A Tragédia da Rua das Flores
Capítulo VII · Vítor não voltou a casa de Madame…
Vítor não voltou a casa de Madame Molineux e retomou os seus antigos hábitos; frequentou mais o escritório, ia muito a casa de Aninhas; recomeçara os seus passeios pelo Chiado, as suas estações melancólicas à porta da Casa Havanesa. Mas, todos os seus actos, as suas palavras, mesmo o seu andar, tinham uma indiferença abatida e triste de um movimento maquinal. A imagem de Madame de Molineux incrustara-se no seu cérebro e nenhum atrito da vida a podia apagar. Apenas acordava, ou levantava os olhos do livro que lia, ou, terminava uma conversa, imediatamente aquela ideia se lhe erguia no espírito. Eram então supostos monólogos; suposições do que lhe diria, se a encontrasse; diálogos magoados; frases... todo um trabalho cerebral, com um só fim: possuí-la.
Às vezes, vinha-lhe um desejo repentino de a ir ver, de correr a casa dela; mas retinha-o um orgulho, uma timidez, o receio de uma indiferença. E todavia, a vida parecia-lhe inaceitável sem aquelas demonstrações de simpatia que ela lhe dera, que eram a maior doçura que tinha conhecido na existência e como a afirmação visível do seu valor.
Chegava a desesperar-se consigo de não poder tirar, das circunvoluções do seu cérebro, aquela ideia, que, como um parasita, se instalara na dobra mais profunda, mais inacessível, de onde dirigia toda a sua alma, todo o seu corpo.
A indiferença dela parecia-lhe uma infâmia; nem um recado, nem um convite! Nada!, era como se ela tivesse morrido. E não a tornara a ver, nem na rua, nem no teatro. Duas vezes passara pela casa dela; as janelas estavam abertas, havia um ar habitado. Que faria, em que se entretinha, em que pensava?
Uma manhã, vestia-se para ir ao escritório, quando a porta do seu quarto se abriu bruscamente e Camilo Cerrão entrou. Atirou o seu chapéu desabado para uma cadeira e, sentando-se na cama de Vítor, começou, sem transição, a falar no retrato de Madame de Molineux.
— Tornaste a pensar nisso... — disse-lhe Vítor.
— Como, se pensei nisso? Não tenho pensado noutra coisa!
E imediatamente, com grandes passadas pelo quarto, expôs uma teoria. Não havia arte mais nobre, mais útil, mais profunda, que o retrato. Ia abandonar a cenografia, que repugnava ao seu temperamento a paisagem, que achava um entretenimento pueril, e dedicar-se todo ao retrato.
— Não há, na arte moderna, que se lhe compare. Porque, enfim, quais são os dois grandes ramos da pintura, os dois ramos nobres, elevados, necessários? A pintura histórica e o retrato. Mas não há nada mais absurdo que a pintura histórica; o maior artista não pode fazer dela mais que uma exposição de vestuário e de armas; não pinta um homem, um herói, um filósofo, por não ter fisionomia toda a matéria; seria necessário conhecê-lo. Suponhamos que eu quero pintar Carlos Magno. Que sei eu de Carlos Magno, das suas ideias, das suas tristezas, dos seus nervos.., se os tinha.., das suas paixões, dos seus terrores, de tudo, enfim, que constitui o homem? Sei alguns dos factos históricos que se passaram no seu tempo: que tinha barbas brancas, que jogava o xadrez com o arcebispo Turpin e que achava um encanto enfeitiçado em olhar, horas e horas, para o lago de Aix-la-Chapelle. É lindo. Com estes elementos posso pintar Carlos Magno? Não. Terei de pintar um enorme velho, com uma grande exatidão na técnica, no arnês, nas armas: e um manequim, uma figura de cavaleiro, mas não é Carlos Magno. Por consequência, a pintura histórica é absurda: não pode passar de uma exposição arqueológica de vestuário, armas e archotes, tições. A alma da personagem, com quem não convivemos, com quem não temos nada em comum, de que nos separam séculos, escapa-nos: problema, conjetura.
«Agora, por outro lado, vê o retrato. Que pintamos? Homens como nós, vivendo as nossas ideias, tendo as mesmas sensações, alimentando-se com as nossas comidas, pertencentes à nossa raça; basta interrogarmo-nos para os explicar; sabemos-lhe a vida, as obras, as tendências de família, os vícios; tudo isto diante de nós, a revelar-nos o que sentem; os olhos, o sorriso, os gestos das mãos, a cor da pele.
«Agora nota a importância deste trabalho na pintura: pelo retrato, o artista lega aos historiadores do futuro os seus contemporâneos, com fisionomia e, portanto, com o seu carácter. Retratar é escrever história, a mais útil, a mais segura.
«O que é que os grandes homens legam ao futuro? Os seus livros, os seus discursos, os seus trabalhos; nas suas obras, nas palavras, o homem não se revela todo inteiro: põe sempre alguma afetação, alguma convenção, alguma reserva, muita reticência; pelo seu trabalho, o homem nunca se revela inteiramente. Portanto, cá estamos nós, que chegamos com os nossos pincéis, tomamos a fisionomia do homem ilustre, pousamo-la em tela; e este quadro, que conta, a pinceladas, o seu temperamento, o seu carácter, os seus defeitos, comenta, explica, para os historiadores do futuro, o homem.
«Depois, conta as pessoas importantes que não deixaram livros nem discursos e que, todavia, fazem a história íntima ou social de um século: os reis, os banqueiros, as prostitutas ilustres, os criminosos e os revolucionários.
«Esta gente seria incompreensível ... sem os retratos e, portanto, incompreensível no seu tempo. Os retratos formam assim uma galeria contemporânea, onde os historiadores do futuro vêm compreender, na fisionomia dos homens, a explicação dos seus actos. Vê tu Michelet. Porque é grande, porque é que a sua história tem alguma coisa de vivo, de animado, de sentido, de ressuscitado, que fala aos outros? É que explica os homens, sobre os retratos: estuda-os, surpreende-lhes uma fisionomia, a alma, as intenções, as sensações. É quase impossível compreender o século XVI, a Renascença italiana, sem os retratos de papas pagãos, de Rafael, os robustos e altivos personagens de Ticiano, sem as virginais cabeças voluntariosas e sensuais de Tintoreto. Quem compreendeu a gorda Flandres, sensata, trabalhadora, se não fosse um retrato dos burgomestres pançudos, dos bons burgueses de Antuérpia? Velasquez é o melhor historiador de Espanha e da corte altiva, mística, triste na etiqueta. O que explica o século XVIII, gracioso, fútil, impertinente, filosófico, melhor que os retratos de Wateau? E ao mesmo tempo, o que há de explicar na pintura? São os retratos: os retratos dos nossos contemporâneos, de fisionomias atormentadas, torturados, com o amor da criação e da dúvida, o rosto todo cheio de vaga inquietação nervosa, desta época de renovação? Enquanto a mim, estou decidido! Vou fazer a história de Portugal no século XIX. Quando tiver deixado cinquenta telas, de homens ou de mulheres, com as suas fisionomias vazias e balofas, o olhar pasmado e turvo, o ar abandalhado e frouxo, terei explicado, melhor que as memórias e as crónicas, o que foi o constitucionalismo em Portugal e a sua esterilidade.
Enquanto Camilo falava, Vítor tinha apenas uma ideia: que o retrato de Genoveva era um meio de se aproximar dela. E apenas ele parou, ofegante:
— Então, achas que o retrato de Madame de Molineux...
— Exijo... Preciso dela. Quero começar a minha galeria. É uma cocote, é uma aventureira, é uma sentimental, é uma voluptuosa? Pois bem, é uma personalidade. Vou personificar nela este grande período de prostituição universal, de luxúria de prazeres vendidos e comprados, de jogo de bola de sentimento. Vou pintar nela este grande facto moderno: a prostituição. A minha ideia do outro dia era absurda, perfeitamente ridícula...
E expressou logo, à sua maneira, como trataria Madame de Molineux: pô-la-ia deitada num sofá, num boudoir, com todos os requintes do luxo e da futilidade, um resumo de tudo o que cria, alimenta, provoca este grande espírito da sensibilidade moderna: sobre o piano, estaria aberta uma partitura de Offenbach; volumes de Dumas Filho, de Baudelaire, juncariam o chão; sob uma taça de jaspe, transbordavam notas do Banco de Inglaterra; ver-se-iam sobre uma cadeira números das Gazetas dos Tribunais, com as citações dos debates judiciários; e sentada numa causeuse, larga como um leito, ela aparecia numa luz crua e sincera, tendo no olhar a exaltação da bacante e nos lábios o egoísmo do agiota.
— Será a minha primeira obra. Tenho-a aqui! — batia na testa. — É a pintura, a glória, o meu destino. É necessário começar já! Quando é que ela quer começar?
Vítor disse que seria necessário falar-lhe, combinarem as horas, o local.
— No meu atelier, a luz não é famosa, como tu sabes. Mas não se trata de luz! Ao contrário, o que me serve é uma luz falsa, degradada, civilizada, cuidada, moderna, uma luz de bairro pobre e de aglomeração de míseros. Hei de inventá-la. Esclarece este fenómeno moderno do tom que lhe convém. É a luz do século. No meu atelier...
E tomou o chapéu.
— Espera, onde vais?
— Andar, mover-me, agitar esta ideia, revolvê-la. E quando lhe vais falar?
— Realmente ...
— Não. Hoje! Que diabo! Trata-se de uma grande ideia, de uma renovação da arte em Portugal, de interesse do público. Não temos um tempo a perder.
Vítor hesitou; estava encantado; mas precisava de ouvir mais razões de ir a casa de Madame de Molineux.
— Eu precisava de ir ao escritório.
— Qual escritório. Deixa lá o escritório! Os advogados! Quando se começa com os advogados!... Que relação, o advogado, o palavreado desordenado, o verdadeiro terror deste século verboso e astuto! Que tipos amarelados, sagazes, ambiciosos, vazios, feitos de palavras de convenções, o verdadeiro elemento do constitucionalismo. Não, hoje manda o escritório... Vai ter com a mulher.
Ia sair e vendo, ao pé da cama de Vítor, a gravura do Beijo de Judas, por Ary Sheffer, parou; e com um desprezo imenso:
— Se não é mesmo risível: o Beijo de Judas! O Cristo convencional sempre com uma barba bem penteada, o cabelo bem apartado; se não se diria que o Redentor vem do Godefroy. Hei de um dia pintar um Cristo; um absolutamente tal como era miserável, com a cabeça embrulhada num turbante sírio, amarelecido por uma pele de camelo; a barba hirsuta, o olhar doido de tanta visão e inflamado das areias do deserto, com a face cavada, curtida, enegrecida, requeimada; medonho, tal como era.
E depois de um silêncio, mostrando o punho à gravura:
— Não tem ideia, nem simbólico. Suponhamos que o Cristo católico é exato. Como deve ser representado, então? diz lá.
— Mas... cheio de ideal, de graça...
— Não — gritou Camilo. — Se ele tinha tomado sobre si todos os males dos homens e as deformações da vida, o seu aspeto devia ser medonho e repulsivo. Hei de pintar um Cristo. E necessário negar a legenda plástica do cristianismo! Vai ter com a mulher.
E saiu.
Vítor ficou numa grande excitação. O pretexto para voltar a casa de Genoveva estava ali plausível, justo, exigente. Mas o seu orgulho, a sua timidez, talvez, retinham-no ainda; mas então começou a considerar que aquele quadro podia ser a glória de Camilo, a sua fortuna; lembrou a sua miséria, obrigado, coitado, a fazer cenografia para viver. Podia recusar-se a concorrer para a sua riqueza, para a sua celebridade? E como homem inteligente, tinha direito a retardar um tão grande plano de arte? Não devia ir convencer Genoveva a que se deixasse retratar?
E dizendo, alto, que se sacrificava por Camilo, estava, baixo, consigo, radioso daquele pretexto que ele lhe dava.
Vestiu-se com cuidado, foi-se pela Casa Havanesa e, a uma hora, batia à porta de Madame de Molineux. Sentia tocar piano e ficou todo contrariado, vendo Dâmaso instalado maritalmente num fauteuil, fumando. Genoveva cantava-lhe uma cantiga de café-concerto, Miss Sarah tocava e aquilo tinha um aspeto de família feliz e de ociosidade conjugal. Genoveva não se ergueu logo; continuou mesmo, sem se voltar, o seu estribilho.
Et v'là, v'lá, monpetit agneau!
Depois, o teclado calou-se e veio, então, apertar a mão a Víto, que Dâmaso, com a maneira larga de dono da casa, ficou sentado no sofá.
— Pensávamos que tinha morrido. Diziam mesmo que teria sido delicado mandar-nos um convite para o enterro. Tem-nos feito muita falta.
E aquele plural, em que associava Dâmaso conjugalmente, era lançado com uma voz alegre, fácil, maleável, que torturou Vítor.
Balbuciou alguma desculpa sobre os seus afazeres.
— Espero — disse Genoveva —, que não seja aquela senhora — e voltando-se para Dâmaso: — Como se chama, meu caro?
— A Aninhas Tendeira — disse o Dâmaso, com sorriso.
Madame de Molineux teve um risinho que sufocou com dois dedos.
— A Aninhas Tendeira que lhe tem amor, todas as horas. Espero que lhe deixe, ao menos, alguma hora do dia livre; uma amorosidade assim pode ser prejudicial; vejo-o menos falador; esses exercícios de amor prejudicam-no.
Dâmaso bamboleava a perna, com superioridade. Sentia um gozo pressuroso em mostrar o espírito da sua amante ao amante da Aninhas Tendeira.
Madame de Molineux disse então, recostando-se e bocejando vagamente:
— Ah! Muito bonita, a Aninhas. Mas, meu amigo, por quem é, diga-lhe que não use aquele penteado em forma de melão.
Dâmaso cascalhou de riso.
— E sobretudo, aquela capa com que entrou, escarlate. Um salmão de teatro, escarlate. E depois, mexe-se muito; parece que tem pulgas!
Dâmaso torcia-se.
Vítor sentiu um calor congestioná-lo; as suas mãos tremiam. Disse, com uma voz mordente:
— Coitada! É uma pobre rapariga que nunca saiu de Lisboa. Nem toda a gente poderia ter corrido, de aventura em aventura, pelas quatro partes do mundo.
Genoveva fez-se pálida.
— Tem estado sempre colada ao seu rochedo. Em lugar de lhe chamarem Aninhas Tendeira, era melhor, talvez, chamarem-lhe Aninhas ostra... ?
— Antes ostra que ave de arribação.
Dâmaso tomava um ar sério, ofendido e, voltando-se para Genoveva, disse-lhe, com um sorriso espesso e lorpa:
— Vem hoje com muita chalaça o nosso amigo.
E Vítor, sorrindo, disse então o fim da sua visita, falou no retrato. Mas Dâmaso, apenas soube que o artista era o Camilo Cerrão, declarou logo com autoridade que «não podia fazer nada que prestasse».
Vítor exaltou-se; falou no génio de Camilo, contou os seus grandes planos, os estudos. Todo o mundo, em Lisboa, tinha as maiores esperanças nele. Era necessário andar inteiramente alheio às coisas do espírito e da inteligência para ignorar o lugar que ele ocupava na arte nacional; era um grande crítico, um grande pintor, um grande coração.
— Um borrador de tabuletas, um borrador de tabuletas — balbuciou Dâmaso, humilhado.
— Que entendes tu disso? — disse, com grande desprezo, Vítor; e voltando-se para Madame de Molineux:
— É um génio. Tem um temperamento de grande artista, e um pouco, exaltado, à Delacroix. O quadro de Madame, um quadro que ele concebeu, é uma obra sublime; é um crítico profundo do catolicismo.
Filosofara, citara os admiradores de Camilo, palavras elogiosas do Sr. D. Fernando; inventara; dissera os nomes de Contable, Ary Sheffer, Decamps, Meissonier, Carolos Duran, esmagando Dâmaso com um palavreado literário que o fazia escarlate; e para o embaraçar, para o humilhar.
— Que tens tu a dizer do quadro dele, a Taverna? Que tens tu a dizer? Todo o mundo concordou que era uma revolução.
Era uma tela que Camilo expusera, que alguns amigos tinham celebrado em folhetim. Mas Dâmaso, que não conhecia a Taverna, disse apenas, com mau modo:
— Eu cá não gostei, não gostei, acabou-se.
— Mas porquê? E a ideia? A obra é cheia de observação, de finura, de fisionomia. E o desenho é de uma firmeza de mestre. E a luz? Na luz admirável, transparente, em que as personagens vivem? E o colorido? Um colorido nítido, brilhante, firme? — E lançou ao acaso: — Um colorido à flamenga, o colorido dos mestres.
Dâmaso calava-se humilhado. Madame de Molineux tinha seguido as palavras de Vítor com avidez. Fazia constantemente os mesmos movimentos de cabeça, tinha os mesmos olhares. Como aquelas palavras, caindo na sua alma, a agitavam das impressões que traziam. Disse enfim:
— Se é um artista dessa ordem, é um bem para mim que ele queira fazer o meu retrato.
Vítor ergueu-se logo a dizer o plano de Camilo, calando os detalhes críticos, falando apenas no boudoir de seda; na causeuse, na túnica, nos ombros decotados...
— Perfeitamente, perfeitamente — dizia Madame de Molineux.
Dâmaso interveio:
— Minha senhora, se quer o seu retrato, deixe-me trazer-lhe o espanhol, que tem tirado o retrato a todas as pessoas conhecidas; tira-os em duas semanas e muitíssimo parecidos...
Vítor, então, ergueu-se, e para Madame de Molineux, encolhendo os ombros e abrindo os braços:
— À vista de uma tal opinião, não tenho mais nada a dizer. Mande vir o espanhol.
Madame de Molineux ergueu-se e comentou:
— Mas não, mas não! A ideia do espanhol é tola.
Dâmaso ia falar.
— Por quem me toma? — disse-lhe Genoveva, com grande altivez. — Por alguém que vai desejar o seu retrato por algum pintor ambulante, a dizer painel por painel...?
— Tem muita habilidade...! — protestou Dâmaso. — É muito barateiro.
Vítor disse com um ar triunfante:
— Ah, se é uma questão de dinheiro, escusa de se afligir.
O Camilo não fala em dinheiro. Pretende fazer uma obra de arte. Não encontrou um modelo em Lisboa, digno. Viu Madame de Molineux e desejava retratá-la, pela sua beleza, pela sua figura; espera fazer alguma coisa de notável. Mas não fala no dinheiro. De modo nenhum.
O peito de Genoveva arfava.
— Traga-mo amanhã, para conhecer-me.
— Mas, cá? — disse Dâmaso, escandalizado.
Madame de Molineux fitou nele dois olhos agudos, como de um florete.
— Mas quê? Que tem com isso?
Vítor triunfava; tinha-lhe vindo o sangue-frio, a segurança, a facilidade da palavra. Disse com ironia:
— Lamento muito vir perturbar-lhes a felicidade, com a minha ideia. Mas, pelo amor de Deus, não se fale mais nisso. Não se fale mais nisso.
E Genoveva, agitada, trémula, disse:
— Fala, fala-se nisso. Amanhã, às duas horas. Venha com o homem.
E abaixou a cabeça.
Vítor saiu, dizendo a Dâmaso:
— Até à vista.
O outro fez-lhe, com os dedos, um adeus seco. Fez o passeio pela sala, com as mãos nos bolsos, soprando. E apenas sentiu a porta fechar-se, voltando-se para Madame de Molineux:
— Então, que querem esses modos, Genoveva?
Ela disse-lhe muito francamente:
— Não me excite, que eu estou nervosa.
Aquela secura, o seu rosto pálido, assustaram Dâmaso.
— Mas que lhe fiz eu?
Ela ergueu-se violentamente.
— Ouve aquele homem chamar-me ave de arribação e não tem nada a segredar-lhe? Deixa-o, na minha presença, tratá-lo de imbecil? Não dizer, logo, senão asneiras tolas e de ridículo! Sabe, aliás, o que tenho suportado na minha vida; posso aturar um homem velho, um malvado, um brutal, um bêbado, um cínico, um monstro..., não posso aturar um tolo!
Dâmaso ficou petrificado. Imóvel, lívido, batia com as pálpebras, como um homem mal acordado; sentia um zumbido nos ouvidos e não lhe acudia uma ideia, uma palavra, uma interjeição.
— Bem, adeus — disse ela, impaciente daquela figura imóvel.
— Manda-me embora?
Genoveva teve um gesto de impaciência fúnebre.
— Mando, mando, mando! Estou farta da sua cara, da sua figura, da sua fala rouca... de si. Adeus.
Bateu com a mão, uma na outra.
— Que grande tola eu tenho sido!
Ele agarrou no chapéu, saiu soprando, apoplético, furioso.
Durante duas horas, Genoveva passeou pelo quarto, numa excitação extraordinária. Miss Sarah veio à porta da sala, mas vendo-a naquela excitação e conhecendo os seus repentes, retirou-se prudentemente, cerrando a porta.
Genoveva sentia uma cólera frenética, irracional, contra tudo, contra todos. Odiava Dâmaso, Vítor, a si, e juntas, Lisboa, a vida! E naquela confusão de ideias entrechocadas, uma, sobretudo, irritava: a indeferência de Vítor, a sua serenidade, a sua réplica, o seu ar de superioridade, de indiferença. Odiava-o, sobretudo a ele. Vinham-lhe ideias de partir de Lisboa, ir para Paris... Mas, como estava cheia de dívidas, lá, não tinha dinheiro. E além disso, num repente de cólera, ofendera Dâmaso! Mas, também não podia suportá-lo, com aquele ar balofo, aquele modo próspero, os ademanes nas pernas gorduchas. E era, no fim, contra ele, que sentia causar-lhe todas as suas vagas irritações.
Havia dias que vivia numa excitação permanente; a sua situação era cheia de dificuldades, de embaraços. Adorava Vítor: uma paixão frenética, servil, fanática, apoderava-se dela. Tinha trinta e oito anos e via-se a amar loucamente um rapaz de vinte e três anos! Aquela paixão não se assemelhava a nada do que sentira; até... reconhecia-o agora... não tivera senão caprichos, toquades, manias, ilusões, desejos dos sentidos, fogachos do temperamento. E de repente, quase velha, um amor completo, irresistível, fanático, apossava-se dela. Amava-o com todos os entusiasmos da alma e todas as febres do corpo; sentia-se capaz de o servir de joelhos, com a devoção de uma irmã de caridade e a abnegação de uma mãe... e desejava devorá-lo de carícias, com todas as alucinações de uma bacante e as torpezas de uma prostituta.
Tinha conhecido homens mais formosos, uns, mais inteligentes, outros, e todavia nenhuma beleza a fizera tremer tanto e nunca palavras humanas a tinham enlevado tanto. Ele vivia no seu cérebro, de um modo aberrante e tirânico; como um vírus, aquela paixão penetrara na sua carne, na profundidade do seu temperamento, nas circunvoluções do seu cérebro, de modo que não havia ideia dentro de si que não fosse para ele; desejos no seu sangue que não fossem para ele. E o que havia de fazer?
O seu desejo era viver com ele, porque, nem por sonhos, suportava a ideia de pertencer a outro homem, logo que se tivesse dado a ele. Tinha, como todas as cortesãs, a distinção muito exata entre o homem e o amante: o homem que paga os luxos, a casa, a quem se dá um amor mercenário e uma afeição bem-educada; o amante, aquele que não paga, recebe mesmo presentes, e a quem se dão todas as sublimações do coração e todos os ardores da sensualidade. Mas, nem por minutos, podia suportar a ideia que Vítor poderia ser o seu amante.
Se ia dar-se a ele, nunca se daria a outro. Quereria viver com ele, só, absolutamente, e para ele ser o seu amigo, nem ela, nem ele, tinham dinheiro. Poderia vender as suas joias, alugar uma pequena casa, desfazer-se dos seus luxos e viver com ele numa estreiteza medíocre. Ele a aceitaria, talvez. Mas, quanto tempo?
Ela tinha trinta e oito anos; podia ser ainda bela dez anos, mas, depois? Depois? Ele aborrecer-se-ia dela, gostaria de outra, poderia casar. E o que seria ela, então? Achar-se-ia abandonada, pobre, muito velha para recomeçar a vida, muito infeliz para a suportar, sequer.
Lembrara-lhe, às vezes, de aceitar esta intenção; e um dia, quando visse nele os primeiros arrefecimentos de saciedade, entrar num convento e matar-se. Teria tido, ao menos, anos de uma felicidade infinita e, depois, acabou-se! Daria o resto a Deus, o último amante, tão condescendente que aceita todos os inválidos do sentimento... ou ao Diabo! Mas tudo isto, como ela refletia, era romance. Conhecia-se bem. Não era mulher para se resignar às grades de um recolhimento e aos caldos de um refeitório. enquanto a matar-se, olha quem! Ela que, se tinha uma dor de cabeça, chorava da crise; ela, tão amiga da sua carne que se idolatrava, que tinha o culto imiscuo de si mesma. Destruir-se? Nunca!
Sabia bem qual o seu futuro. Se se ligasse com ele, apenas o visse frio ou menos amante, começaria uma vida de luta, de ciúmes, de cólera; acabaria por dar-se ao álcool, ao gim; acabaria nalgum hospício, velha, miserável, inválida.
Aquela paixão viera no momento mais delicado da sua vida. Tinha apenas o amor para fazer fortuna; enquanto fosse bela, com a sua ciência de amar, a sua habilidade de intrigante, poderia ainda achar um homem que lhe organizasse uma independência para a velhice, ou que se casasse com ela; ou, por um e outro, cem libras aqui, cem libras além, ir fazendo, de economias em economias, a reserva para o tempo dos reumatismos. Mas, por não poder esquecer Vítor, teria de voltar para Paris, ter o espírito sereno, a habilidade aguçada, «tento na bola» e as mãos seguras à manobra. E poderia fazê-lo?
— Não, mas não! — murmurava, torcendo os braços, de amor e de desejo.
Aceitaria tudo: as dificuldades, as misérias, as amarguras, mas não se separaria dele! Até ali, vivera numa espécie de imatéria, adorando-o já, mas não se sentindo ainda pronta ao sacrifício extremo; ia-se apressando em «cardar» Dâmaso e, nos últimos tempos, fazendo-lhe todos os dias a representação ruidosa de um amor exaltado, tinha-lhe subtraído somas consideráveis. Começara a compreender que era uma mina aquele imbecil e explorava-o com entusiasmo e sagacidade. Mas, quando Vítor estivera uma semana sem voltar, depois do passeio a Queluz, a sua paixão exaltara-se. Julgava hábil não lhe escrever, irritando-o pela representação de uma indiferença completa; mas, cada dia, a presença de Dâmaso a aguçava mais. Tinha dias em que o toque de campainha, retinindo, lhe fazia mal aos nervos.
— Vejo-lhe logo a mão gordinha, a puxar o cordão da campainha — disse ela a Mélanie.
Depois, no dia em que viu Vítor com Aninhas, no Teatro Variedades, reconheceu que estava estupidamente apaixonada. Ao vê-lo com outra, tudo se lhe confundia diante dos olhos, como uma vertigem; mas, com o hábito das dissimulações, teve a força de lhe sorrir, de fitar o palco, de olhar os atores, de sorrir a Dâmaso, de lhe fazer observações. Só quando entrou em casa... depois de dizer a Dâmaso que não entrasse, que estava doente, é que explodiu de cólera, só, no seu quarto, com Mélanie. Rasgou literalmente o vestido, chorou, espedaçou dois frascos de cristal: que sairia, iria a casa deles, queria malar a criatura; toda a sorte de ideias loucas, absurdas, lhe ferviam na cabeça. Bebeu meia garrafa de gim e, depois de uma cólera delirante que lhe deu o álcool, em que Mélanie teve todo o trabalho na conter, adormeceu bêbada. Ao outro dia, tinha o aspeto envelhecido, estava envergonhada de si mesma; mas o ciúme subsistia e parecia crescer-lhe.
Depois, esperara todos os dias que Vítor voltasse. Fazia planos que abandonava, escrevia cartas que rasgava, chorava; e todas estas exaltações eram ocultas, porque, comprometendo o interesse do seu coração, queria ao menos assegurar os interesses da sua algibeira; e aparecia a Dâmaso risonha, agradável, com um ar sereníssimo, mas pálida e ardendo em ódio.