A Terceira Potência
Capítulo XI
Port Darwin fica na costa ocidental da Terra de Arnhem. É o porto mais importante da grande baía de Cambridge, situada no norte da Austrália.
Tanto ideológica quanto economicamente a Austrália pertencia ao bloco ocidental. Mantinha una representante permanente em Washington. Mas grandes setores da população empenhavam-se pela neutralidade do continente e pela sua autonomia militar.
Apesar disso, Bell sabia que não estava pousando em solo amigo, quando seu helicóptero desceu sobre o platô arenoso situado perto da costa. Já ia escurecendo. A pouca distância, brilhavam as luzes da cidade.
— Fletcher, você vai à cidade comigo? Pode pernoitar num hotel. Amanhã dou-lhe o dinheiro. Depois disso, você poderá pegar um avião e voltar para casa.
— Ótimo Bell! Você sabe que tenho de voltar para junto de minha esposa. Deverá ter um bebe dentro de três meses. Talvez antes.
— Sei, sim — disse Bell com um aceno de cabeça. Essa história do nenê já o estava irritando. Estava começando a compreender por que corriam tantas piadas sobre o tema. Se todos os futuros pais fazem um drama desses...
— Esqueça as preocupações. Temos que fazer uma caminhada de meia hora. Tomara que ninguém nos tenha visto pousar aqui.
Sem qualquer incidente, conseguiu entregar seu protegido no hotel e, depois de ter dado a volta à cidade para sondar o terreno, voltou ao helicóptero. Um policial, tratado com o psico-irradiador, dera-lhe, com a maior solicitude, todas as informações que desejava.
O Dr. Frank M. Haggard residia na parte leste da cidade, num edifício anexo aos hospitais por ele construídos. Era lá que ficava o laboratório no qual, dois anos antes, realizara uma descoberta sensacional: o soro anti-leucêmico.
Seguindo as indicações do policial, Bell foi acompanhando, a baixa altitude, a rodovia até atingir o entroncamento com uma estrada lateral. Seguiu esta última e não tardou a avistar os contornos dos imponentes prédios que se destacavam contra o mar.
Pousou na clareira de um bosque a pequena distância dali. Colocou o irradiador no bolso, pegou um dos geradores permanentes de energia e pôs-se a caminho.
Frank Haggard ainda estava acordado. Lançou um olhar de espanto para o visitante retardatário, ergueu as sobrancelhas num gesto de recriminação e convidou-o a entrar. Ficou curioso ao ver a caixinha que Bell colocou sobre a mesa com muito cuidado.
— Posso lhe ser útil em alguma coisa? — perguntou o médico.
Bell examinou-o mais detidamente. Haggard era um tipo atlético, de cabelos castanho-escuros e olhos azuis. Devia ter cerca de quarenta e cinco anos. Havia em seu rosto um traço de bondade, capaz de inspirar confiança especialmente para quem precisasse de auxílio.
— Na verdade, pode ser-me bastante útil — começou Bell, sem saber como explicar-se. — Meu nome é Reginald Bell, não sei se já o ouviu antes.
— Reside em Darwin? — indagou o médico, inclinando-se para frente.
Bell disfarçou o seu desapontamento.
— Não. Venho da Mongólia.
Haggard voltou a recostar-se na cadeira.
— Ah! — fez.
Não disse mais nada. Afinal, a Mongólia distava cerca de cinco mil quilômetros dali. E esse tipo estranho entrou-lhe pela casa sem mais aquela às dez horas da noite dizendo ter vindo da Mongólia. Devia ser algum louco à solta. Convinha ter cuidado.
— Isso mesmo. Mais exatamente, venho do deserto de Gobi.
— Era só o que faltava — foram as palavras que Haggard deixou escapar. Todavia, conteve-se logo e perguntou, com tom amistoso: — Veio a pé?
— Só os últimos quinhentos metros — admitiu Bell. Que diabo! Como devia fazer para que o cientista compreendesse o que desejava dele?
— Preciso do seu soro anti-leucêmico para curar um doente. Apenas... bem, o pagamento é que causa alguma preocupação. É verdade que uma coisa que talvez lhe interesse...
— Pode falar com franqueza — recomendou Haggard e lançou um olhar de esguelha para o telefone. — Mas por que não esperou até amanhã de manhã?
— Infelizmente não foi possível, doutor. Cada minuto me é precioso. Está interessado numa fonte de energia bem barata?
— Como?
Bell segurou a caixinha no colo. Desembrulhou-a e voltou a pô-la sobre a mesa. Ali estava: seu aspecto era modesto e inocente. Só algumas tomadas revelavam que dali se podia extrair energia elétrica.
— Este aparelho fornece até duzentos quilowatts. Não precisa ser recarregado. Dá para cem anos utilizando ininterruptamente a capacidade máxima. Compreendeu? Deixe de olhar o telefone! Não sou nenhum maluco! Não lhe farei nada.
Haggard já não entendia o que se passava. Seu instinto lhe dizia que estava lidando com um homem normal. Estavam lhe oferecendo uma maravilha técnica que contrariava todas as leis da física.
— Quem é o senhor? — perguntou.
Bell suspirou.
— Está bem! Direi a verdade. Embora esta pareça mais estranha que a mais louca das fábulas. Certamente já ouviu falar na Stardust, a nave espacial americana que pousou no deserto de Gobi. Pois bem; eu sou um dos tripulantes. Rhodan, o comandante, ficou na nave enquanto eu...
— Perry Rhodan? — Haggard lembrou-se de algumas notícias de jornal. — Perfeitamente, estou lembrado. Não houve complicações diplomáticas?
— Complicações diplomáticas é pouco. Temos motivos para não revelar ao mundo os resultados da nossa expedição. Na face oculta da Lua encontramos uma nave extraterrena com a respectiva tripulação. Está com algumas avarias e, para decolar, precisa de certas peças sobressalentes. Os arcônidas, que são os tripulantes da nave, são um povo tão decadente que já não conseguem fazer os reparos de que a nave precisa. São muito inteligentes e tecnologicamente muito desenvolvidos, mas estão física e psiquicamente arruinados. O diretor-científico da expedição, chamado Crest, sofre de leucemia. Se tudo permanecer como está, ainda terá pouco tempo de vida. É muito importante que seja curado, pois o futuro do seu povo, e também o da humanidade, depende disso. Crest representa a chave que abrirá o acesso ao espaço cósmico, aos planetas de outros sistemas solares e a um desenvolvimento técnico inconcebível. Compreendeu o que acabo de dizer?
Haggard confirmou com um aceno de cabeça.
— É claro que compreendi. Ouvi falar de uma cratera aberta no deserto do Saara. Isso foi obra de Crest?
— Foi. — Bell absteve-se de maiores explicações. — E pode fazer coisas bem mais impressionantes. Mas deixemos isso para mais tarde. Antes de mais nada, uma pergunta: está disposto a nos ajudar? Concorda em entregar o soro? Em troca dar-lhe-ei este gerador. Recebi-o dos arcônidas.
Haggard pegou um cigarro. Havia um tremor quase imperceptível nas suas mãos.
— Só o soro não adiantaria muito. Crest teria que se submeter a um tratamento em meu sanatório.
— É impossível doutor. Aqui não estaria em segurança nem por um segundo. Os agentes de todos os países estarão atrás dele.
Haggard confirmou com um leve aceno de cabeça. Depois, olhou para Bell.
— Nesse caso, irei com o senhor.
— O senhor pretende?... Mas... o hospital? As pesquisas?
— Isso pode esperar. Estou muito mais interessado nesse tal Crest. É bom que saiba que sempre tive uma inclinação para coisas incomuns. O senhor acha que eu deixaria escapar esta oportunidade de examinar o organismo de uma inteligência extraterrena? Quando partiremos?
Bell achou que Haggard estava indo muito depressa.
— O mais rápido possível. Mas tenho de resolver alguns assuntos. Preciso de dinheiro para adquirir as peças sobressalentes destinadas à nave dos arcônidas. São componentes eletrônicos. Quem sabe se o senhor poderia dar-me uma indicação a respeito disso?
— Conheço várias firmas. Por um desses geradores dar-lhe-ão um armazém cheio de peças.
— Ótimo! Amanhã faremos uma visita às grandes casas do ramo. Só disponho de um helicóptero que não pode transportar volumes muito grandes. Talvez conheça alguém que possua um meio de transporte com maior capacidade de carga.
Haggard franziu a testa.
— Um dos meus assistentes é proprietário de um confortável iate. As condições de navegabilidade do barco são muito boas. Não terá dúvidas em cedê-lo a mim. Daqui a Hong Kong são três mil quilômetros. Venceremos esta distância em uma semana.
— Muito bem! Em Hong Kong veremos o que fazer. Meu psico-irradiador saberá cuidar da situação.
— Quem?
Bell tirou o bastão prateado do bolso.
— É um aparelho formidável, doutor. Ele lhe permite impor sua vontade a qualquer pessoa até uma distância de dois quilômetros. Como vê, de qualquer maneira eu o levaria ao deserto de Gobi, mesmo que não quisesse.
— É inacreditável! — disse Haggard espantado. — Se isso funcionar não haverá mais qualquer dificuldade.
— Funciona! — tranquilizou-o Bell.
O dia seguinte foi cheio de surpresas e de preocupações para os diretores de várias fábricas. Se não fosse a presença de um médico conceituado, o Dr. Haggard, pensariam que a demonstração realizada por Bell não era mais que uma engenhosa fraude.
Convencidos da verdade, o cepticismo transformou-se em vivo entusiasmo. Bell ficou sem os aparelhos e as fábricas sem algumas caixas de peças eletrônicas.
Como se não bastasse, Bell ainda recebeu uma boa importância em dinheiro, da qual entregou cinco mil dólares a Fletcher que já estava com passagem reservada para Nova Iorque.
Haggard pediu que o iate do seu assistente entrasse na baía que ficava perto ao hospital.
Tudo correra bem até ali. Três dias mais tarde, o iate estava com toda a carga arrumada a bordo e preparado para partir. O helicóptero fora firmemente amarrado ao convés.
Os dois homens foram à terra pela última vez. Haggard, para dar algumas instruções ao seu substituto e Bell, para desentorpecer as pernas.
Subitamente, ouviu-se o uivo de uma sirena. Holofotes romperam a escuridão, mergulhando a baía numa forte claridade. Os motores de pesados helicópteros agitavam o ar plácido do lugar. Tanques surgiam por entre as moitas que ladeavam a praia e dirigiam seus canhões para o iate. Soldados apareceram entre o passadiço e o lugar em que Bell se encontrava. Estavam de armas na mão e prontos para abrir fogo. Um oficial aproximou-se, vindo de um dos lados. Parou diante de Bell.
— Seu nome é Reginald Bell?
— Será que isso é crime?
— Limite-se a responder às minhas perguntas. Bell permaneceu calado.
— Pertence à tripulação da Stardust?
— Já que sabe, por que pergunta?
Num gesto insolente, Bell colocou a mão no bolso.
— Deixe disso! — advertiu o oficial. — Qualquer resistência será inútil. A área está cercada. O Doutor Frank Haggard já foi preso. O Capitão Fletcher também está sob custódia da polícia.
— Coitado! Terá um filho — murmurou Bell, penalizado.
— O quê?
— Tanto faz. O senhor não compreenderia.
Bell já conseguira regular a intensidade. Comprimiu o botão do ativador. Olhou atentamente para o oficial.
“Execute dez flexões de joelho!” pensou, concentrando bem a mente.
Os soldados, que já tinham se acercado mais, abaixaram as armas e arregalaram os olhos. Subitamente, o oficial estendeu os braços e começou a flexionar os joelhos. Bell contou. Foram exatamente dez flexões.
“E agora, diga a esta gente que dê o fora daqui e volte para o quartel.”
O oficial virou-se e berrou para os soldados:
— Por que estão parados ai, seus idiotas? Voltem ao quartel. Vamos logo! Ou eu terei que ensiná-los a andar depressa.
— O que está acontecendo por aqui?
A voz fria e calma era de um civil que saíra inesperadamente das moitas. Seus trajes eram tão discretos que teriam dado na vista até de um elemento pouco experimentado no assunto como Bell.
— Os homens têm que voltar ao quartel — disse o oficial com uma inflexão impessoal na voz. — Têm que voltar!
O civil dirigiu-se para Bell.
— O senhor é o Capitão Reginald Bell?
— Hoje em dia todo mundo quer saber o meu nome. É interessante! Antigamente, ninguém queria saber como me chamava. Mas, desde que voltei da Lua a coisa mudou...
— Ah! Quer dizer que confessa ser Reginald Bell?
— Por que não? O senhor é da polícia?
— Sou do Serviço de Segurança. Venha comigo! — Bell virou-se ligeiramente.
— É melhor que o senhor me siga — recomendou com voz suave, enquanto caminhava em direção aos prédios do hospital. — Quem está comandando a ação contra mim?
— É o inspetor Miller, apoiado por toda a guarnição.
Disse o civil em outro tom de voz.
— E quem prendeu Haggard?
— Fui eu. Ficará na cadeia até que sua participação nos acontecimentos tenha sido esclarecida. Deseja falar com ele?
— Providencie imediatamente para que Haggard seja liberado — ordenou Bell. — Depois, o senhor mesmo o levará a bordo do iate e fará com que o inspetor Miller suspenda toda e qualquer ação. Entendido?
— Levar Haggard à bordo e cessar a ação. Entendido!
Era possível que as novas instruções não chegassem logo a todos os pontos. Provavelmente, uma ou outra unidade ainda executaria as ordens anteriores. Nesse caso, seria melhor estar a bordo do iate. De qualquer maneira, o civil levaria seu prisioneiro a bordo, a não ser que impedido pelo uso da força.
Bell colocou o neutralizador de gravidade sobre uma mesa na cabine situada no convés superior, que possibilitava, visão ampla para o lado da terra. Já que o alcance do aparelho atingia dez quilômetros, a cidade também seria atingida.
Esperou até que o civil entregasse Haggard, que estava pasmado. Depois, ligou o neutralizador. O ponto central, isto é, o iate, conservou seu peso natural. Também a superfície do mar, sobre a qual não soprava a mais leve brisa ficou como se fosse uma placa de vidro. Apenas os peixes que saltavam para o ar ofereciam um espetáculo estranho. O peixe e o repuxo d'água iam subindo lentamente, até que se perdessem na escuridão.
Bell voltou-se para Haggard.
— É uma pena que não possamos ver o que está acontecendo na cidade. Todos os. objetos que se encontrem num raio de dez quilômetros perderam o peso normal. Imagine as forças policiais suspensas no ar.
— Mas, os meus doentes... — disse Haggard preocupado.
— O setor em que fica o seu hospital foi excluído — tranquilizou-o Bell. — Mas já é hora de darmos o fora daqui. Deixarei o neutralizador ligado. Sua ação também se estende para cima. Ninguém conseguirá chegar a menos de dez quilômetros de nós.
Envolto numa bolha protetora de completa imponderabilidade, o iate, batizado com o nome de Zéfiro, deixou o porto natural e foi navegando mar afora.
Se Bell pudesse ver o que resultou com o uso do neutralizador, talvez não ficasse tão alegre. O caos tomou conta da cidade de Darwin. O chão fugiu de debaixo dos homens e dos veículos que foram subindo lentamente, frente à baixa ação da gravidade. Se tivessem sorte, alcançariam logo o teto da zona antigravitacional que foi baixando gradativamente. Nesse caso, o impulso contrário, fazia-os tornar suavemente à terra. Mas houve alguns que não tiveram tanta sorte. E as quedas se sucederam, com maior ou menor número de ferimentos ou fraturas.
Naquela mesma noite, a notícia de tão incrível ocorrência deu a volta ao mundo. E o alarme geral voltou. Unidades das esquadras das três grandes potências mudaram de rumo. Tomaram a direção da Célebes, onde se supunha se encontrava o iate que levava a bordo um dos tripulantes da nave espacial.
No dia seguinte, dois porta-aviões e sete destróieres da Federação Asiática deixaram seu elemento natural. Privados do seu peso normal subiram a quase três mil metros antes de voltarem lentamente ao mar. Diante disso, resolveram desistir da perseguição. E os mísseis, disparados de uma distância segura, também não tiveram êxito. Nenhum deles atingiu o alvo. Detonaram a grande altitude ou sob a superfície do oceano sem causar qualquer dano. Bell conseguiu dirigir o curso dos mísseis modificando as condições gravitacionais. Porém, ele sabia que as grandes dificuldades estavam, ainda, por vir. Uma vez que estavam sendo perseguidos por todo mundo, dificilmente conseguiriam entrar no porto de Hong Kong sem serem notados. Só com muita sorte voltaria a ver a Stardust.