A Terceira Potência
Capítulo X
Foi justamente num lugar situado a dez quilômetros da Stardust que uma firma da Mongólia, autorizada pelo governo de Pequim, iniciou a montagem das instalações destinadas à extração de sal das águas do lago de Goshun.
Os tratores abriam sulcos enormes nas margens arenosas do lago e as dragas removiam a terra. Formaram-se bacias imensas que se encheram com a água do lago até que essas atingissem um metro de altura, não mais. Alcançado esse ponto, fechavam-se as comportas. O sol evaporaria a água e só restaria o sal. Fileiras imensas de caminhões estavam prontas para transportar o produto até a Mongólia, que pertencia à zona de influência de Moscou.
Klein e Li viram-se obrigados a guardar um período de descanso para não chamarem a atenção. Por mais estranhos que lhes parecessem os grupos de trabalhadores que desenvolviam uma atividade intensa, não havia motivo para que não estivessem ali. Oficialmente, a luta contra a Stardust havia sido suspensa. As bombas atômicas detonadas no lugar eram livres de radiação e, por isso, não deixavam qualquer efeito nocivo no terreno. As tropas haviam sido retiradas das áreas adjacentes à nave espacial.
O engenheiro-chefe da firma, Ilia Rawenkow, cumprimentou os visitantes inesperados com extraordinária cordialidade. Falava chinês fluentemente.
— O que os traz a esta região solitária? — indagou, depois de tê-los convidado para uma xícara de chá. — Já pensávamos que levaríamos meses sem ver qualquer outro ser vivo. Permitam que faça a apresentação: este é Peter Kosnow, procurador da empresa.
Os dois russos causaram boa impressão. Mas havia alguma coisa nos seus olhos — ou melhor, atrás de seus olhos — que recomendava cautela.
— Estamos testando um veículo de transporte para o exército — respondeu Li em tom bastante convincente. — Acho que esta região se preta bem para isso. O engenheiro Klein está me acompanhando. Vive na Federação Asiática há quinze anos.
Rawenkow e Kosnow olharam-se rapidamente.
— Que interessante! — um sorriso cortês aflorou aos lábios de Rawenkow. — Não acha estranho que tantas vezes europeus e até americanos venham aos nossos países e cooperem conosco? O fato é que não há fronteiras quando se trata de interesses econômicos.
Li estreitou os olhos.
— É verdade que se trata apenas de vantagens econômicas? — disse, espaçando bem as palavras.
O russo — percebia-se a dez quilômetros que tanto ele quanto Kosnow não eram mongóis — olhou involuntariamente na direção em que se encontrava a nave espacial, oculta por uma elevação.
— O que quer dizer com isso? — disse, para ganhar tempo.
A expressão no rosto de Li não se alterou. Seguiu o olhar do russo e disse em tom casual:
— Se não me engano, ali não existe nenhuma região salineira. Por que será que só agora tiveram a idéia de iniciar a utilização econômica do lago de Goshun?
— Afinal, onde está querendo chegar? — disse Rawenkow em tom impaciente. Mal conseguia disfarçar o nervosismo.
— À união dos antigos adversários — disse Li com um sorriso e sorveu calmamente o chá de sua xícara. — Será que você quer me convencer que está aqui por puro acaso? Logo ali, a menos de dez quilômetros de distância, encontra-se a Stardust. Ela vale mais que todos os lagos salgados do mundo. E desde quando existem russos que trabalham para a firma da Mongólia? Você não vai me dizer que é russo, não é Rawenkow?
Kosnow fez um movimento imprudente. Seu rosto não parecia muito inteligente quando viu a pistola de Klein apontada diretamente para o seu rosto.
— Que é isso? Para que tanta precipitação? — censurou Li com a voz suave. — Somos bons amigos, Kosnow, faça o favor de esquecer a pistola que traz no bolso. Klein guarde a sua. Seria ridículo se não pudéssemos nos unir em face de um inimigo comum. Não estou com a razão, Rawenkow?
O russo acenou levemente a cabeça.
— Como conseguiu descobrir nossa missão tão depressa? Até hoje todo mundo viu em nós apenas os representantes da firma da Mongólia.
— Talvez porque sejamos colegas — disse Li amistosamente. — O nome do seu chefe não é Ivan Martinovitch Kosselow?
Os dois russos ficaram de boca aberta. Confirmaram com um aceno de cabeça.
— Pois então? — prosseguiu Li. — Quer dizer que estamos de acordo! Posso fazer a apresentação definitiva? Este é o tenente Klein, do Conselho Internacional de Defesa do Ocidente. Eu sou o tenente Li Shai-tung. Finalmente os representantes das três grandes potências estão sentados em torno da mesma mesa, embora se trate de uma mesa tosca e cambaleante no deserto de Gobi. Falem com franqueza. Existe qualquer motivo que justifique uma inimizade entre nós?
Rawenkow abanou a cabeça:
— Você tem razão, Li. Acho que devíamos concluir um armistício. Os nossos objetivos são os mesmos.
Klein mordeu o lábio inferior, pensativo. Depois, disse:
— O que acontecerá quando tivermos alcançado o nosso objetivo?
Ninguém soube dar uma resposta.