A Tragédia da Rua das Flores
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A TRAGÉDIA DA RUA DAS FLORES
EÇA DE QUEIRÓS
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CAPÍTULO I
No Teatro da Trindade, representava-se o “Barba Azul”.
Tinha começado o segundo acto e o coro dos cortesãos saía, recuando em semicírculo, com os espinhaços vergados quando, num camarote sobre o balcão, à esquerda, o ranger ferrugento de uma fechadura perra, uma cadeira arrastada, fizeram erguer, aqui e além, alguns olhares distraídos. Uma senhora alta, de pé, desapertava devagar os fechos de prata de uma longa capa de seda negra forrada de peles escuras; tinha ainda o capuz descido sobre a testa e os seus olhos negros e grandes, que as olheiras de um brilho ligeiro ou desenhadas ou naturais, faziam parecer mais profundos, mais sérios, destacavam num rosto aquilino e oval, levemente amaciado de pó-de-arroz. Uma mulher esguia e seca, com um cordão de ouro de relógio caído ao comprido do corpete de seda, chato, desembaraçou-se da capa e ela, com um movimento delicado e leve, voltou-se e ficou imóvel, de perfil, olhando o palco.
Foi logo sensação, no público amodorrado. Binoculavam-na «à carga cerrada», como disse o poeta Roma, autor estimado dos Idílios e Devaneios; mesmo um sujeito gordo, por baixo do camarote dela, ao torcer o corpo num movimento brusco de curiosidade, escorregou no degrau do balcão, caiu: houve risadas; ela debruçou-se e — enquanto o sujeito gordo, muito avermelhado, esfregava os rins, furioso falou a mulher esguia que se conservava direita, sentada a beira da cadeira, com um respeito de aia e uma rigidez de devota. Tinha um nariz carnudo e vermelho, o cabelo muito acamado pela escova e o seu sorriso condescendente mostrava longos dentes carnívoros. Parecia evidentemente uma velha governanta inglesa e, para olhar para o palco, assentou cuidadosamente uns óculos.
Murmurou-se logo no balcão que a estrangeira devia ser a princesa de Breppo, uma parenta pobre e remota da Casa de Saboia. Mesmo a condessa de Triães, ressequida como um galho murcho, com uma camélia branca nos seus cabelos grisalhos, excogitou logo se «el-rei daria por ela»; mas o rei conservava-se imóvel, com os braços assentes sobre o rebordo do camarote, de lunetas azuis e os ombros cobertos por vastas dragonas de almirante; e a rainha, muito graciosa, de roxo, com os dedos, onde reluziam pedrarias, apoiados à face, seguia sorrindo às pernadas grotescas do «Conde Óscar». «Não davam pela princesa.» Ela, todavia, dizia-se, era esperada em Lisboa, de passagem para o Brasil onde a levava a intratabilidade dos credores, a curiosidade botânica pelas flores da América e o seu tédio da Europa.
Era um benefício, havia enchente. Num camarote, vestida de cor de lilás, com o cabelo enchumaçado em capacete, estava a viscondessa de Rosarim, branca e gorda, cuja virtude escandalizava Lisboa, a ponto de se gritar dela com impaciência e cólera: «Que estúpida, que estúpida, Santo Deus!»
Ao lado, escondia-se, por detrás de um largo leque negro, a menina Ginamá, da Baía, cujas meias de seda muito mostradas excitavam na população a lubricidade mais indomável. De frente, no meio de uma família respeitável e religiosa, sorria a menina Mercês Pedrão, a Mercezinhas, que — dizia-se — dava a todos os menores de cinquenta e cinco anos que se lhe aproximavam os afagos refinados de uma voluptuosidade prudente. E no camarote ao fundo, com diamantes nos peitilhos, estavam dois pretos tristes.
No balcão, via-se o esbelto padre Agnaldo, de lunetas de oiro, com a coroa disfarçada, muito aplaudido no Martinho, quando às nove horas bebia chartreuse amarela, achincalhando os dogmas; o deputado Carvalhosa, ainda amarelo de vícios que amara na universidade; o estimado poeta Roma que, nos dias alegres, inventava palavras picarescas e, nos seus dias «spleenáticos», cantava o luar nos vales e o seu amor por duquesas e, ou triste ou jovial, não despregava do crânio cheio de caspa as unhas cheias de lodo.
De um camarote a outro, ia o bom Baldonísio, calvo e rapado, com o seu passinho saltitante, um rebolar doce de quadris, de expressões suaves, com uma voz de cigarra, muito atento à prática dos jejuns, muito querido da aristocracia devota. As senhoras sorriam ao ilustre pianista Fonseca, que ajeitava constantemente os seus óculos de oiro e, na véspera, publicara uma valsa, o Trono, oferecida a suas majestades. E era muito observado o social Pavilhão, querido pelo seu talento em imitar atores, animais, uma locomotiva silvando e o som triste de um oboé.
Havia um camarote ruidoso apinhado de espanholas caiadas. Na plateia, enterrada em baixo, de um tom neutro e escuro, reluziam charlateiras de alferes. Abafava-se na mistura das respirações e na opressão. Os gordos suavam, corriam palpitações de leques. Mãos, calçadas de luvas de cor de sangue de boi, de fundo de garrafa ou gema de ovo, cofiavam cerimoniosamente recurvas pêras aguçadas. Nas varandas, uma criança chorava obstinadamente. E a gente anónima — que digere, procria e morre anonimamente — fazia errar os olhos muito negros aqui e além, sem ideias.
A estrangeira, agora, tomara o seu binóculo e fixava, um momento, a rainha, os penteados enchumaçados e floridos de senhoras, o perfil fino e galante de D. João da Maia e as meninas espanholas. De vez em quando, sorrindo, falava à governanta magra. Estava vestida de seda cor de pérola, com um pequeno decote quadrado: era loira ou pintada de loiro e, sobre o colo de uma cor de leite cálido, pousava, preso por uma fita clara, um medalhão de esmalte negro, orvalhado de diamantezinhos.
Dois homens, sobretudo, no balcão, pareciam fascinados por ela. Um, sorrindo demonstrativamente, remexendo-se na sua cadeira, polindo os vidros do binóculo, fitando-a, de cotovelos no ar, era um sujeito de trinta anos, baixote e roliço, com um buço negro num rosto balofo. Chamava-se Dâmaso Mavião: dizia-se familiarmente «o Dâmaso». Era rico, muito estimado. O seu pai fora agiota, mas ele usava no dedo um anel de armas; eram quase, sem modificação, as armas do conde de Malgueiro, jogador decrépito e borrachão embrutecido a quem Dâmaso, por chique, dava placas de cinco tostões. Tinha umas calças de avelã e o colete aberto deixava ver um peitilho reluzente, cujos botões eram mãozinhas de coral, sustentando lapiseiras de oiro.
O outro — um rapaz de vinte e três anos — admirava-a, imóvel, com os braços cruzados, estudando-a com a aplicação que se dá a um quadro ilustre. Nunca vira, decerto pensava, uma beleza tão atraente e desejável, um esplendor igual ao da sua pele branca e quente, tão belos movimentos de pálpebras com pestanas tão longas: a linha do pescoço e do seio excedia o que ele observara no peito das estátuas ou de gravuras; e a massa do seu cabelo loiro parecia-lhe dever ser pesada e doce, quando se apanhava nas mãos, e ter o calor macio das coisas vivas. A sua carne devia ter sensibilidades excecionais, elasticidades para fazer tremer um homem; e exalar subtilmente um aroma. Na seda mesmo que a cobria imaginava uma vitalidade e como outra forma da sua pele. Nunca observara, em nenhuma outra mulher, aqueles movimentos de pescoço, tão doces que não se percebia o jogo dos músculos; e quando ela descalçava a sua luva de dezoito botões, ficou pasmado para a sua pulseira — uma cobra que se lhe enroscava no braço em cinco voltas e parecia pousar, com delícia, sobre a carnação branca, a sua cabeça chata onde reluziam dois grossos rubis, como olhos ensanguentados.
Dâmaso dissera-lhe com autoridade «que positivamente era princesa» e àquela ideia sentia-a infinitamente distante de si, como perdida num fundo de glória, com a altivez das famílias históricas e a inacessibilidade das rainhas. Qual seria o seu passado? O som da sua voz? A maneira de sentir? Teria amado? Quem?... E não a concebia noutras atitudes que não fossem cerimoniosas e ricamente vestida; não a podia compreender num fundo de alcova, numa brancura de camisa; o seu meio eram as altas salas adamascadas, onde pendem estandartes legendários, e semicírculos de pajens se curvam.
Porque estava ali, então, num camarote do Trindade, com uma aia feia? Teria as simplicidades de um coração poético? Poderia amar um qualquer? Que formas tomava o seu amor, com que delicados gestos se abandonaria, com que palavras finas? Ela devia inspirar fanatismos, como uma religião. Quem é que possui semelhantes criaturas?...
Pensava assim, vagamente, porque era de temperamento sentimental e melancólico. Chamava-se Vítor da Silva, era bacharel em Direito, vivia com o seu tio Timóteo e praticava no escritório do soturno Dr. Caminha. Tinha trazido da universidade e da convivência literária um vago romantismo, um tédio da atividade e da profissão, e uma tristeza mórbida; lia muito Musset, Byron, Tennyson; ele mesmo fazia versos; publicara, aqui e além, em jornais, em semanários, poesias: o Sonho de D. João, Flores da Neve, alguns sonetos; compusera ultimamente um poemeto sobre o rei Artur, a Távola Redonda, os amores de Lancelote e o Santo Graal. A vida real, em redor, dava-lhe a melancolia de uma imperfeição bruta. Não desesperava de encontrar uma amante como Julieta; ao contacto de realidades muito fortes, perdera já algumas superstições românticas, mas a falta completa de ironia fazia-o persistir na veneração do ideal. Levantava-se tarde, odiava os autos, era republicano e era janota.
— Olha que ela percebe o português — exclamou de repente Dâmaso, com um brusco cotovelão.
— Porquê?
— Está-se a ver, olha. Está-se a rir do Isidoro.
O segundo acto terminava. O regente, aos pulinhos, brandia a batuta, os arcos das rabecas subiam e desciam, com o movimento de serras apressadas; agudezas de flautins sibilavam e o «bombo», de pé, de óculos, com o lenço tabaqueiro sobre o ombro, atirava baquetadas à pele do tambor, com uma mansidão sonolenta. Sobre o palco, Carlota, muito escangalhada, arrastando aos sacões, através da corte, a sua cauda enxovalhada, gania:
Aquela gorda varina
Aposto que é Clementina
E as coristas, com grenhas desmazeladas, escandalizavam-se pasmadamente, erguendo ora um braço, ora outro, com rigidezes de articulações de pau. A «rainha» gorda, escarlate, suave; «El-Rei Bobeche» babava-se; e as palmas e gargalhadas romperam quando ele e o «Conde Óscar», torcendo-se de facécia, nas poltronas reais, colaram, um contra o outro, as solas dos sapatos, fazendo as pernas convergentes de um W patusco!
O pano caiu. Um rumor ergueu-se; saía-se; pessoas respiravam encalmadas; leques batiam e, pouco a pouco, nos camarotes nos balcões, ficou-se em silêncio, olhando com um cansaço morno; bocejos leves; uma vaga aplicação de binóculos, aqui e além.
A porta do balcão, um grupo examinava a estrangeira; faziam-se comentários; seria a princesa? Mas um sujeito afirmou que a princesa era uma velha baixinha, com um chinó. Devia ser, talvez, a dama nova que vinha para S. Carlos. E um indivíduo grisalho, um pouco gago, que penetrava no grupo, ficou e disse com autoridade:
— Aquilo é gado!
Como era uma pessoa que tinha ido a Madrid e a Paris, em comissões do Governo, as suas decisões sobre deboche, ou sobre cozinha, eram muito acatadas. E dois brasileiros, de dorsos pesados, afastavam-se com tédio, murmurando:
— São destas francesas que vêm a ver si arrecadam. Como há tantas, no Rio! Tantas, no Rio!...
Mas todos concertavam que era de apetite; o seio era muito gabado. Um rapaz macilento, de jaquetão abotoado, chapéu de abas direitas, como um prato, e uma bengala de castão homicida, fez luzir os olhos em redor, dizendo numa frase curta e rouca:
— O que eu faria, se a pilhasse ajeito!
Discutia-se, em tons altos, se era loira ou pintada de loiro. Como eram todos íntimos, diziam-se: «seu asno», «seu alarve». Um advogado, irritado, apostou duas libras que era tingida.
Ela, no entanto, fora sentar-se ao fundo do camarote, falando a espaços com a inglesa, numa atitude fatigada, com pequeninos bocejos que uma mãozinha comprimia — o que punha, no fundo escuro do camarote, vagas cintilações de pedras finas. Vítor da Silva, que a não podia ver bem assim, ia erguer-se, para se sentar adiante, na extremidade do balcão, quando viu entrar no camarote dela um homem conhecido, o Joaquim Marinho.
Marinho era de Trás-os-Montes, mas, havia anos, vivia em Paris. O seu património tinha sido uma tira de má terra ao pé de Bragança; mas os seus amigos — que diziam dele, com uma voz respeitosa e erguendo as sobrancelhas: «é um finório!» — afirmavam que ele enriquecera em Paris, e falava-se com seriedade nos «fundos do Marinho». Era baixo, delgado, com uma calva grave e bela barba aloirada; tinha o pé pequenino e andava sem ruído, desapercebido, deslizando; tinha um sorriso cortesão e, falando, esfregava docemente as mãos. A sua polidez era tão refinada, que embaraçava. Tratava todas as pessoas por «meu excelente amigo». Trazia o bolso cheio de pastilhas de chocolate, para as senhoras. Era tão serviçal que se oferecia, com júbilo, a ir deitar uma carta ao correio, ou despachar um caixote à alfândega. Se, diante dele, um par do reino, um diretor-geral, falava ou do tempo ou dos touros ele escutava com os olhos arregalados, mordendo o beiço inferior, como na admiração assustada de uma sabedoria sobrenatural. Oferecia cerveja a capitalistas, no Balthreschi, e, com os rapazes, tinha palavras paternais passava-lhes a mão pela cinta, cochichava brejeirices sobre dançarinas. Usava sempre paletós magníficos. Se lho gabavam, tirava-o logo, mostrava o pano a uma luz favorável, o forro a solidez das costuras, e dizia baixo:
— Uma bagatela. É a primeira vez que o ponho: cinco libras.
E fazia sempre o negócio. Dizia-se dele: «O Marinho? O Marinho é a fera de Lisboa!» Jantava quase sempre fora e queixava-se de nevralgias.
Vítor estava surpreendido da sua familiaridade com a estrangeira; tinha-lhe apertado as mãos, muito risonho; apossara-se do seu binóculo, dizia-lhe segredinhos, ela ria. Positivamente não era a princesa e uma vaga alegria sobressaltou-o.
Foi também a opinião do Dâmaso, que, da porta do balcão, com outros, olhava torcendo o buço:
— Com aquela intimidade com o Marinho, não pode ser a princesa.
E decidiu-se que devia ser a dama nova de S. Carlos.
— Então, temos mulher! — exclamou Dâmaso. — Se se fizer fina, escacha-se com pateada.
E para o rapaz macilento, de bengalão homicida:
— Tu arranchas, visconde?
— Liró — respondeu o outro, com a voz roufenha. Queria dizer «sim».
Mas o ilustre pianista Fonseca, atarracado, com as mãos atrás das costas, disse que a dama nova era uma magra, baixa, com o cabelo como azeviche. O Marinho, então, é que havia de dizer. E como ele saia, então, do camarote da estrangeira, vieram ao corredor, cercaram-no.
— Quem é, quem é?
— Seus curiosos! Seus curiosos!
— Não te faças tolo. ó Marinho!
Ele passava a mão pela barba, com risos mudos, a cabeça de lado; e confidencialmente:
— Uma senhora da primeira sociedade! Da primeira!
— Francesa!
— Isso agora...
Sorria, defendia-se. Pessoas em bicos dos pés formavam grupo; um camarista de el-rei, amável, subtil, estendia a orelha, risonho: e um velho caquético, surdo, com um enorme claque de cetim, fazia repetir as palavras de Marinho, por um homenzarrão de pêra aguda, que se curvava respeitoso e dizia: «Senhor conde...»
Enfim, Marinho, muito solicitado, as costas contra a parede, debaixo de um bico de gás, raspando a cal com uma das solas «largou tudo». Tinha-a conhecido em Paris, em casa da baronesa de Villecreuse, pessoa muito respeitável, separada do seu marido, que vive nos Campos Elísios, a dois passos de Madame de Sagan. E para um sujeito barrigudo, pomposo, de barba grisalha:
— Tu sabes, Vasconcelos...
O sujeito respondeu com uma áspera voz de grilo:
— E eu que me pélo pelo sítio...
— Pois foi aí que a conheci. Convidou-me, jantei algumas vezes em casa dela. Chama-se Madame de Molineux. É portuguesa, da ilha da Madeira. O velho Molineux, um maganão, era senador do Império. Comia-se, naquela casa!... — E pôs os olhos em alvo, num enlevo. — Os Molineux são uma família antiquíssima da Normandia. Quando foi aquela desgraça de Sedan, o velho foi para a Bélgica e lá morreu. E tudo o que sei dela. Chamava-se Genoveva.
Então alguém perguntou:
— E a outra mulher?
— Dama de companhia, espécie de aia. Uma inglesa... Lá vou! Lá vou! — era respondendo a Dâmaso que se afastava e lhe fazia pst, pst?
A campainha tocava, dispersavam-se. E Marinho, indo passar o braço pela cinta de Dâmaso:
— Que é? Que é?
— Oh, Marinho, aquilo é mulher de...?
O outro, abrindo os braços, baixando a cabeça:
— Chi-lo-sa?
E Dâmaso, mais baixo, prendendo-o pelo botão do casaco:
— Tu podias-me apresentar, hem?
— Perfeitamente! Perfeitamente! Ela até me pediu que no outro intervalo, lhe levasse alguém!... Ele não é da etiqueta apresentar, num teatro... mas, aqui... Ela pediu-me, de resto.
A orquestra acompanhava a ária.
Novos amores,
Colhei as flores...
— Então, logo — disse Dâmaso.
Mas Marinho deteve-o e, levando-o pelo braço, ao comprido do corredor, falava-lhe, curvado, urgente.
— Mas, para quando? — perguntou Dâmaso.
— Se pudesse ser, amanhã — respondia Marinho. — Eu passo pela tua casa. Tu desculpa, mas realmente estou atrapalhado... E por uma bagatela, uma ridicularia! Coisas do país! Quando é que, num hotel, em França, se importuna um cavalheiro, uma pessoa conhecida, por uma miséria de sessenta e dois mil réis! Porcaria! Amanhã, hem?... E logo, vamos à mulher, antes do fim do acto. E atira-te! Atira-te!
Esfregou muito as mãos, com um risinho mudo, e foi ao camarote da viscondessa de Rosarim, da «nossa virtuosa beleza», como ele dizia, curvando-se.
Dâmaso entrou no balcão, triunfante, deitou logo um olhar para Madame de Molineux, como para tomar posse dela, começou a calçar as luvas; e inclinando-se para o encosto de Vítor:
— O Marinho vai-me apresentar!
E contou-lhe que era uma condessa, uma parisiense, de um chique! É portuguesa! Quem diria? Soberba mulher! Dava-lhe o que ela me pedisse!
Estava muito seguro de si. Em geral, achavam-no «janota» e diziam dele: «O diabo do Dâmaso nunca está sem mulher!» Uma atriz gorda do Príncipe Real, fada de mágicas, por ele tomara cabeças de fósforos. Era muito disputado entre as espanholas e o episódio aristocrático da sua carreira sentimental fora em Sintra, quando o social Padilhão o surpreendeu, nos Capuchos, com a condessa de Aguiar. A condessa era, é ainda, como um prato de mesa-redonda: o que a recebe do seu vizinho da direita serve-se e passa-a ao vizinho da esquerda. Desde então Dâmaso fitava as mulheres de frente, torcendo o buço, e quando às três horas fazia caracolar o cavalo, pelo Largo dos Mártires, sentia Lisboa às suas ordens.
Vítor, calado, agora achava-a mais cativante. Vivera em Paris — pensava — num elemento original e superior; fora às Tulherias, e sobre aquelas belas espáduas pousara decerto o olhar abatido e poluente do velho Imperador Taciturno. Conhecera os autores ilustres, visitara os ateliers memoráveis e o que ele lera ou ouvira de Paris agrupava-o em torno dela, como uma decoração natural e via-a vagamente confundida ao espírito de Dumas filho, às gravuras de Doré, à música de Gounod, aos velhos generais do Jockey Club e aos requintes do Café Inglês — formação adorável de uma civilização superior.
No entanto, no palco, cinco mulheres enxovalhadas, de cabelos ignobilmente riçados, com decotes lassos que descobriam clavículas necessitadas, cantavam em linha, com tons agudos, num ritmo pulante.
Mortas desta cova
Surgi pa-ra a vida, pa-ra a vida, pa-ra a vida!...
E da porta do balcão, Marinho, em bicos de pés, fazia acenos a Dâmaso. Ele reparou, precipitou-se, pisou uma criança que fez beicinho, derrubou o binóculo de uma senhora obesa. Ia pálido.
Mesmo uma velha, que se repimpava por trás de Vítor, disse com satisfação:
— Deu-lhe alguma cólica.
— Põe-se-no a comer neves... — murmurou uma outra, cujo egério parecia amargo.
E as cinco magricelas, em fila, retomando o quinteto, ganiam:
Mortas desta cova,
Surgi pa-ra a vida, pa-ra a vida!
Marinho entrou com Dâmaso no camarote de Madame de Molineux, apresentou-o e saiu recuando subtilmente. Ela teve para Dâmaso um movimento muito ondulado do pescoço e, indicando a inglesa:
— Miss Sarah Swan...
Dâmaso recurvou-se. Estava vermelho.
— Do you speak english? — perguntou-lhe Miss Sarah.
— Aprendi no colégio, mas estou esquecido.
Miss Sarah arreganhou os beiços num sorriso, tossiu e, ajeitando os óculos, fixou o palco.
Madame de Molineux voltou-se, então, de leve para Dâmaso, que se apressou a perguntar-lhe:
— Vossa excelência tem gostado?
— Sim, muito bem.
Afetava um acento arrastado e estrangeiro.
— Conhecia a peça?
— Ouvi-a em Paris, nas Varietés, creio.
— Muita diferença, naturalmente — sugeriu Dâmaso.
Ela concordou, polidamente, com um sorriso mudo.
Houve um silêncio. Dâmaso, mais vermelho, passava devagar os dedos pelo buço; tinha um suorzinho na espinha. Mas o pano desceu; o rumor do entreato recomeçou. Madame de Molineux veio sentar-se ao fundo e, ao roçar por Dâmaso, a nobre beleza da sua pessoa, o frufru da seda, a penetração de um aroma, fizeram-no maquinalmente vergar os ombros.
Viu então que alguns vidros de binóculos o observavam; quis parecer animado, chique, e com voz muito lançada, o gesto arqueado:
— Vossa excelência chegou há muito?
Ela verificou com Miss Sarah, em inglês, a data e disse:
— Há cinco dias.
E Dâmaso, então, com um repentino fluxo labial, acumulou as interrogações:
Se era a primeira vez que vinha a Lisboa?
Era. Fora da ilha da Madeira para Londres e de lá para Paris...
Se gostava de Lisboa? «Muito!» Se já vira o Passeio, S. Carlos? «Sim.» Se fora a Sintra? «Não.»
Estava um pouco caída na cadeira, as mãos estendidas no regaço, sustendo o leque fechado. Tinha as mãos finas, brancas, mas fortes, como desenvolvidas pelo hábito das rédeas e pela atividade dos costumes.
Dâmaso então ofereceu, no caso que ela quisesse ir a Sintra, a sua casa em Colares. Era uma casa de estudante...
Mas vendo o seu olhar levemente surpreendido, corou, atalhou.
— Eu agora estou em Lisboa; no Inverno, vivo sempre em Lisboa...
— Perdão — interrompeu ela —, quem é aquela senhora de azul-escuro, em frente?
Era a condessa de Val-Moral. Dâmaso deu-se como intimo. «De resto, podia-lhe fazer-lhe a biografia de Lisboa», afirmou. «Conhecia, se conhecia!... E conhecido, então!...»
Animava-se. Citou outras senhoras; achou elegante aludir a escândalos; indicou-lhe alguns rapazes da sociedade; falou de touros; emitiu mesmo o ator Isidoro.
Ela disse vagamente, abrindo o leque com um gesto cansado:
— Tem graça...
Dâmaso ficou seguro de que lhe estava a fazer uma impressão dos diabos. Excitou-se; tirou as luvas; pediu para examinar os desenhos do leque. E mesmo para lhe falar, com o cotovelo no rebordo do camarote, voltava um pouco as costas ao balcão.
— De todas as senhoras que estavam — dizia ela —, a mais senhora, a melhor, a única, era a rainha. — E pondo um dedo na testa, um pouco franzida:
— De que família é ela?
Dâmaso apressou-se s dizer que era da Casa de Saboia, filha de Vítor Manuel.
— Ah, sim! Louca, que eu sou! É irmã do Humberto... Bravo rapaz, não é verdade?
— Diz que sim, diz que sim... Todos eles, todos eles...
— Montava muitas vezes a cavalo com ele, há dois anos, em Paris, de manhã. Não é costume, em Lisboa, passear-se de manhã a cavalo?
— Oh, pois não!
Citou logo os seus cavalos; tinha três: o de sela, e o de fáeton; e um de serviço para o cupé, à noite.
Falaram de corridas. Ela assistira ao Derby, em Epson. E Dâmaso gabou logo a corrida de Belém. Ouvira dizer a estrangeiros que, como vista de hipódromo, não havia melhor no mundo; de resto, era tal qual como lá fora.
— Até entre nós, nas pesagens falam sempre inglês.
E recostando-se, cofiou o bigode.
Então Madame de Molineux quis saber quem eram aquelas senhoras que estavam no... no vinte da segunda ordem. Eram as raparigas espanholas; tinham camélias nos penteados disformes, camadas de pó-de-arroz nas cantas redondas. A cada momento, a porta do camarote batia e elas cochichavam, agitavam-se. Batiam desesperadamente os leques e, debruçadas, sondavam o balcão, a plateia, com olhares devoradores e, de repente, para parecerem, imobilizavam-se em atitudes de uma rigidez idiota.
Dâmaso olhou, sorriu, fez-se embaraçado, quis ser maligno:
— São... — E com um francês de sílabas escancaradas — São o dèmis-mônde.
— Ah! — E Madame de Molineux tomou tranquilamente o binóculo, demorou-se sobre as espanholas. — Uma não é feia — disse.
— A Lola! — exclamou involuntariamente Dâmaso. Mas mordeu o beiço, fez-se escarlate.
E Madame de Molineux perguntava:
— Há aqui restaurantes onde se vá cear depois do teatro, alguma coisa no género do Café Inglês do Maison d'Or?
— Infelizmente não! O país está muito atrasado. Temos o Malta, temos o Silva.
— E a que missa é costume ir?
Dâmaso aconselhou-lhe a da uma hora, ao Loreto. Havia muito boa roda...
No entanto, a inglesa conservava-se calada. Às vezes, voltando-se para Madame de Molineux, abria sem razão um sorriso humilde; ou, erguendo o binóculo, fixava-o num homem e logo retomava uma imobilidade severa, fitando os seus olhos de um azul-baço, vagamente, em pontos no ar. Madame de Molineux bocejou de leve.
— Estou um pouco cansada, creio. Levantei-me cedo, para ir acompanhar uma pessoa amiga ao paquete que saiu para o Brasil.
— Ah, pois hoje saiu o paquete...
E como a orquestra afinava, Dâmaso ergueu-se:
— Um criado da vossa excelência.
— No Hotel Central, das duas às quatro. — E ela fez-lhe uma curta inclinação de cabeça.
Dâmaso voltou ao balcão, radioso, e atirando-se para a cadeira, baixo, a Vítor:
— Tenho mulher.
E logo, recostando-se, começou a «fazer-lhe olho».
Mas Madame de Molineux erguera-se subtilmente e, num instante, ficou envolvida na sua peliça de seda, com o capuz sobre o rosto.
Dâmaso ergueu-se agitado.
— Anda daí — disse a Vítor —, anda daí, homem.
Desceram; colocaram-se em baixo, à porta. As lanternas da carruagem que esperavam luziam na rua escura; garotos, de cigarro ao canto da boca, esperavam; o peristilo estava deserto, com as suas paredes cobertas de anúncios de almanaque e de empresas tradutoras; no café, um criado encostado a uma coluna, sob o bico de gás, lia um jornal enxovalhado; outro, dormitava estendido sobre o mármore de uma mesa; e do fundo vinha o ruído monótono de carambolas no bilhar. Mas houve um frufru de seda; era Madame de Molineux. Era alta, a sua peliça muito larga, e apanhando a cauda do vestido descobriu a renda das saias, a meia de seda preta.
Dâmaso adiantou-se e ficaram conversando à porta enquanto um garoto corria desesperadamente pela rua, ganindo pelo «cocheiro do Hotel Central».
Vítor, ao pé do guarda-vento, com o coração alvoroçado, embrulhava nervosamente um cigarro. A brancura da saia que vira e a sua estatura nobre; os ricos bordados da peliça, perturbavam-no, como uma presença superior. Dâmaso bamboleava o corpo, batendo com a badine nas calças; parecia falar do tempo; a noite estava escura, com uma palpitação fria de estrelas.
Mas então Madame de Molineux voltou-se e pareceu reparar em Vítor; mesmo os seus olhos negros, que reluziam, pareciam maiores debaixo do capuz, pousaram-se um momento nele. Mas o garoto chegava, esbaforido, atrás do cupé da companhia. Dâmaso arqueou o braço e ela, no movimento de apanhar melhor a cauda, tornou a voltar-se e fitou Vítor diretamente.
Ele ficou todo suspenso, com o coração surpreendido. A portinhola bateu.
— Vamos cear ao Malta, hem? — disse Dâmaso. E descendo a rua, assobiava satisfeito a marcha do Fausto.
Vítor ia calado. Sentia o sangue correr-lhe nas veias, com uma vivacidade imprevista. Carruagens saíam de S. Carlos, grupos passavam, onde capas de mulheres alvejavam. E ele achava Lisboa interessante; queria publicar um poema, ou ser aplaudido num teatro e ser, na cidade, uma pessoa essencial.
Quando entraram no Malta, o criado veio bocejando abrir na sala o bico de gás; uma luz crua, um pouco trémula, bateu as paredes, o teto baixo; e com uma voz enfastiada:
— Então, que hão de querer os senhores?
Dâmaso, em frente do espelho, examinava-se, torcia o buço; sentia-se estroina, vivo, cheio de energia.
— Vá, então, que hão de querer? — repetia a voz sonolenta.
Viram a lista, decidiram-se por dois meios bifes.
Dâmaso sentou-se em frente de Vítor, e, com os cotovelos na mesa, fixando-o muito:
— Que soberba mulher! Caramba, menino, olha que tenho sorte! E desdobrando o guardanapo gritou com um movimento estroina:
— E Colares branco, ó Manuel!
CAPÍTULO II
Quando ao outro dia, às onze horas, Vítor desceu para o almoço, já o seu tio Timóteo estava na sala, ao pé da vidraça aberta à manhã luminosa, na sua larga poltrona, lendo os jornais, com uma perna dobrada sobre o corpo, à oriental; a outra, que era de pau, pousada sobre o poial da janela.
Moravam na Rua de S. Francisco, um pouco adiante do Grémio, no terceiro andar. Era nos princípios de Dezembro, o Inverno ia muito seco, com um ar fino e são, céus muito azuis, um bom sol para os velhos.
O tio Timóteo tinha sessenta anos; era pequeno e magro, falador e arrebatador. O seu rosto móbil tinha uma cor queimada, com faciais salientes; olhinhos faiscantes; uma gaforina branca atacava-se-lhe na cabeça e as suíças curtas, brancas também, vindo ao centro da face, eram de um corte atrevido. Era um juiz aposentado; toda a sua carreira fora feita no ultramar; estivera sobretudo muito tempo na Índia, onde perdera a perna numa caça aos pássaros, o que o irritava, porque — dizia ele — devia-a, ao menos, ter deixado nas goelas de um tigre. Todo o seu temperamento fora sempre mais guerreiro que jurídico. Em Coimbra, era desordeiro e jogador de pau, e no seu tribunal, mais tarde, tinha punhadas sobre a mesa que faziam empalidecer as caras acobreadas dos advogados indígenas. Vivera em todas as comarcas em conflitos permanentes com as autoridades; espancara mesmo um secretário-geral da Índia, sujeito pacífico que compunha odes e sofria dos intestinos. Mas estimavam-no pela sua honradez severa e porque, sob aqueles ímpetos exteriores, era cheio de bondade, de piedade, com certos tons de sentimentos muito finos.
Era um grande amante dos fracos e intervinha por eles, com atrevimento de paladino. Uma ama que, na rua, sacudisse uma criança, um carreiro que tiranizasse um boi, um garoto que escaldasse um gato, tinham logo ao pé a voz trovejante de Timóteo e a sua bengala de castão de prata.
Sua mulher, uma excelente senhora macaísta, deixara-lhe oitenta contos, o que o habilitava — dizia ele — a «ter tipoia e sobrinho». A sua afeição real era Vítor; a sua admiração, a Inglaterra; assinava o Times e lia-o todo, devotamente. E o seu companheiro era um cão, um retriever inglês chamado Dick. Timóteo era um grande madrugador, sectário de água fria, interminável fumador de cachimbo e bebedor de grogues. Detestava os padres e dizia que todo o homem que aos vinte e cinco anos nem era casado, nem tinha uma amante, era sujo.
— Quem é esta princesa de Breppo? — perguntou ele com um tom arrenegado mal Vítor entrou; e fixava severamente o Diário Popular, com grandes lunetas de tartaruga.
— Porquê? Que diz?
Timóteo leu:
— Acabam de chegar do Teatro da Trindade, onde o benefício, etc., etc.. Ah!... Num camarote, via-se uma formosa senhora estrangeira, que uns afirmaram ser a princesa de Breppo.
— Ah, não! Dizia-se, mas não é. É uma senhora francesa, uma Madame de Molineux...
— Estes bisbilhoteiros destes jornais... — rosnou Timóteo.
Vítor aproximava-se da janela bocejando. Dormira mal. Tinha saído do Malta às duas horas; e nervoso, pesado da ceia, toda a noite sonhara com Madame de Molineux, com personagens da História da Revolução Francesa, de Michelet, que andava lendo, e com recordações das poesias de Tennyson. Era numa rua do Bairro Alto e alguém o queria apresentar a Madame de Molineux, mas, quando iam a apertar as mãos, alguma coisa de inesperado passava violentamente entre eles: primeiro fora o cavaleiro da Távola Redonda, Sir Galahad, com um lírio no escudo, a sua armadura de prata, pluma branca no elmo, que os repassou dizendo: «Eu sou forte, porque sou virgem: ando à procura do Santo Graal e destruo os amores culpados.»
Depois, fora uma manada de carneiros muito brancos, com os dorsos algodoados, muito unidos, balando tristemente, exalando aromas de pastagem. E eles, por causa do rebanho, estendiam os braços, mas não podiam unir as mãos. Mas, enfim, iam enlaçar-se, quando uma carreta a trote fez a rua estreita, sonora; povo cercava-a gritando e, sacudidos pelos solavancos, com os rostos altos, três homens iam de pé na carreta; um era o Camilo Desmoulins, que chamava: «Oh, Lucile, Lucile!»; outro, era Danton, sorrindo soberbamente; e o terceiro era seu pai, seu pai que apenas conhecia do retrato que ali estava na sala de jantar; seu pai vestido como um convencional, o olhar sepulcral, uma trança de cabelos negros de mulher, apertada contra o peito.
E Vítor espreguiçava-se, cansado ainda destes sonhos. Um canário, na gaiola, suspenso à janela, pôs-se a cantar estridentemente.
— Cale-se! — berrou Timóteo.
O canário emudeceu. E Timóteo, erguendo-se com um ruído seco da sua perna de pau:
— Querem ver que o pobre animalzinho não tem painço nem água. Clorinda! — berrou.
Uma mulher rechonchuda e fresca veio.
— Então, são onze horas e estes pássaros não têm água fresca nem comida. Nada de tolices, Clorinda, hem? E o almoço para nós!
E dirigindo-se à mesa, apoiado à bengala, com o jornal na mão:
— Então não era princesa hem? Poderia ser. Sabem lá nada! — E revirando o periódico, sacudindo-o: — se isto é um jornal! Aqui estão os artigos, as informações, as criticas: «Foi aprovada a tarifa especial número um não sei de quê... Foi despachado aluno pensionista do instituto, o senhor não sei quem... Parece que o senhor Fulano de tal não quer ir para Mirandela, conservador... O senhor Sicrano vai para leilão da sua casa de penhores... Foi aceite pela Câmara de Vila Nova de Famalicão a proposta do marchante Fernandes João...» Etc. Isto é extraordinário... Tudo do princípio ao fim... E duas colunas de «partir e chegar»: faleceu, por amor... Burros!... E há três dias que não recebo o Times... E é um pais isto! Clorinda! Estes ovos começavam a estar duros, Clorinda!
Pusera a bengala entre os joelhos, atara o guardanapo ao pescoço e dava torradas a Dick, que, sentado ao lado, fitava, olhos sôfregos, batendo a cauda no chão. E encarando Vítor:
— Que diabo tens tu, homem? Estás amarelo! A que horas entraste? A que horas o sentiu você, Clorinda?
A excelente mulher sorria finamente.
— Vim às duas horas, tio Timóteo e estive ainda a ler.
— E querem ter saúde! — exclamou o tio Timóteo, batendo com o talher na borda do prato. — E não querem ter nada na espinha! Arrasa-te homem, arrasa-te. Aos trinta e cinco anos hás de ter pés-de-galinha, corcovar, sofrer dos rins e olhar para as mulheres... de longe.., desinteressado da questão, inteiramente desinteressado.
Vítor riu.
— Estive a ler o que, antes da revolução, os seus amigos senhores feudais, abades e bispos faziam aos servos: bastonada, tortura, forca, um horror.
— Era mal feito — rosnou Timóteo. — O servo, o trabalhador, é homem; deve merecer o respeito do homem. Se fossem negros ou índios, não digo...
Vítor protestou escandalizado. O quê, os Índios! Uma raça nobre!
— Tolices. Quem chama a um Índio um homem, ou nunca viu homens, ou nunca viu Índios! E como eu, na revolta em Goa... Mandar regimentos... E curioso! Com dois homens e dois paus, varro a índia! Olha os Ingleses. É um punhado de polícias a contas com centos de milhões de homens. É uma questão de alimentação, meu rico. Que há de fazer gente que come arroz aguado, contra sólidos maganões que jantam rosbife? Vergar! Vergar!
Vítor tinha uma vaga política sentimental. Odiava os Espanhóis batendo em Cuba; os insurgentes da Manágua; o czar, governando a Polónia, a vergastadas de cnute, e os Ingleses punindo a Irlanda, terra céltica, ilha dos bardos. Disse, encolhendo os ombros:
— Tiranos!
— Tiranos — exclamou Timóteo, com o olhar flamejante. — Mas sabe lá você quando se exaltava, sobre a política colonial, dizia a Vítor «você», sabe lá você o que eles têm feito na índia? Tudo! Cidades, caminhos de ferro, pontos, docas, rios navegáveis, plantações. Antigamente, quando havia uma fome na Índia, morriam aos milhões. Aos milhões! E agora, nunca lhes falta o arroz. Lá está o Inglês para dar o arroz.
Mas Vítor considerava os Índios mais poéticos que os Ingleses. Falou do idealismo, das suas arquiteturas, do maravilhoso dos seus poemas.
— Está a dizer barbaridades. Poemas! Vá ver o negócio do algodão, em Calcutá, em Bombaim! Isso é que são poemas! Com os seus poemas, viviam nos campos e andavam nus. E agora? Bem alojados, nutridos... Quando os Ingleses lá foram, acharam-nos cobertos de piolhos. E o piolho índio, então! Que piolho!
E mostrava a cabeça do dedo!
— Oh, tio Timóteo! — exclamou Vítor, repelindo o prato, o rosto transido de nojo.
— Então que tens, homem? Tens asco ao que está na Natureza. O homem deve falar de tudo e comer de tudo. Sempre te queria ver... Dos vinte e quatro aos vinte e cinco anos, todas as manhãs, o meu almoço foi um caldo de cobra. Excelente! Um ano a fio.., quando estava tísico.
Vítor abriu um olhar absorto:
— O quê? O tio Timóteo esteve tísico?
Timóteo resmungou, com o olhar no prato.
— Tive essa fraqueza, quando estive apaixonado.
Vítor riu alegremente.
— Outra! Mas essa enorme! Por quem, tio Timóteo?
— Traga o café, Clorinda. E o meu tabaco — e desapertando devagar o guardanapo. — Quando digo apaixonado, quero dizer embeiçado. Paixão, não. Dois meses depois estava curado. Mas, enfim, foi o meu único romance; nunca mais os tornei a fazer, nem a ler.
— Mas por quem foi, tio Timóteo — perguntou Vítor, curioso, com os cotovelos sobre a mesa, um sorriso vago.
— Foi pela tua mãe.
Vítor ficou atónito. Timóteo metia os restos da carne nas goelas sôfregas de Dick.
— Tua mãe tinha então catorze anos. Mas era alta, forte, com um cabelo até aos pés; parecia ter vinte e dois. Era formosa, cos diabos! Tu não podes saber, não deixou retrato. Mas... Um beleza! Era nossa vizinha. — E sorrindo — Como o tempo passa! Tinha na janela dois melros numa gaiola. E justamente então cantava-se uma cantiga:
À janela a menina trigueira
Está cuidando dos seus passarinhos.
— Eu, mal a pescava à varanda, logo a cantiguinha... Foi por isso, creio, que ela me tomou asco.
Clorinda entrou com o café e, depois de remexer muito tempo o seu açúcar, de acender o cachimbo, o tio Timóteo, recostando-se, disse:
— Eu começo a embirrar, ela começa a embirrar, eu a beber os ares por ela, ela a não me poder tragar... Pois, senhores, aí comecei a embeiçar-me... Não havia desfeita que me não fizesse! Janela na cara, costas voltadas, sombrinha carregada para o rosto, uma fera! Que ela teve sempre um génio desabrido; e muito afoita cavaleira, o diabo! Uma noite... há de lembrar-me sempre... tenho a maldita ideia de lhe dar uma serenata à espanhola. Era o tempo em que estava na moda uma espécie de «cachucha»:
Senorita, usted que tiene
Amarilla la cola...
«Ponho-me debaixo da janela, de viola.., eu tocava viola, com um certo descaramento, porque, enfim, louvado seja o Senhor Jesus Cristo, nunca me faltou o desplante... e aí começo a perguntar-lhe muito repenicadamente:
Senorita, usted que tiene
Amarrilla la cola?
«A janela abre-se e uma vozinha de cima: "É o senhor Timóteo?" Imagina como eu fiquei. Pus-me logo a calcular como havia de trepar à varanda. Fazia escuro, era de Inverno, um frio! "É o senhor?" — "Sou eu, meu amor, sou eu!" — "Bem, aí vai!" E zás! Cai-me em cima um balde de água suja! Oh, com mil raios! "Para refrescar!", grita avozinha de cima, a vozinha da desav... da tua mãe... Como diabo se chamava ela?... Joaquina.
— E refrescou, tio Timóteo? — perguntou Vítor, muito interessado, muito surpreendido, com os olhos cravados no velho.
— Refresquei: com uma pleuresia! Estive dois meses de cama e uma convalescença... É daqui que datam os caldos de cobra; era o grande remédio para a tísica, no meu tempo, e creio que ainda é, lá para Trás-os-Montes. Apenas arribei, pedi para ir para o ultramar. Fui a bordo do Santa Quitéria. O capitão era de Tondela, um baixote, ruivo, valente homem! Logo ao sair a barra, que trabuzana!... Estivemos perdidos. Cada mar! Uh! Parece que o estou a ver, de chapéu embreado, bota até aos joelhos, no convés que escorria, a aguentar-se, a berrar, e que pancadas do mar! Eu estava agarrado a um mastro. Ele avista-me; põe-se a gritar: «Você raspe-se daí, seu filho daquele diabo de cornos que está no altar-mor de Tondela!» Era a sua praga favorita. Depois, éramos amigos íntimos. E dali a um mês, eu estava curado, já amainava a bujarrona, como um homem! E da paixão nem lembrança. Éramos assim. Já não há disso.
— E depois? — perguntou Vítor, com os cotovelos na mesa.
E depois? E depois, nada. E depois, teu pai veio de Coimbra, viu-a, como eu, à janela a tratar dos melros, cantou-lhe, como eu, a cantiga. Não sei se lhe deu a serenata, mas o balde não apanhou: apanhou a bênção do padre e lá casaram... e tu fizeste a tua entrada neste vale de lágrimas. Bem vale de lágrimas... — acrescentou, com um rosto grave. E ficou calado.
— E daí a um ano, morreu a mamã?
Timóteo observou, um momento, o seu cachimbo e rosnou devagar:
— Sim, daí a um ano nasceste, ela ficou adoentada... Foi com o teu pai para os Pirenéus, foi com o teu pai e... e lá ficou. Lá ficou.
E depois de tossir ruidosamente, ergueu-se, sobre a bengala, e foi resmungando, grosso:
— E aí está como as coisas se passam... Este mundo é assim. Uma choldra!...
O relógio da sala deu meio-dia.
— Oh, diabo! E eu que prometi estar às onze horas no escritório! — exclamou Vítor. Ergueu-se e espreguiçando-se um pouco. — Pois, senhores, isto foi a manhã das novidades! Quantas coisas eu ignoro, nas crónicas da família!
E depois de acender outro cigarro, saiu, apertando a fivela do colete, enquanto Timóteo, estendido na poltrona, murmurava:
— Ignoras um par de coisas, ignoras!
Timóteo ficou cachimbando, com um ar acabrunhado, e os seus olhos erguiam-se, às vezes, para a parede onde estava o retrato do pai de Vítor, a óleo; era uma face pálida e comprida, com um longo bigode preto, caído aos cantos da boca, o cabelo comprido, a testa branca, alta, gravata de cetim preto. Fora tirado, em quarenta e seis ou quarenta e sete, nos anos das desordens civis e do seu casamento infeliz. Que espanto para Timóteo, quando recebeu, em Angola, a notícia de que o mano Pedro tinha casado com a «Joaquina dos Melros. Que burro!», exclamara, amarrotando a carta com uma punhada na mesa. Timóteo tinha uma alta estima pelo seu irmão; era tão inteligente, tão corajoso, tão cavalheiro! E ia casar-se com a filha da Maria Silvéria! A Joaquina, a quem ele, Timóteo, dissera: «Em a menina querendo vem comigo para o Porto e tem casa e duas meias de mesada.»
É verdade que lhe atirara um balde de água... mas, não havia gente, na Guarda... o Teimo Santeiro, entre outros... que tinha visto um alferes de cavalaria marinhar-lhe a janela, por uma noite de neve? E casava seu irmão com ela! Grandessíssimo burro! Um bonito rapaz que escrevera aquele belo poemeto, a Noite do Cemitério! E daí a um ano e meio, uma manhã, que ele almoçava a sua carne ensopada, a negra vem-lhe dizer:
«Sinhô doutô, é um sinhô.»
O sinhô era Pedro, seu irmão Pedro, vestido de luto! «A Joaquina morreu?», exclamara ele. «Fugiu», disse Pedro, sem uma alteração na voz. Dois negros entraram com os baús de bordo. Tomou uma grande chávena de café. E contou a sua história. Depois de casado, viera para Lisboa; na Guarda, sua mulher seria sempre a filha da Maria Silvéria; em Lisboa, estava como numa cidade estrangeira. Viviam na Rua do Crucifixo e, em frente, morava um rapazola espanhol, emigrado. Uma manhã, dois meses depois do nascimento do pequeno, antes mesmo do batizado, Pedro partira para a caça, à Outra Banda, só, e, quando voltou, encontrou um bilhete, na letra garrafal de Joaquina: «Adeus, esquece-me, porque o meu destino leva-me para longe.» E mais nada. A criada, a ama, disseram que a senhora saíra ao meio-dia, com uma trouxazinha. «Naquela primeira hora que foi um bocadito amarga», continuou ele, «combinei o meu enredo. Levei o pequeno para casa da tia Doroteia, coitada, que chorou, ouvindo o meu caso, agarrada aos beijos ao "anjinho" que vinha dar a uma velhice uma maternidade inesperada. Batizei-o; a mãe falara em lhe chamar Caetano; pus-lhe o nome de Vítor. Era o nome do nosso pai. À criada, que era uma algarvia aparvalhada, dei doze moedas que ela levou, em pintos, num lenço, para o marido, em Olhão. Nunca compreendeu nada; a ama ficou com o pequeno e eu, daí a dias, parti para Madrid. E claro que não era uma jornada de perseguição... Estive em Madrid dias... ou três horas tristes, num quarto triste de La Fonda de la Nobleza. Enfim! Cada capa à espanhola que me roçava pelo ombro, cada caramba que me passava ao ouvido, fazia-me bater o pulso!... Enfim! De Madrid, escrevi a alguns amigos da Guarda, aos Magalhães, aos Vaz, que partia para os Pirenéus, com a minha mulher, que estava doente, coitada... E fui para os Pirenéus; lá andei oito meses; pescava trutas à linha, no Gave; é divertido. Por fim, tornei a escrever aos Vaz, aos Magalhães, etc., que a minha mulher morrera. De facto, para mim estava morta. Não creio que dessem grande atenção ao caso, nas preocupações patrióticas da Maria da Fonte! Disseram, por certo: "Bom alívio para o Ega." Voltei a Lisboa. O pequeno tinha um dente; estava desmamado; a ama morrera, santa rapariga, muito calada, forte como um pinheiro. Mas comecei a embirrar com a cidade; saia uma galera para aqui e aqui estou.» — «Para quê?», perguntara Timóteo. «Para tudo. Prás febres, por exemplo.» — «Ficou-lhe lá dentro a paixão», tinha pensado Timóteo.
O mano Pedro trouxera um dinheiro, negociou «por demais»; ocupou-se de botânica, aprendeu a empalhar pássaros e começou a beberricar aguardente. O médico, que vivia em Luanda, assanhado como um gato fechado, avisou: «Amigo e senhor Ega, se se mete pela aguardente, deixa a ossada neste degredo!» Uma noite, tinha ido passear com Timóteo para fora da cidade... nunca lhe esquecera aquela noite; as grandes estrelas africanas, tão numerosas; um pó de estrelas; o mar calado, com laivos de fosforescências; e bafos de braseiro no ar; e o cheiro das terras cálidas e húmidas... «Ouve lá», tinha dito, de repente, Pedro. «Eu não quero que o rapaz saiba o que a mãe fez... Para me envergonhar, basta eu. Para ele, para todo o mundo, a criatura está num cemitério de Baréges. Bem. A tia Doroteia, a santa, não é que lho diz. A ama morreu. A outra criada, a parva, está no Algarve, no inferno, perdida. Dá-me tu a tua palavra de honra que não lho dizes.»
Timóteo deu-lhe a sua palavra de honra. «Agora outra coisa», disse Pedro, «eu não quero que ele e a sua mãe usem o mesmo nome. Ela é Joaquina da Ega; há de conservar o nome; é fácil de pronunciar no estrangeiro, é o seu e fidalgo. Para mim, para o meu filho, não há o nome de Ega. Ega é porco. Eu batizei-o com o outro nome da nossa família, desusado, que a Joaquina nunca soube: Corvelo. Vítor Corvelo, filho de Pedro Corvelo.» Parou, pôs a mão no ombro de Timóteo e disse, com a voz baixa, que custava: «Chama-te tu também Timóteo Corvelo.»
Timóteo tossiu duas vezes: «Ega é o nome do meu pai!», rosnou. «Eu pouco vivo, Timóteo», disse Pedro, «faz-me isso!»
Timóteo atirou a um coqueiro uma bengalada que fez ramalhar o arbusto: «Raios partam a Joaquina dos Melros», exclamou. «Está dito. Serei Timóteo Corvelo.» — «Obrigado irmão» disse Pedro, «e agora vamos, que estou a sentir arrepios.»
E, daí a poucos dias, a febre tinha-o levado. As autoridades acompanharam-no às terras de S. Jacinto, que era o cemitério velho. Uma pedra lisa, com uma cruz, cobriu a sua cova. Tinha então trinta e três anos. Timóteo, nessa noite, uma noite de vento, foi visitar a sepultura; andou-lhe em roda, um momento, escarrando grosso, fazendo estalar as juntas dos dedos; e, fitando a lousa, disse alto, no silêncio: «Raios a partam!»
Voltou a Lisboa. Vítor tinha quatro anos, era um personagem; a tia Doroteia, quando o viu andar, correr já, chorava e babava-se. Esse Inverno foi severo, a tia Doroteia morreu do seu catarro. «Vão-se todos!», exclamou Timóteo, furioso. «Olha que espiga de vida!»
Como tinha de partir para a Índia, juiz, foi deixar o pequeno em casa do seu velho amigo Gouveia Teles, um velho, viúvo, retirado em Almada onde fazia caridade e lia Horácio.
Foi por essa ocasião, quando se vendiam os móveis da tia Doroteia, que lhe veio à mão uma carta de Espanha, dirigida ao Ex mo Sr. Pedro Ega, ao bom cuidado de D. Doroteia de Ataíde, na Rua da Oliveira, cinquenta ou sessenta. Abriu-a e encontrou duas linhas, num papel azul: «Sua mulher morreu, enterrou-se esta manhã no cemitério de Oviedo.»
«Bem fez ela. Está feita a barrela. Ponto final e vida nova.»
E embarcou no Trafalgar para a Índia.
Voltou. Vítor tinha feito os primeiros preparatórios. Timóteo tinha casado por lá, enviuvado, perdido a perna numa caça ao tigre. «Foi às galinholas», dizia ele ao Teles, «mas digo "ao tigre", para impressionar o rapaz.» Foram então viver juntos, com grande mágoa do velho Gouveia Teles, que murmurou:
«Dás-me o rapaz, tiras-me o rapaz. Valha-te Deus, Timóteo.» Mas estava tão velho, o velho Teles. E morreu daí a um ano, de repente, à janela, ao acabar de ler a Ode a Célia.
Foi por esse tempo, estando Vítor em Coimbra, que Timóteo leu, por acaso, na Revolução de Setembro um anúncio singular: «A pessoa que saiba ou possa informar sobre Pedro da Ega se roga, com um grande favor, queira deixar, no Hotel da Europa, o seu nome, morada e hora a que pode ser procurada. Perguntar por Mr. A. Fornier.»
Timóteo, surpreendido, mandou um bilhete-de-visita ao Hotel da Europa e, ao outro dia, à hora exata, Mr. Fornier entrava na sua sala. Era um indivíduo nutrido e roliço, de pele próspera e rosada, com um calor de barba loira, com dois caracóis sobre a orelha e andando subtilmente, nuns pezinhos pequenos, calçados de um verniz tão lustroso que refletia os móveis e parecia esmalte; e trazia polainas de cotim amarelo. Pousou sobre uma cadeira um chapéu alto, branco, de abas muito reviradas, e, curvando-se com um jeitinho dos quadris, disse, num português singular, mal pronunciado: «É o cavalheiro Corvelo que tenho a vantagem de falar?»
Timóteo concebeu logo um rancor intenso pelo personagem. Escarrou grosso, rosnou: «Eu sou Timóteo Corvelo.»
O sujeito roliço sorriu e esfregando as mãos devagar:
«Perfeitamente bem! Pode o cavalheiro informar sobre...», procurou rapidamente nos bolsos, tirou uma carteira, encavalou no nariz umas lunetas de oiro e leu: sobre Pedro da Ega, da Guarda, casado, viúvo.»
Timóteo cravava nele olhos faiscantes. «Mas quem manda? Para quê?»
O sujeito roliço curvou-se e, com a mão sobre o peito:
«Não estou autorizado...» — «Bem, então adeus, amigo, rua!»
O indivíduo fitou o verniz dos sapatos, com as sobrancelhas muito erguidas, o beiço inferior muito estendido, e murmurou: «Extremamente duro, extremamente duro!...» Foi tomar o chapéu. «Oiça lá, senhor francês», rompeu Timóteo, «o Senhor Pedro da Ega morreu em Luanda. Se quer certidão de óbito, escreva para a freguesia de São Jacinto.»
O indivíduo escrevinhava rapidamente na carteirinha, em júbilo. «Perfeitamente bem, perfeitamente bem! Então, cavalheiro, pode dar informações sobre uma pequena criança... »
Timóteo, que o fitava de braços cruzados, exclamou: «A pequena criança também morreu. Toda essa família rebentou.» — «Extremamente desagradável, extremamente desagradável!...» — «Mas, enfim, se eu respondo», disse-lhe Timóteo, «creio que me deve dizer de onde vem, quem o manda, quem quer saber...»
O sujeito fechou as lunetas metodicamente e declarou que Timóteo era amável. Ele era um comprador de loiças antigas ou móveis góticos. E o seu amigo, o seu muito particular amigo Lord Lovaine, sabendo que ele vinha a Portugal, encarregara-o de se esclarecer sobre Pedro da Ega. Segundo julgava, Lord Lovaine conhecera-o... Em viagem, decerto. «Sim, havia de ser nos Pirenéus», resmungou Timóteo. E alto. É que pensei que a pessoa curiosa é a Joaquina dos Melros.»
O sujeito nutrido dilatou olhares pasmados. «Lord Lovaine, Lord Lovaine!» disse, sorrindo. «Bem, adeusinho, não quer mais nada, hem?»
O sujeito deu dois puxões às lapelas do fraque azul e recitou, de um fôlego, num português mais aprendido: «Se possui jarras da Índia, loiças da China ou do Japão, cadeiras de coiro, contadores árabes, leitos torneados, marfins, presépios Renascença, arcas, colchas de cetim, panos de Arras, que lhe seja grato converter em numerário...»
Timóteo, firme, interrompeu-o: «Tenho aquela bengala, é o que tenho. Adeusinho!»
O sujeito roliço estacou, coçou com uma ponta de unha a barba, em diversos sítios, tomou rapidamente o chapéu e, calmo, subtilmente, murmurando: «Extremamente duro, extremamente duro!»
Foi a última vez que Timóteo ouviu falar de Pedro da Ega. Para que lhe voltavam hoje aquelas recordações?
— O que lá vai, lá vai — murmurou, enchendo outra vez o cachimbo. Apertou o focinho de Dick.