A Severa

Júlio Dantas · Capítulo 2 de 11

Páginas do PDF

A Severa

Capítulo II · Deixámos os dois “fidalguetes”, ou o que…

 

Deixámos os dois “fidalguetes”, ou o que quer que eram, entregues de corpo e alma às duas mais célebres putas da Rua Suja.

Um deles, na sobreloja da cigana, contando os episódios sangrentos de uma tourada; o outro, em casa da Malhada, anediando-lhe entre as mãos, cheias de anéis, os ombros de uma carnação ruiva.

Qualquer um dos dois não teria mais de dezoito anos.

Atrevidos, foliões, valentes, na inteira confiança do seu prestígio e da sua braveza, correndo a malta a murro nos becos sombrios, os dois amigos levavam uma vida comum com cocheiros, troquilhas, taverneiros e marafonas(*).

 

[(*) Marafona = prostituta]

No entanto, quando era preciso vestir uma casaca e apertar uns punhos de renda, não havia ninguém mais fidalgo do que esses dois “marialvetes” sentimentais, que passavam, com uma prodigiosa facilidade, das marquesas emproadas para as vadias de tamancos.

Sobretudo um deles, o verdadeiro fidalgo, com os seus dezoito anos trigueiros e violentos, levava as noites cruzando com putas de rua, os “leões de goles”, lampassados a ouro — o seu brasão de família. De uma raça já tocada por uma ligeira tara, mas forte ainda e nobre de tradições, tinha o seu herdeiro nesse rapaz de máscara ao mesmo tempo sombria e fina, apaixonado como um espanhol e, valente como um português. Nas feiras e nos bares, pelas ruas da Mouraria ou pelas tendas do Campo Grande, a malta dos vigaristas, dos gatunos, de troquilhas, mal o viam chegar, derrubavam logo os chapéus:

— Senhor D. João...

Um fidalgo... Mas os seus maiores amigos, mais do seu foro privado e da sua proteção, eram os cocheiros de Lisboa — metediços pimpões de casaca azul e espora de latão, luzindo as carruagens herdeiras dos velhos calhambeques do Assembleia(*), com as suas cortinas de couro e as suas mulas lazarentas.

[(*) Nome de uma empresa de carruagens, o equivalente hoje ás empresas de táxis]

 

Discípulo do Facareno e do Pinóia, os dois que lustravam os chapéus de pêlo de coelho ao sol das andanças, o jovem D. João batia a vara como um mestre no cavalo e “metia roda” aos parceiros com uma destreza admirável.

Daí a sua celebridade entre os cocheiros. As biscas jogadas com baralhos espanhóis à luz das velas de sebo, nas velhas tavernas da altura, as francisquinhas bebidas em comum no Baldanza e no Barracão, a mesma gíria fadista a imitar os mafiosos, e, quando Deus queria, chapéu tombado para os olhos e capa enrolada no punho, a defesa noturna de alguma rua, tomada a peito por um namoro de rameira...

Quando a maior parte dos cavalheiros da altura, se entretinham pelos bastidores do São Carlos(*), bengala à pommedor e botoeira florida, discutindo as excelências da loura Piétralia, ou atando fitas rosas de escarpim sob a luz fria das aranhas de prata, D. João rondava vagarosamente as ruas da Mouraria, e desaparecia na sombra de alguma escadaria lôbrega. A sua decidida predileção pelos amores grosseiros, pelas vozes avinhadas de patrajonas a roncar o fado, pelas ternura da gíria rude, todo esse fandango de dança batida, com lenços vermelhos a dançar sobre as cabeleiras negras e ouros luzindo à luz dos bares, — toda essa preferência doentia pelo amor torpe do Capelão significava uma manifesta degeneração de raça.

 

[(*) A maior casa de ópera de Lisboa]

 

De todas as mulheres do velho bairro, a que mais interessara ao fidalguete fora a Cesária, uma cigana de vida aventurosa e foliona, que vivia com, uma filhita de oito anos na sobreloja fundeira da primeira curva da rua do Capelão.

A história pitoresca desses amores tinha arrastado à Mouraria muito rapazola de bom sangue, entre eles esse tal de voz metálica e estrangeirada, com a sua capa de baeta negra sobre os ombros, e a mão óssea e comprida cheia de anéis, como uma vidraça de ourives. Chamava-se Domingos Harson e era descendente de uma família inglesa. Loiro e sentimental, franzino mas forte, tendo sempre réplica pronta e palavra mordente, o companheiro de D. João, por aborrecimento, por novidade, metera-se com a Malhada. Achara curiosa aquela máscara de sedutora reles, pintada de roxo na testa pela borra de vinho de uma herança materna.

Apetecera-a por perversão e por extravagância. Depois, companheiro do outro, a aventura prometia fanfarronadas noturnas, caras a sangrar na sombra das ruas, navalhas abertas, chapéus derrubados, e os eternos machos a lutar, arca por arca, pela eterna fêmea...

No entanto, o seu género não era aquele. Delicado, quase precioso no vestir, sóbrio no gesto, fino no trato, adorando os perfumes como um romano da decadência, — se não fosse o imprevisto e a originalidade da aventura, não era a pobre Malhada que conseguiria prendê-lo, com o seu ar grosseiro de minhota e as suas meias de algodão azul e branco.

A sua aristocracia de pele preferia as dançarinas e as atrizes.

Antes da Malhada, Domingos Harson tivera intimidades com certa bailarina do Salitre, amante de um homenzarrão ruivo e hirsuto, de nome Semblano, corregedor(*) do Rossio.

[(*) Corregedor = Juíz]

 

Uma bela noite, estando a bailarina a dançar no palco e o rapazelho em plena plateia, junto às forçuras, garrindo o seu colete de seda branca bordado a prata, rebentou na sala a mais estrondosa das pateadas…(*)

 

[(*) Pateada = Manifestação de reprovação, batendo com os pés no chão, para com a atuação artística que se está a assistir. O contrário das palmas.]

 

— Parto a cara ao primeiro que eu veja a patear! — gritou Domingos Harson, subindo a uma cadeira e aproveitando o silêncio de espanto produzido pela sua aparição.

Diante daquele desafio, arremessado por um adolescente a uma plateia em peso, levantaram-se, de toda a parte, vozes de interrogação e de pasmo:

— Mas quem é o senhor?

— O amante desta mulher! — exclamou Domingos Harson, apontando num grande gesto a bailarina que ainda dançava.

Nisto, um homenzarrão de pêlo ruivaço grunhiu da porta uma praga portuguesa e gritou:

— Amante dela, o canalha...? Amante?

Era o corregedor. Mas o Domingos, ainda de pé sobre a cadeira, o colete bordado a resplandecer, o cabelo perdido em caracóis sobre a testa, abriu-lhe os braços com a maior naturalidade do mundo:

— Amigo Semblano! Não acredite... Era para conter a multidão!

O espetáculo continuou; mas o corregedor nunca mais perdeu de vista o “leãozinho do Salitre”.

O pior foi que a aventura chegou aos ouvidos do pai de Domingos Harson, que houve por medida de prudência prevenir o filho de que o mandaria educar para Inglaterra se tornasse a meter o nariz nas fraldas da bailarina.

De modo que o namoro da Malhada, incrustado naquele bairro antigo, sem vaidades, sem exibições, sem despesas, era o ideal dos conchegos para o amigo íntimo do quase cocheiro D. João. Passavam os dois as noites na Mouraria, cada um com a sua rameira, levavam-nas de vez em quando a jantar à horta do Catavento, todas “chiques” nas suas saias gomadas e nos seus cordões de ouro de varina, e se às vezes lhe saía à frente algum bando de embuçados, era vê-los aos quatro, navalha aberta, eles e elas, lutando como mestres e avançando como sombras. Para além disso, não havia perigo de prisões. Se os cabos dos vigias surgissem de um beco, eles untavam-lhes as mãos com a prata de dois cruzados novos.

Às vezes, reuniam-se os quatro na casa da Cesária Cigana, e enquanto a pequena dormia numa alcovazinha interior de portas de vidraça, as duas mulheres entretinham-se a deitar cartas e a contar casos picarescos de rua.

Ao princípio, o inédito de tudo aquilo, o ar sentimental das meretrizes, as coisas imprevistas que elas contavam, a gíria sempre colorida e sempre nova, deslumbraram o precioso Domingos Harson. Queria ouvir tudo, queria saber tudo.

Certa noite, estando a Cesária na janela e os três dentro de casa, a tentar acender um candeeiro de latão de três bicos que não queria arder, aconteceu passarem no Capelão uns ciganos troquilhas.

— Ai, chai! Mira quien te dica! — rouquejou um deles para outro mais velho que lhe caminhava ao lado.

Acto contínuo, a Cesária, muito pálida, recolheu-se e veio para dentro, a tremer, sobre o tampo de uma arca de madeira encarnada.

— Que se passa, Cesária? Que tens tu? Que aconteceu?

E enquanto os três a rodeavam sem compreender, os olhos luminosos da cigana, pregados na janela aberta, adquiriam uma fixidez de terror.

— Mas diz o que foi, com mil demónios! — pedia D. João, sacudindo-a num movimento brusco.

A Malhada, muito pálida também, arrastou o Domingos para junto de uma cantoneira cheia de loiça e balbuciou, sem despregar os olhos da amiga:

— Deviam de ser os ciganos...

Nisto, uma pedra, atirada com força da rua, entrou sob a grade erguida, bateu nas traves do teto, foi cair sobre a cómoda e rolou dali para o soalho, num ruído seco.

D. João e Domingos Harson entreolharam-se. Era uma provocação dos ciganos.

Uma segunda pedra, atirada ainda com mais força, estilhaçou-se na quina da janela, e nela batendo, cerrou-a.

D. João agarrou de um salto a grade, ergueu-a de novo, e mostrando-se sob a rua iluminada, rouquejou:

— A andar! A andar!

Dois vultos, que estavam parados junto à esquina fronteira, afastaram-se a resmungar e perderam-se na escuridão.

Eram os dois ciganos que a Cesária vira da janela.

— Decididamente, pensaram que não havia homens em casa, — pensou consigo D. João.

A Malhada, que espreitava a rua por uma fresta, enquanto a cigana, imóvel sobre a arca, seguia com os olhos o fidalgo, abraçou a amiga e sossegou-a:

— Já se puseram a andar!

— Conheceste-os, Cesária? — perguntou D. João, que, instintivamente, agarrara a capa e o chapéu desabado.

— Não.

— Então porque diabo estás tu a tremer?

— Porque são ciganos.

— E que tem que sejam ciganos, se os não conheces?

— São capazes de me matar...

— Estás doida!

— Tão certo...

— Então, conhecem-te eles a ti!

— Não sei... Não sei...

Mas duas grandes lágrimas caíram pelas faces trigueiras da jovem, caindo, como duas bágoas de prata, sobre o lenço de ramagens do pescoço.

Os olhos dos dois amigos encontraram-se, e os seus olhares compreenderam-se.

Era preciso descer à Mouraria e desafiar o bando, o quanto antes.

Domingos Harson agarrou disfarçadamente numa navalha de picar tabaco que estava sobre a mesa da Cesária, pôs a capa e o chapéu de castor, e, com D. João, encaminhou-se para a porta.

Mas a cigana, num salto de loba, com o peito a arquejar de aflição, olhos congestionados, braços estendidos, cortou-lhes o passo:

— Não! Não! Não quero! E de costas de encontro à porta, hirta, o cabelo em desalinho, os músculos do pescoço retesados, uma grande expressão de selvageria no olhar, a rameira, cara a cara com os dois amigos, defendia a passagem numa intrepidez de fera:

— Ninguém daqui sai, ouviram? Ninguém daqui sai!

D. João, muito sereno à frente dela, respondia-lhe apenas, num movimento de cabeça:

— Afasta-te!

À terceira vez perdeu o sangue frio, travou-lhe do pulso e quis arrancá-la da frente da porta

— Então uns malandros apedrejam-te e tu defende-los, cabra?

Mas o Domingos e a Malhada, seguraram D. João, enquanto a Cesária, arquejante, os olhos injetados de sangue, repetia, amparada ao umbral:

— Não quero! Não quero!

— Mas não queres, porquê! — rugiu D. João. — Porquê é que tu não queres, se são dois ciganos que nos apedrejam?

— E a cigana, a tremer, extenuada, deixou-se cair sobre a soleira da porta, balbuciando, num arquejar de soluços:

— Porque um deles é o meu pai!

Nessa noite, a Cesária, que nunca se abrira a ninguém sobre o seu passado, misterioso como os dois grandes olhos que Deus lhe dera, desentranhou-se em lágrimas e em confidências.

A Cesária cigana era uma rapariga alta, desempenada e alegre, cabelo negro, quase roxo à Itiz, ancas volumosas, um quebrar de olhos fatigado, pele trigueira, coberta de uma pelagem dourada, e uma voz rouca e áspera jogando com a ternura dos gestos e dos olhares.

Ao princípio da sua vida no Capelão, as companheiras acusaram-na de ser ladra. Depois, como a sua fama cresceu e a cigana começou a ter dinheiro e a fazer algum bem, todas começaram a dar-se com ela. Na altura, era a mais rica da Mouraria. Gozava, mesmo, de uma certa celebridade entre os marialvetes visitantes do Capelão. Um rapazola pintor, de cabeleira em bucres e pescoceira de linho derrubada, afirmava que o corpo da cigana era uma academia. No entanto, depois do parto, há oito anos, as linhas puras do ventre tinham-se abastardado um pouco e as vergastadas da pele marmoreavam-lhe a superfície num moreno quase metálico.

Naquela noite, afogueada do choro, o cabelo caído sobre a testa, o lenço de ramagens derrubado, os brincos a luzir nas orelhas, a Cesária ganhara uma expressão mais colorida e mais viva.

Estavam os quatro em volta de um candeeiro de três bicos, em cujo balde de latão fumegavam os pavios da lamparina, ela contando a história da sua vida e os outros ouvindo.

Quando ainda era pequena, com quatro anos, se tanto, entrara em Portugal pela fronteira do Alentejo, com um bando de ciganos caldeireiros que andavam a atravessar a Espanha.

Era um bando de miséria. Esfarrapados, pés descalços, cobertos de sangue e de lama, caminhando tristemente atrás de umas pobres carruagens quase desfeita, os filhos a dormir na palha dos seirões e as mulheres a cantar, para enganar a fome, — esses rebentos de uma raça triste, queimados pelo sol das charnecas, vinham pedir hospitalidade ao chão de Portugal.

Acamparam junto de umas casas arruinadas; pela noite seguiram caminho; antes do sol nascido, ao outro dia, partiam os homens em várias direções monte a monte, a pedir esmola.

Um dos lugares por onde passaram, era rico, um dos melhores da região. Como ia entrar o tempo da seca, os campos de trigo alongavam-se em leiras de ouro maduro dentro de uma cancela pintada de vermelho vivo.

Um individuo, aperrando um arcabuz(*), disse com má cara:

 

[(*) aracabuz = tipo de espingarda]

 

— Aqui não se querem ciganos! É a andar!

E os dois que pediam esmola, com lenços vermelhos atados na cabeça e a camisa aberta mostrando, o peito gadelhudo, foram-se afastando, num ranger de dentes rancoroso, pela grande estrada cheia de poeira e de sol.

Nessa mesma noite, a seara ardia, e o grande, clarão do incêndio alarmava as casas em volta. Um dos ciganos que tinham botado o fogo era, o pai da Cesária. Depois disso, daí por diante, o bando dividiu-se.

Alguns do bando buscaram trabalho nos povoados, exercendo o seu trabalho humilde de caldeireiros.(*)

 

[(*) Caldeireiro = que faz ou vende caldeiras ou outros instrumentos de metal.]

 

Outros, iam para as feiras roubar, e traziam boas peças de pano entaladas nas selas mouriscos.

As mulheres mendigavam, rotas, pelas estradas, com o sol nos olhos e os filhos às costas. Os mais astutos tornavam-se troquilhas, iam à feira com uma burra enfeitada porque “para burra velha, cinta amarela”(*), e estavam de volta ao fim de três dias, trazendo em troca da jumenta, o milagre de um cavalo e cinco moedas.

 

[(*) Proverbio popular que significa: aos velhos é preciso algo para que parecem novos]

Alguns deles enriqueceram. Corriam as feiras de gado, e ao cabo de muita troca e baldroca, de muita carroça velha vendida por bom ouro aos pategos, de muitas vigarices à fidalguia comerciante, chegaram a ter lugar marcado nos mercados e praça de entendidos.

Os mais pobres, esses, era “à aventura da altura”. Na ocasião das ceifas, de junho adiante, quando os ceifões dormiam nos campos ceifados, davam “mão baixa” às carroças. Chegado o inverno, o tempo da fome para essa pobre raça de vagabundos, era a mendicidade de monte em monte, os pés a sangrar no tojo(*) dos caminhos, as noites de sono nos currais de cabras. A esses, tudo servia.

 

[(*) tojo = erva espinhosa]

 

Para comer, desenterravam porcos mortos por doença. Invadiam os povoados, como os lobos com fome. Vila onde os albergassem, era vila onde não se dormia. As casas abastadas aferrolhavam toda a sua prata e trancavam as portas, como se tivesse chegado uma companhia de bandidos.

Mas que a primavera vinha e os matos floriam, vinha melhor sorte. Os lavradores chamavam-nos para a tosquia dos gados. Os filhos tinham menos frio e menos fome.

Era a vida.

O pai da Cesária não seria dos mais afortunados, mas também não era dos mais miseráveis. A princípio fez vigarices com gado miúdo. Jogava com pouco dinheiro e não se podia atirar de cabeça. Mas assim mesmo, já ia às feiras com a sua jaqueta, o seu chapéu castanho caído para os olhos. Juntou umas moedas, e um belo dia comprou um urso a um cigano de Borba, amigo dele.

Era um animalejo pesadão, velho, lamacento e grotesco, que sabia dançar quando tocavam o pandeiro.(*) Quis revendê-lo, mas não achou quem lho comprasse. Em último recurso — que diabo, — era um ganha-pão.

 

[(*) Pandeiro = instrumento musical, uma pandeireta]

 

Vieram de novo as feiras de gado, e o cigano tornou-se um ladrão de golpe. Deu-lhe para fanar as amarras de ouro nos coletes de peles dos comerciantes ricos. Mas, de uma vez, um mais fortes deu-lhe dois murros e estendeu-o no chão, com a cara em sangue. Daí, a fama de ladrão no mercado, e os troquilhas a já não quiseram relações com ele. Por essa mesma altura, uma luta por questão de saias, deu-lhe má relação com os companheiros.

Viu-se só com a filha, a Cesária, que teria então dezoito anos e os mais lindos olhos do mundo, uma rapariguita esperta sabendo garrir o seu lenço sarapintado e o seu fio de ouro.

Quando pensava em se podia contar com mais alguém, sentia o ronco fatigado do pobre urso lamacento, que o olhava cheio de fome.

Juntou mentalmente a filha ao urso, e num relance de olhos viu um modo fácil de ganhar dinheiro. Tempo depois, nas ruas pedregosas dos povoados, pela tarde, para regalo do mulherio e das crianças, um cigano a tocar fazia dançar um urso enorme, amarrado por uma corda, enquanto que uma rapariga, de saia encarnada pelo joelho, batia compassadamente um adufe.(*)

 

[(*) Adufe = instrumento musical português, também uma espécie de pandeireta]

E o certo foi que, de praça em praça, rossio em rossio, terreiro em terreiro, iam arrecadando bons cobres no alforge.(*)

 

[(*) Sacola grande com aba para fechar. Geralmente é confecionada em couro, onde se guardava o dinheiro]

 

Ao cigano, só uma coisa lhe custava: eram os insultos da rapaziada, as vaias, todo o desprezo dos outros, que ele sentia subir-lhe em sangue à cara.

— Te amarélo, se te burlas de mil! — rugiu ele um dia, agarrando pelo pescoço um garoto que o empurrara e fazendo-o afocinhar na lama.

— Te amarélo!

Mas, justamente por essa altura, andava também ao-Deus-dará pelo baixo Alentejo um miserável tocador de rabeca. Uma criatura enorme, de ossatura esbrugada, uns pelos loiros a apontar numa queixada volumosa, um pescoço esgalgado que parecia pedir vértebras emprestadas ao dorso, — um pobre diabo desse bando dos artistas de rua, na contínua romagem da liberdade, fazendo chorar a rabeca(*) como quem faz chorar um coração.

 

[(*) rabeca = violino pequeno]

 

Encontraram-se um dia na praça maior de certa vila, fazendo mútua concorrência, ele com o seu violino e o cigano com o seu urso.

Mas, longe de se hostilizarem, entenderam-se.

Chegaram a falar, nessa mesma tarde, junto às gigantes torres de um mosteiro velho; e, daí por diante, nas terreolas alentejanas por onde se arrastavam, o pobre do urso, enquanto dançava, passou a ter honras de pandeiro e de rabeca.

Mas não foi por certo o animal que mais se impressionou com a música. Ele dançava ao jeito que lhe ensinara o cigano de Borba, fingia-se morto com a mesma consciência, roncava com a mesma convicção, como se um, simples adufe o acompanhasse.

Sobre a pequena é que a rabeca teve uma terrível influência.

A cigana, com o sol da raça a queimar-lhe a pele, o sangue virgem a arder-lhe nas veias, quando o músico tocava abalava-a uma convulsão, não atinava no tanger do adufe, o coração saltava-lhe no peito, acabava com os olhos arrasados de água, e era numa crise violenta de choro que estendia o pandeiro à multidão:

— Limosna, por Dios!

E, num gesto fazia que ria, disfarçava, a mostrar boa cara, mas o peito arquejava num soluço e a voz arrastava-se, cortada de lágrimas:

— Limosna, por Dios!

No entanto, o rabequista não desviava dela os seus olhos pardos, pequeninos e franzidos, em cuja profundidade, como numa aresta de aço incrustada na sombra, brilhavam desejos violentos, toda a tortura do amor recalcado pela miséria de uma natureza de expulso.

E quando, já pela noite, recolhiam fatigados e cobertos de lama ao seu abrigo de acaso — pocilga ou ruina, telheiro ou curral — o olhar do músico, num clarão frio de desejo, envolvia o vulto airoso da pequena, devorava-a dos pés à cabeça, seguia-lhe o movimento do corpo, a curva lírica da anca sob a saínha vermelha, os movimentos do braço que ia oscilando num tinir de soalhas, toda a beleza misteriosa desse corpo em flor, que um grande céu de estrelas cobria.

Atrás, caminhava o cigano, com a lanterna acesa iluminado a estrada, a puxar o velho urso. Lastimoso e pensador.

E à frente do rabequista e da pequena, sobre a lama batida da luz, duas grandes sombras esguias, e oscilantes, avançavam...

Quando a noite os surpreendia nos montes e nas vilas que lhe negavam pousada, dormiam os três, embrulhados em mantas, debaixo de uma árvore, e ao outro dia, ao apontar da alvorada, assim que se adivinhava o sol, punham-se de novo a caminho, com o eterno urso, a eterna rabeca e o eterno pandeiro, a explorar a eterna estupidez humana.

Veio o tempo da feira em Vila Viçosa, e um botequim(*) contratou-os. Foi um acontecimento. O empresário, um galego, dava-lhes um cruzado novo todas as noite, e pousada.

 

[(*) Botequim = uma hospedaria com bar e um palco para espetáculos]

Os cruzados eram bons; a pousada era má.

Um quarto no primeiro andar, para o cigano e para a filha, e em baixo uma loja térrea, com um molho de palha a um canto e uma enxerga a outro, para o urso e para o rabequista.

No andar de cima, duas camas velhas, cada uma com a sua manta grosseira, e entre elas, fazendo a decência, uma cortina, de chita encarnada suspensa por uma corda. O armazém em baixo tinha duas portas: uma sem ferrolho, quase podre, que dava para a rua; outra traseira e esconsa, que dava para uns campos. Era um lugar térreo e bafiento, com uma lareira desfeita numa parede de esguelha, aqui e ali restos de um painel de azulejos, e uma janela com grades à esquerda, junto da qual, amarrado, dormia o urso. O rabequista, esse, por insistência pessoal do dono do botequim, tinha uma cama desfeita ao outro canto do armazém.

Mas, que, diabo, para quem dormia às vezes sobre o esterco, era um leito de rosas!

E ali, pelo grande silêncio das noites mal dormidas, como duas feras, cada uma no seu poiso, o rabequista e o animal, ambos grotescos, ambos lamacentos, como dois irmãos que se entendem, como dois leprosos que se abraçam, perguntavam a Deus por que motivo os excluíra do amor, por que razão os privara do único bem da vida...

No entanto, no primeiro andar, sobre o seu leito humilde, a cigana, a tremer com o frio que entrava as frinchas da telha velha, com os nervos abalados e o sangue a arder, pensava enxergar na escuridão os olhos de aço do violinista, e inexplicavelmente, sentia dentro de si mesma, dentro da sua cabeça escaldada de febre, os gemidos angustiosos da rabeca. E, pouco a pouco, crescia-lhe na alma uma grande ternura por aquele desgraçado sem eira nem beira, que a fazia tremer, que a fazia rir, que a fazia chorar...

Certa noite, no botequim, enquanto o violinista e a cigana tocavam à frente de uma corja de troquilhas e de comerciantes bêbedos, um dos da malta subiu ao palco, agarrou na pequena e babou-lhe a cara com os lábios nojentos.

O da rabeca, possante na sua larga envergadura simiana, ganhou-o de imediato, deitou-lhe as mãos às goelas, derrubou-o no sobrado, ferrou-lhe um joelho sobre o peito arquejante, e enquanto o grupo rompia em bravos e aclamações, o pobre diabo vasquejava sob o jarrete do músico, a cara congestionada torcia-se em esgares e os olhos já vidrados revolviam-se numa aflição...

O cigano velho, que estava fora da barraca a por vinagre nas chagas do urso, correu ao ouvir a desordem, e juntamente com um fidalgorro que galgara ao palco, arrancou o comerciante moribundo das unhas do violinista.

— Que rapa de hombre!

E enquanto toda a malta rodeava no botequim a figura lastimosa do troquilha vencido, a cigana arrastou o vencedor para um canto de sombra, atirou-se a ele num ímpeto de ternura bárbara, abraçou-o de encontro ao peito, e agarrando-lhe nas mãos a cabeça pálida onde uns pêlos pungiam, percorreu-lha num bafo, procurou-lhe a boca, e lábios contra lábios segredou-lhe num gemido:

— Esta noite!

Recolheram aos quartos. O cigano atou o urso às grades da loja e subiu com a filha. O violinista, trasbordando de emoção, recolheu ao armazém.

Ia ter amor, ele, o eterno excluído, o eterno desprezado!

Deitou-se sobre a enxerga. Parecia que uma chuva de estrelas lhe caía sobre o peito. Não pegava no sono.

Levantou-se.

Ela não devia demorar.

O cigano, cansado, adormecia depressa.

Dentro em pouco, a sua mãozinha magra empurraria a porta.

A ideia de que ia amar, alvoroçava-lhe o coração, no peito.

Amar, finalmente!

E numa grande piedade pelo seu companheiro de desamor e de abandono, ele, feliz agora, com a boca perfumada de beijos, afagou compadecidamente o pêlo lamacento do urso, e balbuciou como se ele pudesse ouvir:

— Pobre bicho! Talvez chegue o teu dia, Coitado!

Mas a porta abriu-se, e, na luz da vela que ardia, a cigana surgiu aos olhos do rabequista como uma aparição.

— Agarra a tua rabeca e a tua roupa! — ordenou ela, ainda na soleira da porta.

— Mas que vamos nós fazer?

— Fugir!

E como o rabequista a olhasse numa visão de espanto, a cigana sossegou-o.

— Trago o meu adufe. Ganharemos a vida à gandaia, a tocar e a cantar...

— Mas e o teu pai? — aventurou o músico.

— Se soubesse, matava-me. Não podemos ficar aqui, nem mais um instante!

— Levamos o urso?

— Não.

— Porquê?

— Não. O urso fica.

— Mas porquê?

— Se o levássemos, o meu pai morria à fome…

— Os olhos da Cesária encheram-se de lágrimas, enquanto o rabequista, a um canto, juntava numa trouxa os farrapos e a rabeca.

— Pronto!

Mas como não tinham alforge nem burro, era preciso ao menos uma corda para atar os dois pequenos fardos.

— A corda do urso! — lembrou a cigana.

— E se ele foge?

— Ele é manso. E ficam as portas fechadas.

E os dois, numa azáfama, desataram a corda das grades da janela, cortaram-na junto à corrente que prendia o animal, ataram com ela o adufe e a rabeca que o músico deitou às costas como um alforge. Apagaram a candeia que ardia num espeto de ferro, junto à lareira desfeita, e nas trevas, aos apalpões, procuraram a porta traseira da loja, saíram, e cerrando-a cuidadosamente atrás de si, perderam-se, sob o grande céu de estrelas, na amplidão dos campos silenciosos.

A meio da noite, no andar de cima, o cigano acordou e chamou a filha. Não teve resposta.

Ergueu-se, palpou a cama, encontrou-a fria e deserta. Num rugido, desceu a escada esguia e achou-se na rua.

— Cesária! Cesária!

Nisto, passou-lhe pela cabeça a ideia do rabequista, aqueles olhos sempre cravados na filha como duas pontas de aço, o tremor dela quando ele tocava, a cena violenta do botequim.

Instintivamente, agarrou a faca que trazia à cintura, meteu ombros à porta do armazém, cujo ferrolho saltou fora, entrou nas trevas desse lugar térreo, e quando avançava para os lados da enxerga deu com o pé num pandeiro que ressoou num tinir de soalhas.

Era a prova. Estava ali, a cabra.

Ali, na enxerga, com o outro, a um passo dele, calada de pavor ou calada a dormir.

Voltou a dar com os pés no pandeiro que ressoou de novo, abriu os olhos mais para ver melhor nas trevas, e com o punho da faca bem firme na mão, avançou na sombra.

De repente, no momento de topar com a cama, pareceu-lhe ouvir um gemido rouco. Sem querer ver mais, sem querer saber mais, levantou o braço e cravou a faca na escuridão.

Sentiu-se um ronco enorme, e uma grande massa, coberta de lama e cheirar a esterco, ergueu-se nas trevas e derrubou o cigano.

Era o urso. A dor da ferida viera acordar no pobre animal a ferocidade nativa.

Quando o velho deu pelo seu erro, já era tarde. A pata da fera ensanguentava-lhe a cara. Teve de ferir mais. A faca dez vezes entrou e revolveu-se nas carnes do urso. Lutaram corpo a corpo, a rolar na terra bafienta, aos urros de dor e de fadiga.

Às vezes, a faca, vibrada com violência, topava uma costela do animal e resvalava num ruido seco. Por fim, a uma nova punhalada, o ferro penetrou um tecido mole, quase flácido, cravou-se até às guardas e revolveu-se amplamente na chaga. Era o fim do urso. O pobre filósofo das feiras teve um ronco supremo e caiu inerte na terra.

O cigano, com os cabelos empastados de sangue, derreado e quase louco, mal se desenvencilhou das patas da fera, saiu para a rua onde já vinha gente com luz, e pôs-se a correr numa correria doida:

— Mi hija! Mi hija!

E em Vila Viçosa, nunca mais ninguém o viu. A cigana e o violinista, esses, na alegria do seu amor, atravessaram o Alentejo a cantar e fugiram para Espanha.

Ela dançava; ele acompanhava com a rabeca. Meses depois, voltaram a Badajoz.

O músico andava menos miserável e tinha deixado crescer a cabeleira fulva, que lhe caía agora em madeixas escorridas sobre a pescoceira negra de sujidade.

Um belo dia, fugiu com uma mulher casada que vendia ao pé de uma capela.

No próprio dia da fuga, o marido queixava-se à justiça de que a vadia lhe roubara cem cruzados de uma arca para abalar com o amante.

A justiça perseguiu-os e não os encontrou.

A pobre cigana desprezada andou a oferecer-se pelos botequins, abraçada à única riqueza do seu adufe. O pandeiro tinha-lhe ficado na loja térrea quando fugira com o rabequista.

Não a aceitaram em parte nenhuma.

— Não se querem aqui rameiras! — diziam-lhe.

Um dia, um mercador de panos perseguiu-a numa rua, deu-lhe dois pintos e levou-a a uma hospedaria.

Quando ia a atirá-la para a cama, caiu no soalho, com uma congestão.

Prenderam-na e acusaram-na da morte do mercador. Depois, à falta de provas soltaram-na, mas preveniram-na de que não podia continuar naquela vida sem cumprir certas formalidades.

Um tempo depois, estava a rapariga em Évora. Daí, um veterinário que tinha dinheiro e vinha estabelecer-se na capital, trouxe-a consigo.

Em Évora, fora certo dia recebida nos aposentos do chantre(*) da Sé, rico e severo, com o seu grande armário de pau-santo, e o seu leito de cabeceira de bilros com armação de seda roxa, Era um velho patuscão, que dizia enormidades com o ar seráfico de S. Francisco de Assis. A cigana ia-lhe ensinando razoavelmente a gíria dos malandros, quando o veterinário a trouxe para Lisboa.

 

[(*) chantre = eclesiástico que dirigia o canto, que ficava à frente do coro e iniciava os salmos.]

Daí a tempos teve uma filha, que podia ser, de toda a gente, incluindo o chantre e o veterinário. Ela mesma a criou. Deram-lhe o nome de Severa.

A mãe, quando as companheiras vinham ver pequena a mamar, diziam:

— Tem bons olhos para o fado! Há de ser uma rapariga de estalo!

E se a criança, afocinhando gulosamente a teta, não queria olhar para o grupo de mulheres, a cigana tirava-lhe a cabeça do seio e gritava:

— Abre os olhos, ó estupor!

Depois, quando untou o bico do peito com azebre(*), para a desmamar, deixou-a ao-Deus-dará pela casa e pela rua, passando de um poial de porta para o regaço de uma amiga, e do regaço da amiga para as mãos de toda a gente.

 

[(*) azebre = uma planta, mais conhecida hoje em dia como aloé]

Correram anos de vida, e ali foi ficando sempre, naquela sobreloja(*) do Capelão, com altos e baixos de dinheiro, mas passando sempre por ser a mais rica aos olhos das companheiras.

 

[(*)Entende-se por sobreloja parte do edifício situado logo acima de uma loja, da qual faz parte integrante.]

 

Por último — para sua desgraça, dizia ela — viera o namoro com o fidalguete D. João, amigo de cocheiros e de toureiros, e ali estava àquela hora, onze da noite, com a Malhada e com, o Domingos Harson, em volta de um candeeiro de latão de três bicos em cujo balde os pavios fumegavam, contando o que nunca contara, pondo a sua vida e a da sua raça em pratos limpos, relatando fomes, misérias, vergonhas e infortúnios, chorando, rindo, ao sabor da aventura, como o pobre urso morto dançava ao sabor do pandeiro...

— O que eu gostava de ter um urso! — confessava com um grande ar profundo o Domingos Harson, passando os dedos esguios e brancos pela sua cabeleira à sansimoniense.

E ficaram os quatro num grande silêncio, cortado de vez em quando por alguma rameira da rua, que fechava a porta e se recolhia a cantar.

Com que então, o cigano que passou ainda agora era teu pai, hein? — perguntou de repente D. João.

— Era.

— E nunca mais o tinhas visto, depois que fugiste com o outro?

— Nunca mais.

— Ele conheceu-te?

— Conheceu. Está com a barba toda branca, mas vem bem vestido. Jaqueta de peles, com fechos de prata...

— Meteu-se outra vez nos roubos. — arriscou o Domingos.

— Não, foi outra coisa.

— Comerciante...

— Pois!

Caíram de novo num grande silêncio constrangido, que o fidalgo voltou a cortar numa interrogação brusca:

— E por que diabo apedrejaria o teu pai a casa?

A Cesária ia a responder, mas nisto outra pedra, bateu com violência na quina da janela, ricochetou para o interior, apanhou-lhe a cabeça junto ao olho direito, e num instante toda a cara da pobre rapariga escorria sangue.

— Cesária! Cesária!

Todos acudiram em redor da cigana, mas à vista do sangue e à força da dor atiraram-na desmaiada e quase morta sobre o canapé de palha. Ao mesmo tempo, na rua, debaixo da janela, alastrava um rumor surdo de vozes abafadas.

— Naturalmente, foram chamar toda a malta, os canalhas! — gemeu a Malhada, limpando do sangue a cara da companheira.

Os fidalgos não perderam tempo nem a serenidade. Levaram os chapéus à testa, enrolaram as capas no braço, trocaram duas palavras a meia voz, e logo Domingos Harson fez voar pela janela sobre os ciganos três cadeiras atarracadas de pau-santo, enquanto D. João, aproveitando o primeiro momento de surpresa, descia à rua.

A tática deu o efeito desejado. As cadeiras apanharam pelo crânio dois do bando, estenderam-nos de borco na rua, e foram estilhaçar-se nas pedras. A malta dos troquilhas, alarmada pela chuva de trastes, rodeava os feridos, vozeando no seu romanho ininteligível.

Eram talvez doze ciganos, evidentemente comerciantes, vestidos com peles, com mantas de riscas sobre os ombros e chapéus enormes de abalroar.

D. João aproveitou o primeiro momento de espanto, surgiu das sombras da escada, ganhou de um salto os troquilhas e estampou três a murro de encontro à parede fronteira.

Mas o problema era a defesa das mulheres e, por conseguinte, a defesa da porta.

Vendo-a descoberta, D. João recuou, e já na soleira desafiou o grupo.

— O primeiro que avançar, mata-o!

Mas os ciganos, de navalhas abertas sob as mantas de riscas, olhos luzindo no bronze das máscaras, rodearam-no obrigando-o a cingir-se com a parede, e iam infalivelmente cosê-lo a facadas, quando Domingos Harson, atirando-se da janela num salto soberbo, lhes surgiu pelas costas.

— Agora é que é, canalha! Agora é que é!

A navalha da Cesária chispou-lhe na mão cheia de anéis e desapareceu no peito de um cigano que rugiu e caiu de morto.

Nisto, começaram a aparecer mulheres às portas, e os gritos de “aqui d’el-rei”, as luzes, os excelentes murros de D. João, três ciganos já por terra numa poça de sangue, esse inimigo a mais que caíra do céu e os feria pelas costas, tudo isto acobardou o bando dos troquilhas, que num instante de puseram a fugir apressados, Capelão abaixo, apavorados e ensanguentados.

— Aqui d’el-rei Aqui d’el-rei!

— Se clialdron! — gemia um dos ciganos feridos, torcendo-se nas pedras da rua.

Mas quando os dois amigos, já sem capas nem chapéus, desordenadamente, perseguiam o bando pela Mouraria fora, saiu-lhes ao encontro, junto ao Arco, uma patrulha de guardas e, mais à frente uma ronda de cabos de vigia que os obrigaram a parar.

— Perseguimos uns ciganos que nos apedrejaram! — gritou D. João, querendo romper o cerco da guarda.

Um dos cabos, forte por certo, agarrou-lhe o pulso. O fidalgo ensanguentou-lhe os focinhos, num murro valente, quis desenvencilhar-se, mas rasgou a jaqueta de veludo, tropeçou numa pedra e caiu de bruços. Os guardas tombaram sobre D. João como corvos. Domingos Harson arrancou a um deles o terçado ferrugento, e ia atirar-se em defesa do amigo, quando uns outros o agarraram pelo pescoço, e uma voz rouca lhe rugiu ao ouvido:

— Vais pagar-me cara a bailarina, traste!

Voltou-se, e deu com os olhos numa cara vermelha e ruivaça, que luzia à luz de uma lanterna.

Era o Semblano, corregedor do Rossio. Não havia mais nada a fazer. Domingos Harson compôs a cabeleira, puxou a gravata de cetim bordado, como convinha à sua elegância, e exclamou, num grande gesto, para o corregedor:

— Às suas ordens!

— Mas já a caminho da estação da guarda, o pobre Brummell do Capelão, cheio de joias e salpicado de sangue, suspirava para o amigo:

— Desta vez vou mesmo mandado para Inglaterra!