A Tragédia da Rua das Flores
Capítulo VI · Vítor, no dia seguinte, foi saber notícias…
Vítor, no dia seguinte, foi saber notícias de Madame de Molineux. Tinha-a ainda presente na ideia como a vira na véspera, estirada na causeuse, com gestos doentes, palavras cansadas. Ficou muito contrariado, vendo à porta o cupé do Dâmaso. Como o cocheiro o conhecia, resistiu à tentação de se retirar discretamente. Entrou, mas, no último lance de escadas, deu com Dâmaso, que descia. Ficaram um pouco embaraçados.
— Saiu — disse logo Dâmaso, secamente.
— Eu sabia que tinha estado doente.
— Doente? — fez Dâmaso, surpreendido. — Está ótima, saiu. Estive toda a noite com ela.
Era mentira, mas queria mostrar a Vítor a sua felicidade e humilhá-lo. O pobre rapaz fez-se pálido. E desceram calados.
— E então, que é feito? — perguntou Dâmaso, à porta, calçando as luvas.
— Por aqui... — disse vagamente Vítor.
Dâmaso entrou no cupé e, depois de uma ordem seca a que quis dar uma intenção triunfante, com dois dedos bateu com força a portinhola, com um ar satisfeito, mas furioso: Madame de Molineux tinha saído, depois de ter prometido esperá-lo.
Vítor desceu a rua, devagar. Aquela secura brutal de palavras separava-o do amigo. «Melhor», pensou Vítor. «Asno!»
E imediatamente foi percorrer todos os sítios onde o podia encontrar. Estava desesperado com ele; queria encontrá-lo para O cumprimentar com indiferença, como com distração. Deu uma volta ao Aterro, subiu e desceu o Chiado, meteu a cabeça em todas as lojas, comeu bolos na do Balthreschi, mas não o viu.
Ao jantar, estava tão sombrio que o tio Timóteo, impaciente com o silêncio, disse todo arrenegado:
— Com mil diabos, diz alguma coisa. Estou aqui a arrebentar por falar.
Vítor desculpou-se: estava secado, adoentado. E depois de algumas palavras vagas, como se língua lhe fosse pesada como chumbo, ficou na mesma taciturnidade. Achava não poder fazer sair do seu cérebro as palavras de Dâmaso «passara a noite com ela», cantavam-lhe dentro, com uma espécie de acto irónico; e via-a despir-se, lançar os braços ao pescoço de Dâmaso, suspirar de amor; sentiu por ela um ódio agudo, um desprezo imenso. Consolava-se pensando-se numa superioridade sobre Dâmaso e, desprezando-o, invejava-o.
— E como vai o teu amigo Dâmaso? — perguntou o tio Timóteo.
Vítor animou-se logo. Não sabia, não o tinha visto. Nem saudades. No fundo, era uma besta. E derramou-se em considerações sobre a sua figura tola, a sua fatuidade idiota, a sua estupidez crassa. Encarniçou-se sobre ele, contou dele tolices que lhe ouvira, ridicularizando as suas toilettes. E partiu rancorosamente a sua vitela assada, como se trucidasse a carne odiada de Dâmaso.
— Que te fez o rapaz?
— A mim? Nada. Digo a verdade. Se me fizesse alguma coisa, rachava-lhe a cara; rachava-lha, tão certo como dois e dois serem quatro; não lhe deixava osso sobre osso! Espezinhava-o.
Falava numa cólera crescente, com uma cor de paixão na sua pele pálida.
O tio Timóteo olhou-o de lado, finamente, e sorriu por dentro.
— É um pobre diabo — murmurou.
Nessa noite, Vítor percorreu todos os teatros. Ao anoitecer, começara a cair uma chuva miudinha. E dentro da tipoia, da Rua dos Condes para o da Trindade, do da Trindade para S. Carlos, ia resolvendo a atitude que tomaria, se a visse num camarote. Nem a iria visitar! Far-lhe-ia um cumprimento seco! Namoraria outras! Uma cura de pilhérias dos atores! Falaria a Dâmaso, bocejando com tédio, e, se ele o fitasse ou tivesse um movimento atrevido, cortava-lhe a cara às bengaladas.
Mas não viu Madame de Molineux e todas as tintas lhe pareciam sob uma cor lúgubre; todas as mulheres, medonhas; todas as faces, inexpressivas; e a cidade com a sua névoa húmida e chuva morrinhosa, triste como uma prisão, solitária como um subterrâneo. Já perto do D. Maria, encontrou o Palma Gordo, com as mãos nos bolsos, arregaçando o jaquetão que lhe descobria as formas atoucinhadas das suas ancas gordas.
— O Dâmaso? — perguntou-lhe Vítor.
O Palma, com o cigarro entre os dedos de cabeças polpudas e muito suadas, disse com a voz aguardentada:
— Há de estar com a... — e disse uma obscenidade.
Vítor hesitou se o espancaria, mas voltou-lhe as costas, veio subindo para casa furioso.
— É uma pega! Uma mulher imbecil! Uma desavergonhada! Os diabos me levem se eu torno a pensar nela.
Entrou em casa, para perguntar se não havia carta para ele. Nada!
Aquilo fez crescer o seu ódio. «Que camafeu!», pensou.
E seguindo a tradição romântica de que as contrariedades dos amores ideais se devem esquecer com os amores libertinos, foi cear ao Malta, com uma espanhola, uma Mercedes, bela mulher de Málaga que se dizia filha de um general, afetava-se modos aristocráticos, mas comendo tudo com a mão e lambendo os dedos depois.
Vítor bebeu uma garrafa de Colares, dois copos de conhaque, julgando-se interessante, na sua dor, e pensando em Alfred de Musset, que, ele também, se embebedava com álcool, para esquecer a desilusão do amor humano.
Mas, ao outro dia, ao acordar, como um raio de sol que ilumina subitamente um quarto escuro, esta simples reflexão encheu-o de luz e alegria. «É perfeitamente ridículo enfurecer-me porque ela saía e passeava.»
E às duas horas, batera à porta de Madame de Molineux. Esperou um momento na sala e viu-a entrar, alegre, fresca, com um grande roupão de seda, um sorriso, as mãos estendidas, muito amável. E ao simples aspeto da sua pessoa, todos os seus despeitos se fundiram, como a neve ao fogo.
«Sabia que ele tinha vindo na véspera, mas ela tinha saído. O dia estava tão lindo, para ir a Belém, no vapor. E tinha pena que ele não tivesse vindo; o Tejo estava adorável.»
E então, com uma necessidade de expansão, Vítor contou-lhe que a procurara, de manhã, nas ruas; à noite, nos teatros.
— Para quê? Para quê? — murmurava ela, mas todo o seu rosto resplandecia de satisfação daquela solicitude.
E declarou-se muito alegre.
Vítor, que uma curiosidade mordente torturava, perguntou, corando, por Dâmaso.
— Não sei. Vi-o antes de ontem, de tarde, no dia em que estive doente. Voltou à noite, mas não o recebi. Veio ontem de manhã, e à noite também, mas não o recebi.
Vítor sentia uma doçura de leite correr-lhe nas veias. E para tornar a conversa íntima, para mostrar que pensara nela, disse-lhe a ideia do retrato. Exaltou o génio de Camilo Gorjão: o único artista de Portugal, desconhecido, ignorado, pobre, mas um génio. Mas os projetos de Camilo fizeram dar gargalhadas de humor a Genoveva.
— O quê? Ver-me representada a dar pão aos pobres? Credo! E porque não a cozer os legumes? Por quem me toma esse homem? Queria, talvez, por baixo, o título original de «Ricos e Pobres», ou «Caridade». Ele era doido!
Mas não se recusava a tirar o retrato; se o sujeito tinha talento, queria; porém, com um vestido de seda clara, azulado, numa cadeira de espaldar gótico, decotada, com os braços nus, o leque meio aberto, nas mãos, ao pé de um vaso de mármore, cheio de rosas.
Citou outras atitudes célebres: os retratos de Bonnat, de Carlus Duran, de Mademoiselle Altheim. Falava com volubilidade, num movimento rápido de gestos. E uma mobilidade na fisionomia que lhe dava muitas expressões diferentes, todas de alegria, de felicidade.
E Vítor, que a vira havia dois dias, mórbida, lânguida, prostrada no sofá, achava-a com outra frescura, com outro encanto e, depois de tê-la amado tanto, naquele enfraquecimento de doença, adorava-a na vivacidade da saúde.
— Quer beber alguma coisa?
Ela sentia-se com sede; tomou Curaçau com soda. Estava hoje nesses dias felizes; tudo lhe parecia cor-de-rosa.
— Não tem desses dias?
«Tinha», disse ele; e entraram numa longa conversa de simpatias, de afinidades.
— Parecemo-nos em muita coisa, não é verdade? — disse ela.
E olhava-o muito, como encantada. Mas de repente ergueu-se, foi abrir o piano; queria que ele fizesse música.
Ele lamentou não saber; às vezes um piano fazia tanta companhia! Havia certos estados de alma que só a música exprimia. Ao anoitecer, por exemplo, às vezes, desejava pôr em melodias uma quantidade de coisas vagas que lhe passavam na alma.
— Poeta — disse ela rindo.
Parecia escutá-lo com avidez, recebendo com alvoroço cada confidência que ele fazia dos seus sentimentos, das suas ideias, dos seus hábitos, provocando-as. Queria saber a que horas ele se levantava, o que costumava ler, quais eram as óperas de que gostava, abrindo uma fresta às portas fechadas da sua alma, como se quisesse examinar uma casa; e os seus olhos percorriam-no, estudavam-no.
— E Miss Sarah? — perguntou ele.
Ela bateu as mãos, rindo muito.
— Não sabe? Está apaixonada por si.
— Ora!
— Palavra. Não faz senão falar em si. Diz que o acha formoso, interessante, romântico. E não é verdade — disse, olhos abertos, num tom radioso, presos nos dele. — Eu não acho.
Ergueu-se, veio firmar-lhe as pontas dos dedos nos ombros, examinou-o.
— Não acho — repetiu. — É simpático, mas mais nada.
Vítor quase corava. Ela parecia-lhe ser o homem; o provocador; ele parecia a mulher, recebendo, com uma feminilidade passiva, aquelas provocações de simpatia.
Genoveva, então, arranjou-lhe o cabelo, com a ponta dos dedos; compôs-lhe a gravata, mas não lhe deixou tomar as mãos; fugiu com a cinta, dizendo:
— É o nosso tratado. Sempre amigos. Nada mais.
Fez estalar a unha nos dentinhos, recuando, fazendo uma mesura, à antiga, e os seus olhos abrasavam, com um desafio, um olhar radiante.
Foi sentar-se ao piano e começou a sua canção favorita:
Chaquefemme a sa toquade,
Sa marotte est un dada.
Atirava as notas de um modo petulante, pondo em certas palavras aquele abaixamento de voz gracioso e canalha que, nos cantares do teatro do Bulevar, tinha uma intenção provocante e lasciva.
E soltando o estribilho:
Voyez ce beau garçon-là,
C'est l'amant d'A...
C'est l'amant d'A...
E atirava-lhe olhares que o faziam estremecer de desejo.
Voyez ce beau garçon-là...
E o seu olhar parecia designá-lo, confirmar-se, render-se.
C'est l'amant d'A...
C'est l'amant d'A...
C'est l'amanr d'Amanda.
Mas subitamente calou-se e ficou sentada sobre o mocho do piano, tomando a fisionomia séria; e disse-lhe, com um sorriso, um certo desdém novo:
— E como a Aninhas, hem?
Vítor ficou petrificado.
— Não há de que se envergonhar. Diz que é bonita; foi cozinheira, creio eu; é entretida, a quinze mil réis por mês, por um lojista da Baixa, no Chiado; aprende o francês, já conjuga os verbos. Vê que estou bem informada. Vai bem essa interessante Madalena?
— É mentira — disse Vítor.
— Não é — e Genoveva ergueu-se. — Disse-me o Dâmaso. O Dâmaso conhece-a.
Vítor jurou mentalmente espancar Dâmaso e logo começou, por se justificar, a explicar aquela relação.
Era certo, tinha estado com ela; pobre criatura sem educação, muito tola; mas tinha-a, como se pudesse ter uma amizade; só o seu coração não tomara parte...
— Pois pode crer que, com os meus gostos, os meus sentimentos, eu não me iria prender a uma mulher que mal sabe ler. E de resto, há mais de um mês que a não vejo. Aborrecia-me tanto, que a deixei. Ainda antes de ontem me escreveu; nem li a carta.
— Palavra? — disse ela.
— Juro-lhe.
— De resto, ninguém tem direito sobre si. — E passeava pelo quarto, com um rumor de seda arrastada. E olhando para ele: — Eu também já sabia que estavam de mal. Ela encontrou o Dâmaso e queixou-se... Coitada! Faça as pazes, não desole aquele pobre coração.
— Está a escarnecer — disse Vítor, magoado.
— Não. Um conselho de boa amiga... Que ela, naturalmente, consola-se com algum côvado de casimira que lhe manda o amante... ou com algum caixeiro suplementar... — E com um riso cantado: — A Aninhas! Fazia-lhe vemos.
— Bem, adeus — disse ele despeitado.
Ela tirou-lhe o chapéu da mão.
— Perdão, se não falei com respeito da sua bem-amada.
— E vendo o rosto dele contrariado: Estou a brincar. — E acariciando a seda do chapéu: — E a mim, faz-me versos?
— Decerto.
— Quero que me faça um soneto todos os dias. É muito chique! — E estendendo-lhe o chapéu: — E agora, meu querido amigo, adeus. São três horas.
— Manda-me embora!
— É necessário.
— Está à espera do Dâmaso — disse ele, com um sorriso de rancor.
Ela pós o dedo sobre a boca.
— Chut! Obedeça. Adeus.
Vítor teve uma raiva de ciúme, de desespero.
— Bem, adeus. Não volto.
— Não volte — disse ela, encolhendo os ombros.
Fixaram-se um momento.
— Porque me faz sofrer? — disse ele, muito desconsolado.
Ela teve um sorriso contrafeito.
— Sofrer! Mas que homem extraordinário! Veio-me fazer duas visitas, conhece-me apenas e acha que eu o faço sofrer, porque tenho de estar só, às três horas! Realmente, é injusto...
— É porque a adoro — disse ele.
Ela pôs-lhe rapidamente a mão na boca.
— Nada dessas grandes palavras. Parece mal. — E com uma cortesia, sorrindo: — Se me quer, direi, venha pedir a minha mão à mamã.
Riu muito e, correndo, entrou no quarto. Voltou com um raminho de violetas.
— Vá, seja bom rapaz — disse ela, metendo-lhas na casa da sobrecasaca. E disse rindo: — Cuidei delas, como de um vaso, e ainda se queixa! Là, Voilà! As violetas bonapartistas.
Ele olhava com uma suplicação infinita, estendia o rosto; os seus lábios pediam tão humildemente um beijo...
O rosto de Genoveva perturbou-se e, baixando a cabeça, recebeu o beijo de Vítor sobre o cabelo.
Ele ficou tão comovido que teve um suspiro soluçado. E ficava no meio da sala, como idiota, olhando-a, a tremer, sem sair.
— Addio! — disse ela, com uma voz séria.
Ele saiu, sentindo o chão oscilar-lhe sob os passos.
Após o sentir fechar a cancela, Genoveva chamou Mélanie.
— Logo que venha o outro, o Dâmaso, manda-o entrar. Preciso falar-lhe. Estou sem dinheiro.
Deu um suspiro e, deixando-se cair no sofá, disse, apertando as mãos por trás da cabeça:
— Mélanie, isto vai mal.
— Ia com uma cara tão desconsolada, o pobre rapaz — disse Mélanie.
— Pobre querido! Oh, Mélanie, que paixão esta, tão absurda, tão repentina! O que é isto? Porque veio isto? Quem me diria?
— Isso passa, minha senhora.
Ela oscilou a cabeça tristemente, a olhar o chão.
— Não. É para sempre. Não sei o que me diz o coração. Mas adivinha desgraça...
Vítor não se esquecera do pedido de Genoveva: «Quero que me faça, todos os dias, um soneto. Lembrava-se de um herói do romance D. Juan de Pasini que todas as tardes, depois do seu jantar, fumando tranquilamente o seu charuto, no terraço do seu castelo, na orla de um bosque, fazia um soneto à bem-amada do dia. Os cavaleiros italianos da Renascença, que Ticiano tinha restaurando, e que tinham ceado com César Bórgia, faziam o mesmo. E achou muito elegante produzir, cada manhã, um soneto, que lhe mandaria com um ramo; depois, publicaria a coleção; chamar-se-ia «Carícias» teria uma notoriedade famosa e dar-lhe-ia celebridade; porque, mal se lhe abria uma perspetiva, a sua imaginação lançava-se por ela, como galope impetuoso de um cavalo de raça, e depois de alguns saltos ficava a arquejar, estendido sobre os flancos, como um sendeiro lazarento.
E na manhã seguinte, depois do almoço, fechou-se no quarto e, em chinelas, com um maço de cigarros sobre a mesa, um copo de água para aclarar as ideias, preparou-se para produzir. Durante horas, os seus passos trituraram o soalho e, até ao jantar, tinha produzido as duas primeiras quadras.
Quando Clorinda o veio chamar para jantar, apareceu à mesa com os olhos esgazeados, a face animada de um homem que emerge do ideal.
— Tens estado a dormir? — perguntou-lhe o tio Timóteo.
— Tenho estado a escrever — disse, com a reserva de um iniciado que fala a um profano.
Depois do jantar, tomou a encerrar-se e, às nove horas da noite, tinha enfim terminado os dois tercetos finais e saiu para tomar ar.
Estava uma noite áspera, um pouco lúgubre, com grossas nuvens errantes, entre as quais, às vezes, aparecia a lividez da Lua. As rajadas uivadas deram-lhe então um arrepio à alma; as casas estavam fechadas; as lanternas de gás tinham oscilações aterradas; e errou com a sensação de desgraças fatais e de mistérios homicidas. Foi passear para o Aterro; o mar batia tristemente contra os cais e, na extensão saturada de água, tremulavam luzes acanhadas de barcos que, às vezes, no súbito clarão de um luar gelado, desenhavam mastreações espectrais.
Mas aquela decoração não condizia com o estado luminoso da alma e veio para casa copiar cuidadosamente o seu soneto, com uma deleitação paternal.
Deitou-se com um volume de Alfred de Musset, achando a vida boa; tinha, enfim, aquela paixão ideal, nobre, pitoresca, que ele vira nos livros e nos, poemas e que o encantava tanto. E por um favor da fortuna, vinha-lhe acompanhada de todos os requintes do luxo, todas as faíscas da fantasia, todas as seduções do espírito. Onde havia, em Lisboa, uma mulher que se pudesse comparar a Madame de Molineux? Qual tinha as suas toilettes, os seus admiráveis caprichos, a sua ciência amorosa, tantas experiências de viagem e de sociedade?
Decerto tinha tido amantes, mas o conhecimento dos homens tornava o seu amor mais apreciado. E tão fácil agradar a uma pobre burguesa que não vê senão as chinelas do marido e a rabugice dos filhos; é tão fácil seduzir uma rapariga de dezoito anos, ainda com as imaginações do colégio e as ambições de maternidade que lhe deu a boneca! Mas uma mulher que conhece os homens tão profundamente, a quem as desilusões repetidas deram ceticismos, a quem o atrito das sensações trouxe a inércia da saciedade... uma mulher assim, que glória interessá-la. E o mesmo prazer áspero que se deve sentir em tomar católico um ateu. E possuindo-a, não iria possuir um corpo belo, mas um ser complexo. Cada um dos seus amantes, das suas relações, formou-a, deixando no seu espírito... ou no seu remorso.., alguma da sua personalidade; tê-la nos braços, possuí-la, era possuir o refinamento dos elegantes, o espírito dos dramaturgos, a polidez dos diplomatas, todas as civilizações de que eles são a flor, a essência, o resumo artificial e delicioso.
Que diferença, na sua vida, hem? Ainda há um mês, a sua existência era estúpida e banal, como um macadame da rua; ia do tédio do escritório do Dr. Caminha para os reles prazeres da alcova da Aninhas: era um sensaborão, um banalão!
E agora, o amor de Genoveva idealizava-o, enobrecia, forrava a sua alma, por dentro, de doçura, cobria-a, por fora, de resplendores. E estirara-se na cama, com orgulho, sentindo, fora, o vento gemer, roçando-se pelos muros das casas.
Como ela admiraria o seu soneto, como se sentiria contente de ser obedecida; era impossível que não lhe desse um beijo e, àquela esperança, a sua alma tinha ferocidades expirantes de languidez.
Ao outro dia, com o seu soneto na carteira, dirigiu-se à Rua de S. Bento. Mélanie, que veio abrir, disse-lhe logo:
— Não está. Foi esta manhã para Queluz, com o senhor Dâmaso; mas está a inglesa,... faça o favor de entrar.
E abriu a porta, chamou Miss Sarah. Vítor entrou, como um homem que caiu de uma altura; entristecido, com um sorriso vago, o coração frio, entrou na sala. Um rugido de seda forte roçou o tapete; viu ao pé de si Miss Sarah, corada, direita, que lhe disse logo que Madame e Mister Dâmaso tinham partido para Queluz, muito cedo.
E sentando-se, abrindo e fechando um livro que tinha nas mãos, os seus olhos azulados, com uma esclerótica raiada de amarelo e biliosa, fixava-os em Vítor, com admiração.
Vítor, com o chapéu nos joelhos, ficara tão embaraçado, que não encontrava uma réplica.
A inglesa notou que o dia estava bonito. Vítor tomou um ar profundo e concedeu, depois de reflexão, que «sim». E então a inglesa disse que os dois tinham ido de carruagem descoberta, tendo levado um lanche; pareciam muito felizes. E acrescentou algumas palavras de louvor sobre Mister Dâmaso. Era encantador, um perfeito gentleman.
Vítor, acabrunhado, murmurou:
— Decerto, decerto.
«E quando voltavam?», perguntou. Miss Sarah disse que talvez passassem a noite em Queluz; que não tinha ouvido fazerem projetos, mas que era mais que natural. Quis saber se Queluz era bonito.
— Oh, yes! — disse Vítor, erguendo-se.
Mas Miss Sarah não o queira perder tão cedo. Pôs-se a falar de Portugal; dos Portugueses; achava-os encantadores. «Era o Paraíso! E tão delicados com as mulheres!... Os Ingleses deviam vir aprender...»
E falando, tinha gestos requebrados, o seu pescoço ondeava, abria para Vítor sorrisos elásticos, ora abaixando os olhos, como deslumbrada, ora erguendo-os, como fascinada, revelava todas as suas cismas de solteirona, diante de um rapaz formoso.
Mas Vítor, de pé, batia impacientemente com o chapéu na perna. Miss Sarah então declarou que o não queria prender; ela não tinha decerto os encantos de Madame de Molineux...
Vítor, embaraçado, protestou: «Mas tinha tanto que fazer...»
Miss Sarah recuperou: «Decerto, alguma paixão, alguma senhora que ia ver. Ah! Conhecia os homens, todos levianos, entusiasmando-se pelas aparências...
Aquela voz com acento duro e cantante, o largo olhar baço de inglesa, davam a Vítor como um entorpecimento; enfim, rompendo por esforço a sua inércia, saudou Miss Sarah, saiu. Ela fez um cumprimento grave e pôs, num último olhar, todas as declarações do seu desejo.
Vítor, ao achar-se na rua, exalou toda a sua fúria contra Genoveva, num pensamento: «É uma reles prostituta.» Acalmou-se. E como uma vela que uma rajada de vento apaga, pff!, o seu amor desapareceu. E apertando convulsivamente a bengala, assentando com os pés nervosos, com tédio dela, da casa, da vida, o seu ódio, como um gás que se dilata, estendera-se a todas as pessoas, a todos os objetos; desejava uma querela, dar bengaladas, escrever nos jornais coisas odiosas contra as mulheres, vê-la a ela pobre e pedindo esmola! E não nutria ódio contra Dâmaso; mal pensava nele: achava-o digno dela, o estúpido, a besta! E num sarcasmo: «Que tenham muitos filhos e que os leve o diabo.» Tudo lhe parecia esbatido numa névoa triste, apesar do esplendor do dia assoalhado; as vozes do rio chegavam-lhe com um zumbido importuno. Então, em casa, atirou o chapéu ao chão e veio-lhe, de repente, uma sensação de abandono, de solidão, de vazio. Como se os cuidados, os amigos, a casa, as relações, tudo tivesse recuado, deixando-o a ele, só, ser martirizado e solitário, num vasto espaço vazio e lúgubre; sentia-se fraco, infeliz, incompatível com a vida, e sentou-se na cama, rompeu a chorar.
Para não sofrer as perguntas, a conversa do tio Timóteo, foi jantar só, num gabinete, ao Silva. E quando o criado lhe perguntou o que desejava, oferecendo-lhe a lista, respondeu com um ar desolado e profundamente abatido:
— O que queria?... Veneno, se há.
Aquela pilhéria consolou-o. Consentiu mesmo em ler o Jornal do Norte que o criado lhe trouxe; e não se esqueceu de tomar atitudes tristes, sempre que o moço entrava; que nada consola os temperamentos efeminados, como dar publicidade à sua dor.
Desceu o Chiado, devagar, com o abandono fatigado de um adolescente; sentia uma calma no olhar, aquela lassidão magoada que deixam as lágrimas e, todavia, não lhe desagradava estar triste por um desgosto de amor; porque dá a consolação da atribuir uma origem nobre às nossas aflições.
Entrou no Teatro de D. Maria, comprou um camarote a um vendedor, para dar ao seu desgosto uma atitude elegante e, com os cotovelos no rebordo de marroquim esgaçado, olhos distraídos pela sala, escutou distraidamente a peça, fazendo, por hábito, por distração, olhos a uma mulherzinha bem feita que, de uma frisa, lhe atirava olhadelas agudas. Mas sofria realmente; às vezes, a lembrança de Genoveva dava-lhe uma comoção; e vendo que eram dez e meia e que, àquela hora, eles, se estivessem a deitar, em Queluz, veio-lhe um desespero, uma raiva tão intensa, que abriu a porta do camarote, saiu e foi andando pelas ruas, sem destino. Os seus passos levaram-no às Janelas Verdes e ia numa agitação de pensamentos, tentando ganhar, no cansaço do corpo, as calmas da alma. Mas um relógio deu uma hora e voltou para casa.
Ao chegar à porta, tirava tranquilamente a chave da algibeira, quando, da parede escura de uma porta, ao pé, se destacou um vulto de mulher que correu a ele, agarrou-se-lhe, exclamando surdamente:
— Vítor!
Era Aninhas.
— Que queres tu?
— Escuta-me pelo amor de Deus... Vem... Ouve-me. diz umas palavras, por quem és! Estou como doida. Se não me escutas, vou-me atirar ao rio. Vítor, juro-te...
A sua voz ofegava em lágrimas exaltadas, elevava-se...
E para evitar escândalo, como saía ainda gente do Grémio, foi andando com ela até ao largo da Academia, escuro, àquela hora, em frente da arcada do Museu das Belas-Artes.
Aninhas agarra-lhe o braço, prendendo-se a ele com uma força ansiosa, soluçava baixo, murmurou:
— Tenho estado como doida... Não me importa... Queria morrer, é que eu queria...
— Mas então o quê? Que queres tu?
Aninhas, então, num só fluxo de palavras, andando, parando, com grandes gestos, pôs-se logo a explicar o caso do outro dia: «Não era o Policarpo que estava com ela. Era verdade. Era outro homem. Mas não era um amante; era um velho, um diabo, um animal, um Lopes da Travessa da Palha. Fora a necessidade que a impelira. O Policarpo era um forreta; mal lhe chegava para o sustentar a casa. Tinha duas pulseiras no prego, a medalha com o brilhante. Não sabia como havia de dar com a cabeça. Aquele demónio daquele velho andava a persegui-la; tinha de desempenhá-las à força. Pob... pobre dela, na aflição, aceitara. Mas amaldiçoava-o agora. Sentia-lhe ódio.»
— Juro que é a verdade. Juro-te pela vida da minha mãe. Ainda eu morra, se isto não é verdade! Pergunta à Rosa.
Escrevi-te a explicar-te tudo. E se não te encontrasse hoje, dava cabo de mim.
Tomava-lhe as mãos, apertava-as, com uma força nervosa. Na escuridão do largo, ela via apenas os seus olhos pretos reluzirem sobre o vago rosto pálido, cheio da sombra da renda preta que tinha na cabeça. Sentia uma sensação doce, amolecê-lo; a expressão tão imensa daquela paixão era como uma compensação ao desdém de Genoveva e uma vaidade consolada enchia-o de uma condescendência perdoadora. E foi com uma voz branda que disse:
— Mas se estavas em apuros, porque não disseste? Eu podia-te dar o dinheiro.
Ela acudiu:
— Ah! Não! Nem cinco réis. De ti quero só o meu amor. Quero-te a ti. Do outro, tudo, dinheiro, o que puder juntar. Mas de ti, não. Vem. faz as pazes. Não tenho dormido! Tenho estado doente. Pergunta à Rosa. Hoje, não pude, vim esperar-te. Vem. diz que sim.
Mas os despeitos do seu amor por Genoveva deram a Vítor desejos de vingar-se sobre Aninhas. Manteve-se duro, repeliu-a.
— Não, não, não — disse. — Já não é a primeira vez que mo fazes. Estou farto. Adeus.
E acrescentou, fundo, para a criminosa.., somente a melancolia no acento da sua voz:
— Sê feliz, Aninhas.
A rapariga chorava baixo, mas Vítor não se afastava; sentindo-se fraco, irritado com a sua fraqueza, derramou-se numa verbosidade irritada: chamou-lhe uma leviana; não estava para aturar os seus caprichos; que não lhe faltavam mulheres; e, para a fazer chorar mais, acrescentava que a amava, decerto, que sempre a amara, mas que, tendo refletido, estava tudo acabado.
— Adeus.
— Vais-te? — disse ela, com a voz seca, reprimindo as lágrimas.
— Adeus.
— Adeus, Vítor.
Aquela aceitação tão pronta da sua separação enfureceu Vítor. Não se foi e continuou passeando, dizendo-lhe coisas desagradáveis, com as suas mãos nos bolsos, ia repetindo as suas queixas fastidiosas, destilando das suas palavras um tédio rancoroso e misantropo, desesperado.
— Mas não te zangues, Vítor — dizia ela, com resignação lacrimosa. — Eu não te quero forçar. Fiz o que pude. Vim-te pedir perdão. Adeus...
Então, Vítor insultou-a, atirou-lhe os nomes de todos os seus amantes: o Alves, o Guerra, o Teira Vesgo, o João Patriota.
Aninhas irritou-se:
— Para que me atiras todos esses homens à cara? É verdade, estiveram comigo; eles não te enganavam; enganava-os a eles, por ti. Pedi-te alguma coisa? Dize. Pedi-te jamais cinco réis? Dize.
Ergueu a voz, erguendo-se na ponta dos pés.
— Fala baixo, olha a sentinela! — disse Vítor, furioso.
Ela encolheu os ombros, impaciente. «Era melhor acabarem», disse; e batendo com as mãos:
— Vá uma pobre mulher fazer sacrifícios por um homem!
— Que sacrifícios?... — exclamou Vítor, orgulhosamente.
— Pois. pela tua causa, estive para perder o Policarpo, umas poucas de vezes. E que havia de ser de mim? A casa é alugada em nome dele; os móveis estão em nome dele. E homem para me pôr na rua, com um xaile e uma camisa. E que havia eu de fazer? Atirar-me a uma vida desgraçada e dar o nome à Polícia? E pela tua causa! Oh, se a minha pobre mãe vivesse...
E as lágrimas redobravam.
Vítor estava profundamente humilhado; aquela discussão rebaixava-o à função infamante de chulo e, todavia, reconhecia a verdade das acusações; e instintivamente recebia nela uma vaidade de animal, porque provava um amor desinteressado.
Passeava, calado. Então, a sua vida com Aninhas reapareceu-lhe: noites voluptuosas, em que amava, ria e brincava, ceando na cama, vieram tentá-lo. Comparava aquela rapariga, amorosa, a Madame de Molineux, tão escarnecedora e birrenta; lembrava a perfeição graciosa e nervosa do seu corpo, os seus suspiros voluptuosos, a firmeza da sua pele; sentia-se perturbado. Além disso, era um dever não ser ingrato, porque é tal a força que, na consciência, tem o dever que a acusação mais cerrada procura abrigar-se sob aquela justificação sublime. Enfim, parando, perguntou-lhe:
— Mas que queres tu, enfim?
Sentindo na voz um acento de condescendência, ela exclamou com um tom mais urgente:
— Que venhas, que venhas!
Vítor teve um gesto resignado e perguntou:
— E o Policarpo?
— Está para Almada. Que me importa. Vá. diz que vens! Oh, anda lá! Oh, que felizes que vamos ser. — Prendia-se a ele, agarrava-o com uma paixão furiosa.
— Está quieta. Pode passar gente.
— Que me importa. Tomara que passasse o mundo inteiro. Meu Vitorzinho. Vem.
— Não me enganas outra vez? — disse ele, já cedendo.
— Nunca! Se te enganasse, matava-me. Eu deixo escrito que me matei; não tens de ir à Boa Hora.
Dizia-o sinceramente: tinha lido aquela jura de amor no Rei da Montanha, e estava resolvida a praticá-la.
E Vítor foi. Aninhas apossara-se sofregamente do seu braço e coma quase. Chegaram a casa esfalfados e, enquanto Vítor acendia o fósforo, ela, com as saias apanhadas, galgara as escadas; ria, com um risinho nervoso, impaciente. Tocou à campainha, com uma força que a criada, assustada, veio correndo.
— Vem aí! Vem aí, Rosa! Trouxe-o! Cá está!
E arrastou Vítor pelo corredor, depois para a sala. Atirou o mantel, a capa, e lançando-se sobre ele, cobriu-o de beijos. Bateu as mãos; a sua exaltação redobrava o encanto de um carinho bruto, furioso; os seus lindos olhos, cor de ferro, faiscavam de paixão: «Se via pela cara», dizia.
— Pergunta à Rosa. Não é verdade, Rosa? O que eu chorei!
— Estava de todo, estava de todo! — dizia a criada, melancolicamente.
— Vês? Vês?
E queria que a Rosa preparasse a ceia, logo. Cearam na cama. Abraçava-o; fizera-o cair no sofá e, sobre ele, devorava-o com beijos, examinava-o com olhos dilatados e vorazes, como se nunca o tivesse visto; a sua testa branca, o buço delgado, o cabelo encaracolado, toda aquela beleza efeminada que a endoidecia; beijava-o com cegueira brusca, mordia-o; atirou-se-lhe aos pés e, num ímpeto de sensibilidade, rompeu a chorar.
Comovido por tanta paixão, Vítor jurou a si mesmo que a amaria sempre, que esqueceria a outra desavergonhada.
Ergueu-a, montou-a sobre os joelhos, beijou-lhe as lágrimas, disse-lhe:
— Juro-te que te adoro, Aninhas. Mas não me enganes, não.
Ela ergueu-se, com os olhos secos, reluzentes, a mão estendida.
— Ainda que eu morresse de fome! Não! Nunca! Só para ti. Só para ti.
Uma voluptuosidade imensa atirou-a, meia desmaiada, para os braços dele e os seus lábios beijavam-lhe o pescoço, por uma adesão húmida, chupante, ébria...
Ao outro dia, Vítor só saiu do quarto de Aninhas à uma hora, e chegava justamente à porta da rua, quando o cupé de Dâmaso passava.
Dâmaso, apenas o viu, fez parar, chamou Vítor, que veio com uma contrariedade atroz.
— Fizeste as pazes! Hem? — disse-lhe logo Dâmaso, ladino. — Eu encontrei a pobre rapariga; ai, do que se me queixou; fizeste bem, homem, fizeste bem.
Vítor quis negar. Tinha vindo apenas porque soubera que ela estava doente.
— Ora, histórias... — disse Dâmaso, sorrindo e com um ar estremunhado e o colarinho amarrotado: — Obrigado!... Pai Paulino tem olho! Diverte-te... Nós estivemos ontem em Queluz...
— Chegas agora? — perguntou Vítor, pálido.
— Não. Chegámos ontem à noite. Passeio delicioso!
Parecia cheio de um júbilo saudoso; esfregava as mãos, mexia-se no assento do cupé, com uma abundância de felicidade que o agitava; e gritava ao cocheiro que andasse.
— Diverte-te. E aparece!
Vítor veio para casa, furioso. Ia dizer, decerto, a Madame de Molineux que o tinha visto sair de casa da Aninhas! Que contrariedade! Mas, de resto, que lhe importaria? Madame de Molineux tinha escarnecido dele; era uma vingança; mostrava-lhe que não morria de paixão. Acabou-se! Melhor. No fim, a Aninhas era mais nova, mais amorosa, mais fresca! E se a outra tivesse ciúmes, melhor! Que estoirasse.
E não voltou a casa de Genoveva. O Policarpo demorava-se em Almada e Vítor vivia quase sempre com a Aninhas: era uma lua-de-mel. Levantavam-se às duas da tarde, tinham ido várias vezes jantar ao Silva e, numa noite, foram ver ao Variedades uma «mágica». Aninhas, que era a primeira vez que ia ao teatro com Vítor, tinha passado, desde as quatro horas da tarde, a vestir-se.. Vítor dera-lhe ultimamente certos conselhos de toilette, procurando fazer-lhe uma certa elegância de Madame de Molineux. Aninhas penteava o cabelo sem grande pórtico; já não riscava em frisado de canudos; usava também opopónax, no lenço, e luvas gris-perle de oito botões; e nessa noite, com um vestido de seda, cor de vinho, muito colado, uma gravata simples de renda, a sua cainha bonita, tinha um ar gracioso, simples e sentido, que fazia a Vítor alguma vaidade.
Ao sentar-se no camarote com ela, ficou pálido como a cera; ao fundo, Dâmaso, de casaca e gravata branca, próspero, deleitado, balofo, triunfante, falava com Madame de Molineux. Vítor ia retirar-se rapidamente para o fundo do camarote, quando acenos muito amigos do Dâmaso o imobilizaram na sua cadeira; e imediatamente Madame de Molineux também abaixou a cabeça. Estava esplêndida, com um vestido de seda preta onde se desenrolava um bordado espesso de veludo; tinha o cabelo, à inglesa, num penteado simples que mostrava a sua cabeça pequena e adorável. Duas pérolas negras destacavam sobre as orelhinhas e, pendente por uma fita cor de pérola da cor das luvas, tinha no peito um medalhão feito de uma turquesa.
E todo o amor, como uma onda que quebra os diques e alastra, o amor antigo, encheu o peito de Vítor, sufocou-o. Ao princípio, ficou como idiota; e o palco, as luzes escassas, a cor azebre do papel dos camarotes, tudo lhe parecia confundir-se; mas as maneiras de Madame de Molineux, que ria com Dâmaso, davam-lhe uma grande cólera e começou a inclinar-se para Aninhas, a dizer-lhe ninharias, rindo alto, arrastando a cadeira.
Aninhas não tirava os olhos de Madame de Molineux; queria saber quem ela era; examinava-a com o binóculo, tomava atitudes escolhidas, imitando instintivamente as de Madame de Molineux. Vítor continuava a afetar com ela uma intimidade expansiva, mas Madame de Molineux, muito séria, não tornou a voltar a olhar para ele. Vítor estava desesperado. Aquela indiferença amargurava-o. Começou a responder secamente a Aninhas. Não ouvia as tiradas pilhéricas dos atores e, no fundo do camarote, não tirava os olhos de Madame de Molineux. Aninhas mesmo notou-o; fez-se pálida: para que estava ele a olhar para aquela mulher?
— Eu? Que me importa a mim a mulher? Não sou livre de olhar para quem quero?...
Aninhas deitou-lhe um olhar faiscante; odiava já Madame de Molineux.
Mas Genoveva nem uma só vez tomara a voltar os olhos. Dâmaso, esse, não se fartava de mostrar a Vítor a sua intimidade, a sua felicidade; tomava atitudes triunfantes, torcia altivamente o bigode; tinha movimentos de ombros piedosos a certas expressões fracas dos atores.
Ao fim do segundo acto, Vítor viu Genoveva erguer-se e Dâmaso pôr-lhe a capa; era a mesma capa de peles que ele vira no Trindade: uma abundância de recordações aniquilavam-no. Teria vontade de se lhe atirar aos pés, pedir-lhe uma palavra, um olhar; e quando a viu sair do camarote, hesitou um momento, agarrou o chapéu, precipitou-se pelo corredor; mas chegou apenas à porta, para ver Madame de Molineux entrar para o cupé, com um movimento que levantou brancuras de saias; e Dâmaso, batendo a portinhola, triunfalmente, fazia-lhe um aceno compassivo.
Vítor voltou para o camarote, com uma raiva no coração. Desejava que o teatro ardesse, que o mundo caísse em pedaços. E sentado ao pé de Aninhas, não tirava os olhos do camarote em frente, vazio, onde ela se sentara, que devia ter ainda o seu aroma; e as lágrimas que não soltava, acumuladas, afogavam-lhe o coração.