A Terceira Potência
Capítulo XV
O mecanismo gigantesco entrou em funcionamento.
Durante anos ficara à espera deste momento. Milhares de exercícios haviam demonstrado seu impecável funcionamento, Bastava comprimir um botão, para desencadear a reação em cadeia que não poderia ser mais detida.
Pequim: meio-dia...
O presidente da Federação Asiática fez um sinal de cabeça para o marechal Lao Lin-to, que se encontrava no comando supremo das Forças Armadas, em substituição ao marechal Roon, recolhido à prisão.
Lin pegou o telefone pelo qual se comunicava diretamente com o comando das posições de combate.
— É a constelação das Plêiades? As esquadrilhas decolam imediatamente. Grau de mobilização número um. Bases de foguetes ocidentais: ordem de fogo; alcance sete. Esquadra: zarpar direção leste. Daqui a dez minutos, tudo deverá estar terminado. Recolher todas as tropas terrestres aos abrigos antiatômicos. Aguardar contra-ataque. Fim da transmissão.
Em algum lugar uma mão aproximou-se de um botão vermelho. Hesitou por uma fração de segundo. Depois, o polegar comprimiu profundamente o botão.
Um continente estremeceu.
Os torpedos prateados ocultos nas profundezas subiram para o céu azul, pareciam ir em busca do sol, depois dirigiram-se para o leste ou para o oeste. Eram centenas, milhares, dezenas de milhares...
Nos aeroportos militares reinava uma atividade febril. Uma esquadrilha após a outra erguia-se pesadamente com sua carga mortífera, entrava em formação e subia para a estratosfera, seguindo o curso preestabelecido.
A força naval seguiu com menos rapidez. Desferiria o golpe de misericórdia num mundo destruído. Talvez também pretendesse escapar ao extermínio que se abateria implacavelmente sobre os portos.
Tudo ocorreu em conformidade com o plano.
Só houve um ato que foi praticado independentemente de qualquer ordem, isso numa barraca montada em algum dos aeroportos militares.
Um agente do ocidente dedilhou febrilmente a tecla do telégrafo. Em menos de um vigésimo de segundo os sinais deram a volta ao mundo.
Exatamente um minuto e dezoito segundos depois que o polegar amarelo comprimiu o botão vermelho, a mesma operação repetiu-se em Washington; uma máquina idêntica entrou em funcionamento. Não havia nada que a distinguisse daquela montada no Extremo Oriente. A única diferença foi que, aqui, os foguetes foram disparados para o céu noturno, deixando caudas luminosas atrás de si e desaparecendo por entre as estrelas.
Talvez fossem um pouco mais rápidos que os da Federação Asiática. Nesse caso a morte não chegaria com uma diferença de setenta e oito segundos. Golpearia simultaneamente de ambos os lados.
Apenas os projéteis disparados pelos submarinos atômicos estacionados em todos os mares do mundo seriam mais rápidos, pois teriam menor distância a percorrer.
Quanto tempo ainda restaria? Dez minutos, talvez quinze. Depois chegaria o fim do mundo.
Moscou esperou exatamente dois minutos.
Depois, também aqui alguém comprimiu o botão vermelho. Os mísseis precipitaram-se para o céu matutino e entraram no seu rumo. Contavam-se por milhares. E em certo momento a diferença das ações empreendidas nas outras partes do mundo tornou-se patente.
Os mísseis do bloco oriental foram todos disparados numa só direção — ou melhor, para um único alvo.
Se alguém prolongasse as linhas das respectivas trajetórias, chegaria à conclusão de que todas elas convergiam num ponto. E esse ponto correspondia ao lugar em que a Stardust se abrigava sob o anteparo energético, isolada do mundo e da destruição que se aproximava.
O sol brilhava em Moscou.
Pelas indicações dos aparelhos de radar, instalados nas fronteiras do gigantesco país, os mísseis da Federação Asiática estavam passando pelas camadas da atmosfera, ainda longe do destino. Nenhum deles desceria no território do bloco oriental.
Os primeiros mísseis do bloco ocidental demonstravam tendência semelhante.
O marechal Petronsky acenou com a cabeça em direção ao primeiro-ministro, numa expressão de triunfo indissimulado.
— Conseguimos. Daqui a meia hora a Federação Asiática não existirá mais; o bloco ocidental e a América também terão deixado de existir. E essa maldita base no deserto de Gobi terá sido varrida da face da Terra. Só restará uma única potência: a nossa.
— É a arte da sobrevivência, caro marechal, apenas a arte da sobrevivência. Ela só está ao alcance de quem se mantém neutro.
O silêncio da expectativa desceu sobre os dois homens. Não só sobre eles. Sobre toda a Terra. Parecia que os últimos minutos que separavam a humanidade do fim não queriam passar. Arrastaram-se interminavelmente, transformaram-se numa eternidade. A humanidade conteve a respiração.
Os primeiros foguetes Polaris penetraram nas camadas mais profundas da atmosfera. Aproximaram-se da área em que se situava o alvo. Sua trajetória assumiu a forma de uma curva balística, tornou-se cada vez mais íngreme — e então desceram verticalmente, penetraram profundamente na terra e tudo que deixaram foram crateras pequenas, verdadeiramente ridículas.
Nenhuma detonação. Nenhuma explosão atômica. Nenhum cogumelo de gases.
A vaga dos gigantescos mísseis intercontinentais acabou de cruzar o Pacífico. O poder explosivo de cada um deles era tão grande que seria capaz de destruir toda vida num raio de cem quilômetros. Por isso, suas trajetórias foram se dispersando durante o vôo. Chegaram ao continente americano como se fossem uma linha bastante tênue de soldados de infantaria. Não detonaram nos pontos previstos, e seu próprio impulso tangeu-os terra adentro até que caíssem nas montanhas, nas matas ou nas estepes. Um único projétil da segunda série caiu em pleno centro de Los Angeles, porque o mecanismo propulsor deixou de funcionar antes do tempo. Perfurou um edifício de oito pavimentos e ficou enterrado nos alicerces.
Com os mísseis americanos ocorreu a mesma coisa. Não houve um único entre eles que detonasse ou caísse em território densamente povoado. Conforme se constatou mais tarde, só causaram pequenos danos materiais.
Nos oceanos, desenrolou-se um quadro grotesco.
Uma esquadrilha de aviões de bombardeio dos Estados Unidos avistaram a esquadra da Federação Asiática a mais de duzentos quilômetros de distância, junto ao litoral da Ásia. Os porta-aviões e os cruzadores pesados, os destróieres e os contratorpedeiros, até mesmo os submarinos estavam imóveis na superfície calma do mar.
O coronel-aviador Bryan Neldiss deu ordem de ataque. Não sabia explicar o procedimento do inimigo, que surgira tão inesperadamente, mas não quis deixar que uma presa tão gorda lhe escapasse.
Os aparelhos de rádio permaneceram mudos. O coronel não obteve confirmação da ordem que ele expedira e sem que ele movesse um dedo, o avião começou a descer. A esquadrilha seguiu-o e os aparelhos pousaram n’água, bem perto dos navios inimigos.
Todo mundo apressou-se em deixar os aviões que afundavam rapidamente. As tripulações foram recolhidas por barcos infláveis.
O Almirante Sen Toa não expediu a ordem de fogo que estava prevista, em lugar disso ordenou a operação de salvamento. Os barcos foram colocados na água e mãos prestativas tiraram os americanos do oceano que ondulava suavemente. Dentro de meia hora tudo estava terminado. A esquadrilha de aviões de bombardeio dos Estados Unidos foi tragada pelas águas. A esquadra asiática jazia imóvel, balançando ligeiramente nas ondas. Parecia que uma mão invisível a segurava.
A 150 quilômetros da costa ocidental dos Estados Unidos aconteceu a mesma coisa, apenas os papéis foram invertidos. A única diferença foi que um dos pilotos morreu afogado por não ter conseguido sair do avião antes que este afundasse.
Um punho invisível interrompeu a trajetória dos mísseis russos. Estes descreveram uma curva de 180 graus e retornaram às bases de onde tinham sido disparados e penetraram verticalmente no solo, quase no mesmo lugar de onde tinham partido. Nenhum deles detonou, muito menos atingiu a Stardust.
A guerra atômica terminara antes de ter começado.
Houve até o caso de fazendeiros do oeste dos Estados Unidos e muitos camponeses na China que nem sabiam o que estava acontecendo. Quando souberam dos foguetes caídos no solo — depois de restabelecidas as comunicações pelo rádio — deram vazão à sua raiva sobre a tentativa fútil de se mandar foguetes à Lua. Mas, ao saberem de toda a verdade, silenciaram imediatamente os protestos.
Alguém havia impedido a guerra. Um homem revelara-se mais forte que as grandes potências. Desafiou-as e impôs-lhes a paz pela força. Esse homem era Perry Rhodan.
Mas não foi por muito tempo que Perry Rhodan ficou sendo o herói dos homens do povo. Para os que exerciam o domínio do mundo, a humilhação foi insuportável. Sentiram-se tomados de pavor quando se viram derrubados do trono do poder.
Nenhum deles conseguiria romper, sozinho, a supremacia temível de Perry Rhodan. Mas se reunissem seus esforços? Quem sabe...
A percepção desse estado de coisas desencadeou uma atividade diplomática febril.
De Pequim para Washington:
Lamentamos o mal-entendido que quase causou uma guerra mundial. Sugerimos que nossos dirigentes realizem um encontro com a maior brevidade. Deixamos a seu cargo a indicação do local.
De Pequim para Moscou:
Convida-se o primeiro-ministro do bloco oriental a participar do encontro entre os presidentes da Federação Asiática e do bloco ocidental, que se realizará daqui a dois dias.
De Pequim para Washington:
Concordamos em que a conferência se realize no Cairo.
De Washington para Pequim e Moscou:
O governo do bloco ocidental declarou a tripulação da Stardust inimigo público número um. Propomos à Federação Asiática que, uma vez esclarecida a situação política mundial, prepare uma expedição lunar conjunta.
De Pequim para Washington:
Concordamos.
De Pequim para o Comando Espacial da Federação Asiática (mensagem estritamente confidencial):
Acelerar imediatamente os preparativos para a decolagem de outra nave espacial. Os trabalhos deverão ser mantidos em segredo.
Do Cairo para Washington, Pequim e Moscou:
Preparativos concluídos. Aguardamos os presidentes das grandes potências e sentimo-nos honrados...
Dois dias depois.
— Fomos expulsos da comunhão dos povos — lamentou-se Bell.
Quem não o conhecesse, pensaria que dali a pouco irromperia em lágrimas.
— Somos inimigos públicos e criminosos. Por quê? Só porque impedimos a guerra.
— Você se admira com isso? — Rhodan ergueu as sobrancelhas. — Ao impedirmos a guerra, provamos que somos mais fortes que eles. No Cairo, chegaram a um acordo. As grandes potências da Terra uniram-se para nos destruir. Não poderia imaginar coisa melhor.
— Não poderia imaginar coisa melhor? O que quer dizer com isso, meu caro?
— Nenhuma nação deve conquistar o espaço. É o homem como habitante do nosso planeta que deve fazê-lo. A união formada contra nós representa o primeiro passo de uma comunhão de idéias entre todos os povos. O medo cimenta a unidade dos homens. Com o auxílio dos arcônidas conseguimos atingir um grande objetivo. Unimos o mundo.
— E, por isso, nos expulsam?
— É o preço que temos de pagar.
Bell coçou a cabeça.
— Será que Fletcher chegou em casa?
— Não sei. De qualquer maneira, seu nome não foi mencionado por ninguém. Só você, Manoli e eu somos inimigos públicos. Ainda não sabem da existência de Crest. Há, ainda, uma surpresa guardada para os homens.
Bell apontou para o céu azul.
— Thora desempenhou muito bem o seu papel no jogo. Não posso deixar de reconhecer isso. Se não fosse ela, a esta hora estaríamos em maus lençóis.
Rhodan abanou lentamente a cabeça.
— Não estaríamos em situação pior. Apenas acontece que seríamos os últimos homens do planeta.
Subitamente Crest surgiu na porta da sala do comando.
— No destino de sua raça vejo o renascimento da minha — disse pensativo. — Vejo a evolução com toda a nitidez. É verdade que poderão surgir incidentes; é um detalhe que não deverão esquecer. Ainda não eliminamos totalmente o perigo, mas demos o primeiro passo nesse sentido. Às vezes o medo é a melhor terapia.
— Mas não deve continuar a sê-lo para sempre — objetou Perry com voz séria. — Há de chegar o dia em que a união entre os homens não resulte do medo, mas de um imperativo da consciência, do raciocínio lógico e, até, da voz do coração. É claro que esse estado não poderá ser alcançado de hoje para amanhã, mas sei que um dia será assim. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que...
Crest colocou-lhe a mão sobre o ombro e disse em tom suave:
— Você já fez, Perry. Talvez você seja um ser que eu, que venho de fora do seu mundo, designaria como terrano. É isso mesmo! Você, Perry Rhodan, é o primeiro terrano.
— E eu? O que sou? — perguntou Bell sentido.
O Dr. Manoli, sempre calado, respondeu com uma observação bastante apropriada:
— Antes de sermos terranos, temos que ser homens.
Bell fez pouco caso e deslocou seu corpanzil em direção à saída.
— Vou nadar no lago — declarou.
Manoli limitou-se a cochichar-lhe:
— Faz bem. Vá curtir-se ao sal...
Crest sorriu em silêncio.
Perry Rhodan parecia nada ter ouvido. Parado junto à cúpula transparente, olhava para o céu azul. Em algum ponto, lá no alto, a Lua descrevia sua órbita solitária em torno da Terra.
* * *
A maior parte dos homens ainda considera Perry Rhodan um traidor, mas algumas pessoas sensatas já começam a compreender que ele só visa ao bem da humanidade. E esses homens dirigem-se à Abóbada Energética, que nem mesmo o fogo cerrado mais intenso consegue romper.