A Severa

Júlio Dantas · Capítulo 8 de 11

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A Severa

Capítulo III · Nessa mesma noite, a Cesária encapotou-se num…

 

Nessa mesma noite, a Cesária encapotou-se num saiote negro, que lhe emprestara uma velha rosarista da Mouraria, meteu na algibeira uma faca flamenga, e saiu a caminho do Bairro Alto.

Pelas ruas e ruas da subida, essa aparição sinistra, soluçando e agarrando-se às paredes, tinha o ar doloroso de uma condenada que sobe um Calvário.

As pessoas que passavam por ela, ombro com ombro, e que lhe sentiam de perto os soluços, voltavam-se para trás, compadecidas:

— Aquela sofre... Deve ter sido alguém que lhe morreu.

Era verdade. Alguém lhe morrera, mas já lhe morrera há muito: a filha.

Nas duas rameiras, a concorrência, a inveja, o primeiro ciúme feito desabrochar pelo Sousa do Casacão, o ódio mútuo latente entre criaturas que vivem dos mesmos homens, tinham calado para sempre a voz do sangue.

Agora, mãe e filha, uma em frente da outra, eram apenas duas mulheres disputando o mesmo homem.

A Cesária bem o sentia, na via dolorosa do seu Calvário, quando a mão crispada palpava a faca através do pano do capote.

Crescia nela uma sede viva de sangue, que o travo das lágrimas aumentava, e todo o seu corpo tremia numa ânsia animal de vingança.

Cada passo daquela mulher era mais um passo para o crime.

Às vezes, faltavam-lhe as forças, e deixava-se cair sobre algum poial de porta, numa convulsão de soluços. Depois, erguia-se de novo, e a subida do Calvário continuava, quase de rastos, na sombra, como um castigo, como uma expiação.

Chegada ao Bairro Alto, encaminhou-se para a morada da filha, que já conhecia por indicação da Macheta.

A porta, com o seu postigo em cujas frinchas havia luz, levantava-se sobre um poial alto, de uma só laje.

Como não podia espreitar lá para dentro, a Cesária encostou o ouvido. O coração saltava-lhe no peito. A princípio ouviu apenas a voz da filha e, de vez em quando, o tinido de umas esporas no soalho. Depois, de súbito, todo o corpo se lhe crispou e inteiriçou de encontro à porta. Reconheceu a voz quente, a voz máscula do Conde de Marialva.

D. João estava lá dentro. E a pobre cigana, numa atitude dolorosa, estendendo os braços, caiu pesadamente sobre o poial, como um farrapo.

Por fim, a porta abriu-se. A Cesária, apanhada de surpresa, ergueu-se de um salto, cosendo-se com a ombreira, a faca bem firme no punho.

Aquela desgraçada quase não sabia o que queria: queria apenas sangue.

Ao primeiro vulto que viu, envolvido numa capa de veludo negro, a tilintar as esporas, levantou o braço.

Mas a Severa, que apareceu logo às costas do Marialva, com o candeeiro de três bicos fumegando, ao ver luzir a faca na sombra agarrou num salto de loba o braço que a empunhava, derrubou o vulto de mulher que se lhe erguia na frente, e, num abrir e fechar de olhos, a Cesária, ainda não reconhecida pela filha, arquejava sob o murro violento da Severa.

D. João só teve tempo de levantar o candeeiro de latão, ainda aceso, e de se atirar para o meio das duas mulheres.

Quando a luz bateu na cara roxa e congestionada da vencida, a Severa teve um grito de espanto e de ansiedade, ergueu-se, e levando as mãos à cabeça, espavorida, entrou a gritar desordenadamente:

— Mãe! Mãe! Mãe!