A Terceira Potência
Capítulo III
Depois de ter desembarcado do Stratoliner em Pequim, o major Perkins dirigiu-se a um hotel de primeira categoria. Poucos minutos depois, um dos agentes do seu país forneceu-lhe o endereço de uma firma que trabalhava para o governo. Telefonou ao procurador e combinou um encontro.
Nos documentos do agente, constava o nome Alfons Hochheimer, e a profissão de engenheiro de minas. Segundo os dados do passaporte, encontrava-se na Federação Asiática há mais de dez anos e já trabalhara várias vezes para empresas estatais de mineração.
Na sala de recepção da empresa, decorada em estilo ultramoderno, um chinês trajado à européia recebeu-o com um sorriso imperscrutável.
— É o senhor Hochheimer, não? Meu nome é Yen-Fu. Posso lhe ser útil em alguma coisa?
— Tive conhecimento de que sua firma participa da exploração de regiões economicamente pouco interessantes — disse Perkins, enquanto apertava a mão que o outro lhe estendia. — Já tive oportunidade de pesquisar trechos extensos do deserto de Gobi, a serviço de outras empresas. Conheço um lugar em que há possibilidade de se encontrar urânio, desde que as pesquisas alcancem uma profundidade suficiente.
O sorriso de Yen-Fu tornou-se ainda mais intenso.
— Urânio no deserto de Gobi? O senhor deve estar enganado! Já enviamos várias expedições para lá, mas nenhuma delas teve êxito.
A essa altura, também no rosto de Perkins via-se um sorriso misterioso.
— Acontece que os participantes das suas expedições não possuíam os instrumentos de busca de que disponho, senhor Yen-Fu. Já ouviu falar na sonda de Spielmann?
O chinês sacudiu a cabeça.
— Não. Para ser sincero, nunca ouvi falar. Perkins não se admirou com a resposta. Acabara de inventar o nome.
— É lamentável, senhor Yen-Fu, muito lamentável. Spielmann é um dos cientistas mais conceituados do mundo ocidental. As grandes descobertas de urânio no continente americano foram devidas ao seu invento. Disponho de um dos seus modelos mais recentes.
Apesar do terno sorriso, o rosto do chinês passou a revelar uma certa dose de desconfiança.
— Não é americano?
— Não, sou alemão. Mas encontro-me na Federação Asiática há mais de dez anos. Aqui estão os meus documentos. Espero que os mesmos o convençam da sinceridade da minha proposta.
O procurador examinou cuidadosamente aqueles documentos. Falsificados com perfeição extrema. Não encontrou nada de anormal, e devolveu-os a Perkins.
— Sabe onde se poderia encontrar urânio no deserto?
Perkins confirmou com um aceno de cabeça.
— Existe quantidade suficiente para abastecer vinte usinas por cem anos. É claro que o material também pode servir para outra coisa — disse com um sorriso significativo.
— Queira esperar.
Perkins esperou. Mas não o deixaram esperar por muito tempo. Falou com o diretor da firma. Depois com um funcionário categorizado do governo. Finalmente falou com o piloto do avião que devia levá-lo juntamente com os membros da comissão à região em que se encontravam as pretensas jazidas de urânio.
— O senhor traz consigo essa sonda? — perguntou Yen-Fu curioso. — Ela permite a leitura imediata dos resultados?
Perkins lembrou-se da caixinha metálica bem concebida. No seu interior havia uma bateria e alguns fios, e do lado de fora várias escalas e botões. Confirmou com um aceno de cabeça.
— É claro que sim. Não viria a sua presença sem o equipamento necessário. Quando partimos?
— Daqui a uma hora, se estiver de acordo. Ainda estamos aguardando a confirmação definitiva da repartição competente.
“Tomara que isso acabe bem!”, pensou Perkins. Mas dificilmente conseguiriam descobrir sua verdadeira identidade, pois seus documentos eram melhores que os de qualquer chinês. Todavia...
Perkins tomou um refrigerante no café situado do outro lado da rua. Deu algumas moedas a um mendigo, que lhe queixou suas mágoas com voz rouca e estridente, afirmando que tinha filhos menores para sustentar. O homem fez várias mesuras e, subitamente, entremeou seus agradecimentos com algumas palavras bem mais sugestivas.
— Não conhece mais os amigos, meu velho? Por que será que Mercant resolveu enviar justamente você? O representante do governo que viajará no avião é um dos nossos. Trate-o bem. Oh, pai dos justos, exemplo celestial de misericórdia humana, receba mil agradecimentos pelo seu gesto bondoso. Meus filhos pedirão pelo senhor junto aos antepassados. Que os deuses da fecundação abençoem o senhor, que dispensou a um indigno como eu a graça de poder beijar seus pés...
Perkins piscou para o mendigo. Depois virou-se com um gesto de desprezo. Atirou uma moeda sobre a mesa e saiu do café.
O avião era um pequeno jato particular. Além do piloto viajavam um representante do governo, um engenheiro e Perkins. O luxo da pequena cabine indicava que o aparelho se destinava a finalidades especiais. Era dotado de deslizadores que permitiam o pouso em terreno irregular e mesmo na água, pois os flutuadores esguios impediriam seu afundamento.
As turbinas uivaram, mas o ruído foi se tornando praticamente imperceptível à medida que o avião ganhava altitude.
Abaixo deles, Pequim foi desaparecendo. O aparelho tomou o rumo oeste. As planícies férteis foram ficando para trás. Surgiram as primeiras montanhas e, depois, o deserto cinzento e tórrido.
O representante do governo inclinou-se para frente e bateu no ombro do engenheiro que estava sentado perto de Perkins.
— Onde fica a região, Lan-Yu?
— A leste de Sutschou, nas proximidades do lago salgado de Goshun. Mais ou menos no lugar em que teria descido a nave espacial americana.
— São boatos — disse o engenheiro. Virou-se e sorriu. — O senhor não acha?
— É claro que são boatos.
Com cerca de hora e meia de vôo, já tinham percorrido cerca de 1.300 quilômetros. Foi quando o piloto abriu a portinha minúscula que dava para a cabine e disse:
— A Diretoria de Controle de Vôo de Pequim acaba de dar ordem para regressar imediatamente. É proibido sobrevoar a área que fica situada entre Ordos, Schan-Si, a serra de Nan-Schan e Ning-Hsia. O lago de Goshun fica exatamente no centro dessa área. Não informaram o motivo da proibição.
Lan-Yu lançou um olhar em direção ao representante do governo.
— O que significa isso? Pois o senhor obteve autorização do governo para acompanhar-nos neste vôo. E devia saber que...
— Prossiga e desligue o equipamento de rádio — ordenou o representante do governo. — Não siga as instruções.
— Tenho de deixar o receptor ligado por causa das comunicações sobre o tempo. Além disso sou obrigado a transmitir nossa posição de cinco em cinco minutos.
O representante do governo olhou para Perkins. Este deu um aceno de cabeça quase imperceptível e colocou a mão no bolso do casaco.
— Desligue o equipamento — voltou a ordenar o comissário. — Peço-lhe encarecidamente que daqui por diante se atenha estritamente às minhas instruções. Se não o fizer, as conseqüências correrão por sua conta. Não se esqueça que represento o governo. Desça junto ao lago de Goshun. Quanto tempo ainda levará para chegar lá?
O piloto hesitou por um instante. Depois lançou um olhar para o painel de instrumentos: — Dez minutos — respondeu.
— Daqui a oito minutos deveremos iniciar a manobra para aterrissagem. Até lá nada de mudanças de rumo. Entendido?
— A responsabilidade será sua — disse o piloto, enquanto confirmava com um movimento de cabeça, e desapareceu.
O engenheiro Lan-Yu acompanhara o diálogo sem dizer uma palavra. O sorriso desaparecera do seu rosto. Seus olhos oblíquos estreitaram-se ainda mais. Percebeu que Perkins, ou melhor, Alfons Hochheimer ainda estava com a mão no bolso.
— Por que não segue as instruções do governo? — perguntou, falando devagar. — Não vamos criar problemas? A proibição deve estar relacionada com a nave espacial pousada na área.
— Não tenho a menor dúvida — disse o representante do governo. — Mas não se preocupe. Sei perfeitamente o que estou fazendo.
— Para mim nada importa desde que encontremos o urânio — disse Lan-Yu. Passou os olhos pela impressionante caixinha metálica que se encontrava no assento vago junto a Perkins. O aspecto da mesma era tão impressionante que convencera o chefe da firma. — Só faço votos de que realmente o encontremos.
Dali a cinco minutos o piloto voltou a aparecer.
— Temos um avião da Força Aérea à nossa frente. Está dando ordem para regressarmos.
— Como é que o senhor vai saber disso, se não mantém qualquer comunicação com eles?
— Tiros de advertência! — disse o piloto em tom seco. Aparentemente ele não conhecia o medo.
— Ligue o aparelho de rádio. Irei até aí.
O representante do governo lançou um olhar significativo para Perkins. Depois, foi à carlinga apertada, fechando a porta atrás de si.
Perkins tirou a pistola automática do bolso e apontou-a para Lan-Yu.
— Por acaso tem uma arma?
O engenheiro quase chegou a engasgar de susto. Arregalou tanto os olhos que eles quase ficaram redondos. Sacudiu a cabeça, enquanto fitava o orifício negro do cano da arma.
— O que deseja que eu faça? — balbuciou.
— Quero que fique bem quietinho, com a boca fechada. Se fizer de conta que nem existe, poderá sair são e salvo desta aventura. Senão...
O silêncio significativo deixou a alternativa em aberto.
— Mas, o senhor sozinho não vai conseguir...
— Não estou só. E agora não diga mais uma única palavra. Devemos aterrissar daqui a pouco.
Na verdade, o avião começou a descer. O avião militar se afastara, depois de trocadas algumas mensagens radiofônicas. Atravessaram a barreira aérea da Federação Asiática e passaram bem baixo por cima de algumas formações de tanques que recuavam. Subitamente, avistaram a Stardust bem à frente, junto à desembocadura do Morin-Gol.
A nave espacial parecia solitária e abandonada.
Não se via qualquer sinal de vida perto dela. Apenas, bem alto, um pontinho minúsculo destacava-se contra o céu azul. Descrevia círculos como se fosse uma ave de rapina que, a qualquer momento, precipitar-se-ia sobre sua vítima.
Nem Perkins nem o outro agente que se encontrava em sua companhia sabiam que esse ponto minúsculo era um bombardeiro da Federação Asiática levando uma bomba atômica que seria lançada contra a nave.
— Onde vamos aterrissar? — perguntou o piloto. O representante do governo, que era um dos membros mais competentes do serviço de espionagem ocidental, apontou para o lado.
—Ali no deserto, perto da nave espacial. Faça o avião parar a menos de cem metros da Stardust. Entendido?
O piloto confirmou com um movimento de cabeça. Descreveu uma curva bem ampla e preparou-se para aterrissar. O aparelho foi descendo sobre o deserto. A altitude não ultrapassava algumas centenas de metros. A distância que os separava do ponto em que se encontrava a nave foi diminuindo vertiginosamente. Faltavam poucos quilômetros...
Nesse meio tempo, a bomba lançada pelo outro avião foi caindo. O pontinho minúsculo parou de descrever círculos e foi se afastando em linha reta. Portanto, havia dois objetos que se aproximavam da Stardust.
Perkins foi à carlinga, depois de ter amarrado Lan-Yu na sua poltrona. O avião deslizou pelo solo pedregoso em velocidade vertiginosa. Quando se encontrava a pouco mais de dois quilômetros da Stardust, um segundo sol surgiu repentinamente dois mil metros acima da nave. O cogumelo atômico chamejante, que se ergueu a pouquíssima distância e cujos gases incandescentes deslizaram pela cúpula invisível, cegou seis pares de olhos.
Ainda chegaram a sentir o choque produzido pelo embate contra o anteparo energético.
Depois, não houve mais nada...