A Terceira Potência
Capítulo VIII
O tenente Klein chegou a Pequim por um caminho mais longo que o habitual. De acordo com as ordens que recebera, entrou em contato com o número dois, que lhe forneceu novas instruções. A missão a ser cumprida parecia impossível, mas tinha que ser tentada. Perry Rhodan representava um perigo para todo o mundo. Quem conseguisse remover esse perigo conquistaria fama imorredoura, pouco importava a nação a que pertencesse. A missão exigia a mobilização de todas as energias da pessoa encarregada de cumpri-la, além de uma coragem extraordinária.
No entanto, havia uma circunstância que a fazia parecer mais fácil. O próprio Mercant fornecera a Klein uma indicação de suma importância.
— Preste atenção, Klein! Rhodan não poderá ser eliminado com os meios usuais. Só existe uma possibilidade: a traição. Não se preocupe com os aspectos morais, pois Rhodan também nos traiu. Você terá que romper o anteparo energético. Como fazê-lo é problema seu. Há outro detalhe: você não está só. Há agentes do bloco oriental, e também da Federação Asiática que estão lidando com o mesmo problema. Não é impossível que a tarefa comum acabe por conduzi-los a certo tipo de entendimento. Enquanto a Stardust não tiver sido destruída, os agentes da Federação Asiática e de Moscou serão seus colegas. Boa sorte!
Klein precisaria de sorte e, até aquele momento, ela não o deixara em falta. Em Kalgan, a 120 quilômetros a noroeste de Pequim, onde procurou conseguir um automóvel através de dinheiro e promessas, teve a sua atenção despertada por um chinês, que já tinha visto três vezes no mesmo dia. O rapaz observava-o; não tirava os olhos dele.
Comprou um carro capaz de trafegar em terreno difícil e providenciou mantimentos e outras provisões, uma barraca com os respectivos equipamentos e tudo o mais de que precisava para uma pequena expedição. As estradas encontravam-se em boas condições, mas estavam sendo vigiadas.
Mandou pintar no veículo, em letras enormes, umas palavras que o colocariam a salvo de qualquer suspeita: Viagem Experimental Realizada sob o Patrocínio do Exército. Seus documentos diziam que era engenheiro. Devia verificar se o veiculo se prestava ao transporte de tropas pelo deserto e pelas montanhas.
Ao sair da cidade, procurou em vão pelo chinês suspeito. Provavelmente desistira do seu intento. Por que e quais as suas intenções, Klein não sabia.
“Essa gente tem um interesse todo especial por estrangeiros”, murmurou enquanto se desviava de um veiculo que vinha em sentido contrário. “Mas não pareço tão rico assim. O que é que se poderia roubar de um engenheiro no campo?”
Pelo fim da tarde, passou pela cidade de Kwai-Hwa, indo pela estrada que seguia junto à Grande Muralha. Não podia saber que naquele mesmo instante o chefe do Serviço de Defesa da Federação Asiática, Mao Tsen, encontrava-se na longínqua Pequim, sentado diante de um receptor que lhe fornecia a localização exata do pretenso veículo experimental. O chefe do Serviço Secreto, major Butaan, estava sentado ao seu lado, sorrindo.
— O tenente Li Shai-tung é um dos meus melhores agentes — disse Butaan cheio de orgulho, como se aquilo representasse uma realização exclusivamente sua. — Logo descobriu esse americano e não o perdeu de vista. Estou curioso para ver se é correta a sua teoria, segundo a qual os outros cooperariam conosco se realmente a Stardust não fosse uma base americana, o que, a esta altura, parece bastante provável. Se o bloco ocidental dispusesse de uma arma como o raio vindo da Lua, já teríamos deixado de existir. Li foi informado de que a Stardust deve chegar às nossas mãos intacta?
— Foi devidamente instruído — confirmou Mao Tsen com um gesto comedido. Estava prestando atenção à voz fina vinda do alto-falante: — Ah, o americano resolveu prosseguir viagem. Daqui a pouco deverá chegar ao Hwang-Ho. É possível, até, que atinja a localidade de Pau-tou, a não ser que prefira passar a noite num acampamento ao ar livre.
Klein não sabia que, no quartel-general do Serviço Secreto da Federação Asiática, sua rota estava sendo traçada, com toda a precisão, em um mapa. Era como se ele transmitisse periodicamente sua posição.
Só quando parasse, ele ficaria sabendo que tinha sido acompanhado.
A lua minguante já se aproximava do horizonte sob o qual o sol se escondera. À sua esquerda, brilhavam as águas de um rio que deslizava lentamente. A estrada era ladeada por moitas de arbustos que se estendiam até a margem do rio.
Klein encontrou um espaço livre e dirigiu o carro para lá. Prosseguiu mais alguns metros até chegar a um lugar que lhe pareceu apropriado. O carro ficou abrigado entre a vegetação e as rochas, junto ao rio.
O tenente espreguiçou-se e saiu do carro. Fazia calor mas, assim mesmo, uma fogueira não seria má. Não armaria a barraca e um café quentinho lhe faria bem. Depois, estenderia algumas cobertas na parte do veículo destinada à carga e dormiria lá.
— Vamos descansar? — perguntou uma voz atrás dele num inglês horrível. — Calma! Não faça nenhum movimento precipitado, meu amigo. Estou segurando uma arma. Vire-se devagar, bem devagar.
Klein acabara de colocar alguns pedaços de lenha bem seca sobre as chamas que pareciam ávidas por se alimentarem. A luz produzida pela fogueira permitia-lhe reconhecer o rosto do seu interlocutor. Naturalmente era aquele rapaz obstinado, que já lhe despertara a atenção em Kalgan. Encontrara uma oportunidade para se esconder no interior do veículo.
Tudo isso não seria tão mau assim se o sujeito não lhe apontasse uma pesada pistola automática apoiada em um dos braços. Klein olhou para o orifício ameaçador do cano daquela arma perigosa, cujos projéteis tinham carga explosiva suficiente para danificar um carro blindado de tamanho médio.
— O que deseja? — perguntou Klein. — Para um vagabundo, seu equipamento é muito moderno. Tome cuidado, meu velho, pois este veículo é do governo.
— De que governo? — disse Li Shai-tung com um sorriso misterioso. — Do americano? Vamos, mostre logo suas cartas. Qual é a sua missão? Talvez possamos chegar a um acordo.
Klein apontou para o fogo.
— Vamos sentar?
— Está armado?
— Está interessado em um acordo ou prefere falar comigo de pistola na mão?
Li hesitou.
— Estou em situação de vantagem. Não teria dúvidas em renunciar à mesma se soubesse que você está sendo sincero. Quero que responda a uma pergunta minha. Só depois disso poderei aceitar o seu convite e confiar em você. Qual é a sua missão? Quem é o seu chefe? Conheço as respostas através das pessoas que me enviaram para cá. Se coincidirem com as suas...
Foi descendo do carro, mas continuou com a arma apontada para Klein. Este refletiu por um instante. Lembrou-se do que Mercant lhe havia dito e, subitamente percebeu que ele estava com razão: era necessário que colaborassem um com o outro.
A evolução dos acontecimentos já começava a delinear a trilha sonhada por Perry Rhodan. Era ainda muito tênue, muito insignificante, começava bem por baixo. Um dia, porém, abrangeria a Terra se os agentes não conseguissem destruir a Stardust.
— Meu chefe é Allan D. Mercant, chefe do Conselho Internacional de Defesa do Ocidente. Minha missão consiste em destruir a nave espacial Stardust. Isso basta?
Li concordou com um movimento de cabeça depois, abaixou a arma. Por uns momentos, continuou a segurá-la, indeciso; acabou atirando-a na parte traseira do veículo. Foi até a fogueira e apertou a mão de Klein, sentando-se em seguida.
O tenente engoliu em seco. O gesto representou uma reação destinada a disfarçar a admiração que nutria pelo outro. Sentou, também. Ao pé dos dois, o fogo espalhou um calor agradável. A água começou a ferver na chaleira.
— A sua missão só difere da minha em um ponto — admitiu o chinês depois de uma pausa prolongada. — Você recebeu ordens para destruir a Stardust, ao passo que eu devo evitar isso de qualquer maneira. Acredito, porém, que, oportunamente, ainda chegaremos a um acordo. No momento, nossos objetivos são idênticos: impedir que Perry Rhodan possa impor sua vontade ao mundo. Será que interpretei corretamente as suas intenções?
Klein confirmou com um gesto de cabeça.
— Nesse caso — continuou Li — poderemos colaborar um com o outro, até que Rhodan tenha sido posto fora de combate... Aquilo que virá depois ainda está muito longe. Vamos fazer um acordo. Queira formular sua proposta.
O tenente Klein nem chegou a compreender o grotesco da situação. Dois agentes que trabalhavam para potências inimigas uniam-se para eliminar o elemento mais poderoso. Ainda há poucos dias, sua rapidez no manejo da arma decidiria qual dos dois conseguiria sobreviver. Já agora tudo estava mudado. O temor infundido pela misteriosa terceira referência transformara os inimigos em amigos que se mantinham numa atitude de expectativa.
— Você me garante que não me entregará às autoridades do seu país, nem mesmo depois que tivermos atingido nosso objetivo. Em compensação, oportunamente, quando chegarmos ao local em que se encontra a Stardust, revelo-lhe como pretendo fazer para atravessar a cúpula energética. Está de acordo?
Li apertou a mão do americano.
Cinco dias depois, deixaram a rodovia na altura de Hang-Shou, e avançaram pelo deserto de Gobi, em direção ao norte. Deixaram para trás as montanhas e o rio. Dali em diante, só encontraram alguns lagos-salgados e pequenos regatos. A vegetação foi se tornando cada vez mais escassa. A paisagem refletia as características do deserto.
A cinqüenta quilômetros do destino, foram detidos por uma unidade blindada do exército asiático. Foi Li quem salvou a situação. Uma mensagem radiofônica expedida para Pequim produziu um verdadeiro milagre. Os dois agentes foram liberados com muitos pedidos de desculpas. O comandante da unidade, em meio a inúmeras mesuras, desejou êxito completo ao senhor Klein e seu amigo chinês.
A situação foi se tornando cada vez mais estranha. Até parecia nunca ter havido qualquer conflito entre o Oriente e o Ocidente. O temor do inimigo comum revelou-se capaz de cimentar uma unidade sólida até mesmo entre ideologias que se opunham ferozmente.
Ainda por duas vezes tiveram que atravessar o cordão de isolamento estabelecido pelo exército. Klein começou a indagar de si para si por que estava dirigindo aquele caminhão. Podia ter pedido que o levassem num helicóptero do exército; e era indiferente que o aparelho pertencesse à Federação Asiática, ou aos países do bloco ocidental. Mas lembrou-se de que tinha que enganar Rhodan. Se é que este fosse se deixar enganar com facilidade...