A Terceira Potência
Capítulo XII
Fletcher olhava fixamente para a luz ofuscante da lâmpada. Não compreendia o que estava acontecendo; tinha os olhos arregalados.
— Basta falar — disse uma voz áspera vinda detrás da lâmpada. Não viu o rosto da pessoa que lhe falava. Estava imerso na escuridão. — Por que pretende voltar aos Estados Unidos?
— É por causa de minha esposa; ela está esperando um filho.
— Foi o que o senhor já disse. Mas deve ter outros motivos. Ninguém arrisca a vida por causa de um bebê.
— Como pode afirmar isso? É casado?
O homem invisível pigarreou.
— Por que não ficou com Perry Rhodan?
— Não sei de quem está falando. Não conheço nenhum Rhodan. E não sei nada a respeito de uma nave espacial. Pare de me torturar com suas perguntas incompreensíveis!
— O que Rhodan pretende fazer com a Stardust?
— Não sei.
— O que encontraram na Lua?
Fletcher procurou mover os braços. Não conseguiu; estavam presos ao encosto da cadeira por fitas de aço. O suor gotejava-lhe da testa. Sentia sede. Fechou os olhos, mas a luz ofuscante atravessou-lhe as pálpebras.
— Não sei.
— Ouça, capitão Fletcher. Não desistiremos. Se não disser logo a verdade, teremos que usar métodos mais desagradáveis.
— Não posso dizer o que não sei.
Ouviram-se vozes baixas vindas de um canto da sala. Depois disso a lâmpada foi apagada. A iluminação normal, vinda do teto, parecia triste e escura. Mãos brutais arrancaram Fletcher da cadeira, depois de soltarem as fitas de aço. Apático, deixou que o levassem. Não via as portas por onde passava, nem as paredes do corredor ou os rostos dos seus algozes. Só pensava no avião que, no dia anterior, devia tê-lo levado para os Estados Unidos. Nem mesmo a sala de operações com sua iluminação profusa conseguiu remover a rigidez que tomara conta do seu ser.
Deitaram-no sobre uma mesa. Homens de avental branco amarraram-no. Suportou tudo com a maior indiferença. Suas articulações foram envolvidas por placas de cobre. Cabos condutores de energia, com seus frios contatos, cingiram-lhe as têmporas. Depois disso, uma máquina enorme e estranha começou a funcionar.
Os primeiros reflexos coloridos surgiram numa tela. Alguns homens à paisana estavam sentados diante da mesma. Seus rostos exprimiam a tensão de que se achavam possuídos.
— Acha que isso nos ajudará a descobrir alguma coisa?
— O projetor mental é infalível, inspetor. Infelizmente, sua utilização pode acarretar um certo perigo para o acusado. Mas se falar, ou melhor, pensar, nada de prejudicial poderá acontecer.
— Seus pensamentos são projetados na tela?
— Isso mesmo. Trata-se de um aperfeiçoamento do detetor de mentiras que costumava ser empregado até aqui, mas tem pouca semelhança com o mesmo. Se o homem que se encontra sob a ação deste aparelho não quiser responder a uma pergunta que lhe fizermos, ao menos pensará na mesma. Na tela de imagem aparecerá um quadro que corresponde ao que ele concebe na sua imaginação.
— Acho que já estou compreendendo. Vamos começar.
Fletcher estava com os olhos fechados. Ficou quieto, como se quisesse dormir. Seu peito subia e descia ao ritmo normal da respiração.
Um dos homens inclinou-se sobre ele.
— Está me ouvindo, Fletcher. Pode deixar de responder, se preferir. De qualquer maneira, formularei algumas perguntas. Só fale se desejar. O que pretende fazer nos Estados Unidos?
Os homens olharam para a tela de imagem. Pela primeira vez, um quadro nítido começou a se delinear. Surgiu o rosto de uma mulher jovem e bela, que sorria e acenava. Fletcher parecia gemer. O quadro modificou-se. Camas, enfermeiras, médicos. Depois, a mulher voltou a aparecer. Estava deitada numa cama. Perto dela via-se uma criança.
— É verdade! — murmurou o inspetor. — Só pensa no bebê. É uma idéia fixa. Continue a perguntar, chefe.
O homem designado como chefe acenou com a cabeça.
— Fletcher, o que aconteceu na Lua? Precisamos saber o que aconteceu na Lua!
O quadro com a criança desfez-se imediatamente. Figuras em cores vivas percorriam a tela, formavam quadros abstratos e desfaziam-se em manchas irreconhecíveis. Depois formou-se uma espiral que começou a girar rápido, cada vez mais rápido, até transformar-se num disco rodopiante.
— O que sabe a respeito da Stardust?
O disco girou mais depressa. Raios passavam sobre a tela. Fletcher gemeu. Sua respiração era cada vez mais apressada. O suor corria-lhe da testa.
Um dos homens de avental branco adiantou-se e colocou a mão sobre o braço do chefe.
— Devemos fazer uma pausa — recomendou. — O prisioneiro está exausto. O coração não agüenta mais.
— Mal começamos — interveio o inspetor. — Só mais algumas perguntas.
— O senhor está vendo que o homem não sabe nada. As imagens da tela indicam um estado de amnésia total. Está bem! Dar-lhes-ei mais duas tentativas, mas sob sua responsabilidade.
O círculo rodopiante na tela de imagem tinha desaparecido. A mulher jovem voltou a aparecer. Atravessava um jardim florido, levando uma menina pela mão.
— Fletcher, quais são as intenções de Perry Rhodan?
A mulher com a menina desapareceu imediatamente. O circulo voltou a rodopiar. Reflexos coloridos surgiam e desapareciam.
— É inútil! — disse o médico. — O homem não sabe nada.
— Tem de saber! — berrou o inspetor fora de si. — Pois não perdeu a razão.
— Talvez tenha perdido a memória.
— Precisamos descobrir o que aconteceu. Não existe nenhum meio de restituir-lhe a memória?
— Com o tempo talvez conseguiríamos. Teria de ficar em sossego absoluto durante vários meses; se possível devia ser posto em liberdade.
— É impossível! Ele representaria um perigo para o mundo. Lembre-se do tal de Bell, que ontem diminuiu expressivamente a ação da gravidade na cidade. Nada disso! Fletcher não pode ficar fora da nossa vigilância um instante sequer.
O médico suspirou.
— Muito bem. Formule a última pergunta.
O chefe acenou com a cabeça. Sua atitude diferia sensivelmente da conduta imoderada do inspetor. Encostou a boca ao ouvido de Fletcher e perguntou:
— Quem é Crest?
Haggard revelara esse nome durante sua prisão, que só durara alguns minutos. O inspetor ouvira-o, mas não sabia o que significava.
— Está ouvindo Fletcher? Quem é Crest? Fletcher esforçou-se para romper as faixas que o prendiam. De olhos arregalados fitou o homem que o interrogava. No seu rosto via-se o medo, mas, também alguma coisa parecida com uma recordação que despontava do subconsciente. Seus punhos cerraram-se. Os lábios murmuraram palavras inaudíveis.
Na tela de imagem fez-se o caos.
A roda colorida girava cada vez mais depressa, até que suas cores se fundissem num cinza monótono. Depois estourou. As lascas coloridas deslocaram-se para os lados e deslizaram para fora da tela. Depois esta se tornou negra. E assim continuou.
Um dos médicos inclinou-se e examinou os olhos enrijecidos de Fletcher. Segurou-lhe o pulso. Depois ergueu-se e falou com a voz muito séria.
— Está morto!
O inspetor empalideceu.
— Morto? Mas como? Seu coração estava perfeito.
O médico encolheu os ombros.
— Pode ser que o coração estivesse perfeito. Acontece que morreu de um derrame cerebral.
Nenhum dos presentes disse mais nada.
Fletcher estava estendido na mesa, imóvel. Não mais teria a alegria de assistir ao nascimento do seu filho. E não saberia que seria uma menina.