A Tragédia da Rua das Flores
Capítulo XIV · Ao outro dia, a partida para Paris…
Ao outro dia, a partida para Paris era uma resolução fixa, deviam partir em Setembro; iriam por terra; demorar-se-iam em Madrid quinze dias; passariam talvez nos Pirenéus, e Genoveva ria de uma alegria vibrante e nervosa, com a ideia dos prazeres daquela viagem sentimental. Vítor não estava menos encantado; os beijos de Genoveva e os seus braços tinham-lhe dissipado o resto do carácter e da vontade. Sentia-se sem resistência ao pé dela, como uma cera mole. Ela tinha palavras que o entonteciam e que o faziam ser vil, e certos beijos levavam-lhe a alma, numa delícia tão ardente que ele, se ela quisesse, seria um ladrão; o amor egoísta e cioso de Genoveva extinguira nele tudo o que não servia a satisfazê-lo ou a servi-lo; extinguira-lhe a vontade, a dignidade, o amor do trabalho, a consideração do futuro; conservara-lhe apenas a fúria do desejo e uma habilidade: a versificação. Amava-a e fazia poesias líricas. E daquele homem apenas restava o temperamento e uma rítmica. A ideia da viagem correspondia aos seus desejos mais íntimos, sempre a tivera: o sonho clássico dos sentimentais; viajar com uma mulher amada, e via-o enfim realizado! Como pensar mesmo em resistir? De resto, a preocupação de dinheiro era pueril: se se amavam, o que era dela era dele; o amor sacrificava tudo e, sendo de natureza divina, porque não teria os mesmos efeitos que o casamento, que é apenas de natureza administrativa. E além disso, se a sua consciência não se escandalizava, que lhe importava a opinião? O que é a opinião? É o julgamento dos Dâmasos e dos Marinhos e dos Carvalhosas? E depois, ele era um homem de pureza de ideal, não é verdade? Portanto, as leis burguesas da moral trivial não eram feitas para ele.
E quanto ao tio Timóteo... Esta ideia embaraçava-o; não se atrevia a dizer-lhe que ia partir com Genoveva; respeitava-o, temia-o; e como era de temperamento amável, a sua longa convivência com aquele velho simpático tornava-lho querido. Que faria? O seu temperamento efeminado sugeriu-lhe logo uma ideia feminina: fazer as suas malas em segredo, safar-se e deixar-lhe uma carta.
E aplanadas as dificuldades, abandonava-se ao encanto, à esperança daquela grande aventura romanesca; mas, dinheiro para camisas, um fato de veludo para estar em casa, sapatos de verniz, uma casaca nova,.., porque entrava nas existências em que a casaca é necessária, como o uniforme ao soldado.
No entanto, às vezes notava em Genoveva a abstração de uma preocupação; encontrava-a, os olhos fitos nele, como estudando-o, ou como se estivesse para dizer-lhe alguma coisa grave. Outras vezes via-a triste; certas palavras dela surpreendiam-no; e parecia revelar o receio de ver findos aqueles amores. Inquietou-se, interrogou-a:
— Não estás contente? Não achas bastante que eu vá contigo?
— Ainda não é bastante — respondeu ela, um dia.
«Que desejava ela então?» Mas, quando lho perguntava, Genoveva punha no seu sorriso reticências amáveis, dizia:
— Em Paris te direi.
Um dia Vítor teve uma ideia súbita. «Estaria ela grávida?» Ajoelhou-se aos pés dela, perguntou-lhe ao ouvido. Ela riu muito.
— Não, não! Que tolice! — E depois de um momento, suspirou: — Ah, se assim fosse!
Pensava no casamento. Pensava nisso desde que começara a amar, mas, agora que conhecia a sua natureza fraca, amante, dominável, a possibilidade aumentava-lhe o desejo. Tinha encontrado, enfim, a paixão, a grande paixão porque suspirara toda a vida e que se materializava sempre longe dela, como um pássaro maravilhoso, passando num céu distante. E agora que a tinha, enfim, queria empregar todos os meios para a não deixar ser diminuída, nem fugir.
Vítor correspondia a todos os seus desejos: era formoso como um anjo, segundo ela, e adorava-o; era bastante dominável e maleável, para se conservar sempre numa atitude obediente; era bastante inteligente e bastante elegante, para lhe satisfazer o orgulho; e, depois, deveria herdar oitenta contos do tio Timóteo. Onde encontraria outro assim, sobretudo agora, que a juventude era passada e já havia, na sua pele, uma leve ameaça de rugas progressivas?
Se o não prendesse por alguma coisa de mais forte que a voluptuosidade e o amor quem sabe se ele lhe escaparia, passado um ano, dois anos? E se não lhe arrancasse um consentimento, agora que o dominava pela vaidade, pela concupiscência, pelo luxo, pela beleza, seria tarde depois. Com a fortuna dele e dela viveriam felizes em Paris, mas não queria falar-lhe no casamento sem que essa ideia tivesse aparecido, por si mesma, no espírito dele; era necessário que ele mesmo o tivesse secretamente desejado, que à primeira palavra dela, ele se lhe atirasse aos braços, num consentimento entusiasmado.
Começou, por isso, a fazer tudo o que poderia fazer-lhe nascer essa ideia, desenvolver-lha, tornar-lha cara. Foi muito hábil, disfarçando sob as solicitudes do amor as combinações da ambição.
Um sábado à noite, disse-lhe, de repente:
Queres-me acompanhar amanhã à missa? De manhã cedo. Não te quero comprometer; às sete horas?... Vem, para dar felicidade ao nosso amor...
Vítor foi e achou-a admirável, toda vestida de preto, dobrada sobre o seu livro de missa, na atitude escolhida de uma devoção elegante.
Várias vezes, depois, nessa semana, lhe falhou de igreja, de religião, de arrependimento, mas apressava-se a dizer que «era o amor que lhe dava aquela moralidade; ele não imaginava o que ela se achava arrependida dos erros passados; o seu martírio era ter pertencido a outro homem; mas, no seu próprio corpo, a sua alma, o seu coração eram virgens... só dele». Tinha-lhe dito:
— És o esposo do meu coração; nesse, és tu o primeiro homem.
Este refinamento eloquente exaltava Vítor. Depois, tinha outros cuidados com ele: «Quem lhe engomava a roupa? Andava sempre tão mal engomada! Pudera, pobre querido, não tinha mulher para tratar das suas coisas. Ele veria, em Paris, como ela tomaria cuidado de tudo.» Começou a bordar-lhe lenços. Mudara as suas maneiras, a sua toilette, as suas expressões. Afetava certos princípios de caridade e de alta moralidade. Um dia que ele trauteava a sua canção favorita:
Chaque femme a son dada
Sa marotte a ses toquades...
Ela pediu-lhe que não cantasse essa infâmia.
— Lembra-me, tanta vez, gente passada! — disse, com um ar triste.
Vestia-se com mais sobriedade, fazendo dominar as cores severas. Ele lamentava que ela já não usasse certos vestidos que a faziam tão excitante, tão cativante.
— São toilettes de cocote; eu sou agora uma senhora casada. O chique para mim acabou...
Antes de se deitar mesmo, persignava-se.
Por fim de duas semanas, Vítor, um dia que a via costurar, à janela, vestida de escuro, com o seu perfil doce destacando na luz, pôs-se a pensar:
— Que adorável mulher! Que esposa! Que pena que eu a tivesse conhecido antes.
No meio daquelas preocupações, tinha desleixado um pouco o retrato e, uma manhã, Vítor recebeu uma carta de Camilo Cerrão que dizia.
Reclamo o meu modelo que tem faltado há duas semanas consecutivas. O que significa isto? Mudou de ideia? Seria simplesmente atroz! Eu contava com este retrato, para me lançar; e não quererão que eu tenha enfim, debaixo das mãos, a glória, a fortuna e uma obra notável? Tudo isso me desaparece, como uma bola de sabão. Madame de Molineux será responsável perante a arte e perante Deus se essa hipótese fosse aceitável, de um artista inutilizado. Trá-la, menino, e que ela se deixe imortalizar pelos pincéis.
Do teu etc.
Camilo
Genoveva achou a pilhéria sobre Deus, de mau gosto, mas Vítor convenceu-a que seria um desapontamento para o pobre Camilo: «Quem sabia se aquele retrato não seria o começo da sua fortuna?»
— Embirro com a mulher...
— Ora! — disse Vítor, encolhendo os ombros e sentindo-se corar um pouco. — Vai lá hoje, às duas horas, sim? diz que vais.
— Porque tu queres, meu querido maridinho — disse-lhe ela, com o olhar terno e humilde.
E Vítor saiu para ir prevenir Camilo. Encontrou a porta aberta; era hora e meia; entrou no atelier; em lugar de Camilo, viu Joana que cosia, sentada à janela. Ergueu-se, muito vermelha, disse que Camilo voltava às duas horas. Ficaram um pouco embaraçados e, enfim Vítor, por delicadeza, tomou-lhe as mãos e, olhando em redor, pousou-lhe friamente um beijo. Mas ela passou-lhe os braços pelo pescoço, deixou-lhe cair a cabeça nos ombros e Vítor sentiu-a soluçar baixo.
— Olhe que pôde vir gente — disse, querendo desembaraçar-se.
— Que me importa? — disse ela entre lágrimas.
— Mas importa-me a mim — exclamou ele. Mas arrependeu-se daquela brutalidade; tantas lágrimas lisonjeavam-lhe o orgulho e a beleza de Joana dava-lhe, contra sua vontade, um enfraquecimento e como um renascimento de desejo. Desprendeu-se devagar, disse-lhe com ternura:
— Então, não seja doida, sossegue.
— É a sua amante, aquela mulher? — perguntou ela, com os braços caídos, longas lágrimas rolando-lhe pela face.
— Bem sabe que e...
Ela deixou-se cair no divã e os seus soluços espaçados agitavam o seu magnífico seio. Vítor estava desesperado. Se Camilo chegasse e a visse lavada em lágrimas... que vergonha! Que horror! Num momento de covardia, agarrou o chapéu.
Mas ela prendeu-lhe os braços com força, tirou-lhe o chapéu e, com uma suplicação na voz:
— Um instantinho mais... Eu já não choro.
E limpava as lágrimas à pressa, dominava os soluços e ficou no divã, com os olhos postos nos dele, num desespero mudo. Vítor sentou-se ao pé dela, dizendo-lhe:
— E necessário ter juízo...
Mas uma onda de desejo invadiu-a e, com um soluço, abraçou-se a Vítor, colando os seus lábios sobre o rosto dele, os lábios, os olhos. Ele sentia-se enfraquecer, mas um som de frufru de seda correu no corredor, teve apenas tempo de repeli-la e viu, à porta, muito pálida, Genoveva.
Ergueu-se logo, quando, com as suas mãos trémulas, Genoveva entrou, devagar, no atelier, olhando... ela, ele, com um olhar seco, febril, os lábios brancos.
— A senhora — perguntou ela — sabe que este homem é o meu amante?
Joana, muito pálida, não respondeu. Genoveva dardejou sobre ela um olhar cruel, como estocadas.
— Pois se tornar a esquecer, eu lho lembrarei de outro modo.
E voltando-se para Vítor, imperiosamente:
Vamos, vem!
Vítor seguiu-a calado. Um cupé de praça esperava-os a porta e, até à Rua das Flores, não disseram uma palavra, não se olharam. Vítor pagou ao cocheiro e subiu a escada, atrás de Genoveva. Apenas entraram na sala, ela desapertou nervosamente o chapéu, arremessou-o sobre uma cadeira pôs-se a olhar a um espelho e, voltando-se bruscamente para Vítor, pálida, como cera:
— Bem, que quer mais?
— Escuta, Genoveva...
— O quê? Sacrifiquei tudo por si, tudo! Riqueza, divertimentos, prazeres, luxo, tudo. Engana-me com uma criada de servir ou cozinheira, um estafermo, que quer mais?
Vítor, aflito, quase com as lágrimas nos olhos, tremia-lhe a voz, procurava abraçá-la, exclamava:
— Mas escuta-me, pelo amor de Deus! Ouve-me!
E contou-lhe precipitadamente que conhecera aquela mulher antes dela, que nunca a namorara, nem a tentara; que fora ela... Que, uma ocasião, estava no atelier, só com ela, e fora como um louco, num movimento de zanga... E fora só uma vez.
— Mente!
— Juro-te, pela alma da minha mãe! — disse ele repentinamente.
Houve um silêncio. Ela oscilava tristemente a cabeça.
— Não, Vítor. Escuta: amo-te como... como se pode amar neste mundo. Adoro-te, eu sei. Estava decidida a dar-te a minha vida inteira, a ser a tua escrava, depois, a tua concubina, o que tu quisesses, meu amor.
Aquelas palavras davam a Vítor uma exaltação delirante.
Murmurou:
— Ó Genoveva, Genoveva!
— Mas a confiança está perdida — disse ela tristemente.
— Nunca mais posso confiar em ti! — E balançando com as mãos: — Ó meu Deus, meu Deus!
Duas lágrimas caíram-lhe pela face, caiu no sofá, soluçando.
Ele atirou-se-lhe aos pés e, louco, disse-lhe:
— Mas pede-me o que quiseres, em prova do meu amor. Também eu te quero dar a minha vida, tudo...
— Oh! — disse ela, soluçando. — Vou-me embora, vou partir, vou para o inferno! Ó meu Deus, meu Deus!
— Se tu partes, mato-me!
Tinha-se erguido. Naquele momento, a paixão tornava-o sincero; via a sua vida perdida, sentindo aquele amor diminuindo.
Ela caminhou para ele; os seus olhos magnetizavam-no; nunca lhe parecera tão bela; as lágrimas davam-lhe como uma pureza ao rosto; achou-a nobre, digna, perfeita. Repetiu:
— Diz o que queres que eu faça por ti, visto que te adoro e que peço perdão.
Ela pousou-lhe, devagar, as suas mãos nos ombros e, com a voz baixa, ansiosa:
— Casa comigo.
Vítor fez-se pálido, recuou um pouco. Genoveva fitava-o. Teve um sorriso de uma tristeza infinita, murmurou:
— Não queres?
E levou as mãos ao coração, cerrando os olhos, como para desmaiar.
Ele precipitou-se, abraçou-a.
— Quero — exclamou. — Quero. Caso contigo, Genoveva. Ouve-me.
Ela prendeu-lhe o pescoço nos braços.
— Casas comigo?
— Juro-te, pelo que há mais sagrado. Numa semana, aqui, em Paris, onde quiseres...
Toda essa tarde foi deliciosa. Fizeram planos. Casariam em Lisboa, casariam sem ruído, de manhã cedo, ela vestida de preto, ele de sobrecasaca, à inglesa. Nessa mesma noite, partiriam para a viagem de noivado. Deixavam todos os móveis e ela escreveria a Dâmaso, para que viesse tomar conta deles... Este traço de generosidade encantou Vítor.
— És uma mulher de bem.
— Tu verás — disse ela, com um sorriso que prometia felicidades sem fim.
Vítor não cessava de a admirar, de a beijar. Parecia que alguma coisa de doce, de digno, de nobre, se espalhava subtilmente na sua fisionomia; os seus olhos velavam-se num enternecimento suave e havia nos seus gestos, nas suas atitudes, como uma moleza de uma felicidade serena.
Que vida passariam em França, Paris, escondidos num ninho delicioso. Nos primeiros tempos, era melhor não venderem a mobília; evitavam a despesa de um hotel; a casa estava arrendada até Dezembro; mas não teriam carruagem: «Um bom fiacre de praça, não é verdade?»
E Genoveva estava radiosa; tinha agora como um afloramento de meninice; como se lhe tivesse vindo uma virgindade súbita, corava quando ele a fitava; ajoelhava-se aos seus pés, com o renunciamento tímido de uma pomba cansada; não se fartava de dizer «o meu maridinho» e, mesmo quando entraram no quarto e Vítor a prendeu nos braços, teve a cena, a resistência assustada de uma virgem medrosa.
Daí a dias, representava-se, em S. Carlos, o Roberto, o Diabo, e as monjas, de saias curtas, tufadas e cabelos soltos, bailavam no «claustro de Santa Rosália», quando Dâmaso, com o seu aspeto de satisfação, entrou nas cadeiras. Arremessou o chapéu para um assento vazio, limpou o binóculo e examinou os camarotes. Numa frisa, Joana Coutinho, que estava só, fez-lhe logo um sorriso muito rendido e um ligeiro sinal. Dâmaso apressou-se a ir ter com ela.
Estava com o Lacerda, um sujeito de cabelo grisalho e ar doente, que se conservava atrás, embrulhado num paletó, comendo rebuçados de avenca.
D. Joana Coutinho, imediatamente lhe perguntou:
— Então já sabe a grande novidade! A Genoveva casa-se...
— Com o Vítor?
— Com o Vítor.
Dâmaso fez-se vermelho e afetou uma risada grossa. Mas, fixando-a com a sua face balofa de olhinhos pequenos:
— Está a brincar...
E D. Joana Coutinho contou-lhe que estivera em casa dela, toda a tarde, que já tratava dos papéis, que iam partir para França...
— Uma desgraça — murmurou, entre dois acessos de tosse, o Lacerda.
— Que grande animal! — exclamou o Dâmaso. E esfregou as mãos, demonstrando uma satisfação ruidosa. «Ele logo vira. A criatura queria apanhar os oitenta contos do tio Timóteo. Mas o velho é fino, muito brioso, e era capaz de o deserdar.»
— E ele sabe, o velho? — perguntou.
D. Joana Coutinho ignorava. Mas, em definitivo, «estimava o casamento; era um acto de moralidade e que todos os bons cristãos devem aprovar. De resto, se ela tinha erros.., e quem os não tinha?.., o casamento lavava tudo... É uma felicidade para ela. Também, a pobre criatura estava contente como um cuco».
— Que ela, aqui para nós, não o merece. Nenhuns modos, nenhuns...
— Uma desavergonhada — disse o Dâmaso.
— E nenhuma delicadeza de alma — acrescentou D. Joana.
O Lacerda tossiu, escarrou e perguntou:
— E tem algum dinheiro ela?
Dâmaso ia dizer: «O que eu lhe dei», mas reteve-se. Queria continuar a passar por «amante de coração«; somente, como D. Joana podia ter recebido confidências de Genoveva, achou prudente não responder e afetou preocupar-se com a dança.
— Que tal esteve a saída da sepultura?
— Hoje, bem — disse D. Joana Coutinho. — Mas a grande, a espanhola, é que esteve para cair.
Dâmaso esteve um momento a torcer o buço e, levantando-se, despediu-se; acendeu um charuto no corredor e saiu do teatro.
Vítor não se atrevera a falar no retrato; foi Genoveva que, logo no dia seguinte, lhe leu uma carta que escrevera a Camilo Cerrão, dizendo-lhe que ia partir para França e lamentava ter de interromper o trabalho; que esperava que ele conservasse o esboço feito, para quando ela voltasse, e remeteu, dentro do sobrescrito, vinte libras em notas.
— É uma consolação, vinte libras — acrescentou, colando o envelope.
Vítor, que conhecia a natureza desinteressada de Camilo, pensou que a oferta do dinheiro só lhe aumentaria a irritação que ia causar a interrupção do trabalho; mas não fez objeções, para não parecer mostrar interesse.
Com efeito, ao outro dia, vestia-se em casa, antes do jantar ia nessa noite ao teatro com Genoveva, quando Camilo Cerrão lhe apareceu no quarto; trazia um aspeto enfastiado e parecia mais desmazelado e mais desgrenhado. Começou por tirar do fundo da algibeira do paletó a nota de Genoveva, pô-la em cima da cómoda, dizendo:
— Entrega à tua senhora. O que eu fiz não vale vinte libras; agradeço-lhe, mas... Enfim, quando ela voltar, falaremos.
Vítor, que corara, ainda quis falar da despesa da tela, tintas, mas Camilo interrompeu-o, com um gesto de muita decisão e, atirando-se para uma poltrona, começou a falar da vida artística: chegara à conclusão de que devia mudar de carreira; em Portugal, só havia mercado para a pequenina arte dos pobrezinhos do género e, ainda assim, um mercado estreito, ou por iconografias, ou por ilustrações de novelas, às cadernetas; todos esses meios os achava uma prostituição do talento; queria conservar o seu, casto, e estava resolvido a ir para o Brasil.
— Para quê?
— Tinha lá uma irmã, casada com um sujeito rico que, por um caso quase grotesco, era amador de pintura; era talvez o único caso semelhante, em toda a América do Sul. Este amador oferecia-lhe casa e mesa, apresentá-lo a alguns diretores de teatro e a alguns colecionadores idiotas. Podia fazer uma fortuna ou pela cenografia, ou obtendo do Governo brasileiro ir, em comissão, copiar quadros ilustres à Itália. Apenas tivesse feito uma pequena fortuna, vinte ou trinta contos, «e diz que é fácil», voltaria a Portugal, abriria um atelier, formaria discípulos e passaria uma existência digna, cercado de obras de arte e vivendo na pura preocupação do seu ideal. Se não, com o diabo, estoirava por lá. Ao menos tinha visto a natureza do Brasil... que era um estudo das grandes forças vegetais.
Vítor, que se penteava cuidadosamente, tossiu e, com uma voz indiferente:
— E tencionas ir só?
— Só. A Joana está-se tornando insuportável; passa os dias muda como uma estátua e lúgubre como um mausoléu. O pequeno berra: anda na dentição. É impossível trabalhar. Deixo-os com algum dinheiro e mando-lhes de lá uma mesada. A criatura parece até receber estas combinações com alegria. Mando-a para Ílhavo. E recomeço a vida.
Tinha falado com uma certa melancolia, enterrado na vasta poltrona, a cabeça descaída sobre o peito. E Vítor dava, muito cuidadosamente, o nó na sua gravata branca. A maneira indiferente e desprendida porque Camilo falava da «criatura», diminuía um certo remorso que o oprimia. Disse mesmo, com uma certa desenvoltura:
— Aquilo não era a mulher que te convinha.
— Não. Estou agora noutra ideia. A companheira do artista, a mulher do artista, deve ser uma artista; ter todas as inteligências, todas as compreensões, um gosto fino... Mas o melhor, talvez, é viver só. Poderoso e solitário, como o Moisés de Alfred de Vigny.
Enrolou devagar um cigarro e, vendo Vítor vestir a casaca:
— Vais a algum lado?
— Vou ao teatro.
E Camilo imediatamente começou a elogiar Madame de Molineux. Tinha reconhecido nela um tipo supremo de beleza moderna, uma grande acumulação de civilização e o verdadeiro génio da grande prostituta histórica.
Vítor, àquela qualificação da que ia ser sua mulher, corou, como com uma bofetada.
— No entanto — continuava Camilo —, estes tempos mesquinhos e constitucionais não permitem o desenvolvimento desses grandes tipos de voluptuosidade dramática. Antigamente, no século XVI sobretudo, era um grande centro da vida intelectual, artística e política; em torno do seu leito, onde estava como sobre um altar, rainha da graça e deusa de beleza, agitavam-se todas as altas ideias, ou as grandes poesias do tempo; os poetas faziam-lhe poemas, os Ticianos imortalizavam-na em quadros; as suas palavras decidiam a discussão dos filósofos; na sua alcova tramavam-se conspirações e declaravam-se as guerras; era dos príncipes que lhe chegavam as suas chinelas; os cardeais... enquanto se vestia, dava audiência a cardeais que a interrogavam sobre dogmas dos concílios; os grandes cinzeladores, os grandes joalheiros, inventavam para ela os refinamentos mais sublimes da arte; os papas beijavam o seu pezinho branco, inspiravam a ordenança às galés, inspiravam vitórias e eram as musas do culto pagão. — E acrescentou:
— Hoje... Hoje tratam de explorar qualquer merceeiro com temperamento, apaixonam-se por um caixeiro e terminam por casar com algum pulha que vai atrás do dinheiro que outros lhes deram, ou que fica deslumbrado a primeira vez que vê camisinhas com rendas de Malines. Tempos estúpidos...
Vítor estava agora pálido. Aproximara-se da janela, olhava para fora, para ocultar a sua perturbação; cada uma daquelas palavras lhe caíra nos ouvidos, com o desdém de um insulto. Quase receoso que Camilo estivesse informado e se vingasse da sua aventura com a Joana, pelas palavras de desprezo sobre o seu casamento com Genoveva. Mas o Camilo falava com tranquilidade, como dissertando criticamente. O que pensaria ela, se soubesse? Aquilo era como um fragmento da opinião dos homens honrados.
Deu alguns passos pelo quarto, olhou-se ao espelho e, metendo as mãos nos bolsos, com a cabeça como se olhasse os sapatos de verniz:
— A paixão justifica tudo...
— Pelo menos — disse Camilo —, põe, nos actos desta vida, uma cor de fatalidade que os torna interessantes.
Espreguiçou-se, bocejou e, passando a mão pelo rosto, ia erguer-se, quando a porta do quarto se abriu e o tio Timóteo apareceu.
— Pensei que estivesses só — disse logo a Vítor. — Lá te espero em baixo. — E fechou a porta; e sentiram, no corredor, o ruído da sua perna de pau.
Camilo tomou logo o chapéu.
— Mas tu não partes por agora — disse-lhe Vítor. — E, de resto, ainda mudas de ideia.
— Não. Estou farto desta choldra. E estou com vontade de ver o mar, as florestas, os grandes rios. No fim de tudo, menino, a paisagem é a parte mais nobre da arte; o homem moderno vive longe da Natureza, que necessidade da profissão; uma arte que lhe rodeie a Natureza, que lha torne portátil, que lha introduza na sala de jantar, na alcova, interpretada, escolhida, faz ao homem o maior serviço: pô-lo em comunicação permanente com a Natureza. E a Natureza é tudo: calma, consola, eleva, refina e vivifica. Adeus.
Vítor ainda ficou um momento no quarto, preocupado. Que lhe quereria o tio Timóteo? Nunca viera ao seu quarto senão quando ele estivera doente. E o coração batia-lhe um pouco ao descer a escada.
Encontrou-o no escritório, com a fisionomia carregada, os olhos vermelhos e um ar preocupado e carregado. Estava sentado, junto à janela e, apenas Vítor entrou, ergueu-se e dirigiu-se à mesa; o som seco da perna de pau tinha uma solenidade soturna; e Vítor, um pouco envergonhado da sua casaca e da sua gravata branca, na presença daquele velho desolado, perguntou, com uma voz pouco firme, se queria alguma coisa.
Timóteo remexeu alguns papéis sobre a mesa e disse:
— Eu não dou importância a cartas anónimas, mas, em todo o caso, desejava saber se isto é verdade. Lê.
E deu-lhe um sobrescrito. Vítor percebeu, num relance, que se tratava de Genoveva, do seu casamento ou da sua partida para Paris; e no seu primeiro movimento assustado, de um carácter tímido, se resolveu: negar. Abriu a carta, com as mãos um pouco trémulas e leu:
Excelentíssimo senhor. Uma pessoa que respeita muito o carácter da vossa excelência previne-o que se trama uma pouca-vergonha que não pode deixar de destruir para sempre o seu nome e da sua família. O seu sobrinho Vítor está para casar com uma certa aventureira que se intitula Madame de Molineux, que é, nem mais nem menos uma meretriz e com quem seu sobrinho tem vivido estes últimos tempos. Procure obstar a este escândalo, e enquanto é tempo: quem me avisa, meu amigo é.
— É do monstro do Dâmaso! — disse Vítor. — E para se vingar.
Timóteo olhou fixamente para ele; as rugas da sua face pareciam mais profundas. Tinha uma certa palidez, fatigada, na sua pele dura, e os beiços estavam brancos.
Vítor compreendeu toda a aflição que causava aquela notícia no tio Timóteo. Repetiu, mais baixo, muito embaraçado:
— E do Dâmaso.
— Seja do Dâmaso, ou seja de quem for, o que quero saber é se é verdade. — E erguendo a mão, com uma intensividade na voz que Vítor nunca lhe conhecera. — Mas diz-me a verdade. Se eu visse que me tinhas mentido... — Suspendeu-se; teve um gesto enérgico, de punho fechado. — Como homem de bem, diz a verdade!
Vítor estava pálido como cera; com os olhos no chão, compreendendo que a mentira o revoltaria e culpado na acusação do tio Timóteo, disse com uma voz um pouco sumida:
— É verdade.
— Queres casar com essa criatura?
Vítor não respondeu. De pé, junto da mesa, abria e fechava maquinalmente um livro.
— Responde, homem.
E os olhos de Timóteo chamejavam.
— Pois bem, tio Timóteo, quer que lhe diga a verdade, dei a minha palavra!
— Idiota! — exclamou o velho.
Os seus beiços tremiam de cólera. Deu dois passos pelo quarto, assentando fortemente a bengala no chão, e parando bruscamente:
— Então, queres casar com uma desavergonhada que está mais batida que um baralho de cartas, que dorme com um homem por um par de libras, que o que quer é os contos de réis que eu tenho...
— Tio Timóteo — disse Vítor, lívido, com uma indignação ambígua e assustada.
— O quê? Queres-me dizer que ela não veio do estrangeiro, com um Gomes; não viveu com o Dâmaso, todo o Inverno; não foi lá por fora uma aventureira, a tanto por noite? Queres-me dizer que é uma pessoa de bem, uma mulher honesta, uma virgem?
Vítor fez um esforço, balbuciou:
— Teve erros...
— Como erros? — gritou o tio Timóteo. — Ser uma meretriz de profissão é ter erros?
Vítor arremessou violentamente o livro sobre a mesa e, com uma voz trémula, mais de sofrimento que de cólera:
— Se foi para a insultar que...
Prendeu-se-lhe a voz, voltou as costas devagar.
— Escute-me — bradou o tio Timóteo, com uma voz tão terrível e uma pancada de bengala no soalho. — Tenho-o educado, tenho-o vestido, tenho-o calçado, tenho cuidado de si, tenho sido seu pai; cabe-me o direito de lhe falar quando o vejo cometer uma infâmia...
Vítor parou e, com a cabeça baixa, tornou a aproximar-se do canto da mesa; sentia como uma perturbação de todo o seu interior, que não lhe deixava achar uma palavra, uma resposta. O cérebro pesava-lhe e sentia um arrefecimento do sangue.
— Feche essa porta — bradou o tio Timóteo; e cruzando os braços: — E agora, diga-me o que espera que seja a sua posição, logo que case com essa criatura? — E sem esperar a resposta: — Eu lhe direi: a posição de um pulha! De um pulha, repito! Que outro nome tem um homem que passeia de braço dado, pela rua, com uma mulher a quem todo o mundo conhece as pernas e o resto? As mesmas saias que ela traz foi o outro que lhas deu! O jantar que você come em casa é pago com dinheiro que o outro lhe deixou pela manhã, em cima da mesa...
Uma onda de sangue cobriu Vítor, até à raiz dos cabelos. Por um momento, o olhar faiscou-lhe, fixo em Timóteo; e com a voz estrangulada:
— Eu não admito isso. Se não fosse meu tio e um velho... Não tem direito de me insultar... Pode-me expulsar da sua casa... Que escusa de me expulsar, eu mesmo saio.
— Saia! — bradou Timóteo. E com os braços trementes, gritou: — Vilão!
Vítor saiu, atirando a porta. Subiu ao seu quarto e, no ímpeto da cólera, decidiu-se a sair da casa, naquele momento; arrastou, de baixo da cama, uma velha mala e começou a atirar para dentro roupa; estava numa exaltação violenta de cólera e de despeito; odiava o tio Timóteo, achava-o ingrato, duro, tirânico; certas palavras dele, todavia, cortavam-lhe a consciência; tremia da verdade que descobria nelas e todo o seu cérebro estava turvado de uma tempestade contraditória.
A porta abriu-se, o tio Timóteo apareceu. Estava extremamente pálido e sem adiantar, amparado à bengala, olhou um momento para Vítor que ficou surpreendido, vagamente envergonhado, com um fraque de pano na mão e um par de calças no braço.
— Então — disse Timóteo —, realmente tu estás doido por essa mulher, meu pobre rapaz?
Aquelas palavras ditas com um tom tranquilo, quase amigo, comoveram Vítor; sentiu as lágrimas subirem-lhe aos olhos; o mesmo sacrifício que estava fazendo por Genoveva exaltava o seu amor por ela, e foi com uma voz sentida, cheia de uma paixão quase desesperada, que disse:
— Estou, juro-lhe que estou. Vamos para Paris, ninguém me conhece lá, ninguém irá falar de nós. É a única maneira de eu ser feliz.
Timóteo entrou e, sentando-se aos pés do leito, esteve um momento calado.
— Mas tens a certeza que te sacrificaria tudo, como tu?
— Tenho — disse Vítor, com exaltação.
Timóteo encolheu os ombros, com desdém.
— Meu amigo, se eu amanhã lhe oferecer quatro a cinco contos de réis, para te deixar e partir para o estrangeiro, podes estar certo que a criatura aceitava...
— Pelo amor de Deus! — exclamou Vítor.
Timóteo olhou-o com o ar compassivo de quem escuta as alucinações de um doido.
— Escuta, eu não duvido que essa mulher goste de ti: és novo, és agradável, etc. Tudo isso é muito bem, mas, além da tua cara e dos teus vinte e dois anos, o que faz sempre uma certa impressão nas mulheres, acredita que o que ela gosta é dos oitenta contos que dizem que eu tenho e que te deixo. Acredita-me que é isto: naturalmente dás-lhe muito prazer e ela acha-te uma perfeição, mas agrada-lhe que acompanhes os teus lindos olhos com oitenta contos de inscrições... Quero bem acreditar que por ti deixou o Dâmaso, que lhe dava, naturalmente, uns dinheiros, porque é um asno; mas tu casas! Tu casas. E é o que essas mulheres querem. Encontra um rapaz novo que lhe agrada, de uma boa família, rico, ou pouco mais ou menos, que está pronto a dar-lhe o seu nome... e, como isso não se encontra todos o dias, faz tudo para te armar o laço; e o que tu tomas por paixão é simplesmente um cálculo. Mas, ainda mesmo, quando ela esteja apaixonada por ti e pronta a aceitar-te pobre, é porventura destino de um homem de bem abandonar tudo, destruir os seus parentes e a sua família, aviltar-se para sempre e casar com uma prostituta? E para quê? Para passar toda a vida a amar! Vítor — e a voz do tio Timóteo ficou com solenidade carinhosa —, se queres viajar, a Espanha, a Itália, sabes que te dou os meios... Diverte-te: esquece-la. Antes de partires, dá-lhe um bonito presente. Estou pronto a dá-lo; portas-te como um gentleman e verás como ela se consola! Lembra-te de uma coisa: é que casando desonras-te, a ti e a mim. Ora, como eu não posso viver desonrado, não te direi que faço saltar os miolos, não, mas fecho-me no meu buraco e, até estoirar, não torno a ver alma viva. E de resto espero que Deus ou o destino, o Diabo, o que quer que seja que haja lá em cima, não me hão de deixar muito tempo nesta choldrice deste mundo. Basta de sermão. Pensa nisto. O dinheiro que quiseres, está à tua ordem. Não nos zanguemos. Damos um bom abraço e a criatura que a leve o Diabo. Vai? Que dizes?
Vítor mordia os beiços para conter as lágrimas.
— Então? — insistiu o velho.
Vítor balbuciou:
— Eu neste momento não sei, tio Timóteo. Verei... mas assim de repente...
Timóteo ergueu-se e disse com tristeza:
— As boas resoluções devem-se tomar imediatamente, meu amigo. Se a tornas a ver, se há cena de lágrimas, tudo se transtorna... Queres tu uma coisa? Deixa-me falar com ela.
Vítor olhou o tio Timóteo, passou a mão pelo cabelo.
— Mas não para lhe ser desagradável.
— Para lhe dizer a verdade: que se tens tenções de casar com ela, vendo o que tenho, vou viver para fora, para Inglaterra, para o Diabo, e os restos deixo aos pobres... E tu verás como a criatura arrefece.
— E se ela não se importa, se ela prova o seu desinteresse? — exclamou Vítor. — Se ela se desinteressa do casamento, se ela quisesse só viver comigo?
Timóteo refletiu:
Se quer viver, sendo só tua amante, não me oponho; eu te darei o dinheiro para pagar. E arruinamo-nos ambos com ela... arruinamos, sim senhor.
E ia a sair, mas, voltando-se:
— E desfaz a mala, não sejas idiota.
— Meu tio vem amanhã falar-te — foram as primeiras palavras de Vítor, quando nessa noite entrou em casa de Genoveva. E contou-lhe a sua questão com o tio Timóteo, com alterações para não a ofender.
— Meu amante? — disse ela. — É a cena da Dama das Camélias! Ele verá! Vou-lhe aparecer com uma toilette de inocente.
— Ah, tu ris, tu ris, mas...
Ela veio pôr-lhe as mãos sobre os ombros e, vendo o seu rosto ainda carregado e preocupado:
— Mas quê?... Se pela minha causa tu não queres zangar-te com o teu tio...
Afastou-se, fez-lhe uma profunda cortesia.
Ele tremiam-lhe as mãos.
— Para que és tu cruel? Bem sabes...
Genoveva oscilava tristemente com a cabeça.
— Sei que sentes. Não digas que não. Leio-te nos olhos. Pois bem, estás perfeitamente livre; não quero que, depois, se o teu tio romper contigo, te voltes contra mim. Pensa bem. Eu não quero que me pertenças por um momento de exaltação, de fantasia; quero que tenhas para mim espontaneamente, refletidamente, de modo que, suceda o que suceder, tu não me possas acusar de te ter arrastado e dizer que fui a tua desgraça.
Ele tapou-lhe a boca com a mão.
— Genoveva! Doida! Mas tu podes fazer o que quiseres; sou teu para sempre, para sempre.
A porta abriu-se. Mélanie anunciou que o jantar estava na mesa.
— E não te importa teu tio, nem as suas ameaças, nem as suas maldições?
— Não! — disse ele, muito exaltado.
— E és o meu maridinho querido, o meu maridinho da minha alma?
Os seus belos olhos pretos reluziram de uma paixão sincera.
— Sou — murmurou Vítor, beijando-lhe o pescoço.
— Então, deixa o titi comigo e vamos jantar.
Era sempre àquela hora que tinha seduções extraordinárias para Vítor. Jantaram a uma mesa pequena onde, de um globo carcel, derramava uma luz doce e elegante. O jantar era sempre excelente; Genoveva fazia sempre uma toilette; a luz punha no seu rosto, no pescoço, na abertura do decote tons doces; cobria de um tom suave a beleza da carnação; nada era mais lindo do que vê-la nestes tons; as rendas das suas mangas, meia-curta, estendendo o braço sobre a mesa, onde reluziam várias braceletes ingleses; tinha sempre no corpete uma bela flor. Mélanie servira rindo, sobre o tapete, com o seu béret, o seu avental branco, resplandecente de frescura.
Genoveva conversou muito; ria, fazia planos; às vezes, por causa do menu, numa abundância de restaurante, apertavam-se ardentemente as mãos, e aquele meio elegante, confortável, quente, amoroso, enchia Vítor de uma deleitação suave a que o vinho de Borgonha dava um bem-estar pesado, lânguido.
E era sempre com uma satisfação de licores que, na sala, quando Mélanie trazia o café, acendia o seu cigarro, estendido no sofá, ouvindo Genoveva tocar um momento, ou, a espaços, soltar, numa melodia de Gounod ou de Schubert, a sua voz cálida e penetrante.
Nessa noite, deviam ir ao Circo Price. A carruagem esperava em baixo. Genoveva veio sentar-se num joelho de Vítor e, lançando-lhe os braços em torno do pescoço, disse-lhe, baixo:
— E bom viver contigo. É tão doce!
Um suspiro de ternura dilatou-lhe o peito; murmurou junto do rosto dele:
— Se te perdesse, morria!
— E eu — respondeu ele, muito baixo.
E o coração batia-lhe fortemente.
— Vamos — disse ela, erguendo-se e puxando-lhe pelos braços —, vamos, meu cavaleiro, de pé e ponha o seu paletó. Estou bonita, hoje?
E diante dele, com um magnífico vestido vermelho e preto, mostrava-se, abrindo um pouco os braços, a cabeça estendida para ele, numa atitude de provocação e de humildade lasciva.
— Estás deliciosa — disse ele, querendo-a prender nos braços.
Ela fugiu-lhe, sorrindo.
— Não, não! — E correu ao quarto, pôr a sua capa, o chapéu, dar uma olhadela ao espelho, pôr um pouco de pó-de-arroz.
Vítor bebeu um cálice de conhaque, pensando que não havia tio Timóteo que lhe fizesse deixar aquela mulher.
Havia pouca gente no circo. Quando eles entraram no camarote, as cadeiras estavam quase vazias; apenas, aqui e além, alguns sujeitos; um dos tais, com o chapéu sobre os olhos, fumava soturnamente; duas espanholas, vestidas de verde, abanavam-se com frenesim; marujos ingleses, meio bêbados, boxavam-se no alto do anfiteatro da geral; e ao som da charanga, um cavalo branco, num movimento monótono e dormente, sustentando uma mulher esguia, de uma musculatura melancólica e pobre, que fazia jogos malabares.
Depois de um momento, Genoveva bocejou, declarou que se aborrecia; ficou logo satisfeita, vendo noutro camarote a Madame Gordon, a amante do velho barão, com uma pessoa de idade, vestida de preto, como uma viúva e lúgubre.
Cumprimentaram-se muito e Madame de Molineux fez sinal à alemã que viesse vê-la ao seu camarote. A alemã não tardou; declarou-se também muito aborrecida; não estava ninguém conhecido, era uma seca; de resto, a companhia era péssima. Agora, sobre um cavalo escuro, uma volteadora tomava atitudes graciosas; era magra e o seu cabelo estava frisado num chignon de aspeto repugnante, de onde saíam, sobre as costas, caracóis penteados com folhas de hera e espigas prateadas; um decote baixo mostrava as clavículas; as posições clássicas, que tomava sobre o largo selim, faziam-lhe sair os músculos de ginasta; por vezes, a música parava, ela sentava-se com um movimento afetado, batia as saias e derramava em redor um sorriso que mostrava maus dentes. Imediatamente um rapaz de chapéu rompia pateada, com desespero; outros aplaudiam; ela agradecia e os marinheiros ingleses gritavam hurras. O palhaço entrou dirigindo-se a ela, atirou-lhe um beijo, contorcia-se nas atléticas contorções de uma paixão grotesca; o homem do pingalim repelia-o e ele caia estatelado no chão; o anfiteatro ria-se. A música recomeçou e ela, erguendo-se sobre a sela, recomeçou piruetas sobre um pé só. O gás derramava uma luz crua de taverna; os peões da charanga faziam um tchang-tchang sonolento; pessoas percorriam, bocejando, o programa, e as patas do cavalo atiravam para as cadeiras pedaços de terra seca.
Genoveva declarou que «estava impossível»; o melhor era irem para casa. Podiam fazer-se partidas de dominó ou de loto.
A alemã não podia; o barão prometera vir buscá-la ao circo.
— Oh, estas longas noites de Lisboa! — suspirou Genoveva.
Um deslocado, vestido de peles, alto e tomando atitudes satânicas, enfastiou-a tanto que se ergueu, disse a Vítor:
— Vamos embora, filho. Este meio faz mal aos nervos; esta seca!
E deixaram a alemã, que, durante toda a noite, perseguiu com o binóculo uma das espanholas de verde, rapariguinha bonita, com dois olhos dormentes e afogados num fluido lânguido.
Ao saírem, encontraram-se com Dâmaso, que entrava. Genoveva fez uma ligeira inclinação de cabeça e Dâmaso, fazendo-se escarlate, voltou o rosto, com uma afetação de desdém. Ouviam-no mesmo chacotear com uma inglesa gorda, com quem vinha.
A noite estava adorável; havia um ar tépido de Verão, uma serenidade mansa, a lua cheia reluzia como prata e as ruas tinham o tom melancólico que dá o contraste das sombras e do luar.
Genoveva quis ir a pé e foram andando devagar, ao comprido do passeio; as lojas ainda estavam derramando a sua luz escassa; gente passeava, aqui e além; uma mulher, com um véu aproximava-se, pedindo lugubremente esmola; as altas fachadas, cobertas de luar, tinham um aspeto abandonado.
No Largo do Loreto, ao descerem para casa, Genoveva parou; ao fundo da Rua do Alecrim, o rio reluzia sob uma grande mancha trémula de lua.
— Se fôssemos dar um passeio no rio?
Desceram ao Cais do Sodré. Dois barqueiros, que fumavam, sentados num monte de pedregulhos, afirmaram que tinham um barco que era um regalo.
— E baratinho, meu amo — disse sorrindo.
— Eu sou o Manoto — disse o velho, com satisfação. — Speak english.
— Está frio — disse Vítor.
O Manoto protestou:
— Frio? Esta noite está um beijinho!
E daí a pouco, sentados, o barco afastava-se na água imóvel.
— Que linda noite! — disse Vítor.
A cidade elevava-se, com as fachadas batidas de luar e os vidros, por vezes, resplandeciam como lâminas de prata; os bicos de gás esmoreciam sob a abundância de luz prateada. E havia um silêncio daquelas habitações mudas e brancas, como a tranquilidade de uma contemplação extática. A lua cheia brilhava de um modo silencioso e sereno; um rasto faiscante corria tremulamente sobre a água, como um esmalte ou uma filigrana flutuante; todo o resto da água tinha um tom ora azul-claro, que, fugindo para o largo tomava um vago tom mais espelhado, ora era de um brilho tranquilo. Uma névoa luminosa esbatia os limites na Outra Banda e os costados dos navios, as sinalizações, tinham como um ar esbatido, ligeiro. No silêncio do céu, frio e calado, os remos batendo nos toletes de ferro e som de água cálida, chapinhando, seguia docemente o barco. Iam muito chegados e Genoveva ergueu a voz, cantando o Lago, de Lamartine:
Um soir, t'en souviens tu?
Nous voguions en silence...
Vítor tinha, muita vez, passeado no rio azul, visto a Lua e a tranquilidade da água clara, mas como se o seu amor tivesse dado à natureza uma expressão mais alta, nunca a noite de luar, o Tejo, lhe tinham parecido tão belos. Tinha passado o braço em redor da cinta de Genoveva; o contacto do seu paletó de seda dava-lhe uma sensação de elegância amorosa. Acudiram-lhe frases de romance, versos de Alfred de Musset. A Lua, brilhando no rosto dela, dava uma expressão doce de uma beleza poética; as suas mãos, mexendo nas pregas do vestido faziam reluzir as pedras dos anéis e a sua voz fresca, baixa, cantando, dava a Vítor como um adormecimento e um êxtase. Ela encostou a cabeça ligeiramente sobre o ombro dele e Vítor sentia o desejo de ir assim, eternamente, na suavidade maravilhosa daquela languidez poética. Ela calou-se por fim e, muito unidos, esqueciam-se na contemplação vaga.
— A que horas vem teu tio? — perguntou ela de repente.
— Hem? — fez Vítor, como acordando de um sonho delicioso e, encolhendo os ombros: — Que venha quando quiser, que diga o que quiser, não é verdade? Perde o tempo, não é verdade?
Ela esteve um momento calada e, com uma voz leve que soou alto:
— Não há nada neste mundo que me faça separar de ti. Nada! Enquanto tu me quiseres, sou a tua amante, a tua esposa, a tua escrava, o que tu querias.., em toda a parte e sempre.
— E eu? Que pode ele fazer? Não me deixa nada? Rompe comigo? Que me importa? Trabalharei, se for necessário, contanto que te tenha a ti, para me consolar, para me abraçar, para me dar coragem...
E apertavam-se num sentimento profundo de paixão...
— Hás de me ter sempre a mim, meu amor — respondeu ela, muito baixo.
A certeza daquela paixão deu-lhe uma alegria profunda. Mas Genoveva disse, sorrindo:
— O mais que pode fazer é amaldiçoar-nos, como no teatro.
— Deus nos abençoe — disse Vítor, quase sério.
— Ámen — respondeu ela, rindo.
Mas, como a noite arrefecia, foram remando para o cais. Davam onze horas, quando subiam a Rua das Flores. Genoveva apoiava-se muito ao braço de Vítor; estava um pouco cansada e, parando, respirando alto, olhava as altas janelas do terceiro andar onde havia luz.
— Como nós moramos alto! É uma verdadeira aventura para a perna de pau do tio Timóteo.
Aquela visita preocupava-a muito. «Que lhe quereria o tio Timóteo? Certamente embaraçar o seu casamento. Como? Com ameaças, com súplicas, com promessas?»
— Que te parece? — tinha ela perguntado a Mélanie, para quem não tinha segredos, e acrescentou: — Em todo o caso põe mais ordem na sala, flores nos vasos e põe o teu vestido de seda preto, um avental fresco.
Pela manhã, enquanto Vítor se banhava e se vestia, deitara as cartas, mas não obtivera outro relance sobre o futuro do que propriedades, dinheiro e uma carta através do mar. Depois, foi ela mesma ver se a sala tinha um ar bastante respeitável e bastante burguês e completou a decoração, como ela disse, «com alguns acessórios de humildade»: abriu sobre o piano o Stabat Mater, de Rossini. Pôs numa cadeira um regalo e, ao pé, um livro de missa, como se tivesse ido de manhã à igreja; atirou negligentemente para cima da mesa o recibo de uma contribuição semanal de «quartinho« para as escolas de crianças pobres.
— Não tens por lá um esfregão novo, por abainhar — perguntou a Mélanie. — Trá-lo.
E pôs o esfregão sobre uma cesta de costura, em lugar do bordado, para revelar preocupações úteis e não vagares elegantes. Deu, com habilidade de artista, pregas rígidas às bambinelas e, olhando satisfeita em redor:
— É o templo da virtude! — murmurou.
E daí a pouco apareceu a Vítor, que a esperava na sala de jantar lendo o jornal, com um vestido de caxemira preto, com enfeites de seda muito sóbrios, uma gravata de renda cor de prata e um botão de rosa na cave do corpete; tinha um penteado muito simples, com um toucado de renda inglesa; e havia na sua maneira, no seu perfil, na reserva da sua atitude, um ar de regularidade doméstica e de serenidade maternal.
— Não estou uma mulherzinha de bem?
— É-lo sempre — disse Vítor, encantado.
No entanto, estavam ambos nervosos. Um toque de campainha deu-lhes um sobressalto; olharam-se com palpitações. Era apenas a mulher da fruta.
— Talvez nem venha hoje — disse Vítor.
A chávena de chá tremia um pouco nas mãos de Genoveva. Quis rir, escarnecer a sua própria excitação.
— Não é o papão, não me há de comer.
Quando vieram para a sala, Vítor notou a disposição inteligente, o ar de tranquilidade e de ordem.
— É um dia de batalha — disse Vítor.
Genoveva pareceu ter uma ideia, foi ao piano procurar um livro de melodias de Schubert e preludiou a canção conhecida:
Salvé, Salvé, Última Manhã da Minha Vida. E como Vítor a olhasse, surpreendido do tom quase supersticioso com que ela soltara as palavras melancólicas:
— É de bom agoiro.
E contou-lhe que um amigo dela, um rapaz francês, lhe dissera que, no ano de guerra, quando os Prussianos cercavam Paris, no Inverno terrível, os rapazes, militares do forte do Monte Valesiano costumavam reunir-se numa das casamatas onde tinham instalado um piano e, antes do romper do Sol e do primeiro tiro do dia, cantavam em coro, como uma canção protetora, a melodia de Schubert: «Para algum podia bem ser a última manhã», não é verdade? Pois bem, nenhum foi morto, nenhum foi ferido. E daí lhes ficou a superstição de cantar na véspera de algum facto decisivo, de algum duro combate da vida, aquela melodia protetora. Et Voilà!
E continuou cantando:
Salvé, ó última manhã
Da minha vida, salvé!
Vítor foi encostar-se à janela. O dia estava cheio de sol, já um pouco quente; um azul vivo de Primavera meridional resplandecia e, como havia alguma poeira, a carroça da água ia regando devagar, a Rua do Alecrim; as altas casas da Rua das Flores punham a rua numa sombra discreta e ficava ali um recanto da cidade recolhido e silencioso. Debruçado para a rua, sentia as notas melancólicas da canção pairarem aí, no ar quente, e davam-lhe uma sensação de vaga opressão sentimental.
Ao meio-dia, tomou o chapéu e disse a Genoveva:
— Vou para o Chiado, a ver se passa a carruagem do tio Timóteo; ponho-me à espera que ele saia e venho logo saber a novidade.
E ia sair mas, por um impulso estranho, quase melancólico, voltou, apertou-a contra o peito; beijaram-se profundamente e ele saiu comovido, jurando que, houvesse o que houvesse, seria dela para sempre.
Era uma hora, quando a velha parelha do tio Timóteo parou à porta do prédio. Genoveva, no corredor, ouvia, com o coração a bater-lhe, o ruído seco da perna de pau, que subia devagar.
— Abre logo, Mélanie — murmurou Genoveva, e correu para o quarto.
Quando o tio Timóteo entrou na sala, pousou os olhos na mobília, nos quadros, no cesto da costura, e ficou um pouco embaraçado, vendo então Genoveva com uma atitude de muito respeito e de muita dignidade.
— É o tio de Vítor, creio, que tenho a honra... — começou, curvando-se e repetindo, por instinto, a frase da Dama das Camélias, quando recebeu o pai de Armand.
Sentou-se com muita nobreza no sofá, murmurando:
— A que devo...?
— Antes de tudo — disse o tio Timóteo, muito respeitosamente —, eu devo-lhe expressar as minhas desculpas por um momento de mau humor que tive aqui há um mês, quando tive, pela primeira vez, a ocasião, a honra...
Embaraçava-se um pouco; o olhar de Genoveva muito atento e o seu sorriso benévolo, o ar humilde, filial, perturbavam-no; e fitava-a, sentindo vagamente que conhecia aquela fisionomia e que já vira aquele olhar... Ela, então, com um gesto de uma bondade doce:
— Pelo amor de Deus, a culpa foi toda minha. Eu adoro as crianças e acredite que coro de vergonha, de remorso, de ter feito cair o pobre anjinho... Mas todos temos os nossos maus dias, os nossos blue devils. Eu, nesse tempo, não era feliz...
E mordendo um pouco o beicinho, desceu as suas grandes pestanas pretas, por um movimento de uma vergonha melancólica. Mas ergueu-as logo e o seu olhar prendeu-se ao tio Timóteo, com uma insistência, ansiosa; ela também lhe parecia que aquela figura, que aquela voz, não lhe eram estranhas; quando o vira, onde?
Os seus olhos encontraram-se com os dele, e, por um momento, penetraram-se, com uma interrogação desesperada; mas o tio Timóteo ou para cortar o silêncio, ou por não achar a recordação exata disse:
— Eu, todos os que me conhecem sabem, sou um homem que atiro fora tudo o que penso — numa expressão de magistrado ou militar —, sou franco.
Ela curvou ligeiramente a cabeça.
— E a primeira qualidade num homem para mim, a franqueza, depois da coragem, já se sabe.
Aquela opinião agradou muito a Timóteo; a beleza de Genoveva, o tom velado da sua voz, a sua atitude casta e atenta, começaram a exercer na sua irritabilidade uma ação dissolvente. E ainda desconfiado, resolvido a não se deixar «embarrilar», disse um pouco bruscamente:
— É por ser franco que vou direto ao que me traz aqui. Decerto sabe o que é.
Ela teve um gesto muito doce, risonho de dúvida, de hesitação.
— Naturalmente, vem-me falar de Vítor.
— Venho falar-lhe de Vítor.
Houve uma pausa e Genoveva detalhava as palavras com uma gravidade digna:
— Vítor tem falado tanta vez do tio Timóteo, como ele lhe chama, e sempre com tanto afeto, com tanto entusiasmo, que eu sinto-me pronta a escutá-lo com dedicação — e sublinhando a palavra —, sei que ele lhe deve tudo, que o estremece.
— Sim — interrompeu Timóteo —, a não ser um incorreto, o rapaz deve ter-me amizade.
— Adora-o! — disse ela com força, com um movimento no sofá que aproximou de Timóteo.
«Ah, sereia!», pensou ele; e depois de esfregar o joelho refletidamente:
— Portanto não deve estranhar que eu venha aqui defender os interesses dele.
Pareceu muito surpreendida ao ouvir falar de interesses.
— Sim, porque, enfim — e teve um movimento de todo o corpo que indicava uma decisão —, que ganha ele com estas relações?
Genoveva, torcendo entre os dedos as rendas do lenço e baixando os olhos:
— O que se ganha em ter relações com a pessoa que se ama? — e com um sorriso adorável: — A felicidade, creio eu...
Timóteo encarou-a e disse, com a voz mais alta:
— Minha rica senhora, eu não sou um desses velhos tios de comédia, burgueses, que se aterram, quando um rapaz tem uma amante. Dos vinte anos aos trinta, todos os homens têm amantes; é tão necessário como tomar banho. Vou mais longe, digo que é uma felicidade, quando é uma amante bonita inteligente, prendada, senhoril, com uma bonita casa e olhou em redor, conversa e saudou-a e toilettes... Perfeitamente. Eu seria primeiro a aplaudir o Vítor... se esta ligação não lhe trouxesse transtornos graves.
Genoveva acudiu:
— Mas engana-se, decerto; eu não exijo nada dele, não o perturbo nos seus afazeres, não sou egoísta; quero que ele me venha ver...
— E que case consigo — disse secamente o tio Timóteo.
Genoveva fez-se escarlate; decerto uma cólera invadia-a, mas, dominando-se, disse:
— Entendemos que seria mais cristão e mais puro legitimar as nossas relações...
Timóteo olhou-a atónito; não sabia se devia rir da afetação, se escandalizar-se da hipocrisia; conteve uma praga que lhe viera aos lábios e, pensando que a feriria, a perturbaria, disse tranquilamente, placidamente, com sobrolho pasmado:
— Mas sabe que, se der em casamento, eu não deixo real a esse rapaz...
Ela curvou-se.
— Seria um desgosto para Vítor, porque será prova que lhe retira a sua estima, mas não influi em nada a sua decisão; é novo, inteligente, pode trabalhar, eu tenho alguma coisa...
— Que outros lhe deram! — exclamou com voz seca e um movimento de ombros terrível.
Genoveva fez-se pálida, os beiços tremiam-lhe; por um movimento rápido, levou o lenço aos olhos e, quando o retirou, disse com a cabeça curvada:
— Por maior que seja o seu horror pela minha vida passada, não é maior que o meu. É para o esquecer, para o lavar, que procuro uma afeição pura, nobre. De resto, não creio que seja generoso da sua parte humilhar-me...
Timóteo pensou: «É danada!»
Curvou-se, murmurou «perdão» e acrescentou:
— Eu vejo que estou a falar com uma pessoa muito inteligente.., e então deixe-me, cos diabos, chegar à questão. Acha que seja amar um homem obrigá-lo a um casamento tão equívoco? Qual seria o destino desse pobre rapaz? Corar constantemente da sua mulher; não poder obter para ela o respeito necessário; há de encontrar muitos outros que saibam sobre o seu passado, tanto como ele mesmo. Deixe-me falar-lhe com franqueza. Sou um velho, conhecemos ambos o mundo. Todas as reservas seriam ridículas. Nunca, de modo nenhum, a pode levar à sociedade; todas as carreiras, toda a ambição, lhe estariam fechadas. Se tiverem filhos, os seus filhos teriam um nome terrível. Estão arriscados a que, a todo o momento, um insolente lhes diga, em cara, o que foi sua mãe.
Ela teve um gesto ansioso que vinha da paixão.
— Viveremos tão escondidos, tão retirados...
Timóteo teve um riso.
— Isso é romance! Vive-se retirado um ano! Não se pode viver toda a vida num chalet, a olhar para a Lua, a dar beijinhos pelos cantos... A senhora mesma, pensa a senhora que pode habituar-se a essa reclusão, a uma vida de convento? Os hábitos de uma vida não se mudam como pares de luvas. Agora, decerto, está sob a ilusão que lhe dá a paixão, mas depois? Poderá resignar-se a viver pobremente, sem carruagem, sem festas, sem ceias, nem aventuras?...
— Mas perdão! — disse ela. — Que ideia é essa? Toda a minha vida vivi sem festas e sem aventuras. Os meus erros provieram — e baixando a voz — da necessidade. Acredite: da necessidade. Eu sou uma burguesa, sempre o fui, de família burguesa, com hábitos burgueses...
E vendo o espanto de Timóteo, julgando perceber nele um começo de abandono, de simpatia, teve a ideia de jogar a última carta, aproximou-se dele, quase à beira do sofá, com as mãos erguidas, e exclamou:
— Escute. Vou-lhe contar toda a minha vida, tenho confiança em si; vejo que é um homem de bem, um homem de coração, de inteligência, que me compreende... Nunca revelei estas coisas. Vítor não sabe nada. Julga-me, como todo o mundo, uma senhora da ilha da Madeira que fugiu com um inglês e que, em Paris, depois... se fez.., o que eles dizem: cocote!
E teve um riso amargo. Uma aragem forte entrou e, maquinalmente, Timóteo, que estava do lado da porta, fez o movimento de se retirar da corrente de ar. Genoveva viu e correu a fechar a janela e, correndo o fecho, reuniu, num relance, os vagos detalhes da história que ia contar. Quando ia voltar, Timóteo estava de pé; o andar dela tinha-o ferido e uma vaga recordação condensou-se no espírito; os seus olhos devoravam-na.
— E então, de onde é? — perguntou quase com dificuldade.
— Casei em Portugal. — Hesitou; mas como se o corpo lhe sangrasse irresistivelmente, com um acento de vergonha: — Fugi ao meu marido...
— De onde é, de onde? — perguntou Timóteo; respirava com aflição e a bengala tremia-lhe na mão fria, extraordinariamente.
— Sou da Guarda — disse ela.
Timóteo estacou imóvel, com os olhos dilatados; murmurou duas vezes:
— Santo Nome de Deus! Santo Nome de Deus!
— O que é? — fez ela, lívida.
— Seu marido, quem era?
Ela respondeu ansiosamente com as mãos sobre o peito, toda inclinada para ele:
— Porquê? Meu marido chamava-se Pedro da Ega.
— Oh! Maldita! Maldita! Maldita! — bradou Timóteo. E os seus braços erguidos tinham uma tremura, o olhar alucinado; e com uma voz estrangulada, medonha:
— Mas esse, esse homem é Vítor da Ega. É seu filho! Eu sou Timóteo da Ega.
Ela levou as mãos à cabeça, com um gesto medonho; os olhos saíram-lhe das órbitas, a boca aberta queria gritar; arrimou-se à borda da mesa, os seus braços retesaram-se; levou a mão convulsivamente ao colar, a mola despedaçou-se; e dando passos vagos pela sala, com sons roucos e tremores, os braços ao alto, batendo o ar, foi cair sobre o tapete, com os braços abertos.
Timóteo berrou:
— Olá, olá!
Mélanie correu, precipitou-se com gritos, sobre Genoveva; foi abrir as janelas, correu a desapertá-la. E Timóteo, alucinado, encostando-se às paredes, desceu a escada, atirou-se para a carruagem; o cocheiro, ao voltar-se, ficou pasmado de lhe ver as lágrimas a rolar pelos olhos.
Vítor, depois de ter visto o tio Timóteo entrar para casa de Genoveva, desceu a Rua do Alecrim, foi dar uma volta no Aterro. Estava muito nervoso, muito agitado. Encontrou Carvalhosa, que lhe perguntou por Genoveva.
«Ia bem, obrigado. « E como já tivesse passado quase uma hora, pensou que seria tempo de voltar e veio subindo com ele a Rua do Alecrim. Carvalhosa falou de política e de literatura. «Que lhe parecia o livro de poesias da besta do Roma? Nem ideal, nem imagens: uma banalidade pretensiosa.» Vítor respondeu com monossílabos, sorrisos vagos. Dava esmola a todos os pobres que encontrava «para trazer a felicidade». Ao chegar ao Largo do Quintela, não viu a carruagem. «Bem, tinha-se ido o tio.»
— A literatura está num marasmo — disse o Carvalhosa.
— Está o diabo, está — replicou Vítor, com os olhos fitos na janela de Genoveva. E disse bruscamente adeus ao Carvalhosa, mas, pensando que teria sido seco, chamou-o, pediu-lhe que viesse jantar com Genoveva.
— Quando?
— Amanhã.
— Às seis?
— Às sete.
E correu a casa, subiu as escadas, aos quatro. Achou a porta aberta, entrou. Mas veio-lhe a ideia que talvez Timóteo ainda lá estivesse e a carruagem devesse voltar. Foi, em bicos dos pés, até à sala; entreabriu o reposteiro. Viu Genoveva sentada numa cadeira, os braços caídos, o rosto pendido sobre o peito.
— Genoveva — disse, baixo.
Notou então que estava toda esguedelhada, com o corpete aberto, lívida, velha. Entrou bruscamente. Ela ergueu o rosto, viu-o, ergueu-se num pulo e ficou com os braços estendidos, inteiriços, para ele, os dedos muito abertos.
— Que é, Genoveva? — gritou, aflito, correndo para ela.
Ela recuou, com os olhos dilatados, o corpo inteiriçado, um esgar na boca, medonho, e os seus braços faziam ansiosamente sinal «que não!, não!» Respirava tragicamente, com um aãh ansioso de agonia. E os olhos, terríveis, pasmados, como mortos, saíam-lhe das órbitas, fixavam-se nele, com uma persistência pavorosa.
Vítor ficou petrificado. Balbuciou:
— Genoveva, meu amor, que é? — E deu um passo.
Mas ela, possuída de um terror alucinado, recuou e, de repente, encolhida, procurou, com os olhos ferozmente esgazeados, uma porta, um canto, uma saída.
— Ah, meu Deus, que endoideceste! — exclamou ele com uma voz chorosa, estarrecido. — Mas, Genoveva, sou eu!
E ia para ela. Mas ela, abrindo a boca com uma ânsia terrível, soltou, num baque súbito, um grito:
— Maldito! Maldito!
E volteando-se, num relance, correu à janela e, lançando o corpo sobre o peitoril, atirou-se, com um grito estridente. Vítor sentiu ainda o seu corpo fazer, na rua, um som baço e mole de um fardo de roupa.
Quando as pessoas que conduziram o cadáver de Genoveva, entraram na sala, entre os clamores de Mélanie, encontraram Vítor estendido no chão; tinha batido com a cabeça na esquina de uma consola e da sua testa lívida corria um fio de sangue que, a pouco, secou no tapete.
Os jornais falaram, durante alguns dias, do «suicídio da Rua das Flores». A Polícia fez algumas investigações preguiçosas e o caso, considerado como um suicídio, lentamente esqueceu. Dâmaso, ao princípio, esteve, segundo disse aos amigos, «embatucado». Esteve em casa alguns dias. Mas não tardou em reaparecer, gordinho e risonho, e dizia com importância:
— Eu sempre lho profetizara. Era doida, havia de acabar mal.
Durante esse tempo, Vítor jazia com uma febre cerebral. Durante vinte e cinco noites, Timóteo e Clorinda não se deitaram e no dia em que Vítor pôde dar o seu primeiro passeio, em volta do quarto, apoiado à enfermeira, e comeu a sua primeira asa de galinha, o tio Timóteo abraçou-se a ele a chorar.
— Mas porque foi, mas porque foi? — disse Vítor, soluçando.
O tio Timóteo disse simplesmente:
— Não sei. Estava-me contando a sua vida passada e, de repente, desmaiou. Só Deus o sabe. Só Deus o deve saber.
Estava agora mais envelhecido; passava os dias ao pé da poltrona, onde Vítor ia ganhando as forças, a fumar cachimbos consecutivos, calado, com os olhos fitos no chão, o seu fiel Dick deitado aos pés.
Um dia, Vítor disse, de repente, depois de um grande silêncio:
— Mas eu estava para casar com essa mulher... Acha que devo deitar luto, quando sair?
Timóteo ergueu-se violentamente, deu alguns passos pelo quarto, parou subitamente, foi rufar no vão da janela e, voltando-se, pálido, disse:
— Sim. Um fumo no chapéu.
Mas Vítor tomou o luto de viúvo. Quis viajar. Partiu. Demorou-se em Madrid e, em Paris, como localizasse a casa de Genoveva, todos os dias, todas as noites, por lá passava, demorando-se a olhar a varanda, e parecia achar, naquele lugar onde ela vivera, alguma coisa da sua vida passada; a pensar que o alugaria e compraria a mobília, passava uma vida jovial; às três horas da manhã, às vezes, havia sons de piano; o criado de um café vizinho disse-lhe que morava lá uma chamada D'Arcy e, vendo que era um estrangeiro, aconselhou-lha: era bonita e custava apenas quatro libras.
Um dia, ao dobrar a rua, na Praça da Bolsa, deu, de repente, com Mélanie. Abraçaram-se longamente. Mélanie, com o dinheiro que Timóteo lhe dera, comprara uma pequena confeitaria no Bairro de Villete. Prosperava e Vítor ia muitas vezes visitá-la; era no Inverno e sentados ambos sobre o tapete, ao pé do fogo, tomavam café à luz vaga que dava a lenha na chaminé, numa saleta escura; fora, a chuva, ou caía silenciosamente a neve, e falavam dela longamente, até que Vítor, com os olhos fitos no lume, ficava calado e perdido numa saudade infinita, com os olhos cheios de lágrimas. Mas, às onze horas, tinha de sair porque o amante de Mélanie, que era claque num teatro, entrava à meia-noite.
Voltou. Encontrou o tio Timóteo mais silencioso, mais velho, mais lúgubre. E daí a duas semanas, o tio Timóteo adoeceu com uma pleuresia. Teve uma morte muito tranquila e grave. Como Clorinda falava dos sacramentos, disse com uma voz fraca:
— Não. Nada de padres. Não me amargurem este último momento. É o melhor da vida.
Deixou a Vítor, no seu testamento, setenta contos.
Passados dois meses, Vítor voltava do cemitério dos Prazeres onde fora ver a sepultura de Genoveva e a do tio Timóteo, quando, ao passar numa rua, sentiu uma rapariguita correr atrás dele.
— Meu senhor, meu senhor.
— Que se passa?
— É a senhora, a grande, que diz que venha.
E no segundo andar. Surpreendido, seguiu a rapariga e, num pobre segundo andar, encontrou Joana, que se lhe atirou aos braços e contou a sua história. Depois da partida do Cerrão para o Brasil, recebera, no primeiro paquete, algum dinheiro; mas havia seis meses que não recebia nada; tinha tudo no prego; já não trazia o vestido de chita amarela, mas, um pouco abatida pela melancolia, a sua beleza ganhara delicadeza.
Vítor pôs-lhe casa e viveu em concubinagem com ela, educando a filha do Cerrão. Dizem que vai casar com ela. Dedica-se, já mais consolado, a trabalhos literários e há tempos publicava no Almanaque das Senhoras esta poesia, imitada de um poema de Richepin:
A GENOVEVA
Tão profundamente amada
Tu foste, que a minha vida
Da tua lembrança querida
Pra sempre está perfumada.
Tens outros amores talvez,
Mas, sem fé e sem coragem,
Guardo passes de estalagem
Onde se dorme uma vez.
Nos olhos mais cativantes
É ainda a ti que te vejo,
Por ares do meu desejo,
Vivo por ti, como dantes.
Nos planos de Jericó,
Assim o rei Mago ia
Em cada estrela que via,
Seguindo uma estrela só.
E na posse mais demente
Do corpo mais desejado,
Basta voltar-me para o lado,
Para te ver ali presente.
D. Joana Coutinho, que leu estes versos e os adorou, perguntava-lhe, há dias, na casa do Sr. Seixas, onde Vítor recita as vezes:
— E sua mulher não tem ciúmes?
Vítor sorriu, não respondeu... «Mas como ter podia? Joana, sua mulher, não sabia ler.»
FIM
Você terminou A Tragédia da Rua das Flores
Eça de Queirós