A Tragédia da Rua das Flores
Capítulo VIII · Vítor saiu de casa de Genoveva com…
Vítor saiu de casa de Genoveva com a alegria de um general que deixa, depois de uma vitória, ao anoitecer, o campo de batalha. Muitos sentimentos vinham dar-lhe a doce sensação consoladora: tivera graça, facilidade de palavras; mostrara a Genoveva que os seus desdéns eram retribuídos com desprezo manso; humilhara Dâmaso, achatara-o, confundira-o... e tinha conseguido o retrato e um pretexto para visitas futuras. Vingara-se, mostrara a sua força, alcançara uma vantagem estratégica. «Sou um Bismarck!», pensava, vergastando o ar com a badine.
Nunca a vida lhe parecera tão boa e sentia-se com inteligência, força para combinar outras intrigas, triunfar nas salas, reinar pela habilidade. Sentia-se vagamente um político; vinham-lhe baforadas de ambição. No fim de tudo, para que se havia de fazer desgraçado, prender-se a uma semelhante pega? Devia trabalhar, seguir a sua carreira, seria deputado, ministro; e via-se passando o Chiado, com um correio, ou pisando os tapetes do Terreiro do Paço, com uma pasta de estadista sob o braço coberto de uma manga bordada a oiro.
Caminhava tão depressa que, ao pé do correio, esbarrou com um sujeito atabafado num paletó.
— Oh, senhor João Marinho!
— Oh, amigo Silva.
E chegando-se para a porta do correio, conversaram logo de Madame de Molineux. Marinho não voltara lá, desde a soirée; estava realmente envergonhado, mas não tivera um momento do seu e, imediatamente, fez o seu elogio com a sua fórmula pires, cantada: «Era uma pessoa muito distinta; não era virtuosa, não, que diabo!... Também, se todo o mundo fosse virtuoso, o mundo era muito aborrecido.» E riu da sua própria malícia.
— Não é verdade, amigo Silva? Não é verdade? Ah — continuava —, mas agora, em Lisboa, estará deslocada. Era necessário vê-la em Paris. Tem espírito, tem finura. E recebe muito bem. E veste-se... E entende de carruagens!... Ele mesmo ouvira dizer a Cora Tear... aquela boa Cora... a «Madalena do Deboche». Eu chamava-lhe a Madalena do Deboche. Pus-lhe o nome. Uma ocasião, até o disse ao príncipe de Orange. A sua alteza riu; dignou-se rir.
E ele mesmo cascalhava, erguendo o pé, todo nervoso. Mas calmou-se, arregalou um olhar quase aflito: tinha-se esquecido inteiramente do que estava a dizer; tinha às vezes daquelas falhas de memória.
— A respeito da Cora.
— Ah! — e quase deu um berro. — A Cora. A Cora disse dela: Elie est trés futée, cette petite portugaise! Eu conhecia-a muito. E Monsieur de Molineux, um velho divertido... Que ceias!... Ah, já lá vai tudo! Paris sem um império não vale nada... — e oscilava a cabeça com melancolia, como se visse, estendida no palco a ruína da França.
Mas Vítor, tomado de uma ideia súbita, disse-lhe familiarmente:
— O Marinho, quer você vir jantar comigo ao Central?
— Pois sim, meu caro, pois sim. Jantamos num gabinete; há um Mouton-Rotchild delicioso, delicioso; e barato; uma, duas, três garrafas... As seis, hem?
— As seis, na Casa Havanesa.
— Au revoir!
E sem razão, Marinho riu, pasmando toda a face. E afastou-se, com as abas do paletó ao vento.
Vítor achara a ideia excelente. Marinho, bem alimentado e bem bebido, devia dizer o que sabia sobre Madame de Molineux. Vítor esclareceria assim certos pontos obscuros; teria enfim ideia de quem era aquela «aventureira». Queria conhecer o seu passado, os seus amantes, a noite de Paris, os seus delírios e bater sobre as recordações do Marinho, como quem bate um mato, até fazer sair a lebre.
E dirigiu-se logo ao quarto andar de Camilo Cerrão, para o prevenir que Madame de Molineux os esperava no dia seguinte, às duas.
Foi a bela mulher... a fêmea do Camilo... que veio abrir a porta. Ficou um pouco corada ao vê-lo e disse que o Camilo não estava.
— Desejava, então, deixar-lhe escrito um pequeno bilhete.
Joana fê-lo entrar no atelier e, enquanto procurava pena e tinteiro, Vítor observava-a; apesar de ser Inverno, ou por hábito, ou por pobreza, ou por desdém dos agasalhos, trajava um roupão de chita, amarelado, enxovalhado, que passado, decerto, apenas sobre a camisa deixava em toda a liberdade de movimentos o seu corpo esplêndido; sentia-se que não tinha colete e a elevação dos seios revelava contornos de uma Frineia escultural. A vida encerrada naquele quarto andar fizera-lhe perder as cores vivas da aldeia e, muito branca, apenas as mãos conservavam a dureza avermelhada e calosa do trabalho plebeu; e os ombros e as ancas, os braços, tinham a beleza de uma grande estátua, sentindo-se a circulação de um sangue quente sob uma pele láctea e macia. Mas o que perturbava Vítor era aquele roupão amarelado, colado ao corpo, revelando, nos movimentos, formas quase nuas. Como o teto era baixo, parecia mais alta; e com o seu perfil anguloso, a testa curta de mulher romana, o queixo redondo e firme, os seus olhos negros, cerrados, aveludados, pasmados, parecia, no meio daquela desordem artística, esboços de pinturas e gessos estatuários, uma escultura viva, vestida de cozinheira.
— Não se incomode — disse então Vítor. — Eu escrevo como lápis.
Ela afastou-se para o pé da janela e Vítor, voltando a cabeça, viu que ela fixava sobre ele os seus soberbos olhos pretos. O coração bateu-lhe; sentiu como uma baforada de sensualidade pagã perturbá-lo. O silêncio do atelier, o largo divã amarfanhado, davam-lhe ideias de um desejo bruto e a mão, escrevendo, tremia convulsivamente.
— Bem — disse terminando —, aqui deixo o bilhete, para quando ele vier.
Ela abaixou a cabeça. E todavia, Vítor não saía; calçava devagar as luvas, um pouco pálido, embaraçado, perturbado, procurando uma palavra.
— Muito bonito dia — achou por fim.
— Está muito bonito.
Tinha uma voz cantada, cálida, Vítor pôs-se a olhar para as paredes, como para ver os esboços; passou em frente do cavalete onde o esboço grosso e empastado de uma paisagem de ocaso mostrava um tronco caído ao pé de uma cabana.
— Muito bonito isto — disse ele, voltando-se para ela, indicando a tela.
Ela ficara à janela, onde os seios hirtos, magníficos, destacavam na luz um pouco baça e degradada. Tinha os braços caídos, as mãos enlaçadas.
Vítor concentrava-se para não lhe tocar, não lhe pôr as mãos, tanta era a atração magnética que saía daquelas formas soberbas.
— Então não se esquece de lhe dar o bilhetinho, hem?
— Não, senhor.
Vítor, então, procurou o caderno; tinha-o atirado para cima do divã, mas não o achava, olhava em redor. Ela procurava também e ambos, ao mesmo tempo, viram-no caído entre o divã e a parede; e no movimento de apreensão, o peito de Vítor roçou pelo ombro dela. Pareceu-lhe que um calor animal, muito bom, lhe passara sob a pele, com a impressão de uma carícia forte. E quando Joana endireitou o busto, estava escarlate; tinha uma expressão tímida, carregada, e o olhar parecia mais sombrio.
Vítor estendeu-lhe a mão, dizendo:
— Muito boa tarde, minha senhora.
— Adeus...
A sua mão apertou a de Vítor, ficou na dele, mole, morta, com a sua pele dura de uma lavradeira.
Vítor, na rua, respirou. Parecia-lhe que saia de um forno onde circulava um ar pouco são e uma sensualidade pesada. Aquela mulher perturbava-o com certa atmosfera quente, de eletricidade; jurou nunca mais se demorar com ela, só, porque enfim, que diabo, é recusar ser homem de bem!
Mas não pôde perder a lembrança daquelas belezas fortes, robustas, pagãs e, sobretudo, o que o excitava era que tocar naquele corpo dava-lhe a sensação de um calor morno dissolvente, delicioso ao contacto, estonteador.
— Terrível criatura, safa!
Mas, às seis horas, tinha-se esquecido, descendo alegremente a Rua do Alecrim, com Marinho, para o Hotel Central. Marinho, apenas chegou, chamou o maitre. O maitre teve um conciliábulo com ele, discreto, refletido, e veio dizer a Vítor, que, na sala de leitura, folheava um velho volume da obra de Gavarni.
— Tem um jantarinho de apetite, mas é necessário esperar meia hora. — E vendo o volume: — O Gavarni! Ah, o Gavarni, muito pândego, muito pândego! — E para passarem meia hora, propôs que fossem acima ver o seu especial amigo, o barão de Markstein, um diplomata que estava adoentado. E para dissipar a hesitação de Vítor:
— Eu apresento. Excelente pessoa. Cliente fino. Um cavalheiro!
Vítor foi, por indolência, por inércia, deixou-se arrastar até à sala de repes azul do diplomata. E imediatamente o barão apareceu, com um passo miudinho e dançado, conchegando, com o braço esquerdo, ao corpo, um robe-de-chambre de ramagens e, com a mão direita, pondo e tirando, em cortesias, um fez turco. Tinha o queixo amarrado num lenço de seda preta e a sua fisionomia, fina e aloirada, tinha uma expressão difusa de uma melancólica estupidez. Apertou a mão de Marinho, com um afeto profundo; fez sentar Vítor, ofereceu, com uma voz desfalecida, charutos, e desculpou-se, logo contando que, no último domingo, em casa do Marques, à saída, tinha apanhado um frio!... Vira-se obrigado a tirar um dente.
Marinho lamentou-o com palavras desoladas. O barão encolheu os ombros com uma resignação triste e, de parte um do outro, sorriam, diziam-se doçuras. E Marinho, então, começou a falar na retirada próxima, de que se falava, do embaixador de Espanha. O barão exaltou-se e, levantando-se, declarou que «não havia nada decidido, não havia nada decidido; que, todavia, era possível que houvesse alguma coisa, mas estava simplesmente em projeto; de positivo, nada; era arriscado afirmar; era possível, mas que deveria abster-se de toda a opinião particular firmemente expressa; era um assunto excessivamente delicado; e todavia... pedia que não tirassem das suas palavras nenhumas ilações; não ele, era como outro qualquer: dizia só que era possível; mas isso não queria dizer que soubera, ou lho tivessem dito; não, de modo nenhum. Naquelas coisas era muito cauteloso, muito cauteloso». E levou a mão ao queixo, com uma carantonha que desaguou num sorriso.
Quis então mostrar ao Marinho o último retrato que tirara e, com o seu passinho miúdo e dançado, desapareceu na alcova.
Marinho voltou-se para Vítor, arregalou os olhos e teve um gesto que expressava: «Um grande homem! Muito profundo.»
O barão aproximou-se com as suas coleções de retratos. Tinha-os vestido de manhã; fardado; vestido de baile, encostado a uma coluna truncada, vestido para a caça, e o último, encostado à mão, numa atitude filosófica, examinando um mapa. E de pé, com os dedos no queixo, esperava a opinião de Marinho.
Admirável! — disse Marinho.
O barão, então, contou que oferecera um a sua majestade el-rei. Tinha hesitado; era um assunto muito delicado; tinha meditado muito. Mas, como sua majestade lhe tinha, um dia, rindo, pedido o seu retrato, julgara poder... Pois não se ignorava a benevolência da sua majestade. Ao contrário, dignara-se aceitá-lo e até lhe dera um da sua majestade mesmo. Era um grande homem. Não teria apreciado mais se lhe tivessem dado uma grã-cruz. Que não supusessem que ele a ambicionava, ou que aquilo era uma maneira de indicar, de lembrar que a ambicionava; às vezes, uma palavra mal interpretada... Mas realmente a cordialidade da sua majestade fora adorável. Não se imaginava um monarca tão benévolo, tão simples, tão afável. Ele participara logo ao seu Governo aquela honra. Não recebera a resposta, mas estava certo que faria muito boa impressão, muito boa impressão.
E voltando-se para Vítor, disse que estava encantado com Portugal; o clima era divino; a sociedade perfeita, e uma benevolência, uma benevolência...
Ofereceu, então, como el-rei, um retrato a Marinho; meteu-lho num sobrescrito que colou, lambendo-o com esforço do queixo doente e uma correção burocrática; entregou-lho com uma cortesia. E quando eles se retiraram, veio acompanhá-los, dizendo ainda que não supusessem que ele não sabia nada sobre a retirada do embaixador de Espanha; exprimira uma opinião, como particular; «era um assunto muito delicado».
Quis saber onde Vítor morava. Jurou-lhe que raras vezes encontrara um mancebo de tanta ilustração; perguntou se não o encontraria, na quinta-feira, em casa do presidente do Conselho; resvalou algumas palavras sobre a grande fama europeia do presidente do Conselho; e ficou à porta, curvado, numa atitude de F., murmurando cumprimentos que se perdiam na dobra do buço.
— Homem muito profundo — veio dizendo Marinho, que trazia o retrato na mão, com cautela, como um santo sacramento.
O jantar dos dois foi longo, delicado, copioso. O Mouton-Rotchild era excelente.
Falaram naturalmente de Genoveva, mas Marinho, que parecia ter adquirido o receio contagioso do diplomata, manteve-se em generalidades vagas. Falou sobretudo de Monsieur de Molineux, descreveu as suas opiniões políticas, o lindo palacete que tinha na Rua de Lord Byron, a sua voracidade à mesa, a sua repugnante velhice, os seus vícios...
— Enfim, ela, nesse tempo, tinha alguns amantes? — disse Vítor. — Não se podia contentar com o velho...
— O velho... o velho... — e Marinho cascalhou. — Eh! Eh! Tinha muita experiência, tinha muitas habilidades... — querendo dar a entender que, no velho, a ciência da libertinagem substituía a redução da juventude.
Mas, quando o criado entrou com um perdreau aux choux, quase se enterneceu; verificou se tinha junto o bocadinho de Roquefort, em que ele insistia, e quando reconheceu que sim, que lá estava, o seu olhar húmido expressou em redor, para o criado, para Vítor, um reconhecimento enternecido.
Servia-se com abundância, encheu o copo, viu que não lhe faltava nem o talher, nem o pão, que a janela estava bem fechada, o gás funcionava, e satisfeito com a sua felicidade, atacou a perdiz, dizendo a Vítor:
— Eu não quero dizer mal. O meu amigo sabe que eu não sou homem de mexericos. Vejo, oiço e calo. É a minha filosofia.
Teve, na cadeira, gestozinhos contraídos, como se lhe fizessem cócegas. Repetiu:
— É a minha filosofia. Mas a verdade é que, no tempo do pobre Molineux, ia lá muito um rapaz, um La Rechantaye, bonito rapaz... Não que eu visse, não que eu visse...
Mas, sob a influência da perdiz e do Mouton-Rotchild, concordou que vira.
Ele não queria dizer mal, mas era ali entre eles, «não é verdade?» Pois vira. Vira-o num dia... Era uma soirée, em casa do pobre Molineux; ao pé da sala de jantar havia uma estufa, estavam todos no salão a jogar; ele, por acaso, entrara na estufa que estava mal iluminada... — ele «não queria dizer mal» — e chegando-se muito para Vítor — mas estava deitada nos braços dele, a despentear-lhe o cabelo! «Isto vi eu!»
Vítor repeliu o copo, com um gesto tão brusco que entornou vinho. Marinho precipitou-se e pondo dois dedos na toalha ensopada; e passava-os pela testa, dizendo:
— E para boa sorte, é para boa sorte.
— E que é feito desse rapaz?
— Morreu! Morreu! — E a voz de Marinho tomou tons lúgubres. — Morreu na guerra, na guerra!
Vítor sentiu uma satisfação, um vago reconhecimento, pelas vitórias alemãs.
Marinho encolheu descuidadamente os ombros, mas vendo então uma garrafa de champanhe, não se conteve e disse:
— Qual! Mulher sem coração! Aqui para nós, eu não gosto de fazer intriga, mas, a falar a verdade, aqui entre nos, e uma aventureira.
E acrescentou:
— Da pior espécie, da pior espécie...
Provou o champanhe. Achou-o excelente e, recostando-se na cadeira, exprimiu grande suspeita sobre Madame de Molineux.
— Como, como?
— Ali há mistério — e Marinho tomou um aspeto solene; disse mesmo, com um ar cavo: — Ali há tragédia.
A curiosidade de Vítor estava excitada. Com os cotovelos na mesa, devorava Marinho com os olhos. Mas o excelente homem falava a espaços, muito ocupado agora com o seu rosbife, comendo com método, fazendo estalar a língua, concentrando-se para saborear. E foi só quando o criado trouxe uma Charlote Russe, que Marinho, depois de ter passado a mão pela testa, como para clarificar e dispor as suas recordações, largou tudo:
— Aqui está como eu vim a desconfiar. Eu sabia que ela era portuguesa. De resto, era fácil ver-se: tem um acento, no francês, do diabo. Agora, não tanto mas tinha. Abria cada E e cada O! Desagradável, desagradável. Ora, naturalmente, eu não sou melindroso, o amigo conhece-me, mas tive curiosidade de saber, não é verdade? Tive curiosidade de saber de onde era, se de Lisboa, se da província. Disse-me que era da Madeira. Que família? Gomes, Gomes?... disse eu comigo... não me cheirava a ilha da Madeira, não me cheirava. Eu tenho faro — e imitava-o, farejando por cima da mesa. — Disse comigo: «Nem tu és da Madeira, nem Gomes!» Mas enfim, que diabo, jantava-se muito bem em casa dela, era muito amável. Que me importava a mim quem ela fosse? Dos portugueses, em Paris, ninguém a conhecia. De resto, ela não é nova. Tem trinta e nove ou quarenta anos, mas muito bem conservada. Ainda não a viu decotada? Oh! — e Marinho ergueu os braços ao ar: — E um colo e um seio! É um caso de perder a cabeça — e os seus olhos dilataram-se extraordinariamente. — Pois, senhores um dia, aparece em casa do Molineux um sujeito, um brasileiro, chamado coiceiro, apresentado por... por... Enfim, não me lembro. Esta memória, esta memória!... Homem ordinário, com um aspeto... — procurou a palavra, hesitou, mas com uma resolução brusca. — Que diabo, nós estamos aqui entre amigos... Com um aspeto facínora. E era-o! — e juntou, num tom soturno: — Não se sabia bem a sua história, mas falava-se de um assassinato. O caso é que ele tinha casado com a viúva de um homem, em casa de quem era caixeiro, já rico; e depois, fez uma falência brutal. Vivia em Paris, com um luxo, um luxo!... Enfim, falado. Mau gosto, muito mau gosto, mas à grande. Madame de Molineux sabia perfeitamente o que se dizia do brasileiro, mas recebia-o; que lhe importava a ela, não é verdade? Era milionário, jogava e perdia; que tivesse assassinado, ou que não tivesse assassinado, essas coisas, em Paris, não influem. Tinha dinheiro? Pois bem, «vem cá meu ai-jesus!» Um dia, num jantar, o coiceiro pôs-se a dizer, em português, a Madame de Molineux: «A senhora nunca esteve na Guarda?» Pois, menino, eu estava a olhar para ela e via-a, positivamente...
A porta abriu-se e o criado entrou, dizendo que o senhor barão de Markstein perguntara se não seria indiscreto vir tomar com eles o seu café.
— Não certamente — disse Vítor, contrariado, olhando para Marinho. — Que sim, certamente.
— E muito amável, é muito amável — disse logo Marinho, radioso.
— Mas, continue, Marinho. Ia a dizer... Viu...?
— Que vi quê?
— A Madame de Molineux, quando o brasileiro lhe disse...
Mas a porta tornou a abrir-se e o barão entrou, tirando e pondo o seu fez. Pediu logo que lhe jurassem que não era importuno; mas sentia-se em casa, tão só... E conhecendo a cordialidade dos Portugueses, de que tinha tantas provas... julgara... Mas, realmente, não era importuno? Não vinha interromper nenhuma conversa?...
E só depois de manter afirmações «que não, que não», resolveu a sentar-se, com muitos gestos, muitos cumprimentos da sua face amarrada no lenço; pedindo que se não incomodassem, que fizessem de conta que ele não estava ali; e, remexendo o café, pediu como um favor, como uma esmola, notícias da sociedade. Estava havia dias em casa e não sabia nada do que ia, não sabia nada. Quem tinha estado em casa do ministro do Brasil? Se a receção do rei tinha estado concorrida? Se tinha estado este, aquele? Como estava sua majestade? O que ia na ópera? Ele não sabia nada, não sabia nada, estava inteiramente envergonhado.
Mas Marinho sabia tudo, ele. Informou-o miudamente. E Vítor, puxando com força casquinhas de tangerina, furioso daquela interrupção, escutava aquela conversa sobre pessoas que não conhecia, um pouco humilhado, receando que, interrogado pelo barão, tivesse de revelar a falta de relações aristocráticas.
E mesmo para o evitar, lançou algumas frases sobre a questão do Oriente: teríamos a guerra?
O barão afundou a fisionomia nas dobras do lenço, e encolhendo os ombros: «Era difícil dizer; não era possível avançar uma opinião; tudo parecia extremamente complicado; era grave, muito grave; no entanto... Que ele exprimia apenas uma opinião individual; de modo algum considerassem as suas palavras, como partindo de um homem público. Não. Era grave, era muito grave. Era tudo o que se podia... Haverá guerra, não haverá guerra? Eis a questão. Era excessivamente grave.»
E com os olhos postos na chávena, as sobrancelhas erguidas, absorto, remexia devagar o seu café.
Vítor falava no chanceler do Império, o príncipe Gucharof...
— Muito profundo — observou logo o barão.
Vítor lançou o nome de Bismarck.
— Excessivamente preocupado — disse o barão, e acrescentou que «era grave, muito grave!»
E convidou-os a passarem a noite com ele. Viria o secretário de França, o adido de Itália, e faria um whist. Marinho aceitou logo, com grande júbilo, contanto que fosse um whistezinho barato; porque não valia a pena... «Não é verdade?», entre amigos, para passar a noite agradavelmente, porem-se com preços...
O barão aprovou: «Decerto, decerto!» E sentiu muito que Vítor não quisesse ficar.
— Não, não posso. Tenho uma visita.
O barão curvou-se e lembrou que o melhor seria irem para o seu quarto; tinha um excelente conhaque, charutos... Mas Vítor, que não podia falar particularmente a Marinho e tirar-lhe o resto da história de Madame de Molineux, despediu-se dele no corredor, dizendo:
— Eu por lá apareço, Marinho.
— Aparece, meu bom amigo, aparece. Excelente o seu jantar. Ótimo. Fizemos um jantarinho delicioso.
E foi seguindo, muito contente, o barão, que, ainda da escada, saudando Vítor, punha, tirava o seu fez.
Vítor saiu muito contrariado. Tinha agora um desejo profundo de saber o resto da história do brasileiro. Decidiu-se a ir, no outro dia, ao Hotel Universal procurar Marinho e, indo ao acaso, achou-se involuntariamente descendo a Rua do Correio, para S. Bento. Não sentiu que passaria por casa de Madame de Molineux. A porta estava o cupé de Dâmaso; havia luz na sala, no quarto dela. Aquilo contrariou-o mais e, lamentando até o pobre tolo do Dâmaso por estar metido com semelhante aventureira, pisava a rua com um passo irritado, exibindo uma turbulência de temperamento, com irascibilidade e vontade de chicotear Madame de Molineux e de lhe morder aquele colo maravilhoso de que falara Marinho e que lhe punha no sangue uma faiscação vibrante.
Genoveva, com efeito, ao anoitecer, tinha mandado a Dâmaso este bilhete:
«Meu querido, perdoa; eu estava nervosa, não sabia o que dizia hoje; peço-te que venhas, não tenho feito senão chorar.»
E Dâmaso, exaltado, chegara a galope.
Genoveva, acalmando a sua exaltação da manhã, tinha refletido na inconveniência de uma cena com Dâmaso; no fim, aquele imbecil é que tinha o dinheiro; fossem quais fossem os seus sentimentos ou as suas resoluções, era necessário não O escandalizar; se a sua paixão, o seu interesse, o reclamassem, poderia depois expulsá-lo, mas, até lá, convinha seduzi-lo, estonteá-lo, vergá-lo, e, nota a nota, espremer-lhe os últimos sucos de generosidade. Fez uma toilette um pouco provocante e, «armada» como ela disse, esperou o bicho.
Apenas ele entrou, esbaforido, estendeu-lhe as duas mãos, por um gesto cheio de humildade amorosa, dizendo:
— Perdoa. Estive nervosa, hoje.
Mas ficou surpreendida, vendo que Dâmaso não desenrugava a testa; conteve a sua cólera; murmurou, pondo-lhe as mãos nos ombros:
— Mas que posso fazer eu mais? Toda a mulher tem os seus nervos. Foi um momento de arrebatamento.
Dâmaso, com um aspeto carrancudo, resmungava:
— Foi de mais, foi de mais! Puseste-me fora. Eu cá sou pão, pão, queijo, queijo; dessas cenas não gosto. Não gosto, acabou-se.
Ela afastou-se, fez-lhe uma cortesia.
— Bem — disse muito friamente. — Damos um aperto de mão e acabou-se. As nossas relações findaram. Seremos apenas dois bons amigos — e afetando uma voz nervosa, comovida.
— Está frio, não?
Dâmaso devorava-a com o olho sensual e rompendo:
— Tu não tens paixão por mim, Genoveva!
Ela sorriu tristemente e, erguendo os olhos como para invocar o testemunho do céu, seu confidente:
— Não tenho paixão por ele! — e irritada: — Por quem me toma? Que mulher pensa que eu sou? Se não tenho paixão por si, mentiria. Bem, bem, meu amigo, não falemos mais nisso. Acabou-se. Que vai hoje em São Carlos?
Tinha-se sentado numa atitude que dava às suas formas um relevo delicioso.
Ele veio cair no sofá, junto dela, quase sobre os seus pés.
— Que me magoa! — disse ela muito doloridamente.
— Foi sem querer! — e pôs-se mais à beira do sofá. Tomou-lhe a mão, entre as suas, gorduchas. — Mas diz que tens paixão por mim.
Ela endireitou-se e, prendendo-lhe o pescoço, com uma voz cálida de que ele sentia o hálito amoroso:
— E por quem estou em Lisboa? Por quem? Imagina que não tenho, em Paris, relações amigas, que dão tudo, tudo, dinheiro, bens, vida, para estarem aqui comigo, sobre um sofá, nesta posição? Por quem outro estou eu em Lisboa? — e pondo na voz um acento intensamente amoroso: — Por ti! — disse-lhe baixo.
E beijou-lhe o lobo da orelha. Dâmaso encolheu-se, num arrepio de gozo, abraçou-a; balbuciava:
— Juras? Juras?
— Juro, meu bichano! — E atraía-o, movia-o, enlouquecia-o, beijando, com carícias que o abrasavam e palavras que o enfatuavam: — Gosto tanto de ti, desta bochechinha gorda; faz-me tão doida! Ah, maroto, tu bem o sabes; por isso abusas. Dize, diz que gostas da tua Genovevazinha. Dize. Mas diz-lho bem: diz-lhe ao ouvido; diz-mo na boca...
E Dâmaso arfava, soprava, sentia fogo no sangue.
— Mélanie! — gritou Genoveva, com a sua voz seca e vibrante.
Mélanie correu; teve um sorriso ao ver Dâmaso, cumprimentou-o, exprimindo, como alegria geral da casa, no ver de novo, a ele, o amado, o amo, o senhor.
— Traz-nos qualquer coisa para beber — e para Dâmaso:
— Que queres tu, amor? Faz-lhe alguma coisa do melhor, hem, Mélanie. Quer café, feito à turca, com todo o pó?
Dâmaso hesitava, com um rosto espesso, vermelho. E Genoveva, com um impulso, agarrando-lhe a cabeça.
— Oh, querida carantonha! Mas que fizeste tu? Porque te amo eu? Tu não és muito bonito, nem muito brilhante. Mas então? — e em manso: — faz o café à turca, sim, Mélanie?
E Genoveva correu ao piano; disse-se alegre, leve:
— Vês? Estou outra! Em tu aparecendo, estou outra.
— E cantou:
Chaque femme a sa toquade,
Sa marotte est un dada!
Interrompeu-se, veio para ele:
— Tu és a minha toquade, a minha marotte, o meu dada.
Mas Dâmaso, com um gesto de desconfiança burguesa, murmurou:
— Mas para que fizeste olho àquele idiota do Vítor?
— Olho? — fez Genoveva. E rolou em risadas. E repetia:
— Olho? Se se pode dizer! Àquele bonifrate? Porquê? É bonito — e com um gesto de humor: — Ai, meu rico, tenho visto muito homem bonito! Que importa o Vítor? Deixa lá o Vítor.
Mas Dâmaso disse-lhe então:
— Pois sim, mas então faz-me uma coisa: vamos passar quinze dias para Sintra.
Aquela proposta brusca desconcertou Genoveva. Deu uma volta sobre si mesma, abaixando a cabeça, com um movimento habitual, quando queria disfarçar uma sensação; respondeu:
— Para Sintra? Porquê?
— Para estar quinze dias. É uma pândega. O tempo está lindo! Vamos para a minha casa, se quiseres; senão, íamos para o Lawrence...
— Mas, realmente, não sei... — disse Genoveva.
— Ah! Vês! — exclamou Dâmaso. — Não queres sair de Lisboa, é o que é! Tu pensas que eu não percebo? Pai Paulino tem olho!
Madame de Molineux deixou fugir das pálpebras um olhar que foi como um clarão de luz. Odiava Dâmaso naquele momento, ferozmente. Mas, abrindo os braços, com um gesto triste:
— Aí está! Estava tão contente e aí vens tu com cenas, com discrepâncias, com ridículos. Não! É muito! Acabou-se. E melhor acabar.
E pela sala, arrastando o sussurro da seda, mordia constantemente o lenço.
Dâmaso foi passar-lhe o braço pela cinta e falando-lhe sobre o pescoço:
— Mas que repugnância é essa de vir a Sintra? É uma coisa que te peço. Estávamos quinze dias lá, na grande paródia; levava-se uma caleche, comia-se e bebia-se e...
Enquanto ele falava, Madame de Molineux tinha visto toda a vantagem daquele isolamento, em que ela o poderia sacar e «cardá-lo» cruelmente.
Voltou o rosto e, com o olhar que o abrasava:
— Mas vamos, meu querido, se queres. Estou bem onde estiveres bem. Há fogões na tua casa?
— Não. Mas vais para o Lawrence. Espero-te amanhã. Preparei tudo, à grande: está lindo, em Sintra. E em lua-de-mel, hem, na velhice, sei ou não da coisa?
— És um santo... e eu achei-te.
Foi nessa noite que combinaram definitivamente mudar-se da Rua de S. Bento. Dâmaso alugou um andar mobiliado, na Rua das Flores; completar-se-ia com alguns móveis do Gardé; comprar-lhe-ia uma vitória e instalá-la-ia definitivamente, oficialmente, como «a do Dâmaso».
No outro dia, Vítor, muito impaciente, esperava Camilo Cerrão, para irem a casa de Genoveva. O rendez-vous era para as duas horas, mas era uma hora e três quartos e Camilo não aparecera. Esperava-o na sala, nervoso, descalçando as luvas, passeando, indo-se a todo o momento debruçar da janela.
Às duas horas, mandou um galego a casa do Cerrão. O senhor não estava. As duas e meia, furioso, foi ele mesmo. Um rapazinho esguedelhado que abriu a porta disse que o senhor não aparecera desde pela manhã. Vítor desceu as escadas, amaldiçoando Camilo, voltou a casa, a saber se ele teria vindo, mandado algum bilhete. Nada. Foi ao teatro de bailado, ao Variedades, onde Camilo pintara. Depois de subir, procurar, indagar, não estava. Eram três horas, a entrevista estava perdida. Achava Cerrão um canalha indigno de interesse; far-lhe-ia perder o retrato; ele ficaria obscuro e morreria na miséria. «Aquele alarve!», dizia ele, subindo o Chiado, com desespero.
Foi escrever um bilhete a Genoveva e, depois de rasgar umas poucas de folhas de papel, decidiu-se por uma redação explicativa ligeira:
«O grande artista, com uma natural distração de homem de génio, esqueceu a honra que Va Exa faria de o receber. Os artistas são como as crianças, a quem é necessário perdoar muito, porque sentem muito. Mas, logo que o alcance, conduzi-lo-ei, amarrado de pés e mãos, obter o seu perdão e contemplar o seu modelo.»
A satisfação que lhe deu a invenção desta prosa dissipou-lhe, em pouco, a irritação da entrevista estragada. E para se distrair, foi ver a Aninhas. A Rosa disse-lhe logo:
— Ai a senhora está numa aflição!
Encontrou-a estendida na cama, lavada em lágrimas. E após o ver, com gestos aterrados, os olhos vermelhos, disse-lhe que, pelo amor de Deus, não se demorasse. Que estava perdida.
O Policarpo tinha recebido uma carta anónima, em que lhe contavam os amores dela com Vítor; o Policarpo estava furioso, queria deixá-la, tirar-lhe as mesadas. «Uma desgraça, uma desgraça!»
— E que disseste tu? — perguntou Vítor, assustado.
— Eu? Ora, neguei. Neguei a pés juntos. Mas o bruto, o animal, não quis acreditar. Disse que ia consultar um amigo e saiu. Estou à espera dele. Ai! Ai!
E rolava no leito, com gritos dilacerantes.
Vítor estava sucumbido; a honra exigia que, abandonada pelo Policarpo, fosse protegida por ele. E viu logo o embaraço, a despesa, a prisão, a seca. Mas as lágrimas dela afligiam-no; ia quase dizer-lhe, consolá-la, dizer-lhe que se encarregava de «fazê-la feliz». Mas receava comprometer-se tão positivamente, e disse-lhe logo:
— Bem, então safo-me, que não venha ele.
Aninhas atirou-se lhe ao pescoço.
— Que infelicidade a minha! Já acendi uma vela a Nossa Senhora da Alegria. Mas, quem sabe? Disse que vinha às quatro horas. O bruto, o animal! O meu Vitorzinho, dize, se a tua Aninhas ficar na miséria, que fazes, dize, amor.
— Ó filha, que pergunta! Tudo se havia de arranjar...
— Vai, anda. Eu te mandarei dizer.
Bateram à campainha.
Aninhas fitou-o petrificada:
— E ele! Ai Nossa Senhora me valha! Ai, Vítor, estou perdida.
Tremia, pálida, agarrada com força ao braço de Vítor, que olhava ansiosamente, procurando um esconderijo, um buraco, uma saída.
Mas Aninhas respirou; reconhecera a voz da mulher da fruta. E levando as mãos ao coração:
— Oh, que susto! Estou morta! O que eu sofro por ti, meu amor! O que eu sofro!
Vítor enterneceu-se; beijou-a muito; ela foi acompanhá-lo até à porta, gritando à Rosa que não se esquecesse de renovar o azeite à lamparina da Nossa Senhora da Alegria.