A Severa
Capítulo III · No dia seguinte, no palácio dos Marialvas,…
No dia seguinte, no palácio dos Marialvas, à luz de dois candelabros de sacristia, entre os panos de Arrás que escondiam a parede até aos silhares de azulejo, o velho conde-brigadeiro, pai de D. João, conversava com o pai de Domingos Harson.
— Não há remédio, meu excelente amigo! — disse o fidalgo, ao cabo de um silêncio, metendo os dedos ósseos pela grande barba, que tombava num tom de prata oleosa sobre o veludilho preto.
— E Vossa Exa. quer que a partida não demore?
— O meu filho embarca dentro de oito dias. Quanto ao seu, V. Exa. O dirá.
— Embarcará no dia em que o de V. Exa. embarcar.
O caduco Harson, muito fino na sua casaca verde-bronze, levantou-se da grave cadeira de sola e estendeu a mão ao Conde de Marialva.
De repente, os dois pais sentiram lágrimas a arder-lhe nos olhos, e sem saber o que dizer, sem saber o que fazer, caíram nos braços um do outro.
Depois, envergonhados daquela quebra de etiqueta, balbuciaram, comovidos:
— Sempre são filhos. Queira V. Exa perdoar.
No dia seguinte estava decidida a partida dos dois rapazes para Inglaterra, e o seu internato num estabelecimento de instrução em Londres.
— Hein? E que dizes tu a isto? — perguntou D. João a Domingos Harson, na primeira vez que se encontraram depois da entrevista dos pais.
— Que vou fazer o meu testamento! — resmungou aborrecidamente o outro, no esplendor dos seus bofes de rendas e das suas calças meia-cossaca.
— E que diabo tens tu para deixar?
— Eu? Olha... Antes de tudo, tenho que deixar a Malhada.
— A quem?
— A toda a gente.
— Ela já era de toda a gente.
— Pois olha que a podíamos ter regenerado! — arriscou depois de um silêncio Domingos Harson, com um profundo ar de convicção.
D. João, a caminho da Mouraria, cigarro aceso ao canto da boca e casaca de veludo exibindo pratas, comentava filosoficamente:
— Quem sabe?
E continuaram, calados, em direção ao Capelão. Ao atravessar o Largo de S. Domingos, o fidalgo parou, atirou o chapéu para a nuca, e resmungou para o amigo:
— Ouve cá.
— Hein?
— Lembrei-me, agora de uma coisa.
— E o que vem a ser...?
— Que nós nunca demos nada às raparigas.
— É verdade.
— E parece-me uma bela ocasião, para...
— Lembras bem.
— Mas que diabo há de ser?
— Um painel das onze mil virgens.
— Vai gozar com outro!
— Então, o quê?
E os dois marialvas ficaram a olhar um para o outro, no meio do Largo, resolvendo a grave dificuldade de dar um presente às rameiras, enquanto ao alto, na noite húmida, um grande halo irisado cercava a lua, como um resplandor.
— Ora espera... — lembrou D. João. Há ali em baixo uma capelista (*)...
[(*) Loja que vendia várias quinquilharias, entre os quais artigos religiosos como pequenas estátuas de santos e outras artigos do género, daí o nome. Mais tarde passou a ter o nome de Drogaria, um tipo de loja hoje em vias de extinção]
— Uma capelista? Toca a andar!
Dali a nada, na loja humilde de um quinquilheiro, entre rosários de osso, brincos de coral e joias de missanga, no deslumbramento dos ouros falsos e das falsas pedrarias, os dois amigos recebiam das mãos de um judeu capelista do Rossio, dois preciosos anéis de coralina.
— Quanto é? — perguntou Domingos Harson, metendo na algibeira a caixinha de papelão.
— Seis vinténs.
O judeu, de cuja máscara só se via o nariz, uma barba e um barrete vermelho, resmungou agradecimentos na claridade da loja, enquanto os dois rapazes se perdiam nas sombras do terreiro silencioso.
No caminho, não trocaram uma palavra. Ao passar junto daquela porta manuelina da Mouraria, que hoje é um bacalhoeiro, Domingos Harson tirou a caixa do bolso e olhou para os dois anéis de coralina à luz da parede em frente:
— Acho isto reles.
— Também eu.
— Mesmo muito reles.
— É verdade. Mas em todo o caso, sempre é um presente de seis vinténs.
— Não há dúvida.
— E seis vinténs, é dinheiro.
— Pois.
Chegados ao Capelão, os dois fidalgos subiram logo à sobreloja da Cesária.
As esporas tiniram na escada, a aldraba soou com força, e uma vozinha respondeu de dentro:
— A mãe não está cá...
Mas D. João insistiu, agachando-se para espreitar no ferrolho:
— Abre.
Sentiram-se uns passinhos leves, num arrastar seco de tamancos, a porta abriu-se, e os grandes olhos luminosos da pequena Severa luziram na sombra.
— A mãe não está cá...
— Então onde foi, pequena? — interrogou Domingos Harson.
— Está em casa da Ana Malhada...
D. João entrou, atirou a capa de terciopelo sobre uma velha arca de fecharia ferrugenta, baixou a grade da janela, e num movimento de cabeça ordenou à pequena:
— Vai chamá-la.
A pequena calou-se, pregou os olhos no soalho, e pôs-se a rolar entre os dedinhos uma moeda furada que lhe pendia ao pescoço.
— Se eu for, a mãe bate-me.
— Qual bate! Dizes que fui eu que mandei.
— Mas a mãe bate-me.
— Vai, anda!
A pobre pequena corou até às orelhas, e ia chorar, quando Domingos Harson, que espevitava os pavios do velho candeeiro de latão, botou a capa aos ombros e interveio no caso:
— Pois não seja por isso. Eu lá vou.
E enquanto o Domingos descia a escada, com o chapéu caído para os olhos e a cabeleira loura sobre a gola de veludo negro, a Severa, ainda com os olhos no chão, correu o ferrolho da porta e foi sentar-se no poial de tijolo, junto à rua.
D. João, ao pé da mesa, brincava com o baldezinho de latão do candeeiro, e seguia os movimentos da pequena, a rir.
— Então, vamos lá a saber. Que estavas tu a fazer quando eu entrei?
— Nada.
— A mãe deixou-te sozinha?
— Deixou.
— Tem cá vindo muita gente?
— Não.
— Ninguém?
— Ninguém.
Na secura das suas respostas, a pequena olhava distraída para a grade verde da janela, e amarrotava entre os dedos a sua saínha de ganga, feita de uma saia velha da mãe. Senta-te aqui ao pé de mim, não queres?
— Não.
— Então, vou eu para o pé de ti.
E o fidalgo, erguendo-se do canapé de palha, foi sentar-se no outro poial de tijolo, ao lado da pequena.
— Queres jogar ao jogo do sisudo comigo?
Num voltar de cabeça, a ciganita encarou-o e começou a rir.
A luz doce do velho candeeiro de três bicos, iluminando-lhe metade da cara, recortava um perfil de um trigueiro quase dourado, que se destacava no canto de sombra da janela.
A Severa era uma dessas crianças que, já ao apontar da adolescência, têm caras expressivas de mulher. No fundo daqueles olhos misteriosos, onde parecia arder uma luz numa penumbra violeta, passava fugitivamente toda a ardente tristeza da raça, toda a ânsia de sol e de liberdade herdada em cada gota de sangue, a eterna tara da vagabundagem cigana que a marcava como uma fatalidade. Dali a pouco, essa linda criança de oito anos seria uma mulher feita. Os seios, que já se adivinhavam numa branda acuminação impúbere, entrariam a florir rijos como pêssegos de cujo bico surgiria um gomo sangrento. Quatro anos mais, e estava ali uma imagem viva da tentação.
Fina como um coral, sempre com um sorriso escondido atrás de uma lágrima, fugia às vezes da mãe, para andar à gandaia pelas ruas, sem destino, num bater contente de tamancos, bêbeda de sol e de liberdade. Ao regressar a casa, era sabido. A mãe começava por lhe atirar a chinela e acabava ensanguentando-lhe a cara de encontro aos poiais de tijolo:
— Que eu seja cega, se não mato um dia este estupor!
Mas a pequena descia a escada a chorar, o bom coração das rameiras compadecia-se dela, e era vê-la então, de regaço em regaço, de poial em poial, de canto em canto, mimada por aquela corja sentimental de calco polido e saia gomada.
E o mais interessante, era que a pequena já conhecia as figuras mais vezadas nas ruas do bairro, os clientes de cada uma das mulheres, os vultos sombrios que atravessavam o Capelão e se sumiam nas cortinas empoeiradas de luz.
À frente dos olhos dessa criança, passava, numa procissão sombria, toda a degenerescência de uma raça e toda a escória de uma cidade. E era na intimidade dessa escória e dessa degeneração, que a pobre pequena ia crescendo e vivendo, ao acaso do seu instinto e da sua animalidade, debruçada na luz da velha janela de grades.
Mas como nunca saíra dali, como não conhecia outro meio nem outro mundo, tudo aquilo era natural para ela, e a pobre criança conservava-se pura, como uma flor nascida e desabrochada na lama.
D. João, enquanto brincava com a Severa, anediando-lhe os cabelos sobre a testa pálida — esses lindos cabelos a que a luz emprestava uns reflexos roxos — pensava com tristeza, em qual seria o futuro daquela criança.
— Que é isso que tu trazes aí, Severa? — perguntou o fidalgo, apontando a moeda furada que lhe pendia ao pescoço, num fio de algodão vermelho.
— Chama-lhe a mãe um vintém de S. Luís.
— E para que é isso?
— Para o quebranto. (*)
[(*) Quebranto = Mau-olhado]
— Então, nunca te deram quebranto?
— Não.
— E a ti?
Mas o Domingos Harson já se ia demorando. A casa da Mãe era ali perto, por baixo do S. José e da Nossa Senhora de azulejo, ao virar para a Rua da Guia, a dois passos, portanto, da sobreloja da Cesária. Talvez o doido se tivesse antecipado no presente e enfiado por sua conta, nos dedos das rameiras, os dois preciosos anéis de coralina.
— Se ele me enganou, descomponho-o! — pensava D. João, espreitando a rua por detrás da janela cerrada.
E como dali se visse, sobre os casebres da Rua do Arco, uma nesga de céu, D. João aproximou a pequena à janela e apontou-lhe as estrelas:
— Sabes o que é aquilo?
— Não apontes, que faz verrugas!
E a rapariguita, a rir muito contente, desviou-lhe a mão que apontava as estrelas, por detrás da janela corrida.
Mas, nisto, a carita trigueira da Severa entristeceu-se, os olhos turvaram-se-lhe de lágrimas, e encarando o fidalgo, gemeu numa sufocação de choro:
— Tu não és meu amigo...
— Então porquê, pequena?
— Quando cá entras em casa, dizes logo à mãe que me mande embora.
D. João ergueu-a numa ternura, beijou-lhe a cabecita airosa, limpou-lhe os olhos ao lenço, e cheio de uma comoção ingénua à frente daquelas lágrimas de criança, todo ele era amimá-la, dizer-lhe coisas infantis para a alegrar, ser mais infantil do que ela para a obrigar a rir...
Quando o Domingos Harson entrou com as duas mulheres, estavam ambos a jogar as escondidas.
— Então que diabo de pândega é esta? — disse a rir o esteta Domingos, abraçado a duas garrafas de vinho.
E enquanto a pequena, afogueada e risonha, esquadrinhava os cantos, à procura dele, a cabeça de D. João apareceu, por debaixo da mesa, numa gargalhada alegre:
— Olá! Já de volta?
A Malhada contou que tinham ido buscar o vinho e a ceia. Ajudou depois o Domingos a tirar a capa, levou o candeeiro para desembaraçar a banca, e foi pousá-lo no cimo de uma cómoda antiga.
Coerente sempre na sua elegância, o loiro Harson subiu a uma cadeira de tripeça, afastou os anéis da cabeleira, compôs o peitilho de rendas onde luziam joias, e, com o ar de quem vai dizer coisas importantes, exclamou num belo gesto:
— Dê lá por onde der, a gente esta noite precisa de se embebedar! E enquanto o riso da Malhada estalava no ar, cheio de alegria, a criança olhava de um canto, com os seus grandes olhos negros, que a sombra roxa das olheiras afundava...
— Agora, toca para a cama, hein? Deitar e dormir! — rouquejou a Cesária à pequena, pondo-a fora por um braço.
A pobre criança lá foi, olhando para trás, e sumiu-se a chorar na escuridão de um corredor escuro.
Fechada a janela e dada uma volta à chave da porta, os quatro, Malhada e Cesária, Domingos e D. João, atiraram-se ao cabaz da ceia e ao vinho das "lanternas”.
Os dois marialvas, antes da partida, tinham apenas aquela noite. Era preciso honrá-la bem, fazer “o bico ao facho”, como dois bons amigos da bolieirada chamorra.(*)
[(*)apelido que os espanhóis davam aos portugueses por usarem a cara rapada e o cabelo curto.]
Depois, dizer adeus às noitadas da Mouraria. Deixavam em cada beco uma saudade, em cada mulher um beijo, em cada canto uma recordação. As chaminés caiadas das velhas casas de pasto, haviam de falar deles aos fregueses, — desses dois fidalguetes turbulentos que corriam a ciganada à força de murro, e venciam a vida à força de alegria.
A Malhada cá ficava, na realeza da sua carne trigueira com reflexos de bronze quente, luzindo a mancha roxa da testa, que tinha para os extravagantes o valor de uma pedra preciosa.
Que diabo, a vida era aquilo! Dizer adeus ao fado, tantas vezes cantado sob os arcos do Penim, nas esperas dos touros, com heroicidades de gineta e estardiota,(*) aos camarins do São Carlos, em cuja sombra perfumada se movia a nudez cor-de-rosa das bailarinas.
[(*) Gineta e Estardiota, são termos de equitação; nomes para características especificas no modo de cavalgar um cavalo]
E pelos olhos de Domingos Harson, já turvada pelo vinho, passava o céu cinzento de Londres...
— Se bebes de mais, ficas para aí a sonhar com o teu pai! — dizia D. João, servindo o vinho rosé à cigana.
— Isso! Carrega-lhe os machinhos! — aplaudia o loiro Domingos, conservando ainda na bebedeira a sua perfeita elegância.
A Malhada, já bêbada, estatelara-se no canapé, os peitos esbagachados a saltar do corpete, o focinho trigueiro erguido numa insolência.
E enquanto a Cesária, sobre os joelhos de D. João, nua de ombros e de braços, envolvia o fidalgo numa carícia. Domingos Harson, fazendo prodígios de equilíbrio, procurava nos bolsos qualquer coisa.
— Diabo! Perdi os anéis!
— O quê? — rugiu de um salto D. João, parando a Cesária.
— É o que te digo!
E o Domingos, como se tivesse perdido uma joia de família, tristíssimo, voltava melancolicamente os forros das algibeiras.
Não havia lá nada. A preciosidade estava perdida. Rebuscaram ainda pela casa, espreitando por todo o soalho, viram debaixo do armário, andaram com o candeeiro de latão de um lado para o outro, e as joias não apareciam.
Mas as duas mulheres, dando pela azáfama dos fidalgos e tendo ouvido falar em anéis perdidos, perguntaram-se:
— O que procuram?
— Dois riquíssimos anéis de coralina, que a gente trazia para vocês! — explicou Domingos Harsão, num gesto pesaroso, com o candeeiro erguido na mão e a cara batida da luz.
A Malhada, com os olhos muito abertos, levantou-se do canapé, mostrando as meias grosseiras de algodão azul e branco, e esparvoadamente, sem dizer uma palavra, atirou-se de joelhos para o soalho.
Mas, já podre de bêbeda, o lenço de ramagens enrolado ao pescoço, o pendente de ouro a luzir na orelha, a pobre rapariga, em vez de procurar as joias espantosas de Domingos Harson, rolou pesadamente sobre um dos cotovelos e caiu de costas, estatelada.
— Que bebedeira! — comentou D. João, ajudando-a a levantar-se.
E enquanto o fidalgo e a cigana a estendiam inerte sobre o canapé de palha, o loiro Domingos, assumindo um grande ar de gravidade, tirou do dedo um precioso anel de ouro com ametista prelatícia, que pertencera a um bispo da família materna, e enfiando-o solenemente no indicador grosseiro da Malhada, rematou:
— Era do tio inquisidor! Quando estiveres aflita, filha, põe-no no prego!(*)
[(*) Prego = na casa das penhoras]
Mal estremeceu, nas frinchas da janela, a luz azulada da manhã, os dois amigos, muito de manso, para não acordar as raparigas que dormiam, correram o ferrolho e desceram a escada.
Já na rua, como os açoitasse o ar cortante da madrugada, puxaram os rebuços (*) e apressaram o passo.
[(*) Parte da capa para esconder o rosto. Gola]
Ao entrar na Rua do Arco, silencioso e triste na sua casaria cinzenta, D. João lembrou-se de voltar para trás.
Que diabo! Tinha-se esquecido de dar um beijo à pequena. Quem sabe se a tornaria a ver, coitadita! Amanhã, aqueles lindos olhos haviam de esperar por ele, para jogarem as escondidas outra vez… Ir-se embora assim, sem lhe dizer adeus!
O que mais o preocupava era a ideia contraditória da fina sensibilidade dessa criança e do triste meio em que ela vivia. Naquela rua lúgubre, quebrada de sombras irregulares, nesse escoadoiro, miserável de todas as chagas humanas, no regaço de pedra desse velho bairro mourisco onde agora dormia toda a miséria cristã, — como poderia viver aquela candura infantil, aquela graça ingénua e triste, chorando porque a desprezam, tremendo porque a encaram pura, apesar de tudo, como um lírio que não teve culpa de que um leproso o colhesse?
E D. João, na sua ideia fixa, pensava ainda:
— E se voltássemos para trás?
A Mouraria ia acordando. O céu azulava-se, e as sombras da noite, adormecidas ainda pelos velhos becos, desfaziam-se, a pouco e pouco, na luz do sol.
— E se voltássemos para trás?
Mas Domingos Harson, a cada nova investida de D. João, travava-lhe o braço:
— Para à frente é que é o caminho!
— Mas porque não havemos nós de voltar?
— Porque não.
— Mas não, porquê?
E o fidalgo ia a retroceder, quando o loiro Domingos, olhando a mão branca donde fugira a ametista do dom bispo, balbuciou, numa desculpa:
— Porque se voltasse a ver o anel do tio inquisidor, metia-o no dedo outra vez!