A Severa
Capítulo VI · No dia seguinte, a Severa deixava para…
No dia seguinte, a Severa deixava para todo o sempre a casa do Marialva.
Voltava ao fado das ruas, à realeza triste daquele bairro de desgraça, a essa doce e luminosa miséria que ela conhecia tão bem e onde, ao menos, havia liberdade, independência, alegria, bravura.
Ao erguer-se da tremenda crise, pensara primeiro no Custódia. Que teria sido dele, agonizando por detrás do velho reposteiro de veludo, talvez num lago de sangue, por causa dela, só dela, que o não soubera defender do ciúme do outro!
E os olhos da cigana circunvagavam, ansiosos, em busca do pobre coxo que ela julgava morto.
O Conde, debruçado sobre a cabeceira do leito, seguindo-lhe todos os movimentos, o arfar das narinas, o arquejar do peito, as contrações da boca, compreendeu que a Severa procurava alguém.
Desde que D. João, erguendo-a nos braços, a levara quase morta para a cama, a expressão de ansiedade da cigana era manifesta. Aqueles dois grandes olhos negros revolviam-se nas órbitas, esquadrinhavam os cantos da alcova, fixavam-se na porta, acendiam-se em súbitos clarões, vidravam-se de lágrimas.
O Conde levantou-se do tamborete onde passara a noite, aproximou-se dela e perguntou:
— É o Custódia que tu procuras, não é?
A Severa ergueu-se, afastou num repelão a manta que a cobria, olhou D. João, desvairada.
O fidalgo, cheio de piedade por aquela sombra doente e dolorosa, acariciou-a, passou-lhe a mão pela testa que um suor viscoso inundava, compôs-lhe os cabelos desfeitos que pareciam, à luz, despedir cintilações roxas como as asas de certos corvos, e disse-lhe, numa voz a que se esforçou por imprimir serenidade:
— Descansa. O Custódia está vivo.
— Vivo? Ele está vivo? — gemeu a cigana, olhando, fixamente para D. João.
O Marialva contou-lhe que o Custódia fora levantado do chão com a cabeça aberta e levado para o Hospital Real. O veludo do reposteiro amortecera a pancada. Não tinha importância. A Severa ouviu-o, desconfiada, amarfanhando a bata da saia; de repente, teve um arrepio brusco de corpo, fuzilaram-lhe os olhos, e gritou para o fidalgo:
— Tu mataste-o, e estás-me a enganar!
— Não matei.
— Então onde está ele? Onde está ele? Tu mentes-me! Não foi para o hospital, não! Está morto... Eu sei que está morto. E foste tu que o mataste! Tu! Foste tu!
D. João teve receio de que a sua presença, em vez de a acalmar, a excitasse. Procurou convencê-la de que o coxo estava realmente vivo; mas como a exaltação da cigana era cada vez maior, pegou no chapéu, atirou pelas costas a sua grande capa negra, e saiu.
Quando o viu desaparecer, a Severa gritou, chorou, insultou-o aos berros, agitando a casa:
— Cobarde! Cobarde! Cobarde!
Mas D. João não voltou. Desceu as escadas, de escantilhão, respirou a plenos pulmões ao encontrar-se na rua, atravessou o largo terreiro de Sant’Ana, e enervado, caminhou ao acaso, correu becos, vielas, ruas, a pensar na pobre cigana doente, a quem Deus — infelizmente para ela — dera coração a mais.
Mas a cidade, pacífica, dormia sob o grande pálio da noite estrelada. As vielas e as ruas abriam o seu bocejo de pedra, e as altas janelas de rua apagavam a sua luz amiga, como pálpebras cerrando-se para o sono. Ninguém por esses caminhos desertos. Apenas um vulto que D. João confundiu com uma sombra e que se escondeu por detrás de uma esquina.
***
Em casa, a Severa, mal viu desaparecer o Conde, chamou desesperadamente as criadas, obrigou-as a contar tudo o que tinham visto, o que fora feito do pobre epilético, para onde o tinham levado, vivo ou morto.
As mulheres pouco lhe souberam dizer: que o senhor D. João dera com o Custódia caído no soalho, a escorrer sangue, sem sinal de vida, e que chamara dois homens, que o tinham levado.
A cigana ouvia-as soerguida na cama, agarrada febrilmente à cabeceira de bilros para não cair, com a expressão contraída, os dedos crispados.
Quando elas disseram tudo, levantou-se num supremo esforço do seu corpo doente, e já no chão, transida de frio, os olhos acesos num brilho de febre ou de loucura, pediu roupa para se vestir, a sua antiga roupa de fado, a saia de ganga de três folhos, as meias verdes, os colares, os brincos, as socas de ponteira luzente, todo o seu velho guarda-roupa de desgraça, para sair já, para sair o quanto antes daquela casa que a sufocava, para voltar à vida antiga, para ter de novo a liberdade para ir ao hospital, fosse onde fosse, ver esse pobre Custódia, a quem ela sacrificava toda a sua vida, todo o seu amor, toda a sua alma.
As mulheres revolveram as arcas, vestiram-na, calçaram-na. Por duas vezes a pobre cigana fraquejou e deixou-se desmaiar, arquejante, sobre o leito. Mas logo se ergueu, na febre, na ânsia animal de fugir, de ser livre, de respirar, de viver.
— Que havemos nós de dizer ao senhor Conde? — balbuciavam as criadas.
— Digam-lhe que morri! — respondeu a cigana, enfiando a soca de verniz no pé airoso.
E sem precisar de que a amparassem, desprezando os braços das criadas, desceu a escada num passo firme, parou à porta, sorvendo o ar fresco da noite, e perdeu-se, sozinha, nas sombras espessas do terreiro de Sant’Ana.
***
Qual era, afinal, a razão daquela fuga? Que sentimento complexo a levava a abandonar o único homem que tinha amado no mundo, e que amava ainda, com todas as violências do seu coração de cigana? Porque fugia ela ao único amante que verdadeiramente a tinha possuído, a quem toda a sua carne se sentia presa, que exercia sobre ela um verdadeiro domínio sensual, ao homem que era o seu prazer, a sua alma, o seu orgulho, a sua virtude, a sua febre, o homem que ela consagrara o primeiro entre todos, que era a força, a vitória, a beleza, a raça, a fidalguia, que resumia num só ser, todo o seu sonho de amor voluptuoso e selvagem, e por quem ela daria a vida inteira, com pena de ser ainda a vida um tão pequeno sacrifício? Porque fugia ela ao Conde de Marialva, se mais ninguém a amava no mundo, se toda a sua existência era ele, só ele, sempre ele! Que sentimento a compelia a essa fuga que nada explicava e nada desculpava?
Era apenas um sentimento de compaixão. Os desgraçados entendem-se; há uma força que os atrai, uma íntima solidariedade moral que os aproxima; sentem que se devem mutuamente proteção e amparo. À sede de liberdade, juntava-se na alma ardente da Severa a piedade pelo miserável, o pobre cão da rua que toda a gente enxotava aos pontapés e que a seguia sempre, risonho e humilde, contente de a ver e de a adorar de longe. Entre aqueles dois homens, que se tinham batido por causa dela, o seu coração estava com o mais fraco.
A violência exercida sobre o Custódia, por um homem que tinha a consciência da sua força, que Deus fizera são e robusto, repugnava ao espírito generoso da cigana. A sua evasão era mais do que a satisfação do seu instinto de liberdade; era um protesto contra a evidência dos fortes; era o cumprimento de um dever a que ela — uma pobre puta da rua, cheia de delicadezas morais! — julgava obrigado o seu coração.
Apesar do seu sofrimento, a Severa, opressa ainda, arquejando o peito dorido como se lho apertassem entre talas de madeira, as pernas a vergarem-se-lhe a cada passo, foi-se arrastando, embrulhada no seu saiote verdoengo e envelhecido, encostada às ombreiras, aos becos da casaria, deixando-se cair de vez em quando, como um farrapo, nos poiais das portas.
A sua ideia fixa era chegar ao hospital. Era a ideia de ir ver o pobre coxo, dizer-lhe uma palavra de consolação, que lhe dava forças para subir aquele calvário, que a amparava, que a conduzia. Deixara tudo por causa dele? Acabou-se. O mundo era grande e os desgraçados têm sempre onde morrer. Tudo lhe dizia, a voz do silêncio e da sombra, a voz da sua própria consciência: “fizeste bem!” O grande céu tranquilo, coalhado de estrelas, parecia abençoá-la. E a triste cigana, sentindo, no fundo do seu coração doente, a dolorosa volúpia de se sacrificar, de sofrer por alguém ainda mais desgraçado do que ela, arrastava-se, a caminho do hospital, pensando no Custódia, estremecendo a uma ideia que a esfriava, que a arrepiava toda:
— E se ele está morto? De repente, no virar de uma rua sombria, mal iluminada pela candeia de uma imagem de azulejo, uma figura grotesca, a rastejar como um sapo, surgiu da escuridão:
— Severa...
A cigana parou, transida. Era o Custódia. Esfregou os olhos para ver melhor, porque não acreditava ainda. Para ela, aquele aparecimento inesperado era uma ressurreição. Quebrada de fadiga e de doença, deixou-se cair nos braços do pobre epilético, como quem encontra finalmente onde repousar.
— Sentamo-nos aqui, não queres? — gemeu o Custódia, arrastando-a de mansinho para o poial de uma porta.
Sentaram-se ambos, muito aconchegados, como dois irmãos mendigos, e cada um deles teve o gesto instintivo de guardar o outro do frio, ela com o seu saiote verde, ele com o seu grande capote de burel.
Uma intraduzível ternura unia-os naquele momento, e o pobre Custódia, muito alegre, a rir como um idiota, pela primeira vez na vida sentiu a necessidade de gritar a toda a gente, de dizer a todo o mundo, aos homens, ao céu, às sombras que o envolviam: “Eu sou feliz! Eu sou muito feliz! Eu não invejo a sorte de ninguém!”
A Severa, numa solicitude de mãe ou de irmã mais velha, acarinhava-o, aquecia-o com o seu bafo, afagava-lhe os cabelos empastados de sangue, dava-lhe o que esse desgraçado nunca tivera na vida, — uma carícia de mulher, uma lágrima serena e comovida a escaldar-lhe a face, vinda de uns olhos que não fossem os seus.
— Sabes? Eu ia à tua procura… — disse por fim a cigana, com simplicidade.
— Ias?
— Ia. Disseram-me que ias a escorrer sangue quando te levaram lá de casa...
— Penso que sim...
— Pus logo na ideia que te tinham levado ao hospital.
— E levaram. Quando dei por mim, já trazia esta atadura na cabeça. Ainda sinto na boca um travo de sangue...
— Pois eu saí de casa. Já lá não volto mais.
— Tu?
— Fugi.
— Para quê?
— Para te ir ver, onde tu estivesses.
— Pois não voltas mais para ele? — acudiu o Custódia num sobressalto de alegria, os olhos brilhando na sombra. — Tu não voltas mais, Severa?
A cigana deixou pender a cabeça, num soluço, e balbuciou, dolorosamente:
— Nunca mais...
— Ele fez-te mal?
— Não. Fez-te mal a ti.
— Então, é porque tu gostas mais de mim do que dele... não é, Severa? Não é?
— Eu?
Pelos olhos da cigana passou, de repente, a figura esbelta de D. João, cheia de raça e de beleza, com a sua cinta de seda negra, as suas esporas de prata, o seu grande chapéu castorenho, o seu orgulho magnífico de homem forte, desejado e feliz. Via-o sobre um tordilho ágil de combate, dominando a multidão das praças de touros, a casaca a refulgir numa chapada de sol, uma chuva de flores caindo-lhe sobre a cara... Era o único homem que ela tinha adorado na vida; que lhe dera a conhecer — a ela, em cujo corpo corrupto havia ainda alguma coisa de virginal — as fortes emoções do verdadeiro amor; que fizera vibrar, numa paixão, toda a sua alma...
De repente, desprendeu-se dos braços do Custódia, sacudiu-o, ergueu-se, a cambalear. E se voltasse para casa? Deu ainda uns passos. Mas, de súbito, parou. Encostou-se a uma parede de pesada silharia, a soluçar. Ouviu-se um murmúrio: era o Custódia que a chamava. Num movimento brusco, a Severa voltou-se; a sua piedade, mais forte do que o seu amor de mulher venceu; e a cigana, estendendo os braços para o mísero epilético, caiu-lhe sobre o peito, debulhada em lágrimas:
— Não, não! Não vou! Não vou mais! Custódia, leva-me contigo... Para muito longe daqui.... Leva-me! Leva-me...
Daí a pouco, no silêncio da grande noite estrelada, duas sombras, amparadas uma à outra, como dois farrapos dolorosos, atravessavam o terreiro de Sant’Ana e desciam por uma rua lúgubre, sem destino...
Nessa noite, a Severa dormiu em casa da Macheta. A velha recebeu-a com o seu melhor sorriso, lembrando velhos tempos que não voltavam, o colégio, o senhor deão da Sé de Lisboa e as suas suspeitas de paternidade, os bons magotes de ouro gastos num enxoval, a primeira visita da Severa, ainda pequena, às salas azulejadas dos paços de S. Vicente. E a cigana ouvia-a em silêncio, caída numa enxerga feita pela santa madre Celestina sobre um estrado velho, encolhendo os ombros a cada pergunta da beata, rugindo num arremesso ao ouvir o nome da mãe.
Em volta, na pequena loja térrea, as figuras impassíveis dos velhos santos de madeira erguiam-se, chispando na sombra o ouro estofado dos pontificais e das mitras; as tigelas de cores moídas alinhavam-se sobre tamboretes e cadeiras de tripeça; e, ao acaso de cada canto, pedaços de talha dourada faiscavam na escuridão, pendurados nas paredes onde a caliça caída descobria a mancha sangrenta dos tijolos.
O Custódia, defronte dela, olhava-a. Nesse olhar intraduzível, onde havia, ao mesmo tempo, deslumbramento, gratidão, piedade, ternura e ternura triste do olhar dos cães, passavam também clarões, centelhas, relâmpagos de ódio pelo “outro”. De vez em quando, uma bágoa de sangue escorria-lhe da ferida, marcando um vinco quase negro, como uma ruga, por aquela cara pálida e monstruosa, que lembrava a de um bobo célebre de Velasquez. E então, o pobre aleijado, sem despregar os olhos da Severa, limpava a cara, orgulhoso, contente de ter sofrido por ela, feliz, bem mais feliz pela posse daquela alma, do que se tivesse tido — pobre dele! — a glória de lhe possuir o corpo.
Ao outro dia, quando o sol entrou pelo postigo aberto, ainda o Custódia lá estava, a olhar para a cigana, sem dormir um instante sequer, guardando-a como um cão, de bruços sobre uma velha manta de riscas.
A Severa, ao acordar, deitou contas à vida. Não podia ficar ali. A casa da velha santeira apavorava-a, com aquela população macilenta de apóstolos, de santos da igreja mitrados e hirsutos de báculos, de evangelistas. Dir-se-iam espectros, a olhá-la. Tinha medo. Depois, de que havia ela de viver? Era preciso voltar à sua antiga existência, às ruas, ao fado, às guitarras, à meia-porta, aos beijos de toda a gente, — que haviam de doer-lhe agora, como facadas. Quanto mais o seu destino lhe parecia irremediável, mais ela sentia, no fundo do seu coração despedaçado, que amava D. João. Se ela, ao menos pudesse chorar! Se para a sua dor houvesse o bálsamo das lágrimas!
A cigana, com a cabeça pendente sobre o peito, os cabelos negros faiscando ao sol, em clarões azulados de asa de corvo, pensava na sua vida, quando, de repente, a velha beata que a estava a olhar, lhe disse do lado:
— Agora é que a minha rica joia podia fazer fortuna, se tivesse juízo!
— Eu, tia Macheta?
— Sim, tu... Pois então quem? A amante do senhor Conde de Marialva! Não é lá qualquer coisa! Deixasses tu isso por minha conta e verias o que era aí ajuntar bom ourinho ao canto da arca! Porque tu não és lá como a tua mãe... És outra fazenda! Uma mulher que dá gosto! Quisesses tu, que eu ensinava-te o caminho da riqueza. E olha que não era para o meu interesse, assim Deus me ajude! Mas conheci-te de pequenina, fui unha com carne com o santo deão teu pai, que Deus tenha em sua santa guarda, e acostumei-me a ver-te com os olhos do coração. Deves tomar tento na vida. Se começa a entrar a desgraça contigo, nunca mais te levantas. Já sabes como elas mordem. Dos escarmentados se fazem os arteiros. Se quisesses, ao que tu vales, já tinhas ouro arrecadado que dava para um conjunto de casas. “Ao mau vento, volta-se-lhe o capelo”. E olha que o mau vento já começa a entrar contigo e a dar-te de rosto. O senhor Conde faz-te muita honra, sim senhor, para aqui e para ali, mas não te deixa juntar um cruzado novo. Precisas de outra raça de homem, acredita. Não há melhor cirurgião que o bem acutilado, e se queres conselho pede-o ao velho. A tia Macheta, que foi grande amiga do teu santo pai, não te dava conselho que te levasse à perdição. Cuida da vida e lembra-te sempre do que eu te digo, que já é velho o ditado: "não há mal tão lastimeiro como não ter dinheiro".
A Severa ouviu-a primeiro com serenidade, depois com impaciência, e por fim, batendo com fúria a soca de verniz nas tijoleiras do chão, atirou-lhe à cara:
— Sabe que mais, tia Macheta? Vá-se lixar!
A trota-conventos olhou-a, espantada, teve um arremesso brusco, um erguer de ombros desdenhoso, voltou-lhe as costas, resmungou, depois encrespou-se, encarou de novo a cigana e estacando-lhe em frente, quase, nariz com nariz, grunhiu em jeitos de melindrada:
— És uma grande ingrata! É o que tu és!
Depois voltou-lhe de novo as costas, e desapareceu por detrás de uma velha cortina de ramagens encarnadas.
A Severa para ali se deixou ficar, inerte, o olhar vago, as mãos pendentes, o saiote verdoengo pelas costas.
Daí a pouco, saía o Custódia lá de dentro, com uma grande imagem do santo Izidoro derrubada sobre o ombro, — encomenda de algum fidalgo para a capela do seu solar.
— Onde vais? — perguntou a cigana.
O Custódia parou com a mão no ferrolho da porta:
— Já volto...
— É bonita a imagem. Deixa ver. Muito bonita. Que santo é?
— Santo Izidoro, bispo de Sevilha.
— Advogado de alguma moléstia?
— Sei lá! É para a capela dos senhores Marqueses de Viana.
— Foste tu que o fizeste?
— Não. É muito antigo.
Houve um instante de silêncio. O Custódia, sorrindo, de olhos enlevados na Severa, já não tinha força para se ir embora. Foi preciso que ela o despertasse, dizendo-lhe de repente:
— Então vai-te com Deus, anda!
— Vou, vou...
E com a perna de rastos, a cabeça atada num trapo sangrento, a figura do bispo chispando a ouro sobre a romeira do capote, o Custódia lá foi, humilde, contente de lhe obedecer, feliz de a adorar em silêncio.
— Adeus... Adeus.
A porta bateu e o pobre coxo perdeu-se no rumor da rua.
A Severa, passado o primeiro momento de excitação, já estava arrependida de ter enxovalhado a beata.
Porque a verdade era que a tia Macheta estava a dar-lhe bons conselhos, — conselhos que o seu coração ferido repelia, mas que eram cheios de conhecimento do mundo e dos homens.
E, para além disso, a trota-conventos fora sua protetora, e a cigana, ao recordar os tempos passados, lembrava-se vagamente de que já lhe quisera mais do que à própria mãe. Depois, estava em dívida para com ela, e devia pensar que, naquela casa, nem mesmo tinha o direito de ter fome.
A Severa, sentando-se bruscamente na enxerga, chamou de mansinho:
— Tia Macheta...
A velha apareceu, já de lenço de cambraia espetado na cabeça, o saiote vermelho a rastrear no chão, os bentinhos e as camândulas tinindo na cinta.
— A tia Macheta aonde vai?
A santa madre Celestina teve fez uma expressão descontente com a cara, grunhiu quaisquer recriminações, olhou para a cigana, deu uma volta na casa, concertou mais uma vez o bico gomado do lenço, tudo em movimentos nervosos, rápidos, agastados, e por fim, sem se poder conter, gritou-lhe na cara:
— Ingrata! Ingrata! Ingrata!
A Severa afastou o cabelo dos olhos, e, serenamente, foi-lhe dizendo:
— Não faça caso, tia Macheta. A desgraça é que dá estes assaltos à gente.... Não faça caso!
A velha encarou-a com melhor cara, voltou a dar uma volta à casa, abanando as ilhargas açafroadas do capote, e, de repente, parou para dizer à cigana:
— Sabes onde vou?
— Eu não, tia Macheta.
— Adivinha.
— Não sou bruxa.
— Pois pergunta lá a esse coraçãozinho, que é mais bruxo que S. Cipriano... Pergunta, anda...
A Severa teve um estremeção violento, depois um sorriso, as lágrimas caíram-lhe a quatro e quatro pela face, e, erguendo-se da enxerga, gemeu, numa aflição:
— Não vá, tia Macheta... Não! Peço-lhe que não vá!
— Estás doida, mulher!
— Não vá, não... A gente pode pedir pão, por esmola. Mas amor, é que não pede... Não, não!, Deus me livre!
E a pobre Severa, lavada em lágrimas, amarfanhando o saiote da beata nas mãos crispadas, soluçava sempre:
— Não vá... Não vá!
— Então deixa-me, mulher. Não vou. Está dito. Vocês são mesmo parvas! O sansadorninho(*) lá, muito descansado sem pensar que há mulheres no mundo, e vocês a mortificarem-se como se lhe tivessem levado alguma coisa boa! Ai, ai! Por esse caminho vais bem, pequena. Não haja dúvida. O Conde é mau, os outros não prestam... Amanhã morres de fome. Olha: sem ninguém é que tu não podes viver. A não ser que queiras andar como as outras, agarrada ao avental de pau. Diabo do coração, que as há de matar a vocês todas! Mandaste-me lixar ainda agora por eu te dizer que o homem não te convinha. Agora pegas-te a chorar como uma Madalena porque te digo que vou buscar o homem. Que me matem se te entendo! Pois então, sempre te direi. Desamparada, só se quiseres morrer para entreter. Sem amigo na praça e sem ouro na arca, mais vale ir desfiar cabos na estopa e morrer na forca como uma ladra! É isto que te digo. Não queres que vá ter com o homem? Não vou. Mas olha que te hás de arrepender; se te pões a fazer de fidalga sem ter ramo de figueira.. E o dito, está dito! Não vou. Agora, nem que tu me cobrisses toda de ouro, da cabeça aos pés!
[(*)sansadorninho = indivíduo que é velhaco; dissimulado; sonso]
E, congestionada ainda da violência do sermão, a Macheta ia a tirar o capote para o despir, em arremessos, quando a Severa lhe deitou os braços numa súplica:
— Não... Não se dispa, tia Macheta... Pode ser que eu decida... Meu Deus! Nem eu sei o que quero, nem eu sei... Nem eu sei!
A velha alargou a boca num grande riso, ajustou de novo a romeira do capote, concertou os rosários, e grunhiu por fim, resignadamente:
— Ora valha-nos Deus! Seja pela sua infinita misericórdia!
E enquanto a beata ficava numa atitude de retábulo, as mãos cruzadas no peito e o branco dos olhos a ver-se, a Severa aventurou uma pergunta, a medo:
— Mas que quer a tia Macheta fazer? Procurá-lo? Para quê? Não foi ele que me deixou. Fui eu que lhe fugi...
— E então...?
— Se eu quisesse, voltava. Mas não quero... Não posso! Não estou decidida a fazer a ninguém o sacrifício da minha liberdade. Quero o sol, a independência, ser senhora dos meus passos, sem prisões de ninguém, sem dever favores, livre como o vento, poder ter coração para quem eu quiser, rir e chorar à minha vontade... Porque a vida é isso! Ah! Mas como eu gosto dele, tia Macheta!
A Macheta ainda ouviu com serenidade os primeiros assomos daquela conversa; depois tomou-se de uma fúria sagrada, desandou numa correria até à porta, e gritou por sua vez:
— Lixar! Lixar! Agora também eu digo... Vai-te lixar!
Em seguida, sofraldando o capote como uma opa, galgou o poial, saiu para a rua e, num arremesso, atirou com a porta.
A Severa ficou todo o dia sozinha, naquele casebre, entre as figuras aflitas de crucificados, báculos luminosos de arcebispos, macerações e chagas inventadas por uma religião de fracos e de humildes para a representação da divindade.
Já melhor, sem aquela sensação de constrição, que a sufocava, levantou-se do banco, acendeu o candeeiro de latão de três bicos, esquadrinhou os cantos da casa, vendo tudo, as imagens, as mísulas velhas que chispavam ouro na penumbra, as tigelas de cor, os toros de madeira onde os santeiros trabalhavam. Figuras de Cristos mutilados pareciam olhá-la, gesticular, mover-se. Imagens de evangelistas, de patriarcas, surgiam de todos os lados, desmembradas, pulverulentas, em atitudes proféticas. A luz, oscilando, projetava, em redor de todos aqueles vultos, sombras que se agitavam, que pareciam palpitar. A pobre cigana andava nos bicos dos pés, amortecia os passos, sustinha a respiração, com medo de que o menor ruído, o arquejar do seu próprio peito, desse àquelas imagens uma aparência de realidade e de vida. Pouco a pouco, o pavor abarco-a. Os olhos das figuras brilhavam com um olhar vivo, atraindo-a perscrutando-a; sentia já os invisíveis arrepanhando-lhe as roupas; inundava-lhe a testa um suor frio; e possuída de um terror religioso, com a impressão de que todos aqueles braços avançavam para ela, de que todos aqueles olhos a ameaçavam, deixou-se cair de joelhos sobre os tijolos do chão, tremendo, murmurando:
— Perdoa-me, meu Deus, pela vossa misericórdia infinita!
De repente, a aldraba da porta soou, num ruído surdo. A Severa estremeceu. A porta ficara apenas no ferrolho, que se podia abrir de fora.
Quem seria?
O instinto de defesa deu-lhe a força que lhe faltava. Agarrada a uma imagem de madeira, conseguiu erguer-se. Já de pé, descalça, sem as socas, foi-se arrastando, encostada às paredes. Quis perguntar quem era; mas calou-se, para julgarem que estava deserta a casa. Continuou a arrastar-se, devagar, não se lhe ouvisse o restolhar das saias. Mas, num movimento mais brusco, derrubou um toro de madeira que rolou, com estrondo, nas tijoleiras. A aldraba da porta bateu outra vez.
“Será o Conde?” — pensou a cigana. Mais uma razão para não abrir. O pior era que a porta estava apenas na tranqueta e era fácil abri-la por fora. De novo a aldraba soou, e uma voz de mulher, muito sua conhecida, a primeira talvez que ela escutara no mundo, ressoou-lhe aos ouvidos, rouca, áspera:
— Abra, tia Macheta... Sou eu, a Cesária...
A pobre Severa sentiu um frio de pavor descer-lhe pela espinha.
Era a mãe.
Num movimento rápido, atirou-se de encontro à porta, decidida a fechá-la por dentro. Não encontrou a chave. Transida, com os braços entorpecidos pela doença, conseguiu apenas agarrar-se à tranqueta ferrugenta e apertá-la nos dedos, sobre o fecho. Mas era pouca a força que lhe restava.
A porta abalou, rangeu, saltou o ferrolho, os gonzos uivaram, e a figura dolorosa da mãe apareceu aos olhos da Severa, como uma sombra, como uma ressurreição, como uma fatalidade.
A Cesária, ao ver a filha, teve um grito rouco, um movimento de recuo; depois, à frente daquela criatura pálida e doente, que se arrastava encostada às paredes, e em que desde logo o seu instinto — esse pressentimento da desgraça, que é o sexto sentido dos desgraçados — adivinhou uma grande dor oculta, entrou, fechou a porta, encarou a Severa, e gemeu, na sua voz rouca:
— Ele já te deixou, também?
A rapariga mediu a mãe com o olhar, de alto a baixo, numa expressão confusa de espanto e de ansiedade. Depois, a máscara descontraiu-se-lhe, o olhar amaciou numa luz branda de lágrimas, e a pobre Severa deixou-se cair, como um trapo, sobre o velho pano de sacristia onde dormira aquela noite.
Houve um silêncio. As duas mulheres olharam-se. Sobre um enorme toro de madeira, a um canto, o candeeiro de latão de três bicos fumegava. Por fim, a Cesária aproximou-se da filha; os olhos chispavam-lhe numa luz fulva; curvou-se para lhe ver bem a cara, e resmungou:
— Olha que sempre foste uma cabra para a tua mãe!
— Vá com Deus, mãe... Não me tente! Vá com Deus!
Mas a cigana velha pareceu não ouvir a filha.
Com os olhos fitos nela, como uma loba que encontra a presa, continuou, fazendo estalar as palavras, num ruído seco de matraca:
— E custa uma cabra destas tantas dores à mãe! Antes eu te tivesse afogado, quando tu nasceste! Não pude. Nós somos parvas! Pensava que havia de ter uma filha para o meu amparo, para a consolação da minha desgraça, para ter alguma coisa a que eu me apegasse no mundo... Devia ter-te afogado, devia! Mal por mal, antes cadeia que o hospital. Mas não pude... Vi-te logo a boca a procurar-me as tetas... Cabra! Cabra! Porque não te matei? Eu era uma desavergonhada, tinha cá dentro esse sangue de cadela, e de mau pano nunca veio boa manta. Mau corvo, mau ovo, e cada um colhe segundo semeia. Eu devia saber que trazia cá dentro uma cabra como tu, mas não tive coragem... Não tive coragem para te afogar!
A pobre Cesária, atirada para um canto, esfregava as mãos, olhava ainda a filha com o mesmo olhar furioso, e repetia maquinalmente, na sua voz cava e rouca como um rumor de terra:
— Devia ter-te afogado, devia!
A Severa encolhia-se toda, contraída, dobrada sobre si mesma, como um animal que arma o salto, e para não ouvir, para poder dominar-se, tapava os ouvidos com as mãos convulsas.
Nesse casinholo velho e lúgubre, entre as grandes imagens mitradas que as olhavam numa imobilidade de espectros, faulhando ouro, erguendo cruzes, o drama daquelas duas mulheres ainda parecia mais doloroso e mais confrangedor.
De repente, a Cesária foi-se à filha, agarrou-a pelos pulsos, sacudiu-a, gritou-lhe à cara:
— Anda cá... Por que foi que roubaste o homem à tua mãe? Porque é que te atravessaste à frente de um coração que era meu, porca? Porque é que estavas tu a roubar o dinheiro que era para mim, ladra?
De um salto, a Severa libertou-se, dominou a mãe, deitou-lhe as mãos às goelas para a estrangular. Mas, de súbito, o olhar vidrou-se-lhe, penderam-lhe os braços, inteiriçou-se-lhe o corpo, e caiu desamparada.
A Cesária, vendo a filha estendida nas tijoleiras do chão, julgou-a morta. Uma onda de piedade cresceu no coração daquela loba cigana. Aproximou-se, a tremer, desse corpo onde pensava que o seu próprio sangue gelara, ajoelhou, e percebendo-lhe de um gemido sumido, como o de uma criança, e o arfar quase impercetível do peito, levantou a filha nos braços, em peso, e deitou-a sobre o velho banco de encosto. Depois, correndo ao quarto da Macheta, trouxe uma manta de riscas com que cobriu a pobre rameira, a sua filha na desgraça. Quando a Cesária lhe lavava com água fria a testa ensanguentada, a Severa abriu os olhos:
— Mãe...
— Então é verdade? É verdade que ele também te deixou? — inquiriu a Cesária, avidamente, fitando-a.
A Severa tentou soerguer-se do banco, mas a cabeça descaiu-lhe pesadamente, e a triste balbuciou num soluço:
— Não... Fui eu que o deixei.
Naquele momento, essas duas mulheres compreenderam-se. Era a mesma labareda de amor que as queimava, a mesma desgraça que as fazia comungar num sofrimento igual. As lágrimas, que lhes borbulhavam nos olhos, aproximavam-nas mais do que a fatalidade do seu próprio sangue. Sentiam-se escravas da mesma paixão, mortas da mesma morte. Palpitavam, no mesmo ritmo doloroso, aqueles dois pobres corações.
Lá fora, na rua, ouviam-se pregões, como lamentos. Tilintava, longe, uma campainha de prata, — talvez o viático(*) a um moribundo. O vento, assobiando nas frinchas da porta, fazia vacilar as três chamas do candeeiro e dançar, em redor, as sombras inquietas de todas aquelas imagens...
[(*) Sacramento da Eucaristia, quando administrado a quem está em perigo de morte.]
A Cesária aproximou-se da filha, ergueu-lhe mansamente o busto, de jeito que as duas bocas ficaram bafo contra bafo, e com as lágrimas a caírem-lhe em bagas pela cara, murmurou:
— Tu gostavas muito dele, não é verdade, Severa? Gostavas, gostavas...
A pobre rapariga quis falar, mas a voz estrangulou-se-lhe na garganta. Foi a mãe que continuou, quase a beijá-la, num gemido, numa agonia:
— Também eu... Queria-lhe como à luz dos olhos, não via outra coisa no mundo... Era uma perdição que eu tinha! Uma perdição!
E depois, cobrindo-a de beijos, como uma fera, que lambe a cria morta:
— Pobre filha! Pobre filha!
E ficaram as duas, unidas no mesmo beijo que era a expressão da mesma dor, confundindo soluços e lágrimas, como se o destino, que tanto as separara, as tivesse unido para sempre.
Então, a porta abriu-se, e o Custódia apareceu, embuçado no capote de burel, a cantar.
— Boa noite.
Quando viu mãe e filha abraçadas, parou num riso idiota, arregalou os olhos, ficou a contemplá-las, mudo de pasmado que ficara.
A velha cigana desprendeu-se dos braços da Severa, aconchegou-lhe ao corpo, caridosamente, a manta de riscas, voltou a bandeira do candeeiro de latão para à frente das luzes, e, aproximando-se do Custódia, balbuciou numa voz dolorosa:
— Vê se ela dorme...
Depois, num gesto sacudido, traçou o xaile, galgou o poial, saiu, e cerrou a porta.
O Custódia, arrastando de rastos a perna, acercou-se do banco onde a Severa repousava. A pobre rameira, ao vê-lo, teve um sobressalto, tentou erguer-se, agarrada ao espaldar do banco, e gemeu, numa súplica:
— Leva-me daqui... Leva-me, Custódia... Pelo amor de Deus!
— Mas para onde, Severa? Para onde? — regougou o pobre epilético, aparvoado, coçando a cabeça empapada de sangue.
— Não sei... Não sei... Leva-me!
— Onde foi a tia Macheta?
— Se eu te disser, Custódia, tu levas-me mais depressa ainda...
— O quê...? Foi...
— Foi buscar o Conde...
O Custódia teve um movimento selvagem, fitou-a num olhar furioso de besta ferida, correu para o banco, agarrou aquele triste corpo que era toda a sua alma, aconchegou-o no velho capote verdoengo, e levando-o, quase de rastos, desapareceu com ele no silêncio da noite estrelada.
***
Na manhã seguinte, já o sol ia alto, uma figura cheia de miséria e de lama, embrulhada nas pregas de um velho casaco, a cabeça atada num trapo sangrento, batia à aldraba do grande portão armoriado dos Marialvas.
Era o Custódia.
Um eguariço de cabeça rapada e grandes botas de cava, apareceu à entrada:
— Desaparece! Hoje não se dá esmola!
O pobre Custódia insistiu:
— Eu não venho pedir nada. Quero falar ao senhor Conde, com grande pressa, mas não lhe venho pedir nem um tostão, assim Deus me ajude....
O eguariço deu-lhe com a porta na cara. O pobre epilético bateu outra vez. As lágrimas caíam-lhe pela face curtida. Apareceu outro criado, mais cortês de que o primeiro:
— A sopa do senhor Conde é às sextas-feiras.
O Custódia teve de explicar de novo que não era fome que trazia:
— Quero falar ao senhor Conde de Marialva, o mais depressa que sua excelência puder. É notícia que muito lhe importa. Diga-lhe que é o Custódia...
O criado desatou a rir.
Mas depois teve dó do miserável que chorava e mandou-o entrar para um pequeno pátio de silhares de azulejo, a cujo canto estava uma velha carruagem de painéis pintados por Pedro Alexandrino, toda entalhada de Amores na parte traseira.
— Quer então falar ao senhor Conde? Digo-lhe que é o Custódia, hein?
O criado sumiu-se por detrás de uma guarda-porta de riço vermelho onde as armas dos Marialvas se esquartelavam, copiadas do teto dourado da Sala dos Veados e do Livro antigo do Armeiro-mor.
Daí a pouco, uma matula brava de criadagem aparecia de todos os lados, rindo às escâncaras, apontando para o desgraçado, metendo-se com ele:
— Eh, Custódia! Olha, aquele é o Custódia.. Viva o Custódia!
A alcunha tinha dado no gosto da escória dos cocheiros e dos eguariços, que batiam as esporas de ferro no lajedo, numa matinada, matraqueando-lhe o nome:
— Custódia! Eh, Custódia! Raios te partam, Custódia!
O pobre diabo, encostado a um poial de azulejo, alheio a tudo, a tremer no seu enxalmo de burel, rangia os dentes e chorava.
Nisto fez-se silêncio. A malta dos rascões abriu alas. Era o Conde de Marialva que descia, acabando de vestir à pressa a sua jaqueta de fechos de prata. D. João fez um sinal à escória que se afastou, num confuso rumor de esporas e de vozes, e dirigindo-se com má cara ao Custódia, perguntou-lhe, num arremesso:
— Que se passa?
O maluco avançou um passo para o Conde, humildemente, e numa voz que era um murmúrio repassado de lágrimas, balbuciou:
— Senhor Conde... A Severa morreu.
****
Daí a dois dias, Lisboa assistia a um espetáculo pouco comum, que comoveu a cidade inteira. Era o enterro de uma célebre rameira, chamada Severa, que dera que falar pelos seus amores com o nobre Conde de Marialva e pelo sentimento profundo com que cantava, acompanhada pelo zangarreio das guitarras. Era o símbolo do fado que desaparecia; a mais perfeita e completa fadista que as ruas da Mouraria e as ruas do Bairro Alto tinham conhecido até então. As raças decadentes têm uma grande ternura por estas figuras que incarnam a alma do povo, que são a sua voz, as suas lágrimas, a representação viva das suas tradições, a sua própria cristalização sentimental. Com a morte dessa cigana, morria um pouco da alma portuguesa. Por isso muitos olhos se humedeceram e muitas guitarras choraram a sua perda.
O enterro foi de noite. Os velhos casinholos do Bairro Alto, com as suas empenas flamengas, os seus ressaltos, os seus becos, os seus pátios, tinham as janelas apinhadas de gente. Pelas ruas quase despedradas, pelas ruas íngremes e estreitas, havia um desacostumado movimento. O enterro saiu de uma casa térrea, em caixão aberto, rodeado de brandões acesos. Da morta só se via o rosto, de uma palidez de cera: todo o corpo ia coberto de flores. O silêncio era religioso e profundo.
De repente, a meio do caminho, o bando sentimental, que seguia atrás do caixão, sentiu-se abalada por uma comoção forte.
Uma voz de homem, — algum fadista improvisador — cantou, no meio do silêncio daquele multidão lúgubre, acompanhado por um gemido convulso de guitarras:
Chorai, fadistas, chorai,
Que a Severa já morreu...
FIM
Você terminou A Severa
Júlio Dantas