A Severa

Júlio Dantas · Apêndice

Páginas do PDF

A Severa

Start

A SEVERA

JÚLIO DANTAS

 

Esta obra respeita as regras do

Novo Acordo Ortográfico

INTRODUÇÃO

 

Esta novela de Júlio Dantas, publicada em 1901, conta a história de Maria Severa Onofriana, a prostituta de raízes ciganas a quem a história dá a autoria de ter sido a primeira fadista e de ter "criado" o Fado, tal como ele se conhece hoje.

Severa não inventou o Fado propriamente dito; muito menos foi a primeira a cantá-lo; mas antes dela "o Fado" nada mais era do que uns cantares, em grupo, de rufiões, maltrapilhos, ciganos, marinheiros e bêbados de toda a ordem que enchiam as tabernas e tascas das vielas antigas do Bairro Alto, da Mouraria e de Alfama, em Lisboa. Se não fosse por Severa, o Fado provavelmente nunca teria passado disso. Foi ela que, um dia, por acaso, pegou numa guitarra e começou a tocar e a cantar o Fado à sua maneira, dando-lhe a forma e o ritmo que hoje ele tem. Foi ela que lhe deu popularidade, sendo a autora e compositora de muitos dos fados que cantava, e foi ela que definiu a imagem de "cantadeira" de Fado com o xaile à cintura ou aos ombros (embora ela preferisse usar xailes de várias cores, não pretos).

Conta-se que percorria os bairros populares de Lisboa, e a sua voz animava as noites de muitas tertúlias bairristas. Várias tabernas ficaram famosa só pela sua presença. Mas a notoriedade de Severa estendeu-se muito para além dos bares e tabernas e isso deve-se muito à época em que viveu e que ela própria ajudou a caracterizar.

No início do século XIX a noite boémia de Lisboa dividia-se em duas fações: a dos salões nobres da nobreza e fidalguia com todas as suas convenções, e a dos bares e tabernas de má fama recheadas de ladrões e prostitutas em que imagens de mulheres meio despidas, chinelas no pé, cigarros lambidos, peúgo riscado, chapéu às três pancadas, navalha no bolso e pancadaria tendo como banda sonora a guitarra, faziam parte do cenário típico de uma noite de divertimento das ruas e vielas de má reputação. Estes ambientes acabariam por ser um foco de curiosidade e atração para muitos fidalgos lisboetas do século XIX, sobretudo jovens, que usavam o encoberto na noite para se misturarem nestes ambientes tão perigosos como atrativos de modo a poder usufruir de muitos prazeres vedados pela imposição da moral e bons costumes da época, a que a sua posição social exigia. Neste curioso fenómeno social, acaba-se por se estabelecer assim uma peculiar relação de familiaridade entre a elite da sociedade portuguesa e a sua classe mais marginal.

Foi graças ao contacto da fidalguia com esse ambiente que os cantares da Severa ganharam maior destaque pois esses mesmos fidalgos, apreciadores da sua voz e da sua música, passaram a convidá-la para cantar em eventos sociais, incluindo festas nas próprias casas, causando a reação bombástica nos jornais cujos cronistas denunciavam a situação em dizendo coisas como: "sabe-se que o mundo está perdido quando os nobres demandam tabernas e meretrizes são recebidas em salões".

Mas a maior projeção de Severa veio através das touradas, que nos inícios do século XIX eram o desporto mais popular da época (O futebol só surgiu no final do século XIX e só ganhou mediação no século XX), praticado por jovens cavaleiros fidalgos mas apreciado por populares. Foi na pantomina das touradas que os cantares da Severa se tornaram mais conhecidos, juntando multidões que se deslocavam às feiras e festas que se organizavam em redor da praça de touros, mas que paravam tudo quando ela se punha a cantar.

Foi nesses espaços que Dom Francisco, o jovem Conde de Vimioso e cavaleiro tauromáquico, conheceu a Severa e a relação tempestuosa de ambos deu azo a grande escândalo, boatos e histórias. Tudo isso fez aumentar o mito que foi a Severa - a cigana da bela voz que despertava paixões, ocasionava desvarios e fazia perder a serenidade e a compostura a fidalgos, burgueses, artistas e políticos.

Severa acabaria por morrer muito nova, com apenas 26 anos, vítima de tuberculose, deixando um grande legado e uma multiplicidade de "descendentes" fadistas que lhe seguiram os passos e das quais Amália foi a maior delas todas. Mas sobre isto diz-se: Amália pode ter consagrado o Fado como música erudita, cantando a alma de um povo e levado a sua música aos quatro cantos do mundo, mas sem a Severa, o Fado não teria existido.