A Severa

Júlio Dantas · Capítulo 10 de 11

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A Severa

Capítulo V · A Severa tornou-se, finalmente, a amante do Conde de Marialva.

 

 

A Severa tornou-se, finalmente, a amante do Conde de Marialva.

Aquelas duas criaturas, que pareciam nascidas do mesmo beijo e criadas uma para a outra, completavam-se e compreendiam-se.

Não eram apenas dois amantes que se uniam; eram dois símbolos que se abraçavam, — o fado e as touradas, a ternura e a força, o cavalo e a guitarra.

Cada um deles realizara o seu sonho. Se não estivessem já tão presos pelos corações, o primeiro beijo que trocaram, cheio de febre, de loucura, de violência, de paixão, tinha-os unido para sempre. Depois de muita insistência, D. João pode convencer a cigana a deixar o Bairro Alto e a fugir com ele, os dois sozinhos, para uma casa do Campo de Sant’Ana, mandada arranjar pelo Conde com parte do mobiliário austero do palácio.

O primeiro mês foi uma verdadeira lua-de-mel A Severa, no meio daquele luxo, estava desorientada. Não tinha a noção das preciosidades e das riquezas. Faltava-lhe tudo, sobrando-lhe tudo. Desconhecia a maior parte dos objetos de que se via obrigada a servir-se. Aquilo de ter criadas, de mandar, não era para ela. Chateava-se e ia ela própria fazer os serviços mais grosseiros. No entanto, dava aplicação errada a tudo o que a cercava. Uma vez, cobriu uma panela da cozinha com um prato riquíssimo do Japão, e encheu uma bacia de prata para lavar o chão da casa. D. João, quando as criadas lhe contavam o que ela fazia, ria-se como um perdido.

Um dia, o Conde de Marialva, sentando a cigana nos joelhos, disse-lhe que era preciso deixar aquelas saias de goma, aqueles lenços sarapantões, aquelas socas de palmilha vermelha, aqueles xailes da Mouraria reveladores da sua triste origem, e substitui-los por vestidos de seda de grande dama, pelas preciosidades de tarlatana cor-de-rosa, bordadas a prata, que a Levaillant inventava para as sauteries do Rato e para os serões das Laranjeiras.

Foi um inferno. Não gostou. Queria ser como era, que fora assim que ele a encontrara e que se ele não a queria assim, que a deixasse ir embora para a sua vida. D. João só conseguiu convencê-la quando lhe disse que, fazendo dela uma senhora e podendo-a apresentar aos seus amigos, a teria mais tempo junto de si.

Os primeiros encontros da cigana com as modistas foram um divertimento para o Conde de Marialva.

Quando, finalmente, uma das melhores modistas de Lisboa lhe trouxe um belo vestido de camaieux deté, todo enfeitado de grinaldas de rosas, com que o Conde tencionava apresentá-la numa ópera do São Carlos, a Severa teve uma fúria. Revoltou-se, esbravejou, atirou com o vestido, gritou; disse que antes queria andar nua do que “arreada de madame”, e embrulhando-se nas dobras coleantes do seu xaile de cores, disse ao Conde, com o ar do seu esplêndido orgulho de rameira desdenhosa:

— Se gostas de fado rico, há por ai muito, entendes?

O vestido ficou. Mas a Severa só o trazia por casa, para se divertir, pavoneando-se com ele à frente das criadas.

Pouco depois o precioso camaieax, a que as grinaldas de pequenas rosas de toucar, à moda da altura, davam uma frescura e uma graça de fazer inveja ao costamier Wortb, estava machucado e sujo de nódoas, como um farrapo.

Mas D. João achava uma graça infinita àquilo tudo. Era assim mesmo que ele a queria, brava, extravagante, cheia de independência, de originalidade, de vida.

Ao fim de muita insistência, a Severa lá condescendeu em vestir-se de “madame”, mas com simplicidade, sem os exageros das modas de 1848, e sem a crinoline que tornava ainda mais sensível o seu andar desnalgado e plebeu.

O que o Conde nunca conseguiu foi que a cigana se desfizesse do seu guarda-roupa antigo. As saias de ganga, de três folhos, continuavam dobradas dentro de uma arca, e, quando andava por casa, as socas de verniz, bocejando-lhe nos pés, acanalhavam os seus vestidos sérios de organdi e de gros de Nápoles.

— Mas para que guardas tudo isso? — perguntava-lhe às vezes D. João.

— É para quando tu me deixares, — respondia-lhe ela, num grande riso cheio de confiança e de orgulho.

A primeira vez que se zangaram, tinha o Conde de Marialva ido a uma tourada em Salvaterra de Magos. Quando voltou, encontrou em casa o Custódia.

Não disse nenhuma palavra. Agarrou o aleijado pelo pescoço e atirou-o pela escada abaixo. A Severa ficou quieta, pálida, as mãos crispadas amarfanhando a saia. Depois encarou D. João, mediu-o de alto a baixo com o olhar e disse, provocando-o:

— Se fosses outro que me fizesse o que fizeste agora, partia-te a cara!

— Mas sou eu, — disse tranquilamente o Conde.

O amuo não durou o tempo de fazer um cigarro.

O Marialva olhou-a, sorriu, e ela caiu-lhe nos braços, palpitante, sem se lembrar já do pobre idiota que rebolara pela escada com o lenço vermelho atado na cabeça.

Mas, daí a pouco, houve outra tempestade. Estava por esse tempo em S. Carlos uma cantora francesa, chamada Jenny Ollivier, mulher alta, loura, grandiosa como uma catedral, com quem o Marquês de Niza mantinha relações de íntima galantaria.

O Conde estava no segredo desses amores e ia várias vezes a casa da cantora, — um segundo andar do Chiado, onde o Niza reunia a juventude dourada da altura.

Por portas travessas, a Severa soube das visitas do Conde; suspeitou de que ele não ia lá por bem e ardendo de ciúme, mas sem se atrever a dizer uma palavra ao Marialva, para não espantar a caça, começou a pensar na maneira de desfeitear Jenny Ollivier.

Um belo dia, quando a cigana já estava morta por atirar à cara de D. João tudo quanto sabia, tudo quanto suspeitava, o caso dos amores com a cantora e a outra história do passeio na traquitana, o Conde, muito naturalmente, disse-lhe de repente:

— Não me esperes esta noite. Deita-te.

— Não vens...?

— Não.

— Porquê?

— Tenho que fazer.

— Aonde?

— Vou com o Niza ao S. Carlos e depois a uma ceia.

— E eu não posso ir?

— Hoje, não.

— Porque não me levas?

— Porque não posso. Já te disse.

— Então é uma ceia de atrizes?

— Com a amante do Niza.

— Como se chama ela?

— Jenny Ollivier.

A cigana, quando ouviu o nome, teve um estremeção súbito, os olhos brilharam-lhe numa luz fulva de animal bravio, mas conteve-se arrepelando a saia.

— Então é a amante do Niza, essa tipa… Percebo! E tu, que vais lá fazer?

— Eu?

— Porque é que não vens esta noite? Diz, anda! Dormes com eles, também?

D. João, que estava de bom humor, deixou-a dizer impropérios, à vontade. Agarrou na guitarra e zangarreou um fado. A cigana calou-se, a um canto. Passado um instante, disse secamente da sombra:

— Olha lá... E o que é que se canta hoje?

— Canta-se a Favorita. Uma coisa de que não fazes ideia nenhuma.

— Não. Tu é que não fazes!

Até que o Marialva saiu, a Severa não disse nenhuma palavra. Os seus olhos fixos, acesos na sombra, cintilavam como se tivessem lá dentro vidros de cores.

No seu despeito de amorosa, que sente o homem do seu coração em perigo de ser disputado por outra, pensava em fazer uma partida à cantora francesa que fosse notícia por toda a Lisboa. Mas que havia de ser?

Quando, ao bater das sete horas da noite, D. João se despediu dela e abalou pela escada a baixo, a cigana pôs-se a saltar no meio da casa, como uma doida, agitando os quadris num desnalgar de fandango, mandou acender a luz, chamou as criadas, pôs tudo em polvorosa, pediu a sua antiga saia de ganga de três folhos, os antigos lenços sarapantões, os antigos ouros, as socas palmilhadas de bata vermelha, todo o guarda-roupa do Bairro Alto que dormia, como uma saudade, no fundo de uma velha arca de madeira, e desatou a vestir-se, numa febre, numa alegria, apertando o corpete, calçando as meias, prendendo os brincos.

Depois, já pronta, mandou vestir um saiote a uma das criadas, para a acompanhar até ao S. Carlos.

O caminho era longo. Quando lá chegaram, já tinha começado o espetáculo. Antes de subir o pano, a orquestra arfava, numa ondulação, numa respiração metálica de violinos, o prelúdio da Favorita.

A Severa, escondendo-se atrás do capote vermelho da criada, apareceu ao bilheteiro, pediu um camarote e pagou.

Em seguida perguntou a um serviçal do teatro qual era o caminho, e lá foi, gingona, num tilintar de ramais de colares e de cordões de ouro, estalando as socas pelos corredores do São Carlos.

Quando a Severa apareceu ao parapeito branco do camarote, o seu aparecimento fez sensação.

A enorme sala do São Carlos trasbordava de uma multidão elegante de casacas azuis e verde-bronze, de calvas apostólicas, de decotes em jarra, onde as carnações opulentas palpitavam e onde refulgiam as joias prediletas da altura, — os topázios, os camafeus, os cabochões. Era o melhor da aristocracia e da plutocracia lisboeta, o tríplice extrato dos melómanos de convicção, a plateia exigente — então uma das mais terríveis da Europa — que fazia e desfazia reputações de artistas, que proferia sentenças sem apelação sobre os trinados das prima-donas, sobre os entrechats e os jettés battus das bailarinas, sobre o mérito das partituras italianas, que nunca se consideravam no mundo musical sucessos completos enquanto não recebiam a confirmação de Lisboa.

Nos camarotes e nas bancadas, de uma sóbria decoração Luís XVI, floriam os decotes, rompia uma verdadeira sinfonia de carne, toda a orquestração da nudez, desde o violino subtil das carnações louras e pálidas, até ao piano-forte dos grandes seios trigueiros, coloria-se a teoria dos toucados de rosas, de plumas, de diamantes, de veludo vermelho enramado de pérolas, arfavam os leques, faziam ostentação e parada as belezas profissionais da alta nobreza e da alta finança, que se vestiam pelos figurinos da Abeifie, que tinham paixões incendiárias por vários Werthers de colete amarelo, e que povoavam, como dríades, como náiades fugitivas, as festas galantes do Rato e das Laranjeiras.

Foi perante esta sociedade cheia de preconceitos, grave e empertigada, elegante e faisandéê, que a Severa apareceu, como um desafio, em pleno camarote — o único camarote vago — derrubando o xaile num repelão de faltistria, gingando em pimponices e em arremessos do Monete, a saia de ganga amarela toda encrespada de folhos, os brincos de ouro chispando nas orelhas, a cabeleira luzidia e negra trasvolteando na testa.

Ao entrar, para ser bem notada a cigana arrastou as cadeiras, derrubou o saiote sobre o parapeito, bateu as socas no chão, fungou, resfolegou, tossiu.

A plateia inteira voltou-se, irritada, e deu com a rameira repimpada no camarote, magnífica de beleza e de audácia, latejante de sangue e de vida, como uma grande flor vermelha entre camélias pálidas e desbotadas.

Foi um escândalo. As senhoras, nos camarotes, afastavam os olhos e, ofendidas, segredavam umas para as outras. Na plateia, os rapazes, a juventude dourada no Marrare, de gravata à Malibran e bofes de bretanha branca pingados de joias, sorriam, entreolhavam-se, diziam alto:

— É a Severa...

— A amante do Marialva...

— A cigana!

Um murmúrio de admiração pela beleza daquela singular mulher percorreu todo o teatro. No entanto, a Severa, divertida com o sucesso que estava a fazer, olhava para toda a gente, mostrava num riso aberto os dentes muito brancos, repoltreava-se com insolência no camarote.

Do lado, disseram que era nessa noite o benefício da Ollivier, e que, portanto quando a cantora entrasse, romperia uma ovação. A cigana ouviu, e fez logo tenção de aproveitar a oportunidade para a sua estrondosa vingança.

Não se fez esperar muito o momento.

Minutos depois da entrada escandalosa da Severa, entrava em cena a Jenny Ollivier, empoada, majestosa, uma verdadeira Pompadour do melodrama, enchendo o palco com aqueles gestos enfáticos e aquela voz de ouro que tinham deslumbrado e rendido o Marquês de Niza.

A plateia levantou-se numa ovação.

Mas, de repente, no meio do estralejar das palmas é dos victores da assistência, ouviu-se um rugido selvagem, rebentou um matraquear de traves de encontro ao soalho, e uma voz possante de mulher, dominando tudo, gritou, rouquejou, uivou:

— Fora! Fora! Fora!

Era a cigana que, em pé no camarote, numa enorme apoplética, a cabeça erguida, encarando num desafio a multidão, quebrava as cadeiras, sapateava os tamancos no sobrado, barregava entre gargalhadas, numa fúria, numa alegria:

— Fora, a cabra! Fora, a porca! Fora, a tarasca de feira! Cala-te, rocim das tropas! Cala a boca, bragal de pasteleiro! Fora, ó odre de ingleses! Fora!

Perante aquele escândalo formidável, a orquestra calou-se, a cantora, que ia atacar uma ária, desmaiou, e a gente do Marquês de Niza, saindo em tropel da plateia, correu para o camarote da cigana, para a arrancar dali e lhe pregar com os ossos na cadeia.

Era uma malta alugada de facínoras, de rufiões, de janotas, de fidalgos arruinados, gente ignóbil paga pelo Marquês para ser claque da cantora, que não hesitava, se preciso fosse, em sacrificar uma vida para a glória de Jenny Ollivier.

O primeiro que apareceu à porta do camarote caiu por terra, com a cabeça aberta pela trave de uma cadeira. A cigana, admirável de serenidade, descarregara certeiro o golpe.

Mas a onda entrou e envolveu-a. Entre o grupo que a tentava dominar tentando mete-la debaixo do joelho, a Severa fazia prodígios de bravura, vasquejava, varria o bando para o ter de novo sobranceiro, até que o Conde de Marialva, prevenido no palco do que se passava, saiu pela lado do pano já descido, saltou à orquestra, atravessou a plateia, viu a amante, galgou as bancadas, tirou uma pistola debaixo do colete bordado, e encarando o bando, disse, tranquilamente:

— O primeiro que tocar nessa mulher, tem uma bala na cabeça!

O espetáculo foi interrompido.

A Severa voltou para casa numa traquitana, com D. João. Ao chegar à porta, de súbito, soltou um grito, agarrou-se ao Conde, e, mortalmente pálida, as mãos crispadas, como um farrapo, caiu sobre o poial, num desmaio surdo.

O Marialva e o cocheiro ajudaram-na a levantar, levaram-na escada acima, e deitaram-na sobre a cama.

O cirurgião veio depois. Tinha sido uma ameaça de angina do peito.(*)

 

[(*) Angina do peito = Arritmia cardíaca. Leve ataque do coração ]

 

Ainda nessa noite, a cigana melhorou muito. Sentia apenas um formigueiro, que lhe corria pelo braço, até ao dedo mínimo, e uma sensação vaga de dor e de cansaço em todo o lado esquerdo do corpo.

No dia seguinte, ao acordar, levantou-se, e viu-se num grande espelho de parede. Tinha o corpo cheio de nódoas negras. D. João, longe de se zangar com ela pelo escândalo do São Carlos, tratava-a cada vez melhor; mas, para evitar novas loucuras, julgou prudente reduzir as liberdades que concedera à cigana, proibindo-a de sair de casa, a não ser acompanhada por ele.

Com um animal bravio e livre como a Severa, aquele novo regime de reclusão não podia dar bons resultados. A cigana, a princípio, revoltou-se; depois, começou a entristecer, cavaram-se-lhe olheiras profundas, faltava-lhe o sol, a independência, a liberdade… — que eram para ela a expressão da própria vida.

Aquela casa triste e opulenta, com móveis negros de pau-santo e tapetes que lhe amorteciam os passos, aparecia-lhe agora como uma prisão, E o amor, para a cigana, não era a prisão e o silêncio; era o movimento, a alegria, a estúrdia, a aventura.

A antiga vida do Bairro Alto, à toa e à tuna pelas ruas, vadiando e cantando debaixo dos alpendres e dos ressaltos, na liberdade mais absoluta, fazendo o que muito bem lhe dava na tineta, vivendo ao sabor da sua imaginação, ao acaso das suas paixões, aparecia à Severa como uma ressurreição, como um regresso à felicidade antiga, e o velho bairro, inundado de sol, parecia chamá-la, acenar-lhe de longe.

A cigana começou a pensar a sério em fugir. D. João suspeitou do que se passava no espírito da rapariga e, daí por diante, levou-a a passear pelas feiras e pelas tentas e pelas touradas, num delírio de movimento que a aturdiu e lhe deu, durante alguns dias, a ilusão da sua antiga liberdade.

Entretanto, na alta roda, o escândalo do São Carlos correu de boca em boca e de sala em sala.

Quase se pediram contas ao Conde de Marialva por ter aquela amante, colhida nos becos de um velho bairro torpe, e tendo passado das mãos de cocheiros e de eguariços para as mãos de um dos mais belos fidalgos de Portugal.

As grandes damas pur sang da aristocracia lisboeta, com as suas olheiras pintadas a bistre e os seus grandes Bolívares de cetim e pérolas, falavam já na cigana à frente de toda a gente, mordiam os lábios despeitadas, como se aquela mulher, que cantava o fado com mais perfeita virtuosidade do que as bailarinas do São Carlos dançavam os bailados de Mr. Jork, fosse para elas uma rival perigosa.

Os homens — aqueles que, evidentemente, que não eram frequentadores das ruas estreitas da Mouraria — começavam a manifestar uma viva curiosidade pela cigana.

Muitos deles, os grandes leões da moda, da política e das letras, a cujos ouvidos chegara a fama da Severa no zangarreio da viola, não escondiam o sincero desejo de a ouvir, de a admirar, de conhecer essa joia de sentimento que o Conde de Marialva encontrara na lama das vielas.

Um belo dia, D. João decidiu proporcionar-lhes uma audição da Severa.

Para isso, convidou o maior número possível de homens notáveis da altura, ministros, literatos, fidalgos, todas as costelas de ouro e toda a estirpe de Júpiter da altura, enviando, a cada um deles, duas linhas em que era pedida a fineza de uma entrevista particular, certa noite, no seu solar do Campo Grande.

Todos acorreram ao convite, sem saberem uns dos outros, e sem suspeitarem, sequer, da singular noite que os esperava.

Na noite aprazada, as salas do palácio dos Marialvas, com os seus tetos de madeira em caixotões, os seus altos silhares de azulejo, as suas paredes forradas de velha seda vermelha, encheram-se de figuras vagarosas que entravam solenemente, interrogando-se umas às outras com o olhar, impacientes pela chegada do Conde, que lhes explicaria, certamente, a razão daquela assembleia de homens notáveis.

Entre os convidados, os braços apoiados no espaldar de uma velha cadeira de sola, José Estêvão erguia a vigorosa cabeça leonina e branca, sem atinar com o motivo por que o teriam chamado ali:

— Talvez política...

A um canto, Garrett, de casaca verde-bronze em busto de abelha, gravata preta de três voltas, conversava com Rodrigo da Fonseca, abrindo, para a pitada solene das grandes ocasiões, a sua caixa de ouro de rapé.

Mais afastado, junto de um velho contador italiano, Rebelo, o grande adversário de Rodrigo, discutia com Mendes Leal o último artigo da Ley.

Soto-Maior, pelo braço do Duque de Ávila, dir-se-ia Brummell conduzindo um pavão.

No soalho encerado, os passos ressoavam. Falava-se baixo. Na fisionomia de todos aqueles homens ilustres notava-se um vago ar de interrogação e de mistério. Até o próprio Herculano, glabro e sacerdotal, correra ao convite do Marialva, sem saber ao que vinha, ele, o erudito frade bento, em cuja face havia a dureza de expressão dos velhos bronzes romanos.

Os vários grupos confundiam-se, interrogavam-se, olhavam-se.

O último a entrar foi o ministro dos estrangeiros, Jervis da Atouguía, que se apartou imediatamente, com o sumptuoso Garrett, para o vão de uma janela.

Todos os convidados faziam as mais variadas conjeturas acerca das razões daquela reunião, quando um dos largos reposteiros de tapeçaria se afastou, e a figura risonha do Conde de Marialva apareceu à porta.

Trocaram-se os primeiros cumprimentos. Aqueles homens graves notaram com estranheza que D. João os recebia de jaqueta de veludo preto, cinta e esporas de prata, como se aquilo se tratasse de uma tenta de gado ou de uma espera de touros.

Garrett, suscetibilizado, compondo os bofes de rendas da camisa e relanceando os olhos verdes, tinha o ar de quem pergunta:

— O quê? Pois nem sequer uma sobrecasaca, meu amigo?

Os políticos julgavam-se já vítimas de uma brincadeira de mau gosto, quando D. João, tomando a palavra, os tranquilizou:

— Trata-se, meus senhores, — disse ele — de satisfazer coletivamente um pedido particular que cada um de Vossas Excelências me fez.

Os grandes homens entreolharam-se, corando até às orelhas.

O Marialva continuou:

— A Severa está ali dentro. Nenhuma de Vossas Excelências a verá, nem ela verá a Vossas Excelências. Por detrás daquela tapeçaria há uma porta que dá para um pequeno gabinete onde a instalei.

Deve ouvir-se perfeitamente. Queiram Vossas Excelências dizer-me se preferem o rigoroso, ou qualquer outro fado, incluindo o dela. Vossas Excelências dirão. É à escolha. Não façam a mais pequena cerimónia comigo. Bem veem como os recebi.

Aquela grupo de Ménalo ficou imóvel e perplexa. Uns não sabiam se deviam rir; outros, se deviam considerar-se melindrados na sua gravidade e na sua compostura. Todos eles tinham, é certo, falado ao Conde de Marialva no seu desejo de ouvir um dia a cigana; mas nunca lhes passou pela cabeça que o fidalgo os convocasse daquela maneira tão indiscreta e tão escandalosa.

Rodrigo da Fonseca ia a dizer não sei que palavras de estranheza, quando a guitarra da Severa, no aposento contíguo, preludiou um choradinho.

D. João cumprimentou, risonho, e retirou-se.

Um arrepio de gemidos metálicos, como uma asa invisível, vibrou no ar.

Pouco depois, no meio de um silêncio profundo, uma linda voz ergueu-se, ao mesmo tempo doce e rude, trinada e arquejante, alegre e triste, uma voz rica de modulações, quente de paixão, trilo e soluço, rugido e uivo de amor, uma voz que parecia ressoar dentro de cada coração que a ouvia, que lembrava, em cada nota, evoés pagãos, brasas coruscando, fios lampejantes de navalha, volúpias de fera amorosa, tilintar de sinos ao longe, uma voz onde se sentia, onde se adivinhava a palpitação de todo o sentimento humano, a alma de uma raça moribunda brotando intacta, sangrenta e viva de uma só boca de mulher.

A impressão foi profunda. Uns minutos mais, e por todas aquelas faces enrugadas e endurecidas na glória, nos anos, na apatia das raças aristocráticas, no duro oficio de mandar, por todas aquelas máscaras, que o trabalho da vida vincara de uma velhice temporã, por todos aqueles rostos as lágrimas caíam, lentas, numa ternura muda e absorta, como se todos aqueles velhos fossem adolescentes, como se todos aqueles corações tivessem vinte anos...

A Severa conseguira desses duros temperamentos, fundidos em bronze pelas vitórias, aquilo que a maior dor humana talvez não conseguisse: fazê-los chorar.

 

****

 

Um belo dia estava D. João na cavalariça dos seus paços, conversando com toda a malta de palafreneiros, liteireiros, cocheiros e eguariços, quando lhe anunciaram a visita da Macheta.

— Quem é? — interrogou o Conde, fixando o solarengo de libré verde que aparecera à porta.

— Uma velha, que é santeira, — respondeu sisudamente o criado.

O Marialva deitou pelos ombros a casaca pesada de argentarias, pôs o chapéu, puxou a cinta num repelão, e respondeu para o criado:

— Santeira...? Não conheço. Que quer ela?

— Não me disse, senhor Conde.

Mas como D. João se calou, pensando em quem seria a Macheta, o criado perguntou, discretamente:

— Vossa Excelência quer recebê-la aqui?

— Uma santeira? Não. Recebo-a na capela.

O criado sorriu, hesitou um instante, mas a um gesto do Marialva não teve remédio senão ir, solene no seu redingote verde, a introduzir na capela do palácio a santa madre Celestina.

Quando a velha soube da honra que lhe estava reservada, não pode disfarçar uma leve crispação de boca pela estranheza da receção, tratando-se ainda por cima de um fidalgorro corredor de touros, useiro e vezeiro em rixas noturnas, pouco beato no seu costume, e, para maior escândalo, um ruão velho e batedor azevieiro do Monete e da Madragoa.

Daí a pouco, a Macheta, saracoteando o saiote encarnado, como uma opa, entrava na capela do Conde de Marialva, benzia-se, relanceava os olhos para um retábulo do Pentecostes, obra de Pedro Alexandrino, e sentava-se num tamborete raso, à espera.

— Até à data — pensava ela consigo mesma — tenho sido recebida em pátios, em alcovas, em guarda-roupas, em térreas, em sótãos... Agora em capelas, é a primeira vez, assim Deus me ajude!

Passado o tempo de dois padre-nossos, D. João apareceu, num tilintar de esporas:

— Divinum auxilium maneat semper nobiwam. Ámen.

Ao ouvir o latim daquele “salve-te Deus”, a trota-conventos levantou-se do tamborete, juntou as mãos, todas enramadas de rosários, e gemeu numa vozinha de flauta:

— Pater Noster. Ave Maria. Que Vossa Excelência tenha muita vida e saúde em companhia de quem mais estima. Ora pro nobis.

O Conde sorriu, obrigou a alcoviteira a sentar-se junto dele, e, brincando com os fechos de prata da casaca, interrogou, docemente:

— Então, vamos lá a saber o que quer a senhora Macheta.

A velha mascou, engoliu em seco, pôs os olhos em alvo, espalmou as mãos em posturas seráficas, e ao fim de trinta e sete segundos, que o Marialva contou pelo relógio, grunhiu em murmúrio:

— Vossa Excelência há de ter ouvido falar de mim.

— Não. Não estou certo.

— Ora... Ora!

— Só me disseram que era santeira. Então, como, vai o negócio?

— Mal, senhor Conde. Mal. Lá o negócio dos santos vai muito mal. Já se foram os tempos da boa devoção. Quem deitou para fora da terra os nossos ricos fradinhos, não soube a maldade que fazia! É o que eu digo a Vossa Excelência! O que se quer é forca! Outra vez a forca! A forca e o senhor D. Miguel, que aquilo, não desfazendo, era um santinho!

— Pois era, era. Mas vamos ao que importa. A que devo eu à senhora Macheta o prazer da sua visita?

A velha mascou outra vez, correu entre os dedos as contas do rosário, titubeou, e não atinou com o que havia de dizer. Aquele oratório de velha talha dourada, onde o altar esplendia com a sua toalha muito branca, não lhe parecia próprio para pensar em profanidades. Mas D. João tranquilizou-a. Era ali, na capela — disse ele — perto de Deus e longe dos homens, que recebia as pessoas da sua particular consideração. A velha, já senhora de si, ergueu-se, agradeceu fazendo uma vénia com a ajuda do capote, voltou a sentar-se, e começou a falar confiadamente no assunto que ali a trouxera:

— Pois eu, venho da parte de uma rapariga que o senhor Conde conheceu em tempos...

— Eu?

— É verdade.

— Uma rapariga nova?

— Nova ela não é... pois tem uma filha com uma boa idade!

— Mas a quem se refere? — insistiu D. João, sem compreender.

A Macheta relanceou para o Marialva um olhar misterioso, esboçando, com os dedos sapudos e cheios de missanga, uns trejeitos significativos:

— Ora... O senhor Conde bem sabe...

E como D. João a encarasse ainda, no ar vago e inexpressivo de quem não entende, a trota-conventos não teve remédio senão explicar-se melhor:

— Então Vossa Excelência não se lembra daquela rapariga do Capelão, chamada Cesária, a mãe da...

Mas suspendeu, atentando na piedade do lugar, os olhos fitos na pintura do grande retábulo, como a pedir à pomba do Espírito Santo que a iluminasse.

O Conde, para quem ela olhara do canto do olho, a ver que impressão lhe tinham feito as suas palavras, via-o sombrio, de sobrolhos carregados. Mas já não havia remédio, e a trota-conventos continuou, aflautando mais a voz:

— Coitada! Está na miséria. Velha, acabada, cortada de ralações... Porque aquela vida, senhor Conde, envelhece as mulheres muito cedo. Ali, num casinholo do Capelão, metida com a ralé dos marujos e dos ciganos... Só o que eu sei dela, dava para chorar a meio mundo! Coitada... Conta-me tudo. “Não digas tua pobreza a quem não te há de dar da sua fazenda”. É bem certo o ditado. Eu não lhe posso dar... O negócio vai mal. E o senhor Conde sabe onde isso da falta de dinheiro pode levar uma mulher. “Ladrão de pouco, da agulha ao ouro e do ouro à forca”. Ora eu, que sei que Vossa Excelência tem bom coração, e que noutros tempos gostou dela, coitada... Atrevo-me... Sim. Não sei se Vossa Excelência entende...

A velha calou-se, estorcegando aflita as pontas do saiote encarnado.

D. João, que a ouvira atento, esteve um momento silencioso, olhando para as flores do tapete. Depois levantou-se, e, num tom de voz seco e áspero, disse à Macheta:

— Espere-me um instante.

A santa madre Celestina, de novo sozinha no oratório, ficou a olhar para a luz inquieta da lâmpada de prata que bruxuleava e para as imagens que povoavam o único altar — de certo velhas imagens espanholas do século XVII.

Daí a pouco, o Marialva apareceu de novo à porta da capela e, sem uma palavra, entregou à beata um pequeno saco de camurça onde tiniam moedas de ouro.

A Macheta teve vontade de o abraçar. Mas deteve-se a tempo, lembrando-se de que o Conde de Marialva não era propriamente o santo deão barregueiro da Sé de Lisboa, que lhe oferecia pitadas de esturrinho pela caixa de rapé do senhor D. Miguel.

Quando se despediu, a beata não pode conter-se sem dizer ao Conde:

— Eu tenho um sobrinho, que Vossa Excelência conhece...

— Quem é?

— Um a que chamam de alcunha o Custódia. O senhor Conde já o viu...

D. João olhou para a velha com repugnância, mediu-a de alto a baixo, desde o bico gomado do lenço até à orla do saiote vermelho, e disse-lhe bruscamente, franzindo a testa:

— Conheço-o.

Mas a velha, morta por falar, de chocalheira índole, sacrificando tudo pelo prazer de dizer alguma, coisa, fez um sorriso de ternura, encarou D. João, e com a face oleosa iluminada de júbilo, balbuciou:

— Ele agora lá está em casa da menina Severa....

O Conde empalideceu, franziu as sobrancelhas, empurrou ligeiramente a Macheta para fora do portão até onde a acompanhara, e disse-lhe, batendo duramente as palavras:

— Pois veja se consegue lá chegar antes de mim!

A ideia de que esse pobre animal existia, perturbava profundamente D. João. Ele sabia bem que havia para as mulheres o prestígio da desgraça, tão grande como o prestígio da beleza e da força, e que a miséria daquele desventurado, figura de sombra e de martírio, embrulhado no seu capote, a cabeça atada num lenço vermelho como os mendigos de Zurbaran, hediondo, doloroso, imundo, fazia vibrar no coração da Severa uma fibra oculta e misteriosa, feita de piedade, de misericórdia e de ternura.

Por isso D. João, pensando no pobre Custódia, que a desgraça espiritualizara e engrandecera no coração daquela mulher, afinal tão desgraçada como ele, dizia consigo, enquanto um moço de estrebaria lhe afivelava as esporas:

— Como eu viveria tranquilo, se Deus o tivesse feito belo, robusto e nobre!

Daí a um momento, o cavalo de D. João estava selado. O Marialva montou, chegou-lhe as puas de prata aos ilhais e saiu a correr em galope levantado.

O sol descia já, como um grande escudo de cobre ardente, sobre o arvoredo sombrio de Alvalade. Na estrada, as sombras alongavam-se, e dos recantos dos velhos muros subia uma névoa roxa de crepúsculo.

A meio do caminho encontrou a Macheta, passou-lhe ao lado e desapareceu numa volta, deixando para trás, numa nuvem de poeira, a mancha viva do seu saiote encarnado.

Foi então que a velha se recordou das palavras do Conde, ao despedir-se dela: “Veja se consegue lá chegar antes de mim!” Veio-lhe à lembrança a expressão carregada do Conde ao despedi-la, e estremeceu. Alguma coisa era. Num impulso instintivo, quis atirar-se, correr atrás do cavalo, sustê-lo pela rédea, impedir qualquer desgraça. Mas parou ao cabo de uma corrida inútil, a cara encarniçada, o pescoço a afogá-la, os olhos cegos da poeira.

— E correr para quê? Que mal poderia ele fazer àquele desgraçado aos tombos na vida, sem eira, nem beira, nem ramo de figueira… — ele, que era poderoso, rico e feliz? Teria o Conde ciúmes do Custódia, por ele lá estar sozinho com a Severa?

A este pensamento, a beata não pode deixar de grunhir uma risada, abandando a cabeça como quem resmunga:

— Olha que ideia esta! Então, já viram? O senhor Conde de Marialva podia lá ter ciúmes do meu sobrinho!

E, toda contente, seguiu pela estrada fora, o capote sofraldado, o saco de camurça bem colado aos peitos, na íntima satisfação de ir levar à outra infeliz as moedas que lhe mandava a piedade do D. João.

A Cesária devia esperá-la como quem espera a luz dos olhos. Logo que chegasse trataria da vida, e à noite daria uma saltada ao Capelão. O que a Macheta levava para contar! A receção no oratório do palácio, a conversa com o fidalgo, os amores dele com a Severa, a galopada a caminho de Lisboa, logo que a beata lhe falara na amizade do Custódia pela galdrapa, — tudo aquilo havia de interessar à pobre Cesária, cujo coração sangrava de dor pela traição da filha, aquela filha por quem ela tanto se tinha sacrificado e que se atravessara, como uma loba, à frente dos beijos que eram para ela.

No entanto, o Conde chegava ao Campo de Sant’Ana, apeava-se do frisão ensanguentado da carreira, entregava as rédeas a um criado de capote às riscas amarelas e pretas, que surgira de um canto, e subia a escada da casa da Severa, a quatro e quatro.

Chegado acima, bateu à aldraba da porta, com estrondo. Não teve resposta. Bateu de novo. De dentro, ouviu-se um reboliço aflito, um restolho de passos, um ruído matraqueado, como se alguém, sobre o soalho, arrastasse uma muleta. Depois, de novo o silêncio. O Marialva, já com o sangue todo na cabeça, bateu uma terceira vez. Então, a porta abriu-se e a Severa apareceu, um pouco pálida, muito composta no seu vestido preto, um sorriso postiço e contrafeito a brincar-lhe na boca:

— Ah! És tu?

O Conde não respondeu. Entrou, relanceou um vago olhar pela casa, ajustou a casaca, puxou a cinta, fez tinir sobre o soalho, em passos nervosos, as esporas de prata, e sentou-se sem dizer uma palavra.

A Severa, querendo disfarçar a sua perturbação, ria, gingava, derrubava a linda cabeça trigueira nesses gestos tão conhecidos do Conde, que costumavam preceder, nas ternuras da cigana, as grandes fúrias de beijos.

Mas D. João cortou-lhe essa saída fácil, dizendo secamente:

— Onde meteste o Custódia?

Desconcertada pela pergunta, a Severa estremeceu, subiu-lhe o sangue todo à cara, gaguejou, os dedos crisparam-se-lhe no veludo do reposteiro e só ao fim de uns segundos conseguiu responder:

— Qual Custódia...? Onde é que tenho o Custódia? Com que ideias tu vens!

O Conde enrolou um cigarro, traçou a perna, limpou a calça de belbutina suja da cavalgada, e disse, aparentemente sereno:

— Põe o Custódia fora da porta, senão atiro-o eu pela janela.

Então, a expressão da Severa transfigurou-se. Os seus olhos fuzilaram, como pontas de aço. Todo o corpo se lhe inteiriçou, numa atitude de desafio.

Eram os prenúncios da tempestade.

Houve um pequeno silêncio, que a situação de ambos tornou demasiado longo.

Foi o Conde que o cortou, insistindo, num tom de voz rude:

— Não ouviste o que eu te disse?

Mas a Severa não se moveu. Conservou-se, na mesma atitude e na mesma mudez, olhando fixamente D. João. Pouco a pouco, o corpo descontraiu-se, a face tornou-se mais serena. Na fisionomia adivinhava-se a firmeza de uma resolução.

No entanto, o Conde começava a perder o sangue frio. Os lábios tremiam-lhe, as mãos tateavam febrilmente os fechos da casaca. Tivera já dois gestos de corpo que mostrava a sua vontade de a erguer e esbofeteá-la, mas contivera-se a tempo. Mais um minuto e não responderia por si.

Foi então que a Severa, numa voz calma, os olhos límpidos descansados nos olhos febris de D. João, se decidiu a falar,

— Mas porquê? Porque tens tu tanta raiva ao Custódia? Eu não te disse já que era como se fosse meu irmão? Que imaginas tu que nós temos um com o outro? Não percebes que ele é um desgraçado, não o conheces, não o vês? Então eu não te disse, eu não te repeti que ele morria como um cão se não me visse mais? É um desgraçado, não te faz mal nenhum.

D. João, que mal ouvia as palavras da Severa, tinha os olhos cravados no reposteiro vermelho da porta. O veludo movera-se quase impercetivelmente, como se uma aragem ligeira o aflorasse. O Conde percebeu que alguém escutava, por detrás da tapeçaria. Era decerto o Custódia. A Severa, que seguira o olhar de D. João, deu ainda um passo para se interpor. Mas o reposteiro voltou a agitar-se; a forma de um braço desenhou-se; já não havia dúvidas.

No silêncio, ouvia-se apenas o arquejar de duas respirações.

O Conde levantou-se de um salto, atirou-se para a porta, com as mãos crispadas na ânsia de um pescoço para apertar, mas, ao contacto do veludo, teve um grito rouco e recuou com a mão direita tingida em sangue. A navalha do Custódia tinha-o ferido através da tapeçaria. A Severa, aflita pela vista do sangue, correu para o Marialva; mas D. João, num movimento brusco, afastou-a, agarrou numa pesada cadeira de pau-brasil, e empunhando-a pela garra de um dos pés, arremessou-a de encontro ao reposteiro. Ouviu-se primeiro um regougo surdo, depois o baque da cadeira no tapete, por último a queda desamparada de um corpo, fazendo estremecer e abalar o soalho. Sem dúvida, o Custódia tinha sido atingido na cabeça, e agonizava talvez, de borco, por detrás da velha cortina de veludo vermelho.

A Severa e D. João entreolharam-se. De repente, a cigana teve a consciência de tudo, olhou para o Marialva, e, pálida, o corpo todo numa convulsão, desatou a berrar:

— Assassino! Assassino!

D. João agarrou-lhe os pulsos, tapou-lhe a boca com a mão ferida. Mas a Severa, ensanguentada já pelo ferimento do Conde, debatia-se, vasquejava, vibrava toda, e gritava ainda, gritava sempre:

— Assassino! Assassino!

Por fim, a cigana deixou de opor resistência nos braços do Marialva, e ficou inteiriçada, mortalmente pálida, as narinas dilatadas, morta, os olhos muito abertos e como se estivessem vidrados. Os gritos mudaram-se num regougo surdo. As nódoas de sangue, que lhe salpicavam a cara, ainda a tornavam mais trágica no seu inteiriçamento de cadáver. Quando D. João deu por isso, invadiu-o um invencível terror, deixou desmaiar o corpo no sobrado, abriu a janela de par em par, e gritou como um doido debruçado na varanda:

— Acudam! Acudam! Acudam!