A Terceira Potência

Clark Darlton · Capítulo 7 de 17

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A Terceira Potência

Capítulo VI

 

Crest estava sentado na cama, recostado na parede forrada de almofadas. Manoli aplicara uma injeção em Fletcher que estava, agora, mergulhado em um sono profundo. Bell encontrava-se na central em companhia do médico, acompanhando as transmissões radiofônicas. De meia em meia hora informava Rhodan do que acontecia no mundo.

Aos poucos, Crest compreendeu as conseqüências que sua presença na Terra desencadeara entre os homens, embora estes nem tivessem conhecimento dele. Com um ar pensativo e preocupado, disse:

— Rhodan, não compreendo como seu povo consegue resistir a esta tensão psicológica. Pelo que você diz há decênios que seu mundo vive sob esta atmosfera de suspense. Basta que alguém aperte um botão para que a destruição seja lançada sobre a Terra. Por que não houve, ainda, quem se erguesse contra este estado de coisas? Por que não se formou um governo comum que reunisse todos os arsenais para usá-los na defesa contra o possível ataque de um agressor extraterreno?

Rhodan suspirou.

— Não há nenhuma resposta válida à sua pergunta, Crest. Se houvesse, não viveríamos constantemente entre a vida e a morte. Talvez nenhuma resposta seja possível enquanto a humanidade estiver convencida de constituir a única força deste sistema solar. Só tememos algo que seja mais poderoso que nós. Os dois blocos mais poderosos da Terra se equivalem em força e poder. O terceiro bloco desempenha um papel secundário. Todo mundo sabe que no caso da irrupção de uma guerra, os segundos serão decisivos. Mas todo mundo sabe, também, que aquele que for surpreendido pelo ataque, terá tempo ainda para disparar os foguetes de retaliação antes que o país mergulhe nos escombros e nas cinzas. A conseqüência inevitável será a morte de ambos os adversários. Só o conhecimento deste fato tem evitado a catástrofe.

— Começo a compreender o problema. Quando minha civilização ainda era jovem, defrontou-se com as mesmas dificuldades. Viveram mais de duzentos anos sob o medo constante do aniquilamento total. Foi quando uma população de insetos guerreiros vinda dos confins da Via Láctea nos descobriu e desfechou um ataque contra nós. Em menos de meia hora, os governos se uniram e derrotaram o inimigo comum. Como o perigo continuasse, a aliança foi mantida. Foi assim que nos tornamos um povo unido e iniciamos a ascensão.

Perry Rhodan concordou com um aceno de cabeça. Seus olhos reluziam.

— É a primeira vez que ouço essa história, mas, apesar disso, ela não constitui novidade para mim. É a única solução lógica dos problemas que surgem quando um grupo de seres inteligentes descobre as armas definitivas. A esta altura já deve compreender por que tenho que agir da forma como estou agindo. Não é nada agradável ser apontado como traidor pelos amigos e superiores hierárquicos. Mas se me deixar levar pelos sentimentos, o mundo estará perdido. Um dos blocos poderia se apossar das armas e destruiria o outro. Todavia, antes que conseguisse fazê-lo, o outro poderia desencadear a ação suicida. Não, Crest, vejo perfeitamente o caminho que devo percorrer. Seu problema é a resposta às minhas indagações. Você quer recuperar a saúde. Vou ajudá-lo. Precisa de sobressalentes eletrônicos. Vou consegui-los. Sua nave poderá decolar em busca do planeta da vida eterna. É possível que acabe se esquecendo de nós. Mas aproveitarei a sua curta presença aqui para trazer a paz à Terra, a paz pela força. De outra forma não é possível. Só o medo de uma potência ainda maior fará com que as potências do nosso planeta recuperem a razão. Acredito que poderei contar com a sua ajuda.

— Farei o que estiver ao meu alcance. Mas, por enquanto, não parece que sua atuação esteja sendo coroada de êxito. Falta pouco para expirar o prazo do ultimato. E depois?

— Thora terá de intervir. O antepara energético e o neutralizador da gravidade não foram suficientes para convencer os asiáticos de que se defrontam com formidáveis inventos extraterrenos. E o meu pessoal do ocidente acredita que tudo não passa de um blefe. Portanto, é necessário que aconteça alguma coisa que deixe patente para todos os interessados o poderio imenso da terceira potência. Sua nave está estacionada na Lua. O que pode ser feito de lá para que toda a humanidade fique ciente do perigo que paira sobre ela? Não seria possível erguer o rochedo de Gibraltar e fazer com que o mesmo caia no mar a mil quilômetros de distância? Ou transferir a Estátua da Liberdade de Nova Iorque para Pequim? Quem sabe se poderia paralisar todas as comunicações radiofônicas do mundo?

— Poderíamos fazer tudo isso e, provavelmente, seria conveniente dar uma demonstração bem visível aos homens. Pense no assunto e avise-me da sua decisão. Thora fará aquilo que eu lhe pedir. De minha parte sugiro a utilização de um raio energético. Escolha uma região não muito afastada, mas despovoada. Previna os homens. Avise-os de que dentro de duas horas, isto é, três horas antes do término do ultimato, queimará as areias do deserto, produzindo um funil de cinqüenta quilômetros de diâmetro. Previna-os que se não agirem de acordo com os seus desejos, o raio será dirigido contra zonas habitadas. Acho que isso bastará para convencê-los.

Um sorriso se esboçou no rosto de Rhodan. A insensibilidade aparente, porém, ocultava uma preocupação sincera com o futuro da espécie humana. Sabia que não havia nenhum argumento que pudesse incutir bom senso na mente dos guardiões das ideologias. Só um choque seria capaz de tanto. Estava disposto a aplicar a terapia de choque no mundo.

— Acredito que sim — respondeu. — Acha que Thora está disposta a nos ajudar?

— É obrigada a ajudar, quer queira, quer não. O seu orgulho diante de uma raça inferior é tamanho que a faz esquecer de que também já atravessamos este estágio: os estágios de evolução de D a A. Talvez tenha sido a época em que nossa civilização foi mais produtiva. Éramos jovens e ativos. Amávamos o progresso e a novidade. Hoje tudo mudou. Somos degenerados e presunçosos. Vou usar de franqueza, Rhodan. Às vezes, quando penso na nossa semelhança exterior, chego a ter idéias bem estranhas. Se combinássemos o espírito de sua raça com o da nossa, se uníssemos a sua vitalidade ao nosso saber, poderíamos dominar o Universo...

Os olhos de Perry Rhodan perderam o brilho duro. Vagaram numa distância ignota, que se media por eternidades. Sem que percebesse, seus punhos se cerraram, os dedos voltaram a se distender. A imagem do futuro desenrolou-se diante do seu espírito como uma visão instantânea.

Os homens e os arcônidas — uma só raça. A iniciativa e o espírito de aventura aliados a um saber vetusto e a uma tecnologia inimaginável. Naves espaciais que se deslocavam a velocidade superior à da luz, tripuladas por homens e mulheres ávidos de ação, penetravam nos recantos mais profundos da Via Láctea, descobriam novos mundos, fundavam colônias e impérios. O comércio interestelar proporcionava um bem-estar indescritível. Surgia um novo império galáctico. Surgia uma nova raça...

Talvez Crest imaginasse o que se passava na mente de Rhodan. Um sorriso de sabedoria aflorou-lhe aos lábios.

— Ainda nos encontramos no começo, Perry Rhodan. Você representa o gênero humano; eu, os arcônidas. Você precisa do nosso auxílio; nós, do seu. É um pacto, podemos chamá-lo assim, nascido da necessidade comum. Mas acredito que, futuramente, cheguemos a uma união em prol do interesse mútuo, fundada na razão. Até é possível que a Terra seja o planeta da vida que estamos procurando, pois o rejuvenescimento traz consigo uma vida mais longa.

— Antes de mais nada, devemos preparar o início, Crest. Depois poderemos falar sobre o resto. O mundo que pode trazer-lhe a saúde está prestes a soçobrar. O ódio mesquinho e a desconfiança egoísta, a falta de respeito pelas opiniões alheias, a obstinação com que são mantidos certos princípios pré‐ estabelecidos, foi isso que nos conduziu à situação atual. Antigamente o temor a Deus obrigava os homens a serem honestos e tolerantes. Hoje, esses resultados só podem ser alcançados através do medo incutido por ameaças palpáveis. Portanto, peça a Thora que dirija o raio energético para a África do Norte, a cerca de cinco graus de longitude leste, na altura do Trópico de Câncer. O raio deverá atingir a vertente norte da serra de Ahaggar. Expedirei um aviso para que a região seja evacuada imediatamente, embora, pelo que sei, esteja praticamente desabitada.

— A demonstração não deixará de produzir efeito — prometeu Crest. — Convém salientar, no seu aviso, que se trata de uma das operações mais inofensivas do nosso arsenal.