A Severa

Júlio Dantas · Capítulo 4 de 11

Páginas do PDF

A Severa

Capítulo IV · Passaram-se dias, e nunca mais o Capelão…

 

 

Passaram-se dias, e nunca mais o Capelão viu a casaca de veludo do Marialva e as mãos luzentes de joias de Domingos Harson.

As duas mulheres cansaram-se de esperar.

— E o senhor D. João, mãe? — perguntava a pequena, de vez em quando, muito triste, sentada no poial de tijolo.

— Até era capaz de lhe picar os ossos! Malandro!

E a cigana escondia-se na sombra, o branco dos olhos a luzir, fixamente, os cabelos empastados de suor sobre a testa, o corpo derrubado de encontro a uma velha arca de velharias.

— Até lhe picava os ossos!

E a pobre criança, sem compreender, estranhando aquela atitude e aquelas lágrimas, aproximava-se, com ternura:

— Bateram-te, mãe?

E como a cigana a afastava, lá ia de novo para o poial de tijolo, muito triste, a torcer entre os dedos a sua saínha de goma.

Era sabido. A Cesária só acordava daquela inquietude quando a Ana Malhada assomava à porta.

— Então?

— Não me deram notícias.

— Ninguém?

— Ninguém.

— Foste ao botequim do Abade?

— Fui.

— Que disse o Pinóia?

— Falou as tripas de um sino... Sei lá!

— Mas não sabe nada?

— Não.

— E o Malaquias cocheiro?

— Não os viram.

— Então, ninguém sabe deles?

— Ninguém.

E as duas desgraçadas ficaram a olhar uma para a outra, num grande desalento mortificador, até que a cigana rugiu de um canto, congestionada, num arranco de fúria:

— Malandros! Eram uns malandros!

E tombava de novo sobre a arca, pesadamente, enquanto a Malhada, mais resignada talvez, ia vendo seguir o caminho de um raio de sol na pedra roxa do anel do dom bispo:

— Mas ele gostava de mim...

As pobres mulheres foram esquecendo e o tempo foi passando. Ninguém sabia do paradeiro dos dois fidalgos, nem a malta dos cocheiros que costumava andar com eles, nem os próprios mexeriqueiros do botequim do Abade, nem o Troca, que sabia de tudo.

Um belo dia, estava a cigana em casa a bater o prego de uma soca que lhe rompera a baeta vermelha da palmilha, quando uma voz sem dentes a chamou da rua:

— Cesária! Ó Cesária!

Levantou a persiana e olhou: era a Macheta.

— Ora viva quem é uma rosa da Alexandria! Por cá, tia Macheta?

— Estás sozinha?

— Estou. Suba. Sempre se apanha uma raçada de sol até cá acima!

— Mas vê lá não te estorve eu...

— Suba, suba...

A Macheta era uma velha tarasca,(*) que vendia santos e imagens, lá para o Campo de Santa Clara, amiga de padres e madre Celestina dos senhores cónegos da Sé, uma santíssima desavergonhada de face balofa tombando em socas e refegos de gordura, que luzia por toda Lisboa o seu saiote anacrónico de pano encarnado e o seu lenço bicudo de cambraia de goma.

 

[(*) Mulher feia e doidivanas]

Toda ela era uma coroa de açúcar, uma rata de sacristias e de conventos, melosa nas falas e seráfica nos gestos, foi-se metendo como um piolho pelas costura, cheia de escapulários e de ronha, grunhindo devoções e ladainhas, primeiro com o senhor arcipreste, depois com o senhor patriarca. Não havia outra mulher que passasse mais depressa do lamber de lábios da alcovitice (*) para os olhos em alvo da beatitude. No fundo, era um talento de primeira água. Aquelas mãos tronchudas, cheias de anéis de parteira, tinham gesticulações misteriosas, movimentos de molusco, atitudes de contemplação. Era o roteiro vivo dos sacerdotes de barregagem, sabia de todas as preferências dos senhores cónegos, e, como legítima herdeira de madame Teodora, entendia mais de mulheres do que os próprios homens.

 

[(*) Alcoviteira =mulher que fazia trabalho de proxeneta para as prostitutas, ou seja, que lhes arranja encontros e que era paga para isso]

Depois, que prodigiosa memória tinha a Macheta! Era capaz de nomear, de cor, todas as putas da cidade, desde as rameiras fidalgas da Chicória até às arrombadas da Madragoa. E descia a minúcias, no seu assoalhar de mercado, a velhaca da coscuvilheira, Sabia dizer sem errar, quantos sinais tinha a do Frade, se era no peito esquerdo se no direito, discriminava especialidades, baixava a pigmentações de pêlos, ao reflexo de ouro fulvo de certo ventre, distinguia as parideiras das machorras, qual a mais cravenha, se a Russa se a Sequins, discutia tudo, ia a tudo, espiolhava tudo, mas sempre com o seu jeito untuoso de sacristia, as mãos enclavinhadas numa postura beata, os olhos em alvo como uma santa de má pintura, todo o ar seráfico que deve ter uma beata dos senhores cónegos e uma grande puta de Espanha da alcovitaria.

Como tinha conhecimentos em toda a parte e frequentava todos os meios, a Macheta adaptava-se, escolhia para cada camada a sua linguagem, os seus gestos, desde o vocabulário das festas-galantes até ao jargão picante das esquina do Monete, sabia insinuar-se, meter-se, corromper, minar, ia até ao fundo das criaturas, e a cada palavra convincente, a cada argumento engajador, os seus olhos piscos, de um azul deslavado, tinham clarões cariciosos, ternuras envolventes, mistérios de atração, como os olhos dos sapos.

De resto, a Macheta, como todas as trota-conventos de profissão, dava-se ao luxo de ter as suas preferidas, as que inculcava sempre, umas quatro ou cinco de diversos géneros a quem chamava as suas joias e que eram, por assim dizer, o beijinho, do negócio.

A Cesária cigana era a joia que ela inculcava quando os homens lhe pediam alguém do Capelão e da Madragoa. Já a tinha levado muitas vezes a casa de um prior das suas relações, que cantava malaguefias e tinha as pernas tortas, — e caso era que o santo clérigo, de todas as vezes, dava-lhe um pinto a ela e outro pinto para a cigana. Isto, não contando com as idas à mansão de certo fidalgo, doente com a gota, ali para os lados do Poço do Borratém, um da raça dos espia-raparigas que a fazia rebolar nua sobre um tapete de Arraiolos e a ficava a olhar da sua cadeira de entravado, dando estalinhos com a língua, a cara roxa, o beiço pendente.

Os motivos de preferência da Macheta eram sempre complicados; mas, quanto à Cesária, compreendiam-se bem. A cigana tinha os olhos mais azevieiros de toda a Mouraria, uma certa fama no fado da meia-porta, uma natural vivacidade, usava melhor roupa do que qualquer das outras, tinha seios ramais de coral e usava ouros para as orelhas, e, sobretudo, um certo jeito para aturar essa raça de velhos gotosos e patuscões, que constituem, em geral, a clientela rica. Preferia-a, por conseguinte, a todas as outras, a boa da Macheta; e se, de vez em quando, aparecia no Capelão, era sempre com um negócio que rendia uns pintos.

— Então como vai a minha joia... Como vai?

— A fortuna é pouca, tia Macheta. E vossemecê?

— O caruncho, filha, o caruncho(*1). Agora, então, apanhei uma bertoeja(*2)...

 

[(*) 1 - caruncho = velhice 2 – bertoeja = erupção cutânea]

 

E enquanto a Cesária lhe estendia uma cadeira de tripeça, a boa da Macheta coçava-se toda no pescoço, com um desespero de cortar o coração.

— Isso há de ser sarna, aventurou a jovem.

— Valha-me S. Cirilo, filha! Isto é do calor. Este sol cresta a gente, credo! Até me ia custando subir cá acima. E a vida por cá?

— Pouco dinheiro, tia Macheta.

— Pouco?

— Muito pouco.

— Ora! Isso do dinheiro vem quando a gente não anda atrás dele. Também te digo, filha... Antes pouco com vida folgada, que muito com vida cansada. Eu, cá por mim, renego da tigelinha de ouro onde hei de cuspir sangue.

— Também eu.

— Mas também, a tua vida não cansa muito, a bem da verdade...

— Nada, não! Eu sempre gostava de ver a vossemecê a receber homens toda a noite!

— Credo! Santo nome de Jesus!

E a velha fingia uma posição de recatada, para rematar depois, no mel de um risinho:

— Mas também, não há panela tão feia que não ache tampa...

— Lá isso, é verdade!

Ficaram as duas, a olhar uma para a outra, a cigana encostada à esquina da cómoda, cigarro aceso ao canto da boca, e a Macheta ao lado dela, distraidamente, fazendo uma boneca com a ponta do saiote.

— Pois é verdade! — grunhiu a velha por fim, quebrando o silêncio.

— Então o que a traz por cá, tia Macheta?

— Uma mina para ti.

— Para mim...?

— Nem mais nem menos.

— Ora...

— É negócio de meia moeda.

— Meia moeda?

— Certinho. Bom ourinho!

— É capaz de ser o do Poço do Borratém — aventurou a Cesária, num jeito de nojo.

— Qual quê!

— O do tapete então...

— Ora, o que tu pensas! Esse já está debaixo da terra, filha!

— Morreu?

— Pois… bateu a bota!

— Ah!

— Também, foi bem regaladinho desta vida.

— É o que se leva, tia Macheta...

— Lá isso é!

— Mas então, não sendo o do Borratém, não sei quem seja...

— Tu nunca o viste.

— Ah!

— É uma personagem!

— Na volta… é o corregedor?

— Nada disso.

— Então, não sei.

— Nada mais, nada menos, que um senhor cónego, da Sé! Ora toma, o que te dou eu.

E a beata, abrindo um riso vitorioso, toda sécia, beliscou o queixo da Cesária e disse-lhe numa vozinha de flauta:

— Então, que dizes a isto a minha joia? Que dizes a isto?

— Deixa meia moeda?

— Deixa meia moeda, e sempre é um senhor cónego!

— Para esta noite?

— Venho-te cá buscar?

— Eu vou ter consigo.

— À loja?

— À loja.

— Oito horas. Pode ser?

— Ali para aqueles lados?

— Mesmo em S. Vicente, filha.

E com um grande ar de mistério, em atitudes seráficas e biocos de retábulo, a boa da alcoviteira contou-lhe que o senhor cónego era o deão da Sé, varão excelente que viera há pouco tempo de um dos bispados da província preencher esse alto cargo no cabido patriarcal.

Ao invés dos outros cónegos, que gostavam de bailarinas como o senhor arcipreste, de fidalgas devassas como o senhor chantre, ou de meninas virgens como o senhor arcediago, o deão preferia o fado da meia-porta, cheio de sol nos olhos e de gíria na boca, luzindo saias gomadas e grilhões de ouro, — o fado rebolão e airoso, todo sangue e todo raça, capaz de gritar insultos e de gemer caricias, cheirando a Portugal e sabendo a Portugal.

A Macheta só tinha pena de não poder alcovitar o senhor arcipreste, que gostava de fraldas de bailarina e aranhas de prata de camarim. Mas não o alcovitava, dizia ela, porque coisas de teatro eram contrárias à religião.

Quando o senhor deão lhe confidenciou as suas preferências, o seu amor pela mulher grosseira, pela arrombada de beco e pela rameira de rua, pelos corpos esguios de um trigueiro dourado e pelos olhos de sombra arroxeados de olheiras, a santa mulher pensou logo na Cesária cigana, e, em ademanes de entendida, fazendo boquinhas de jarro, toda ela era inculcar, aos trincos com os dedos:

— Sei de uma, senhor cónego, que é mesmo um brinquinho sagrado!

E ela aí estava na sobreloja da Cesária, compondo o seu saiote de bata vermelha, atando o seu lenço bicudo de cambraia de goma, dando, com muito ancha, ao seu remate no negócio:

— Então, à noite, passas na loja, hein?

— Sem falta, tia Macheta.

— Às oito horas...

— Ao baterem na Sé.

— Meia moeda, hein?

— Meia moeda.

— Então adeus, que está o Lausperenne na Saúde e ainda lá dou uma saltada.

— Adeus, tia Macheta.

A cigana foi-se pôr à janela, sob a rua erguida, e ainda viu a alcoviteira, pelo Capelão abaixo, no seu saiote saracoteado, como uma nódoa de sangue sobre a casaria empoeirada de sol.

Depois, fechou a cortina, abriu a sua arca de madeira encarnada com fechos de ferro batido, tirou do fundo, de entre a roupa, um saquinho de chita de ramagens, e pôs-se a contar alto umas moedas de prata que ia fazendo retinir no soalho. Vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete... Com mais meia moeda, são trinta e dois pintos...

Era toda a sua riqueza.

Ao início da noite, já a Cesária estava vestida de ponto em branco, desenxovalhada e limpa, como convinha, ao leito senhorial e grave da sua reverência o deão da Sé.

Afinal, era melhor assim, pensava ela consigo, enquanto punha pela cabeça a saia de ganga de três folhos. Não tinha quem lhe ocupasse as noites, fazia o que queria, o que lhe dava na tineta, andava, de “Jou para Jales”, ao sabor da sua vontade, livre como o sol, ninguém lhe ia à mão, ninguém lhe pedia contas, ganhava a sua vida e não perdia o seu tempo. Se o outro não tivesse fugido, mandava a Macheta à fava, ficava a dormir com ele, e lá se ia por água abaixo a meia moeda do cónego. Assim era melhor. Quando um não quer, dois não baralham. Estava decidida a não querer estorvos, a largar namoros e aconchegos. Se continuasse com o fidalgo, em menos de nada, não teria onde atar dez réis de cominhos. Não! Era preciso ter juízo, juntar umas moedas ao canto da arca, fazer pela vida, e mandar ao diabo as preocupações. Quem quisesse que se ralasse. Amores não engordam, e por “dinero baila el perro”...

— São todos uns malandros! — rematou ela, botando ao pescoço um colar de contas douradas, e puxando para a testa, à frente de um espelho de gaveta, a cabeleira escura onde à luz notava-se uns reflexos roxos. — São todos uns malandros, e o meu homem é o dinheiro!

Traçou o xaile num grande gesto decidido, agarrou o braço da pequena que se lhe agarrara às saias, desceu a escada de escantilhão com ela, e foi deixá-la em casa da Malhada.

— Se eu não voltar esta noite, guarda cá a pequena, hein?

— Então onde é a ida?

— Vou ter com a tia Macheta, e depois...

— E depois?

— Até S. Vicente.

— Algum sotaina?(*)

 

[(*) Sotaina = vestes paroquiais dos padres]

— O que mais?

— E quanto larga?

— Meia moeda.

Enquanto a Malhada, de joelho ferrado no avental de pau, se roía de inveja pela sorte da outra, a Cesária, apertando um brinco que lhe caíra da orelha, bateu pela rua o seu andar desnalgado, virou à Rua da Guia, e seguiu pela Mouraria adiante, num arrastar lento de tairocas.(*)

 

[(*) Tairoca = Um tipo de sapato]

 

Tinham dado as sete na torre da Sé.

Iam começar as horas de maior vida do velho bairro da Mouraria. As fregonas de saia gomada e cabeleira luzidia assonavam já na visão dos galanteadores, derrubadas sobre a meia-porta de pinho verdoengo. A gíria cruzava-se, de banco em banco, cortando de gritos roucos, o ar morno das libertinagens. Das janelas baixas, onde sangravam à luz as cortinas vermelhas, saíam baforadas quentes de alecrim. Os velhos muros, caducos de três séculos, erguidos ainda pelo milagre de uns matacães de ferro, deixavam escorrer, ao longo das fundeiras de grades, as suas sombras pesadas e protetoras. Alguns passos mais à frente, e a rua alargava-se num terreiro, um rossiozinho irregular quebrado por ângulos e de ruelas, com escadas em beco a bocejar no escuro, e umas velhas torres maciças, com o ar de uma fortaleza cinzenta erguida no coração de uma aldeia.

— Eh, Cesária!

— Vais-te moscando?

— Eh, arrombada!

— Levas os brincos que furtaste à Russa?

— Eh, calona!

— Entra cá na tasca!

— Entra, diabo!

E de uma ruim malta de pobre-diabos, encantonada sob o ressalto alpendrado que dobra em cotovelo para a Rua das Tendas, choveu sobre a cigana uma onda de chufas e de insultos.

A Cesária, à frente do desafio, ainda pensou voltar para trás, mas o bando, crescendo à entrada do bar do Navalhadas, berrava na sombra:

— Entra cá na foula, ó cróia!

Era impossível recuar. A cigana parou junto à grade de ferro, o xaile derrubado e o sangue nos olhos, e encarando o mais dianteiro do grupo, um rapazote de perna à facaia e casaca de cotim, berrou-lhe nuns grunhidos roucos:

— Pensas que é só comer de mofo nas tabernas, calmeirão!

— Olha que eu faço-te engolir a língua!

— Vai arranjar homens para a porca da tua mãe! Vai, anda!

— Cala-te, ladra, senão vou-te às goelas! — disse o traste, muito pálido, a correr para a rapariga num arranco de fúria.

— A ver isso! — rugiu ela recuando, de um salto e puxando a navalha.

Diante da faca, que reluzia no punho da cigana, o poltrão parou, e, como por encanto, todas as vozes do grupo se voltaram para ele.

— Anda, chamborgas!

— Sai-te, ó carunfeiro!

— Anda-me com ela!

Mas nisto, um homem alto, de tipo grosseiro mas esbelto, barbicha escura onde à luz picava pedaços de pêlos cinzentos, todo embrulhado num capotão de briche, aproximou-se da grade do Coleginho, e num tilintar de esporas gritou para o grupo:

— O primeiro que se chega à mulher, esborracho-o!

A Cesária, espantada dessa brusca intervenção, ficou de olhos arregalados, o lenço de ramagens descaído para a cinta, a navalha chispando entre os dedos convulsos, e quando pensava que ia romper a desordem, viu todo o bando, humildemente, tirar os chapéus:

— Senhor Diogo...

O homem, que a julgar pelo capote e pelas esporas tinha um certo ar de toureiro de profissão ou de mestre de equitação, deu a volta às grades, estendeu à cigana um olhar de indiferença e, como se nada fosse, entrou no bar, seguido de todo o bando.

— Quem diabo será? — pensou para si mesma Cesária, acompanhando com os olhos aquele defensor desconhecido.

Efetivamente, não era fácil sabê-lo. A malta dos goliardos entrara com ele na taberna. Uma velhota que viera a uma janela da Amendoeira, tasquinhando uma manusca de linho para a levar ao sedeiro, e a quem a cigana interrogara com o olhar, não o conhecia também.

— Não, é daqui. Mas parece ser um picador de touros.

Entrar na taberna para lhe agradecer a proteção, era arriscado. E, depois, que ganhava ela em o conhecer? Além disso, era tarde. Tinha de estar às oito horas com a Macheta, e de abalar em seguida para os paços de, S. Vicente. Meia moeda não se perde. Que importava lá o homem? Ele defendera-a? Tanto melhor. Mas não havia de ser ouro sem ser também escumalha, metido com aquela canalha, que tirava os chapéus quando o via aparecer. Era um homem. Havia de ser como todos os outros.

E a Cesária foi andando, Amendoeira acima. Chegando ao Beco, essa alfurja lôbrega de muros esverdinhados que corta à direita, teve uma ideia, que a motivava a voltar para trás. Talvez aquele malafaia picador lhe soubesse dar notícias do paradeiro de D. João. Fidalgo ele não era, porque o bando ao descer os chapéus, não lhe chamara “Dom”. Mas havia de ser useiro e vezeiro em tentas e picarias,(*) conhecedor a fundo da gentalha fidalga que faz prodígios de estardiota pelas esperas e prodígios de gineta pelas praças. Se entrasse na taberna e lhe falasse, ficava a saber tudo. Era certo.

 

[(*) tentas e pecarias são termos de tourada]

 

Mas daí, pensou melhor. A todo o tempo era tempo. Nem por isso D. João, se tivesse de voltar, voltaria mais cedo. E depois, se o fidalgo voltasse, era a desgraça dela. Queria ser livre para ganhar a vida. Nada de prisões. — Não trabalhes por criar corvo que te tire o olho, — dissera-lhe uma vez a Macheta. E era verdade. Amores, nada; pão na arca e vida folgada. Andar à toa e à tuna, sem apego a ninguém. Quem quisesse que se ralasse. E, para além disso, o momento não era próprio para pedir informações. Aquele bando de forcados e de picadores, de toureiros e de bandalhos, era capaz de lhe barrar a saída. E depois? Lá se ia por água abaixo a meia moeda do cónego. O Marialva que voltasse quando quisesse. Além disso, esse tal do capotão de briche era bem-parecido e tinha pinta de valente, que não enganava. Não fosse ela tirar-se de uma para se meter noutra.

E a pobre da Cesária lá ia subindo essa interminável Rua da Amendoeira, entre velhos casebres, uns envasados em grosseira silharia, outros povoados de cruzes e de registos de azulejo.

Chegada, por fim, ao topo da rua, galgou a Calçada de Santo André; passado o arco, cortou à direita, meteu pela Rua de Santa Marinha; quando atravessava o Largo de S. Vicente, de caminho para o terreiro, batiam as oito horas na igreja de Santa Maria Maior.

Estugou o passo. Mas sempre a mesma ideia a matraquear-lhe lá dentro: quem seria aquele homem, que a defendera dos outros?

Enfiou pela viela, ao lado da velha igreja dos Filipes. Uma luzinha acesa na janela do arco, lá muito ao cimo, fazia quebrar, pelos gigantes de pedra, umas sombras espessas e agitadas.

Alguns passos mais e a cigana desembocava no terreiro de Santa Clara.

A casa da Macheta era ali perto. Logo na primeira morada que se topava à esquerda, uma porta pequena. Aí estabelecera, a santíssima alcoviteira, o seu lugar de venda de imagens antigas, roubadas quase todas, e todas enriquecidas pelo ouro brunido dos santeiros e pelo pó devoto das sacristias. As suas relações com clérigos e ratos de igreja facilitavam-lhe muito o negócio. De vez em quando trazia para a loja pedaços informes de sedas ricas, de damascos italianos de recamo alto, farrapos de brocado tecidos do melhor ouro, cheirando ainda aos baús das sacristias, e que ela condenava, talvez, a vestir madames ou a forrar cadeiras.

— Eh! Tia Macheta! Pode-se entrar?

E na loja deserta, por detrás da cortina de chita encarnada, a voz da alcoviteira grunhiu:

— Ah, és tu, minha joia? Senta-te, filha, senta-te, que eu já vou...

O lugar da Macheta era um quarto assoalhado e infecto, quase sem móveis, uma cadeira de sola estropeada, e uma candeia de ferro acesa a um canto, cuja luz fazia resplandecer, na sombra do canto oposto, a veste empoeirada de um santo de Igreja. A Cesária entreteve-se a ver, sobre uma tábua assente em dois barrotes de madeira, as cores moídas nas concas de madeira e as folhas de ouro fosco com que se estofam as imagens. Quando a cigana contemplava, filosoficamente, para o peito de uma Nossa Senhora de roca, levantou-se a cortina de chita e apareceu a santa alcoviteira com o seu saiote encarnado e o seu lenço de cambraia, pronta e preparada para levar ao senhor cónego aquela ovelhinha do Capelão.

— Vamos embora, minha joia?

A boa madre Celestina apagou a candeia, botou a Cesária para a rua e aferrolhou a porta da loja.

No caminho de S. Vicente, meteu-se com um ar de parola conceituosa, parando a cada três passos para a coçar a sarna. A Macheta disse lindas coisas. Falou do senhor deão, que era um senhor muito amarelinho, varão de grandes excelências e saber, mas com aquele fraco de ouvir brejeiradas. Contou, comovida, como merecera a honra de cheirar a sua pitada de rapé(*) por certa caixa de tartaruga que o senhor rei D. Miguel, de tão santa memória, dera de presente ao mesmo senhor deão.

 

[(*) Tabaco em pó que serve para cheirar.]

 

— Tomar rapé numa caixa real! Fazes lá ideia, filha!

E a boa alcoviteira, no meio do boqueirão de S. Vicente, os olhos em alvo e as mãos erguidas numa atitude patética, choramingava ao recordar a honra, a caixa, o rei, o rapé e o cónego.

Depois, como pensava descortinar na rapariga o escrúpulo do pecado da carne com um ministro da igreja, foi sangrando em saúde uma ladainha de razões teológicas capaz de convencer o próprio S. Francisco de Assis.

Mas a Cesária entendeu-a à légua, comelou a rir a trancos, e disse-lhe:

— Ai, tia Macheta, não se consuma... Já não é o primeiro!

A velha mal pode conter-se. Recuou gravemente, enclavinhou os dedos, e encarando a cigana, imobilizou na cara um ar de pasmo, que parecia dizer:

— O quê? Um senhor cónego, sem eu ser ouvida nem procurada?

Felizmente, a Cesária tranquilizou-a. Que não fora em Lisboa, mas em Évora, logo ao começo da sua vida de fado, há nove anos corridos. Um senhor chantre da Sé, muito apreciador de rameiras de chinela, pequenino que parecia chupado pelas carochas e curvado sempre como um frade em gloria patri, que a recebia numa grande cama de bilros com alparavazes de seda, e a quem ela tinha ensinado, com muito aproveitamento, a gíria das prisões e dos malandros.

— E ele aprendia...? Aprendia? — interrogava a Macheta, a desfazer-se num riso desvanecido.

— Então não? Eram natas!

— Ai, a gracinha do santo, coitadinho! A gracinha dele!

E a velha alcoveta, toda derretida pela devota brejeirice do senhor chantre, de saiote arregaçado e lenço bicudo atado no pescoço, atravessou o Largo de S. Vicente em saltinhos de perua.

Queria por força saber tudo, onde parava um clérigo tão divertido, se já seria bispo, qual a sua graça, se gostava ou não de que as mulheres lhe batessem, as coisas que ele dizia, os sabonetes com que se lavava, todo o chorrilho em fim, da coscuvilhice beata, que mete o nariz nas batinas dos padres e rouba nos arcazes das sacristias.

— Não sei lá nada disso! — respondia a cigana, a cada pergunta da velha.

— Mas ainda estará em Évora, o santinho?

— Sei lá, tia Macheta!

— E como se chamava?

— Lá o nome dele, nunca o soube.

— Então que trato lhe davas, filha?

— Eu...? Como calhava. " Seu patuscão, isto”, “seu patuscão, aquilo”...

— Ai, credo! Patuscão!

E a Macheta, toda num arrepio devoto, repetia a palavra, juntava as mãos, erguia os olhos ao céu.

A igreja, ainda sem o restauro atual, levantava pesadamente na sombra a sua forte fachada filipina, com patriarcas evangelizando em nichos e duas grandes torres seiscentistas rasgando, como um grito de pedra, a escuridão estrelada.

— Por aqui, minha joia...

A Macheta compôs a cambraia que lhe descaíra sobre o cabeção, e galgou com a Cesária essa larga escadaria que, entre o adro e o muro da antiga cerca, sobe para os paços patriarcais.

— Ora cá estamos. E enquanto a velha tarasca tangia a sineta, a cigana, antes de entrar, curvada na sombra do portal, puxava as meias.

Apareceu a luz de uma lanterna, e um velhorro, coxo, veio a resmungar desaferrolhar o portão, enxalmado na sua quinzena de veludilho puído.

— Ora seja Deus nesta casa e o diabo em casa dos frades, — grunhiu, a Macheta, numa vozinha untuosa.

— Ámen Jesus, Maria, José, — rosnou o velho, erguendo a lanterna para iluminar o caminho.

Subiram um lanço das escadas de pedra. Ao topo, o velho sacristão levantou uma guarda-porta de baetão vermelho, e as duas mulheres atravessaram umas poucas de salas desertas, de altos silhares de azulejo, com grandes cadeiras de sola alinhadas na sombra. As tairocas da Cesária soavam a pecado mortal sobre aqueles soalhos patriarcais. Chegaram por fim a uma câmara armada de seda roxa, com um leito alto de madeira do Brasil, um belo armário D. João V, recortando a sua talha sobre a púrpura da parede, e, num recanto, dois candelabros de pesada argentaria, que lampejavam na penumbra silenciosa.

O sacristão, sempre a arrastar a perna, acendeu os três braços de um dos candelabros, e num risinho dos seus olhos verdes, acotovelou a Macheta:

— Seja tudo por amor da santa religião, tiazinha!

— Ámen, Jesus, Maria, José, — respondeu por sua vez a alcoviteira, persignando-se.

O velho voltou as costas e desapareceu na sombra dos corredores.

No entanto a Macheta, aproximando-se da Cesária e tomando-lhe o braço, fez as suas últimas recomendações. Que tratasse bem o senhor deão, que não lhe negasse nada, que fizesse por lhe agradar, porque atrás daquela meia moeda podia vir outra meia moeda, e depois outra, e hoje um mimo, e amanhã três côvados de seda... Que sempre era bom ter a gente a quem se achegasse, que mais valia um amigo na praça que ouro na arca, que o futuro a Deus pertencia, e que dali a amante do senhor deão não havia a distância de um dedo mendinho. Depois, que o santo clérigo era muito divertido, quase tão divertido como o senhor chantre de Évora, amigo do fado de meia-porta e folião de mão-cheia quando calhava, e que, de vez em quando, até era bom para a salvação da nossa alma um aconchego daqueles.

A Cesária fingia ouvir, mas os seus grandes olhos, como dois pedaços de esmalte luzindo na sombra, percorriam o grave aposento, demoravam-se em cada móvel, nos polidos da talha que brilhavam à luz, e nas sedas do leito onde a luz morria...

Pé ante pé, solenemente, a Macheta aproximou-se de uma portinha esconsa, que uma dobra de damasco disfarçava, e batendo com os nós dos dedos na ombreira, gemeu, como um favo de mel:

— Senhor cónego. Cá está o nosso amorzinho.

Depois, num riso untuoso, voltou para o pé da cigana com cinco pintos que a rapariga atou na ponta do lenço, e aconchegando o saiote açafroado, lá foi perder-se, aos apalpões, pelo corredor de azulejos.

A Cesária ficou só, na recâmara do deão. — Que raio de mal terá o padre? — pensava ela consigo mesma.

E olhava para a porta, pensando, a cada instante, ver aparecer a figura amarelenta do cónego.

Mas, como aquele tardava, a cigana começou a olhar para tudo, desde os livros, que dormiam sobre um grande escano de pau-santo, até ao quadro de Sequeira, um estudo a óleo para o S. Bruno, tão alto sobre a cabeceira de bilros, que teve de se empoleirar na cama para o ver melhor.

Justamente nesse momento, quando estava de pé sobre a cama, a enxovalhar a colcha com as tairocas, a porta abriu-se e apareceu uma figura pálida e sacerdotal, com um gabinardo de camelão de França sobre a sotaina de cónego, e uns olhitos azuis, inquietos, a faiscar. A Cesária teve ainda tempo de saltar para o sobrado, e quando ia a balbuciar uma desculpa, atabalhoadamente, começou a rir de repente. Sem mais tir-te nem guar-te, disparou uma gargalhada digna do Beco do Monete, e jogando ao ar a chinela, atirou-se ao pescoço do antigo sacerdote de Évora, que cambaleava e sorria.

— Olá! Pois eras tu, patuscão? Eras tu...?

CAPÍTULO V

 

 

Aquela visita noturna ao casarão de S. Vicente teve uma influência decisiva nos destinos da Cesária.

A rameira saia de casa todas as noites, luzindo as suas saias de goma e os seus ramais de coral, e lá ia, Amendoeira acima, até ao palacete do senhor deão. O virtuoso clérigo, que conhecera de ginjeira a cigana, achava-a melhor agora, como um fruto de polpa dourada que o tempo amadureceu. Depois, encontrava-a mais desavergonhada, mais Rua do Capelão, mais pitoresca por conseguinte, com todo o ensinamento de oito anos de fado, polida pelo ar do ofício, e a sua sensualidade de velho deliciava-se naquele andar de arremessos gingões, naquele falar de gíria reles, que conseguiam acordar-lhe no sangue as últimas relíquias de juventude.

Pelas ruas da Mouraria correu logo a noticia das idas da Cesária a S. Vicente.

As putas da Rua Suja conspiraram contra a cigana, no mesmo rancor surdo de despeitadas, que iam vendo crescer as moedas numa arca que não era a delas. Adubada por aquele estrume de inveja, a fama de ladra que ganhara a Cesária no passado reviveu em poucos dias. Ao sol-posto, quando a rapariga saia de casa, o bando das desgraçadas juntava-se ao pé de um banco de rua, e era um assoalhar de insultos que deixava a pobre coitada pelas ruas da amargura. Vinha à baila toda a colheita de furtos, a eterna história dos colares roubados à Russa e dos brincos de ouros da Bezerra, todas as solapas e maranhas de cigana ladra que se contavam da Cesária, as amizades com a Macheta, que roubava as pratas das igrejas, a própria morte de um mercador de Évora, os chistes, as porcarias, as canalhices, todo o abocanhar de que são capazes aquelas virtudes de pataco falso, quando se querem convencer de que valem mais do que as outras.

— Se vai por este andar, cria minas de caroço, a cabra! — grasnava do canto da boca uma ruiva esgrouvinhada, de punhos ferrados na cintura.

E uma mulata enorme, encarapinhada, lãzuda, comentava, em guinchos de bácora:

— Aquilo tem unhas na palma da mão!

As outras vinham chegando, engrossando o grupo, trazendo mais um insulto, mais um comentário podre, alargando a coscuvilhice, estendendo-o de banco em banco, de rua a rua, fazendo prodígios de invenções, — agora um terço de contas roubado numa capelista, depois certa vergonha espreitada por um ferrolho de uma porta...

A Malhada, a bem ver, juntava-se à má-língua porque doía-lhe aonde as outras lhe doíam. A predileção incompreendida da Macheta pela cigana, agitava-a numa raiva surda. Enquanto ela não passava da cepa torta das bazaruqueiras, custando-lhe a arrancar uma de doze do bolso dos matulos, a Cesária enriquecia à sombra da beata que a levava a clérigos e a ricaços, e lhe enchia a arca de bom ouro. Não! Não podia ser Deus para uma e o diabo para as outras. Por isso já não queria relações com a cigana; já não se dava com ela em pinta nem em desenxovalho!

— Cá a gente também é filha de Deus! — rematava ela com má cara, fazendo luzir, num abanar de cabeça, os brincos das orelhas.

— Pois está bem visto!

— Nós também queremos!

— A Macheta entende-se com ela porque são ambas ladras! — arriscou a mulata, olhando para a Russa, que se lhe encostara às pernas.

— Meteu-se de gangorra com padres, agora tem tudo quanto quer... até a pequena no colégio!

— Pois!

— Arranja-se…

— É uma arrombada, que não vale um búzio!

“Uma patrajona!” “Um estupor!” “Uma porca!” E as gargalhadas das mulheres cascalhavam na cigana com insultos, como uma lasca de pedra chocalhada dentro de um prato de cobre.

Efetivamente, a situação da Cesária era um desafio constante à desgraça das outras. Já quase não recebia ninguém. De dia, a persiana, sempre cerrada, mal deixava entrar o sol pela rua miudinha. De noite, a cigana saía, fazia ranger no ferrolho o palhetão da chave, e galgava, Capelão acima, num restolho de saias gomadas. Mas não lhe faltava dinheiro. A coscuvilhice palreira assim o apregoava. Tinham-na visto comprar a um mercador uma saia de saragoça, para o inverno, e alguém a ouvira, à frente da vidraça de um ourives, pensando em comprar uns brincos de ouro. A Cesária, que já tinha fama de ladra, começou a ter fama de rica. Havia até quem a tivesse apanhado em casa, acaçapada junto da arca aberta, a contar sobre o soalho umas poucas de moedas e um bom magote de cruzados novos.

— E a gente às vezes com fome! — rugia a Mulata, arregalando os seus grandes olhos de porcelana, injetados de sangue.

E uma onda de rancor sacudia esse bando triste de escorraçadas...

A pequenina Severa fora para o colégio oito dias depois da primeira visita da mãe ao paço de S. Vicente.

Quando o untuoso senhor deão foi informado da existência de uma filha da Cesária, vadiazinha de grandes olhos misteriosos como farfalhas de ouro a luzir na sombra, e soube da boca da cigana que a pequena fazia oito anos pelo S. Silvestre, sentiu bulirem-lhe as entranhas, desacostumadamente no arrancar de um sentimento novo. Exigiu datas, espiolhou minúcias, pediu indicações, e a cada resposta ingénua da Cesária os seus olhos vítreos faiscavam nas rugas das pálpebras, como duas joias azuladas sobre um farrapo de pergaminho. Aquele barregueiro senil, capelo em ronha e em cânones, ao pensar que podia ser pai, sentiu vontade de chorar pela primeira vez na vida, e duas grandes lágrimas, a um tempo grotescas e solenes, rolaram-lhe dos olhos sobre o amplo capote de camelão de França.

As datas davam certo. A pequenina Severa podia ser filha dele, — como de toda a gente. A ideia de que o seu sangue, onde havia ainda linhagens fidalgas, com ancestrais lorpas nos livros de descendência e chaveirões de azul e ouro nos velhos armários, andaria a arrastar-se pela sombra das vielas como o sangue de um carreiro ou de um moço de estrebaria, essa ideia terrível abalava-o, fazia-o estremecer numa agitação dolorosa, cortada de interrogações, de sobressaltos e de revoltas instintivas.

Seria filha dele? Bastava que o pudesse ser, que um acaso de datas admitisse que o era. A sua obrigação era salvar essa criança, que não tinha culpa de ter nascido.

Mas o que ele queria era a certeza: sim ou não. Quem menos o esclarecia era justamente a Cesária. A galdéria, quando o clérigo a apertava com perguntas broncas, ponha-se com uma risada de rincho, fazia trasvoltear a chinela na ponta do pé, e grunhia por fim, num desapego parvo:

— Olha... Lá que ela é minha filha, isso é, porque a pari eu. Agora quem é o bandalho do pai é que eu não sei. Foi feita com o olho na portela; não vi quem era...

E o cónego deixava-se cair sobre o escano alto, entre as rumas de livros, num regougo ininteligível e apagado.

Seria filha dele? Chegou a mandar pedir a um cirurgião amigo, que morava no Pote das Almas, dois calhamaços velhos de medicina, tão caducos como as suas teologias ascéticas, e escritos num castelhano agreste e arrevesado. Um desses livros, que o venerando deão conservava aberto sobre uma estante de coro, no seu quarto, com uma fita verde a marcar-lhe as páginas, tinha informações curiosas, esclarecimentos completos, coisas que ele nunca soubera, que não sonhara sequer, e que foram para os seus setenta anos uma revelação.

Depois dessa leitura e de uma conversa com a Macheta, a quem servira mais uma vez o esturrinho devoto pela caixa de tartaruga do senhor D. Miguel, resolveu-se a dizer à cigana que trouxesse a pequena.

Na noite seguinte, a pequena Severa lá foi, aos puxões pela mão da mãe, a caminho do paço de S. Vicente.

Ao atravessar as grandes salas de silhares de azulejo, cheias de sombras, e os velhos corredores fradescos sobre cujo tijolo os passos ressoavam, tamanho pavor tomou a pequena, sacudiu-a um choro tão convulsivo, que foi preciso levá-la de rastos até aos aposentos do deão.

Os resultados dessa visita singular soube-os no dia a seguir a Macheta, recebendo dez moedas para mandar fazer um enxoval à pequena e ordem para a recolher a um colégio.

A notícia correu logo pela Mouraria, como um acontecimento de destaque.

As rameiras da Rua Suja golelhavam pelas portas, à escuta. Quando viam passar a cigana, ficavam-lhe ás costas, gritando-lhe insultos, os punhos ferrados nas cinturas, as saias de goma resplandecendo ao sol.

— Tarrenego! Dinheiro de clérigo! — desdenhava a Russa, esgrouvinhada, agitando as grandes mãos ossudas, cheias de anéis de missanga.

— Tem mais ouro que sarna, a porca!

— Chelpa como o milho!

— Quem a viu a desfiar cabos na Estopa, a atravessadeira!

— Cabra!

— Folosa!

— Estupor!

Como a Cesária era destemida e de má sombra, as putas não se atreviam a enfrenta-la cara a cara. Preferiam o insulto pelas costas, que era mais seguro, e guardavam a pele. De todas elas, só uma, por ser mais forte de braços, seria capaz de medir-se com a cigana: era a Mulata. De forte arquitetura, grandalhona, com dois sólidos braços possantes e simiescos, a soca de verniz luzindo no pé melido e nervoso, a Mulata era justamente temida pela sua rijeza de fibra e pela sua língua de prata.

O avental de pau dessa mestiça cachorra ficava na Rua da Guia, quase defronte do Beco dos Três Engenhos, dobrando para o terreiro onde a rua alarga.

Uma bela tarde, já com sol-posto, a cigana saiu de casa e subiu a Mouraria, no seu caminho acostumado.

Quando passava junto do Beco, viu vir à porta a cabeçorra acobreada da Mulata, e espreitarem-lhe sobre o ombro, numa avidez de fera, os olhinhos pardos da Russa, metálicos e perfurantes.

Não se importou e seguiu em frente. Mal tinha dado dois passos, sentiu zoar-lhe nas costas um vozeiro de insultos:

— Já tens sarna de clérigo?

— Vais gamar o gebo, hein?

— Dá-me cá os colares, ladra!

— Porca!

A cigana voltou-se num instante. Quando ia a arrancar, viu o terreiro atulhado de mulheres, todas as rameiras da rua, que gritavam como cabras:

— Ladra! Ladra! Ladra!

E naquele fundo de casaria cinzenta, a turba das escorraçadas agitava-se, movia-se, engrossava, ameaçadora e cobarde, martelando o mesmo insulto, num ruído de matraca:

— Ladra! Ladra! Ladra!

A Cesária sentiu galgar-lhe à cabeça uma onda de sangue, e, de olhos turvos, os dentes ferrados rangendo na sombra, arrancou de um salto.

As putas, ao medir-lhe o ataque, instintivamente, recuaram.

Só uma ficou de pé firme, hirta e serena, na certeza da sua envergadura sólida, os braços remangados, a cabeça alta coruscando, em reflexos de cobre, à luz roxa da tarde.

Era a Mulata.

O choque das duas mulheres foi terrível. Travaram-se arca por arca, com uma sanha digna de feras, cingindo-se num estorcegar violento, peito contra peito, roçando-se aos encontrões pelos becos das esquinas, abatendo de borco sobre os poiais das portas.

As outras mulheres, abrindo em círculo um terreiro de luta, seguiam numa ânsia selvagem aquele combate de fêmeas.

As forças das duas rameiras eram iguais.

A Mulata teria mais rijeza de braço; mas a Cesária tinha mais nervo, mais pé e mais ligeireza. Chegou uma altura em que a mestiça, luzindo os seus grandes olhos de faiança, num arregalar de fera, pôs a outra no chão.

Toda a canalha ia gritar vitória, quando a cigana, escapando-se de sob o joelho da Mulata, num movimento brusco e elástico ergueu-se de um salto em frente da inimiga. Houve um momento de espectativa ansiosa. As duas mulheres, travadas de novo, braço a braço, esguedelhadas e pálidas, cingiam-se, resfolegavam num roncar ofegante de luta, e as suas cabeças, jogadas de encontro às paredes, ressoavam num ruído surdo. Por fim, a Mulata fraquejou, com a cara numa posta de sangue, e o seu forte peito de fêmea abateu sobre a terra.

Quando as marrafonas farejaram o sangue e viram cair a mulata, foram-se escapando à socapa e sumiram-se cobardemente, como sombras, na poalha luminosa das ruas.

A Cesária virou a vencida numa pontada violenta de soca, e ao voltar-se ainda para o bando das putas, no gingar de um desafio, encontrou o terreiro deserto.

— Porcas! Nem vinte têm alma para uma!

E enquanto a Mulata, ensanguentada e aos roncos, se torcia nas pedras da rua, a cigana, temendo uma traição, galgou a rua até ao Coleginho e desapareceu, na escuridão da noite.

Só regressou a casa de madrugada. O sol ainda vinha longe, e sobre a Mouraria adormecida, o clarão azulado da alvorada desdobrava-se como um pálio. A cigana subiu a escada estreita e entrou.

Decididamente, não podia continuar a viver ali, no coração daquela rua lôbrega, onde a própria casaria parecia sangrar de rancor contra ela. Era preciso fugir, aproveitar as horas mortas até ao nascer do sol, e despedir-se para sempre desse Capelão sombrio, onde arrastara oito anos de vida.

Se as putas a topassem, depois da briga da Mulata, cosiam-na de facadas a um canto.

Era preciso fugir. Arrancou o estropalho de ganga, esfrangalhado pela luta, vestiu uma saia de goma de três folhos lustrosos, atou alguma roupa num lenço sarapantão, recolheu os ouros, os colares, as arrecadas, abriu a arca, contou dez moedas e mais três pintos, arrecadou tudo numa trouxa pequena, voltou atrás à cata de umas socas que se esquecera, apagou o candeeiro de latão de três bicos, cerrou a persiana, aferrolhou a porta, desceu a escada, e aí foi, Mouraria acima, galgando a rua da Amendoeira numa alegria de evasão.

Aquela fuga precipitada trazia-lhe à lembrança, numa vaga saudade, essa outra fuga com o rabequista, numa grande noite de estrelas, já há nove anos passados. Primeiro, o escalar de quinchosos, pisando sem piedade as lindadas de hortaliça; depois, o talar continuado das largas bouças, desertas, com os pés doridos sangrando no mato e as bocas em flor resplandecendo de beijos... A sua ternura de fêmea recordava tudo, recompunha tudo, as primeiras carícias, em certa noite, sobre o restolho de umas searas secas, depois, em Évora, a fuga do rabequista, os amores do sacerdote, o mercador morto, os beijos de acaso pelos cantos das feiras, e, por último, o aconchego com o fidalguete D. João, cuja figura trigueira se erguia à frente dela, luzindo argentarias sobre o veludo da casaca.

E com a alma retraída numa grande dor, a, cigana, enquanto galgava a rua, ia pensando, consigo:

— São sempre eles que fogem...

Agora, quem lhe vinha à lembrança era esse homem do capotão de briche, que lhe aparecera, num tinir de esporas junto às grades do Coleginho e a defendera sem a conhecer. Não se lembrava de ter visto nunca, pela Mouraria, aquela barba preta e aqueles olhos pardos onde se acendiam rápidos clarões. Talvez fosse picador de touros, talvez fosse mestre de equitação.

O certo era que o não tornara a ver. Tinha grande superioridade sobre os outros, porque os fizera tirar o chapéu. Mas quem seria ele? O olhar não era bom; não a impressionara muito bem. Eram uns olhos pequenos e gázeos, de uma espantosa mobilidade, de uma luz fria e penetrante. Mas na própria maldade daquele olhar havia uma estranha atração.

Quem seria? E o seu pensamento, errante como a sua triste existência, perdia-se em conjeturas, comprazia-se em recordações, enquanto a claridade da alvorada, já mais nítida, batia com uma luz azulada nos topos da casaria.

Quase ao chegar ao Beco da Amendoeira, viu um vulto parado no meio da rua.

Por medida de prudência e porque a hora era má, virou-se pelo Beco que, curvando por detrás de uns casebres velhos, vai desembocar ao alto, onde a rua desafoga numa praça.

Assim, quando surdisse no cimo da Amendoeira, já o vulto teria ficado para trás.

— Nunca desejei mais ver-me em casa da Macheta! — dizia ela para consigo.

Mas ainda não tinha chegado a meio do Beco e ouviu, vindos de cima, um bater de passos e um tinir de esporas.

Parou, com o coração a saltar-lhe do peito. Era com certeza o vulto que vira parado na rua, e que tinha subido a seguir-lhe os passos.

Pensou em retroceder, em pôr-se a correr. Mas era perigoso. Levava consigo toda a sua riqueza e podia cair-lhe no caminho. O melhor era seguir em frente no passo normal.

A cigana estava sem pinga de sangue. Apertavam-se-lhe as goelas e sentia que se quisesse gritar não poderia.

O bater de passos aproximou-se. Criatura que a roubasse não era, decerto. Talvez algum comerciante sacudido com o cio, procurando uma mulher na Mouraria deserta. Um homem como outro qualquer. E que diabo poderia ela temer de um homem?

Não tinha dado mais dois passos, quando uma figura esbelta, embrulhada num amplo capotão de briche, apareceu no alto, no recanto de uma esquina.

Ao passar ao lado da cigana, parou.

— Ah! É o senhor... — gemeu a Cesária, parando também.

Não havia dúvida. Era o mesmo homem do ferragoulo de briche, que a defendera da malta do Coleginho, com os seus olhos pardos e miúdos luzindo de esguelha, e as suas esporas de mestre de equitação tinindo nas pedras.

— Cesária.

— Pois sabe o meu nome?

— Então não te lembras...? Naquela tarde, ali abaixo, ao pé do Santo Antão-o-Velho... em que não deixei aquele bando tocar-te com um dedo?

— Ah! Mas...

— Não te lembras?

— Foi-se tão depressa embora…

— Eu?

— Nem olhou para mim.

— Isso pareceu-te a ti!

— É que a malta esperava para beber, e depois...

— Eu também sei o seu nome.

— O meu?

— Chama-se Diogo.

— Quem to disse?

— Ouvi...

Houve um instante de silêncio entre os dois.

A nesga de céu, que se enfiava do Beco, começava a dourar-se lentamente.

Num grande alheamento de todo o seu ser, a Cesária pousou sobre aquele homem rude, trescalando a suor de cavalo, os seus lindos olhos pensativos. Ela, que tanto precisava de defesa, tinha ali uma criatura capaz de a proteger. Sob aquele gabão de briche havia talvez um coração generoso e forte. O seu grande mal era não ter quem a defendesse, de viver só, sem um arrimo e sem um braço, Precisava de um homem. Tinha ali um homem.

— Ainda não é dia, — aventurou ele, quebrando o silêncio.

— Ainda não...

E enquanto a cigana alongava os olhos para as sombras adormecidas nos recantos da alfurja, o Diogo agarrou-a com ternura, puxou-a de encontro ao peito, e, lábios contra lábios, foi-a fazendo desmaiar, docemente, sobre um largo banco de pedra tosca.

— Aqui não, que pode vir alguém! — gemeu a Cesária.

Mas os braços de ferro do eguariço imobilizaram-lhe toda a resistência.

A cigana resvalou do banco sobre a terra e de rojo como uma cadela, possuída por esse mestraço de picarias, amou-o mais violentamente que uma mulher pode amar.

Momentos depois, vendo-a erguer a trouxa que arremessara ao chão e em cuja interior tinira o ouro, o mequetrefe perguntou-lhe, luzindo os olhos pardos:

— E agora, para onde vais?

A Cesária atirou-se-lhe ao pescoço, e enquanto o sol subia como uma grande hóstia luminosa, a sua voz rouca de rameira gemeu, numa paixão:

— Para onde tu quiseres!

***

Diogo era um desses tipos eternos de rufião mazorro, sempre aos tombos na vida, com todas as condições para agradar às mulheres, conhecendo-as como aos seus próprios dedos, e tendo artes de lhes arrancar, até às mais prevenidas, a última lágrima, o último pataco, e a última gota de sangue.

Fora a princípio cocheiro. Depois, passou a pegador de touros, daí a toureiro da escola do Sedovém, mais tarde a mestre de equitação numa casa fidalga.

Despedido dessa casa por um roubo de joias, feito em tão excecionais circunstâncias que se o delatassem à justiça molestaria a honra de uma dama ilustre. Portanto Diogo botou-se à boa vida, correndo ruas, domando potros, rufiando mulheres.

Quem o quisesse ver, era num bar do Cunhal das Bolas, no Bairro Alto, entre pegadores de touros, tocadores de viola e cocheiros de boleia.

Pela Mouraria aparecia pouco, só de vez em quando.

Naquela altura, trazia para aqueles lados certa pendência com um antigo picador de D. Miguel, dono da Praça do Salitre, que lhe devia sete moedas e se recusava a pagar-lhas.

Numa dessas saltadas à Mouraria, ao chegar ao Santo Antão-o-Velho, vira uma puta à troca de insultos com o bando bordalenga que o seguia sempre, e num assomo generoso de rufião, defendera-a porque era mulher, e passara em frente porque era tarde.

Depois, soube que a pinta da cigana não o enganara, que a rapariga se chamava Cesária, e que tinha fama de rica no Capelão.

Daí a poucos dias tornaram a informá-lo. Corria já a nova dos amores desta com o deão da Sé. Dizia-se que a cigana tinha a arca repilgada de boas moedas e de bons cruzados novos.

Ao mesmo tempo, o negócio do picador do Salitre não atava nem desatava.

Diogo soube que o homem saía de uma casa da Amendoeira, todas as madrugadas, ao romper de alva, e decidiu-se a esperá-lo, a rachar-lhe a cabeça e a pagar-se pelas suas mãos.

Numa bela manhã, à mesma hora em que a Cesária, correndo o ferrolho da porta, se despedia para sempre do Capelão, o eguariço envergou o seu capote de briche, puxou num arremesso o capuz para a cara e emboscou-se na soleira de uma porta.

Daí a pouco, em vez de lobrigar o antigo picador de D. Miguel, viu, cortando as sombras da alfurja, um vulto agitado de mulher.

Era a cigana. Mal a reconheceu, desceu a seguir-lhe os passos. Daí, o encontro brutal do estoura-vergas, em pleno Beco.

Mandou ao diabo a espera, o picador e as moedas, e abalou com ela, Mouraria acima.

De caminho, a cigana falou pelos sete cotovelos, contou todo o seu passado, os amores de D. João, que ele não conhecia, a inveja das outras por ela ser a mais rica, a cena de pancada com a Mulata, todos os seus passos naquela noite, as chufas, as vaias, as pragas, depois o aconchego com o senhor deão, quem ele era, quanto lhe dava, o palacete com os seus damascos vermelhos, a Macheta com a sua loja de santos. Por último as lágrimas que chorara, as suas ambições, os seus desejos, a sua vida inteira no que ela tinha de mais recatado, de mais escondido, de mais íntimo, no desentranhar de uma confiança cega, como se aquele homem já a conhecesse há muito, como se aquele malandro fosse toda a sua alma.

E enquanto o sol, batendo de lado na cara da cigana, lhe escorria por entre os cabelos, como um pente de ouro, o Diogo, acompanhando-lhe o passo miúdo, parando a cada esquina, tropicando a cada pedra, escutava-a longamente, pacientemente.

Depois, tendo-a deixado na casa da Macheta, com hora marcada para a ver novamente à noite, o rufianaço, radiante com a presa que fizera, esfregando as mãos e descendo a Mouraria num tilintar de esporas, ruminou entre os dentes:

— Aquela é mulher para render dois mil cruzados! Já não a largo!

***

Durante os quatro anos que se seguiram, a cigana teve várias fortunas.

Nos primeiros tempos, o Diogo chegou a gostar verdadeiramente dela. Viviam de casa e pucarinho, comendo às custas do santo senhor deão. A pequena continuava no colégio, com expressa determinação de não ver a mãe. A Macheta era a única a visitá-la, de vez em quando, o lenço de cambraia muito teso nas pontas, e as camândulas de pau-santo pendentes da cinta. Com o que a velha implicava era com o eguariço, sempre dentro de portas, sem deixar a rapariga ficar com um pinto. Não estava mais na sua mão. Um pouca-vergonha!

— Levanta-lhe a cesta, filha, — rezingava ela, compondo o saiote. — Olha que em ruim mato fazes a lenha!

Mas a Cesária ouvia e sorria. Ao invés do que a Macheta pensava, ela ia engrossando o seu pecúlio sem que o picador desse por isso. Metade do dinheiro que recebia do cónego guardava metade.

— Não! Nem com toda a fome à arca, nem com toda a sede ao cântaro...

Passado um ano, Diogo voltou a tourear na Praça do Campo de Sant’Ana, onde se estreara numa tourada a rojão. Pagaram-lhe bem. Um belo dia, desapareceu, levando a algibeira quente de boas vinte moedas ganhas a tourear.

A Cesária correu mundo, à procura dele, com grave indignação da Macheta, que praguejava e bufava numa raiva santa:

— Correr atrás de um demónio de esporas, como aquele! Se já viram uma coisa assim!

Daí a meses, o Diogo batia-lhe outra vez à porta, e a cigana recebia-o no coração. Estivera em Espanha, e por lá andara a tourear. Começou então a apertar nas exigências de dinheiro.

Um dia coseram-no a facadas, e trouxeram-no para casa a escorrer sangue. A Cesária tratou-o como uma cadela de dedicação. O homem sarou e voltou a ser mestre de equitação.

Certa noite, ainda com as chagas abertas, olhando para a arca da cigana que estava a um canto, cerrada a fecharias de ferro batido, teve um sacão violento de corpo, os seus olhos de cinza luziram na sombra, e agarrando-lhe no pulso, rugiu de repente:

— Tens ali dinheiro escondido!

A Cesária empalideceu, ficou sem pinga de sangue, mas não se desconcertou. Começou a rir, numas gargalhadas nervosas que a abalavam toda.

No dia seguinte, estando Diogo a dormir, foi à arca, contou seis peças de ouro e mais cinquenta moedas, recolheu tudo numa bolsa de chita, e foi levar o dinheiro a um lugar seguro.

Foi a Macheta a depositária. A tarasca da velha admirou-se de tamanha riqueza, juntada aos poucos:

— E eu a pensar que nem tinhas um fiunquinho de erva na manjedoura!

Depois que o receberam como mestre de equitação em casa do Marquês de Ponte de Lima, o Diogo começou a aparecer menos por casa da Cesária.

De vez em quando, mandava-lhe pedir dinheiro. Um belo dia, a cigana não esteve pelos ajustes e não lho mandou. O picador insistiu. Ela procurou-o no palácio do Marquês, decidida a dar-lhe tudo, se ele fosse naquela noite dormir com ela. Mal a viu a aparecer à porta da estrebaria, o rufião partiu-lhe a cara.

— Para não te intrometeres onde não és chamada!

Dali por diante, mandava-lhe os amigos, com o recado de que eles já lhe tinham pago e que ela devia agora servi-los.

A Cesária devorou com lágrimas a afronta. Logo que pode, encobertamente, mudou de casa.

Nessa altura, o Marquês, avisado da má fama do eguariço, despediu-o com boas palavras e arranhou outro mestre de equitação. Vendo-se sem eira nem beira, Diogo deitou contas à vida. Em três anos e meio, vivera com a cigana dezoito meses.

Cada mês, as oito moedas, dava cerca de mil e quinhentos cruzados. Para o que ele pensava que a mulher lhe renderia, ainda faltavam cinquenta moedas, pouco mais ou menos. Era preciso apanhar-lhas, desse por onde desse. O que era preciso era descobrir-lhe o paradeiro.

Esperou-a uma noite, escondido na escadaria de S. Vicente.

A cigana apareceu na escuridão estrelada, e o bandido meteu-se à sua frente olhando-a com aqueles olhos pardos, aquelas pupilas fulvas que a dominavam e a hipnotizavam. Cesária sentiu-se sem forças para reagir. Esteve por tudo.

Concordaram viver juntos, como dantes.

Foram viver para um primeiro andar na Rua do Arco da Bandeira, sobre a cavalariça do Sousa do Casacão, que o Diogo tinha como seu grande amigo.

Logo depois de se terem juntado, uma santa manhã, estava o picador na cavalariça a ouvir à guitarra o João Moisante, chegou a Macheta, com cara de caso, esbaforida, aos roncos de cansaço, as camândulas a chocalhar na cinta.

— Cesária! Cesária!

A cigana foi recebê-la à escada.

— Valha-me o Senhor S. Bento! A grande desgraça que aconteceu!

E enquanto a Cesária a olhava, no primeiro assomo de surpresa, a alcoviteira, aflita, juntava as grandes mãos oleosas, numa postura de fazer piedade.

— Mas que foi, tia Macheta? Que foi?

E a velha, torcendo-se numa visão de nojo, gesticulou sem dizer palavra, as mangas de castorina amelada a esbracejar de fora do saiote vermelho, em movimentos indecifráveis que um regougo surdo cortava de vez em quando.

Por fim, abriu muito os olhos, encarou a cigana, e esboçando um trejeito de resignação cristã, grunhiu no arrancar de uma lágrima:

— Coitadinho! Já se foi!

— Já se foi quem, tia Macheta?

— Ora, quem havia de ser, filha! Coitadinho! Um santo daqueles! Só morre quem faz falta... É bem certo!

A cigana ergueu-se de repente, agarrou-se a uma parede para não cair, e rouquejou esparvoadamente, com o ar de uma criatura que acorda:

— Morreu?

Com efeito, o deão fora encontrado morto, naquela madrugada, caído do seu leito de bilros, com os grandes pés nus enrodilhados na roupa e a cabeça a sangrar no sobrado. Contava-se que Sua Eminência, ao visitar o cadáver, mandara recolher duas chinelas de verniz, palmilhadas de baeta vermelha, encontradas ao pé de um breviário romano, sobre uma das cadeiras da alcova...

A Cesária pensou logo na filha. Quem pagaria a mesada do colégio? Quem a vestiria? Quem a sustentaria?

Aquele velho, que podia ter sido a salvação da pequena, talvez fosse, afinal, a perdição dela.

Depois de cinco anos de colégio, já com luzes da vida, acostumada a uma boa vida, voltar para a desgraça da mãe era condená-la à mesma desgraça.

Não. Não podia ser de maneira nenhuma. Era preciso dar uma volta à vida.

A Severa ficaria no colégio. Pagaria ela a mesada, com o seu pé-de-meia. Estava decidido.

Deu conta da sua resolução à Macheta e pediu-lhe que trouxesse o dinheiro.

A velha trouxe-o no dia seguinte, intacto. A cigana arrecadou-o cuidadosamente, e aferrolhou a arca. Tinha ali, naquelas cinquenta moedas, toda a sua vida, toda a sua esperança, a salvação da sua filha e a sua própria salvação.

Ao princípio, temendo que Diogo a deixasse, a Cesária escondeu dele a morte do velho.

Mais tarde, não teve remédio senão dizer-lhe que pusesse cobro a gastos escusados, porque já se fora quem pagava.

— Quê...? O gebo levantou a cesta?

— Não. Morreu.

— Ah! Foi para as malvas, hein...? Isso agora, sim.

E enquanto a cigana, já um pouco envelhecida, com os seus olhos roxos de mortificações cravados no soalho, tinha a certeza de que ele a ia deixar, o eguariço encolheu os ombros em desapego, pôs a casaca pelas costas, esguelhou para a arca um olhar ruim e desceu à cavalariça, para ouvir o fado.

Lá em baixo, numa réstia de sol que entrava pelo largo portão, um grupo de cocheiros, em volta de uma viola, zangarreava o choradinho.

Pouco depois, a Cesária saia também para ir ter com a Macheta.

O picador, ao vê-la passar, gritou-lhe da porta.

— Aonde é que tu vais?

— À vida.

— Podes lá ficar, se quiseres, que não fazes falta!

À noite a cigana entrou em casa, acendeu o candeeiro de latão de três bicos e esperou o Diogo.

As horas iam passando e o picador não chegava.

Desceu à cavalariça, a ver se sabiam dele. Foi o Malaquias cocheiro quem lhe falou:

— Esteve cá, esteve. Até arranhou na viola.

— E depois?

— Depois, entrou em casa, penso eu.

— Demorou-se?

— Demorou.

— E a que horas saiu?

— Isso agora é que eu não estou muito certo. De ter sido pelas Ave-Marias.(*)

 

[(*) Meia-Noite]

 

— E esteve sempre lá em cima?

— Esteve.

Quando a cigana subia a escada, saltou-lhe o coração a anunciar-lhe desgraça.

Galgou os degraus, dois a dois, desaferrolhou a porta, atravessou a casa, e pálida, num arranco de aflição, precipitou-se sobre a arca.

Estava aberta. Esfregou os olhos para ver melhor.

Os fechos de ferro tinham saltado fora e o velho baú aparecia, numa poalha de ferrugem, recortando à garra, com as fecharias arrancadas.

Não havia dúvida. A tremer, com a testa alagada de suor, levantou o tampo, que rangeu.

As roupas em desordem, revolvidas, enrodilhavam-se, cobertas de salpicos de sangue. A cigana levantou-as, sacudiu-as, num tremor convulso, amontoou-as à pressa sobre o soalho, revolveu tudo, e estendendo as mãos até ao fundo da arca, procurou febrilmente as suas moedas, o seu ouro, a sua salvação, a salvação da sua filha.

Tinha sido roubada.

Ia gritar, mas o pesado tampo de madeira abateu-se-lhe sobre os braços estendidos, e a força da dor, aturdindo-a, fê-la cair e desmaiar despojada no sobrado.

O picador nunca mais apareceu. A pobre mulher queixou-se à guarda de que o amante a roubara. A guarda, duvidando de que uma puta desgastada do Capelão tivesse cinquenta moedas na arca, riram-se na sua cara e mandaram-na tratar da vida.

Houve até quem a aconselhasse a não falar mais no caso. Ver-se-ia aflita para provar a posse do dinheiro. Mesmo quando o tivesse provado, não lhe seria fácil justificar a sua proveniência. A fama de ladra que a Mouraria lhe criara, podia voltar o feitiço contra o feiticeiro. O melhor era fazer de conta que nunca tivera aquele pé-de-meia, e deitar o coração à larga.

Estas razões calaram no espírito da Cesária. Mas o que mais lhe doía era a desgraça da filha. Aqueles quinhentos cruzados, que eram a toda a sua esperança, tinham desaparecido. A pobre cigana não tinha mais do que a roupa, e, daí por diante, a vergonha dos doze vinténs de prata jogados sem piedade pela mão dos homens. E a sua alma de escorraçada sangrava de dor, no irremediável de uma vida inteiramente perdida. Bem lhe dissera a Macheta... “Não trabalhes por criar corvo que te tire o olho.” Agora torcia a orelha, e não botava sangue.

Outro como o deão já ela sabia que não teria. Aquele pobre barregueiro de murça e meias vermelhas, dera-lhe, em cinco anos de aconchego, para mais de três mil cruzados.

E agora, que havia de ser da filha?

A pequenina Severa, que ela arrastara aos repelões pelos corredores de tijolo do S. Vicente, devia ser já uma mulher feita, com bastantes luzes da vida para conhecer a vergonha da mãe. Como havia ela de a tratar, de lhe aparecer, de lhe esconder os podres da sua condição, de a resignar aos horrores da sua fome?

Sim, porque a filha havia de voltar, de vir para ali, para aquela casa. Já não era a mesma Severa pequena, que ela atirava para a rua quando espreitava às portas. Era uma mulher, uma linda mulher, talvez, com os seus grandes olhos tristes e o seu peito cerrado de pureza, que ela precisava defender como uma loba, e a quem teria de repetir, a todos os dias, a todas as horas, a todos os momentos:

— Olha que esse pão que estás a comer foi comprado com a vergonha da tua mãe!

O sentimento da maternidade era na Cesária, como em quase todas as ciganas, um sentimento violento. Maltratara a filha, em pequena, ensanguentara-lhe a cara, muitas vezes, de encontro aos poiais da janela, mas teria saltado como uma fera, se fosse outra pessoa que a maltratasse.

O seu amor de mãe não conhecia ternuras: era um amor rude e animal. Deixara partir a filha para o colégio e não chorara uma lágrima. Há cinco anos que a não via, e não tivera uma saudade.

Mas se fosse preciso defendê-la amanhã, e o seu instinto acordaria num assomo selvagem, capaz de todos os sacrifícios e de todas as heroicidades.

Passaram-se dois meses sem se pagar o colégio.

A Macheta aparecia em casa da Cesária, de vez em quando, a invocar todos os santos da sua devoção e a perguntar-lhe como havia de ser aquilo.

A cigana ouvia-a, encostada à cantoneira cheia de louça, e respondia invariavelmente, encolhendo os ombros:

— Se eu nem tenho para a minha vida, tia Macheta!

A Macheta abalava, para voltar no dia seguinte, dali a dois dias, dali a três dias, sempre a trejeitar biocos, dizendo credos em cruz. Desde que deixara de poder levar a mesada, não voltara a pôr os pés no colégio.

— A ver no que isto dá! — rezingava ela. E a sombra triste do deão passava-lhe à frente dos olhos, com as suas meias encarnadas e o seu capote de camelão de Prança, estendendo-lhe ainda, entre os dedos, a caixa de rapé do senhor D. Miguel..

Passou-se tempo, e da pequena nem noticias nem pedidos.

A Cesária chegou a pensar que, por caridade, a não mandariam embora. Às vezes, quem sabe? Talvez se tivessem afeiçoado a ela. Ainda havia boas almas neste mundo. E, depois, que faziam lá falta os vinte cruzados? Talvez ela ajudasse lá com as arrumações.

A pequena já lhes tinha rendido para mais de cem moedas. Não era de mais que a sustentassem agora, que a mãe não podia.

Talvez a Macheta lhes tivesse contado toda a desgraça que pesava sobre a criança, a vergonha da mãe, a situação em que as colocava a ambas aquela súbita mudança de destinos. E a cigana, às noites, encostada à mesa, na luz inquieta de um candeeiro de latão, deitava contas à vida, esparvoadamente...

Um belo dia, amanhecera ela a pensar na filha, quando bateram à porta.

Levantou-se, enfiou uma saia e foi abrir.

Quando procurava o ferrolho, aos apalpões, a voz aflautada da Macheta guinchou de fora:

— Abre Cesária. É uma visita.

A porta abriu-se, e numa chapada de sol, recortando as suas ancas de mulher junto ao capote encarnado da velha, uma linda rapariga apareceu medrosamente, gemendo num sorriso acanhado:

— Mãe...

Era a Severa. A sorte da pobre pequena estava jogada.