A Terceira Potência
Capítulo IX
O capitão Reginald Bell desligou o motor. Os dois reatores zumbiram mais algum tempo. Depois pararam.
— Então? — perguntou Perry. — Tudo em ordem?
— Está! E o tanque está quase cheio. Não será difícil cobrir os dois mil quilômetros até Hong Kong, desde que eu possa reabastecer no caminho. A próxima parada será em Bornéo. Depois, terei que alcançar a Austrália.
Fletcher saltou nervosamente de um pé para o outro. Nos seus olhos havia um brilho fraco. Já esquecera a Stardust, que se encontrava a apenas cem metros de distância. Só via o helicóptero que ia le‐ vá-lo de volta à civilização. Chegado lá, encontraria uma possibilidade de retornar aos Estados Unidos, onde a esposa o esperava.
Não sabia como tinha chegado ali. Só se lembrava do seu nome e do da cidade em que sua esposa morava. O hipnobloco, que Crest aplicara em torno do seu centro de memória com o auxílio do psico-irradiador, apagara quase todos os fatos anteriores. Ninguém conseguiria arrancar nada de Fletcher: era um homem que não tinha mais passado.
Rhodan o prevenira, mas Fletcher limitara-se a abanar a cabeça.
— Serei o único responsável pelo que acontecer; você não terá nada com isso. Quero voltar para junto de minha esposa. É só. E, agora, leve-me para junto de Crest.
Meia hora depois estava tudo terminado. Bell saltou para o helicóptero e acenou para Rhodan.
— Confie em mim, meu velho. Deixarei Fletcher em Hong Kong ou em Darwin. Depois, arranjarei as peças sobressalentes e o soro anti-leucêmico. Dentro de uma semana estarei de volta. Lembranças para Eric e Crest.
— Cuidado para que não o derrubem!
— Este helicóptero é do Exército. Além disso, levo comigo o neutralizador de gravidade, cujo alcance chega a dez quilômetros. Isso sem falar no irradiador manual. As outras invenções também serão úteis. Em troca delas, conseguiria continentes inteiros. Pense apenas nos pequenos geradores de energia. São do tamanho de uma caixa de charutos, mas fornecem, por um século, ininterruptamente, duzentos watts. Entre, Fletcher.
Enquanto o astrônomo se espremia por entre as caixas, na parte traseira do helicóptero, Bell se despedia do amigo.
— Desligue o anteparo energético no momento exato em que eu atingir altitude suficiente. Alguns segundos devem bastar. Depois volte a fechar a nossa quitanda. Daqui a uma semana estarei de volta. Não se preocupe. Até a volta!
Perry retornou à sala de comando da Stardust. Quando o helicóptero ganhou altitude e chegou perto do teto da cúpula energética invisível, ele empurrou uma chave durante cinco segundos. Bell já estava do lado de fora.
O helicóptero tomou rumo sul. Deslocava-se a baixa velocidade. Passou por algumas formações de carros blindados e, pouco depois, chegou à vertente oriental das montanhas de Richthofen. Tomando o rumo do sudoeste, prosseguiu a uma altitude de mil e quinhentos metros.
No fim da tarde, foi atacado sem qualquer aviso por um avião de caça.
Não sabia como explicar o incidente. Talvez alguém o tivesse visto decolar. Mas, se fosse assim, não o teriam deixado em paz por tanto tempo.
O pequeno aparelho surgiu de repente. Vinha em sentido contrário e ligeiramente para o lado. Estava girando, utilizando todo o seu poder de fogo. Os projéteis chamejantes passavam muito à esquerda, antes que o piloto pudesse corrigir a pontaria, já havia passado pelo helicóptero. Descreveu uma curva ampla e atacou pelo flanco.
Bell já conseguira dominar a surpresa. Deixou que o helicóptero seguisse o mesmo rumo, regulou o irradiador manual para meia intensidade e, depois, dirigiu-o sobre o avião que se aproximava a uma ve‐ locidade vertiginosa.
“Está na hora de mostrar o que você sabe fazer”, disse para si mesmo. Com os nervos tensos, acrescentou: “Suba. Ganhe altitude e suspenda o fogo!”.
No mesmo instante, as línguas de fogo que saíam do bojo e do bordo de ataque das asas do avião desapareceram. O caça empreendeu uma subida quase vertical.
Bell abaixou o irradiador. Lembrou-se, muito tarde, de que era necessário transmitir outra ordem ao piloto. A distância era de três, e, logo, quatro quilômetros. Não havia como vencê-la.
O caça continuou sua subida louca. E continuava a subir quando já fora do alcance visual de Bell. O combustível se esgotava. O piloto, semi-asfixiado, continuava a cumprir a ordem recebida. Subiu até que todo o combustível fosse consumido.
Por um segundo, o aparelho pareceu imóvel, depois, começou a cair. Foi descendo em parafuso até espatifar-se contra os rochedos de Tsingling Chan.
Bell sentiu-se abalado. Começava a compreender o poderio imenso que representava esse irradiador de aspecto tão inofensivo se utilizado de forma conveniente. Devia ter dado uma ordem diferente ao piloto. Mas como tomar uma decisão em uma fração de segundo?
Aterrissou num pequeno aeroporto militar perto de Chun-king. Ainda faltavam mil quilômetros para Hong Kong.
No início, ninguém lhe deu atenção. Mas, como ficasse parado e não descesse do aparelho, um jipe aproximou-se. Dele, saiu um oficial de alta patente e acercou-se do helicóptero.
— Por que não comunicou a sua chegada à torre do controle? — indagou. Quando, porém, viu o rosto de Bell, que jamais poderia ser confundido com o de um chinês, acrescentou: — Quem é o senhor?
O mínimo que Bell podia fazer era rir. Tinham lhe dito que, aqui, se sorria constantemente.
— Não entendo uma única palavra do que o senhor está dizendo — respondeu em inglês. Depois, dirigindo o irradiador sobre o oficial, prosseguiu: — Sou o marechal Roon. Preciso de combustível. Providencie. E rápido, por favor!
O motorista do jipe também fora incluído no tratamento. O oficial prestou-lhe continência e entrou no jipe que se afastou em alta velocidade.
Bell sorriu e esperou. Virou-se pára Fletcher que acompanhava tudo sem o menor interesse. Mantinha os olhos fechados.
— Coitado! — murmurou Bell.
Dali a poucos minutos, chegou um caminhão-tanque e parou perto do helicóptero. Já ia escurecendo. Ninguém se preocupou com os dois homens sentados na cabine. Uma vez cheio o tanque e colocados alguns galões extras em tanques de reserva situados no compartimento de carga, o chefe do grupo comunicou o término da operação.
Bell deu partida no motor e cumprimentou com um gesto condescendente. Ao subir para o céu vermelho, ainda chegou a ver os olhos arregalados dos chineses. Mais tarde, o verdadeiro marechal Roon jamais conseguiria explicar como o capitão Finlai, que o conhecia pessoalmente, jurou perante a Corte Marcial tê-lo visto em pessoa na Base Aérea de Chun-king. Ao que se sabia, ninguém podia estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Ou será que podia?...
Era estranho.