A Terceira Potência

Clark Darlton · Capítulo 14 de 17

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A Terceira Potência

Capítulo XIII

 

O tenente Klein parou diante da barreira invisível.

Suas mãos sentiram o obstáculo, mas seus olhos não o viram. Dois mil metros além dele estava a Stardust, símbolo do orgulho e da esperança frustrada do mundo ocidental. Já agora transformara-se no pavor de toda a humanidade.

Uma figura solitária veio ao seu encontro. Era o major Rhodan, que já conhecia de numerosos filmes. Parou a menos de dois metros. Tinha lápis e papel na mão.

— O que deseja? Quem é o senhor? — estava escrito no papel.

Klein nem se lembrara disso. Se o anteparo energético detinha uma explosão atômica, evidentemente não deixaria passar as ondas sonoras. Revirou os bolsos; acabou encontrando lápis e papel. Pelo menos havia possibilidade de comunicar-se.

— Sou o tenente Klein. Vim por ordem de Mercant e Pounder, para negociar com o senhor.

Perry Rhodan sorriu e escreveu:

— Tire a roupa. Depois disso suspenderei o anteparo por alguns segundos.

— Tirar a roupa?

— Sim. Para que não possa trazer nenhuma arma.

Klein olhou instintivamente para os lados, mas não viu ninguém. É verdade que Li e Kosnow, escondidos atrás das moitas, de outro lado do rio, arregalariam os olhos. Mas isso pouco lhe importava. O importante era atravessar o anteparo, façanha que até então ninguém conseguira realizar. Tirou a roupa e empilhou-a cuidadosamente.

Perry acenou com a cabeça. Levantou o braço direito e fez um sinal em direção à nave. Subitamente, Klein ouviu sua voz.

— Venha depressa. Chegue perto de mim. Sentiu que o ar quente e o frio se misturaram quando a cúpula energética foi levantada. Logo chegou perto de Perry.

No mesmo instante o vento cessou por completo. A cúpula invisível voltara a cobrir a nave. Estava isolada do resto do mundo.

— Quer dizer que Pounder o mandou? — disse Perry, enquanto lhe apertava a mão. — Já imaginava que um dia o velho me mandaria um mensageiro. Como conseguiu atravessar o território inimigo?

— Não foi difícil — confessou Klein. — A vigilância diminuiu muito.

— Será? — disse Perry em tom de dúvida. — Venha, empresto-lhe uma calça.

Foram andando devagar em direção à Stardust.

Klein sentia uma simpatia inexplicável pelo homem que se encontrava ao seu lado. Recebera ordem de matá-lo de qualquer maneira, se não quisesse submeter-se às ordens de Mercant. No momento, nem se podia pensar nisso. Dificilmente conseguiria mata-lo com as mãos desarmadas. E como faria para destruir a Stardust? Sabia da carga explosiva existente a bordo da mesma. Mas ainda havia três homens além de Rhodan. Não seria fácil, mesmo que quisesse.

Será que queria?

Sentaram numa pedra lisa que ficava perto da nave.

— Agora fale com franqueza, tenente Klein. Qual foi a ordem que recebeu? O que mandam dizer? Foi realmente Pounder que o mandou?

O agente sacudiu a cabeça.

— Não foi o próprio Pounder. Pertenço ao Conselho Internacional de Defesa, dirigido por Mercant. Recebi ordem para convencê-lo a abandonar a Stardust e acompanhar-me para Nevada Fields. Caso se recuse, devo matá-lo e destruir a nave.

Perry gritou algumas palavras para Manoli, que apontou na escotilha. O médico trouxe uma calça de uniforme. Klein vestiu-a.

— Este é o Dr. Manoli. O tenente Klein, do Conselho Internacional de Defesa. Fique com Crest, Eric. Diga-lhe que temos visita.

Esperou até que o médico desaparecesse. Depois respondeu às palavras de Klein.

— Então suas ordens são estas? Por que me contou?

— Porque confio em você, Rhodan. E porque nestes últimos dias passei por alguma coisa que me abalou.

— O que foi?

— Daqui a pouco contarei, Rhodan. Antes disso responda a uma pergunta minha.

— As perguntas e as respostas surgem espontaneamente no curso da nossa palestra. Você responde, eu respondo, e o quadro vai se traçando por si. O general Pounder ficou muito decepcionado comigo?

— Ficou. Não compreende os motivos que o fizeram agir assim. Mas procura compreender, enquanto a opinião de Mercant é inabalável. Para ele, você é um traidor.

— Para Pounder, não? E para você? Qual é a sua opinião?

— Você é um traidor aos olhos de Mercant, e talvez aos olhos da maior parte dos homens do Ocidente. Na opinião dessas pessoas, devia ter entregue ao seu país as invenções que descobriu na Lua. Isso seria de justiça até mesmo do ponto de vista econômico, pois você nunca teria chegado à Lua sem os recursos financeiros proporcionados pelos Estados Unidos. No entanto, pode haver motivos que invalidem todas as leis morais. Mas esses motivos teriam de ser muito sérios.

— Os meus motivos são sérios — disse Perry decidido. — Minha consciência e meu senso lógico não me permitem entregar a uma potência terrena os imensos recursos tecnológicos que descobri na Lua. Qual seria a conseqüência disso, tenente Klein? Pense bem antes de responder.

— Não há muito que pensar. Antes que os Estados Unidos, acho que é o país de que teríamos de cogitar em primeiro lugar, tivessem tempo de experimentar as novas armas, o medo e o pânico fariam com que os outros países disparassem seus foguetes atômicos. A guerra e o extermínio total dela decorrente seriam inevitáveis. Já compreendi onde pretende chegar, major Rhodan. Será que os outros também compreenderão?

— Terão de compreender! — retrucou Perry em tom áspero. Seus olhos exprimiam uma decisão inabalável. — O que está em jogo é muito mais que a manutenção da paz. Como sabe, encontramos uma tecnologia estranha na Lua. O que o senhor não sabe é que os criadores dessa tecnologia, os arcônidas, ainda vivem. Um dos seus cientistas encontra-se a bordo da Stardust.

Klein precisou de um minuto inteiro para recuperar-se do espanto.

— Não estão extintos? Ainda vivem? E podem fabricar maior quantidade dessas armas, se desejarem?

— Não apenas armas, mas também coisas úteis: fontes de energia inesgotáveis em forma de geradores portáteis, veículos movidos com as mesmas, navios, aeronaves de transporte, espaçonaves. Poderia prosseguir indefinidamente na enumeração. Provavelmente agora já compreende por que me vi obrigado a pousar aqui, e por que tenho de repelir toda e qualquer pessoa que queira chegar aqui. Você é a primeira exceção.

— Por quê?

— Porque vem da parte de Mercant e de Pounder. Prezo bastante esses homens, e gostaria que compreendessem os meus motivos. Tenente Klein, você só estará em condições de explicar os meus motivos aos outros se chegar a compreendê-los por si. Não os explicarei.

Klein sorriu.

— Compreendo. Até compreendo muito bem. E acredito que sei onde o senhor pretende chegar. Ali junto ao rio, do outro lado do anteparo energético, dois colegas estão esperando por mim. Não são americanos ou europeus ocidentais. Um é agente da Federação Asiática e outro do bloco oriental. Unimo-nos para solucionar um problema comum. Há poucos dias a irrupção da guerra parecia iminente. Hoje os inimigos mortais de ontem estão colaborando entre si, para combater um poder mais forte.

Perry acenou com a cabeça e retribuiu o sorriso.

— Muito bem. Continue. Parece que já nos entendemos.

— Não tenho mais nada a dizer. Absolutamente nada. Apenas gostaria que você confirmasse que este acontecimento relativamente insignificante constitui o início da grande transformação que tem em mente.

— É isso mesmo. Posso representar uma ameaça séria para o mundo, mas não para a paz duvidosa que reina no mesmo. O medo de mim e do poder dos arcônidas unirá os povos do mundo. Uma vez realizada essa união, nada impedirá a entrega da tecnologia galáctica a um governo mundial estável. Tenente Klein, peço-lhe que relate isto a Mercant e ao general Pounder. Agora gostaria de apresentar-lhe meu hóspede, o arcônida Crest. Peço-lhe que me acompanhe ao interior da nave.

Duas horas depois, quando o tenente Klein voltou a encontrar-se com os dois colegas que o esperavam à margem do rio, nada poderia modificar a decisão que tomara. Era o primeiro homem disposto a lutar pela idéia de Perry Rhodan, idéia essa que constituiria a base moral do futuro Império Estelar.

— Então? — perguntou Kosnow e levantou-se.

— O que aconteceu? — indagou Li.

Klein ficou andando entre os dois. À sua esquerda o russo avançava a passos vigorosos, levantando pequenas nuvens de pó com as botas. À sua direita, Li, o chinês, andava a passos saltitantes. Nos seus olhos lia-se a desconfiança.

— Conte logo, tenente. Conseguiu alguma coisa? — Klein confirmou com um aceno de cabeça.

— Consegui praticamente tudo. Minha missão está finda. E acredito que a de vocês também esteja. Explicarei por quê. Li, acho que somos bons companheiros, não somos? Compreendemo-nos muito bem. Kosnow, você acha que seríamos capazes de matar-nos uns aos outros só por termos idéias diferentes sobre determinados assuntos? Estão sacudindo a cabeça. Tanto melhor! Vocês sabem dizer o que aconteceria se essa nave espacial deixasse de existir juntamente com as invenções fabulosas trazidas da Lua? Ou se caísse nas mãos de qualquer das grandes potências?

Nenhum dos dois respondeu.

— Pois eu lhes digo. No mesmo instante apontaríamos as armas uns para os outros. Voltaríamos a ser inimigos ferrenhos. E isso apenas porque a ameaça maior deixou de existir. Isso que aconteceria conosco também aconteceria aos governos das grandes potências. O fim da Stardust seria o fim da paz. Compreenderam? Enquanto a terceira potência, a potência dos arcônidas, estiver por aqui, o nosso mundo continuará a existir. A nós três foi dada a chance de conservar a paz mundial. Para isso teremos de retornar aos nossos países e comunicar que é impossível alcançar a Stardust. Dessa forma continuaremos amigos, e as potências que representamos também continuarão.

Li esboçou um sorriso imperscrutável.

— Há seis dias já me ocorreu uma idéia semelhante, mas não tive coragem de exprimi-la. Hoje digo que concordo com o que você acaba de dizer.

Klein e o chinês lançaram um olhar de expectativa para o russo. Kosnow ficou parado. Retribuiu o olhar dos companheiros.

— Acredito que no mar Negro a extração do sal será mais rendosa que aqui. Mudaremos de acampamento.

Os três riram. Depois apertaram-se as mãos.

A cidade de Hong Kong parecia um acampamento militar quando o iate Zéfiro entrou no porto.

Bell desligara o neutralizador, mas ficou com ele ao alcance da mão; queria estar prevenido no caso de um ataque. Haggard instruíra a.tripulação no sentido “de atracar”. Os dois homens estavam de pé na proa!

— A situação parece um pouco crítica — murmurou o médico num tom de ceticismo. — Como poderemos desembarcar sem que nos peguem? O mundo inteiro já sabe que estamos aqui.

— E daí? — Bell mostrou-se espantado. Estava brincando com o psico-irradiador. — Com este aparelho posso fazer a cidade inteira mergulhar num sono bem profundo. Poderei transmitir uma ordem a qualquer habitante da cidade, inclusive aos soldados, e a ordem será cumprida à risca. Não vejo nenhum motivo para preocupações. Ainda mais que aqui não é possível utilizar armas atômicas táticas, que são as únicas que poderiam representar um perigo para nós.

— Como vai fazer para descarregar o meu laboratório? Como pretende transportar as peças sobressalentes até o deserto de Gobi?

— Com o tempo encontramos um meio — tranquilizou-o Bell. — Faremos com que o administrador do porto venha até aqui assim que atracarmos. Por que resolveu trazer seu laboratório gigante? Ainda não tive tempo de lhe fazer esta pergunta.

— Laboratório gigante? Trata-se de um pequeno laboratório transportável, dotado do equipamento mais moderno, como instrumentos óticos, aparelhos de análise de metabolismo e amostras de medicamentos de toda espécie. Não se esqueça de que teremos de lidar com um ser biologicamente diferente, que provavelmente reagirá de forma diferente de nós. Também existe um aparelho de raios X, e...

— E eu que pensava que tudo ficaria resolvido com uma seringa e algumas ampolas de soro — disse Bell com um suspiro.

— É engano, meu caro Bell. Mas olhe os tanques parados ali no cais. Estão esperando a oportunidade de afundar o nosso iate.

— Que nada! Se quisessem, já teriam tentado. Sabem muito bem que, se o fizerem, eu os mando para os ares, no sentido literal da palavra. Muito bem. Estamos atracados. E agora vou usar minha varinha mágica.

Dirigiu o irradiador com meia intensidade sobre o edifício baixo que ficava junto ao cais e pensou intensamente:

“O administrador do porto deve comparecer imediatamente ao pier número sete. Administrador do porto no pier número sete. Urgente. Suba a bordo do iate Zéfiro.”

Provavelmente Bell estouraria de rir, se visse o que fez com sua ordem mental. No entanto, não pôde presenciar o espetáculo. No edifício da administração do porto trabalhavam cerca de duzentas pessoas. De repente todas elas se sentiram na obrigação de avisar o administrador de que devia comparecer imediatamente ao píer número sete, onde o iate Zéfiro esperava por ele. O administrador que, seguindo a ordem interior, já se pusera a caminho, teve de conter todo o funcionalismo, que se interpunha no caminho, para dar o aviso.

— Já sei, já sei — disse em voz alta, para que todos ouvissem. Correu para o cais, onde teve de abrir caminho entre uma multidão de trabalhadores do porto, que o assediavam para avisá-lo de que devia comparecer imediatamente ao píer número sete, onde um iate...

Chegou esbaforido ao local em que se encontrava o iate. No caminho o comandante das forças blindadas reunira-se a ele em silêncio. Subiram juntos no estreito passadiço.

Bell deixara ligado o psico-irradiador, colocando-o num lugar de onde alcançava o píer e o convés. Não podia ser visto, mas produzia seus efeitos.

Haggard não conseguiu disfarçar o nervosismo. Bell, todavia, recebeu os visitantes sem o menor constrangimento.

— Fico muito satisfeito com a sua visita — disse em tom convicto. — E agradeço pela parada formidável que fizeram realizar em minha ordem. Não havia necessidade disso. Senhor administrador, dentro de duas horas preciso de vinte trabalhadores para descarregar o iate. Quer tomar as providências necessárias? Obrigado. Pode retirar-se.

O administrador fez uma ligeira mesura e retirou-se. O oficial das forças blindadas ficou parado. Parecia estar esperando alguma coisa.

— Quem está comandando as tropas mobilizadas em Hong Kong? — perguntou Bell.

— O marechal Roon.

— Roon? Não é aquele oficial que subiu ao ar com tanta pompa quando Perry ligou o neutralizador? É claro que é ele! Este helicóptero é dele. Podia aproveitar a oportunidade para vir buscá-lo.

— Perfeitamente. Avisarei imediatamente o marechal Roon.

Dez minutos depois um grupo de oficiais de patente elevada passou pelo píer estreito, vindo do cais. Viam-se luzir as faixas douradas. Devia ser o marechal Roon.

O psico-irradiador estava escondido por baixo de uma amarra enrolada. Sua ação atingia todo o grupo, mas ninguém perceberia seus efeitos enquanto alguém não dirigisse a palavra a Bell.

Depois de confabular ligeiramente, Roon subiu a bordo acompanhado de dois oficiais. Já se esquecera do que o tinha trazido até aqui. Só se guiava pela ordem de que sua mente tinha tomado consciência.

Bell projetou o peito para a frente, o que conferiu linhas mais arredondadas ao corpo. Os cabelos cortados rente estavam de pé. Colocou a mão na boina.

— É o marechal Roon? Fico satisfeito em ver que compareceu tão depressa. Senhores oficiais, dou-lhes as boas-vindas a bordo do Zéfiro. Marechal, permite que lhe pergunte se apreciou aquela viagem aérea? Deve estar lembrado. A Stardust, o deserto de Gobi. Um certo major Butaan também se encontrava presente.

— É claro que me lembro. Foi um fenômeno estranho. Uma invenção dos demônios brancos. Além disso, roubaram meu helicóptero. Se não me engano o senhor é o capitão Reginald Bell. Devo intimá-lo para que se renda.

— Mas, marechal, logo nós que somos tão amigos; só pode estar brincando. Eu lhe devolvo o helicóptero e damos o incidente por encerrado. Está de acordo?

— De acordo! — respondeu Roon sem a menor hesitação.

— Além disso, o senhor vai retirar suas tropas de Hong Kong, e expedirá uma ordem ao exército. A Stardust não mais será atacada. O senhor ainda assegurará livre transito e dispensa toda proteção ao comboio de transporte dirigido por Reginald Bell. Entendido?

— Entendido.

— Muito bem. Providencie para que dentro de uma hora estejam aqui três caminhões. Um deles será ocupado pelo senhor juntamente com dez oficiais de alta patente. Levem cobertores ou sacos de dormir. Os outros deverão estar vazios pois transportarão a carga. Certo?

O marechal Roon prestou continência para Bell.

— As ordens serão executadas. Mais alguma coisa?

— Sim, marechal. Desautorize qualquer ordem que tenham em vista um ataque contra a Stardust ou seus tripulantes. Expeça as respectivas instruções aos seus escalões inferiores.

Roon ficou em posição de sentido. Deu meia-volta e saiu do iate. Chegando ao píer, os outros oficiais começaram a falar-lhe com insistência. Roon, porém, berrou com eles de tal forma que encolheram a cabeça e ficaram quietos. Afinal, o marechal era ele; devia saber o que estava fazendo.

E Roon sabia.

Finalmente, Haggard conseguiu fechar a boca.

— É formidável! — principiou, mas Bell interrompeu-o.

— O senhor ficará muito mais admirado quando falar com Crest. Eu lhe disse que conseguiríamos.

Ficaram aguardando com toda a calma. Viram os tanques se reunirem perto do cais e começarem a se afastar em direção a leste da cidade. As tropas de infantaria começaram a se retirar, também. Apenas o pessoal da polícia hesitou e, por isso, Bell não teve contemplação. Pegou o psico-irradiador e ordenou:

— Atenção todos os membros da polícia, inclusive serviço secreto, deitem-se todos!

Ficou espantado ao ver quantas pessoas se deitaram. Até mesmo respeitáveis senhores de idade que pareciam passear para espantar o tédio atiraram-se desassombradamente na lama da rua. Trabalhadores aparentemente inofensivos e vários pescadores fizeram a mesma coisa. Evidentemente também foram acompanhados por policiais uniformizados.

— Arrastar-se! — ordenou Bell numa alegria incontida. Jurou que nunca mais largaria o psico-irradiador. — Arrastar-se até o alojamento.

Bandos ruidosos de crianças acompanhavam os temíveis policiais que se arrastavam colados ao chão. Ninguém sabia explicar o fato, mas todos achavam que era perfeitamente natural. É que todos tinham compreendido a ordem, embora não soubessem de onde tinha vindo. Mas quem não pertencesse à polícia não era atingido por ela.

A zona portuária ficou literalmente deserta.

Depois de algum tempo, chegaram cerca de vinte trabalhadores e os três caminhões. Dois oficiais estavam sentados na carroçaria do último deles, numa atitude de expectativa.

— Fiquem quietos aguardando novas ordens. Os senhores formarão a escolta do comboio. Rechaçarão qualquer ataque com suas pistolas. É só.

O transbordo da carga não levou muito tempo. Dali a uma hora estava tudo pronto. O iate suspendeu âncoras e foi deslizando mar afora. Bell desejou-lhe um feliz regresso.

Ele mesmo tomou o lugar na cabine do primeiro caminhão. Haggard foi no segundo, que transportava seu precioso laboratório. O comboio pôs-se em movimento e saiu sacolejando pela rua esburacada. Só na periferia da cidade as condições da pista de rolamento começaram a melhorar; aumentaram a velocidade. Não se via nenhum soldado, nenhum policial.

Em Cantão, atingiram a larga e bem asfaltada rodovia que, numa extensão de dois mil quilômetros, ligava aquela cidade a Lan-Shou. Dali em diante, teriam que rumar para o norte, passando pelo vale do Hwang-Ho e pela cordilheira de Alaschan. Chegando à altura do meridiano 38, penetrariam no deserto, seguindo em direção ao oeste. Se tudo corresse bem, a viagem demoraria cerca de três dias.