A Tragédia da Rua das Flores

Eça de Queirós · Capítulo 2 de 12

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A Tragédia da Rua das Flores

Capítulo III · Tinham passado alguns dias; o tio Timóteo…

 

Tinham passado alguns dias; o tio Timóteo descia as escadas do número dezoito da Rua de S. Bento; no segundo andar, morava o coronel Stepheson, um seu velho amigo inglês que, desde a guerra de D. Miguel, pertencia ao exército português; era um robusto velho, grande bebedor de conhaque, cheio de anedotas, falando português com grande acento. Timóteo visitava-o amiúde, porque a gota do coronel não o deixava erguer-se da sua enorme poltrona, a sua «concha», como ele dizia, fumavam grandes cachimbadas, celebravam a política, os costumes, a cozinha de Inglaterra, bebiam um frasco de conhaque, recordavam, repetiam algumas pragas queridas.

Quando o tio Timóteo descia o último lance de escadas, devagar, com grande ruído da sua perna de pau, uma criança de ano e meio, gordinha, loira, ia atravessando o pátio, só, com passos incertos, guinchando de riso, equilibrando-se mal nas suas perninhas gordas, vermelhas, cheias de regueifas, agitando os braços, com os punhozinhos muito fechados.

O pátio abria, por uma porta lateral, para uma loja de retroseiro, e, decerto, a mãe, uma boa criatura, fresca e alegre, que era a lojista que Timóteo conhecia, se descuidara um momento, e o pequerruchinho ia atravessar pelo pátio fora... E no mesmo momento, passos de cavalos afastavam-se, e uma mulher alta e loira, Madame de Molineux, entrava à pressa, erguendo no braço a cauda preta da sua amazona. Um véu branco descia-lhe do chapéu, um ramo de violetas estava metido numa casa do corpete.

Quando ela atravessava o pátio, direita à escada, a criança, que ia oscilante e cambaleando, pôs-se diante dela; Madame de Molineux, impaciente, arredou-a de repelão, com o pé; a criança caiu sobre as suas mãozinhas estendidas, estirada, com o ventrezinho na laje, e nem se pôde levantar, sempre aos gritos.

Madame de Molineux passara. Uma mulher entrara na cerca da loja, agarrou a criança nos braços, levou-a a correr, com muitos beijos.

Madame de Molineux subia as escadas, quando Timóteo, que estava afastado dela por dois degraus, lhe disse com um olho franzido:

— É necessário ter o coração bem duro, para dar com o pé numa criança.

Madame de Molineux estacou; sob o véu, o rosto inflamou-se de um escarlate súbito, e voltando-se, com uma voz seca, cortante:

— Fala comigo?

Timóteo voltara-se também, aprumado:

— Para quem hei de falar? São, porventura, modos de tratar uma criança que mal se tem em pé? Eu, se fosse a mãe, esbofeteava-a!

Por um movimento instintivo, Madame de Molineux ergueu o chicote; os olhos de Timóteo estavam agora fitos nos dela, com uma insistência estranha e, todavia, uma cólera crescente.

— Atrevido — murmurou ela.

Aquela palavra, Timóteo fez-se rubro e, aprumando-se com a bengala em riste, espaçando as palavras:

— Se tem um homem, que se arme até aos dentes e que venha por cá.

Madame de Molineux olhou-o, encolheu os ombros e, murmurando:

— É doido!

Mas Timóteo, erguendo a voz e atirando-lhe as palavras para cima:

— Eu não sei quem a senhora é... O que lhe posso afirmar é que é um traste!

E saiu, furioso. Atirou-se para a carruagem, tremendo, batendo com bengala no fundo do cupé, repetidamente; e através da cólera que lhe rugia dentro e que o fazia sofrer, disse a si mesmo: «Onde diabo vi eu aquelas feições?»

Madame de Molineux, apenas a criadita veio abrir a porta, atravessou a saleta de entrada e, com pé nervoso, sobre o qual caía a sua calça preta, a cauda de amazona no braço, o chicote ainda apertado colericamente na mão, foi à janela da sala; queria ver o insultante, mas o cupé afastara-se e apenas via o dorso do cocheiro, com o seu chapéu enterrado até à nuca.

Arremessou o chicote para uma cadeira, desapertou o elástico do chapéu; as suas mãos, calçadas de guantes de camurça, tremiam um pouco. Deu alguns passos agitados pela saleta; a amazona preta vestia-lhe o corpo, como uma luva, pondo em relevo a linha do seu seio, a cinta estreita, flexível, redonda, os quadris um pouco descaídos e de mulher lasciva; a sua alta estatura tinha a ereção alta que dá a cólera; os seus olhos pretos chamejavam com um brilho seco; e sob o pó-de-arroz, a sua pele tinha tons inflamados. Parou e, tirando as luvas:

— Mélanie — gritou, entrando para o quarto.

Como a casa era alugada com móveis, o quarto tinha uma banalidade mesquinha de hotel; o tapete, diante do toucador, estava rapado do uso; as cortinas da cama eram de cassa ordinária e bambinela pobre; as cortinas de repes azul tinham o ar desbotado e comido do sol; o estuque do teto tinha uma racha; mas, como um artista pode, com traços hábeis de esfuminho, dar relevo e originalidade a uma banal figura litografada, Genoveva dera ao seu quarto, pondo aqui e além detalhes de um luxo refinado, um vago aspeto rico e interessante. Um belo plaid de Ulster cobria a cama; os lençóis dela, de «olanda», tinham o seu largo monograma, tudo a retrós escarlate, sob uma coroa de condessa; a camisinha de dormir, de rendas caras, estava num largo sachei de cetim azul; sobre a cómoda, reluziam as tampas de oiro dos seus frascos de cristal; sobre uma mesa redonda, coberta com um feio pano felpudo, de cores anilinas, estava um buvard de pele de serpente de Klein, com um brasão a prata; folhas de papel, marcado por Wigan; uma faca de papel de baquelite; no toucador, em estojos de veludo, cor de cereja, o aço das tesouras, as pinças brilhantes e o tom dourado das tartarugas dos pentes; luvas de peau de Suêde, claras, de doze botões, estavam espalhadas; de uma gaveta, com risco de trasbordar, meias de seda, tão leves que o vento as levaria, e de renda aberta; e um aroma vago de sabor rico, de opópanax e de Tanglewood, errava subtilmente, como assinatura dela.

— Mélanie! — gritou com impaciência. — Onde estavas tu? Despe-me!

E desapertava os botões da amazona, com os dedos ainda vibrantes de cólera.

Mélanie tinha vinte e cinco anos, era de Plancus, na Provença, mas apenas conservava daquela quente região, onde o sangue arde, o olhar negro, desejoso, e os movimentos elásticos e ondulantes do corpo alto e magro. Paris, onde ela rolara como um seixo no leito de um rio, tinha desbastado, polido, afinado, apurado, a mocetona que outrora viera do seu povo, fugida com um catalão e chorando de ciúme. Tinha agora o nariz mais delgado, móbil, atrevido, os beicinhos sempre secos que humedecia com a língua, os quadris de um esguio masculino, o pé rápido, vivo e pronto. A sua vida era complicada: do catalão passara a um carlista, depois, a um brasileiro; fora criada, muitos anos, no triste Hotel Português do Meio-Dia de Pernambuco, na Rua Lafayette; depois, perdera-se no fundo de Paris, onde vivera, de trapeira em trapeira, dançando furiosamente nos bailes públicos, paga por uns, batida com prazer por outros.

Genoveva recebera-a da mãe de Madame de P. uma cocote portuguesa casada com um alemão que, em 1870, governara Metz. Tinha sido educada por Madame de P., era uma admirável criada de quarto, astuta, asseada, cheia de jeito, e falava o português como se tivesse nascido em Lisboa; somente tinha, das frequências do Hotel de Pernambuco, um leve acento adocicado do Brasil.

Genoveva tomara o hábito de falar sempre com ela português, para rolar melhor as suas confidências, porque não tinha segredos para Mélanie, e tudo o que lhe passasse no cérebro, de mau, de extravagante, ou de imoral, o desopilava em Mélanie, como num balde de águas sujas. Mélanie adorava-a; Genoveva, com as suas belas formas, inspirava-lhe mesmo uma vaga atração física, porque, de homem em homem, a sensualidade de Mélanie crescia a cada noite, como uma embriaguez a cada copo de vinho; tinha agora um histerismo ávido que lhe embaciava o olhar; mas as preocupações luxuriosas não a desviavam do zelo do serviço. Era uma excelente criada do vício, tinha jeito e tratava das toilettes de Genoveva como um sacristão devoto das alfaias de uma igreja; tinha o talento subtil da duplicidade, do disfarce; ninguém como ela para «impor» um credor exigente, um amante importuno. A sua língua fina e vermelhinha, pródiga de palavras à provençal, sacudia uma mentira, naturalmente, como a saliva. Era avara, qualidade preciosa numa casa desarranjada, e, ao examinar as contas da cozinheira, discutia com ela até aos últimos reais, no verificar os preços. Tinha moeirices de agente de polícia e astúcia de vendedora de segunda mão. Com a sua touca, o seu olhar vicioso, os pés pequeninos, o andar felino de gata aquecida, mexia-se, agitava-se, ia, mentia, arranjava, com mãos ligeiras de dedos magros, bebendo grandes copos de água, alimentando-se de quase nada e usando os homens, como as gulosas mais rebuscadas: um, outro, outro, outro; às vezes, muitos ao mesmo tempo, sem confundir, distinguindo os gozos; querendo este pelo brilho do olhar; aquele pela forma dos músculos, outros por uma habilidade de libertinagem; dizendo do amor: «Ça c'est de la fichue blague et voilà!»

Genoveva descobrira, com espanto, que, no último ano em Paris, Mélanie tinha onze homens! Impondo-lhe o nome de Mélanie dos Onze Gostos, deu-lhe inteiramente, sem reserva, a sua confiança.

Genoveva, com o colo nu, os braços nus, sentada na cama, era de uma brancura admirável; a pele bem tratada, habituada às abluções de leite, de água gelada, de uma frescura destemida igual à da camélia, absorvia a luz; deixando as pernas resvalar numa redondeza, com o brilho de uma claridade de marfim Polido; os seus braços eram finos, vigorosos, com um ar marmóreo e escultural, tendo no tom uma doçura láctea e na musculatura um vigor sensual. O pescoço, soberbo, cheio, tinha uma nobreza, e os dois globos dos seus seios, que a camisinha descobria, tinham, num desenvolvimento abundante, a firmeza rija das linhas virginais.

Estendera os pés a Mélanie, que lhe descalçara as botas, lhe tirara as calças justas de montar; e, vestindo um longo roupão de seda escura, colocou os pés, vestidos de meias de seda pretas, numas chinelas de veludo azul.

— Aqui estou! E é que não tenho nem marido, nem filho, nem irmão. Ninguém!

— O que foi, minha senhora? — disse Mélanie, toda admirada, cruzando os seus braços magros.

— Devia-lhe ter cortado a cara com o chicote!

E contou a Mélanie, estupefacta, o insulto de Timóteo. Era um velho de perna de pau, com uma carruagem, um cocheiro sebento, o ar de doido, tinha-lhe pregado moral, por causa de um pequeno que ela empurrara, por se lhe ter embrulhado nas saias. Um animal que ia a descer as escadas.

— Devia de vir de casa do coronel inglês. Já o encontrei, o outro dia... De resto, o senhor Dâmaso descia com ele. Pela perna... pela carruagem...

— O senhor Dâmaso é um asno — disse ela, de pé, abotoando com os dedos nervosos os botões de seda do roupão.

— Dá-me o frasco de gim, Mélanie, com água. Onde está a inglesa?

— Está no quarto, minha senhora.

E arrumava, em redor, ligeira, com uns sapatinhos que rangiam ligeiramente no tapete.

Genoveva, muito estendida na sua poltrona, bebia o seu gim, devagarinho. Parecia acalmar-se, pouco a pouco; tinha acendido um cigarrinho La Ferme e soprava o fumo, muito estirada, as pernas cruzadas; a sua testa branca, um pouco curta, desfranzia-se, serenava; e espreguiçando-se:

— Um passeio estúpido, por um diabo de uma estrada entre muros e quintas, sempre! — Ergueu os olhos ao céu, com desespero. — E aquele maçador do senhor Dâmaso, que imbecil, que idiota!...

E pousando o copo sob a jardineira, erguendo-se com o olhar duro que escurecia:

— Estou com vontade de tomar o paquete de volta para Paris. Estúpida terra, estúpida gente, estúpida vida!

Mélanie ia fazer algumas observações, sobre o clima, sobre a cidade.

— Não palres mais, basta! Vai-te. Estou-te com ódio. Estou com ódio a todo o mundo. diz à inglesa que vá à sala. Que toque. É para isso que lhe pago. Dá-me mais gim.

Mélanie hesitou:

— A senhora, ultimamente, bebe de mais; estraga a pele positivamente.

— Bem, basta de moral — gritou. — Já hoje tive bastante. Vai Mélanie. Avia-te. Chama a inglesa.

Falava com uma vivacidade brusca, impaciente, que contrastava com o rosto aquilino, a sua figura de estátua, que parecia revelar um temperamento frio e sereno. Ficou bebendo aos golos o seu gim. Ganhara aquele hábito em Londres, quando lá vivera com Lord Belton: os nevoeiros húmidos e sebáceos, onde tudo se esbate e afoga numa tinta parda, baça, onde os candeeiros de gás parecem um vago ponto de luz, chapinhando na lama, mal diáfana. Dava-lhe, então, à sua natureza meridional, um tédio tão impaciente que se acostumara a beber gim, para não deixar ganhar frio a alma. Depois começara a sentir que o gim aquecia o seu temperamento; dava às excitações sensuais uma vaga loucura violenta que lhe agradava; continuara a usá-lo, mas nunca se embriagava; bebia-o com muita água, o bastante para lhe ter circularmente acesa, por todos os músculos, uma vitalidade mais cálida e mais intensa.

Mas, decerto, a observação de Mélanie acudiu-lhe, porque se ergueu, limpou o rosto a uma toalha humedecida, tomou um espelho de marfim e esteve-se a ver. Não, a pele estava leve, branca, um bocadinho áspera, talvez, aos lados; nem uma ruga ainda a engelhava; apenas, nas asas do nariz, uma granulação impercetível como a que deixa o pó-de-arroz ordinário acusava a idade! A cara estava ainda de um tom puro e, apesar dos seus trinta e nove anos, estava com todo o forte desenvolvimento de uma beleza resistente; só os beiços precisavam um pouco de vermelho, às vezes, porque receava viessem-lhe películas.

Seria bela até aos quarenta e cinco anos, «com muita água fria e paz de espírito», pensou, sorrindo.

Mas Mélanie entrou, com um papel na mão; era o homem da companhia, para o aluguel da carruagem.

Genoveva enfureceu-se. Porque o não tinha imposto. Que costume era aquele, agora, deixar os credores vir assim, violentamente. E como Mélanie lhe estendesse o papel:

— Vire para lá! Para que quero eu isso? Quem quer que lhe pague? Nem com tenazes!

— Como a senhora tinha recebido dinheiro, ontem...

Genoveva bateu o pé.

Decerto que tinha recebido dinheiro, mas não queria dar. Estava a estranhá-la positivamente!... Como se o dinheiro fosse para a algibeira de ladrões. E acrescentou, com o espelho na mão:

— Não, Mélanie. Estou-te a desconhecer, desde que saíste de França... Estás-te a fazer bronca. É do ar de Lisboa...

E recostou-se tranquilamente na cadeira, ficando como esquecida, como no espetáculo de visões interiores que voltavam confusamente do seu passado; colocavam-se diante dela, como vida de teatro. Acontecia-lhe agora, desde que chegara a Portugal, ter daquelas horas de recordações, de meditações; e era a primeira vez que via, naquele hábito nascente de olhar para trás, de olhar para nada, um vago presságio de velhice. A sua existência até ali fora tão cheia, tão embaraçada, tão intensa, tão cruzada de factos, de cuidados, de sensações, que toda era na excitação de hora presente: só se ocupara de viver; mas, no descanso que lhe dava a vida pacata de Lisboa, punha-se, às vezes, como um homem que sobe à torre, a examinar, aqui e além, o seu passado.

Via-se numa triste e antiga cidade de Espanha, ao Norte, gemendo de febre, num quarto de estalagem que ficava junto a uma igreja cujos sinos, badalando a todas as horas, lhe faziam, no cérebro, um ruído fúnebre de eternidade. Uma velha, de alto pente de tartaruga, cor de pergaminho, tratava-a e, sentada ao pé dela, entretinha-se, sobre uma mesinha, à luz de um alto candeeiro de latão, a deitar as cartas para saber a sorte de um filho que embarcara para Manilha.

Depois, quando ela estava melhor e se podia sentar à janela, sozinha, vislumbrava a triste rua de largas lajes, as gelosias esguias das janelas em frente, o almocreve que parava à frente da estalagem, com o seu lenço de seda amarrado à cabeça, as mulas carregadas de odres. Raparigas de pé nervoso, passavam com uns trejeitos, gestos quebrados da cintura, a mantilha apertada sobre os ombros; sujeitos, embrulhados em capas de bandas de veludo escarlate, iam ao vinho, com o cigarro na boca; e as canonisas dirigiam-se à sé, com o seu velo convexo, as abas chatas no chapéu em forma de telha.

Depois, era uma aldeia no Norte da França, ao pé de Ruão; a casa baixa em que vivia com um homem que detestava, mas a que a ligava a miséria, a ignorância da língua, a falta de relações. Era no Inverno; os vidros, pela manhã, estavam cheios de geada e, sentada ao pé do fogão, via constantemente as neves grandes, ou a chuvinha miúda cair, e os guarda-sóis abertos, que passavam com o riso rústico do aldeão. À noite, o seu homem voltava, fatigado de ter visto os doentes, pelas aldeias, pelas casas, e comia uma sopa, com a cabeça baixa, triste do seu destino e olhando-a de revés.

Quando o dia estava bonito, abria a janela. em frente, um cabeleireiro de aspeto meridional passeava, esperando as freguesas, olhando o céu pálido, abafado num casaco de alamares, debruado de astracã; e olhavam-se, às vezes, como dois exilados, pondo nessa sua expressão a mesma saudade do sol e dos países quentes. Ela sentava-se então ao piano, ao escurecer, tocava modas portuguesas ou espanholas, e o mestre-escola, que recolhia, ouvindo aquelas melodias doces, parava e escutava, imóvel na rua, com os seus compêndios na mão.

Depois, era a sua partida, nas diligências, pela estrada para os Pirenéus, a sua vida, em Luz; os seus passeios na estrada para S. Sauveur, sobre a ponte do Gave, entre renques de olmos. E ali ficava, a ver a torrente espumante, rasgada da rocha escurecida, esverdeada pela abrupta vegetação verde-negra que desce das altas margens a pique, de um modo esguedelhado e selvagem; a ver burricadas de estrangeiros, que passavam rindo, ao triste trote dos burros; nunca as mulheres do Béarn lhes tocam com uma vergasta. E encontrou, nas sílabas largas e abertas do patois dos montanheses, alguma da doçura da sua própria língua. E não acabaria nunca aquela vida triste, mesquinha? Porque a alvura da neve, a beleza altiva da frescura verde-negro, davam o desejo de cidades, de ruas bem estreitas de quatro andares; a natureza enfastiava-a e suspirava por ver teatro e ouvir o barulho dos cafés.

Tinha então conhecido Lord Belton e via-se, depois, na linda casa de St. John's Wood, em Londres. Ali vivera anos. Pela manhã, a criada, com os braços nus, rechonchudos e vermelhos, pintava, a gesso branco, os três degraus da porta; era no Verão e as árvores do jardim tinham um verde de um tenro doce. Cabs corriam, sem ruído, no macadame branco, e para além sentia a enorme Londres, com um sussurro incessante, monótono e vasto.

Depois, a manhã a cavalo, em Hyde Park, devagar, no chão negro de terra revolvida, sentindo ranger os coiros novos da sela e a relva dos prados verdejar entre os graves troncos dos castanheiros; ou então, parecia-lhe ver Regent Street, coberta de um sol prateado, com as suas largas fachadas de uma cor de creme, onde as letras de oiro das tabuletas negras reluzem, como novas. Uma multidão apressada, viva, brusca, corre sobre os passeios; no largo rio, em canoas; em fileiras, as carruagens avançam devagar; até landaus de velhos de caracóis brancos, com os cocheiros gordos, apopléticos, de perruca empoada, sobre a almofada, cujo manto recai ao lado; bem gordos, com cara de duques; os cupés estreitos, rápidos, onde se entrevia um perfil cor de camélia.

Os cabs ruidosos; os grossos ónibus, apinhados, com os seus guardas vermelhos, vagueiam, sobre a geral, em letras enormes, negrejam anúncios; os faétons que andam negligentemente; um moço, com cabelos anelados, de um loiro de anjo; os tilbúris vivamente lançados, com homens de fisionomia dura, curtida com preocupação do oiro, que conversam com a testa franzida, impaciente, o chicote alto; tudo pára; gente correndo, apanhando as saias, com embrulhos, erguendo os guarda-sóis, atravessam; o policeman abaixa o braço e as fileiras de carruagens rolam serenamente, com as cintilações que o sol põe nos arreios, nos eixos prateados e, dos dois lados, por trás da grande fileira de lojas, joias cintilam, sobre tabuleiros de veludo preto, cortes de seda, em pregas ricas, pretas e de cores vivas, onde a luz aumenta; caxemiras da Índia pendem de cabides de marfim; as fileiras coloridas de chapéus fazem, com a ondeante plumagens, uns gestos de aves raras; os veludos têm tons sombrios e macios; num fundo armado, mobílias prodigiosas arqueiam os seus assentos de cetim bordado; espelhos de Veneza lançam vários reflexos; e as vozes agudas apregoam os jornais, dizendo os telegramas do mundo, cotações ou fundos, e o eco da guerra distante.

Ou então, parecia-lhe ver Londres, à noite. Chovia. Um estridor de trens faz a cidade sonora; as vitrinas das lojas alvidecem; milhares de cabs cortam a escuridão do centro das ruas, com as suas lanternas, como um olho ensanguentado, as salas do gim e do álcool flamejam; gente cambaleando; e os guardas da Polícia acertam a multidão, com o seu pau mecânico; a trompa de caça de um coche que rola a quatro ecoa por cima do ruído; então, sob o portarete da ópera, desdobram-se com um ruído seco os estribos dos landaus; dentro, sobre o corredor tapetado de veludo, o rugir da seda tem uma doçura discreta; os granadeiros do regimento de escolta, as pernas nuas, o alto shako de felpudas pelúcias, estão a um canto, numa imobilidade rígida; e na sala, há um silêncio seco; ombros nus atraem a luz; doce: há um murmúrio tépido, um perfume erra; e as penas brancas das senhoras que têm assento na câmara dos pares agitam-se brandamente; a Patti canta e gentlemen, corretos em tudo, oferecem-lhes os prospetos, em redor, silenciosamente, num papel acetinado que cheira bem.

Depois, era a volta e, às onze horas, a cidade, enorme sala escura; agora as lojas de tabaco decoram as vitrinas com luz crua, onde destacam as cores escuras dos charutos; as lojas de ostras estão abertas, com lagostins vermelhos, os camarões humedecidos por cubos de gelo que se derretem docemente, e através dos vidros do cupé via-se, interminavelmente, uma passagem de mulheres que arrastam grandes caudas e com um passo ... e embriagado, na ópera, agarram os braços dos homens, pedem freneticamente pão.

Mas Londres enternecia-a... e o amor veio. Como se recordava de uma fuga com aquele infame George de l'Estrolies, a sua passagem do Canal, por uma noite tempestuosa; em baixo, no salão, embrulhada num xaile, meio muda, numa agonia do vómito; sentia as pancadas de mar que passava sobre o convés; a máquina apitava; a voz do comandante tinha um ... sonoro, rouco e sereno; e parecia, assim, um nevoeiro sem descontínuo; um campanela lúgubre tocava à proa; e o silvo da máquina ainda continuava, quando, enjoada, quase adormecida nos braços de George, rolavam enfim para Paris.

Os seus primeiros dias no Hotel Mirabeau, na Rua de Pau. Que felicidade! Como o ar lhe parecia doce, as fachadas risonhas, os aspetos felizes, as vozes macias; não era a brutal violência da Londres colossal: era um encanto de uma cidade pequena, florida, ensolada, aromática, envolvida no céu azul, como uma joia em algodão.

Depois, a hora de abandono, de lágrimas, de ciúme. Ela, também, como lera nos romances, tinha de noite olhado invejosamente o Sena e pensado que o seu corpo seria exposto na morgue, seria sobre uma fria pedra lisa, com uma torneira de água, escorrendo sobre uma figura, esverdeada e molhada.

A cidade, que lhe parecera, até ali, tão amável, tão risonha, festejadora, convidativa, fácil, parecia-lhe agora medonha, com o seu egoísmo seco, e em todos os outros onde vira uma serenidade alegre pareciam-lhe ver mais frieza que nas fachadas das casas; e pareciam-lhe atrozes aquelas carruagens forradas de cetim, quando ela chapinhava na lama, com os últimos pares de botins; e tantos pratos ricos, nas lojas dos comestíveis, tanta prata nos restaurantes, quando ela comia um pão de um sou e uma salsicha. Mas, como se conservara portuguesa... todas as noites pedia a Nossa Senhora da Alegria que lhe mandasse um homem rico.

Conheceu então as longas noites do bulevar, à caça de uma libra, ou de vinte mil réis. Nunca lhe tinham esquecido: ao princípio, saía com uma esperança: o bulevar flamejava dos lados, numa iluminação crua de restaurantes e de cafés; as vitrinas lançavam, todas as noites, os reflexos de joias, de sedas; apetite brune estava cheia de um tumulto alegre, as mesinhas dos cafés escalavam os passeios; mil pontos da luz dos lanternões das carruagens, vultos corriam, fazendo um rumor surdo; aqui e além, vinham acordes vagos de uma orquestra de pequeno teatro, os quiosques reluziam; todo o mundo parecia alegre, feliz, e era impossível que daquele dinheiro, daquela felicidade, não batesse, na sua pobre mão estendida, uma moedita de oiro, uma só.

Não se apressava então. Parecia-lhe que todos aqueles homens lhe viriam falar e, como era tímida, acanhada, noviça, não se esforçava por combater a timidez, acolhia-se mesmo nela e, sentada numa cadeira, sob a ramagem alta de uma árvore, esperava.

Depois, as ruas dos cafés iam-se esvaziando, já havia, nos passeios, largos espaços vazios, onde só caía a luz dos cafés. Então erguia-se, caminhava; mas, se um homem a fitava, a vergonha voltava, virava o rosto, séria e arisca. Por fim, as vitrinas das lojas apagavam-se; uma sombra escura estendia-se; os moços dos cafés, empanzinados e balofos, começavam a fechar as portas; vinha então uma impaciência, ia correr, mudava, mexia-se; já as carruagens diminuíam; o último ónibus passava; tudo estava apagado, enfim, apenas as duas linhas de luzes acima de uma fila de tochas de uma procissão imóvel e, por fim, nos passeios desertos só escutava o passo vagaroso de algum sergent de ville.

Ia então encontrar-se com a sua única amiga, uma inglesa, Miss Maggire, alta como um arbusto, magra e de uma brancura de cera, que estava tísica. Todos os dias, pela manhã, escarrava sangue; todos, se embebedava; e tinha então cólera; uma necessidade de desordem, de ruído, de deboche; para a cama, aos homens, oferecia-se de graça, com desespero, a face com laivos lívidos de um verde, as palmas das mãos cheias de um suor frio. Quantas vezes iam os dias sem ter comido todo o dia, arrastava-se pelas bancadas do Café Roch, no Bulevar des Capucines, com as mãos tremendo, sem nada no estômago, um sorriso vago, esperando que alguém a convidasse a cear, até que algum estrangeiro, amigo das francesas baratas, vinha oferecer, celebrando o francês, àquela esfomeada, camarões e cerveja!

Enfim, Nossa Senhora da Alegria compadecera-se dela; o homem rico tinha aparecido de repente, rompendo do solo, como numa mágica. Mal se lembrava como o conhecera; a sua pobre cabeça, então entristecida de necessidades, de embrutecimento, de deboche e de gim, mal conservava as sensações, e as ideias fugiam-lhe através do cérebro, como água, num cauchu. Conhecera-o, era verdade, e ele tomara conta da sua vida. Era o conde de Molineux, o marido.

Vivera com ele doze anos. Era bem velho, bem repugnante! Comia com um ruído imundo; a pele engelhada das faces caia-lhe flacidamente; era desdentado; o seu crânio calvo tinha tons amarelados. Mas era riquíssimo, cínico, de uma libertinagem vil. Servira todos os regimes, cem amos: Luís XVIII, Carlos X, Luís Filipe, a República, o Império; tinha um amor pela autoridade que o fazia cair de bruços em frente de quem chegasse a instalar-se no poder, com a língua logo pendente, pronto a lamber... segundo o que o recém-chegado trazia nas botas: sangue ou lama.

O Império inspirava-lhe um amor desmedido: tinha aperfeiçoado as leis com que o prazer vive — a cozinha e o deboche. E amava-o por todos os gozos que recebia; amara a constituição, o imperador, o filho do imperador, o cão do imperador. O seu momento querido era a ceia; serviam-lha no quarto de cama. Ficava muito tempo com um grunhir rouco de presas a mastigar, a lamber os dedos, com a cabeça oscilante, flácido, a carne toda mole, as mãos pousadas sobre a mesa, as pálpebras descidas, o beiço gorduroso; e imediatamente ela, pobre dela, tinha de estar ao pé, quase despida, fresca, com perfumes quentes, para ele começar a percorrer-lhe as pernas com as suas mãos gordurosas dos molhos.

Mas que doçura a sua vida tinha! O melhor eram as tardes no Bois, pela Primavera, na sua caleche, com os seus cavalos ingleses; sorrindo, sob o guarda-solinho de seda, sentindo-se penetrar-se de um bem-estar concentrado que a dilatava, recebendo uma felicidade vaga de tudo; da brandura das noites, dos castanheiros dos Campos Elísios e do macio aroma de pó-de-arroz, da água fina e polida do lago; uma felicidade constante, contínua e doce, que lhe saturava o coração, como a água satura a esponja.

Morava na Rua de Balzac; tinha colocado dinheiro no último empréstimo da cidade; os seus cavalos eram conhecidos; dava-se a atitude reservada de uma mulher casada; recebia, com cautelas e recatos aflitos, um empregado do Ministério dos Estrangeiros, o visconde de La Rechantaye — só para pôr na sua vida um interesse romanesco. Ia-o ver em fiacre, vestida de preto, com um livro de missa, como uma devota libertina; frequentava S. Tomás de Aquino; era imperialista, nunca deixara de trazer o ramo de violetas de uniforme; tinha ares satisfeitos de rola bem nutrida; a sua cozinha era excelente; tinha orgulho no seu groom, um pequeno de dezasseis anos, lindo como um anjo e tão vicioso que estava amancebado com uma mulher de cinquenta anos, e que tivera uma doença obscena tão medonha que o Dr. Ricard, lívido, julgou que era uma peste herdada do século XVI, do tempo do Jubileu. E contava aquele detalhe às suas amigas, com riso cantado, de gula satisfeita, toda vaidosa de possuir aquele monstro.

E todas lhe invejavam o groom. Depois, viera o ano terrível da guerra. Que momento alegre, o seu. No dia em que o Senado votou a guerra, o conde de Molineux deu um jantar; fora o melhor dia para ele! Como ela tinha uma toilette de cor de creme toda guarnecida de violetas. O seu amante, visconde de La Rechantaye, devia acompanhar o secretário dos Estrangeiros que levava a declaração de guerra a Berlim. E lembrando-se então de onde partira, de uma pequena vila de Portugal, obsoleta e esquecida, vinha-lhe um orgulho de se achar ali, naquele dia histórico, tendo à sua mesa diplomatas, dois capitães dignos que se queriam bater, dois senadores que, de manhã, por aclamação, tinham votado a guerra. O que falara, com o seu mau acento francês que nunca perdera! Todos confiavam na vitória e repetiam, com um sorriso de deleite, as palavras do imperador: «É a minha guerrazinha.»

Era a guerrazinha da sua majestade; tinham sorrisos extáticos e devotos. Mas bem depressa foi necessário fazer as malas, para fugir para Bruxelas!

Ali passaram o Inverno, tristemente, num hotel; sonhou a morte do visconde, na batalha de St. Privats; e quando entraram, depois da Comuna, no dia em que ... foram-se prostrar aos pés da República, uma apoplexia atirou, morto, para cima do tapete, com a boca ao lado, o velho infame.

E não fizera testamento; as suas propriedades passavam a sobrinhos distantes, da Normandia; e Genoveva ficava com as suas mobílias, as suas joias e três mil francos de renda. Pobre!

Viveu um ano muito retirada, muito obscura, com uma economia escassa; a miséria vinha talvez voltar, quando Nossa Senhora da Alegria lhe mandou o Gomes brasileiro. Riquíssimo, magro como um esqueleto, com uma pele cor de marroquim colada à carne, olhos negros, pequenos, e uma barba preta, renovou a Genoveva o seu luxo; viajaram pela Europa, até Sampetersburgo; e ofereceu-lhe levá-la para o Brasil. Num momento de tédio, sentindo-se já cansada para recomeçar a vida, esperando casar, aceitou; mas detestava-o, tinha horror à sua pele onde havia uma doença que fazia manchas vermelhas; e em Lisboa, vendo diante de si o mar a atravessar e o seu enjoo, o triste Brasil e o contacto daquele homem odioso — e como uma pessoa que, ao tocar num bocado de carne, sente um vómito subir-lhe à garganta —, recusou. O brasileiro, já talvez arrependido, aceitou, quase com reconhecimento, deu-lhe trezentas libras e partiu.

E ali ficou em Lisboa. Até quando? Encolheu os ombros e bebeu os últimos golos de gim.

A porta abriu-se devagarinho e a voz aflautada de Miss Sarah perguntou:

— My dear, está visível?

Genoveva exclamou logo, com um modo seco, que não! Era para lhe fazer um bocado de música; ia já ter à sala com ela.

Miss Sarah deslizou, com a sua alta estatura, pela saleta, foi sentar-se metodicamente ao mocho do piano, limpou os óculos ao lenço, pô-los, e com os seus cotovelos agudos, músculos salientes, ergueu a voz acre e cantou, batendo o acompanhamento com secura: Last rose of the summer!

Mas, vendo que Genoveva não vinha, suspendeu-se, olhou em redor, tirou os óculos e, deixando cair no regaço as suas mãos magras de homem, suspirou profundamente.

À luz do dia, a sua pele parecia mais dura, mais seca, com vagas manchas avermelhadas nas suas maçãs do rosto e no nariz seco e comprido; a sua testa alta e convexa tinha tons lustrosos e pálidos; e o cabelo, arrepiado sobre as fontes, um pouco reentrantes e como amassadas para dentro, erguia-se atrás, num rolo, fornecido de chumaços.

O seu vestido de seda preto parecia cobrir um corpo de pau, sem redondezas nem elasticidades. Os olhos duros, de um azul frio, tinham um olhar gelado, em que parecia aguçar-se sempre uma vaga acusação. Toda a servilidade, que a necessidade lhe impunha, dispensava-a em sorrisos frios que lhe mostravam as dentuças carnívoras.

Era triste. Falava pouco, por frases curtas, um pouco sentenciosas. Ao seu passado obscuro e misterioso referia-se sempre com palavras vagas e enigmáticas, às vezes a certos nomes ingleses da finança ou da aristocracia, tinha gestos e olhares repassados da saudade dessas convivências ilustres. Quando Genoveva aparecia com toilettes mais ricas, Miss Sarah contemplava-a com certo bamboleamento de cabeça, os beiços franzidos, como se recordando de luxos iguais, para sempre perdidos. E constantemente a sua conversa se enevoava de melancolias do tempo em que não dependia de ninguém e tinha um interior, uma casa sua, um lar, um “home”. De resto, tinha toda a seca estreiteza das grandes Ilhas Britânicas, como ela dizia. Ela mesma se isolava numa inacessibilidade áspera, como uma ilha escarpada; endireitava-se muito, tinha ares de mártir; um ódio aos países católicos em que vivera acentuava a sua rigidez protestante. A mais inocente litografia de santos ou de Cristo lhe arqueava os beiços secos, num sorriso que escorria desprezo pela idolatria. Achava todo o mundo, para além da Inglaterra, desconfortável; toda a janela lhe parecia fechar mal e todas as comidas estragavam o estômago. Em França e em Portugal, os franceses e os portugueses eram os estrangeiros; ela nunca era estrangeira... porque era inglesa. Tinha o amor secreto do álcool e devorava novelas inglesas de uma sentimentalidade penosa e pueril; e falando dos homens, do amor, com uma reserva desdenhosa de uma virgem ascética, passavam clarões turvos de uma luxúria fria.

Detestava Genoveva, pelas toilettes, pelas aventuras amorosas, pela palidez que lhe davam os prazeres, pelos trens... e porque recebia dela salários; e o servir uma estrangeira acrescentava às tristezas da pobreza as amarguras da humilhação. Mas não se revoltava e, com aceitação passiva do destino, ia-se apenas fazendo mais magra e falando mais vezes do dever!

Genoveva encontrara-a no momento em que, sustentada pelo Gomes e querendo estabelecer a sua vida solidamente, procurou uma governante séria e grave, para pôr na vida uma tabuleta de normalidade. Miss Sarah fora-lhe recomendada, como uma pessoa que tivera desgraças, quieta, muito económica, religiosa e boa pianista.

Genoveva bem depressa reconheceu que Miss Sarah não entendia de religião e muito pouco de música; sob os seus dedos magros, as melodias mais lânguidas, as mais vagas, curtiam-se, tomavam um andamento seco e brusco, em que as notas caiam como achas que rolam. A sua execução parecia-se com o seu andar: exata, mecânica e hirta.

Genoveva conservava-a porque Miss Sarah, com os seus vestidos de pregas puritanas, as suas lunetas escuras, quando o sol era vivo, os seus punhos sempre asseados, o seu nariz severo, fazia pensar numa casa de costumes graves, de horas regulares e de contas fielmente pagas, e dava-lhe crédito nas lojas. Aquela figura longa e vestida de preto, na saleta de Genoveva, dava confiança aos homens. Assim se fizera a imagem de uma santa, à entrada de um lupanar. «Substitui minha pobre mãe», tinha dito um dia Genoveva, «e é mais barata.»

Apenas Genoveva entrou na sala, Miss Sarah repôs os seus óculos e batendo, com os seus dedos longos e vermelhos, como pernas de lagosta, no teclado do piano de aluguer, retomou com melancolia a melodia irlandesa.

Last rose of the summer!

— Oh, não, não! Nada da «última rosa do Verão»! Basta disso! Basta disso!

Miss Sarah calou-se e, escolhendo entre os papéis da música, espalhados sobre o piano, soltou logo num triste plangente:

Dead leaves! Dead leaves!

— Oh, não! Também não!

E passeando pela casa, aumentando o murmúrio fresco do seu roupão de seda, Genoveva censurou-lhe aquelas músicas tristes, sempre de um lúgubre!... Estava farta de sentimentalidade. Queria alguma coisa alegre! Uma música pândega...

Miss Sarah tirou os óculos e, voltando-se no mocho do piano, declarou que felizmente nunca fora seu costume cantar ou estudar essas melodias perversas.

— Vai para o diabo que te carregue, hipócrita! — disse Genoveva em português.

E Miss Sarah, sentindo no acento a vaga vibração de uma praga, ergueu-se com dignidade, dirigiu-se para a porta; mas, voltando-se, disse que via que ela estava com spleen.

— Estou — interrompeu Genoveva. — Estou com spleen.

A inglesa julgou do seu dever de cristã sentar-se e consolar-se. Também ela estava bem triste; todos tinham os seus pesares; recebera bem umas cartas de Inglaterra.

Genoveva interrompeu-a outra vez. As não queria ouvir. Bem lhe bastavam os seus pesares; ainda ouvir os dos outros... Não, não!

Ela mesmo sentou-se ao piano; tinha muito tempo estudado em Paris, mas nunca passara das escalas, com que afligia, de um modo tranquilo e pertinaz, todas as suas relações, mas sabia o acompanhamento de algumas canções libertinas; e uma, sobretudo, encantava-a: L'Amant d'Amanda!, que, durante um Verão, a França cantara com delícia; e erguendo a voz mordente e de uma vibração quente, cantou:

 

Chaquefemme a sa toquade

La marone est un dada.

Amanda me demanda

Un jour entre deus oeillades.

Miss Sarah tinha-se erguido e subtilmente saiu. Genoveva recomeçava, a cabeça alta, um sorriso garoto, com o francês arrastado e pandilha de café-concerto. E terminando as palavras por lá-lá-lá trauteado, voltara, arrastando as sílabas, numa voz cálida e canalha:

 

Voyez ce beau garçon là,

C'est l'amant d'A

C'est l'amant d'A

Voyez ce beau garçon là,

C'est l'amant d'A

 

... manda!

Fez a sua escala, então de uma vez, rapidamente, embrulhando, e ergueu-se, sacudindo as mãos, com tédio triste.

Aquele estribilho que lhe trazia recordações de Paris, do Verão, quando os parques estão cheios de flores, os arbustos verdejam, os repuxos cantam nas bacias de mármore; a grande vida resplandece alegremente e dos vestidos claros saem aromas frescos; e as felicidades do campo, os cottages, escondidos de verdura; a pesca no Sena, com um largo chapéu de palha, e os casino onde se canta com a janela aberta, a aragem do rio, nas manhãs quentes, onde a areia reluz e iates envernizados cortam a água serena.

E o aspeto das coisas, em redor, dava-lhe uma melancolia cheia de bocejos: a sala, com o seu tapete barato, a luz escassa da varanda de caixilhinhos miúdos, a banal consola da sua mesa, com dois bonecos da Vista Alegre, o catreco com uma cobertura de fustão branco, o lustre vestido com uma gaze vermelha, um pouco suja das moscas, entristeciam-na.

Como se visse uma coberta com um vestido de merino tingido, a rua, em baixo, tinha uma tristeza lúgubre. Era ao pé do Arco e, constantemente, pesados galegos passavam; canecas arrastavam, em torno ao chafariz; a água fazia ribeirinhos lamacentos; à porta de uma mercearia em frente, constantemente um barril de manteiga mostrava a sua cor rançosa; presuntos pendiam, com a cor branca da gordura fria; molhos de velas de sebo pendiam; e para além da casa caraira, via um pedaço da fachada de S. Bento, inexpressiva e lorpa.

E Genoveva bocejava. Os dias pareciam-lhe enormes, vazios, e o sol arrastava-se com um resplendor monótono; mas preferia estar só à companhia do Dâmaso; a sua cara balofa e satisfeita, o seu corpinho gordo e rebolante, a correção dos cabelos lustrosos de pomada, as suas luvas de cores garridas, o seu ar ricaço e parlapatão, exasperavam-na. Tinha, às vezes, vontade de o repelir à chicotada. Mas Dâmaso mostrara-se excelente, ao princípio, habituado às conquistas de espanholas e de matronas amancebadas, ou de alguma burguesa deslumbrada pelo seu fáeton; julgando-se irresistível, tinha falado a Madame de Molineux com um viatório de D. Juan.

Genoveva, com um olhar espantado e irónico, alguns ditos secos e picantes, destruiu-lhe a atitude; o leão, que entrara com a juba ao vento, saiu com o rabo encolhido de burrinho. Quando voltou, Genoveva, muito tranquilamente, disse-lhe que, para ficar em Lisboa, precisava regular alguns negócios e necessitava de um conto e duzentos mil réis. Dâmaso esteve sem voltar dois dias, mas a paixão era urgente, a vaidade estava em brasa e, depois de quarenta e oito horas de reflexão, de muitos cigarros fumados e de mãos nervosas metidas pela cabeleira, veio humildemente com o seu dinheiro na mão.

Genoveva pressentia um «frango a depenar» e, na primeira noite que o recebeu, com uma condescendência altiva, na sua alcova, entonteceu-o, embruteceu-o, pelos processos hábeis de uma sensualidade científica. O excelente Dâmaso ouviu palavras ardentes de um orgulho quase doloroso, tanto lhe inchavam a pele; recebeu beijos que o desejavam a tremer, com olhos regalados; viu cuidados de toilette, rendas, sedas, que lhe faziam pensar baixo, dando pulinhos. «Hei de lhe dar os últimos cinco réis.»

A única contrariedade fora de manhã. Mélanie conduziu-o a uma alcova onde ele viu, com um calafrio, uma larga banheira chata, com água, e dois grandes pedaços de gelo; era o tub. Mélanie, com uma gravidade sacerdotal, desceu na água meio frasco de Eau de Lubin, estendeu ao pé um penteador turco, pôs-lhe ao lado as escovas dos pés, deixou-lhe uma taça cheia de espuma de sabão de âmbar, e saiu dizendo:

— Faz favor de chamar, quando quiser a fricção.

Dâmaso ficou de pé, atónito, coçando a cabeça, olhando a bacia; meteu a medo as pontas dos dedos na água gelada, e recuou murmurando:

— Olha que partida!

Estava verdadeiramente embaraçado; aquilo, decerto, era um chique parisiense... pensou... e ele não queria escusar-se a ele; mas meter-se vivo naquele horror de água gelada, oh não! Molhou a ponta de uma toalha, passou-a ao de leve pela cara, arrepiado; fumou dois cigarros, junto à banheira, com a melancolia embrutecida de uma cegonha, e saiu, dizendo pelo corredor:

— Venho do banho. Ótimo banho!

Quando, depois de ele sair, Mélanie veio dizer que o senhor deixara a água intacta, apenas com duas pontas de cigarro, Genoveva exclamou furiosa:

— Oh, que bruto! Há de lhe custar mais um par de centos de mil réis.

E custou: ao fim de quinze dias, Dâmaso tinha «abulado», como dizia Genoveva, dois contos e quinhentos mil réis e começava a achar a graça pesada. Mas estava estupidamente apaixonado; todos os seus instintos burgueses, a prudência, a desconfiança, o egoísmo, o cálculo, estavam cloroformizados; se algumas vezes se mexia e gemia baixo, os braços macios de Genoveva passavam pelo pescoço dele umas doces palavras a que ele achava um encanto estonteante:

Meu bichano, minha vida, meu ratinho, cordeirinho quente!

A fraseologia clássica da eloquência libertina bastava para que tudo adormecesse dentro dele e o amor rugisse com impaciência lusitana.

No entanto, Dâmaso escondia cuidadosamente aos seus amigos aquela prodigalidade. Fazia-se passar por amante de coração; proclamava-a rica, generosa, desinteressada; porém, comprara, em segredo, uma abotoadura de coral que usava, erguendo-a como presente dela:

Porque me quer dar tudo! Presentes todos os dias! Está doida por mim! Tenho-a feito doida!

Dizia-o nos cafés, em S. Carlos, nos lupanares; estava a achar um meio como o havia de imprimir no high life do Jornal Ilustrado.

O último «presente» que ela lhe tinha dado, na véspera, era uma velha conta de Laffersein, de três mil francos, que ele metera na carteira, tomando, ao outro dia, silenciosamente uma letra sobre Marcenard et André, os banqueiros de Madame Lafayette, a sessenta dias do vale, com cem francos para o desconto; e ficara atónito, quando Genoveva os metia negligentemente dentro de um envelope, dizendo a Mélanie, com um bocejo:

— Deita no correio. É o preço da desonra.

Mas Dâmaso começara a exigir mais publicidade nos seus amores. Aquela felicidade escondida no seio de S. Bento, que lhe custava os olhos da cara, se lhe contentara a carne não lhe satisfazia o orgulho. Queria mostrar-se com ela, ser invejado no Chiado, na Casa Havanesa, olhado em S. Carlos, e ouvir dizer:

«Dâmaso, que felizardo! Aquilo é que é levá-la!»

Madame de Molineux não se opôs muito; falou ainda no encanto de um amor discreto, todo íntimo. Realmente, não a entusiasmava a ideia de se mostrar com aquele imbecil. Mas aceitou um camarote de primeira ordem, em S. Carlos, e mesmo um domingo de Campo Grande. Eram mesmo pretextos para ter enxaquecas; porque lhe começavam a vir enxaquecas e, coisa fatal, era sempre à noite, às suas horas.

— Ah, meu amor, estou terrivelmente doente. Não te posso dar hospitalidade hoje. Tenho de te pôr na rua. Que ferro. Se tu soubesses! Mas vou contigo...

E quando o sentia, em baixo, fechar melancolicamente a cancela, tinha um ar de alívio, chamava Mélanie, pedia o seu gim e, até às duas horas, na cama, beberricava, palrava com Mélanie, ou escrevia às suas amigas de Paris, dizendo que estava em Lisboa, ao pé de África, fazendo sensação na rua, civilizando um selvagem, rico como um nababo e bronco como um caloirinho.

Naquela manhã estava resolvida a ter uma enxaqueca. Dâmaso, ao princípio, objetava a deixá-la assim só, doente.

Lembrava sinapismos. Queria ir chamar o Dr. Barbosa Mas Genoveva não acreditava em médicos portugueses; tinha-lhes horror; podiam envenená-la, ou desfigurá-la. Suspirava pelo Dr. Charmeau. E uma ocasião, vendo a repetição obstinada daqueles ataques que perturbavam a avidez dos seus desejos, Dâmaso, inquieto, lembrava timidamente uma purga. Mas Genoveva cravou-lhe um olhar tão friamente censurador, mostrou um nojo tão elegante daquela lembrança torpe, que Dâmaso, diante dela, não mais se atreveu a falar de remédios. Um dia mesmo que ia a falar de magnésia, corou, tossiu e empregou um circunlóquio.

Por fim, aquelas enxaquecas repetidas três, quatro vezes por semana, pareceram exageradas a Dâmaso. A sua desconfiança burguesa arregalou os olhos, mas Genoveva tinha atitudes tão quebradas, expressões tão doloridas, queixas tão aflitas sobre o clima de Lisboa, que Dâmaso saia compadecido e desolado. Quis atrair aos seus interesses Mélanie. A primeira vez que ela lhe foi levar uma carta a casa dele, na Rua da Comenda, Dâmaso, julgando-se «finório», deu-lhe duas libras. Mélanie abriu-se logo às confidências, com a abundância de uma torneira: «Ai! O senhor Dâmaso não imaginava. A senhora estava doida por ele. Até estava maçadora! Falava dele constantemente, chorava, não queria voltar a Paris, tinha ciúmes terríveis! Bem podia ter cuidado, que se ela soubesse que ele olhava para outra mulher, matava-o. Era mulher para isso! Ela era mais arrebatada!»

Dâmaso, encantado, queria saber o passado de Genoveva. Mélanie contou-lhe logo, pedindo segredo. «A senhora tinha casado com o senhor conde de Molineux, um velho mais nojento! Mas, coitada, estava então pobre; o primeiro marido, um inglês, tinha-a deixado sem um vintém. Pois a senhora fora fiel ao velho, como uma escrava. E não faltava quem lhe arrastasse a asa! Puh! Duques, príncipes, até o imperador. Pois nada. Que a verdade devia-se dizer: ela tinha tido uma inclinação por um rapaz, lindo como um anjo, um tal Paul de La Rechantraye; mas nunca houvera entre eles nada, nada! O tal Paul morrera na guerra e... acabou-se! Mas, lá isso era uma pessoa muito amorável... Coitado, o infeliz! O patife do velho não lhe tinha deixado nada. Tinha-se visto obrigada, depois da morte dele, a pôr no prego as suas joias e tinha dívidas, dívidas!

Fora a sua necessidade que a obrigara a vir com o brasileiro, mas, esse, não o podia sofrer e não fora ninguém; um belo dia, zás, deixou-o... Ah! Positivamente servia-a, havia dez anos, e era agora a primeira vez, a única, que a via apaixonada...

Mas porquê, porquê? — perguntava Dâmaso, babado. Mélanie deitou-lhe um olhar fino.

— O senhor Dâmaso é tão bonito rapaz...

Dâmaso deu-lhe outras duas libras e não se conteve: abraçou-a pela cinta e fê-la dar um «ai», beliscando-a de júbilo.

E dali por diante necessitava ouvir, a todo o momento, a Mélanie aquelas afirmações da sua felicidade. A rapariga prodigalizava-lhas. Era uma pingadeira; estava radiosa; acostumada à sovinice dos parisienses, achava os portugueses adoráveis.

«Se todos são assim», pensava, «isto é o Paraíso!»

Mas as exigências de dinheiro cresciam e as enxaquecas não cediam. Dâmaso começava a impacientar-se; além disso, achava-a às vezes esquisita, de mau humor, taciturna; outras vezes, irónica, cheia de pilhérias; surpreendia-lhe olhares secos, impaciências bruscas. E enfim, queixou-se ao seu íntimo, o Manuel Palma, o Palma Gordo, um sujeito baixote e roliço, de voz grossa e unhas roídas, que vivia um pouco à custa dele. Contou-lhe os nervos que lhe dava, os maus humores dela, sentia-se inquieto; parecia-lhe que ali andava ciúme dela.

— Ferra-lhe uma coça — disse o Palma Gordo.

Era, de resto, o seu sistema com o gado chamava sempre gado às mulheres. Usava sempre um jaquetão e, de Verão ou de Inverno, o seu colarinho tinha sempre, em roda, uma orla de suor; comia com voracidade; as calças, muito justas, quase lhe estalavam nas pernas gordas e curtas; admirava Dâmaso, passava o dia a elogiá-lo, a ele, ao seu cavalo, ao seu cão.

— Que diabo, homem! — objetava Dâmaso. — Não é como qualquer portuguesa! Uma coça! Uma mulher acostumada a Paris...

— Qual Paris! Ferra-lhe uma coça. O gado não vai senão a pau! Ferra-lhe uma coça!

Dâmaso, às vezes, entrava em casa de Genoveva com tenções de ser enérgico, de lhe falar claramente: ou ele era seu amante e tinha o direito de vir quando queria, de estar até que horas quisesse, ou então, boas-noites. Mas, apenas a via, o espetáculo da sua pessoa, as suas toilettes, as suas atitudes, uma carícia leve, deslumbravam-no; e com tantos outros aspetos; uma civilização superior e maravilhosa que o enchia de respeito e de timidez.

Numa manhã, o passeio a cavalo encantara-o. Genoveva era admirável, na sua amazona. Dâmaso fizera-a passar por todas as ruas, ruas onde tinha relações; atravessara o Chiado, tinha caracolado no Rossio, olhando em redor, com a face dilatada, para recolher os olhares de admiração, as expressões de inveja. Mas, infelizmente, parece que, pelo Diabo, as ruas estavam desertas de conhecidos; as janelas vazias de rostos amigos. Fizera caracolar a sua glória diante de alguns galegos de esquina e de alguns lojistas aquecendo-se ao sol, nas chinelas de tapete. Aquilo pusera-o de mau humor.

Tinha já várias vezes dito a Genoveva que queria que ela aparecesse, saísse!

— Como quer que eu saia, numa carruagem da Companhia? Dê-me uma vitória, uma parelha de cavalos ingleses, um groom decente, e verá o espalhafato por essas ruas...

E Dâmaso estava quase inclinado a dar-lhe a vitória. Via-a já descer o Chiado, nalgumas das suas toilettes extraordinárias, ao trote «stepado» de dois cavalos de raça; e ouvia, pela Casa Havanesa, pelo Balthreschi, um murmúrio invejoso correr: «É o Dâmaso! Que maroto! Que chique!»

Pelas duas horas, foi a casa de Genoveva. Mélanie veio dizer, em bicos dos pés, que «estava ali o homem». Genoveva fez logo com a mão um grande gesto: «Que não«: e falando ao ouvido de Mélanie:

— Que estou a dormir, que não recebo, mas que o espero, sem falta, para jantar, às sete.

E quando Mélanie voltou:

— Que disse?

— Fez uma carantonha...

— Que vá para o inferno! Animal!

E dirigindo-se ao quarto:

— Mélanie, traz-me as cartas.

Mélanie foi preparar, no quarto, a mesa com o baralho. E Genoveva, com atitude séria de uma fé religiosa, começou a deitar as cartas: baralhava-as gravemente, devagar, com cuidados cabalísticos; partiu-as com a mão esquerda, dividiu-as em maços e, com as suas mãozinhas brancas, arrebitando o dedo mínimo, onde reluziam pedrarias de anéis, ia-as enfileirando em semicírculos simbólicos. Mélanie, por trás da cadeira, seguia, com interesse, como nas páginas de um livro, as revelações do destino. E

Genoveva murmurava:

— Uma desordem; um velho; o rapaz novo com a mulher loira; lágrimas, encontro num lugar com gente, por causa de uma carta.

Baralhou, depois refletiu; e de repente:

— Vem-me ver! Tem de vir ele mesmo. Três vezes, «vês»?

E mostrava a repetição do valete de ouros que se juntava com a dama de copas.

— Tem de vir ele mesmo...

E os seus belos olhos pretos, iluminados na fisionomia aquilina e pálida, estava cheios do vago assombro dos destinos inevitáveis.

— Eu, se fosse a senhora, não pensava mais nisso — disse Mélanie.

Genoveva misturou as cartas, com um ar vago, olhos muito abertos, prendeu o beiço com os seus dentinhos brancos e encolhendo os ombros:

— Ou então — continuava Mélanie, arrumando pelo quarto —, pedia muito simplesmente ao senhor Dâmaso que o trouxesse. Está-se a ralar por uma coisa de nada.

— Não, não quero que o Dâmaso o traga!

E erguendo-se, indo ao espelho e passando o pente nos cabelos:

— É ridículo, bem sei, mas então? Nunca houve ninguém que me fizesse a mesma impressão... Desde que o vi, no Teatro da Trindade... Que o vi? Mal o vi! Estava à porta, ia apanhar o vestido, volto-me, zás: dou com ele a fumar tranquilamente o seu cigarro. E não me tornou a sair daqui! Bateu com os dedos na testa: Tenho-o aqui, de noite e de dia. Diz que se chama Vítor, que é advogado... — E com piedade amorosa: — Advogado, coitado! Se a gente nasceu para estar num escritório, a rabiscar papel selado! Pobre bichano. Com aqueles olhos...

Deu um suspiro e, sentando-se aos pés do leito, espreguiçando-se com o olhar afogado num fluido lascivo:

— Oh, Mélanie!

Ergueu-se e com outra voz, seca, aguda:

— Não, palavra, nunca tive semelhante mania por um homem. Não sei o que queria... Queria-o levar, fugir com ele, ir para um sítio que ninguém nos visse, devorá-lo, matá-lo, trincá-lo. E mais lindo! Tão simpático! É um amor! E não sei, tem um quer que seja... Parece-se comigo!

Foi ao espelho afirmar, procurando, nas suas próprias feições, a vaga semelhança das dele.

— Aqui — disse, mostrando a testa —, os olhos. Se eu não me pintasse de loiro, parecia-se realmente... Deve ter vinte e cinco anos...

— A senhora veste-se para o jantar?

— Hem?

Mélanie repetiu.

— Sim, um vestido preto. Tenho de aturar aquele idiota. Ah, mas quero que ele saiba quem é o velho. Que vá pedir-lhe uma satisfação...

— My dear, está visível? — perguntou Miss Sarah, à porta.

— Ah, sim! — Podia entrar. Uma gotinha de gim, Miss Sarah?

O rosto da inglesa clareou-se de prazer: «Uma gotinha, um quase nada. Bastava! Com água. Era Old Tom, não? Só mais uma gotazinha, just a little drop! That well do. Thank.»

Sentara-se a beber o gim, devagar, com concentração, e repetia com devoção uma máxima muito inglesa:

— Um estimulantezinho é a saúde da alma!