A Severa
Capítulo IV · As relações entre D. João e a…
As relações entre D. João e a Severa continuaram na mesma.
No entanto, a vida da linda cigana mudara muito. Não recebia homens em casa. Apenas o Custódia, seu amigo, seu irmão. O Conde dava-lhe dinheiro a rodo. Tinha tudo o que queria. Deixara de ser a puta que se vende por doze vinténs de prata, sem ter perdido a sua independência, a sua liberdade, a maior riqueza das mulheres como ela, ansiosas de sol e livres como o vento da charneca.
A primeira proposta que D. João lhe fizera, tinha sido outra. O Conde pedira-lhe que abandonasse o Bairro Alto, aquela vida de porta-de-rua, e que fosse viver decentemente para uma casa em que ele a poria, como se fosse para uma grande dama, e onde, para a deslumbrar, a vestiria de seda e a cobriria de joias. A rameira, da sua natureza bárbara e selvagem, preferiu continuar a ser a primeira entre as da sua laia. Ficou no Bairro Alto, amparando as desgraçadas e dando de comer às que tinham fome. A Severa era a alma das desgraçadas do sitio, a sua protetora e a sua amiga. As outras respeitavam-na pela força do seu pulso e pela grandeza do seu coração. Naquele bairro era ela que fazia justiça. Quando alguma das outras vinha queixar-se-lhe, a chorar, a cara pingada de sangue e o corpo cheio de nódoas negras, de que o homem a maltratara, a Severa remangava-se, gingava, fuzilavam-lhe os olhos, e perguntava logo:
— Onde está ele?
Iam as duas à procura, e quando topavam o malafaia, a Severa mandava-lhe dois socos, e estava a justiça feita.
Se o homem fazia, sequer, menção de reagir, já se sabia que no dia seguinte uma corja de fidalgos, de palafreneiros e de eguariços, o deixava a escorrer sangue, no canto de algum pátio ou no poial de alguma porta.
Desde que se soube no Bairro Alto que o Conde de Marialva, o mais popular dos fidalgos da altura, protegia a Severa, o respeito pela cigana redobrou. Além disso, como ela tinha mais dinheiro, e o podia atirar mais à larga para o regaço das desgraçadas, o seu prestígio aumentava a cada dia. Era um ídolo. Quando passava nas ruas do bairro, com a tairoca polida a bocejar nas lajes, e os brincos de ouro a luzir sob a cabeleira escura, os rufiões tiravam os chapéus e as crianças vinham beijá-la à rua.
Para toda a gente a Severa era a amante do Conde de Marialva. Não à frente dela, mas à boca pequena, chamavam-lhe “a Condessa”.
No entanto, intrigava-os o facto de D. João ter alugado ao Manjerona, o botequineiro do sítio, a sobreloja em cima do botequim, para passar a noite quando ficava em Lisboa. E perguntavam, sem compreender:
— Então ele não fica em casa da Severa?
Daí sabiam, porque a Severa o dizia, que D. João lhe dava rios de dinheiro.
Além disso, a cigana, sem deixar o trajo pitoresco das rameiras, vestia com verdadeira riqueza, trazia as saias barradas de veludo, e aparecia, nas noites de espera de touros, toda cheia de pulseiras e de fios de ouro.
Não recebia ninguém em casa; por conseguinte, era o Marialva que lhe dava tudo. E se o Marialva lhe dava tudo pensavam os corações vulgares não era de certo pelos seus lindos olhos.
E, no entanto, D. João não era ainda amante da Severa.
Ao contrário de toda a fidalguia da altura, que já tinha cevado o corpo dourado da cigana com a sua fúria, o Conde de Marialva ainda não lhe tocara.
Porquê? Naturalmente, porque gostava dela. Há já um mês que aquela vida durava. Em casa da Severa não entravam senão dois homens: o Custódia e o Conde de Marialva. O pobre coxo epilético era o cão de guarda, que ficava embrulhado no seu ferragoulo, pelo poial das portas; D. João era o protetor desinteressado, que a visitava todos os dias, sem a beijar sequer, na vaga preocupação romântica de refaire une virginité àquela Marion Delorme do Bairro Alto.
Nos ouvidos do Conde vibravam ainda os gritos da Severa ao recebê-lo na sua casa humilde: “Não! Consigo não!”
E depois da noite em que a Cesária abrira a navalha para ele, a sombra dolorosa da velha cigana, interpondo-se a ambos, parecia afastar ainda mais a possibilidade de virem a ser um do outro.
Apesar disso, D. João e a Severa viviam felizes. Ela ia com ele às esperas dos touros, à garupa de um garanhão dourado, cavalo de raça como ela, a chinela a dançar-lhe no bico do pé, a guitarra a gemer-lhe na ponta dos dedos.
No Colete Encarnado, era uma perdição. Cantavam o fado os dois, no meio da malta dos cocheiros e dos troquilhas bodegões, e quando ao fim a Severa, sentada numa cadeira de tripeça, cantava o choradinho, as lágrimas borbulhavam de todos os olhos.
E no entanto, nem o Conde nem a cigana pareciam desejar que chegasse a hora de um contacto mais íntimo.
Em cada um deles havia o receio de ser amado pelo outro com a vulgaridade dos amores ignóbeis, de estragar numa posse grosseira, sem beleza e sem dignidade, o mais delicado sentimento do seu coração.
Quantas vezes a Severa perguntara a si mesma, abraçada ao Custódia, se o Conde a rebaixaria, no primeiro beijo que lhe desse, tratando-a como a uma mulher perdida, e atirando-a como um farrapo depois de se ter saciado dela.
O pobre epilético olhava-a, via a tristeza a tremerem-lhe nos olhos, sabia que tudo aquilo era por causa do outro, e perguntava-lhe, num sorriso triste:
— Porque choras tu, Severa?
Ela então reparava no desgraçado, cujos olhos, turvos de água, pareciam um espelho dos seus:
— E tu, também, porque choras...?
Por seu lado, o Conde de Marialva sentia um indefinível prazer em conservar aquela mulher para junto de si. O sentimento que nutria por ela não podia contentar-se com a posse de um corpo que tinha sido de todos; queria a posse de uma alma que ele bem o sentia não pertencera ainda a ninguém.
No coração da Severa só havia um afeto, e esse não o compreendia bem o Conde de Marialva: Era o Custódia. Que sentimento poderia ligar aquela singular mulher, bela e orgulhosa, ao pobre aleijado que a seguia sempre como um cão, de capote às costas e lenço vermelho apertado na cabeça como um mendigo sevilhano?
Decerto a piedade. Mas a verdade é que ela olhava para o desgraçado do coxo com uma ternura onde havia alguma coisa mais do que um sentimento de compaixão. Talvez a comunhão da desgraça; talvez a consciência de um destino semelhante, que os impelia um para o outro. Coisa curiosa!
E ele, o Conde de Marialva, que não tinha ciúmes de ninguém, tinha-os do Custódia. No coração da Severa, aquele pobre degenerado ocupava um lugar, donde talvez nem o amor de D. João conseguisse arrancá-lo. E se ela o amasse? Impossível. Por maior que fosse o mistério da alma de uma mulher, não seria fácil admitir semelhante monstruosidade. E entretanto, esse aleijado era o único homem capaz de disputar-lhe o afeto da cigana. Porquê? Podia porventura o Custódia comparar-se-lhe em força, em beleza, em nobreza, em bravura, a um pobre degenerado repugnante como um sapo e hirsuto e um lobo com fome? Não, sem dúvida.
Mas alguma coisa faltava ao jovem Conde Marialva, alguma coisa que enternece o coração das mulheres e que a Severa encontrava nos olhos turvos de lágrimas do pobre epilético: faltava-lhe ser tão desgraçado como ele.
A tourada de beneficência, que devia realizar-se no Campo de Sant’Ana, presidida pela senhora Infanta, cujo perfil Bourbon não perdera ainda a sua dignidade olímpica, tinha sido definitivamente transferida para o próximo domingo.
Quando a loura D. Ana se apeou do seu coche dourado — uma bela estufa que viera para Portugal no dote de uma rainha da casa de Áustria — e entrou na praça de touros, o povo levantou-se numa ovação enorme, que o ódio dos patuleas(*) não conseguiu abafar.
[(*) patuleas = calão para “espanhóis”]
Nessa tarde, toureava o Marialva.
Eram touros reais, corridos com o esplendor das antigas touradas do Terreiro do Paço, numa praça armada de damasco vermelho, onde uma ralé miúda de capigorrões espantadiços aguardava o arrancar da primeira fera e o cravar do primeiro roião.
Touradas em que entrasse o Conde eram para toda a Lisboa um acontecimento.
D. João, admirável na sua sorte à estribeira com touro levantado, que exigia, como nenhuma outra, a plena posse de todos os segredos da arte da gineta, tinha o dom especial de comover e de arrebatar a multidão, ávida de sangue e de emoções.
Quando o Conde toureava não havia praça de touros que se não enchesse a trasbordar.
Os empresários perseguiam-no, abusavam da sua popularidade, solicitavam constantemente a sua comparência em touradas reais, improvisadas sob pretextos escandalosos de beneficência.
A princípio o Conde cedeu. Depois, como a exploração fosse demasiada, teve de fazer sentir a certo picador antigo de D. Miguel, dono de uma praça de touros, que não estava decidido a permitir a continuação do abuso.
Quando esse empresário o procurou para o convidar a tomar parte de um torneio de caridade, pretexto para meter nos bolsos do gabão um bom magote de libras, o Conde disse, no melhor dos seus sorrisos:
— Muito bem. Mas devo prevenir vossa senhoria de uma pequena particularidade.
— Como assim...?
— É que eu não costumo, nem quero, receber absolutamente nenhuma remuneração.
— Oh! Nós já sabíamos que V. Exa era generoso...
— Mas o cavalo é que recebe, — concluiu o Conde, serenamente. — Recebe de salário cinquenta moedas.
O picador teve um riso amarelo, viu-se obrigado a aceitar as condições impostas, e largou as cinquenta moedas, jurando nunca mais ter negócio com aquela canalha de fidalguetes.
Foi remédio santo. Depois, só entrava nas touradas em que a sua presença era reclamada por alguma comissão de alta nobreza, caso contrário, esquivava-se.
A tourada de caridade, a que ia presidir a senhora Infanta D. Ana, tinha mais o interesse do toureio do Conde de Marialva.
A praça trasbordava de uma multidão congestionada, buliçosa, grasnante, colorida, arfante de leques. Uniam-se, na atmosfera resplandecente como um grande mosaico dourado, os perfumes aristocráticos de Laborde e o fedor trescalante das cavalariças. Cachos de cabeças humanas moviam-se no vasto anfiteatro, inquietas, grunhindo, barregando, ululando, com a ânsia do combate nos olhos coruscantes, ávidos de sangue e de luta.
Fermentava ao sol o entusiasmo da multidão que, como na antiga Roma, vivia feliz com o pão e touradas.
Ao entrar o capataz com a azémola das farpas, ricamente gualdrapada de brocado flamengo com as armas de uma casa fidalga, fez-se o silêncio. Iam começar as cortesias dos touros reais.
Pousados os caixões das farpas, veio o neto, vestido de negro, a máscara na face, os bucres da cabeleira fulva escorrendo do seu largo chapéu Velasquez.
Os andarilhos, caminhando-lhe às ilhargas, a pé, eram duas crianças, vestidas de veludo cinzento, com largos mantéus de rendas, à baiona.
Lá em cima, num lugar do sol, cercado por uma verdadeira corte de rameiras do Bairro Alto, a Severa assistia à tourada.
Estava de pé, vibrante, arquejante de entusiasmo, os olhos negros de cigana chamejando no roxo fatigado das pálpebras, a pele trigueira, queimada, metálica, dando-lhe o aspeto de uma estátua de bronze embrulhada num xaile vermelho, a esbracejar, a uivar, a gritar, numa fúria animal, pelo Conde de Marialva.
De repente, o neto voltou, já sem máscara nem rebuço, a grenha loura ao vento, montado num tordilho ágil de combate.
As charamelas estrugiram os ares e as trombetas, clangorando, respondiam às pancadas musicais dos atabales.
Os cavaleiros entraram finalmente, ladeados pelos capinhas, seguidos dos palafreneiros, dos coches ricos e dos campinos, com os frisões pela arreata.
Eram dois. O Conde de Marialva e um outro. Quando eles entraram, a Severa reconheceu logo D. João.
Vinha num soberbo cavalo murzelo de picaria, de boa andança, nervoso, calçado do pé de cavalgar, largo de garupa, orelhas derrubadas. As esporas reluziam-lhe, despedindo centelhas junto à estribeira de pura argentaria.
Trazia um redingote à Marialva, de veludo vermelho, com abotoadura de diamantes, bota portuguesa, de cava tricórnio com penacho branco, que tirou ao chegar aos terços da praça.
Lá de cima, a cigana, ao vê-lo, toda ela rompeu em berros estridentes:
— Marialva! Marialva!
Foi um escândalo. As atenções dividiram-se entre as cortesias do redondel e a Severa, que de saia de ganga de três folhos, brincos de ouro nas orelhas, lenço sarapantão derrubado, uma mistura de dama e de cigana, gritava como uma doida, batia palmas, sapateava com os socos na tranqueira, como se dançasse um fandango infernal.
Da sombra, havia mãos que apontavam e vozes que diziam:
— É a Severa, a amante do Marialva!
E no redondel, entre os grandes coches que oscilavam, no seu perfil solarengo de talha dourada, bocejando almadraques vermelhos, e os campinos, cujos coletes encarnados sangravam ao sol, o Conde, coberto de uma verdadeira chuva de flores, executava as cortesias do estilo, obrigando o cavalo às mais finas gentilezas de gineta, e rematando, finalmente, pela cortesia a galope levantado.
Foi um sucesso.
O sol inteiro ergueu-se, como a aplaudir o estupendo cavaleiro, ainda antes de vitoriar o toureiro de raça.
As mulheres escondiam no leque a volúpia dos olhos e o rubor das faces. Num camarote armado de damasco amarelo, uma grande dama, uma Eugênia Lamí da altura, vestida como uma nuvem de musselina cor de rosa salpicada de espigas de ouro, o pescoço olímpico afogado em topázios, desfalecia nos braços de uma aia velha.
Era a Marquesa de Seide.
Terminadas as cortesias, ainda num clangor estridente de fanfarras de cobre, apareceu o Marialva para a primeira fera, faiscando ao sol o ouro dos acicates de gineta e as dianteiras picadas de diamantes do seu redingote de veludo vermelho.
Fez-se um silêncio religioso. Ouvia-se o zumbido de uma mosca. Aquela multidão inquieta imobilizara-se na expectativa dos grandes momentos.
Um careca abriu a porta do curral.
Ao alto, no camarote armado de damasco amarelo, a Marquesa, acordada do seu delíquio, olhava para a praça, numa ansiedade.
Nisto, saiu o touro. Era um grande animal, de um castanho dourado, malhado na bragadura, possante, violento, caldeiro e baixo de cornos.
Cego com o sol, arremeteu.
O Conde atravessou a galope à frente da fera, na sua célebre sorte à estribeira, e num assombro de justeza, de precisão, de picaria, cravou-lhe o roião agudo na tábua do pescoço.
Então, veio a praça abaixo. Já não eram aplausos, eram uivos, eram rugidos de outras feras piores, bêbedas de entusiasmo e de sangue.
A Severa, a quem não se ouvia uma palavra no meio do alarido da multidão, esbracejava, contorcia-se, gesticulava em movimentos selvagens.
A Infanta D. Ana, no seu camarote, desfolhava rosas, serenamente.
O Conde repetiu a sorte à tira, com a mesma mestria, a mesma elegância, a mesma precisão.
Mas, ao cravar o ferro na fera, uma chinela de verniz, jogada pelo ar, das bancadas descobertas ao sol, bateu-lhe na testa, certeira e firme, fazendo-lhe correr um fio de sangue.
Fora a Severa que, num arranco de bárbaro entusiasmo, não podendo atirar ao Conde o coração, lhe atirara o tamanco.
As ovações repetiram-se. O resto da tourada foi um triunfo.
Depois das cortesias finais, quando ainda aclamava a multidão, a Severa safou-se, liderando um bando inteiro de putas de rua, de largas saias gomadas e grandes olhos sentimentais.
Ia ao pé coxinho.
— O Marialva apanhara-lhe a chinela na praça e metera-a na algibeira da casaca de veludo.
Antes de se meter na carruagem, a Severa, excitada, vermelha, arquejante, feliz, restolhando a sua saia de ganga tufada de folhos, dizia para as companheiras:
— Ah, raparigas! Quando lhe atirei o tamanco e lhe vi o sangue na cara, a alegria que eu tive!
Terminada a corrida, o Conde substituiu o tricórnio(*) pelo chapéu castorenho de aba larga, atirou pelos ombros uma ampla capa de veludo negro, montou o seu cavalo de passeio, e galopou, estradas fora, com destino ao Manjerona, em cuja sobreloja havia de mudar de fato.
[(*)tricórnio = chapéu de três bicos usado nas touradas]
Tinha combinado com a Severa encontrarem-se no botequim, depois da tourada.
Estava morto por vê-la, por ouvi-la, por sentir-lhe a febre, a excitação, a alegria.
A chinela de vermelho, luzente de verniz, que ele ainda trazia na algibeira, aquela chinelinha miúda, e graciosa, só podia ser da cigana, cujas manifestações de entusiasmo eram sempre excessivas e violentas.
No caminho, encontrou D. José, o outro cavaleiro que toureara naquela tarde — bravo rapaz cuja casaca de veludo verde-malva arrastara consigo, pela arena, muitos olhares de paixão.
— Olá, Marialva!
— Viva!
— Onde vais?
— Ao Bairro Alto. Despir a casaca e vestir uma casaca.
— E ver a Severa, hein?
— Também.
— Ela lá estava na praça!
— Eu vi.
— Já todos sabem que ela é tua amante.
— Não é verdade.
— Não, é verdade?
— Protejo-a, mas não sou amante dela.
— Palavra de honra?
— Palavra de honra. Que tem isso de extraordinário?
— Mas tu cantas o fado com ela, nas esperas de touros, vais com ela, sozinho, ao Colete Encarnado, passas a vida no Bairro Alto, em casa dela...
— E nunca lhe toquei com um dedo, vê lá tu!
— A sério?
— Tu és um conquistador da alta-roda. Estás costumado a todas as facilidades. Mas olha que as mulheres do fado, fiam mais fino. Dão-se a muitos, mas só amam um; e, quando amam, é até à morte.
— Olha lá... E a Marquesa de Seide?
— Está às tuas ordens.
— Também és capaz de afirmar que não foste amante dela?
— Afirmo. É a única coisa em que é permitido a um fidalgo: mentir em negócios de mulheres!
Os dois cavalos iam galopando lado a lado, pelos campos relvosos de Vale de, Pereiro, a caminho desse velho bairro do século XVII, povoado de becos de armas e grades verdes, onde o Marialva deixara o coração.
— Vais então ver a Severa? — insistiu D. José.
— Queres que ta apresente?
— Está dito.
— Então vem comigo.
— Estou ainda de casaca.
— Tens lá uma casaca minha e um chapéu.
— Muito bem.
— E depois, onde vais?
— Ao S. Carlos.
Daí a pouco, pararam à frente de um botequim de portas de vidraça, de onde saíam uns tinidos metálicos de viola.
Era o Café do Manjerona.
Um velho leproso, com uma carapuça vermelha na cabeça, correu a segurar nos cavalos. Quando o Marialva entrou no Café, uma chusma de cocheiros, de eguariços, de malafaias, de comerciantes, de ciganos, tirou o chapéu e grunhiu, ao mesmo tempo risonha e respeitosamente:
— Senhor Conde!
— Senhor D. João!
— Excelência!
O Conde cumprimentou-os, com a familiaridade de um velho conhecido, e galgou, com D. José, a escada esconsa da sobreloja.
Aí, vestiram-se os dois: nizas com pesada argentaria e feltros negros de abalroar.
Depois, desceram ao botequim. A malta rodeava, com certo acatamento, um comerciante alentejano, de jaqueta de peles e calça de belbutina, grande grilhão de ouro a chispar no colete, que falava de papo para o ar em carruagens e burros.
Era o Romão.
Quando os fidalgos desceram, já embuçados nas capas, as atenções afastaram-se de novo do comerciante.
Mas D. João, caminhou para o grupo, pediu uma rodada de aguardente, e a conversa generalizou-se sobre manhas de carruagens, prodígios de veterinária, processos infalíveis de por bons os cavalos zainos, de curar esparavões velhos, e outras emaranhas tretas de cigano com que os alquilés, trocando e vendendo carroças suas semelhantes, enchiam de boas moedas de ouro os bolsos e os canhões dos capotes. D. José, farto de ouvir falar de carroças, de aguaduras, de feiras e de bestas, levantou-se para sair.
— Então, não queres ver a Severa?
— Não. Ela demora-se. Vou ao S. Carlos.
— O que há lá, hoje?
— A Ana Bolena.
— Canta a Boccabadati?
— Não me fales nessa mulher!
— Então porquê?
— A Barili! A Barili é que tem talento!
— Ah! Tu és barilista?
— A Boccabadati é para o Niza, que endoideceu.
— Vais então por aos pés da Barili os teus triunfos de redondel?
— E um ramo de rosas.
— Perdes as rosas, se não puseres ao mesmo tempo um punhado de libras!
— Desinteresse e virtude só no Bairro Alto!
— Não o digas a brincar...
Depois de um aperto de mão, D. José saiu, escondendo a cabeleira loura, à Capoal, no rebuço negro da capa.
Era quase noite.
O Marialva continuou a conversar com os cocheiros, os comerciantes, os toinos e os devassos daquela ilustre corja; veio à conversa a tourada, os bois do Dâmaso, as tentas, as ferras, a lezíria dourada de sol; mas, de repente, D. José, que tinha saído há um quarto de hora, apareceu de novo às portas de vidro do botequim e chamou:
— João! João!
— Que se passa? — resmungou o Conde, indo-lhe ao encontro.
— A Marquesa de Seide!
— A Marquesa?
— Ali em baixo, na traquitana! Quer-te falar por força!
— Mas porquê? Essa mulher está doida! Diz-lhe qualquer coisa, que não estou aqui...
— Impossível, meu velho. A traquitana seguiu-nos!
— Será um rapto, D. José?
— Mas por que diabo não vais?
— Deixa-te tu raptar! É um favor que me fazes!
— Não tens remédio senão vir! Comprometi-me a levar-te...
— E a Severa, que não tarda aí!
— É uma aventura... a Marquesa vem deliciosa, parece uma miniatura de Rosalba... Anda daí!
D. José ia arrastando o Conde, que já no poial da porta resistia ainda:
— Homem, pareces-me uma alcoviteira! Hei de aparecer-lhe assim, de jaqueta de veludo e espora, dourada, meio faiante, meio toureiro?
— Estás ótimo!
— E a Severa?
— São duas voltas, na traquitana. Tens tempo, de sobra. E depois, que lhe hás de tu fazer?
— Resistir! A todo o transe! Tu verás. Fui cigano em dez minutos, vou ser Conde em meia hora!
A corja dos cocheiros e dos troquilhas, ao vê-los sair, foi espreitar à rua, a ver o que era, numa ânsia coscuvilheira de saloios.
O Romão ia à frente do grupo. Estava mais velho, com mais cerca de quinze anos do que quando o conhecemos no colo da Mamada. Tinha a suíça rasa salpimentada pelo gume das feiras e da solidão do Vimieiro, entre as éguas e os montados, a charneca e os bois. Há muito tempo já que não vinha a Lisboa espairecer. Vivia no seu Alentejo, agarrado à terra como uma azinheira torta.
Foi ele o primeiro a sair à rua para ver a sortida do Conde:
— Que irá fazer o Marialva?
Mal pôs o pé nas pedras da rua, viu D. João, junto de uma traquitana brasonada, donde se debruçava a mais airosa cabeça loura, empenachada de plumas e pingada de topázios, que ainda os seus olhos tinham visto.
— Aí o chamborgas! — grunhiu o Romão, encantado com aquela pintura de mulher, que, no seu dizer, era uma assunção calçada de prata. — Aí o chamborgas, que se lambe com boa!
Quando viram o Marialva entrar para a traquitana, que saiu a trote dos cavalos, oscilando nas correias, então, foi uma sinfonia de risos, um casquinar de gargalhadas, um rebolar de quadris que nunca mais acabava.
— Lá foi com ela, o fidalgorra!
— Vai para o quente!
— Se o chão da traquitana abate é que hão de ser elas!
— Aí é que a gente via as pernas da fúfia!
Nisto, no meio dos risos da matulagem, começaram a ouvir, vindos dos lados de cima da rua, uns zangarreios de guitarras e uma voz de mulher, a cantar.
— Que diabo será aquilo? — perguntou o Romão, que não ouvia cantar o fado, sem lhe apelar um nó na garganta.
— Há de ser a Severa, — respondeu um cocheiro, fazendo tinir nas lajes a espora de latão.
— A Severa?
— Pois! Você não a conhece, ó Romão? — disse de lado um malafaia tosco, embrulhado num capotão de burel.
— Já ouvi falar, mas não a conheço! — disse o alquilé. — Lá em baixo, nessas feiras do Alentejo, fala-se muito nela!
— Pois vai conhecê-la! — grunhiu o Timpanas, concertando a embotadeira a um canto do botequim, a cara vigorosa escondida numa pastada de sombra roxa. — Vai conhecê-la!
E entretanto, já o zangarrear das guitarras se ouvia mais perto, no acompanhamento doloroso de um fado triste, onde se adivinhava, como num soluço, todo o sentimento da raça.
O Timpanas, esse, tanto procurou pelo botequim, que encontrou e apanhou uma guitarra a um canto.
Foi uma alegria. O cocheiro, encostado à ombreira da porta e espetando a perna à facaia(*), o chapéu alto de pêlo de coelho atirado para as costas, começou a acompanhar de dentro da taverna o fado que a Severa cantava.
[(*) facaia = à maneira de fadista]
Daí a pouco, a cigana apareceu de repente, doida de entusiasmo, tisnada do sol, a guitarra nas unhas, o xaile de ramagens a arrastar.
Atrás dela, rompeu uma onda colorida e restolhante de rameiras ricas, luzindo os seus ouros e as suas saias, com sortelhos de missanga nas mãos sapudas e grandes brincos ocos a tinir nas orelhas, — acompanhada por toda a malta de toinos e chulos, vagabunda e violenta, de chapéus à Cristina e jaquetas de cotim.
Depois de um bocado tudo aquilo se assentou, sorvendo a gimbolinha (*) devota, rindo e contando o que se passara nos touros reais.
[(*)gimbolinha = gíria para “copo ou caneca de vinho”]
O Romão, que via pela primeira vez a Severa, estava de boca aberta, pasmado com ela, sentindo na sua alma de bronco todo o deslumbramento daquela beleza felina e sentimental, em cujos olhos, de um negro brilhante de lascas de hulha, ele via passar, em clarões, tudo quanto há de melancólico para um alentejano nos poentes dourados da charneca, na sombra roxa dos montados, nos olhos ardentes das éguas de raça.
Pediram à cigana um choradinho. Ela não negou.
O Romão, com todo o sangue na cara, pôs-se de pé sobre uma das bancas, dominou a algazarra numa praga de estrebaria, tirou uma moeda de ouro de um saquinho de chita, e gritou para a cigana:
— Pago uma moeda pelo fado!
A Severa, que, até ali, ainda não reparara no Romão, pôs os olhos nele, tirou a lira para o lado, e, risonha, fez um sinal com a mão ao comerciante para que se aproximasse:
— Chega-te cá.
O alentejano desceu, gingando, o chapéu castorenho à zamparina, a jaqueta de peles exibindo pratas, o anel rico luzindo no dedo, e aproximou-se da cigana.
Quando o viu perto, a Severa estendeu a mão, num gesto airoso:
— Venha lá a moeda!
O Romão deu-lha logo. Era aquele, em toda a sua vida, o dinheiro que lhe tinha custado menos a perder.
Mal recebeu a moeda da manzorra felpuda do comerciante, a cigana chamou uma rameirazinha pálida, que tossia pelos cantos, pobre e triste, e atirou-lhe de longe a pequena moeda de ouro:
— Toma! É para ti, Maria da Luz!
Depois, voltando a encarar o Romão.
— Obrigada. Como te chamas?
— Romão.
— És rico?
— Como um judeu morto.
— Comerciante?
— Comerciante.
— Tens pinta de cigano.
— Não sou.
— És do Alentejo?
— Do Vimieiro. Tu também deves ser rica?
— Porquê?
— Dás assim as moedas!
— Sou rica, sou. Tenho o sol, como tu!
— Pois eu tenho o sol e mais cem moedas, nesta bolsa! — disse o Romão, para toda a malta ouvir, chocalhando a bolsa de chita encarnada.
Pelos olhos do bronco alquilé, passou nesse instante um clarão de cio e de ternura. Sentia que era capaz de dar as cem moedas àquela mulher, se ela lhas pedisse em troca por uma noite de amor. E, com o pescoço bovino a suar, foi-se aproximando da cigana, trémulo, com a língua entaramelada, os olhos vidrados de comoção:
— Se tu quisesses vir comigo até ao Alentejo, ó Severa! Ficavas sendo uma rainha! Até te lavavas em bacia de prata! Tenho lá muitas éguas! Mas tu eras a melhor de todas, Severa!
Diante daquela carícia animal de comerciante de gado, que trata as mulheres como éguas de cria, a Severa desatou a rir-se à frente da cara num casquinar de gargalhadas musicais, que desconcertou o bom do Romão e o fez meter outra vez à algibeira da jaqueta o saquinho repilgado de ouro.
Foi o Timpanas que o esclareceu, murmurando-lhe ao ouvido:
— É a amante do senhor Conde de Marialva!
— Aquele que esteve aqui?
— Esse mesmo.
— Mas ele quer lá saber dela! Ainda agora se meteu numa traquitana, com uma do fado liró!
A Severa percebeu que se falava do Conde e inquiriu, com má cara:
— Que estás tu para aí a dar à fanfarra, ó das cem moedas?
— Não é nada, — disfarçou o Romão.
— Hás de dizer, estás a ouvir? Tudo para aqui explicadinho, como se fosse a missa, hein, ..?
— Estava a falar do senhor Conde de Marialva, disse o alentejano.
— E que dizias tu dele?
— Nada!
— Hás de dizer, senão quebro-te um corno, ó meu tripas de Judas!
— Já que tu queres, então lá vai! — resmungou o Romão, enrolando um cigarro. — Estava eu a dizer que o tinha visto entrar para uma traquitana, com uma gaja de cabelos pintados, que havia de ser da nobreza!
A Severa atirou-se um salto para o alentejano, e encarando-o cara à cara, disse-lhe:
— Mentes! Mentes! Ele ficou de estar comigo, aqui! Vem, porque disse que vinha. E ele a mim não me falta!
— Isso agora... duvidou o Romão para o bando, risonho e a gingar.
— Pois se ele diz-te que o viu entrar para a traquitana de uma seresma de cabelos pintados! Que mais queres? — articulou de um canto o honrado Timpanas, com o chapéu de pêlo de coelho luzindo na luz dourada do botequim.
A cigana, numa fúria de loba, ia a agarrar um banco para correr com toda aquela canalha, quando o Custódia apareceu à porta, trôpego, a gaguejar:
— É verdade... Foram numa traquitana. Eu também vi...
Dele, não duvidou a Severa. Deixou-se cair sobre uma cadeira de tripeça, pálida, o olhar fixo, os dentes cerrados.
Se dizia o Custódia, devia ser verdade. E pensando no Conde que a atraiçoava, sem pensar bem em que traição era essa, porque ele nada lhe devia em amor, senão em amizade, a cigana, agarrada à viola, fazendo-a gemer e chorar com a sua dor de escorraçada, as lágrimas a rolarem-lhe pelas faces, rouquejou, entre dentes, num uivo doloroso:
— Malandro! Malandro!
O Timpanas, o Romão e o malafaia do capote de burel, compreendendo que era aquela “a maré de carvoeiro”(*), combinaram entre si qual dos três qual a havia de acompanhar a cigana a casa.
[(*) a altura para consolar alguém]
Foi o Romão, por ser mais ilustre, o encarregado de falar com a Severa:
— Então, vamos lá a saber? O Conde não vem. Ficas com algum de nós. Valeu? É escolher um dos três. Vê, como o ourinho tine na minha bolsa de chita! É aproveitar!
A cigana olhou-o, num encrespar de boca desdenhoso, e resmungou:
— Meu brondúzio! Enjeitado do Hospital Real! Pensas que só há moedas na vida? É que tu ainda não viste a cruz do meu dinheiro, nem o sentiste na cara! Vai-te embora e deixa-me!
Mas o alquilador, incitado pelos outros, voltou à carga:
— Ficavas rica para toda a tua vida! Eras a melhor égua cá do Romão...
— Se eu fosse contigo, levava a viola! — atalhou o malafaia do capote.
— Olha para mim! — disse por sua vez o Timpanas, fazendo tinir as argentarias da casaca e estalando no ar o chicote de cocheiro.
— Qual de nós escolhes? — perguntou ainda o Romão, sempre a fazer tinir as moedas na bolsa de chita.
A Severa, com os dentes cerrados, os olhos turvados de névoas de sangue, voltou-se para o Custódia, que tremia de raiva ao pé dela, e pondo-lhe a mão sobre o ombro, encarou-o num desafio.
— Pois bem. Escolho este!
Nos olhos do pobre aleijado passou um súbito clarão. As lágrimas caíam-lhe. A boca arrepanhada chorava e ria. E, sem acreditar em tamanha sorte, balbuciava; olhando a Severa, desconfiado ainda, enterrando até às orelhas o lenço encarnado que lhe apertava a cabeça.
— Severa! Pois é verdade? É verdade que tu me queres?
Os três, o Romão, o Timpanas e o do ferragoulo de burel, barraram a porta, decididos a cortar a passagem à cigana.
O vinho tinha-lhes emprestado a coragem que não teriam noutra qualquer ocasião, sobretudo ao Timpanas e ao malafaia, muito conhecedores do que valia para a Severa a proteção de tanto fidalgo valente.
Mas tinham bebido, e estavam já turvos.
O Romão, alcançando a porta para impedir a passagem à Severa e ao Custódia, empertigado no poial, arrotando fanitirrias de quem não teme nada, gingava para a cigana:
— Sai agora, se és capaz! Saí com ele!
Entretanto, o malafaia abria já a navalha, que lampejava nas dobras do capote.
— Sai, anda! — roncava o Romão, pavoneando-se. — Vê se és capaz de passar por esta porta!
Enquanto a cigana olhava o comerciante e os outros, desdenhosa, a mão na cintura, a saia de folhos arredondando-lhe as ancas fortes, o Custódia, a rastejar como um sapo, a navalha aberta, arrastava-se ao lada da Severa, para a defender se os outros a atacassem.
Houve uns momentos de silêncio, em que apenas se sentia o resfolegar das respirações.
— Anda, se és capaz! — insistiu ainda o Romão, bamboleando o corpo, como quem ameaça um fandango.
A cigana olhou-os, um por um, e, de repente, depois de os ter medido bem, de alto a baixo, com um salvo, travou de um banco pelo pé, e rápida, apanhou-o com ambas as mãos e abateu-o sobre a cabeça do malafaia. O sangue espirrou vivo, e as barbas empastadas do canalha escorreram coágulos sobre a pescoceira branca, que se tingiu de vermelho.
Mais outro golpe, descarregado na cabeça sangrenta daquela cabeça, e o faiante, embrulhado no capotão de burel, caiu num uivo de animal ferido.
Puseram-se os quatro à briga em desordem, rebolando e ofegando na luta. Perante a navalha do Custódia e os saltos de loba da cigana, o cocheiro e o comerciante recuavam.
Nisto, uma figura apareceu, envolta numa grande capa de veludo negro, chapéu de abalroar, cara tapada pela lapela da casaca.
A Severa sentiu-se agarrada por um pulso de ferro e atirada, como um farrapo, de encontro à parede.
Era D. João.
O Conde de Marialva, que, ao entrar no botequim, vira dois homens a fugir à frente de uma mulher que brandia um banco, separara os brigões. E sem saber ainda que criatura era aquela que ele atirara ao chão, encarou os cobardes, e gritou-lhes, cara a cara:
— Então que homens são vocês, que se deixam bater por uma mulher?
A Severa, ergueu-se do chão de tijolo, e ia a dar um salto para se atirar contra aquela figura negra que a derrubara, quando, de repente, reconheceu D. João. A fisionomia mudou-se. Levou as mãos ao coração palpitante, e toda inundada de um sorriso de alegria, balbuciou, gemeu, encarando o Conde, contente de ter sido brutalizada por ele:
— Ah! Eras tu...?
D. João abriu-lhe os braços e correu para ela.
— Severa! Mas que foi isto?
O Romão, acobardado pela presença do Marialva, tratou de desculpar-se, como pode:
— Era a cigana, Sr. Conde, que queria ir com o Custódia para casa. E nós, que sabíamos que o Sr. Conde vinha, não deixamos.
— Pois foi isso mesmo! — acudiu o Timpanas.
— Pois foi!
Diante destas palavras, que a Severa, pálida e ofegante, não se atrevia a desmentir D. João sentiu uma nuvem de sangue passar-lhe pelos olhos. Encarou o pobre lázaro, que sorria ainda a um canto, olhou para a cigana e, bruscamente, apontou-lhe a porta:
— Vai! Não disseste que ias com o Custódia? Vai! Ninguém te faz mal, descansa! Estou eu aqui. Vai com o Custódia, anda!
A Severa quis balbuciar uma desculpa, dizer-lhe a verdade, que o esperava a ele, só a ele com toda a sua alma, com todo o seu coração, mas a voz do Marialva trovejou de novo, cortando-lhe as palavras na garganta.
— Vai! Vai com ele!
Os olhos da cigana fuzilaram. Rangeram-lhe os dentes, de raiva. Por fim, pálida, arquejante, agarrou pelo braço o Custódia, e foi levando-o até à porta.
O pobre idiota, arrastado assim para a felicidade, já tinha transposto a porta, quando a Severa lhe jogou um empurrão violento e voltando-se para trás, palpitante, soluçante, doida de paixão, a boca a tremer, os olhos em fogo, atirou-se para os braços do Marialva:
— É contigo que eu vou! É contigo que eu fico, esta noite. Contigo! Só contigo!
No outro dia de madrugada o cavalo do Conde, seguro à rédea por um moço de estrebaria de confiança, esperava, à porta da casa da Severa, que o Sr. D. João, Conde de Marialva, acordasse da sua primeira noite de amor. Quando nasceu o sol, ele ainda não tinha saído.