murmúrio:
— Amor da minha alma!
***
Eram três horas da madrugada quando o Conde, no terreiro do Rato, retomou a sua carruagem, de caminho para o Campo Grande.
Ia triste, numa tristeza apagada de vencido, como todo o animal depois de ter amado muito.
A velha carruagem, aos saltos pelo caminho, trôpega e vacilante, ia avançando, no sossego da noite, pela sombra das estradas.
Quando passavam junto do palácio dos Galveias, ouviram-se vozes e risos de mulher e o rumor de outras carruagens.
De repente, o barulho das rodas cessou, as vozes calaram-se, os risos casquinaram mais alto e uma voz clara ergueu-se, dando ordens.
— Desmonta do coche!
— A vara está sobre o cavalo!
— Vê se o levantas! Chega-lhe a espora! Parece que está morto! Vá!
D. João não teve dificuldade em reconhecer a voz do Marquês de Niza.
Alguma coisa sucedera, que obrigara a parar, de volta da Ameixoeira, as carruagens das italianas.
Talvez o cavalo das varas estatelado, ou alguma carruagem de escantilhão que metera em frente das traquitanas do Marquês.
O Conde gritou ao cocheiro que se metesse a galope, e a carruagem lá foi, indo ter com as outras, numa carreira desordenada, rangendo, e recortando, já no ar azulado da manhã, o seu perfil heráldico de traquitana solarenga.
Ao chegar ao sítio do desastre, parou. Em plena estrada, na claridade indecisa do amanhecer, uma das carruagens das italianas, atirada de encontro ao muro, pendia no chão a sua vara enorme. O cavalo da sela, desatrelado, um velho tanjão lazarento, anca de boi, estava atravessado no caminho, com as estribeiras de latão bocejando ao lado, aguardava, melancolicamente. Mais atrás, o Marquês de Niza e um grupo de cantoras rodeavam uma massa negra, enorme, caída por terra. Era o cavalo das varas, morto.
O Conde apeou-se, cumprimentou a Boldrini, que vestia uma grande túnica de cetim cor de cereja, e pôs amavelmente à disposição do Niza e das atrizes italianas a sua carruagem de paço.
A chegada do Marialva, que teve um ar milagroso de aparição, deu lugar a toda a espécie de expansões, desde os agradecimentos polidos da Vicenzi, musicais como um trecho de burleta italiana, até ao desgarro da Zampucci, bêbeda de Champagne e coberta de joias, que saltou, aos beijos, ao pescoço de D. João.
— Vi ringrazio, Conte!
— Grazie!
No entanto, a pobre besta morta jazia por terra, as patas traseiras hirtas, volumosas de alifafes como maçanetas enormes, a grande cabeça sofredora e magra erguida para o céu num arranco supremo de dor.
O Padre Mateus, que chegava noutra traquitana, com duas tias velhas das italianas, evangelicamente bêbado, apeou-se, arranjou mais uma vez as vestes de seda roxa, deu com os olhos na besta morta, tirou o chapéu, enclavinhou as mãos, e sempre a cambalear, resmungou guturalmente:
— Domine, ne despícias. Opera manum tuaram. Oremas.
Enquanto padre Mateus, de olhos no céu, grunhia o último latim, D. João agarrou o braço do Marquês de Niza, e disse-lhe, a meia voz:
— Preciso falar-te.
— Ia dizer-te o mesmo.
— Segues com as italianas?
— Não. Podem ir sós.
— Nesse caso...
— Ao teu dispor.
— Estamos perto da minha casa. Entra. Conversamos à vontade.
— Dou ordem à carruagem para me vir buscar ao meio-dia. Decidido?
— Decidido.
As italianas partiram, com padre Mateus e com o resto do grupo, e o Marquês e D. João, a pé pela estrada, sob o céu claro da manhã, encaminharam-se lentamente para o solar dos Marialvas.
— Trata-se, então de...? — perguntou o Niza, dados os primeiros passos.
— Da Severa.
— A rapariga do fado?
— A minha mulher fatal.
— Mas não é verdade que desde os oito anos que não a vês?
— Mas desde a última vez que a vi, que sonho com ela.
— Um sonho fácil, que se realiza com algumas moedas de prata.
— Quanto mais ela é de todos, menos é minha.
— Repara que estás a gastar o coração com uma criatura que não te merece.
— Não, sei porquê.
Os dois calaram-se. O sol começava a levantar-se no horizonte como um disco de cobre em brasa.
Durante o resto do caminho não trocaram uma palavra.
Por fim a casa dos Marialvas apareceu, com os seus telhados mouriscos e as suas janelas quadradas, alinhadas ao alto sob os telhões do beiral, espreitando, como pálpebras de pedra, o arvoredo fronteiro.
Empurrado o portão de grades, entraram no pátio. O cocheiro do Conde, que os precedera, aguardava, ao topo das escadas.
Tinham andado, de um extremo a outro, todo o campo de Alvalade.
Assim que se viram sós, o Marquês de Niza escarranchou-se numa velha cadeira de sola, apoiou os braços nas espaldas, encarou o Conde e disse-lhe, bruscamente:
— Tens um corpo de herói e uma alma de criança, João! Não se deve gastar sentimento com mulheres, e muito menos com as que põem o amor em moedas. Sou mais velho do que tu, conheço o mundo, vejo até dentro dos corações, e não estou contente com o teu. Tu hás de dizer que bem prega frei Tomás as virtudes que ele não tem. Mas, rapaz... Eu nunca me dei a gastar o coração com as dúzias de bailarinas e de atrizes que conheci, e Deus sabe, Deus e eu, quantas dúzias foram. Tive-as, e custaram-me dezenas de libras, mas nenhuma me custou uma lágrima. Fiz loucuras, João, mas nunca fiz vergonhas. Isto não quer dizer que tu as tivesses feito; mas, por este caminho, podes vir a fazê-las. Não sei o que há entre ti e a Severa, porque nunca fui forte em entender charadas, palavra de fidalgo! Mas o que há, alguma coisa é. Dizes que a não vês desde os oito anos. Não percebo porque é que tu empalideces quando se fala numa puta, só porque tiveste a má sorte de a conhecer de fraldas. Também eu conheci em potro aquele cavalo que me morreu na estrada, e — que diabo! — quando ele caiu, ri! Olha que o coração é uma riqueza grande para que a gente o quer assim, como ouro a porcos, por via de uma égua ou de uma mulher, só porque as conhecemos quando mamavam. Isto, João, dando fé ao que dizes. Eu sei que os Marialvas não mentem; mas tu estás doido, e um fidalgo doido é capaz de tudo. Aquela mulher, que tanta turbação produz em ti, aquela mulher tem alguma coisa contigo, seja qual for; está unida ao teu sangue ou à tua alma por qualquer laço, que eu desconheço ainda. Pois então como se explica a cena do Campo Pequeno, na noite da espera de touros? Tu, branco como a cal da parede, pedindo o cavalo e fugindo a galope; ela, calando-se mal te viu, como uma criatura ferida de morte, com as lágrimas a caírem-lhe pela cara? Porque empalideceste tu João, e porque chorou ela?
O Conde, que o ouviu silencioso, levantou-se. Os olhos iluminaram-se-lhe de uma alegria súbita, e caiu nos braços do Marquês de Niza:
— Obrigado, meu amigo. Obrigado!
— Pelo conselho que te dei?
— Não. Por me dizeres que ela chorou.
Nessa mesma noite, D. João vestiu a sua jaqueta de peles com fechos de prata, a sua calça de belbutina, mandou selar o cavalo rodado, que apesar da boca de boga não tinha nada má rédea, e lá foi, estradas fora, num galope vertiginoso, a caminho da velha e religiosa baixa de Lisboa.
Tinha decidido procurar a Severa, alhear-se a todas as preocupações e a todos os preconceitos, para ouvir o coração, só o coração, sem penas, sem receios, sem escrúpulos, na consciência de uma criatura que segue o destino, — porque o destino é mais forte..
O cavalo, num galope bravo, o focinho a fumegar, cortava a escuridão dos caminhos, como se as esporas do Conde, ensanguentando-lhe os flancos, lhe dissessem o motivo daquela corrida...
Chegando à Baixa, D. João deixou o cavalo numa cavalariça das Amoreiras, e abalou, em direção a esse recanto do século XVII, que é o Bairro Alto, cheio de velhas frontarias de paço, de empenas flamengas, de ressaltos obscuros, onde escantilhavam escadas, bocejavam becos, e parecia palpitar por toda a parte, nas sombras e nas pedras, a alma dolorosa do povo.
Junto ao Cunhal das Bolas encontrou o Timpanas, cocheiro dos mais ilustres da altura, enxalmado num amplo ferragoulo de briche. Ao vê-lo passar, o rei da boleia tirou o chapéu e murmurou, num arreganhar de dentuça:
— Senhor Conde!
O Conde aproximou-se dele e perguntou-lhe a morada da Severa.
Desconcertado com a pergunta, por ela vir de tão alto, o Timpanas abateu o rebuço do capote, sorriu, e, no melhor que soube, apontou ao Marialva o caminho, dobrando becos roídos e galgando ruas pedregosas.
Já D. João se tinha posto a andar e ainda ele gritava de longe:
— Segunda porta, hein, senhor Conde...?
Dali a pouco, o Marialva parava junto ao poial da porta indicada pelo cocheiro.
Estava fechada. D. João embuçou-se bem na sua grande capa de veludo, ferrou o pé no poial e esperou. Pelo quê? Nem ele sabia. Que a porta se abrisse? Que saísse quem lá estava? Talvez. Mas, se lho perguntassem, não saberia responder. Pulsava-lhe forte o coração no peito; sentia na cara, a sua própria palidez; compreendia vagamente que era uma vergonha aquilo tudo, — mas o pé não se lhe desferrava do poial, e D. João esperava.
Ele, a quem as mais belas mulheres se ofereciam, e em cujos braços desdenhosos tinham desfalecido e soluçado as beauties de Londres, de Paris e de Lisboa, — estava ali, comovido, ansioso, à espera de que se abrisse a porta de uma rameira humilde do Bairro Alto.
No entanto, queria ver a Severa, falar-lhe quanto antes, naquela mesma noite, naquele mesmo instante.
Falar-lhe. Mas que lhe diria ele? Por momentos, pareceu-lhe tudo aquilo ridículo, impróprio da sua situação e do respeito que ele devia a si mesmo. Mas o coração mandava, — e era preciso obedecer-lhe.
Ela, decerto, estava lá dentro, porque nas frinchas do postigo havia luz.
Mas, lá dentro, com quem? Algum comerciante bruto, que a possuía, que a calcava sob as patas possantes, — enquanto ele, o Conde de Marialva esperava, ali fora, a sua vez.
Alguém que passasse, vendo a figura negra de D. João, envolvida numa capa de veludo, junto a um poial de porta, perguntaria:
— Quem é aquele?
E alguém que o conhecesse, apesar do escuro que o velava na sombra e do chapéu que se lhe cobria os olhos, resmungaria ao passar:
— É o Conde de Marialva à espera que se satisfaça o cio de um comerciante!
De súbito, a figura deprimida de D. João inteiriçou-se, fuzilou-lhe o olhar. Tinha de tomar uma resolução. Aquela situação não se podia prolongar. Uma porta separava-o da mulher que ele procurava? Pois bem! Fosse como fosse, era necessário abrir essa porta.
Desembuçou-se. A ampla capa, pendente dos ombros, descobria-lhe agora as argentarias da casaca. Desceu mais sobre os olhos o chapéu largo, de abalroar, e numa pancada seca, bateu a aldraba.
Houve um instante de silêncio. Daí a pouco, a porta abriu-se, e, de costas para a luz, como uma pincelada negra, uma dolorosa figura de um homem a coxear.
D. João, desconcertado por semelhante aparição, relanceou o olhar pelas quatro parede, que um candeeiro de três bicos iluminava, cheias de santos e de imagens; encarou aquela figura extraordinária que um capote de burel envolvia até aos pés, e atirando com a capa de veludo sobre uma cadeira de tripeça, perguntou, quase como quem afirma:
— É aqui que vive uma rapariga chamada Severa, não é verdade?
O pobre diabo deu ao Conde um intraduzível olhar de sofrimento e de angústia, e coxeando sempre, com o seu lenço vermelho atado à roda da cabeça, como um mendigo de Goya, arrastou-se até junto de uma porta que bocejava a um canto, velada por uma cortina branca, e chamou arquejando:
— Severa!
Depois, voltou-se para o Conde, olhou-o ainda, da cabeça aos pés, foi-se arrastando até à porta da rua, puxou para a cabeça a gualteira do capote, levantou o ferrolho e saiu, lentamente, num regougue, abafado onde havia qualquer coisa de semelhante a um soluço.
D. João ficou só entre aquelas quatro paredes cobertas de registos de santos, pálido, perturbado, imóvel defronte da porta, com a testa molhada de um suor frio, fazendo tilintar maquinalmente as argentarias da jaqueta, à espera daquela mulher de toda a gente, que havia de ser — ele sentia-o bem — a mulher fatal da sua vida.
Subitamente teve um lampejo de consciência.
Compreendeu, num instante de lucidez, que estava a praticar uma loucura indigna dele. A sua mão ainda agarrou a capa, convulsamente...
Mas já não teve tempo de fugir. A cortina branca moveu-se, e uma linda figura de rapariga, ousada e forte, o cabelo negro derrubado em bandó, a saia de ganga restolhando vitoriosamente, com o ar glorioso das criaturas que conhecem de perto os triunfos, apareceu ao fundo, batendo as socas nervosas, em bocejos sangrentos..
Era a Severa.
Quando viu D. João, estremeceu, soltou um grito surdo, quis recuar, bateu com as costas na ombreira da porta, e ficou, pálida, o olhar fixo, os braços abatidos, humilde, transfigurada.
O Conde, profundamente comovido, quis falar e não pode. Olhou-a longamente, num enlevo e num deslumbramento. Sentiu por todo o corpo um comum arrepio, esse tremor que se apodera de todos os homens perante a mulher que durante muito tempo, desejaram. Pouco a pouco, dominou-se, recobrou a serenidade perdida, sorriu, e, numa voz cheia de doçura, murmurou:
— Severa...
Foi só então que a pobre rapariga, num supremo esforço, fixando os olhos espantados no Marialva e sacudindo a linda cabeça trigueira num movimento convulso de negação, desatou a gritar, nuns uivos roucos, como uma doida:
— Não! Consigo, não! Não quero! Nem que estivesse a morrer de fome! Consigo, não!
E sem poder mais, cansada, ofegante, encostada à ombreira da porta, a Severa desatou a chorar, num choro silencioso, em arrancos de soluços que a abalavam toda.
Foi movido pela maior piedade e pela maior ternura que D. João se aproximou dela, mansamente, e lhe disse, como se falasse a uma criança:
— Esteja sossegada, Severa... Eu vim apenas vê-la. Tinha saudades suas... Conheci-a tão pequenina, lembra-se? Então o que imaginava...? Que eu a procurava como os outros? Não... Para que está a chorar...? Não se aflija, converse comigo. Eu quero-lhe bem, porque a conheci de pequena. Não tenha vergonha de mim. Está nesta vida... Era fatal. São desgraças que acontecem. Imagine que eu sou seu irmão mais velho. Peça-me o que quiser. Se precisar algum dia de um braço que a ampare ou que a defenda, lembre-se de mim... Sou o Conde de Marialva. Se perguntar pelo meu nome, logo lhe dizem onde moro e onde estou. Não tenha medo... Eu era feliz se um dia lhe pudesse prestar algum serviço, por mais pequeno que fosse. Dizem-me que é muito independente, que não aceita favores de ninguém, mas de mim deve aceitá-los, porque sou muito seu amigo, Severa...
D. João calou-se. Serenamente, tirou do bolso o seu lenço fino de cambraia e enxugou com ele as lágrimas que borbulhavam daqueles lindos olhos de cigana.
A Severa, já sossegada, olhava-o agora numa expressão de agradecimento e de estranheza medrosa, como se não acreditasse — ela, a pobre rameira do Bairro Alto! — que alguém no mundo pudesse falar-lhe assim.
Por fim, olhando bem para o Conde, vendo que aquele olhar não mentia, perguntou-lhe num sorriso ao mesmo tempo alegre e doloroso:
— Pois é verdade que me não procura como os outros? É verdade?
E já toda confiante, à frente daquele homem que lhe falava uma linguagem desconhecida, daquele homem que era uma saudade da sua infância, daquela criatura à frente de quem se tiravam todos os chapéus e que a tratava como de igual para igual, a Severa começou a contar-lhe a sua vida, a desfiar-lhe, entre risos, a própria miséria, o orgulho de ser a primeira da sua classe a não ter um ódio de ninguém, a contar-lhe que fora só ela a culpada daquela desgraça, que tinha aquilo na massa do sangue, e que era feliz, feliz como poucas, com a sua liberdade, o seu fado, o seu amor pelo sol...
D. João ouviu-a, encantado pelo ar pitoresco dessa mulher singular, que não se parecia com nenhuma outra, que chegava a ser, em cada momento, diferente de si própria, e em cuja voz, ora doce, ora selvagem, ora branda como um murmúrio, ora dolorosa como um uivo, passavam todas as gamas, todos os tons, a macieza húmida do veludo, o tinido musical dos metais, os gorjeios, os soluços, os gemidos, as tempestades...
Apenas alguns monossílabos do Conde de Marialva, respondendo a qualquer pergunta, cortavam a loquacidade da cigana. Fora isso, era só ela que falava, ela apenas, mudando de assunto a cada instante, nervosa e rápida, agitada de vez em quando de estremeções violentos, os pendentes de ouro a luzir-lhe nas orelhas, os cabelos em tumulto a cada aceno inquieto, e o chinelo, pespontado de branco, melido e lindo, a dançar-lhe na ponta do pé.
Depois, passada a natural comoção do encontro, eram já os dois que falavam, como duas crianças, recordando coisas, episódios da infância dela, os poiais de tijolo do Capelão, o vintém de S. Luís que ela trazia ao pescoço, o apontar das estrelas e o grande receio de ter verrugas nas mãos...
E enquanto se lembravam destes pequenos nadas, entre risos e lágrimas furtivas, D. João parecia estar a ver a rua verde da janela da Mouraria, a casa humilde em que a conhecera, a nesga do céu estrelado que se envesgava do postigo, daquele céu que já lhe parecia outro, porque, como ele, envelhecera quinze anos...
Só numa criatura do passado não se falou: foi na Cesária, na mãe.
Mas a cigana velha estava ainda bem viva entre os dois, afastava-os como uma sombra, de braços estendidos, e embora não o dissessem, eles sentiam-na ambos, parecia-lhes por vezes que a ouviam, que lhe adivinhavam os passos na rua, e, quando um silêncio súbito interrompia a sua conversa, era a imagem dela que lhes surgia à frente dos olhos como um remorso vago e indistinto.
Por fim, D. João levantou-se, agarrou a sua grande capa de veludo negro, o seu chapéu castorenho e estendeu a mão à cigana, que murmurou num gemido:
— Pois já se vai embora?
O Conde prometeu voltar, muito cedo, no dia seguinte, e voltou a oferecer-lhe, à saída, a sua bolsa e o seu braço.
Quando, pela primeira vez, as mãos de ambos se apertaram, D. João, olhando-a muito nos olhos, fixamente, balbuciou, num sorriso:
— Então...? Já está convencida de que não a procurei.... como os outros?
A Severa corou, baixou a cabecita airosa onde os bandós luziam como duas asas de treva, e depois, rindo muito, recomendou-lhe na sua voz chilreada:
— Não se esqueça... Olhe que prometeu que vinha amanhã...
Foi já a abrir a porta que o Marialva lhe respondeu, embuçando-se na capa, risonho e todo de negro, como o tocador de Franz Hals:
— Amanhã.
Quando ia a sair, deu com o pé numa massa humana coberta com um capitão de briche, que se acaçapava no poial da porta.
Era a mesma estranha criatura de cara arrepanhada e lenço vermelho atado na cabeça, que ele encontrara à entrada, dentro da casa da cigana.
A Severa, com o candeeiro de latão de três bicos enfiado no dedo, ainda apareceu à porta. Depois, quando o vulto de D. João desapareceu, cruzando uma esquina, agarrou pelo capuz esse farrapo humano açapado no poial de pedra, sacudiu-o três vezes e disse-lhe numa voz brusca:
— Que estás tu aí a fazer, Custódia? Entra se queres!
O miserável ergueu-se, tropeçou no degrau, entrou dentro de casa, e atirou-se, a chorar, para cima de uma arca.
A Severa, sem lhe reparar nas lágrimas, mal poisou sobre a mesa o candeeiro de latão, num ar de alegria selvagem, agarrou-se ao Custódia, a rir, a rir nervosamente, e voltando-lhe a cara para a cara dela, murmurou, cantou, gritou:
— Ai, como eu estou contente, Custódia! Como eu estou contente!
O Custódia era um pobre epilético de vinte e cinco a trinta anos, que tinha servido, como sacristão, no Colegiada (*) de Guimarães.
[(*) corporação (colégio) de eclesiásticos que, com a obrigação de ofício coral, se dedicam ao culto numa igreja, à qual foi concedido esse privilégio.]
Passara a sua primeira juventude nas sacristias, no sossego das grandes abadas silenciosas, em intimidade estreita com as preciosidades de argentaria e de pintura dos velhos arcazes emudecidos, num meio de sombra e de bafio onde os passos ressoavam com as pesadas sandálias fradescas, e criara-se ali, no coração daquelas paredes mortas, glabro e sacerdotal, quase tão morto como elas, no ofício leve de mostrar à curiosidade dos visitantes os fios da meada da Senhora, o oratório de prata do rei de Castela, a ampola de vidro com o leite da Virgem, toda essa santa arqueologia de alfaias, que tresandava ao incenso litúrgico e ao esturrinho dos cónegos capitulares.
O Custódia era filho de um antigo Prior do Colegiada e de uma irmã da alcoviteira Macheta, criatura tosca e propensa a acidentes, que o povo de Guimarães dizia possessa pelo diabo, como amante de clérigo que era, teúda e manteúda.
Por conseguinte, o Custódia ali nascera e ali se criara, sem outra intimidade que não fosse a das grandes figuras macilentas dos retábulos, e a das Virgens dos trípticos de prata, serenas e lacrimosas, na doce expressão dos seus olhos de esmalte.
Mas o D. Prior e a comborça tinham feito desse filho de coito-danado uma sombra inquietante de desgraça, que arrastava um pé coxo, caído pelos cantos, ferido do mal caduco, a babar uma espuma sanguinolenta, e andava por este mundo com o ar de perguntar a toda a gente por que capricho de Deus fora criada a sua imperfeição.
Era um epilético, com uma queixada volumosa e um grande olhar profundo e sentimental, pobre diabo canhestro, oblíquo, acrocéfalo e disforme, que arrastava consigo, como uma sombra, todos os vícios de um claustro e todas as monstruosidades de uma herança mórbida.
Uma bela noite, depois das festas da Páscoa, no Colegiada, quando ia aproximar-se de uma lareira acesa, a fraqueza marinhou-lhe pelas pernas e o pobre animal caiu de borco, vasquejando, a cara sobre as brasas, em contorções medonhas.
Daí, a cicatriz que lhe arrepanhava a face, que a imobilizava numa marca permanente, que lhe imprimia a toda a máscara a expressão paradoxal de certas gárgulas das catedrais góticas, cuja boca monstruosa ri e chora ao mesmo tempo.
Chamavam-lhe o Custódia, por alcunha. Era o caso que o pobre cicerone (*) do Colegiada, quando mostrava o tesouro aos viajantes, ia sempre direito à grande custódia de prata dourada, oferecida pelo cónego Gonçalo Anes a Nossa Senhora, largo hostiário assente sobre grifos de ouro, cuja história ele contava com uma humildade untuosa de epilético:
— Vejam, meus senhores, esta custódia, oferecida a Nossa Senhora pelo cónego Gonçalo Anes, em 1534...
[(*) cicerone = guia; pessoa que mostra uma localidade ou um edifício aos visitantes, dando-lhes informações a respeito do que observam]
E daí a alcunha a persegui-lo, como uma sombra hostil, e toda a canalha a barregar-lhe nos calcanhares:
— Eh, Custódia! Eh, Custódia!
Num dia desgraçado para ele, disse-se que tinham desaparecido do Colegiada dois castiçais de prata. O responsável era o Custódia. Atiraram-lhe todas as culpas daquela infelicidade e entregaram-no à justiça.
Depois de muitos incidentes, veio parar à cadeia do Limoeiro. Aí viveu com todos os facínoras da altura, ele, o lírio de sacristia, a criatura que nunca tinha conhecido uma mulher e que não sabia metade dos males do mundo.
Quando acabou o seu tempo de prisão, foi desaguar nas torpezas do Bairro Alto. Era o faquista, o ladrão, sob a capa de um seminarista tímido. Era um produto híbrido das igrejas e das cadeias, sinistro de corpo e de alma.
O Custódia tinha uma tia em Lisboa, dona de um lugar de santos, no terreiro de Santa Clara.
Era a Macheta. Procurou-a.
Como aprendera o ofício de encarnador e estofador de imagens, a tia deu-lhe trabalho. Tinha com que viver. Depois, trabalhava ao mesmo tempo em casa da Macheta e na loja de um santeiro do Bairro Alto. Um belo dia quiseram maltratá-lo, corrê-lo à pedrada. A Severa, alma sempre aberta à proteção dos desgraçados, defendeu-o e riscou um, com a navalha. Daí, a ternura do Custódia pela Severa. Era-lhe como um cão. Seguia-a para toda a parte, espiava-a, só para a poder ver antes dos outros. A cigana tornou-se, em pouco tempo, a luz daqueles olhos de desgraçado. Aparecia às noites, ao fim do trabalho, enxalmado no seu ferragoulo de briche, metido pelas sombras, tremendo de horror quando ouvia uma gargalhada. Era já conhecido ali pelos arredores do Cunhal das Bolas, lenço vermelho atado na cabeça como, os mendigos espanhóis, grenha negra em cabeleira enroscada sobre a testa, mancando como um cavalo inchado de esparavões que marcha para o abate. Quando ele passava todos riam:
— O Custódia! Olha... Lá vai o Custódia...
E ele, o pobre animal, cosia-se mais com a sombra, e passava, num ranger de dentes, sangrando ódio contra a canalha que se ria da sua desgraça.
E lá ia arrastando a perna aleijada pelos becos, pelas ruas, até à morada da Severa. Vê-la, senti-la, olhar para ela num enlevo, até que um fidalgote da treta batesse à aldraba da porta e entrasse de repente, atirando o chapéu e a viola.
Ele então saía, o escorraçado, o triste, e pensava em poder comprar também o amor dela, pelo mesmo dinheiro dos outros, pelas mesmas pratas que tilintavam nas cimeiras da cómoda, com um tinido de abominação.
Pensava muito, o pobre Custódia, e descosia pela milésima vez, do forro do capote, uns cruzados novos que o seu trabalho lhe rendera e, cujas cruzes lhe apareciam como braços trémulos de amor.
Pensava que o verdadeiro amor podia comprar-se como os outros compravam o prazer, ele, que a amava com toda a violência de um escorraçado e de um expulso!
E ia juntando, pataco a pataco, como um avarento.
Às vezes, com uma grande dor a retalhá-lo todo, fechava-se em casa da Macheta e não aparecia no Bairro Alto, durante dias e dias, como quem anda fugido ao próprio destino. Mas depois voltava, mais humilde e mais cão do que nunca, para a amar sem saber que a amava, para a beijar com os olhos, para a adorar em silêncio, num êxtase, numa beatitude.
E a Severa, que o não podia entender, que o não podia adivinhar, via apenas naquela dedicação de cão fiel uma amizade de irmão, que não exigia mais — pobre Custódia — do que a troca dessa amizade.
Outras vezes, o pobre diabo ia queixar-se à tia, à Macheta, queixar-se sem saber de quê, de que se riam dele, de que o escarneciam, de que o insultavam, e de que a Severa, quando estava no meio dos outros homens, era a primeira a escarnecê-lo também.
E em todo o caso, a ninguém mais a Severa contava o que contava ao Custódia. Tinha desabafos com ele, que não tinha com mais ninguém. Que dolorosas seriam para o pobre epilético essas confidências, todas cheias do amor dos outros por ela e do amor dela por todos!
Desde a célebre noite da espera de touros no Campo Pequeno, o Custódia começara a ouvir falar a Severa no Conde de Marialva. Quando ela pronunciava esse nome, os olhos lindíssimos acendiam-se-lhe num clarão súbito e molhavam-se-lhe de lágrimas. Ele já conhecia as grandes tristezas que sucediam, por largas horas, à lembrança do nome do Conde. A Severa, alegre e estouvada, cuja vida era uma ânsia permanente de movimento, caía em profunda meditação, os olhos fixos, a face pálida, o peito, arquejante. O Custódia bem sabia que tudo aquilo era produzido por um nome, por um só nome: Marialva. Procurou conhecer o homem que usava esse título. Um dia, apontaram-lho, na rua. Olhou-lhe a fisionomia, mediu-o de alto a baixo, os olhos coruscantes, a boca trémula. Quando despegou dele o olhar, dizia para consigo, numa alegria selvagem:
— Já não o esqueço mais!
E não o esqueceu. Quando nessa noite viu na casa da Severa, aquele homem embuçado na sua ampla capa de veludo preto, reconheceu logo o Conde.
Deixou-o entrar, e foi atirar-se, como um corpo morto, sobre o poial da porta.
Quando a Severa se agarrou a ele, numa alegria nervosa, toda banhada de riso e de ternura, a dizer-lhe, depois da saída do Marialva, que estava contente e que era feliz, foi como se lhe dessem uma facada em pleno peito.
O pobre Custódia para ali ficou, inerte, de braços na arca, embrulhado no ferragoulo de briche, soluçando, rangendo os dentes, devorando o fel do seu rancor e do seu ciúme.
No dia seguinte contou tudo à Macheta. Que em casa da Severa tinha estado o senhor Conde de Marialva, de capa de veludo preto, chapéu de abalroar e esporas de prata. Que a Severa por força queria muito àquele homem, porque, quando o viu, chorou de alegria. Que o Conde, sem dúvida, fora ou iria ser amante da cigana.
A santa madre Celestina ouviu o sobrinho atentamente, percorrendo em oração as beatas camândulas de pau-santo, atou o lenço de cambraia bicuda, enfiou o saiote encarnado, e abalou para a Mouraria, ter com a Cesária, para a pôr ao corrente do que se passava com a filha.
A pobre Cesária, que esperava há muito, dolorosamente, o retorno do D. João, reparou logo, sob a rua verdoenga, o capote encarnado da Macheta.
Saltitou-lhe o coração a pesar que alguma noticia, boa ou má. A santa alcoviteira há tempo que a não procurava; e a sua face balofa, toda a suar do queixo por causa do sol, trazia na dobra crespa do lenço de cambraia, uma expressão hostil e carrancuda.
Alguma coisa era.
— Olá, tia Macheta!
— Ora viva a minha menina.
— Suba, suba...
— Venho toda suada. Está um sol de matar pardais, filha!
Subida a escada esconsa, num sofraldar de capote que lhe descobria as pernas de perua, a Macheta atirou-se para cima de uma arca encourada, a resfolegar, em sopros violentos de peito.
Depois de ter repousado uns instantes, desandou numa saraivada de novidades, de rumores, de casos de rua, de segredos de sacristia, bichanou de tudo, falou de tudo, da loja, dos santos, das desgraçadas, da sarna que lhe comia os dedos, e do seu saiote açafroado, comprado na véspera, com um ar lustroso de bata rica.
E rematou num riso sem dentes, sacudindo a poeira do capote, em gestos rápidos:
— Isto, filha, “a boi velho, chocalho novo”!
Por fim, depois de a ter disposto bem, falou-lhe da filha, daquela “alma de Deus furta laranjas”, como a tratava na sua linguagem pitoresca a beata madre Celestina.
Mas a Cesária atalhou logo, num movimento nervoso de cabeça:
— Não me fale de desgraças, tia Macheta. Já bastam as minhas!
Um sorriso tranquilizador da alcoviteira, todo untuoso com ares de mel, deu-lhe logo a entender que não era de infortúnios que se tratava. Muito pelo contrário. Uma riqueza que entrava pela casa da filha. Talvez a salvação dela, se ela tivesse juízo. Um homem dos bons, dos que sabem quanto vale uma mulher. E nobre, dos de melhor sangue; e rico, como os que mais importantes o são. Onde o ouro fala, tudo cala. E aquele, quando lhe desse para retinir a barioleta, ficavam todos de pescoço estendido como os peixinhos de Santo António, e mudos como os frades em Gloria Patri. Só o título, era coisa que metia respeito e que fazia pensar a gente em coisas da velha nobreza, em palácios com bafio e em outras velharias de que rezavam os livros respeitáveis. Tinha o título de “Dom”, que lhe dava graça ao nome, e era ainda um rapaz, de muito bom aspeto e galante como sete mil ouros, — que ela, a boa da Macheta prezava-se de dar a sua sentença em coisas de bom gasto, principalmente em negócio de homens.
E repetia, em trejeitos das suas mãos sapudas, cheias de anéis de missanga:
— Um perfeito homem, benza-o Deus! Tirado das canelas, sobre o trigueirinho. Que eu já o conhecia. Quando o Custódia me disse, fiquei banzada! É daqueles fidalgos que aí há, que andam a cavalo e picam nos touros reais. Um homem que se pode ver, que é um homem, não é lá como esses tafuis de melânia e de barbichas de bode, todos perfumados, que até uma mulher fica zonza quando olha para eles! Não fazes ideia, Cesáriazinha! Se a tua filha lhe dá na tineta para ter juízo, está arrumada. Tem homem!
Nisto, a Cesária, que ouvia distraída a velha, estremeceu, fez-se pálida, abriu muito os olhos, fixou ansiosa a face da alcoviteira, e crispando os dedos na saia, perguntou:
— Como se chama ele, tia Macheta?
A madre Celestina deu-lhe pelo interesse, encarou-a, e disse, num risinho:
— És capaz de o conhecer, filha!
— Diga... Como se chama?
— Chama-se D. João. Conheces?
A cigana, de pé, recuou os cotovelos e ferrou-os no tampo, violentamente, para não cair. Depois, desfigurada, ofegante, os cabelos revoltos, os olhos desmesuradamente abertos, gritou:
— É o Conde de Marialva, não é?
A beata, sem compreender o que se passava na alma da pobre mulher, confirmou, cruzou as mãos sobre o ventre, e balbuciou, atónita:
— O quê! Pois também conheces...?
A partir daí a Cesária não lhe disse mais uma palavra. Até que a Macheta saiu, ficou emborcada numa cadeira de tripeça, os olhos cobertos de mágoas de sangue, os punhos cerrados nervosamente. Nem um soluço, nem um grito, nem uma lágrima. Por força que devia ser grande a dor daquela criatura, para sofrer assim, esmagada, aniquilada, em silêncio.
Por fim, a beata ergueu-se, compôs o lenço de cambraia, e, recomposta, foi descendo a escada estreita.
Quando ia no último degrau, ainda ouviu a voz rouca da Cesária, gritando lá em cima, em uivos de animal ferido:
— Eu mato aquela cabra! Eu mato aquela cabra!