A Terceira Potência
Capítulo IV
— Ei, Perry! Pounder está no aparelho. O homem está muito nervoso.
Rhodan acenou a cabeça para Crest, com quem estivera conversando.
— Com licença, Crest. Pretendo esgotar todas as possibilidades.
No caso, a expressão “está no aparelho” era a menos adequada. A comunicação visual através do satélite era perfeita. O rosto de Pounder na tela era tão nítido como se estivesse olhando por uma janela. Os asiáticos não interferiam mais nas transmissões, o que era sinal de que não mais sabiam o que fazer.
Bell inclinou-se ligeiramente e fez um gesto em direção à tela.
— Permita que o apresente: é o general.
Perry empurrou-o para o lado.
— General Pounder, comunico nosso retorno da expedição lunar. A tripulação está bem. A Stardust não está em condições de decolar em virtude de defeitos mecânicos. Missão cumprida. Os resultados das pesquisas científicas serão encaminhados ao professor Lehmann.
O general respirava com dificuldade.
— Rhodan, o senhor enlouqueceu? Quer fazer o favor de explicar o motivo que o levou a pousar no deserto de Gobi? O mecanismo de controle remoto falhou? Podia ao menos ter tentado descer no oceano.
— O pouso neste local foi proposital.
— O quê? — o rosto de Pounder adquiriu uma tonalidade vermelha bem viva. — O que está dizendo? Foi proposital? Major Rhodan, o senhor não vai me dizer que...
— Não vou dizer coisa alguma. Pelo menos, não o que o senhor está pensando. Procurarei explicar...
— Não há nada a explicar — berrou Pounder a plenos pulmões. — O senhor vai destruir imediatamente a Stardust por meio da carga explosiva e entregar-se às Forças da Federação Asiática. Entendeu?
Um brilho gélido surgiu nos olhos de Rhodan.
— Entendi, general. Mas não cumprirei suas ordens.
— Não vai cumprir a ordem? — Pounder oferecia um quadro assustador. O vermelho do seu rosto tornou-se mais intenso. Bell, instintivamente, abaixou-se como se temesse que a cabeça que aparecia na tela fosse explodir. — Major Rhodan, ordeno-lhe que...
— General, permita-me dizê-lo que já não sou mais major, e, por isso, nego-me a receber ordens do senhor. Como vê, removi os distintivos do meu uniforme. Se permitir, começarei a explicar.
O rosto do professor Lehmann tinha surgido perto de Pounder. Nos seus olhos havia um brilho de curiosidade.
— Rhodan, será que nas crateras da Lua existem vestígios de atmosfera e até mesmo restos de...
— Silêncio! — berrou Pounder e empurrou o cientista para o lado. — Fale, Rhodan! E procure ser convincente, pois suas palavras decidirão se dentro de dez horas teremos guerra ou não. A Federação Asiática está convencida de que a Stardust não passa de uma base americana colocada intencionalmente em seu território. Se não for abandonada até amanhã, as relações diplomáticas estarão rompidas. Acho desnecessário salientar quais as conseqüências que advirão deste fato, caso ele seja concretizado.
— Então as coisas já chegaram a este ponto? — murmurou Perry assustado. — Nesse caso, não temos um segundo a perder. Preste atenção, general. Pousamos na Lua, conforme previsto, e descobrimos os restos de uma civilização extraterrena. Não posso dar-lhe detalhes de tudo o que encontramos, mas algumas indicações serão suficientes. Para tranqüilizar o professor Lehmann, diga-lhe que a Lua nunca foi habitada, mas, há muito tempo, posou lá uma nave exploradora tripulada por membros de uma civilização interestelar. Esta nave ainda está intacta e em seu bojo existe um arsenal que daria para destruir não apenas a Terra, mas todo o sistema solar. Raios mortíferos e anteparos energéticos, neutralizadores da gravidade e campos anti-neutrônicos capazes de impedir toda e qualquer explosão atômica são apenas alguns exemplos. Além disso, existem armas manuais, cujos efeitos o senhor nem seria capaz de imaginar. General, o senhor há de compreender que eu não estava disposto a colocar esse poder tremendo nas mãos de qualquer das nações da Terra.
De um golpe, Pounder recuperou o sangue-frio.
— Acontece que pousou no território da Federação Asiática. Há outras pessoas que estão escutando nossa palestra. Logo, todo mundo saberá o que o senhor descobriu na Lua. Expedições serão enviadas para lá e haverá uma corrida frenética que decidirá quem há de dispor do poder final. O senhor devia ter ficado calado.
— Quero que todo o mundo saiba — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — Além do mais, ninguém pousará na Lua, a não ser que eu queira. Não se preocupe, general, pois os asiáticos não conseguirão estas armas. Os russos e os americanos também não. Só eu disponho delas. E cuidarei para que ninguém inicie uma guerra que os destruiria a todos.
— O senhor?
Estas palavras foram proferidas com tamanho desprezo que Rhodan ficou rubro de raiva. Recuou um passo e fitou o general com olhos frios.
— Eu, sim! O senhor já devia ter compreendido que a política falhou. Há séculos os governos tentam evitar a guerra quente. Uma ameaça segue-se a outra, uma conferência a outra. A culpa não é apenas do bloco oriental e da Federação Asiática, mas também do bloco ocidental. Ninguém quer ceder; todos continuam a se armar. Os foguetes com cargas atômicas estão estacionados em todos os pontos do globo. Basta comprimir um botão para dispará-los, o dispositivo automático de que são dotados os conduzirá ao alvo. Todavia, antes que possam atingi-lo, as armas de retaliação serão acionadas do lado oposto. Os povos de ambos os lados do mundo praticamente deixarão de existir no mesmo instante. Há decênios defrontamo-nos com essa visão macabra. Ninguém conseguiu conjurar o perigo. Até hoje apenas o equilíbrio de forças tem impedido a guerra. Mas, ai de nós se um dos lados se tornar mais forte. Ver-se-ia obrigado a destruir o outro lado para viver em paz. Nós faríamos isso, da mesma maneira que os asiáticos. Compreende por que nenhum dos blocos deve pôr as mãos na Stardust, que tem a bordo algumas das armas extraterrenas?
Ouviu-se a respiração pesada do general.
— O senhor poderia ter prestado um serviço inestimável ao seu país se...
— Se tivesse levado as armas para Nevada Fields? Está enganado, general. A Federação Asiática e o bloco oriental sentir-se-iam tão ameaçados que se lançariam a uma guerra de extermínio contra o bloco ocidental. Não poderiam agir de outra forma. Seria o fim da nossa civilização. De qualquer maneira, agirei de acordo com um plano que tracei, quer o senhor aprove, quer não.
— Que plano é esse?
— Formarei uma terceira potência, que será neutra, ficando eqüidistante dos blocos que se defrontam sobre a Terra. Estamos em condições de transformar qualquer foguete atômico que seja disparado em um projétil inofensivo. Qualquer bomba atômica estalará no ar sem produzir o menor efeito, como se fosse fogos de artifícios. Repelirei qualquer ataque dirigido contra a Stardust parta de onde partir. Vou...
Perry Rhodan parou de falar. Atrás dele, ouviu-se um ruído. Virou-se. Bell segurava o braço de Fletcher que entrara na sala de rádio.
— Não caia na conversa dele, general! — gritou Fletcher. — Ficou doido. Os arcônidas com suas idéias decadentes fizeram com que enlouquecesse. Opus-me à aterrissagem neste local. Mas ele me ameaçou com a pistola. É um amotinado.
Perry fez um sinal a Bell e deixou que Fletcher terminasse. Finalmente, aproximou-se dele e colocou-lhe a mão sobre o ombro.
— Escute, Fletcher. O general pode ouvir o que tenho a dizer. Talvez agisse da mesma forma se fosse você. Acontece que não sou. Você é livre para deixar a Stardust assim que o deseje. Não prendo ninguém. Mas quero que, antes de ir embora, confirme perante o general Pounder que na Lua encontramos armas que nos permitem controlar o mundo. Não lhe diga mais nada, só isso.
Fletcher hesitou. Fitou os olhos ameaçadores de Bell. O técnico tinha na mão o bastão prateado do irradiador psíquico. Perry lançou-lhe um olhar quase gentil. Na tela, o rosto de Pounder espreitava a cena.
Confirmou com um aceno de cabeça.
— É verdade, general. Se Rhodan quiser, pode destruir o mundo.
Abaixou a cabeça, virou-se e saiu da sala. Rhodan, suspirando aliviado, dirigiu-se ao general.
— General, além do senhor, os homens que tomam as decisões no bloco oriental e na Federação Asiática ouvirão as minhas palavras. Quero acrescentar apenas o seguinte: a extensão territorial da terceira potência é muito limitada. Não deixe que este fato o engane. Cumpram os meus desejos. E não se atrevam a levar ao extremo as suspeitas que nutrem um contra o outro. Acho que, a esta altura, já devem ter compreendido que a Stardust não é uma base americana. Por outro lado, não pousou aqui para cair nas mãos da Federação Asiática. E o bloco oriental terá de abandonar as esperanças de colher os despojos do conflito entre os dois outros blocos. Os senhores poderão se comunicar comigo a qualquer momento nessa faixa, e também usarei a mesma quando tiver que entrar em contato com os senhores. Lamento o ocorrido, general, mas acho que um dia o senhor me compreenderá. Por ora só posso pedir que me desculpe.
Pounder fitou os olhos de Perry Rhodan, depois acenou com a cabeça.
— Parei o possível, Rhodan. E espero em Deus que Mercant concorde. O senhor o conhece!
Um sorriso estranho passou pelos lábios de Rhodan. Ele compreendeu a advertência, mas esta já não o assustava mais. Mercant passara a ser apenas um homem.
E Perry Rhodan não mais temia os homens.