A Severa
Segunda Parte
CAPÍTULO I
Passaram cinco anos. A nobreza portuguesa, já polida pelas emigrações e liberta, em fim, da influência dos frades, fazia substituir os velhos serões de Queluz, o caldo de galinha patriarcal servido em Sévres e ouro, pelos serões de arte pura em que se representavam tragédias atrás de biombos de seda, como na Restauração, e em que as célebres redoutes da princesa de Maeternich pareciam renascer dentro uma nuvem de rabecas e de damascos amarelos.
Os paços fidalgos, até aí cerrados pelo terror político, abriam finalmente as suas portas, e o nobre Conde de Parrobo, de casaca verde-bronze e cabeleira à Saint-Simon, recebia a rainha, nas Laranjeiras, por entre uma ala enorme de brandões acesos.
A Constituição trouxera na sua asa aquele mundanismo leve, espirituoso, cosmopolita, tão característico das sociedades que emigraram.
O ar freirático e pesado dos saraus dissipara-se inteiramente na revoada risonha das cabeças românticas toucadas de rosas e dos corpos esguios e musicais, quase sem sexo e sem raça, vestidos de musselina, de espírito e de perfume.
A contradança e, mais tarde, a polka, tinham já desterrado os velhos minuetes de Gluck e de Martos Portugal, ao som dos quais a loura Condessa de Ega, escandalosamente decotada, se deixara cair nos braços de Junot.
A velha sensualidade espiritualizara-se na leitura dos novos romances, e os versos de Lamartine, patéticos e solenes, eram a bíblia de toda a moral amorosa e o vade-mécum de todos os sentimentais.
A galantaria dominava tudo, infiltrava tudo, havia professores até para a arte de pôr as gravatas, e Musard, o Paganini da dança, marcava com a sua batuta o ritmo dos grandes bailes, em que os camafeus e os topázios — as joias da moda — cintilavam nos decotes das belas “leoas” românticas.
Depois do Manteigueiro, onde a princípio se reunia a plutocracia e a alta política, abriram-se as salas do Conde de Farrobo e do Marquês de Viana; mais tarde, as do Conde de Carvalhal e as dos marqueses de Penafiel, e, por último, os salões das Kruzes, onde se fez toda a política da Regeneração.
Cantavam-se as últimas óperas; representavam-se sainetes de Scribe no aconchego perfumado dos biombos de seda; Garrett, sempre postiço e imperturbável nos seus coletes de Brummell, dizia versos do Catão; discutia-se o sucesso da Rossi Cássia ou o fiasco da Boldrini; e a moda, a eterna deusa capaz de vencer o ridículo, decretava a “cor de sapo apaixonado” para os vestidos de baile e os chapéus “à girafa” para as tardes do Terreiro do Paço...
O palácio dos marqueses de Viana, no Rato, com a sua larga frontaria solarenga, era, por volta de 1843, alternando com as Laranjeiras, o centro preferido da nova e da velha nobreza, dos plutocratas liberais e da vieille roche marcada a esmaltes e a metais heráldicos nas folhas membranáceas do Livro do Armeiro-mor.
Precisamente no dia dos anos do Marquês, a 1 de Janeiro, houve no palácio do Rato o mais estrondoso dos bailes, — um desses bailes que bastam, por si sós, para afirmar o bom gosto e a elegância de uma época.
Os tremós,(*) brincados de laços dourados, levantavam os seus alçados brancos sobre o damasco fulvo das paredes; as camélias japonesas, o grande sucesso da noite, iam tocar, num beijo sem perfume, os amplos tetos em caixotões; e sobre as pedras dos consolos, luziam entre as flères de prata, os históricos serviços de toucador, de ouro maciço, que das mãos de uma rainha bela tinham descido às mãos de uma marquesa melómana e degenerada.
[(*)tremós = aparador com espelho alto, ou espelho colocado entre duas janelas.]
As rabecas choravam invisivelmente, num gemido, melodias das novas óperas italianas; as grandes fardas de pavão, as golas bordadas de palmas de ouro, os bofes de rendas, as casacas cor de bronze, cruzavam-se, confundiam-se numa poeira luminosa, enquanto as carnes femininas floriam em decotes quadrados, à Império, nos grandes sofás feitos para as anquinhas bojudas das elegantes do século XVIII.
A um canto, recortando o seu perfil de seda cor de fogo junto a uma grande talha de faiança da China, uma linda mulher, num meneio ansioso de cabeça, olhava amorosamente para uma figura de homem, de casaca azul e forte peito, que se ia afastando entre a farda do Conde de Ávila e o solidéu vermelho do proto núncio apostólico.
Essa mulher era a Marquesa de Seide, e esse homem era, nada mais nada menos, do que o nosso D. João, agora Conde de Marialva pela morte do pai, — o antigo rufião da Mouraria, que corria a murro os bandos de troquilhas e rondava a rua do Capelão na fúria sentimental dos seus vinte anos.
Quem o visse agora, na compostura do seu colete de cetim e da sua casaca de botões de prata, decerto não reconheceria nele o amigo íntimo de cocheiros e de eguariços, o amante affiché das rameiras da Rua Suja, tal era a gentileza fidalga do seu porte, a elegância natural dos seus gestos, a fina distinção dos seus bofes de rendas onde luziam duas grandes joias azuladas.
Evidentemente, de ninguém passara despercebido o gesto amoroso da Marquesa de Seide e o olhar de febre com que ela seguira o Conde.
Nesse momento, Garrett, que vinha pelo braço do Marquês de Niza, mostrando-lhe um belo colete de cetim branco bordado a pérolas, largou o braço do Marquês, que esboçou um sorriso complacente, e dirigiu-se à divina Seide:
— Sabe qual é o homem mais feliz que está aqui, minha senhora?
— O mais feliz é sempre o mais forte, — respondeu a Marquesa, escondendo a boca com uma grande rosa fresca que lhe pendia da pulseira, num grilhão de ouro.
— O mais feliz é sempre o mais rico, — interveio do canto uma baronesa gorda.
E uma menina esguia e sentimental, de bandós em asas de corvo, que há instantes olhava para Garrett num encantamento, não se pôde conter ser dizer:
— O mais feliz é o mais sábio...
— Enganam-se vossas excelências, minhas senhoras, — concluiu o poeta, cravando os seus olhos verdes na divina Marquesa. — O mais feliz é o que tem a coragem de não amar, sendo amado...
— O Sr. Garrett? — interrompeu maliciosamente a Marquesa, compreendendo-lhe a intenção e mordendo o lábio.
— Não, minha senhora.
— Então o Sr. Garrett não é amado? — gemeu tristemente a menina dos bandós pretos.
— Mas quando o sou, nunca tenho a coragem de não amar, minha senhora...
— Por isso dizem que tem mais coração do que cabeça, — sentenciou a Baronesa, cujo queixo se desdobrou repentinamente em três refegos de gordura.
— Nunca se tem coração a mais, — objetou o poeta, afastando uma madeixa da cabeleira postiça que lhe tombara sobre a orelha. — O que se pode ter é cabeça a menos...
— Cabelo de menos, era o que o Sr. Garrett queria dizer...
E a Marquesa, que não perdoava ao poeta a insinuação envolvida nas suas palavras, afastou-se, num sorriso cruel, fazendo deslizar sobre o soalho, encerado o seu perfil de seda cor de fogo.
O príncipe dos poetas seguiu-a com a vista, embevecido, apesar da crueldade com que a Marquesa o tratara, quando sentiu uma mão forte e cheia de anéis pousar-lhe sobre o ombro.
Voltou-se. Era Domingos Harson.
O esteta Domingos, muito diferente também do que era quando o leitor o conheceu, metendo no dedo grosseiro da Malhada o anel do tio inquisidor, tinha adquirido uma expressão mais reflexiva e mais grave, deixara crescer no queixo uma barbicha loura, e, apesar dos seus trinta anos incompletos, a cabeleira fulva com que deslumbrara o corregedor Semblano ia abrindo no topo uma pequena calva luzidia.
Domingos Harson enfiou o braço no braço de Garrett, e com dois dedos prelatícios gesticulando solenemente, segredou, na sua voz metálica e um pouco fanhosa:.
— Olha que já lá dizia S. João Crisóstomo: a mulher é o maior mal do homem!
O poeta encarou-o com o seu habitual sorriso benévolo, e olhando ainda para trás, na direção em que se afastara a Marquesa, concluiu:
— Calúnias de S. João Crisóstomo.
— A Marquesa, acha-te com cabelo a menos?
— Creio que sim.
— E tu, em compensação, achas-lhe virtude a mais?
— Talvez de mais, para mim.
— E para os outros?
— Pergunta ao marido.
— O marido não conta.
— Não conta, a que respeito?
— A respeito da mulher.
— Como assim?
— Deve estar em casa, a estas horas, a bordar o ouro de bastidor...
— O Marquês de Seide?
— E a comer folhas de rosas, enquanto a mulher aqui está fazendo uma corte descabelada ao Marialva. Não tinhas reparado?
— Toda a gente reparou.
— E o Marialva, nada!
— Que te parece?
— Quase nada…
— Neste momento, o escarpim do Domingos Harson pisou a capa vermelha do proto núncio, que atravessava a sala em direção ao bufete, e que resmungou, numa voz seráfica:
Volete aver la gentilezza... Seusatemi, in grazia...
Depois de beijarem o anel ao monsenhor Capaccini, os dois, Garrett e Domingos Harson, perderam-se na poeira luminosa das salas.
A Marquesa, essa, mal se afastou do poeta, agarrou-se ao braço da sua confidente, a Condessa de S. Silvestre, e foram recolher-se ambas na sala dos flirts, uma pequena sala Luiz XVI, cheia de biombos íntimos, onde um lindo pastor de Saxe, sobre um consolo dourado, tocava ingenuamente a sua flauta de faiança.
A divina Seide deixou-se cair sobre um sofá, levou aos olhos o seu lenço de rendas, e gemeu numa convulsão de choro:
— Ele não me ama! Fugiu-me outra vez!
****
Quando um amigo, numa ocasião de bom humor, perguntou ao Conde de Marialva os episódios da sua vida aventurosa, desde o exilio de Lisboa por determinação paterna, até à sua volta dali a cinco anos, o Conde sorriu com o ar de quem recorda extraordinárias coisas, e limitou-se a contar aquilo a que ele chamava “o caso da bofetada”.
Internado num estabelecimento de educação, em Londres, ao mesmo tempo que o loiro e grave Domingos Harson, D. João não suportou a disciplina de animal de sangue frio a que o obrigavam, revoltou-se, combinou com o amigo, e os dois, durante uma grande noite silenciosa, escalaram os muros do colégio e fugiram, sem saber bem para onde. Andaram um dia e duas noites ao-deus-dará. Depois, quando fome apertou, lembraram-se de recorrer aos emigrados, mas a inventiva mente de Domingos Harson achou melhor meio de resolver as dificuldades e aconselhou a D. João, mestre na condução e excelente mão de rédea, que se oferecesse a Lord Chesterfield para ser seu cocheiro. Efetivamente, assim foi. Os primeiros tempos correram sem novidade. A carruagem do inglês, sempre de batida pelas ruas de Londres, fez um sucesso doido. D. João, alvo de todas as atenções, imperturbável na sua libré e na sua cabeleira empoada, chegou a ser levado em triunfo pelos cocheiros de Regent Street. Mas um belo dia, Lord Chesterfield começou a recear a vertigem das corridas, e apesar de concordar com as excelências de D. João em quebrar o cavalo com as varas, decidiu mudar de cocheiro.
O Marialva foi despedido com todas as honras e com um punhado de libras. Mas aquela despedida ofendeu a sua honra de cocheiro que já tomava a sério o oficio, e que, para além do mais, ganhara a fama de ser o primeiro de Londres. Confiado na sua musculatura formidável, D. João planeou uma vingança que lhe desse nome, mais nome ainda do que, a fama que adquirira na condução dos coches.
O novo cocheiro era um rapaz esgalgado e enorme, com uma grande cabeça ruiva rapada à escovinha e uma placa de herpes ao canto da boca, falando por monossílabos e demorando muito sobre o interlocutor os seus olhos azuis, franzidos e frios. No dia seguinte devia começar o serviço. D. João cedeu-lhe as grandes botas, o resguardo de ferro da caneleira direita, as esporas prateadas, a cabeleira em bucres empoados a libré, deu-lhe conta dos cavalos, das traquitanas, do coche rico, dos eguariços que aguardavam a um canto, toscos e sujos, e, para a despedida, assentou a mão tão rudemente sobre as nádegas do novo cocheiro, que o fez vergar pelos joelhos.
No momento em que a carruagem, guiada já pelo outro, recebia pela primeira vez Lord Chesterfield junto à porta de ferro do palácio, D. João, que estava à coca, arrancou de um salto, levou uma das mãos ao eixo traseiro da traquitana, a outra aos varões torcidos do portão, e seguro da sua musculatura de hércules, gritou para o cocheiro:
— Ora anda lá agora, se és capaz!
O homem cravou as esporas no frisão da sela, fez assobiar o chicote, os dois cavalos escarvaram a terra, de músculos retesados, mas, com grande pasmo do inglês, a carruagem continuava parada. Os braços férreos de D. João anulavam a energia dos frisões fogosos, cujas ventas fumegavam e cujos tornozelos feriam lume ao agarrar o chão. E enquanto o cocheiro ensanguentava as costas do cavalo, o fidalgo inglês, furioso, saltou da carruagem brandindo uma bengala de unicórnio, que sibilou no ar. Mas o Marialva, leve e ágil, limitou-se a largar o eixo da carruagem, que abalou numa correria doida, e desviando o golpe do inglês, assentou-lhe na face balofa a mais lusitana de todas as bofetadas.
Era esse o único episódio de Londres que D. João contava aos seus amigos mais íntimos.
O resto conservava-se um mistério para todos.
Pouco depois, D. João voltava de Londres para tomar parte, como tenente de cavalaria, nas lutas que ainda ao tempo ensanguentavam Portugal, e ao fim de alguns anos de aventuras estava de novo, em Lisboa.
No entanto, ao contrário do que se poderia julgar, não voltou a pôr os pés na Mouraria, cujos recantos, cheios de cruzes de tijolo e de sombrias persianas mouriscas, a sua saudade por vezes revia, numa vaga indecisão de sonho.
Não lhe convinha voltar àquela vida, — justamente porque nascera para ela. Se lá voltasse, pensava ele às vezes, seria a volta ao fado, ao zangarreio das violas, ao amor das rameiras, ao correr das feiras e às brigas de navalha. Não podia ser. Tinha recebido por herança uma casa arruinada, uma nobre tradição e um grande nome. Era preciso restaurar uma e respeitar os outros. O seu brasão de família, esquartelado no teto dourado da sala dos Veados, no velho paço sintrão, já o arrastara demasiado pelas ruas da Mouraria, entre a cambada dos troquilhas bêbedos e a desgraça das putas de rua. A sua juventude aparecia-lhe agora cheia de vergonhas e de misérias; e entretanto, ao pensar nela, o sangue alvoroçava-se-lhe ainda e todo ele tremia de comoção.
Nessa noite, no Palácio do Rato, ao ver-se estreitado naquele insuportável colete em busto de abelha bordado de prata, naquela casaca que o obrigava a uma atitude, naqueles punhos de bretanha que lhe estalariam se tentasse um esforço, ao olhar para si mesmo, sentiu uma saudade enorme da sua antiga casaca de veludo tinindo argentarias, da sua cinta fadista de seda preta, do seu chapéu castorenho de abalroar, e, mais que tudo isso, saudade do seu próprio coração, que não tornara a bater como nessas noites de amor, e que ele quase desconhecia agora, a ponto de pensar que já não era o mesmo coração.
E que admirava que lhe tivesse ficado por algum desses velhos nichos da Mouraria, preso até que ele voltasse a buscá-lo, depois da sua longa viagem de dez anos?
De pensamento em pensamento, foi transigindo com a ideia de lá voltar, sem que ninguém o visse, embuçado na sua capa de veludo preto, como uma criatura que vai cometer um crime.
Que seria feito da Cesária? Já não vivia, talvez, atirada como as outras para esse esgoto do hospital, como um animal que já não serve para o prazer humano, como um farrapo que já se não veste mais...
E essa adorável pequenita, de olhos cheios de clarões extraordinários e de lindos cabelos quase roxos, por onde andaria com o seu vintenzinho de S. Luiz ao pescoço, e as suas tairocas miúdas que estalavam no chão? Fosse lá saber-se!
E no velho palácio do Rato, nessa noite de baile, atirado para o canto de um sofá, olhando os Ciobelins da parede onde tumultuavam as batalhas de Alexandre, D. João ouvia o gemido dos violinos na vaga ilusão de que estava a escutar as violas da Mouraria...
Justamente nesse momento, uma mulher vestida de damasco chamejante que a luz esbraseava, apareceu à porta, passou à frente do Conde, como quem passa por acaso, e deixou cair junto dele um pequeno leque de rendas.
Era a Marquesa. D. João curvou-se para o apanhar, e entregou-lho. Ela aceitou o leque, muito trémula, as narinas a arfar e ousou dizer, depois de um momento de hesitação:
— Obrigada, Conde. Procurava-o há tanto tempo! Já é a segunda vez que me foge, esta noite...
— Eu?
— É cruel, muito cruel, sabe? Ou não me entende, ou entende-me demais...
— Eu, Marquesa?
— Procurava-o há tanto! Toda esta gente a separá-lo de mim!
— E em que poderei eu ser-lhe útil, minha senhora?
— Pergunta-mo para me torturar? Olhe que não é modos de um fidalgo tão gentil como o Conde, fazer sofrer por gosto uma mulher. A mulher é sagrada, quando sofre...
— Procura-me para me falar do senhor Marquês, decerto. Agradeço-lhe a honra, minha senhora.
A loura Seide, trémula de comoção, deixou-se cair sobre uma poltrona, escondeu uma lágrima, teve um instante de silêncio, e depois, serenamente, como uma criatura que joga a última cartada, articulou num fio apagado de voz:
— Não o procurei para lhe falar do meu marido… Procurei-o para lhe dizer o que uma mulher nunca deve ser a primeira a falar a um homem, sem abdicar da sua dignidade. Para lhe dizer que o amo, Conde, com a insensatez das criaturas que muito sofrem porque muito amaram... O Conde é severo de mais para mim e o seu olhar faz-me mal. Mas que quer? Que esconda por mais tempo o que é para a minha alma uma tortura esconder? Que seja virtuosa e que respeite o meu nome? Mas a minha virtude não vale o desespero de não o amar, o prazer de descer porque o amo muito, a glória de me chamar sua, muito sua... Tenha piedade de mim! Veja como eu estou, que febre é a minha, em que loucura caí, e não me olhe dessa maneira, por Deus lhe peço, por alma da sua mãe... Eu amo-o, Conde! Amo-o, o mais desgraçadamente que uma mulher pode amar! Tenha dó de mim!
Nesse momento, D. João, sereno à frente da preciosa Seide e quase tão pálido como ela, murmurou numa expressão de frio respeito:
— Permita-me, minha senhora, que eu tenha a honra de lhe beijar a mão.
D. João retirou-se cedo do baile. O Marquês de Niza e Domingos Harson acompanharam-no.
Estava uma linda noite de luar, e uma luz azulada e vaga estremecia nas casarias velhas do Rato. Mal viu aparecer D. João, o cambaio, sempre à coca, gritou para os cocheiros:
— A traquitana de sua Excelência o Sr. Conde de Marialva!
Aproximou-se uma velha traquitana brasonada, húmida do relento, e cujas quatro rodas enormes saltavam nas pedras irregulares do largo.
O cocheiro descobriu-se. As ventas dos cavalos fumegavam na humidade.
D. João, o último a subir, aconchegou ao pescoço a sua grande capa de veludo preto e gritou para o cocheiro:
— Para a Mouraria!
Um instante mais e a traquitana abalava de batida, cortando, num rodar matraqueado, o silêncio da noite.
D. João decidira-se, finalmente, a tornar a ver esse grande coração de pedra, que era o bairro doloroso do fado e do amor.
A sua comoção ao enxergar de novo aqueles velhos becos roídos onde a piedade cristã abrira de canto em canto um registo de azulejos, seria mil vezes maior se fosse sozinho. Por isso procurara a companhia do Niza e do Domingos Harson, a quem a saída tinha sorrido pelo imprevisto. O esteta Domingos, por cuja cabeça nunca mais passara a ideia de voltar ao Capelão, chegou a entristecer na evocação sentimental das carnes louras da Malhada, das suas lindas socas palmilhadas de saia vermelha, da profunda comoção dos seus beijos triste, de tudo quanto essa pobre criatura de fado lhe fizera sentir, nessa casinha humilde da Rua Suja, que era uma das recordações mais vivas da sua juventude.
E os três, Niza, marialva e Domingos Harson, lá foram, na grande traquitana desengonçada, em cuja ilharga, sobre campo de goles, se alinhavam três heráldicos besantes de ouro.
Durante todo o caminho, o loiro Domingos falou do passado, dos bons tempos em que a Mouraria era a sua Citera, das anedotas de rua que corriam no seu tempo, da saia gomada de uma, do jarrete fino de outra, das idas ao Colete Encarnado, das esperas de touros nas Marnotas.
Só o Marialva se conservava silencioso e triste.
Era a saudade da altura que não voltaria mais, dos beijos que nunca mais se dariam, das almas, perdidas que tinham abraçado a sua, por essas alfurjas sombrias em que se esgotava o prazer sem ter conhecido o amor.
— Onde estamos? — perguntou de repente D. João.
— No Rossio, — respondeu o Niza, debruçando-se.
E um ar cortante de madrugada roçou a barba do Marquês.
A hora era excelente para essa visita de grandes do reino ao seio amargurado da Mouraria. Enquanto o sol não rompesse, nenhum antigo conhecimento poderia estorvar D. João.
— Excelente hora para viajar incógnito! — aventurou o Domingos Harson, compondo o peitilho de bretanha onde tremiam joias como gotas de sangue.
Dali a pouco, a traquitana passava o Arco do Marquês de Alegrete e entrava na Mouraria silenciosa.
O Marialva foi o primeiro a sair, apoiado ao punho que o cocheiro lhe estendeu. Em seguida desceu o Domingos, e, por último, o Marquês de Niza, que deu um riso amarelo ao poisar o sapato de verniz no chão pedregoso.
— Efetivamente, não é o piso mais próprio para sapatos de baile, — comentou serenamente o esteta, compondo os anéis da cabeleira.
E dada ordem à traquitana para esperar, debaixo do Arco, os três amigos foram subindo a rua.
A certa altura, Domingos Harson parou, imobilizou-se numa das suas atitudes grandiosas, e, com o ar grave, de quem lê uma lápide, monologou, no silêncio da noite:
— Foi aqui, neste lugar, que o corregedor Semblano prendeu o esteta Domingos Harson, oriundo de família inglesa e pessoa de bem, por ter tido o péssimo gosto de concorrer com ele na posse de uma bailarina do Salitre, madame de idade incerta, motivo pelo qual toda a gente concorda em que Domingos Harson foi muito bem preso. E em memória do feito se mandou colocar esta lápide, que…
O Niza e o Marialva agarraram-lhe os braços e foram-no levando, Mouraria acima, até aos ressaltos sombrios do Capelão. Quando lá chegou, já ia concordando em que, afinal de contas, a bailarina do Salitre não era nada má, com as suas unhas, róseas de pétala e os seus jarretes finos de cavalo de corridas, e em que, a prisão e mais patifarias do corregedor Semblano não passavam de uma reverendíssima pouca-vergonha.
Mas, para o fim, era já só o Niza que o escutava. O olhar saudoso do Marialva perdia-se pelos velhos casinholos onde a sua juventude conhecera os primeiros beijos, pelas acanhadas janelinhas por onde tanta vez vira nascer o sol.
Nada tinha mudado. As mesmas ruas escuras, onde, aqui e ali, se erguiam uns telhados flamengos, cortados em bico, sem uma pequena janela de rua a bocejar ao alto. À esquina do Capelão, a mesma casa da Cesária, com o seu duplo ressalto coalhado de sombras e as grades verdes fechadas, parecia esperar ainda D. João, como nessas noites de outro tempo, em que as suas esporas de prata retiniam pela Mouraria silenciosa. Era ainda a mesma casa, tinha a mesma expressão acolhedora, como se uns braços de amante se abrissem lá dentro para ele. Quem dormiria ali, àquela hora, entre essas quatro paredes toscas; nesses quatro cantos por onde ele deixara tanto beijo perdido? Talvez ninguém. Talvez alguma desgraçada, que sofresse naquele instante a grande dor de amar por ofício. E ao alto, na estreita nesga de céu que se enfiava na rua, as estrelas, numa tremura de ouro, pareciam chorar ainda, como noutro tempo...
De pensamento em pensamento, o Marialva ia evocando todos os seus amores da Mouraria, e o último, sobretudo o último, o dessa linda cigana de olhos metálicos e ferozes de loba, que o amara com uma violência de escorraçada e com uma ternura de cadela.
Perante a saudade dessa criatura que ele pensava estar vendo ainda, com as suas saias de ganga restolhando folhos e os seus pendentes coruscando na orelha, a ideia da Marquesa, que se lhe oferecera entre lágrimas, parecia-lhe uma fria, uma simples banalidade sentimental.
Quando acordou das suas reflexões, apontou ao Niza a casa que fora da cigana.
— Aquela das persianas corridas? — inquiriu o Marquês.
— Aquela mesma. Faz-me saudades. Era a casa da Cesária, uma pobre criatura que me trouxe no coração e a quem eu paguei com dois pontapés...
— O que se não pode dizer que fosse uma excelente moeda, — articulou o Domingos, com uma flegma saxónia, estendendo a capa sobre um degrau e sentando-se comodamente.
O Niza, a quem aquelas coisas sempre interessavam, quis saber a história da cigana: quem era, se D. João a tornara a ver, ou se alguém lhe falara dela.
— Não, Nunca mais a vi.
— Há onze anos?
— Quase onze.
— E morava aqui?
— Nesta primeira casa. Aquela janela pequena. E os dois, mesmo por debaixo do velho ressalto alpendrado, olhavam a rua da janela, abstratos.
— Que será feito da mulher? — aventurou o Niza.
— Naturalmente, morreu.
— Talvez...
— Como tudo isto faz saudades! Lembras-te, Domingos...? Quando eu vinha lá ao alto do Capelão, de chapéu para os olhos e acicates de prata, e entrava a chamá-la:
— Cesária! Cesária!
E como se o pronunciar aquele nome de juventude e de amor o transportasse, num encantamento, aos velhos tempos da Mouraria, D. João, sem saber porquê, pôs-se a chamá-la como dantes, na sua voz quente e sonora:
— Cesária! Cesária!
Nisto, a persiana da janela abriu-se ruidosamente, como nos bons tempos da cigana, e uma voz rouca de mulher cortou o silêncio num grito indefinível.
Quando os três amigos, entreolhando-se, se iam a aproximar da porta, um vulto desvairado desceu a escada de repente, tropeçou nos últimos degraus, e, numa queda desamparada, veio cair de borco sobre as pedras da rua.
Era a Cesária.
Apesar de envelhecida e fatigada, de todo o trabalho da altura e da miséria naquela carne que fora soberba e triunfante, apesar da lanugem mais forte que lhe assombreava o queixo e lhe valera a alcunha de Barbuda, D. João reconheceu imediatamente a cigana, a joia antiga da Mouraria, a antiga beleza ousada que fora o ouro sem defeitos do Capelão.
Num impulso caridoso, vendo-a estatelada na rua, acurvou-se para a levantar. Mas a cabeça tombou, descobrindo um pescoço já encordoado de veias, e o corpo da Cesária, pesado e inerte, caiu de novo na terra.
— Estará morta? — interrogou o Niza, comovido, olhando essa desgraçada a quem Deus não pediria contas, pelo misericordioso perdão de ter amado muito.
Domingos Harson, que por acaso reparou um fio de luz na escada por onde se tinha precipitado a cigana, subiu, a ver se topava alguém que acudisse.
Ninguém. Apenas um candeeiro de latão de três bicos, aceso sobre uma arca, fumegava melancolicamente. Agarrou nele, e desceu. Ao chegar de novo lá abaixo, o Marialva correu-lhe ao encontro:
— Não está morta. O coração bate! E tomando o candeeiro das mãos do Domingos, D. João curvou-se de novo junto da Cesária, sobre a capa de veludo que lhe caíra dos ombros, e aproximou-lhe a luz da cara. Sobre as pedras corria um fio de sangue.
— Não foi nada, — sossegou o Niza. Quebrou a cabeça na queda e desmaiou.
— Respira, — disse alegremente D. João, chegando à cara a boca da cigana para lhe sentir o bafo.
— O melhor era vocês agarrarem nela em charola e levarem-na lá para cima, — lembrou Domingos Harson.
Naquele “vocês”, cheio de comodidade, o loiro Domingos, arranjando sempre o seu peitilho de bretanha salpicado de joias, excluía-se prudentemente.
O Niza, concordando mais do que nunca em que aquele piso era detestável para os sapatos de baile, não se conteve e disse ao Domingos:
— Homem! Tiraste-me o “vocês” da boca...
E enquanto os dois, Marquês e Domingos Harson, ficavam naquele elegante jogo do empurra, o Marialva, como quem pega numa pena, ergueu nos braços o corpo desfalecido da cigana e galgou com ele a escada.
Ao entrar nessa casinha tão sua conhecida, onde nada parecia ter mudado, desde os poais de tijolo, no vão da janela, até à cantoneira cheia de loiça, D. João pousou a Cesária sobre a cama, aconchegou-lhe as saias, e afastou-lhe piedosamente dos olhos os cabelos ensanguentados.
O Marquês e o Domingos, um poucochinho pálidos, subiram em seguida a pobre escada, gasta, e iam perguntar a D. João se ele estava decidido a ficar ali, quando o Marialva lhes estendeu a primeira tigela que encontrou, um caco com as pinturas amarelas da Bica do Sapato:
— Se vocês me arranjassem uma gota de água é que era bom!
O Marquês aceitou a tigela e ia a passá-la ao Domingos Harson, quando o loiro esteta, esquivando-se no mais amável dos sorrisos, atalhou, sem pestanejar:
— O pote está ali dentro.
Daí a pouco, o Niza, que ainda não desmanchara a sua bela casaca romântica e a sua cabeleira à Capoul, trazia cheia de água, em equilíbrios prodigiosos, a tigela da Bica do Sapato. Lavado o sangue da testa da cigana, que ainda não voltara a si, nem com o empaparem-lhe a face em água fria, Domingos Harson, já de chapéu na mão e embrulhado na sua ampla capa de fechos de prata, gritou da porta a D. João:
— Vens?
— Vão vocês. Eu fico. Mandem-me a carruagem daqui a uma hora.
O Niza e Domingos Harson desceram a escada, cautelosamente, tateando a parede. Já nos últimos degraus, o Marquês voltou-se ainda para D. João, que aguardava no topo:
— E que diabo ficas tu cá a fazer?
Comovido, o Marialva, fechando a porta, respondeu em voz baixa:
— Espero que ela acorde.
Quando, daí a uma hora, a traquitana parou de novo à esquina do Capelão, conforme as ordens do Conde, já a Cesária, com os seus grandes olhos cheios de febre e as faces magras borrifadas de sangue, desabafava há muito os horrores de onze anos de desgraça, de fome e de vergonha.
D. João, sentado ao canto de uma arca, o olhar descido para o soalho, os braços cruzados sobre o peito onde luziam joias, ouvia confrangido, num estranho e intraduzível sentimento de piedade, como se toda aquela miséria fosse obra sua.
Mas a pobre não o queria magoar, de nada o culpava; fora o seu mau destino, a força da sua desgraça, a má estrela com que nascera. E tudo lhe ia contando, fomes, revoltas, amores e misérias, como se estivesse falando para si mesma, na certeza de que estava ali um coração a chorar com ela. E enquanto ela falava, uma grande compaixão se ia avolumando na alma do Marialva, não só por aquela mulher que sofria, mas por todo o sofrimento humano, tão desconhecido dos felizes como se estivesse a cem côvados abaixo da terra.
De repente, depois de ter falado muito, nessa dolorosa loquacidade que é o desafogo dos desgraçados, a Cesária calou-se, olhou para o Conde com os seus grandes olhos vidrados de lágrimas, e gemeu numa voz rouca e fatigada:
— Eu não sei se estou a enfadar…
D. João abanou a cabeça num gesto negativo, e percebendo que a pobre mulher fazia esforços sobre-humanos para conter as lágrimas, puxou-a para junto de si, aconchegou ao peito aquela cabeça envelhecida, e murmurou, docemente:
— Não tenhas vergonha de mim... Chora, Cesária... Chora à vontade!
Durante alguns minutos de silêncio, enquanto pela grade da janela se começava a perceber a claridade da manhã, a pobre cigana, cingida ao peito do Marialva, a arquejar em soluços, chorou longamente, aliviadoramente, sagradamente, naquela doçura de alma que só podem sentir os que muito sofreram na vida.
Quando a Cesária ergueu a cabeça para limpar as lágrimas ao pano da saia, D. João olhou-a e perguntou-lhe, numa voz branda:
— E a tua filha?
A pobre mulher estremeceu com aquela pergunta inesperada. As feições contraíram-se-lhe, baixou os olhos para o soalho e respondeu:
— Está no Bairro Alto.
E como percebesse no Conde um doloroso, movimento de lábios, toda ela se desculpou em palavras de aflição:
— Fiz tudo quanto pude para a salvar daquela vida... Até à última moeda, até à última gota de sangue... Mas se ela era minha filha, que havia ela de ser senão desgraçada!
— Não a tens visto?
— Nunca mais a vi. Aquilo foi sempre uma cabra para a mãe!
Enquanto a Cesária, atando e desatando maquinalmente as pontas do seu lenço, esguelhava os olhos em clarões de fera ao falar na filha, pelo espírito saudoso do Marialva passava a figurinha magra da Severa de outro tempo, com a sua linda pele trigueira e as suas pupilas douradas cheias de uma ânsia animal de liberdade...
— Antes me dissesses que ela tinha morrido — articulou D. João depois de um silêncio, enquanto o sol nascente, numa poeira luminosa, atravessava a janela.
E a Cesária, os cotovelos ferrados nos joelhos e os queixos entre os punhos cerrados, rezingou ainda, num rancor surdo:
— Que Deus lhe dê também uma filha igual, para ela saber o que a mãe sofreu! Rogo-lhe esta praga, cá de dentro! Uma filha, que seja tão cabra como ela!
Nisto, bateram à porta e a voz roufenha do cocheiro grunhiu de fora:
— A carruagem está às ordens de sua Excelência o Sr. Conde!
D. João puxou para os ombros a sua grande capa de veludo preto e gritou para o cocheiro:
— A carruagem que espere.
Ouvindo-o chamar de senhor Conde, a Cesária, que o conhecera sempre por D. João, olhava-o aparvoadamente, arregalando os grandes olhos tristes e reparando pela primeira vez na casaca, nas joias, no peitilho de bretanha do Marialva, salpicado agora de pequenas gotas de sangue. Fora sobre o peito de um homem de tanta grandeza que ela chorara aquelas suas lágrimas, caladas durante anos inteiros, numa dor surda de escorraçada... E esse homem, que teria decerto os respeitos de toda a gente e à frente de quem se tirariam todos os chapéus, não desdenhara de a abraçar como a abraçava noutro tempo, com um coração que era o mesmo ainda, com uns braços que ela ensinara a abraçar.
E naqueles lábios, cansados e murchos, um grande sorriso floriu ainda, como uma ressurreição...
D. João levou o chapéu para os olhos, embuçou-se melhor no rebuço da capa, e sem que a cigana percebesse, deixou esquecida sobre a arca uma bolsa de prata cheia de moedas. Depois, prometendo voltar, abraçou de encontro ao peito, ainda por piedade, aquela sombra do mais lindo corpo que o sol da Mouraria conhecera, e, descendo a escada, sumiu-se nas sombras da velha traquitana.
— As ordens de Vossa exa? — interrogou o cocheiro, derrubando o seu grande chapéu de pêlo de coelho, que lhe ressoou como um bombo nas caneleiras de ferro.
— Para o Bairro Alto! — ordenou por fim D. João, cujos olhos se acenderam numa claridade, súbita.
E depois de um silêncio, enquanto o cocheiro, já montado, compunha o loro do seu estribo de latão, o Conde afastou de novo a cortina da traquitana, e como quem sacode um mau pensamento, gritou:
— Não... vamos antes para casa!
D. João dormiu mal. Dentro de si próprio, no seu íntimo, havia alguma coisa que o acusava, como se aquela ressuscitada que lhe chorara nos braços, esse Lázaro de amor, fosse obra sua.
Mas não era o remorso — remorso de quê? — que lhe tirava o sono. À ideia da Cesária, outra mais inquietante e mais forte se sobrepunha, a da pequena Severa, cuja infância ele recordava com uma ternura infinita, e que a fatalidade do destino atirara para a mesma desgraça da mãe.
Agora, todo o Bairro Alto, com a sua malta de rufianaços, toda a safra violenta dos cocheiros de alquilaria, todo o bando de chapéus castorenhos ardendo em cio pelas sombras, toda aquela onda impura teria passado de roldão sobre o lindo corpo que ele conhecera em flor, dourado de lanugem e velado de pureza. Mais alguns anos, e a pequena tímida do Capelão, amimada pelos poiais das rameiras, avezita trigueira e crestada do sol, mais alguns anos, e essa criança teria feito desfalecer e cair uma multidão. A ideia desse bebedouro de corvos impressionou dolorosamente o Marialva, sem que ele compreendesse bem porquê. Que tinha ele de comum com a pequena, ou em que podia interessá-lo uma desgraça a mais? E entretanto, não podia afastar dela o pensamento. Via-a com os olhos da imaginação, procurava, através da criança de ontem, reconstituir a mulher de agora, com a sua anca forte, os seus olhos enormes de cigana, a apojadura do seu peito farto de pomba, a insolência ramalhuda da sua larga saia amarela de ganga. Como estaria ela? Seria ainda a mesma criatura tímida, com repentes súbitos de energia e ânsias selvagens de liberdade, ou ter-se-ia abastardado no vício e na devassidão?
No dia seguinte, como nos outros dias, pensou em procurá-la no Bairro Alto. Fora a sua primeira impressão, na noite em que encontrara a mãe; mas conseguira dominar-se. Para quê? Para a proteger? Para a regenerar? Para a salvar? Ah, não. Ele bem reconhecia, no fundo da sua consciência de homem, que obedecia apenas a um irresistível movimento de curiosidade sensual. Chegara de uma vez a perguntar por ela a um ferrador da Rua da Rosa das Partilhas. Mas antes de receber uma resposta, tinha-se afastado, oculto no rebuço da capa, obedecendo a esse vago instinto que leva todos os homens a fugir, no primeiro momento, das mulheres que hão de fazer a desgraça ou a felicidade da sua vida.
Mas, quando menos D. João o esperaria, produziu-se um acontecimento que o desconcertou.
De repente, ele, que tinha imaginado a Severa uma criatura de sombra, feita para a desgraça de um amor vergonhoso, condenada ao mistério das chagas que se escondem, ouviu falar dela em plena luz do dia, discutida pelos cantos dos salões, nomeada nas folhas dos jornais, como uma criatura ousada e extravagante, vinda não se sabia de onde, filha não se sabia de quem, mas atrevida, violenta, pitoresca, vivendo das histórias e do escândalo, chamando as atenções de toda a gente, como uma bandeira vermelha a vibrar ao sol.
O caso que lhe criou esta celebridade correu logo de boca em boca, vertiginosamente, como um pregão, ampliado pela imaginação colorida do povo.
Ao ouvi-lo contar, por acaso de uma tenta de gado em Salvaterra de Magos, D. João duvidou de que se tratasse da mesma Severa, dessa linda pequena que ainda pensava estar a ver, encolhida e tímida, na sombra de um poial de tijolo.
Quando lhe perguntaram se porventura a conhecia, ficou quase convencido que não seria a mesma que respondeu, do alto do seu pezenho, compondo o loro das estribeiras de prata:
— Não. Não sei quem é.
De facto, como poderia aquela criança terna, triste e delicada, ter florido assim numa aventureira brigona, capaz de varrer feiras e de endoidecer os homens?
A história que se contava era que um dia a Severa, andando uma bela noite de Jou para Jales, à vadiar com um grupo de fidalguetes e de gandulos de cinta encarnada e espora num pé só, tinha encontrado o anão das Bernardas — um pobre diabo, curto como um cepo e monstruoso como um cogumelo.
Dali a dançar à frente do anão, foi um piscar de olhos. As chalaças(*) ferviam à frente do pobre bicho, que ria com os dentes amarelos e metia os dedos à boca, em assobios estridentes.
[(*) chalaças = um tipo de sapato]
Isto era no terreiro de S. Roque, mesmo em frente à igreja.
De repente, a Severa teve uma ideia, derrubou o lenço, cravou no chão a soca luzente e disse para o bando:
— Eh, rapazes! E se nós metêssemos o anão na roda?(*)
[(*) Chamada “Roda dos enjeitados”, ou “Roda da Misericórdia”, ou ainda “Roda dos Expostos” era um tipo de armário, com uma estante giratória dentro, que as igrejas punhas incrustado entre o interior e o exterior da igreja, para ser utilizado pelas mães, que não podia cuidar dos filhos recém nascidos, e que assim o davam à guarda da igreja. A ação consistia em meter a criança, — fora do edifício para salvaguardar o anonimato da mãe — em cima da roda dentro do armário que ao rodar punha a criança dentro da igreja, salvando-a do frio. Este instrumento remota à época medieval e surgiu em reação à pratica que antes se usava de deixar o recém-nascido enjeitado à porta das igrejas durante a noite, o que resultava que muitas das crianças encontradas mais tarde se encontrassem já mortas devido ao frio.]
Foi um sucesso. A malta grasnante dos fidalguetes agarrou o anão no ar, e mesmo assim, de chapéu alto e casaca de briche, atirou com ele lá dentro, e rodaram a roda, que girou nas visagras.
O pobre diabo, preso não se resignou à condição de recém-nascido, exposto na Santa Casa aos quarenta anos de idade, e desatou a gritar num desespero de encontro às paredes.
Cá fora, no terreiro, uma algazarra tremenda, um vozear matraqueado, que fazia redobrar de violência, no seu nicho de ferro, o pobre anão das Bernardas.
A certa altura deixou de ouvir-se o esbracejar do patusco. A porta abriu-se, e o anão saía da roda com a chapelorra num boio, a cara congestionada de fúria, os olhos a chispar de ódio, em meio dos apupos e das vaias que se ouviam.
Pouco depois, a Severa era presa em casa, por ter metido o idiota das Bernardas na roda da Misericórdia.
A meio do caminho, fugiu, numa rapidez nervosa de cabra. Correram-lhe na calçada e não a agarraram. O número de perseguidores aumentou e foi posto um grupo de cães a seguir na peugada da rapariga.
Por fim, foram dar com ela sentada descansadamente no poial da porta, a cantar o fado, de guitarra nas unhas. Mas tão milagrosamente, com tanto coração em cada nota, numa voz tão molhada de lágrimas e tão cortada de soluços, que a guarda, suspensa, ficou a ouvi-la, sem lhe tocar, abrindo um circulo em volta dela, numa imobilidade absoluta e num silêncio pasmado.
Quando o anão apareceu, ainda a vociferar, vermelho de fúria, a multidão abafou-lhe a voz e enxotou-o.
Ao ouvi-la, aqueles homens sentiam na garganta um travo de comoção, como se toda a sua raça estivesse ali, naquele fado que os abalava dos pés à cabeça, naquela voz que ao mesmo tempo chorava e ria, gemia e gritava, sob a palpitação de cobre das violas.
A notícia de que havia no Bairro Alto semelhante joia de sentimento, correu depressa, sobretudo no círculo da fidalguia, sempre ávida de novidades.
Atrás daquela história, os noveleiros foram logo arranjando outras, episódios foliões de valentia, arrancos de heroicidade máscula, de envolta com a lenda dos seus braços quase viris, percorridos por uma sombra trigueira.
Começou-se a falar na Severa, a cada canto, a cada esquina. Não havia partida que os jornais não contassem. As outras rameiras, todo o Bairro Alto em peso, adoravam-na e imitavam-na, desde as atitudes até ao calão, desde a valentia até à generosidade. As suas posturas de desafio, cabeça recuada, numa onda negra de cabelos, e perna ferrada à frente numa energia ferina, eram copiadas pela malta do Cunhal das Bolas.
Todos conheciam a Severa, ou pelo menos tinham ouvido falar dela, e as suas últimas partidas corriam de boca em boca, num formidável sucesso de gargalhadas. Depois, dizia-se que tinha um coração compadecido e terno, que dividia todo o seu dinheiro com as desgraçadas ao pé da porta, e — o que era o mais importante, para a nossa imaginação de lisboetas! — que tocava e cantava o fado como ninguém ainda tocara e cantara em Portugal.
D. João comparava a Severa que ele conhecera aos oito anos, com esta outra que a lenda criara, e, por mais que tentasse, não as podia conciliar. No entanto, a incompreensível atração que o arrastava para ela ia-se tornando, de dia para dia, mais imperiosa e mais violenta. Era preciso reagir, combater todos os arrancos do seu sangue, triunfar em si próprio, ser mais canalha, mas mais elegante e, para se distrair, “travailler dans les femmes du monde”(*) como um aventureiro sem escrúpulos.
[(*) Tradução do francês: meter-se com as mulheres do mundo]
O remédio mais eficaz seria esse. E o perfil rosado e loiro da viperina Seide passou-lhe à frente dos olhos, como naquele serão do Rato, entre camélias brancas e topázios dourados.
Por esse tempo estava a Boccabadati (*) em S. Carlos, desvairando as plateias com a sua beleza miúda de esmalte humano, os seus dezoito anos floridos e a sua voz de cristal.
[(*) Luigia Boccabadati foi uma cantora italiana de ópera muito famosa na altura. Passou por Lisboa diversas vezes em tornné pelas salas de ópera europeias]
A Marquesa, grande amadora de canto, era certa estar lá todas as noites numa primeira ordem, graciosa como uma aguarela de Eugênio Lami, envolvendo a perfídia do seu sorriso numa charpa de musselina cor-de-rosa.
D. João vestiu a sua casaca irrepreensível, sobre um colete aberto, bordado a soutache de prata, e encaminhou-se para S. Carlos.
Tomado um bilhete para a plateia, entrou. Estava-se no primeiro ato da Ana Bolena. A Boccabadati, coberta com uma nuvem de flores, o cabelo em bandó encanudando na orelha, a alta gorjeira de rendas aberta em resplendor, os dedinhos delgados como fusos de prata a gesticular, levantou a plateia numa ovação enorme, violenta e meridional.
Mas a D. João tudo passou despercebido. Fixo exclusivamente no seu plano de vitória sobre si mesmo, cravara os olhos romanticamente no camarote da Marquesa, cujos cabelos fulvos se torciam em guinguetas num penteado de rosas.
A divina Seide, para quem a atitude do Marialva era verdadeiramente inesperada, sentia-se empalidecer sob o seu olhar apaixonado e quente. Ferida como estava no seu amor próprio de, mulher, quis ainda dissimular, aparentar frieza, desviar os olhos, como se o Conde lhe fosse um estranho, como se todos os seus nervos não estivessem a vibrar.
Ele recusara-se quando ela o procurara, trémula de paixão. Agora, só ao preço de uma corte em forma, só depois de o ter feito ajoelhar-se, humilhar-se, enroscar-se-lhe aos pés, vencido e suplicante.
Por seu lado, D. João, ligeiramente desconcertado, estranhava a atitude da Marquesa. Que significaria aquele desdém, numa criatura que se lhe entregara?
Nisto, acabou o primeiro ato. Uma grande ovação estalou de novo, coroando a linda cabeça trigueira da Boccabadati, cheia de flores e de joias.
D. João, depois de um último olhar para o camarote da Seide, levantou-se.
A primeira pessoa que encontrou foi o Marquês de Niza.
Grande músico, discípulo antigo do Paganini, rabequista insigne, o Marquês, encantado com a Boccabadati, trazia as lágrimas nos olhos:
— Que mulher! Que mulher!
D. João arrastou-o pelo braço, na intenção de desabafar, de se abrir com ele, mas o Niza cortava-lhe a palavra a cada instante, para repetir sempre, numa devoção, os olhos marejados, a expressão transfigurada:
— É pena ser italiana! Que mulher!
Nisto aproximou-se o Garrett, com o Rodrigo da Fonseca, ambos imperturbáveis nas suas casacas esguias e nas suas gravatas à Malibran. O Soto-Maior, que vinha em sentido oposto, garrindo o seu nonagésimo alfinete de gravata e o trigésimo quarto colete bordado, reuniu-se ao grupo.
— Sabem vocês que temos no Bairro Alto uma Boccabadatizinha que faz chorar toda a gente quando canta o fado? — disse de repente o Marquês de Niza.
— A sério? — duvidou o Soto-Maior, enquanto as grandes barbas apostólicas do Conde das Antas passeavam de frisa para frisa.
— A sério, pois então! Uma perfeição de fado, cantado com lágrimas na garganta, um fado que vale toda a ópera italiana e todas as casacas do Soto-Maior! Pois que pensavam vocês?
— Uma chamada Severa... Já ouvi falar, resmungou o Rodrigo da Fonseca, melancólico, ruminando um artigo-de-fundo.
— Tu que foste frecheiro do fado de meia-porta deves conhecê-la, João! — disse o Marquês ao Marialva, metendo um cigarro na sua pinça de prata.
D. João levantou a cabeça, encarou o Niza e respondeu, muito naturalmente, quase convencido:
— Não conheço.
— O quê? Nem mesmo de nome?
— Nem de nome.
Garrett, que há um instante ficara pensativo, agarrou o braço de Rodrigo da Fonseca e articulou agitadamente:
— Venha você daí comigo visitar a Marquesa.
— Qual Marquesa?
— A Seide.
— Ela está só?
— Está.
— Porque não guarda você isso para logo, para o segundo intervalo?
— Prefiro agora.
— Olhe que é menos clássico.
— Mas é mais prudente.
— Como assim mais prudente...?
O poeta não respondeu. Sacou de uma grande caixa de rapé, de ouro maciço trabalhado a cinzel, e dispôs-se a sorver a sua pitada elegante.
Ora quando o “divino” arrancava da “caixa das execuções” o caso era grave. Ou questão de amor, ou questão política. Não havia dúvidas. Ou mulher que cortejava, ou descompostura iminente nas câmaras. Como a segunda hipótese não era natural, Rodrigo da Fonseca desconfiou da primeira.
— Você está apaixonado, confesse! — disse Rodrigo, à-queima-roupa.
— O homem de espírito não se apaixona.
— Não. O homem de espírito, enforca-se.
— Como assim?
— Mulheres… “Nasci de uma, fujo de todas”, dizia Santo Agostinho. Eu estou com o santo.
— Por comodidade.
— Por cálculo. Sempre achei caro despir uma mulher.
— Pois eu, meu velho, acho muito mais caro vesti-la.
— E depois, pedir amor é uma coisa que rebaixa, que humilha.
— É que eu peço amor como os grandes de Espanha pedem esmola: de chapéu na cabeça!
— Bonita frase!
— É uma verdade, Rodrigo. As mulheres valem mais do que a política. E mentem menos do que os políticos.
Nisto, os dois amigos chegaram ao camarote da Marquesa. Rodrigo da Fonseca afastou-se, Garrett, compondo o peitilho de bretanha pesado de joias, entrou.
Lá em baixo, D. João, livre do Soto-Maior, que começava a disser anedotas, afastou-se com o Marquês de Niza para um recanto dos corredores, e atacou-o de repente:
— Falaste há pouco de uma Severa do Bairro Alto, que canta o fado maravilhosamente. Vais dizer-me quem é essa mulher. Descreve-ma nas mais pequenas particularidades, porque eu tenho um interesse extraordinário em saber quem ela é. Conhece-la?
— Dormi ontem com ela.
D. João, perante a franqueza brusca do Niza, empalideceu mortalmente, baixou os olhos, teve uma crispação de lábios, e atalhou, quase sem pensar:
— Não. Nesse caso, não me digas nada.
Começou o segundo ato da Ana Bolena. D. João tomou o seu lugar na plateia, tristemente.
Quando levantou o olhar para o camarote da Seide, viu o Garrett ao lado dela, na majestade dos seus olhos azuis de poeta célebre, cofiando, com a mão luzente de anéis, a barbicha crespa do soqueixo.
A Marquesa, numa volúpia verdadeiramente feminina, estava torturando o Marialva, para lhe poder perdoar depois.
Mas D. João, porque atacava a frio, fez falhar o cálculo da Marquesa. Durante todo o resto da noite, não levantou uma única vez os olhos para o camarote. A divina Seide, mordendo nervosamente uma grande rosa presa à pulseira por um grilhão de ouro, mordia os lábios de raiva.
Antes de terminar a ópera, o Marialva, compreendendo o que se deveria passar na alma daquela mulher orgulhosa, decidiu-se a ser, pela primeira vez, amável com ela. Saiu da plateia, esguelhou os olhos para o camarote da Marquesa, a ver se lá estava ainda o Garrett, e, como o não viu, encaminhou-se para as escadas da primeira ordem. A Marquesa, já no corredor, punha pelos ombros uma riquíssima catnãlha para a saída de teatro, que lhe envolvia, numa mancha de múrice escuro, o ouro torcido dos cabelos.
Quando deu com D. João, a Seide teve um pequeno grito de surpresa e os olhos brilharam-lhe jubilosamente.
— O que quer senhor Conde?
— Peço-lhe perdão, Marquesa, mas como a ópera está a acabar e a vi só, reservei-me a honra de lhe oferecer o meu braço.
A Marquesa envolveu-o num grande olhar de agradecimento e de paixão, pousou a mão enluvada sobre o braço do Conde e gemeu, numa voz trémula:
— É a primeira vez que é gentil para mim, Conde!
Ao chegar à porta do teatro, uma voz chamou o cocheiro da senhora Marquesa de Seide, e, logo a seguir, o do senhor Conde de Marialva.
Daí a um momento, o cocheiro, do Conde seguia com a sua carruagem deserta, enquanto a traquitana da Marquesa rodava sobre as pedras do Largo, levando D. João e a divina Seide, sob o grande pálio de estrelas do céu silencioso.
Quando a Marquesa, já sozinha, se apeava ao portão do palácio e subia a grande escadaria alcatifada de veludo vermelho, a velha criada de confiança, que a aguardava ao topo, vendo-a horrivelmente despenteada e pálida, perguntou-lhe, cheia de susto:
— Que aconteceu, senhora Marquesa?
A Marquesa atravessou com ela as grandes salas desertas, e, mal chegada aos seus aposentos, caiu sobre uma preguiceira de damasco, a rir e a chorar como uma criança:
— Ai, Gertrudes, que eu nunca tinha amado, como hoje!
Daí a duas horas, D. João, já de volta ao Campo Grande, erguia o alçapão de couro da carruagem do paço, saltava o estribo e recolhia finalmente ao sossego do seu quarto.
O criado, que o despiu, tirou-lhe da casaca, à luz dos velhos castiçais de prata batida, dois grandes cabelos loiros elegantemente frisados. Depois, limitou-se a observar o estado lastimável do peitilho de bretanha, onde três joias azuladas entristeciam.
Mais uns minutos, e o Conde ficou absolutamente só com os seus pensamentos.
A sua atitude perante a Marquesa, aquela hora de amor no persevão de uma carruagem, o modo como ela se entregara, tudo aquilo o fazia envergonhar-se de si próprio, como se tivesse cometido uma ação vil. Essa vitória sobre os esplendores de uma linda mulher cortejada, cuja cabeça lhe pintara em ouro o negro da casaca e cuja carne opulenta estremecera junto da sua, — essa misérrima vitória, que seria um crime mesmo que D. João a amasse, tornava-se, não a amando, uma crueldade escusada.
O Conde desprendera-se-lhe dos seus braços, numa onda quente de perfume, inteiramente vazio de comoção, — como um rústico que fica com fome depois de ter comido no prato de um rei. Vencera uma linda mulher, por certo, mas uma linda mulher que o amara com o espírito em vez de o ter amado com o coração. Onde pensara beijar uma alma, beijara uma ilusão apenas. Tinha-se enganado, e o que era pior, tinha feito o sacrifício inútil de uma virtude.
Tratara-a como um cocheiro, a ela, à frente de quem os “leões” românticos desfiavam, como aranhas, a sua eterna teia de ouro. E nem no momento de a possuir pudera libertar-se da ideia fixa da Severa, que o perseguia como uma fatalidade. Mas era preciso. Era preciso recorrer a todos os meios para se livrar dessa obsessão. O amor da mais feliz, da mais desejada mulher da plutocracia lisboeta não fora suficiente para o distrair da pobre rameira do Bairro Alto!
Restava-lhe outro modo de fugir, mais turbulento e mais brutal: o das temeridades, o das loucuras, o derivativo sangrento das touradas, as esperas, de cinta encarnada e pampilho sob a perna, heroicidades de gineta pelos torneios fidalgos, o clangor de charamelas de cobre, bravuras de redondel, cegueiras de sangue, tudo o que a sua raça lhe estava a pedir, num esbravejar violento de energias O Conde tinha já toureado em Salvaterra de Magos, na quinta do Marquês de Niza, pelo S. João. Quebrara sete rojões numa só fera, até vê-la cair morta, a sangrar no terreiro. Era certeiro e rápido, tinha olho e pulso, decisão e firmeza. Como espotrejador e como cavaleiro, ninguém o excedia. Trabalhava um cavalo na picaria até à última perfeição. Tinha um lazão de combate, argeitravado de orelhas derramadas e cabeça de carneiro, rasgado de pernas como convinha à estardiota, que era um herói em frente do touro, e onde D. João ficava como uma estátua, as pernas bem firmes nas borrainas e os pés ferrados com bravura nas estribeiras de prata. A sorte predileta do Conde era a sorte à tira, com o touro levantado, — prodígio de certeza, de rapidez, de força. Em Salvaterra fizera erguer o terreiro numa ovação formidável.
Mas a sua fama no toureio, que correra como um pregão entre a fidalguia, não descera ainda à multidão. A consagração do grande cavaleiro e do grande apaixonado, que pareceu resumir em si o tipo completo do português de raça, não estava feita ainda.
D. João, que nascera para o povo, erguendo uma desgraçada à altura do seu coração, havia de comungar com o povo. O Conde e a Severa tinham de atravessar o tempo e a lenda, como os símbolos do velho Portugal cavalheiresco e amoroso, enternecido e valente, dominando e cantando o fado, rindo nos torneios com um cavalo entre os joelhos, chorando na Mouraria com uma viola na mão.
Como ele se enganava, o pobre Conde de Marialva! O seu destino estava escrito, e quanto mais procurava fugir à Severa, mais se aproximava dela.
O primeiro convite que lhe fizeram para tourear no Campo de Sant’Ana, aceitou-o imediatamente.
Era uma tourada de beneficência, a que presidia a arquitetural Infanta D. Ana, suprema na soberania da sua carnação de Rubens, feita para roçar almadraques de púrpura nos palácios dourados do senhor D. João V.
O gado era do Ponte Boa, um dos melhores ferros da altura.
A espera foi um acontecimento. Toda a safra fidalga se preparou para galopar à cabeça dos cabrestos, desde os mais maturrangos, escanchados em velhas ancas de boi, até à fina flor da cavalaria, de estribeiras de prata luzindo ao sol, as crinas enramadas de fitas, exibindo em manejos altos, curveteando em upas, rompendo em repelões.
D. João ia também, jaqueta de astracan, bota de cava, chapéu largo velando o sol, num lindo baio cor de ouro velho, arrancando em abaladas de galope levantado ou estacando em capriolas nervosas, sob as janelas armadas de damasco vermelho, onde se erguiam cachos de mulheres.
O gado parou nas Marnotas, esfomeado, batendo o esmalte da relva quente. O sol ardia numa explosão fulva. Os cavaleiros, apeando-se, buscavam a sombra. De vara entalada sob a coxa, o barrete verde à soalheira, os campinos velavam, fumando.
Depois, tudo se pôs novamente em marcha numa nuvem de poeira asfixiante e luminosa, entre o tinido musical das esquilas e dos chocalhos dos cabrestos, como se, sob a bênção do sol, uma tempestade de vento varresse a estrada.
Já ao anoitecer fez-se a segunda paragem no Campo Pequeno, onde uma onda de carruagens e de traquitanas da burguesia honesta esperava, envolta com as boleias das fandangueiras, a chegada dos touros.
Parte das carruagens abalou em seguida. A outra parte ficou pelo Campo Pequeno, ao lado do palácio e das cavalariças dos Galveias, velha mole cinzenta e nobre, erguendo os espigões dos telhados no céu roxo da tarde.
Acendiam-se lanternas. A grande praça tinha o ar de uma feira colossal.
D. João, conversando com o Conde de Peniche e com o morgado de Setúbal, deixara-se ficar ao socairo de uma traquitana brasonada, de alçapão de couro.
Em volta, por todo o campo, o vozear era medonho, ensurdecedor. Pragas, zangarrear de violas, chocalhos de cabrestos, relinchos dos velhos taniões mazelentos, toda esta matinada se confundia com o som da vozearia, como um prato de cobre tinindo no meio de uma voz rouca. Chegava agora uma carruagem, logo depois outra abalava, num movimento constante. De vez em quando, um pregão falso de rês tresmalhada, e um reboliço, bárbaro em todo o terreiro.
Mas com o andar da noite, aquele rumor confuso ia assentando; começavam a individualizar-se as vozes, dos extremos apartados do Campo vinham soluços de fado; os cabrestos repousavam; os chocalhos emudeciam, e uma ou outra viola, lá de longe, estremecia num choro de desgraça sob o grande céu estrelado.
Junto à carruagem, o morgado de Setúbal, vestido de campino, cinta encarnada, barrete, sapato bezerrum e espora num pé só, discutia proficientemente as pegas de cara, sobre se se devia citar o touro, de mãos atrás das costas, ou de braços levantados para melhor encomamento. O Conde de Peniche, com a sua boca sinuosa e o seu ar zombeteiro, ria. D. João, esse, pensava noutra coisa. No entanto, o morgado vociferava, apoplético, batia na terra o sapatão de salto de prateleira onde a espora tinia, e rematava, num rugido de fera:
— Mão atrás das costas! Pois então!
— Assim é que é ver embarbelar um touro! Na ponta da unha!
Nisto, chegou o bando do Niza, num tropear de cavalos. Vinham com ele o Marquês de Belas, o padre Mateus, gordo como as basílicas do Corpus-Christi, D. Manuel Ponte, Pinto Carneiro e outros.
O Marquês viu os três do grupo, e a cavalgada parou.
— Eh, lá! Que fazem vocês aí? — gritou o Niza.
— Aproximem-se, se querem ouvir o morgado! — disse o Conde de Peniche, a rir. — Está a fazer um tratado de pegas de cara, melhor do que o Galvão para a gineta e o estardiota!
Os cavaleiros apearam-se, entre gargalhadas. Padre Mateus, que ia na sua respeitabilíssima mula trescalando a feno de passal minhoto, arrancou um dos pés da estribeira lavrada e pediu ao Marquês de Belas que o ajudasse a descer.
Já com o padre no chão, deu-se uma nova gargalhada. O Reverendo Mateus, de grande chapéu negro e volta de seda roxa no pescoço, o grande carão louraço tressuando, assim que se apanhou com os pés na explodiu em entusiasmos: Que não havia nada melhor, que aquilo é que era vida, que o resto era uma pouca-vergonha, e que se o patriarca o deixasse, até era capaz de dizer missa nos cornos de um touro!
O Marquês de Belas puxou-lhe pelas vestes, como quem o adverte da impiedade das palavras, e lembrou-lhe que os chavelhos(*) não tinham até hoje uma aplicação litúrgica.
[(*) chavelhos = palavrões]
— Lá virá o tempo! — disse à socapa o Conde de Peniche, sorrindo indulgentemente para o padre Mateus.
— Não têm aplicação litúrgica?! — protestou o morgado de Setúbal, com vontade de fazer rir os assistentes.
— Ora essa! E então e o sacramento do matrimónio?
As palavras do morgado teve entre a fidalgaria o merecido sucesso. O Padre Mateus corou pudicamente. O morgado, animado pelas gargalhadas, repetiu a facécia. Já não teve graça nenhuma.
De repente, o Niza interpelou D. João:
— Lembras-te daquela Boccabadatizinha do Bairro Alto, de que te falei no S. Carlos?
O Conde, que não queria levar para aí a conversa, respondeu secamente:
— Não.
— O quê? Não te lembras...? Uma pequena chamada Severa?
— “Se Pêra” esse! — gemeu padre Mateus num suspiro.
— Pois veio connosco — continuou o Marquês. Está aí, no campo, ela e a guitarra!
— Trouxe-a o padre à garupa! — gozou o Manuel Ponte.
— “Se véra” foi-se! — grunhiu outra vez o reverendo, compondo a volta de seda roxa que lhe aperreava o queixo.
E, num momento, todos se dispuseram a procurar a Severa com os olhos para lhe ir ouvir um choradinho, daqueles que faziam rebentar as lágrimas nos olhos e apertar um soluço na garganta.
Só o Marialva, muito pálido, se limitou a fazer um aceno ao criado para lhe ir buscar o cavalo.
— O quê? Não vens? — interrogou o Niza.
— Não. Sigo para Lisboa — respondeu sacudidamente D. João, já de pé na estribeira.
O Marquês, compreendendo que havia ali qualquer coisa, mas não atingindo bem o motivo daquela resolução brusca, passou o braço em volta da cintura do Marialva, fê-lo descer o pé da estribeira de prata, e apartando-se do resto do grupo, perguntou-lhe, num tom, de interesse sincero:
— Que se passa?
— Absolutamente nada.
— Alguma coisa é. Eu conheço-te.
— Sossego. Tenho de tourear amanhã. Recolho mais cedo.
— E é só por isso que vais...?
— Creio que sim.
Houve um momento de silêncio. No entanto, chegando ao lado de uma traquitana, cuja lanterna sangrava na escuridão. O Niza encarou o Conde, e sem mais “tir-te-nem-garte”, disse-lhe num sorriso complacente:
— Existe alguma coisa entre ti e essa rapariga?
— Quem?
— A Severa.
— Porque perguntas?
— Porque já te vi empalidecer duas vezes, quando lhe ouviste o nome...
D. João, num gesto lento, acendeu o cigarro. No lume da lanterna, encarou serenamente o Marquês, e articulou, no ar grave de quem destrói um mau juízo alheio:
— A última vez que a vi tinha ela sete ou oito anos de idade. De então para cá, não a tornei a ver. Afirmo-o pela minha honra de fidalgo.
O Niza calou-se, fazendo tilintar distraidamente as argentarias da jaqueta, e ao fim de um momento atacou, desconcertado:
— Nesse caso, porque não ficas?
D. João não teve tempo para responder. O bando do morgado, do Marquês de Belas, do Conde de Peniche, toda a fidalguia vezeira nas esperas, chapéu de abalroar e acicates sangrentos, trazia a Severa a reboque, rindo a trancos, a saia de goma restolhando, a viola pelos ares, o xaile ao vento.
Tinham-na ido buscar expressamente para a mostrar ao Marialva, orgulhosos de trazer consigo a joia do Bairro Alto, esse ouro sem defeitos a quem Deus pusera o sol nos olhos e o coração na garganta.
O morgado de Setúbal, que já tinha perdido o barrete, chamava-o como quem chama um touro:
— Eh, caldeiro! Eh, caraça!
À frente do bando, as violas gemiam, como pratos de cobre onde caíam lágrimas dolorosas...
— Então onde está esse Conde que vocês me querem mostrar? Onde está ele? — interrogava a Severa, os olhos a chispar de alegria, a boca escancarada, num barregar sanguíneo onde havia raça, estúrdia, movimento, saúde.
E enquanto o morgado de Setúbal, de cinta encarnada e espora, lhe dançava na frente, a Severa ia-o empurrando e gritando sempre:
— Então, vem lá esse Conde ou não vem? Se for de feição, vou-lhe na garupa! Quem é ele? Quem é ele...?
O reverendo Mateus, na sua figura acaçapada de leigo bernardo, gritava também, quanto podia:
— Marialva! Marialva!
Nisto, ouviu-se uma voz:
— Está aqui!
A Severa precipitou-se com o grupo, e quando ia a avançar como pescoço na sombra, para ver melhor, a luz de uma lanterna bateu de chapa na cara de D. João.
Ao dar com ele, inesperadamente, a pobre rapariga teve um movimento convulso, fitando mais aquela cara tão sua conhecida, recuou num grito surdo, a viola caiu-lhe das mãos, e quando os do grupo olharam para ela, espantados com aquela transfiguração, viram as lágrimas rolarem-lhe pelas faces, a quatro, e quatro.
O Marialva, num abrir e fechar de olhos, tinha montado, e ensanguentando os ilhais do cavalo, desapareceu na estrada, a galope.
Durante toda a noite, a Severa nunca mais disse uma palavra. Para ali ficou, num canto de sombra, como uma criatura a quem acaba de suceder um desastre, olhos fixos na escuridão estrelada, à espera da luz consoladora da manhã.
Como já não ria, todos fugiram dela.
O Niza, de volta do seu cavalo troncho, estrada fora, a estribeira dourada luzindo ao sol, ia pensando consigo, desconcertadamente:
— Mas o que haverá então de comum, entre aquelas duas criaturas?