A Severa
Capítulo VI · A primeira impressão que a Severa produziu…
A primeira impressão que a Severa produziu na mãe foi uma impressão de acanhamento e de vergonha. A pobre mulher, à frente daquela pequena que lhe entrava com o sol pela casa dentro, sentiu os movimentos presos, quis falar, gaguejou, encostou-se à cantoneira, e ficou a olhá-la, como uma criatura pasmada, os braços pendidos, esquecidos de a abraçar.
Essa filha, tal como a via agora, já não era aquela que o seu instinto reclamava. Em cinco anos, a pequena do Capelão, que a mãe tanta vez tinha maltratado, tornara-se quase uma estranha que a constrangia, que a perturbava, que a vexava sem querer, e que ela recebia sem um riso, sem uma lágrima, sem o mais leve abalo de comoção.
Quando guardava as moedas que poderiam ser mais tarde a salvação da filha, via-a sempre pequena, com os seus bracinhos miúdos acostumados a abraçá-la, os seus olhos de veludo negro sempre prontos para chorar. Não tinha pensado que a pequena havia de crescer, tornar-se numa mulher, com juízo para entender a vida e bastante pudor para se envergonhar da mãe. O tempo passara sem que ela tivesse a noção dos anos. Via agora em frente de si uma mulher, — e essa mulher estorvava-a. A própria honestidade da filha, que a cigana seria capaz de defender como uma loba, essa mesma honestidade fazia-lhe mal, criava no fundo do seu coração um rancor surdo e inexplicável, que a sua consciência alarmada não conseguia compreender.
Por seu lado, a Severa já nem se lembrava das feições da mãe. Nas suas reminiscências de infância, aparecia-lhe como uma criatura macilenta, que a maltratava e a atirava para a rua quando recebia os homens. A recordação que guardava dela era cortada de um travo amargo, feita com uma repugnância instintiva, da confusa lembrança das noites ao relento, das pancadas que a moíam, do seu corpinho todo coberto de nódoas negras. E à frente dessa mulher, que a recebia sem um beijo, e a quem só devia lágrimas e maus tratos, a pobre pequena ficava inquieta e acanhada, a apertar entre os dedos o seu saiote de ganga... Era-lhe mais fácil afeiçoar-se à primeira criatura que encontrasse na rua, do que àquela mulher que a Macheta lhe apontara como sendo a mãe.
Mas a situação tornara-se clara e irremediável. Era preciso que ambas vivessem ali, debaixo do mesmo teto, numa inteira comunidade de vidas, e quem sabe se, dentro em pouco, numa comunidade absoluta de destinos.
A pequena, com os seus peitos formados, o seu ar desnalgado e esbelto, os seus olhos onde havia fatilhas de ouro a luzir na sombra, a sua esperteza arisca e decidida, toda a energia bárbara da sua boca sinuosa, — assim como era, como fora feita, a julgar pela pinta e pela raça, não prometia muito em virtude. Era precoce, violenta e cheia de impulsos extravagantes. O contínuo roçar de toda a safra de homens que a mãe recebera, havia de arrastá-la infalivelmente à desgraça, cuja semente, como uma fatalidade, lhe ardia no sangue. Era a cara da mãe, iluminada por uns olhos mais vivos, com traços de uma raça mais pura e mais perfeita, e um grão de pele trigueiro e ardente, que parecia às vezes animado de reflexos metálicos. Mas, o que mais impressionava na Severa, era a voz, uma voz doce, quente, cariciosa, ora viva e alegre, ora velada de ternura e molhada de lágrimas, uma voz que fazia tremer e chorar, que ao mesmo tempo dominava e enternecia, e que, ao pé dos grunhidos roucos da cigana, soava como uma ala de cristal ao pé a um pote de ferro. Decididamente, uma criatura tão fora do comum não podia ser obra do sacerdote de Évora.
Enquanto a pequena, carregando o seu saco de roupa, ia, a pedido da mãe, despejá-lo numa arca, a Cesária puxou a velha beata, olhou-a nos olhos, e disse-lhe:
— E agora?
— Agora, fica a pequena contigo, — respondeu tranquilamente a Macheta, fungando o rapé devoto.
— Comigo?
— Pois então!
— Aqui?
— E onde haveria de ser...?
— E os homens? E a vida? E ela cá dentro, a roer-me de vergonha? Não lhe vê a pinta? Aquilo é uma cabra! Há de dar no Capelão, como eu dei! Vossemecê verá! Raios partam as dores que ela me custou! Se ela der em perder-se, quem lhe há de ir à mão? Hei de ser eu? Para me atirar à cara toda a minha desgraça? Vossemecê não sabe nada da vida, tia Macheta! Vossemecê não sabe nada da vida!
— Ora essa!
— É o que lhe digo!
— Então tu ainda te voltas contra mim? Parece que fui eu que pari a tua filha, mulher! Pois olha que não fui. Credo! Santo breve da marca!
E a boa da Macheta, fazendo rodar num requebro o saiote, benzeu-se, a caminho da porta:
— Porque não foste a uma comadre, quando te viste grávida? Agora cuida-te! Vocês gostam... e quem gosta, sopeteia! Olha, sabes que mais? Só quem anda cozido em ouro é que pode ter filhos! Isso não é para as desgraçadas, como tu! Os filhos são só para os ricos!
E enquanto a madre Celestina, no último arranco da sua filosofia de alcoviteira, abalava escada abaixo num chocalhar seco de rosários de pau, a Cesária, sentada num banco, os cotovelos fincados nos joelhos, a cabeça entalada nas mãos, resmungava consigo mesma:
— E como há de ela ser honrada comendo as minhas sopas? Porque isto da desgraça é como a sarna... até pela voz se pega!
De repente, teve uma ideia. Os olhos brilharam-lhe. Levantou-se e foi à janela. A Macheta, lá em baixo, ao pé do Arco, embrulhada no seu capote vermelho, saracoteando em passinhos dançados, parecia uma labareda, ao sol. Quis chamá-la ainda. Mas a sua voz rouca perdeu-se no bulício da rua.
Por debaixo da casa de Cesária ficava a cavalariça do Sousa do Casado.
Era uma casa térrea abobadada e húmida, com berlindas(1*) velhas roídas e traquitanas de bandeirinha — toda a safra de calhambeques do princípio do século, luzindo esmaltes heráldicos nos painéis, relíquias dos antigos pátios solarengos arrastadas pela ruína para uma cavalariça de alquilaria.(2*)
[(*) 1 - carruagem antiga de dois assentos e quatro rodas. 2 - casa onde se alugam animais de carga e carruagens]
Nas traseiras da casa, esguelhadas na sombra que uma janela cortava com uma luz pálida, as pobres mulas chicoteadas, presas pelo ladriço aos travões de ferro, gemiam relinchos lamentosos. Tal como as traquitanas e as carruagens, elas tinham sido também propriedade de ricos em antigas casas fidalgas. A malta dos cocheiros, essa, lá estava sempre, a coçar as ombreiras do portão, exibindo o seu lenço de Alcobaça no pescoço e a sua casaca de cotim com argentarias reles. À noite zangarreavam na viola e jogavam à bisca, com uns velhos baralhos espanhóis, à luz de uma grande lanterna presa ao fecho da abóbada por uma cadeia de ferro.
O Sousa do Casacão era certo estar todas as noites na cavalariça, arranchando com o bando dos cocheiros franchões, e contando casos a trecheio, com um sainete que era segredo só dele. De maneira que a cavalariça da Rua do Arco, pela noite adentro, acabava por ser também poiso de gandulos e de rameiras, que vinham ao faro das guitarradas e da festa. Não havia ninguém que não conhecesse o Sousa cocheiro. Era um tipo bonacheirão, tagarela e amigo de mulheres, uns olhinhos azuis à flor de uma pele rosada de flamengo, bigode e matacões rasos, fulvos. A posse da cavalariça foi-lhe transmitida pelo casamento com uma certa alcoviteira rica que começara, como a Macheta, por trotar-conventos, e acabara por acumular os negócios de alquilaria (*) com os de alcovitagem. Como se vê, o bojo moral do homem era suficientemente largo, para lhe caber lá dentro um alcoice e uma cavalariça.
[(*)Alquilaria seria o equivalente ao que hoje é uma empresa de táxis.]
Em todo o caso, o Sousa do Casacão tinha outras qualidades. Por exemplo, a de tocar e cantar às maravilhas o fado. Efetivamente, cantava-o com um sentimento de português dos quatro costados, numa larga voz quente e pastosa, matando a brasa a todos os sanfonineiros da Madragoa. Sabia fazer chorar as mulheres, como se faz chorar uma criança. Com a guitarra nas unhas, o cigarro a arder-lhe entre os pelos loiros do bigode, um lenço na pescoceira do casacão amelado, levava as mulheres atrás de si, fazia delas o que queria, arrastava-as pela alma, obrigava-as a rir, a chorar, a tremer — a todas, sem falhar uma — no inteiro conhecimento do coração da fêmea, desde a mais cândida até à mais safada das putas. Era o seu condão. De resto, era um razoável cavaleiro, quebrando bem os talões na gineta, e montando às vezes um rico baio dourado, cavalo de picaria, de cabeça acarneirada e excelente apojo de rédea. Tinha sido amigo do Sedovem, correra às noites a Mouraria com D. Miguel, e mais tarde, na Penichada, havia de influenciar na política da altura prestando-se a que o mascarassem de marechal Saldanha. Um tipo singular, forte de sangue e fraco de escrúpulos. Além de todas estas prendas era poeta, da raça vadia dos poetas de instinto, esses rebentos novos do segrel antigo, que são, afinal de contas, quem faz a poesia de um povo. Se algum cocheiro aparecia que não soubesse tocar a guitarra, era o Sousa do Casacão quem o ensinava, noite fora, fechado com ele na cavalariça, até que o matulão arranhasse o “rigoroso”. Era vê-lo então, possuído da sua superioridade de mestre, em mangas de camisa, escarranchado uma dianteira de traquitana:
— Isso bem explicadinho, ó seu desavergonhado! Quer-se isso bem explicadinho!
Entre as putas que apareciam pela cavalariça, a que mais lá andava era a Cesária. O Sousa do Casacão conhecia a cigana desde que o Diogo lha mostrara, gabando-lhe a pinta e a garupa, como quem vende uma égua para crias. Mais tarde, quando se deu o roubo das cinquenta moedas e do arrombamento da arca, interviera para aconselhar a rapariga a que não intentasse nenhuma ação de justiça, e, por essa ocasião, dera-lhe seis cruzados novos. Desde então, mais ou menos, tinha-a protegido sempre. Às vezes a cigana descia à cavalariça, e de conversa com os cocheiros, em saracotões e requebros de nalga, cantava o fado como uma heroína.
Nessa noite, o Sousa do Casacão, ao entrar na cavalariça, soube logo que a Cesária tinha em casa a filha. O Facareno — na altura um dos reis dos coches, mequetrefe de casaca azul e esporas de latão — pô-lo inteiramente ao facto de que a pequena era uma linda égua, com uns olhos de tentar Santo Antão, e um palminho de cara que era ouro sem defeitos.
O Sousa quis logo ver a rapariga. Chamou o Malaquias cocheiro, que praguejava a um canto numa bisca lambida, e fê-lo galgar a escada, para dizer à cigana que viesse lá abaixo. A Cesária não tardou. Foi, mas foi sozinha. A malta esperava-a num silêncio de espectativa. A luz da grande lanterna, batendo no perfil das berlindas e das traquitanas, quebrava pelas cavalariças umas sombras trémulas e irregulares. Quando a cigana apareceu pela porta esconsa que dava para a escada, o Pinóia — um cocheiro ruivo e magrizela, de ventre cosido a facadas, com um amplo capote de briche — disse-lhe do canto, encostado a uma sebe:
— Então não trazes cá a tua cria...?
A Cesária atravessou a cavalariça de encontro ao Pinóia, parou a dois passos dele, e gingona, cuspinhando o chão num desafio, atirou-lhe à cara:
— Cria teve a porca da tua mãe, ouviste?
O Sousa do Casacão viu o caso mal parado e interveio logo na briga:
— Olha lá, ó Cesária... Então já cá tens a tua filha?
— Já.
— Diz que vem um brinco.
— Vem.
— Porque não a trazes cá abaixo, para a malta a ver?
— Porque está bem lá em cima.
— Tens medo que a gente a coma? — disse-lhe da sombra a carantonha bexigosa do Facareno.
— Eu...? Não.
— Então porque não a trazes? — insistiu o cocheiro, deitando a mão à viola.
A cigana não respondeu. Muito pálida, encostou-se às varas de uma carruagem e pôs a bater nervosamente a soca no chão. A luz dava-lhe de chapa na cara e as narinas agitavam-se-lhe, trémulas. Houve um instante de silêncio, que o Pinóia cortou por fim, dizendo de repente:
— Se a cria está lá em cima, vamos nós ter com ela!
Sem que o patrão pudesse sustê-los, cocheiros e eguariços correram para a porta da cavalariça. A cigana cortou-lhes o passo, estendeu os braços à frente da porta, e num brusco abatimento, extenuada e humilde, balbuciou a tremer:
— Era melhor que vocês me dessem uma prata, pelo amor de Deus, que ainda não comi hoje...
Mas o bando, sem entender, foi-se a ela. A Cesária deitou mão a um chicote de cocheiro, de pontas de ferro, preso a um prego da ombreira da porta, e brandiu-o no ar. A corda foi enrolar-se no braço do Pinóia, que, dando ao corpo um sacão, violento, repuxou a cigana de encontro ao peito.
— Deixa passar, ladra!
A um sinal do Sousa do Casacão, toda o grupo recuou. Ficaram os dois no meio da cavalariça, lutando como duas feras. A malta aplaudia e ria.
Ao fim, a Cesária resvalou e caiu por terra, com a bota do Pinóia ferrada no ventre, num ronco surdo e doloroso.
— Já caiu a loba!
Mas nisto, quando o cocheiro, num grande riso de vitória, mostrava ao bando a cigana vencida e imóvel e fazia intenções de lhe saltar em cima, sentiu na cara uma dor horrível e uma onda de sangue cegou-lhe os olhos. A Severa, ouvindo o reboliço da briga, descera a escada a correr, vira a mãe deitada na terra debaixo do outro e, de súbito, avançando para o Pinóia, cravara-lhe na cara um aguilhão de ferro, de uma almofaça(*) enorme. Quando lho arrancaram da carne, toda a máscara do cocheiro era uma posta de sangue.
[(*)escova de arame usada na limpeza dos cavalos]
A cigana ergueu-se de um salto, e na força do instinto, temendo que o bando se atirasse à filha, correu a resguardá-la com o corpo. Mas não foi preciso. O Sousa do Casacão, encantado com a beleza e bravura da rapariga, que arfava a um canto, encostada à parede da cavalariça, os grandes olhos negros fixos na corja e a pele quase dourada batida da luz, acercou-se da Cesária e disse-lhe, a rir, com um ar brusco e decidido:
— Não penses mais na pequena, ouviste? Fica por minha conta!
Desde essa noite, o cocheiro começou realmente a proteger a Severa. Um impulso de coração, sincero e desinteressado. Essa raça de homens tem às vezes generosidades que desconcertam. Achara linda a pequena, vira-lhe boa pinta, engraçara com ela. Vestia-a, calçava-a, sustentava-a, a ela e à mãe. De vez em quando, levava-a a casa da mulher, que lhe dava colares e bugigangas em paga de umas horas de costura. Mas a grande impressão que havia de decidir o seu destino; recebera-a a Severa na noite imediata àquela.
Por volta das onze horas, estava ela já recolhida na cama que a mãe lhe fizera sobre uma arca velha de madeira, quando a guitarrada começou lá em baixo, na cavalariça. A voz do Sousa do Casacão, vibrante e cheia de lágrimas, cantava a preceito um choradinho, com toda a gíria velhaca da Mouraria:
A tua cinta encarnada
Aperta-a bem no caminho:
Coração que é de nós dois
Deve andar conchegadinho...
A Severa, que mal começara a adormecer, acordou com o zangarrear das violas. Sentou-se na cama. A voz do cocheiro, chorando o fado, infiltrava-se-lhe na alma, percorria-lhe os nervos num estranho enregelamento, fazia-a tremer, rir sozinha, soluçar quase, para tornar a rir de novo, numa impressão violenta que lhe crispava as mãos sobre a cama, arrastando-a, dominando-a, penetrando todo o seu pequenino ser. Nem ela entendia o que era aquilo. Interrogava-se, desconhecia-se, queria tapar os ouvidos para adormecer outra vez, mas tornava a descerrá-los, ávida dessa voz que lhe ia direita ao coração, que lhe atirava à cabeça uma onda de sangue, que a agitava numa ternura ansiosa, e que a fazia espantar-se a si própria, como se uma criatura nova tivesse nascido nela. Lembrava-se, vagamente, de ter escutado na infância, aquele mesmo choro de guitarras, como um prato de cobre que lhe ressoasse aos ouvidos; mas não sabia analisar essa reminiscência, e pouco lhe encontrava de comum com o que sentia agora. Inconscientemente, levantou-se, quase nua, só com uma camisinha sobre a pele. Espreitou o leito da mãe. Viu-o deserto. A tremer, descalça sobre o soalho frio, desceu a escada. Ao chegar lá abaixo, ao pequeno pátio de poiais de pedra, tremia toda. A mesma voz, que um instante se calara, começara de novo, entre o tocar das guitarras:
Deus pôs as flores na terra,
Pôs as estrelas no ar...
Quem quiser viver no fado,
Há de sabê-lo cantar...
A porta esconsa que dava para a cavalariça estava cerrada. A Severa encostou-se ao umbral, muito pálida, transida de comoção e de frio, os braços cruzados sobre o seio nu, e presa nos soluços daquela música desgraçada, escutava embevecidamente, perdidamente... Quem seria que cantava? Algum dos cocheiros, talvez. Não aquele em que ela cravara na véspera o aguilhão da almofaça, que esse tinha uma voz rouca e áspera como um rumor de cascalho que tomba de uma parede. Havia de ser outro. Mas quem? Quem seria? E enquanto as guitarras soluçavam, no mesmo tinido de cobre que a sua memória recordava, uma sensação contraditória de frio e de calor percorria-lhe a espinha num arrepio, dando-lhe a estranha impressão de que empalidecia e corava ao mesmo tempo.
Era a raça, era o sangue da mãe, era tudo quanto há de misterioso numa criatura que desabrocha, que encontra o seu destino e que sente que o abraçou. E a pobre pequena, enregelada, com os pés sobre a pedra gasta de um poial, acompanhava, a chorar e a rir, aquela desgraçada melodia de fado. De repente, lembrou-se que devia lá estar a mãe. Ouvira umas conversas confusas de mulheres, vindo de dentro. Viu luz a vir da fechadura, e instintivamente, espreitou.
Na visão dourada da luz, junto ao painel de uma traquitana, o homem loiro que prometera protegê-la na véspera, de guitarra nas unhas e o branco dos olhos a ver-se, parecia cantar. Devia ser ele. Aquele homem seria capaz de a levar para onde quisesse. A pobre rapariga sentia que se não estivesse lá aquela porta, já ela se teria arrastado até lá de joelhos se fosse preciso, para o ver melhor, para o ouvir melhor, para sentir o seu bafo e a sua alma.
Era a mulher que acordava, que estremecia, que desabrochava como uma flor. Ontem, achara esse homem quase repugnante, na sua figura grosseira e louraça. Agora, gostaria de estar ao pé dele, de lhe ver bem a cor dos olhos, de se lhe encostar a ele, como agora se encostava à porta, assim mesmo, molhando-a com o seu hálito, machucando de encontro a ela a carne loura dos seios púberes. Mas a última nota expirou na boca do cocheiro, a viola foi cair sobre uma cesta de palha, e uma figura de mulher, quase nua, em tamancas, abraçou amorosamente o pescoço sanguíneo do Casacão. A Severa soltou um gemido surdo e tirou os olhos da fechadura. Tinha reconhecido a mãe. Quis espreitar ainda mais, mas sentiu a vista encandeada e turva. Nisto, um roçar seco de tairocas bateu junto à porta. A pobre pequena, tremendo de medo, descalça, aos apalpões na escuridão, subiu precipitadamente a escada. Ao chegar ao topo, bateu com a cabeça de encontro a uma trave que corria de esguelha, junto à parede, e a força da dor fê-la abater sem sentidos no chão.
Mais tarde, quando a Cesária, às escuras, ia a entrar em casa, seguida do Sousa do Casacão, deu com o pé num corpo inerte que vedava a porta. Cheia de pavor, gritou e pediu luz. Mal veio o Cambaio, com uma candeia de ferro acesa, a cigana viu com a pequena estendida no soalho, e atirando-se para junto dela, como uma cadela que salva a cria, entrou a berrar desalmadamente:
— Severa! Filha! Severa!
Quando a deitaram em cima da cama, a rapariga acordou, abriu os seus grandes olhos pisados e voltou a adormecer num sono profundo.
A cigana, essa, recolheu ao seu leito alto, seguida do Sousa do Casacão, que, sem entender nada daquilo, resmungava:
— Foi capaz de ser um acidente! E é que não foi outra coisa!
Enquanto a Cesária, à luz do candeeiro de três bicos, atirando as socas para debaixo da cama e libertando os peitos que apojavam sob as fitas do corpete, ia repetindo, numa toada lobrega, olhando a escuridão onde dormia a filha:
— Um acidente... Um acidente...
Afinal, o Sousa do Casacão decidira-se a ser para a pequena o que fora o virtuoso sacerdote de Évora, agora defunto, para desgraça das rameiras do Monete e da Madragoa. Um belo dia disse à cigana que tornasse a mandar a pequena para o colégio, porque ele pagava o que fosse preciso. A Cesária deixou a filha em casa e foi logo ter com a Macheta. Enquanto ela saía, estava um dos cocheiros na cavalariça, dormindo à sombra, de barriga para o ar, com um cesto de palha por cima da cabeça. Lá fora o sol ardia aquecendo as pedras da rua e fazendo fumegar o esterco das valetas.
A Severa, sozinha em casa, conseguiu abrir a porta que a mãe fechara à chave, desceu a escada com um lenço atado na cabeça, e espreitou novamente no ferrolho da cavalariça. Não viu ninguém. Encostou o ouvido. Apenas sentiu o tinido das correntes de ferro que prendiam os ladriços, sacudidas pelas patas dos cavalos, e um roncar surdo, talvez de algum cocheiro que se emborcara a dormir na terra. Levantou a tranqueta e entrou. A grande cavalariça silenciosa e sombria, cortada de bafio, erguia nos quatro cantos os perfis heráldicos das velhas traquitanas. No vão de uma carruagem, duas grandes botas de cava, com as suas esporas de latão, mexiam-se na sombra. Aproximou-se para ver melhor. Às botas seguiam-se umas pernas magras vestidas com umas velhas calças de ganga azul, e, por último, um pouco de palha cobria o resto do corpo. Era algum dos cocheiros, pensou a pequena para consigo. Sem se importar, esquadrinhou a cavalariça e encontrou uma guitarra. Sentou-se num estrado velho de encontro à parede, e por tentativas, premindo as cordas na parte de cima, como já vira fazer a mãe, foi tirando sons, combinando-os, e arranjando uma toada semelhante às que ouvira aos cocheiros. Depois, acompanhando a guitarra, começou a cantar, com a sua linda voz doce, ainda trémula de comoção. Era uma cantiga que sabia de cor, porque desde pequena a ouvia à mãe e às outras da condição da mãe:
Quem tiver filhas no mundo
Não ria das desgraçadas
Porque as filhas da desgraça
Também nasceram honradas.
E sem entender o que queriam dizer aquelas palavras, que falavam de desgraça, a rapariga ia cantando, com uma voz cheia de tanta comoção, que parecia um coração a cantar. Naquela boquinha, as palavras de miséria sabiam a flores. E tanto sentimento palpitava naquela criatura de destino tão triste, que, só de se ouvir a si própria, sentia um soluço a abafar-lhe a garganta e tremia toda como uma criminosa. De repente, num volver de olhos, viu o vão da carruagem deserto, sem as duas grandes botas de cava que se mexiam na sombra, e, instintivamente, voltou-se. Junto dela, a cara do Pinóia, ainda com a cara ferida do guilhão da almofaça, bafejava. Um hálito febril. A rapariga quis levantar-se, mas a grande mão óssea do cocheiro abateu-lhe sobre a cara e fê-la cair no chão da cavalariça, com os cotovelos ferrados na terra. Subitamente, a porta, mal cerrada na tranqueta, abriu-se, e o Sousa do Casacão apareceu, numa raçada de sol. A um rugido rouco da pequena, compreendeu tudo, atirou-se ao cocheiro, agarrou-o pelo pescoço da casaca e chapou-o de encontro à parede fronteira. Vendo o Pinóia a escorrer sangue, abatido, a pequena, num impulso de bondade, correu a socorrê-lo. Mas o Casacão cortou-lhe o passo, agarrando-a pelo pulso, e cravando nela os olhos injetados de sangue, gritou-lhe:
— Já lá para cima!
A pequena, à frente daquele homem que a dominava, que a fizera chorar e tremer, a quem ela devia a maior comoção da sua vida, não podendo agora afastar dele a ideia dos braços amorosos da mãe, atravessou a cavalariça num olhar extraordinário, onde se sucediam clarões de ternura e de rancor. Chegando à porta que dava para a escada, voltou-se, teve um inconsciente andar airoso, e alongando os olhos para a cavalariça, viu ainda a cabeça ruiva do Ponóia a sangrar. Depois, a tremer, no vago desejo de ficar ao pé daquele homem que a maltratara, foi subindo a escada, lentamente.
O Sousa do Casacão, sem saber porquê, correu a vê-la subir. Os tamancos da Severa iam batendo nos degraus, num estalar seco, e, sob a roda do saioto de folhos, dois lindos tornozelos calçados de branco, galgavam, firmes e musicais, como cinzelados em prata, a sombra indecisa da escada. O cocheiro, com uma onda de sangue a latejar-lhe na cara e o coração aos pulos no peito, sentiu que uma força estranha e irresistível o arrastava a seguir aquelas tamancas, cuja palmilha vermelha bocejava ao galgar de cada degrau. E com o cachaço bovino tressuando, numa tremura de comoção, o Sousa cocheiro subiu a escada atrás da pequena, entrou com ela em casa, fechou a porta e correu cautelosamente o ferrolho.
Daí a pouco, quando a Cesária chegava, arrastando a Macheta, o Pinóia cortou-lhe o passo:
— Sobe devagarinho. Não espantes a caça!
A cigana, vendo-o a escorrer sangue, com a casaca empapada e os olhos a luzir num brilho de aço, estranhou-o e gritou-lhe com má cara.
— O que se passa?
— Vai... Bate à porta, anda. — disse o cocheiro, num riso amarelo.
— Arrancaram-te as golas, hein? — chasqueou a cigana, sem entender. — Só se perdem as que caem ao chão!
— Vocês andam sempre à luta — grunhiu a Macheta, compondo o lenço de cambraia, e começando a subir as escadas.
O Pinóia, então, cobrando uma atitude de gravidade, encarou a Cesária, e apontou a cabeça empastada de sangue:
— Foi a defender a tua filha! Os amigos são para as ocasiões!
Mal ouviu falar na filha, a cigana, no temor de uma desgraça, correu pela escada acima, como uma louca. Ao chegar ao topo esbarrou de encontro à porta cerrada. Desgrenhada, o lenço caído pelas costas, os braços magros erguidos num desespero, começou a gritar como uma cabra, ferrada contra a porta, num acordar animal do seu instinto de mãe:
— Filha! Severa!
Mas a porta não se abria, por mais que ela o quisesse, por mais que ela gritasse. Extenuada, vencida, com as mãos, ensanguentadas de se atirar aos murros à porta, deixou-se cair no chão, arquejando, rangendo os dentes, em imprecações surdas. Era a mãe cigana, querendo defender uma filha que ela detestava talvez, mas que era a mesma raça, a mesma carne, a mesma vida...
Nisto, o ferrolho rangeu e o Sousa do Casacão apareceu à porta, enquanto a pequena Severa, desgrenhada, afogueada, espreitava, arfando as narinas...
A cigana, compreendeu num relance o que sucedera à filha, e como uma loba, medindo o salto, atirou-se ao cocheiro e esbofeteou-o:
— Canalha! Canalha!
Era ver aquele tratante de alquilaria, achamboirado e robusto, a tremer, pálido como um cadáver, à frente de uma mulher que o batia, e que o insultava.
A Macheta, temendo que a cigana se precipitasse sobre a filha, agarrou no pulso da Severa e, arregaçando o capote encarnado, foi com ela, de escantilhão, pela escada abaixo.
A Cesária só largou o cocheiro quando se lembrou da pequena.
— Onde está essa cabra? Essa cabra! E entrou pela casa a procurá-la, como uma fera, esquadrinhando os vãos, os armários e as arcas.
O Sousa do Casacão, mal se viu livre da cigana, escapou-se pela escada.
Lá em cima, a pobre mulher, depois de ter corrido tudo à procura da filha, e percebendo que a Macheta a levara, vendo-se só, desamparada de todos e mais desgraçada do que nunca, lembrou-se de gritar por justiça, abriu a janela, mas um grito rouco estrangulou-se-lhe na garganta, e caiu sobre o soalho, redondamente, como um corpo morto.
Ao fundo da escada, limpando ainda a sangueira da cabeça, e com as esporas de latão luzindo ao sol nas botas de cava, o Pinóia ria.
A Macheta levou a pequena para casa, e sem coragem para vir saber da Cesária e, muito menos, para lhe vir trazer a filha, foi-a deixando lá ficar. Depois, se entenderia com o Sousa cocheiro, pensava ela.
Na mesma altura a sua velha amiga Malhada, precisada de dinheiro e pensado que a Cesária estava rica e feliz, lembrou-se de a procurar para lhe dizer que esquecesse o passado. O que lá ia, lá ia, e esta vida eram dois dias mal contados. Qual não foi o seu espanto, quando, ao entrar-lhe em casa, a viu caída no sobrado, desgrenhada e como morta. Chamou gente, acudiram-lhe, deitaram-na na cama e esfregaram-lhe o peito com vinagre. A Malhada soube então de todas as desgraças da cigana, do roubo das cinquenta moedas, dos amores do mestre de equitação, da fuga da filha; das cenas com o Diogo, de todo esse amontoado de misérias, que fazia daquela vida uma verdadeira chaga. E a pobre da rameira, em vez de pedir dinheiro, ainda por cima o deu.
Passados dias, a Cesária piorou e pediu que a mandassem para o hospital. Acordou-se que a levariam no dia seguinte, de manhã.
Nessa mesma noite, a Severa, apavorada com, as figuras de grandes mitras da loja da Macheta e danada por voltar aos cocheiros, fugiu da casa da madre Celestina, e, atravessando a Mouraria, veio ter à Rua do Arco. Ao chegar junto da cavalariça, ouviu no gemer das violas o choradinho e a voz rouca do Pinóia regougando um fado. Em vez de subir para casa da mãe, entrou pela cavalariça dentro. A sua aparição foi um delírio. Para que a Cesária não se apercebesse que ali estava a filha, agarraram nas guitarras e levaram a rapariga para outra cavalariça, a do João Moisante. Passou toda a noite no meio de uma corja de cocheiros chambões exibindo pratas nas jaquetas e revolvendo os olhos no zangarreio do fado. Desde então, a Severa estava lançada.
Na manhã seguinte, a Malhada levava a cigana a caminho do hospital.
A pobre mulher não sabia ainda da desgraça completa da filha. Ficara a Malhada de lhe ir buscar à casa do Capelão as roupas que ainda tinha e de cobrar da Macheta algum dinheiro que a beata lhe devia. Quanto à Severa, que Deus lhe desse boa fortuna. Se o bandalho do Casacão a quisesse mandar outra vez para o colégio, em paga da ruindade que lhe fizera, muito bem. Senão, que havia ela de fazer, naquela miséria em que estava?
E no caminho do hospital, à luz fresca do sol, a pobre cigana, conduzida pela Malhada, atravessando a casaria cinzenta, ia fazendo contas à vida, desde que acordara para o amor, desde que respirara o perfume de um beijo, a sua fuga com o rabequista pelos campos silenciosos, a proteção do sacerdote de Évora, o amor do eguariço, o roubo, e, por último, a maior desgraça, que era a desgraça da filha. Lembrava tudo, revia tudo, numa resignação predestinada, tendo a suprema coragem de olhar para trás, sem uma lágrima, sem um lamento, arrastando pelas ruas a sua triste palidez de fome...
Nisto, junto a S. Domingos, viram um magote de gente, velhas de saiote, saloios, comerciantes e mariolas, ajuntando-se em pinha, de pescoços esgalgados, a olhar.
— O que se passará? — perguntou a cigana. À medida que as duas mulheres se aproximavam, iam-se ouvindo, cada vez mais nítidos, uns gemidos angustiosos de rabeca.
Tomada de um pressentimento, a cigana estremeceu e parou. Dir-se-ia conhecer aqueles gemidos, aquela música, aquele choro de violino que lhe ia direito ao coração, como se quem o tocasse fosse tão desgraçado como ela...
Estugou o passo, tanto quanto a sua fraqueza e a sua doença lhe permitiram e sempre encostada ao braço da Malhada, aproximou-se da multidão.
Viu então um grande velho cheio de chagas, magro e ossudo, com uma cabeleira branca ainda entremeada de alguns pelos loiros, fazendo soluçar um velhíssimo violino, como se fosse uma alma que chorasse nas suas mãos.
A pobre cigana ao vê-lo, se a companheira a não amparasse, teria desfalecido.
Esse velho, era aquele rabequista, com quem aos dezoito anos fugira pelos campos silenciosos, sob um grande céu de estrelas...
Quando acabou de tocar, o velho estendeu o chapéu a pedir esmola. Todos lhe voltaram as costas, menos a Cesária. A pobre cigana, com os olhos rasos de lágrimas, pálida de doença e de fome, deu-lhe o último pataco. O velho encarou-a e murmurou-lhe uma bênção.
Não a tinha reconhecido.