A Tragédia da Rua das Flores
Que a aragem brinque no ar
Que haja na terra verdura,
Para mim é tudo Inverno!
— Bravíssimo poeta! — disse o homem corpulento. E logo João Marinho, adiantou-se, com ele pela mão, e curvou diante de Madame de Molineux. Disse logo que era o barítono de S. Carlos, o Sarrotini. Havia grupos, um rumor; o criado entrou com a pira da neve.
Roma ia recolhendo elogios: a Tia do Tolomeu pediu-lhe uma cópia; o Sr. Reinaldo achava lindo, para pôr no fado. Pois eram acordes; que era melhor que o Sr. Vidal. E Roma saboreava o seu triunfo, quando entrou no fumoir, onde o Pimentel dizia ao lanceiro:
— É uma série de ninharias, como tudo o que faz o Roma.
Este esteve para fazer um escândalo, mas manteve-se furiosamente.
Dâmaso encontrou-o no corredor, vestindo desesperadamente um gabão de Aveiro.
— Vais-te embora? Que é?
— Não, não me quero perder. Se fico, racho aquele insolente daquele perdigueiro.
Dâmaso quis acalmá-lo:
— Ó menino, ó menino — dizia.
Tirou-lhe o gabão e disse-lhe:
— Mas olha que há ceia.
Com aquela certeza, o Roma ficou, tornou a entrar na sala.
Mas o Sarrotini, de pé, no meio da sala fazia sortes de prestidigitação. Com a manga da casaca arregaçada, pedindo, a todo o momento, um ovo ou um limão. Havia um círculo de admiração. Dâmaso precipitava-se; aparecia rindo, estava radioso e, de vez em quando, baixo a Vítor:
— Está uma bonita soirée. Um ferro, de não ter trazido casaca.
Depois, Sarrotini imitou o zumbido de uma mosca; fingia-se perseguido por ela, angustiado; batia palmadas no cachaço, seguia pela sala em bicos dos pés e, com a sua mão concavada, com o braço estendido, queria caçá-lo no ar. E no silêncio, o zumbido monótono, aparecia fino e assobiado, ou grosso, como um ralo; volteava, zumbia; pousava um momento; voltava ao seu ruído impertinente, através da sala. Houve muitos aplausos. Sarrotini tornou ao centro. Então foi fazer de charlatão, falando meio italiano meio espanhol, com grandes gestos de pantomima e pilhérias de palhaço, a comprida aba da sua casaca flutuando, um olhar impudente, imitou vozes de animais, torceu um vintém entre os dedos, contou anedotas da campanha da Sicília; fez a paródia de personagem célebre e, como era garibaldino, imitou uma cena, entre o papa e Antonelli em que um defendia as mulheres gordas o outro as magras. Declarou-se republicano. Em redor estava-se atónito. Carvalhosa, então disse, no silêncio:
— O papado, com efeito, é a chaga da Itália. O papa é a treva.
Sarrotini olhou-o, pediu a tradução e, reconhecendo naquela pessoa a alma de um patriota, veio abraçá-lo, dar-lhe palmadas nas costas; declarou-lhe ao ouvido que era carbonario.
Quis, então, cantar A Marselhesa. Rolou: Alons enfants de la Patrie! Um entusiasmo rumoreava, apossava-se do poeta Roma, que gritou com voz firme:
— A Marselhesa, A Marselhesa!
Mas Madame de Molineux interveio. A Marselhesa, não! Detestava-a. Fez-se um silêncio.
— A Marselhesa, não. É uma cantiga que detesto. Lembra-me o povo. Outra coisa, outra coisa.
Parecia muito assustada, como se ouvisse uma fuzilaria insurreta. E veio tomar o braço de Vítor.
— Como estão animados, agora, bem!
E sempre pelo braço de Vítor, aproximou-se do velho Couto e, com um sorriso muito deferente, com respeito:
— Foi por uma consideração também que não quis que cantassem A Marselhesa; nada mais desagradável no ouvido do conservador.
— Não. Passou — respondeu o Couto, que entendera só «dor». — Hoje estou melhor. O que tenho ainda é um bocadinho de lumbago.
Ela calou-se um momento.
— Então, tem estado doente? — perguntou, com a voz muito alta, Vítor.
— Muito, a minha ciática.
Madame de Molineux, inclinando para ele:
— Decerto, com os seus trabalhos literários.
— Hem? — e o surdo fez uma visagem.
— Com os seus trabalhos literários — disse Madame de Molineux.
— Ah — disse o Couto —, essa tolice já lá vai! A que horas é que é o chá? Madame de Molineux sorriu e afastando-se com Vítor.
— É um grande escritor, creio. É da Academia. Vítor ia explicar-lhe que a Academia em Lisboa não é a Academia em Paris, mas ela ia-o levando para o gabinete. O jornalista fumava, só, e, quando os viu, ergueu-se, pousou o cigarro numa bobeche de um castiçal, e saiu com um cumprimento de lado.
— Sinto que os afugentemos — disse Madame de Molineux.
Ele resmungou, fez-se vermelho, terminou o cumprimento de lado.
— Eu já pedi ao senhor Dâmaso para fazer assinar o jornal onde escreve. É O
Povo.
— O Povo — disse ele. Cumprimentou outra vez, mais vermelho, saiu. Abafava.
— Madame de Molineux, rindo-se, começou logo:
— Fazer de dona de casa, receber, fatiga-me. Aqui não, que são meia dúzia de pessoas, mas em Paris... Ah, nem imagina — e tomando uma atitude melancólica: — E tão secante a vida de sociedade!
Vítor parecia-lhe que, todavia, Paris...
— Oh, Paris. Paris! Visto de largo, decerto, mas quando se é obrigada a viver naquele turbilhão...
E depois de uma pausa:
— Estou com vontade de me enterrar aqui, em Portugal, numa aldeia.
E olhou para Vítor, um pouco de lado.
— E há-as muito bonitas — disse Vítor —, tendo-se uma bonita casinha.
— E sendo-se dois — disse ela.
Mas João Marinho apareceu, a perna bamboleando batendo com a claque nas pernas, todo risonho, movendo muito a cabeça, em ondulações:
— O nosso homem vai cantar.
E arredondou o braço para Madame de Molineux. Vítor seguiu-os.
Ao pé do piano estava Sarrotini, com a sua alta estatura aprumada, e depois que o ilustre Fonseca batesse alguns compassos, a sua voz poderosa, cheia, de barítono, encheu a sala, dando a tudo uma vibração única. Era a ária de Lucrécia Bórgia. Tinham disposto, instintivamente, as cadeiras em plateia, e arqueando os braços, rolando os olhos, o barítono atirava as suas notas fortes, inclinando um pouco a cabeça, o que mostrava um pouco do seu pescoço branco, cheio, forte, que a mulher do alferes olhava freneticamente e que a do turbante vermelho olhava de revés.
Foi muito aplaudido e recomeçou logo com a ária de Dinorah. Estava em «veia». Tinha tomado agora uma atitude séria, romanesca; o charlatão mudara-se herói e, a cada momento de uma pausa, limpava o canto da boca a um lencinho de cambraia bordado.
Teve uma ovação; ele agradecia comovido, curvando-se como em S. Carlos. E pediu logo a Madame de Molineux que cantasse. Ela recusou: «Não, não.»
Sarrotini atirou-se de joelhos. Todos riram. E Sarrotini, arrastando-se no chão, com as suas mãos erguidas, diante de Madame de Molineux, que sorria, recusava e, com jeitinhos de cabeça: cantava uma velha melopeia napolitana, Preguiami la Madona.
João Marinho reuniu a sua voz áspera e quebrada àquela súplica cantada. Todos riam.
E Dâmaso, triunfante, esfregando as mãos, baixo, a Vítor:
— Isto vai-se tornando uma orgia.
Enfim, Madame de Molineux aproximou-se do piano. Dâmaso bateu logo as palmas; todos bateram as palmas, saltaram as palavras. João Marinho acenava com um lenço, como uma ovação pública.
— Bem — disse ela.
Fez-se silêncio.
— Eu não sei de cor senão a balada de Ofélia, da ópera de Ambroise Thomas, Hamlet. Se lhes serve...
— Bravo, bravo — gritaram.
Carvalhosa curvou-se para Vítor:
— Hamlet! Que profunda obra! — To be, or not to he!
— recitou, arregalando os olhos.
Mas a voz de Madame de Molineux elevava-se, forte veemente, como um cristal, justa, um pouco frouxa nos tons baixos; cantou:
Pâle et Blonde
Dort sous l'onde profonde
La wíllis au regarddefeu
Que Dieu garde
Celui qui s'attarde
La nuit, autour du lac bleu!
Vítor nunca ouvira nada mais delicioso; aquela música vaga, penetrada de ternura poética, de legenda melancólica, resignada, dava-lhe a visão recuada de uma terra legendária. Devia ser um nevoento país escandinavo, de terras baixas, cheio de árvoredo; ali um lago dorme e, numa exaltação mística do lago, balançam as formas indefinidas de willis e das ondinas; as pedras de um velho castelo escandinavo esbatem-se na névoa; em som triste arrasta-se uma nota igual, de um canto choroso.
Ou então, desejava estar longe dali, naqueles países do Norte, onde as mulheres são altas e têm os olhares azuis; devia ser num parque nobre e triste, onde os abetos do árvoredo põem uma sombra húmida; uma aragem salgada paira no ar; o Báltico anila-se. E no longo terraço edificado por algum velho pescador, paira, leve como uma pena, calada, cismando, toda envolvida no ar frio, uma princesa da raça dos Suécios uma filha de rei, uma Ofélia...
Mas, na pausa, antes da segunda estrofe, os olhos de Madame de Molineux pousaram-se nele; e de repente, sem motivo, sentiu um orgulho, uma felicidade de viver, uma plenitude renascer; teve quase vontade de chorar.
Mas aplaudia-se Madame de Molineux; havia tumulto, quase; ouviam-se apreciações: «divino», «maravilhoso».
— Tem uma fortuna na garganta! — dizia com grandes gritos o Marinho.
E Carvalhosa dizia com autoridade:
— Tem o sentimento!
O alferes afirmava que era uma mulher de fazer endoidecer.
Ela no entanto, tremendo um pouco, como que cansada, fora sentar-se.
Dâmaso veio ao pé dela e falando-lhe quase ao ouvido:
— Cantaste como um anjo.
Naquele momento, Vítor olhava-a devoradoramente.
— Já lhe disse que não quero que me trate por tu.
Dâmaso ficou «picado».
— Ora essa! Mas parece-me que...
— Que durmo consigo, na verdade? — E encolhendo os ombros. — Pois bem, não é uma razão.
O criado veio bradar que a ceia estava na mesa. Fez-se um rumor de cadeiras, Madame de Molineux, com uma grande majestade, foi tomar o braço do ilustre Couto. O velho fabulista dormia; tiveram de o acordar, avisá-lo. Meio estremunhado não compreendia. Todos esperavam de pé, calados.
Dâmaso puxava-lhe pelo braço e, depois de gemer, resmungar, tossir, cabecear, o velho fabulista equilibrou-se sobre as suas botas espalmadas, com joanete decrépito, e foi, com o passo arrastado, trémulo, pelo braço de Madame de Molineux.
Os outros seguiram. O jornalista foi o último; a sua bílis crescera, estava humilhado, furioso, mas não queria perder a ceia e, escarrando no chão, foi andando, bruto, com as mãos atrás das costas.
Às duas horas da manhã, a ceia findara, Madame de Molineux estava esquecida com uma grande conversa com Vítor; tornavam-se expansivos. Vítor dizia-lhe as suas ocupações, as suas simpatias, as suas opiniões.
— Sou republicano — disse ele.
Ela repreendeu-o brandamente: devia ser pelo seu rei, pela religião. A religião é o primeiro dever de um homem bem-educado; não era possível ser-se de sociedade, ter chique, sem a religião. Depois ocuparam-se dos outros, analisaram certas figuras ridículas; o jornalista que comia, calado, hirto, despeitado, levando a faca à boca; o poeta, que devorava com sofreguidão, estendendo o braço por cima da mesa, partindo o pão com a faca; o Sr. Reinaldo, que, conversando com a mulher do alferes, limpava as unhas com um palito. Riram, cochicharam, beberam. Marinho ficara ao pé da mulher do turbante: estava furioso; cravava em Madame de Molineux olhos desesperados. Uma velha grunhia, não respondia; viera com a mulher do alferes e, durante toda a noite, tivera apenas umas palavras salientes. Madame de Molineux perguntou-lhe se tinha ceado bem.
— Estou entupida — disse com uma voz de papo.
O Couto comia ainda, abatido na cadeira, o braço estendido em cima da mesa, fazendo com os dedos velhos cartilaginosos, que saiam de uma comprida manga de canhão, bolinhas de pão que, da polpa dos dedos, lhe saíam negras. E Dâmaso, atarefado, sempre a levantar-se, falava baixo ao criado: indo à cozinha, aparecia com garrafas debaixo do braço. Estabelecia claramente que era ele... segundo expressava a mulher do alferes... que era «ele quem pagava a despesa». E então, com o Sr. Reinaldo, numa longa suposição de «quanto lhe daria por mês».
Mas quem mostrava uma felicidade exuberante era o ilustre Fonseca; o Sarrotini chamava-lhe «maestro«; todos começaram a chamar-lhe «maestro«; o ilustre Fonseca estava rubro de glória. Disse, alto, uma ocasião a Sarrotini:
— Tu, com o teu grande génio...
Sarrotini respondeu:
— Falando de génio, quem o tem mais farto que lei?
O ilustre Fonseca inclinou-se, grave. E de uma extremidade da mesa à outra diziam:
— O meu génio, o teu génio, o nosso génio...
Houve a ideia de cantar uma canção, com acompanhamento nos pratos, logo Sarrotini, já avinhado, surgiu, numa firme garibaldina:
Entremos na Roma Santa,
Montaremos ao Capitólio.
— Não, não — exclamaram. — Não queremos uma canção política.
Desejava-se alguma coisa de ligeiro.
— Além disso — gritou Vítor, que estava já alegre —, a canção não tem razão, já que os italianos entraram em Roma.
Aquela observação exaltou Sarrotini. Ergueu-se, fazendo no movimento cair a cadeira, veio a Vítor, com o olhar inflamado, e dobrando com as suas fortes mãos a cabeça para trás, deu-lhe um beijo na testa; houve um alarido.
— Proponho que não se beijem senão as damas! — gritou Marinho. — Este signor é bastante formoso para se poder beijar.
Todos olharam um momento Vítor com uma cor no rosto, o olhar aceso pela proximidade de Madame de Molineux, pelo Veuve Clicquot, um sorriso voluptuoso nos lábios. Estava realmente, como disse baixo o Reinaldo:
— Um rapaz de fazer furor!
Madame de Molineux olhou-o e o seu olhar alargou-se, escureceu: o peito arfou-lhe e, com a passagem aguda de um desejo, deu um tremor nervoso às pálpebras.
Ficou calada, mas tinha um certo sorrisinho fechado que, do lado esquerdo, levantava o beiço, deixava ver uma claridade de dentinho.
Mas Marinho não cessou de gritar:
— Proponho que não se beije senão as senhoras.
— Tem medo que o ataquem — bradou, rindo muito, o Reinaldo.
— Que comece pela vizinha — dizia Dâmaso, cumprimentando.
Aquelas palavras, a do turbante vermelho ergueu-se furiosa: saiu da sala. Dâmaso precipitou-se; Madame de Molineux, a mulher do alferes e, em volta dela, falavam explicavam:
— Que tonteria! É uma brincadeira.
— Eu sou uma mulher de bem, eu sou uma mulher de bem — disse sufocada.
Enfim trouxeram-na de novo, sentaram-na. Estava apoplética; os olhos luziam- lhe com laivos sanguíneos.
Mas então Dâmaso ergueu-se, foi falar baixo a Carvalhosa. Carvalhosa teve um sorriso, aceitou. E dali a momentos Dâmaso vindo sentar-se e batendo com a faca no prato, fortemente:
— Peço um silêncio, meus senhores.
E com o copo em punho, Carvalhosa, majestoso, ergueu-se.
Todos se calaram. O deputado estirou os dedos por entre os cabelos, limpou-os bem com o lenço que arremessou para cima da mesa, mexeu no prato, na faca, com vivacidade de quem espalha apontamentos num rebordo de tribuna, e disse:
— Eu não estava preparado para falar, mas o meu ilustre amigo, o senhor Dâmaso, veio-me pedir para ser o intérprete dos sentimentos de todos nesta noite festiva, para com a nossa graciosa anfitriã.
Fez uma pausa, olhou em redor, levou à boca a taça de champanhe. Uns escutavam, com os cotovelos sobre a mesa, roendo os palitos; outros com os olhos baixos, como no sermão. Sarrotini tinha a fisionomia esgazeada; Madame de Molineux sorria, imóvel.
— Vossa excelência vem de Paris — continuou ele na sua apóstrofe. — Decerto não pode encontrar aqui os esplendores do Bulevar, o luxo do Grand-Hotel, a vida infrene do Bosque de Bolonha.
Madame de Molineux, ao ouvir falar do luxo do Grand-Hotel, retomou uma fisionomia pasmada com o violento disfarce de um riso.
— Nós somos pobres, mas gloriosos...
— Apoiado — murmurou o Fonseca.
— Se não podemos rivalizar em luxuosas exibições, mostramos à Europa o espetáculo de uma paz constante e a persistência de um trabalho propício. E cuide vossa excelência que as nossas glórias não são pequenas. Cuide vossa excelência.
Madame de Molineux, tão diretamente interpelada, corou. Mas Carvalhosa tinha retornado:
— Não brilham como faróis, aquecem como chamas.
— Muito bem, muito bem — disse o poeta. — Que riqueza de linguagem!
Carvalhosa, escarlate de prazer pela conceção daquela frase, repetia:
— Brilham como faróis.
— Perdão — disse Vítor —, aquela senhora está incomodada!
Todos olharam a mulher do turbante vermelho. Parecia ansiada, ofegava, os olhos reviravam-se-lhe e, de repente, caiu, com a cabeça pendente, para os braços do Marinho. As senhoras ergueram-se, os homens precipitaram-se, e Carvalhosa, lívido, o copo de champanhe na mão, olhando em redor, com o olhar desolado, de pé, o gesto da mão esquerda suspenso e imobilizado no ar... esperando.
Mas a sala estava vazia. Todos tinham saído para o salão grande; já se ouvia o piano. O poeta lírico, diante de um pudding, servia-se brutalmente, um pouco bêbado. E vendo Carvalhosa:
— E tu ilustre orador, ficaste reticente?...
Carvalhosa, furioso, atirou-lhe uma obscenidade, foi vestir o paletó e saiu.
O criado, que iluminava, observou:
— Há o café, agora.
— Obrigado, que o bebam! — e desceu a escada, com um passo enraivecido.
No entanto, no quarto de Madame de Molineux, a do turbante vomitava. Tinham-lhe feito chá verde, mas a indigestão rebelde enfartara-se, irrompera pelas goelas, com grandes jatos. E na sala ouvia-se uma valsa que tocava o ilustre Fonseca. Sarrotini e Dâmaso valsavam.
Mas enfim, tinham conseguido dominar a indigestão da mulher do turbante. Mélanie levara-a para o quarto de Miss Sarah, para descansar um bocado, desapertar. E Genoveva, diante do espelho, dava um jeito no cabelo, quando Vítor apareceu à porta; vendo-a só, retirou-se.
— Vinha saber se a senhora estava melhor...
— Entre, entre — disse Genoveva. — Faz-lhe medo o meu quarto? Não é a caverna do grande salteador da Calábria...
— Vítor entrou devagar, como numa igreja, e logo as cortinas do leito, o sachet de cetim azul, o faiscar dos frascos, um roupão de seda pendente, as luzes que se derretiam nas bobeches, tudo o prendeu, o imobilizou, e fazia como laços de uma malha a que uma vida se prende. Ficou tão perturbado que apenas pôde dizer:
— Está muito bem instalada aqui...
Ela riu, com o seu riso cantado.
— Que bem?... Nem diga isso! É um quarto de aluguel, é um quarto banal. Nem sei como posso dormir... Tive de comprar colchões de penas, um sommier de molas, senão, não podia.
Aqueles detalhes caíram na alma de Vítor como o cair perturbante de um vinho generoso. E olhou avidamente os mesmos detalhes, como para surpreender, nos móveis, no toucador, vestígios de uma beleza descoberta, de uma abertura no robe-de-chambre, alguma coisa da sua nudez e os seus pensamentos.
Madame de Molineux continuou, diante do espelho, a arranjar o cabelo, a pôr pó-de-arroz, a bulir nas pulseiras; o seu peito arfava apressadamente; o seu olhar escuro reluzia e o seu perfil, que Vítor via à luz do espelho, fazia rebrilhar claridades de uma doçura em que via, nas pálidas alvuras da sua pele, um esplendor animado.
— Queira-se sentar-se, sente-se — disse ela. — Tem além cigarros. Pode fumar. Eu não me importa o fumo no quarto. São chegados de Paris; Phersali forte.
Vítor tomou um cigarrinho e foi acendê-lo à luz do toucador; aproximava-se de Genoveva, quase lhe roçou o cotovelo, não diziam nada. Fora, na sala, sentia-se o ruído do piano, risadas, uma valsa incessante que fazia oscilar o soalho velho.
Dentro de um vaso, estava um primor de camélias, Vítor pôs-se a gabar-lhas. Ela, calada, passou o pente, que retomara e, sem se voltar para ele, escolheu uma vermelha, tirou-a do vaso e, voltando-se, meteu-lha na casa da casaca.
Os olhos de Vítor devoravam, por um momento, encontraram-se com os de Genoveva; e os dela, ao fixarem a flor, tremiam, e disse, com a voz ligeiramente perturbada:
— Não a vai perder, hem?
Vítor teve uma audácia e disse com a voz tremendo, pesando as palavras, com um mordente apaixonado:
— Vou guardá-la para sempre!
Ela teve logo um risinho:
— Que tolice! Ah, mas o senhor é poeta, esquecera-me.
E acabando de lhe pregar um alfinete na casaca, afastando-se, a camélia ainda nos seus dedos:
— Aí está! Condecorado. É a minha Ordem; é a Ordem da Camélia Vermelha. É o meu cavaleiro. Voilá!
Mas então, uma labareda de paixão abrasou Vítor; sentiu a cabeça voltar-lhe, estendeu desesperadamente os braços para ela; exclamou:
— Oiça!
Ela recuou, bateu-lhe ao de leve com o leque nos dedos e, como surpreendida:
— Que é isso?
Ele ficou petrificado, vermelho. E ela adiantando-se:
— Vamos valsar — e tomou-lhe o braço.
A porta abriu-se neste momento e a voz de Dâmaso exclamou:
— Que é isto aqui:
Madame de Molineux, direita, com o peito alto, perguntou-lhe com uma voz singularmente fria e altiva:
— Isto, quê?
— Esta cavaqueira... Assim desaparecem... — balbuciou.
Ficara à porta, pálido, diante dela.
— Get out of the way! — disse ela, com desprezo, acenando com o leque, impaciente, como para repelir um cão.
Ele afastou-se, com os beiços trémulos.
— Sabe inglês? — foi perguntando Genoveva, tranquilamente, a Vítor.
Ele teve uma solução suprema:
— Só uma frase.
— Qual? — perguntou, inclinando a cabeça para o lado.
— I love you.
Madame de Molineux voltou à sala, abriu o leque, abanou-se rapidamente, não respondeu. E erguendo a voz:
— Maestro! A valsa da Madame Angot.
E começaram a valsar: iam tão rapidamente, que parecia a Vítor, pouco acostumado, que a casa girava como um disco; sentia o corpo forte dela vergar-lhe nos braços, a sua mão carregava-lhe no ombro e, com a cabeça um pouco baixa, o leque na mão, volteava, de um modo doce e ondeante, e a longa cauda do seu vestido varria em volta o espaço e, quando parava, impelida ainda, enrodilhava-se nas pernas de Vítor. Ele ficava a arfar; ela, sorria, vermelha, como luminosa.
E viu, diante, o lanceiro, os rins saídos, volteando, volteando, levando nos braços, a Tia do Tolomeu. Então, o Sarrotini valsava com o Sr. Reinaldo... Não: pulavam.
O ilustre Fonseca apressara o compasso e o poeta Roma, ao pé do piano, avinhado, cantava a valsa, improvisando:
Valsam, valsas,
No delirante giro.
E no fumoir, o velho fabulista, espapaçado a um canto, roncava.
No entanto, Dâmaso, sentado, seguia Vítor e Genoveva, com olhos furiosos; porém Genoveva parou, um momento, junto dele:
— Que fúnebre que está! Dance. Distraia-se. Esses desgostos envelhecem-nos!
Ele ergueu-se furioso:
— Que graça! — murmurou e, com um olhar de rancor, afastou-se.
— Idiota! — murmurou Genoveva.
Vítor ouvira e concebeu daquelas palavras uma esperança imensa, um deleite extraordinário. Arrastou-a à valsa; mas ela parou e, voltando a dar o braço, indo, com um passo nervoso, a Dâmaso, que estava encostado a uma umbreira, com o aspeto feroz, disse-lhe rapidamente:
— Está a ser excessivamente ridículo, percebe? Se não puder dominar esses ares lúgubres de tragédia, agarre o seu paletó e vá-se.
— Mas, para que estavas tu...?
— Já lhe disse que não me tratasse por tu.
— Bem, boas noites — disse ele, furioso. E ia sair.
— Escute! Leve-me aquele académico, aquele sábio que está a ressonar! Vão, vão!
Dâmaso, que prometem reconduzir o fabulista, foi acordá-lo brutalmente, pô-lo de pé, estremunhado, gaguejando; sacudiu-o, agarrou-o pelo braço, levou-o para o patamar. Ele e o criado vestiram-lhe uma capa de gola de veludo; e Dâmaso, arrastando-o pela escada, meteu-o dentro do cupé, como um fardo e batendo com a portinhola, furioso:
— Para casa deste senhor! — gritou. — Cocheiro, a Jesus!
Em cima, as janelas flamejavam. Acordes de piano ouviam-se; sentiam-se risadas; e enterrando-se no fundo do cupé, Dâmaso ruminava a sua cólera. Aquela desavergonhada! Já de namoro com o outro! E que modos! « Que tom! « Como se fosse uma senhora. Uma reles prostituta. Uma chupista! E ele a meter-lhe dinheiro no bucho!
— Bonita festa — disse a voz do Couto, que mascava em seco.
— Muito bonita! — disse Dâmaso, com rancor.
CAPÍTULO V
Vítor da Silva voltou da soirée de Madame de Molineux a pé, sentindo-se como levado por alguma coisa profunda e doce, que vinha da sua alma e que o enchia, como o vento faz a uma vela. O nevoeiro dispersava-se, estrelas brilhavam, um ventozinho frio errava. E batendo o passeio, com passos nervosos que levantavam um eco nas ruas desertas, Vítor procurava lembrar-se de todos os detalhes da soirée e continuá-la pelo pensamento, para sentir renovar as sensações que ela lhe dera; mas tudo se perdia, confusamente, afogado no brilho da figura de Genoveva.
Ora toda a sua pessoa, ora reaparecia diante dele, mandando-lhe a fulgurância total da sua beleza que o fanatizava; ora eram fragmentos dela que, de repente, resplandeciam na noite escura: os seus ombros cheios onde o vestido fazia uma prega; o seu busto, tão elástico, cujos movimentos faziam ranger a seda; ou a pele maravilhosa do seu antebraço nu, ou as sombras que corriam no seu queixo, redondo e firme; certas ternuras da sua voz estavam-lhe ainda no ouvido, como uma prolongação melodiosa e expirante, e ouvia os seus risos sonoros, como repercussões argentinas. Sentia-se feliz, cantarolava baixo; sentia uma abundância de vida correr-lhe no sangue, mil energias erguê-lo, impeli-lo, como se as excelências da sua alma, do seu carácter, adormecidas dentro dele, por falta de um impulso de excitação, tivessem acordado à voz de Genoveva, e à influência do seu olhar e se pusessem, ao mesmo tempo, a reclamar ação e movimento.
Que fora a sua existência, até ali, senão um lento atravessar de um subterrâneo infindável, num sonambulismo espesso; mas agora, de repente, via desenrolar-se diante dele, toda uma vida, luminosa, cheia, amaciada de doçura, que ele atravessaria com Genoveva, de um modo contínuo e delicioso, num encanto crescente... porque não duvidada que ela o amava. Resumia todas as provas: a camélia vermelha ali estava; e todas as palavras que ela murmurara; as meias intenções, os olhares, as alusões; sentia então um orgulho imenso.
Genoveva parecia-lhe quase divina, embelezada por todas as cidades em que vivera, todas as ilustrações que conhecera, todos os prazeres que gozara; uma civilização poderosa, rica, completa, refinada, criara-a, aperfeiçoara-a e penetrara-a, enchera-a de uma mesma maneira requintada. E aquela criatura perfeita amava-o!
Ela que conhecera tantos homens, cativantes pela beleza e dominantes pelo génio... amava-o a ele; e sentia-se como num pedestal, muito alto, na vida.
Como a cidade, em redor, lhe parecia mesquinha; e todos aqueles homens nas casas escuras, adormecidos nos braços de mulheres triviais, dignos de compaixão e subalternos.
Jurou tornar-se digno dela: ter toilettes elegantes; ler todos os romances, todos os dramas, para se penetrar do espírito, da graça moderna, saber manejá-la como um florete. Escreveria versos, pediria dinheiro ao tio Timóteo. E quando entrou no seu quarto, foi-se contemplar ao espelho, calmo e formoso; arranjou os cabelos. Em que teria ela reparado, na sua fisionomia? O que lhe agradava? Era o seu cabelo preto, anelado, os seus olhos rasgados e quebrados? O seu buço tão simpático, tão macio? A sua pele, que tinha o leve tom de um pálido marmóreo?
E não se resolvia a despir-se, a calçar as suas chinelas, como se, tirando a sua casaca e os seus sapatos de verniz, viesse o encanto da sua pessoa e da soirée a desaparecer.
Teve um acordar de namorado, ressentindo logo a recordação dela invadir-lhe a alma, com a doçura de um beijo maternal; e, apertando os braços contra o peito, abraçava-se a uma imagem, com toda a sorte de pensamentos ternos.
Nunca o dia lhe pareceu tão lindo; tudo tinha uma luz radiosa e uma sonoridade festiva; uma vaga languidez errava no ar. Almoçou na cama e, recostado num travesseiro, fumando cigarros, perdia-se em suposições de episódios de felicidade. Via-se passeando com ela, em Sintra, muito unidos, sob o árvoredo murmuroso, ao frio som de água corrente; ou no seu quarto, ajoelhado aos seus pés, enrolando e desenrolando um dedo a umas tranças loiras. Nada de impuro ou de libertino lhe passava no espírito; a agudez do desejo quase desaparecia, sob a doçura do amor, e mesmo era castamente que se via beijando brancuras da sua nudez, com beijos pequeninos, devotos, refletidos, extáticos.
Vestiu-se devagar e quis compor um poema, mas, depois de torturar o cérebro, apenas pôde produzir dois versos:
Ontem, nos giros de uma valsa ardente,
Senti teu corpo vacilar, tremer...
E como a manhã lhe parecia admirável, tomou o chapéu e saiu.
Tinha uma vaga esperança de a encontrar. Naturalmente não foi ao escritório; tinha horror à Rua do Arco do Bandeira, ao Dr. Caminha, à figura plácida do procurador. Ah, não! Não lhe faltava mais nada senão enclausurar-se na caverna dos autos! Não nascera para isso. Era um homem todo de literaturas de sensação, de romances, de poesia. Ao diabo o papel selado. Ia escrever um livro, é o que ia fazer. Dedicar-lho-ia, a ela.
Mas, depois de ter errado pelo Chiado, pela porta do Alves, pela Rua do Alecrim, pelo Aterro, outra vez pela porta do Alves, não a viu, O dia parecia-lhe entristecer-se, como um retirar-se das cores, um vago encanto ambiente.
E ao outro dia, não se conteve, dirigiu-se, muito nervoso, à Rua de S. Bento. Genoveva tinha-lhe dito que estava sempre em casa da uma às três; e tremia quando sentiu a campainha retinir no corredor.
Foi Mélanie que veio abrir, e o alvoroço dela, correndo logo, dizendo: «Ah, é o senhor», deu-lhe o sentimento vaidoso de que era esperado.
Encontrou Genoveva languidamente deitada no sofá da sala, com um livro na mão. Ergueu-se sobre o cotovelo, pediu-lhe desculpa de o receber assim, mas estava doente, desde a véspera e, deixando cair o livro no tapete, com um gesto desfalecido, indicou-lhe uma cadeira, ao pé, perguntando:
— Então que há de novo?
Vítor ficou muito embaraçado. Estava vestida com um largo roupão de pano azul, amplo, que fazia pregas largas, soltas sobre o seu corpo, desenhando os seios, a curva cavada da cintura; os seus pezinhos cruzados, calçados de meias pretas, tinham sapatinhos de verniz. Parecia pálida e, com a cabeça comprimida sobre um travesseiro de grandes rendas, destacavam-se os olhos que, cercados de umas olheirazinhas cor de bistre, com um destaque negro, sobre os tons louros e brancos, voltavam-se para Vítor, de um modo dolorido e curioso.
— Que tem?
Dizia-se fatigada, com um vago mal-estar; um pouco indisposta do estômago. Pediu-lhe que chamasse Mélanie e, quando ela apareceu, com as mãos nos bolsos do avental branco, engomado, pediu-lhe, com uma voz expirante, o seu caldo. E voltando-se para Vítor:
— Não repare que eu não faça cerimónia, não é verdade? É um amigo do Dâmaso. E como se fora da casa...
Ao nome do Dâmaso, tão familiarmente trazido, como uma justificação de intimidade, Vítor teve uma contrariedade que o fez corar. Respondeu vagamente:
— Ora essa, minha senhora, ora essa!
E sentiu como um arrefecimento geral de tudo em torno dele; uma distância imensa, gelada, desolada, interpondo-se repentinamente entre eles; e sentindo evaporar-se a simpatia que o aquecera, ficara na sua cadeira, constrangido e calado. Disse mesmo:
— Eu, se soubesse, não tinha vindo incomodá-la...
Ela fez um gesto com a mão, sorriu, como para o tranquilizar e repetiu, ajeitando-se no sofá:
— Então, que há de novo?
Nada. O dia estava muito bonito. Um bocadinho frio, talvez.
Ela voltou-se no sofá e, deitando a face sobre a mão voltada para ele, numa atitude atenta, carinhosa.
— E que fez ontem?
O sorriso que abrira mostrava um par luzido de brancos dentes, entre os lábios vermelhos e húmidos, como uma folha de rosa debaixo de água. Vítor viu como uma solicitação amorosa no seu olhar. Respondeu baixo:
— Pensei em si.
Mas Mélanie entrava com o caldo e com o seu passo subtil, confidencial, pôs uma mesinha ao pé dela; deixou a bandejinha de prata, ajeitou o travesseirinho, saiu com uma ligeireza de sombra, tendo dardejado para Vítor um olhar de lado, curioso.
— Então, que fez? — disse Genoveva, que se ergueu sobre o cotovelo e remexeu devagarinho o caldo.
Vítor repetiu:
— Pensei em si.
E então, com uma abundância de palavras, que todas tinham um tom magoado, Genoveva, deixando-se cair sobre o travesseiro, lamentou que ele lhe falasse assim. Não era verdade. Que nunca se encontrava sinceridade, nem bom senso! Porque havia de ter pensado nela? Tinham-se visto apenas duas vezes, tinham ceado e valsado... Era uma razão para lhe dizer palavras de amor, ou de galanteio? Mas que mulher julgava ele que ela era? Não se devia começar a pensar assim nas pessoas, contra vontade delas. Ele bem via que as suas relações não podiam ser senão de uma boa camaradagem. Realmente, os homens eram bem singulares! Apertava-lhe a mão, dava-se-lhes uma flor, para rir, sem má intenção, e logo inflamavam e logo faziam uma ideia, julgavam-se no direito de exigir...
— Mas eu não exijo nada — disse Vítor, que aquela verbosidade, caindo em rajada sobre as suas esperanças, dispersava-as dolorosamente.
— Mas havia de exigir, se eu o escutasse, se eu acreditasse. Não é bonito o que fez. Sabia que eu tenho tido amantes, julga-me fácil; diz consigo: «E chegar e gozar»; e vem-me ver, acha-me doente e diz-me logo que pensou em mim. Para quê? Com que fim? Com que esperança? Para eu lhe servir de passatempo, para ir dizer aos seus amigos...
— Oh, minha senhora, acredite — balbuciou Vítor.
Aquela compreensão tão errada dos seus sentimentos ofendia-o, mas ela fê-lo calar com um gesto:
— Oiça. Eu já não sou nova. Que idade me supõe? Tenho trinta e dois anos. Sou uma pessoa para quem a vida não tem sido senão uma série de infelicidades; doente, caprichosa, difícil de aturar. Tenho mais de dez contos de réis de dívidas. Já vê que sou uma mulher pouco agradável. Não sou uma mulher em que se pense — disse sublinhando. — Simpatizo consigo, venha ver-me, jantar às vezes.., janto às sete, sempre... cavaquear, mas mais nada. O mais seria ridículo. Sou boa rapariga, falei-lhe com franqueza. Não me quer mal, não?
E nos seus olhos havia, ao dizer estas palavras, uma ternura tão suplicante, com uma sinceridade risonha, que ele sentiu o desejo de se ajoelhar, de lhe jurar uma submissão respeitosa e pedir-lhe para a consolar, apenas para ser o seu confidente, o seu irmão. Desejaria poder pagar as suas dívidas... e tocar de leve no pé que, por um gesto, ela estendera fora do roupão; e viu o começo da perna a que a meia preta dava uma beleza picante e romântica.
— Não se zanga, não é verdade? — repetiu ela.
Estava agora meio erguida, apoiada sobre os braços; a sua cintura dobrou, numa linha quebrada, que se erguia sobre as redondezas nervosas dos quadris, dando todo o desenho de perna, sob a prega do roupão; cabelos loiros, num fino desfrisado, cobriam-lhe a testa do frio, e, com a cabeça um pouco erguida, o seu pescoço branco aparecia, de um redondo firme e polido.
— Posso lá zangar-me consigo! — disse ele, apaixonadamente.
— Não sei, meu amigo, mas é verdade? Sente-se aqui.
Deu-lhe um lugar no sofá e Vítor sentia o contacto dos seus pés, vendo as suas formas estendidas, e sentiu um desejo irresistível de cair sobre ela, abraçá-la, devorá-la de beijos.
— Porque não traz o cabelo apartado ao meio? — perguntou-lhe ela, examinando-o muito.
Vítor levou os dedos ao risco da cabeça. Disse:
— Não sei. Sempre o trouxe assim.
Aconselhou-lhe então que abrisse a risca ao centro; via-se mais a testa; quando se tinha uma testa bonita... E disse logo, com volubilidade:
— O Dâmaso tem uma testa de estúpido.
Vítor riu. Ia, decerto, acabrunhar o seu amigo de injúrias engraçadas, quando ela começou o seu elogio: era muito bom rapaz, muito serviçal, tinha bom coração e não tinha maus dentes; e montava bem a cavalo.
— Que idade tem?
— Ele?... Ah, eu! Tenho vinte e três anos.
Vinte e três anos! E atrevia-se, então, a dizer que pensava nela, uma velha, uma mulher gasta, boa para avó.
Vítor, exaltado, debruçando-se para ela, ia falar-lhe da sua paixão, mas ela, com muita tranquilidade, perguntou que horas eram.
Eram quase três. E Dâmaso que não vinha! Tinha-lho prometido.
Vítor, despeitado, julgando que ela o escarnecia, ergueu-se, ia tomar o chapéu.
Mas Genoveva pareceu muito surpreendida. Porquê? Onde ia?
— Não, sente-se.
Cruzou os braços, por trás da cabeça, sobre o travesseirinho. O roupão repuxado desenhava vagamente os contornos das pernas e a forma dos seios. Cerrou os olhos e o seu seio arfava um pouco. Aquele silêncio embaraçava Vítor; não compreendia e, torcendo a pontazinha do bigode, devorava-a com o olhar; aquela atitude adormecida, que parecia oferecer-se, fazia-lhe passar no coração desejos frenéticos e ia, decerto, falar, abraçá-la, quase louco, quando ela abriu os olhos, fixou-o, com uma espécie de angústia, cerrou-os, com um vago suspiro, e ficou imóvel, como alheia à presença dele.
Vítor ergueu-se bruscamente. Deu alguns passos pelo salão; sentia as fontes latejar. Ela tornou a abrir os olhos e murmurou:
— Não. Sente-se ao pé de mim. Seja bom rapaz. Sinto-me mal.
Que tinha? Sofria? E Vítor, a tremer, pousou-lhe, de leve, os dedos no braço.
— Veja se tenho febre.
E estendeu-lhe as mãos que ele tomou; prendeu-lhe o pulso com os dedos; sentia o seu coração. Batia bem alto e, como um zumbido, entonteceu-lhe a cabeça.
— Não, não tem febre.
Ela riu, com o seu risinho cantado, estranho:
— Que doutor! Tem graça!
E numa transição, começou a queixar-se: a vida era bem triste. Sentia-se tão só! Nunca conhecera a felicidade de uma verdadeira afeição.
— Todos os que me têm dito que me amavam eram egoístas; eu era nova, dava-lhes prazer.
Mas reconhecia sempre, bem depressa, que não havia um real, dedicado, puro, cheio de sacrifício.
— Nunca ninguém me estimou. Meu marido, Monsieur de Molineux, era muito bom, muito bom. Mas egoísta, também. Ninguém me tem, em verdade, dedicação. Mesmo Mélanie, que até morre por mim, se amanhã lhe oferecessem mais soldada, deixava-me logo. A vida é bem triste, tudo é uma ilusão!
Vítor, numa exaltação, tomou-lhe a mão.
— E se eu lhe dissesse que a amo, que a adoro, que quero ser tudo para si, neste mundo...
Genoveva erguera-se, com um olhar que devorava, e, apertando-lhe as mãos com muita força:
— Não é verdade, não é verdade!
Havia na sua voz como uma exaltação aflita.
— Juro-te — disse Vítor, caindo, no sofá, aos pés dela.
Mas Genoveva, erguendo-se de pé, com uma voz quase tranquila:
— Não, meu amigo, não. Não se exalte. Os Portugueses são terríveis. Pega-se-lhes fogo com a maior facilidade.
Riu, com um riso mordente, seco. Vítor teve-lhe ódio.
Mas a porta abriu-se, a longa figura de Miss Sarah apareceu e ia retirar-se discretamente, quando Genoveva gritou:
— Entre, entre. É um amigo de Dâmaso.
E apresentou Vítor; disse que ele sabia falar inglês. Miss Sarah, vermelha, cumprimentou, com os seus longos braços caindo ao longo do corpo. Mas Genoveva disse logo:
— Ah! São três horas e meia.
Vítor tomou o seu chapéu.
— E venha ver a pobre doente — disse Genoveva, estendendo-lhe a mão.
Vítor curvou-se diante de Miss Sarah, que o olhava com uma fixidez admirada, as maças do rosto vermelhas.
— E a camélia? — perguntou Genoveva, rindo.
— Tenho-a guardada — disse ele, saindo.
Genoveva aproximou-se da janela, ergueu o transparente, mas recuou vivamente e, no meio da sala, espreguiçando-se, torcendo a boca:
— Oh, meu Deus!
Miss Sarah, então, exprimiu gravemente a ideia de que Vítor era formoso.
— É um bonito arranjo para si, Miss Sarah.
A inglesa fez-se escarlate.
Quando Vítor entrou em casa para jantar, encontrou uma carta de Aninhas, de quatro folhas de papel, mas a letra era tão má que não teve paciência de a ler e, depois de a percorrer com os olhos e de distinguir, entre o encruzilhamento confuso do «gancho» e da «haste», as vagas palavras de «desgraça da minha vida»... «adoração até à morte»... «forçada pela necessidade»... «arrependimento»... atirou-a para o lado, dizendo com vigor:
— Que a leve o diabo!
E pôs-se a resumir toda a sua manhã com Madame de Molineux e confessou a si mesmo que a não compreendia. Amava-o ela? Decerto, a julgar por certos olhares, por atitudes do seu corpo, pelos silêncios, pela comoção que parecia sentir junto dele. Mas as suas palavras tinham, às vezes, um ar de tranquilidade amiga, outras vezes de escárnio frio, não poucas vezes de distração.., que revelação!.., transbordavam de indiferença. Mas, por isso mesmo, amava-a mais. Achava-a caprichosa, complexa, indecifrável, e ao seu amor juntava-se a curiosidade. E para falar dela, pela necessidade que leva a alma fraca a espalhar, derramar, sobre os outros alguma coisa dos seus sentimentos, foi passar a noite com um íntimo seu, um pintor chamado Camilo Gorjão. Viam-se poucas vezes, mas estimavam-se profundamente.
Vítor admirava o talento eloquente e original do pintor e Camilo achava em Vítor um escutador paciente e atento às suas teorias, às suas grandes tiradas, um depósito passivo da exuberância do seu palavreado estético.
Gorjão morava num quarto andar e tinha convertido em atelier uma sala baixa, com duas janelas para a rua; o soalho, que nunca se lavava, tinha uma negreira de todos os tacões e de todas as solas que o passavam; um largo divã velho, gasto, amachucado, servia para os repousos da pintura, para as suas «solidões contemplativas», como ele dizia. Era ali que modelava, que criava. Era o seu Olimpo; pelas paredes havia toda a sorte de gravuras, pregadas com alfinetes, alguns quadros, adquiridos a um ferro-velho: couraças do século XVII, obtidas a quinze tostões, no Arsenal da Marinha; umas quantas cabeças de gesso; reproduções baratas de obras de museu; uma mesa sobrecarregada de papéis, desenhos, aguarelas começadas; tendo, em redor, quatro velhas cadeiras de coiro, dispostas como num capítulo de abadia. Um cavalete, junto da janela, recebia a luz magra que coava caixilhos estreitos; caixas de tinta, um pequenino estrado ocupava um recanto. Chinelas arrastaram uma saia, um robe-de-chambre de mulher estava caído a um canto; fósforos apagados juncavam o chão e tudo tinha um ar sujo e íntimo; um aspeto de necessidade, de uma vida brusca e confusa... e de obras começadas com impaciência e abandonadas com desconsolação.
E pelo atelier, Gorjão, de chinelas, um jaquetão escarlate aberto sobre a camisa amarrotada, passeava nervosamente, fumando como uma chaminé e divagando como um folhetinista. Era baixo, magríssimo, um pouca corcovado. Tinha movimentos desconjuntados, de esqueleto pouco firme; a sua cabeça era enorme; sobre a testa saliente, convexa, plantava-se uma massa dura e negra de cabelos em escova; o rosto era seco; tinha o nariz torcido; a boca reentrante, coberta por um bigode que ele arrebitara a um canto e, nuns côncavos fundos, dois olhos expressivos fuzilavam de vida.
Os seus dias eram ocupados, porque, para viver, fazia cenografia na Rua dos Condes, no Variedades; à noite, porém, em casa, «fazia arte». Gorjão tinha talento, mas, inteiramente preocupado de sistemas e de teorias, excessivamente falador, cheio de ditos, de máximas, de fragmentos de leituras, dissipava-se numa loquacidade incessante, e não produzia nada.
Andava, como ele dizia, à procura do verdadeiro princípio da arte, na certeza que, logo que o achasse, produziria obras consideráveis; renovaria a pintura em Portugal, faria escola, encheria os museus de quadros sublimes e viveria na posteridade. Para isso, lia todos os críticos, todos os estéticos. E muito impressionável, dominado sempre pela última leitura, passava de um sistema a outro, como um cometa errante, iluminando-se de todas as opiniões que atravessava.
Entusiasmara-se, ao princípio, pela ideia de que a pintura, sendo uma arte essencialmente plástica, tinha por objeto a representação das belezas físicas; por isso, só concebia quadros mostrando a imortal divinação de corpos nus: as nobres atitudes, a glória da musculatura, os esplendores da carnação; Vénus prodigiosas, admiráveis posições de gladiadores. A ideia, segundo ele, era nada. Um quadro não devia ter ideia: devia mostrar corpos belos, atitudes nobres, ser uma escultura que, pela cor, se aproxima mais de vida.
A isto prendia um vago sistema da transformação do corpo moderno; achava deplorável que todos os corpos atuais fossem mais ou menos deformados, mal feitos, tortos, magros, feios, ridículos. Atribuía isso à dominação tirânica da ideia e ao abandono do culto plástico. Queria, pois, sim, criar uma escola de pintores exclusivamente preocupados da beleza plástica; dentro em pouco, cada casa possuiria, na parede, um belo quadro, onde uma forma divina se destacaria numa luz gloriosa. As mulheres, as esposas grávidas, vendo constantemente estas formas novas, impregnando-se delas, tendo-as sempre presentes nos nove meses de gestação, dariam à luz, como sucedia na Grécia, corpos perfeitos. E dentro em pouco, a raça portuguesa Seria a mais bela do universo, rivalizaria com a Grécia antiga; veriam passar, no Chiado, costureiras belas como Vénus, e dirigir-se às secretarias do Terreiro do Paço amanuenses, nobres como Apolo. A criação do belo tornar-se-ia o cuidado da cidade. Bem depressa esta influência far-se-ia sentir no vestuário e na arquitetura e, dentro de cem anos, Lisboa seria como Atenas e ver-se-iam corpos esculturais, em atitudes harmoniosas, com amplo vestuário artístico, moverem-se entre pórticos de linhas nobres, num azul igual ao do mar Tirreno.
Depois, apaixonara-se subitamente pelo pitoresco. «O que é arte?», exclamava. «É simplesmente a idealização da vida; é o meio de pôr um interesse ideal na existência burguesa. A vida atual é chata, trivial, ocupada de questões de dinheiro, de vendas e compras, de preocupações mesquinhas, de plebeísmo. O negociante, com os seus fardos; o advogado, com os seus autos; o banqueiro, com as suas cotações de fundos; o médico, com as suas cataplasmas; o empregado, com as cópias de ofícios, vivem uma vida subalterna, reles, plebeia, estúpida, uma vida asfixiante. E necessário, na vida de toda esta gente, pôr um interesse nobre, alto, ideal; alguma coisa que lhes compense de todos os trabalhos estúpidos e que os distraia das suas preocupações mesquinhas. Aí está para que serve a arte. Aí está para que se dependuram quadros nas paredes, para que se enfileiram as galerias dos museus; para que o burguês, o homem positivo, a alma nobre cansada das tristezas plebeias da vida, possa contemplar alguma coisa de mais belo, de mais nobre, de mais interessante, de mais pitoresco, que as salas de jogo, os cubículos da Boa Hora, a luz magra dos escritórios e o tédio das secretárias. A sala, portanto, deve ser pitoresca; representar paisagens doces, suaves, onde se console o homem que é obrigado a viver constantemente na Baixa; onde se mostrem céus grandiosos, de gala, de cavalgadas triunfais; o movimento trivial dos amanuenses que rolam, ou de cangalheiros que passam; onde aparecem os ricos vestuários, os veludos, as joias a quem só se vê sobrecasacas do Calasso, ou umas calças do Xafredo. A arte deve ser a grande consoladora. Imaginar então enormes telas desconhecidas, como abundância de Rubens e o esplendor de Veroneso; conceber um quadro que devia formar uma antítese consoladora à vida moderna. Seria uma larga paisagem, tendo o vago ideal da composição de Turner. Árvores de uma beleza paradisíaca deixariam entrever uma luz, forte como um nimbo de uma glória. Arquiteturas maravilhosas, entre a verdura; a palidez do mármore e a transparência do jaspe; fontes correriam, derramando no quadro uma frescura doce: no primeiro plano, um corpo de mulher ideal, em paisagem terna de cores nobres, de arcarias, uma renda pendendo-lhe pelas mãos, numa cadência nobre e ampla; em vasos de porcelana, frutos acastelados, em jarras de prata, os vinhos preciosos; entre as avenidas, pares enlaçados, numa intimidade amorosa, caminham no silêncio estático da felicidade absoluta. Velhos de olho luminoso, sábios e serenos, falariam do poeta e do filósofo; e moços heroicos fariam jogos atléticos, mostrando o orgulho da sua anatomia perfeita. Este quadro corresponderia logo às necessidades da alma. Contemplando-o, sentir-se-ia a consolação das passagens suaves, a doçura da filosofia, a alegria das terras abundantes e a sensação de amores imortais.»
Depois Gorjão achou isto simplesmente idiota e concebeu uma festa veneziana, ao modo de Tintoreto: num terraço da Renascença, damas e cavaleiros formariam grupos de uma nobreza heroica; sobre as balaustradas, pavões abriam as caudas resplandecentes; em jarras de oiro, vinhos preciosos circulariam; de cofres transbordariam cequins de oiro; os olhos falando de amores profundos; os punhais a contar vinganças sanguinárias; negras vestes, resplandecentes, sustentariam galgos atrelados; num préstito, ao som dos violinos, recitariam tercetos; e o fundo representaria uma florescência e um árvoredo, de uma paisagem artificial e simbólica. E aquilo serviria para regalar os olhos do luxo que falta à existência moderna.
Mas Gorjão, ultimamente, desprezava todas essas ideias; achava-as «imorais». A arte, segundo ele, devia educar, pela representação de ações justas e não pelas expressões de luxo, corruptoras. E nesta preocupação, falando, combinando, cheio de imagens, de fragmentos de quadros, ia, na absoluta atenção da ideia, desprezando o estudo do processo; de conta que o seu desenho era incorreto; a sua anatomia era falsa; a luz dos seus quadros espessa; o movimento fantasista, errado; e com ideias para encher um museu, apenas tinha a execução para produzir uma tabuleta.
Vítor encontrou-o desenhando à luz de um candeeiro de petróleo, coberto com um abat-jour verde que fazia cair uma luz crua, sobre uma larga fita de papel, riscado de grossos traços confusos de carvão. Todo o resto do quarto estava numa sombra silenciosa, onde se destacavam algumas brancuras de gesso, ou a alvura dos cantos das gravuras; e num quarto, ao pé, ouvia-se ranger um berço.
Gorjão fez-lhe sinal que se calasse e Vítor, com receio que os seus passos perturbassem a inspiração que, na sua retórica, comparava a um pássaro subtil que passa, um momento, e qualquer ruído faz fugir, ficou imobilizado sobre o largo divã forrado de chita. Gorjão desenhava com violência, por traços bruscos, passando a mão pelos cabelos, afastando-se da cadeira, precipitando-se, de bruços, sobre o cartão, com sopros, grunhidos, fungadelas, mexendo-se, numa conceção dolorosa.
Então Vítor encontrou, debaixo da mesa, o braço de uma viola e, tirando-a instintivamente, fez soar os cordões. Gorjão deu um pulo.
— Toca alguma coisa, para um acompanhamento. E disso que eu necessitava; preciso de um lundum, um fado; um lundum.
Vítor fez vibrar, baixo, a guitarra docemente; os sons dormentes, abafados, faziam um murmúrio doce, na sombra velada do quarto, enquanto o carvão corria sobre o papel e, sem cessar, o berço rangia tristemente.
— Vem ver! — gritou Gorjão.
Vítor aproximou-se e pareceu-lhe descobrir vagamente os contornos arredondados de um cerro de floresta, sobre a qual um disco redondo, ao lado, parecia elevar-se, como um ponto por cima da construção aguçada de um campanário.
— E a Lua? — disse ele indicando o traçado.
Gorjão teve um risinho seco. Recuou a cadeira, enrolou um cigarro e, impondo o dedo sobre o desenho, discorrendo:
— É a hóstia — disse.
E imediatamente explicou o seu quadro, desenvolveu as suas últimas reflexões sobre a arte.
Tinha andado, até aí, por um caminho errado. E tinha perdido dez anos na sua vida, os melhores, os mais vigorosos, os mais criativos, a servir de rastos um princípio imundo da arte pela arte. Que idiota, hem? Mas possuía, enfim, a verdade; e como o S. Paulo no caminho de Damasco, via sempre claridade, graças ao raio divino que lhe luzia em frente, a arte não era senão isso: uma força da Natureza e, como tal, devia ser aproveitada, em proveito da civilização; por outra, a arte era estava com verdadeira emoção... é um foco de civilização. A grande tendência humana era transformar em utilidades imediatas os grandes fenómenos naturais. O que era o vento? Uma grande deslocação de ar errante no firmamento. Só por si, de que servia?
— De que serve o vento, só por si? É um idiota, um palrador, um bruto, um indiscreto. Vejo-o aqui a suspirar num arbusto, como um poeta lírico; além, a apalpar a perna de uma mulher, como um libertina; adiante, a brincar com um chapéu, como um idiota; depois, a destruir um pobre barco de pesca, como um assassino. Um vadio, uma besta! Que se lhe fez? Estudou-se, delimitou-se, explorou-se, escravizou-se. Disse-se-lhe: anda por aqui, vadio, faz-me girar esse moinho e mói-me a farinha; enche-me essa vela do navio e traz-me cacau, do Brasil. E aí o temos moleiro e aí o temos rebocador. Que se fez da eletricidade? Carteiro, um empregado do Correio. Que se fez do vapor? Um cavalo, um puxador de trem. Vindo da Natureza, está convertido numa utilidade direta. Tudo tem um fim, nada existe por existir. Não se pode permitir nenhum sentimento, nenhuma força, nenhum movimento inútil; é necessário que tudo trabalhe, que tudo se empregue, que tudo faça civilização: o Sol é retratista, não queremos vadios no universo; as estrelas são um mapa celeste de navegação. Tudo isto são banalidades, de resto. Pois bem, o que se faz com a força da Natureza é necessário que se faça com a força do espírito. A arte é um grande fenómeno cerebral que é necessário transformar em utilidade direta, corno trabalhando para a civilização, ou para a revolução. Combatendo o velho mundo, o preconceito, a tirania, a força bruta, e examinando a justiça, o equilíbrio, o bem. A arte deve ser essencialmente revolucionária. Um quadro deve ser um livro, deve ser um panfleto, deve ser um artigo de jornal. Deve atacar o catolicismo, a monarquia, a burguesia podre, o tirano; todo o velho ogre teimoso e persistente. A arte deve ser tribuna filosófica, panfletária. Todo o mais é arte de luxo, de decoração, de corrupção, boa para o prazer dos olhos, inútil como a vaidade, infame como a prostituição. Aí está o que eu não tinha percebido. Idiota! Tinha estado alheio, tapado, arrolhado, até aqui. Mas... pim! A rolha salta e aqui estou, zás! Mostro-me, vou aproveitar; cada trabalho meu há de valer uma barricada. Hei de tomar à minha conta o velho, destruí-lo a pinceladas. Aqui está: este é o primeiro quadro. Aqui o tens — mostrava o cartão. — É a missa! A missa será assunto.
«Aqui os tens na igreja; a igreja mundana moderna, pintada, iluminada a gás, com órgãos que tocam a Grã Duquesa, com tapetes de Gardé no altar-mor, santos vestidos pela Aline... pela Aline, tenho provas... com padres que são tudo: batoteiros, chulos, compositores de ópera cómica, flautistas; tudo menos padres. Aqui está a multidão, o celebrante, pálido de noitadas no lupanar, tendo almoçado lombo de porco, com o sapato acalcanhado, erguendo, com os dedos queimados de cigarros, a hóstia, a branca hóstia, a oferta, o símbolo.
«Aí tens o culto! Agora, vê-me a devoção: esta mulher gorda, com lombo de porco no cachaço a estalar no vestido de domingo, mirando, examinando as toilettes, criticando os chapéus, cochichando; os homens, ali, às portas laterais, examinando as pernas, fazendo olhos, sinais, passando cartinhas, apalpando os braços das raparigas e... o resto! Estes velhos que vêm examinar as raparigas novas que puderam alcovitar; estes sabujos que vêm, à uma, para agradar ao seu diretor-geral; aqueles que dormem; estes que bocejam; aqueles sujeitos que vêm para ouvir a música; vê-los erguerem-se, persignarem-se, abaixarem-se e ajoelharem-se. Nota-lhes as expressões: um pensa na amante; outro, na indigestão que lhe deram os figos, ao almoço; outro, no ágio que há de levar; este, no empenho que o há de nomear amanuense. Aquele pensa no namoro; o outro, como há de escorregar a carta à amante. Há um sentimento de constrangimento, uma pressa de sair; puxam, às escondidas, relógios; examinam os vizinhos. Se um cão ladra, há remoção, todo o mundo se volta, cochicha, funga, satisfeito do incidente que quebra a monotonia divina. E quando o idiota, lá em cima, abre os braços e diz: Ita missa est, que vago suspiro de alívio sai de todos os peitos! Acabou a maçada. Vê-los a cumprimentarem-se, a apertarem as mãos e felicitando-se, na alegria do encargo findo. E aqui está a religião. Que civismo, que quadro!... Dá cá um cigarro!
Deixou-se cair, extenuado, no divã.
— Enfim, achei. Tenho aqui — bateu na testa — quadros para uma revolução; depois da missa, hei de fazer o enterro; depois hei de fazer a câmara dos deputados; depois hei de fazer a agiotagem, depois as eleições. Uma execução geral.
Vítor ia dizer alguma coisa; Gorjão interrompeu-o:
— E tudo isto, meu amigo, num processo de pintura nova; nada de acabado, nada de alinhado, de amaneirado, de trabalhado, de pintura de luxo, de decoração. Novidade. A pintura não é nada; a ideia é tudo. Traços largos, sombras indicadas, tons nobres, para darem a impressão exata da realidade. Paf, paf! — e dava grandes pinceladas no ar. — A expressão! A expressão é linda! Com três borrões, pinto-te um agiota. Queres um agiota? Tons verdes, numa face cavada; um empastamento de ocre, na testa; tons metálicos, de branco de prata, nos olhos, negros de chumbo, nos traços do pescoço, e aí o tens, cavado, frio, contido, infame! É a grande arte.
Falara numa exaltação, deitando os cabelos para trás, por movimentos balanceados, gestos largos, doidos, torcendo-se sobre o divã, num desconjuntamento inspirado. Tomou a guitarra, correu-lhe vivamente as cordas, atirou-a. E agarrando as goelas, com as suas duas mãos cruzadas, ficou imóvel, como entorpecido, os olhos vagamente fixos, que reluziam sobre as concavidades cavadas.
Mas Vítor, então passeando no atelier, começou a dizer que a ideia era sublime, mas quem lhe compraria esses quadros? Porque, enfim, não estando no gosto universal, chocando mesmo os preconceitos; sendo a execução pouco brilhante, não era fácil encontrar colecionadores.
Gorjão ergueu-se, como ferido por uma punhalada. Aquela reflexão entrava, como um machado gelado, na maravilhosa ramificação do seu sonho.
— Quem há de comprar? — disse, passeando pelo atelier, com a cabeça baixa, gestos bruscos de ombros. — Quem há de comprar?... Ninguém!
E deixando-se cair, com desalento, no divã, exalou com amargura: tinha vontade de se fazer salsicheiro: pintaria ele mesmo uma tabuleta; seria uma tabuleta extraordinária, onde os produtos essenciais de mercearia teriam expressão humana: a brancura do toucinho, com a face balofa de um conservador; os queijos da serra teriam a papada dos vendedores burgueses; no vermelho dos salpicões flamejaria toda a prosperidade da agiotagem triunfante; todas as velas de sebo teriam, como as colunas do Rossio, aspeto de monumentos constitucionais: as barricas de manteiga afetariam o bojudismo enfartado e rançoso de um enorme ventre burguês. E por baixo, em letras escarlates, de um escarlate radical e escaldante: «Camilo Gorjão — merceeiro da casa real.»
E esfregava as mãos, entusiasmado com a sua tabuleta, pensando com frémito e júbilo «no que se dirá, no escândalo!» Era a única coisa: era fazer-se merceeiro!
— De resto — dizia —, a arte é impossível na democracia. Tenho duelo, mas é a verdade. Acabadas as casas históricas, acabaram as ricas coleções. O burguês, o parlamentar, o constitucional, o republicano liberal, querem gravuras; a coisinha; uma paisagenzinha bem lavada; carneirinhos; a virgenzinha idiota que desfolha um malmequer, com dedos que parecem relembrar manteiga rançosa. Ah! Quando voltam os tempos do Rafael, do Ticiano, do Veroneso, da pintura humana? Quando o artista tinha uma realeza; era a mais alta emulação do Estado; tinha o lugar eminente nos salões, comandava a defesa da cidade, dava imortalidade e, do alto do seu estado, dizia lei ao papa.
Tudo acabara, o mundo estava eclipsado. E voltava à sua ideia: fazer-se merceeiro!
Mas, a gente rica — exclamava — teria todas as ideias, as mais idiotas, as mais pícaras, as mais bestas, antes de ter esta ideia simples, necessária: encomendar uma obra de arte. Que qualquer desses idiotas teria amanhã uma melhor; tudo lhe lembraria: ser barão, pôr casa a uma dançarina, comprar uma parelha, ter um barco para regata, dar um baile mascarado, e com mais insensatez; mas nunca mesmo lhe vem esta ideia simples, útil, conciliadora, nobre, normal, de dizer: «Camilo, aos pincéis e atire-se para uma obra de arte sublime.» Nenhum, nenhuma besta!
E voltando-se para Vítor, pressuroso:
— Tu, tu és rico, tens tio e rico, tens uma figura, tens uma cadeia de relógio... Já me encomendaste um quadro? — Sorriu.
— Porque não me encomendas um quadro? Porque és um asno!
E então, de repente, uma ideia tinha atravessado o espírito de Vítor: o retrato de Madame de Molineux. Via-o já, maravilhado, num caixilho, no seu quarto; ele poria, por baixo, flores e seria como o tabernáculo de um altar.
— Pois vou-te encomendar um quadro — disse ele.
— Queres a missa? — disse logo Camilo, aproximando-se com a sua voz cavada, os olhos brilhantes.
— Quero um retrato...
Camilo fez uma careta e, girando sobre os calcanhares:
— Ora, sebo! — E abrindo os braços — Aí está! Queres, talvez, o teu retrato, de casaca, gravata branca, com a tua idiota face de janota, destacando sobre uma cortina escarlate; caixilhos de Margoteau e admiração das primas! — E fitando-o: — És indigno de saber ler! O que pode dar a tua cara? Que expressão? Que ideia?
Foi tirar a bandeira do candeeiro e examinava-o vorazmente, murmurando:
— Nada de saliente, de acentuado, de realçado; tons fundidos, sem relevo, num amaciamento de brancura anémica. Que queres tu que faça do teu focinho? Um retrato, decerto, pode ser uma obra de arte, mas é necessário um modelo. Junta-se que tenha uma alma, uma ideia, uma ação, grandeza: mas juntar um banal, um burguês... Fotografá-lo, fotografá-lo. Vítor disse, então:
— Não, não é o meu retrato: é o retrato de uma senhora, de uma estrangeira, de uma mulher admirável.
E citou o seu espírito, a sua beleza loira, a superioridade da «na figura.
Camilo, encruzado no sofá, roía vivamente as unhas.
Queria saber a cor dos olhos, dos cabelos, a altura. E passeando pelo atelier, planeava já uma obra admirável que faria a sua glória: pintá-la-ia de corpo inteiro, vestida de veludo azul, com uma alta renda espanhola, fios de pérolas sobre o peito, descendo as largas escadas de um terraço e, no fundo, a decoração à Ticiano de um jardim da Renascença.
— Monta ela a cavalo? — perguntou de repente.
— Perfeitamente.
— Então, porque não a pintamos com um longo amazona de pano preto, luvas de anta, de canhão, e o chapéu à Gainsborough, ou melhor, com um chapéu da Fronda... e tendo no braço um manto de seda forrado de peles?
O seu amor do pitoresco voltava, com tentações persuasivas.
— Mas não! Com mil demónios! Toda a obra de arte deve civilizar! — E exclamou logo: — Pode fazer-se um retrato que seja uma condenação severa do luxo e da publicidade! — E com grandes gestos que pareciam desenhar, numa tela, as grandes linhas do desenho: — Uma parte, burguesa: anda sob uma trepadeira que, por graduações de tom, cede o olhar à parte essencial do quadro: a cabeça; a cabeça nua, destacando-se no negro do corredor; uma cabeça suave, caridosa, com um olhar sério e justo, uma aquilinidade reta de feições, uma serenidade que mostre o equilíbrio da alma...
Uma voz de criança começou a soltar altos gritos:
Camilo foi bruscamente à porta; abriu, gritou:
— Fazes calar esse demónio? — E voltando-se para Vítor: — Aqui está! Não é possível trabalhar, pensar, sentir, com fedelhos a berrar pela mama. Não é possível. Abafa-se nesta vida estreita, burguesa! Um artista deve viver em palácios, civilizado, cercado de todos os luxos da arte, só com a sua ideia.
— É o teu pequerrucho?
— É — disse ele secamente. — Esqueceu-me deitá-lo à Roda. Nem disso lembrei... Que dizia eu? Ah! Um rosto que seja a simbiose da justiça e da razão; toda vestida de preto, de um modo casto, sóbrio, mangas justas; de preguinhas no vestido que revelem a beleza de um ser maternal, de uma fonte de vida, e estendendo as mãos, mas delicadas, tratadas... Nada disto! Falta-lhes pão!
— A quem?
— A quem? A duas medonhas crianças choronas, ranhosas, cobertas de pintinhas, tiritando de frio e de fome, cheias de opróbrio: o povo! O eterno oprimido!
— Não é má ideia...
— Como, não é má ideia? É simplesmente... É o retrato tratado filosoficamente. É o retrato socialista. É o retrato panfleto.
E fitava os olhos em Vítor, como assombrado da altura do seu projeto. Que revelação na arte! E erguendo os punhos ao ar:
— O que nós podemos, o que nós podemos!
— Queres o chá? — perguntou uma voz de mulher, da porta entreaberta.
— Traze.
E no fervor da sua ideia, pediu logo informações sobre o modelo: a sensibilidade, as suas ideias, as suas origens políticas e sociais, « porque tudo, tudo é importante».
E Vítor, aproveitando avidamente a ocasião, desabafou, descreveu Madame de Molineux, contou a sua paixão.
Ouvindo-o, as ideias de Camilo mudaram bruscamente. «Ah! Era uma surpresa! Uma cocote! Uma Dama das Camélias!» E então, entreviu uma outra interpretação: os quadros de cortesãs, do Ticiano: estendia-se, sobre um divã, um manto de veludo carmesim; sobre ele, o modelo estava meio nu; uma cortina, meio corrida, mostrava um fundo de jardim e, ao pé, no primeiro plano, estava por terra um bandolim, para simbolizar a harmonia, as festas; um punhal que lembrasse a vingança do ciúme, e colares de pérolas, transbordando de uma taça de prata, com os presentes da luxúria! Ou, porque não fazer um quadro moderno, um Fortunis: uma sala forrada de cetim branco; um fogão, com uma alta chaminé Renascença, e ela estendida numa causeuse por trás de um grande fogo de chamas, onde mãos, de anéis, se surpreendiam num fundo dourado?
— E então, estás apaixonado, hem? — perguntou ele, enrolando um cigarro.
— Loucamente.
— É triste, é estúpido.
Vítor rompeu em declamações líricas: que havia de melhor que os estremecimentos de amor, os sonhos, os corpos enlaçados, os beijos?...
Camilo encolheu os ombros e expôs a sua teoria sobre o amor, rapidamente, com uma voz seca, falando, como sempre, de si: «A paixão era a maior desgraça para o homem inteligente. Um artista que se apaixona está perdido; o amor introduzia-lhe na vida uma tal quantidade de cuidados, de preocupações, de renúncias, que todo o trabalho, todo o pensamento se torna impossível. Vem o ciúme, a exaltação fictícia, a renovação incessante do desejo, a preguiça de languidez, as subserviências da criatura; o carácter efemina-se, o cérebro amolece, a conceção retrai-se e o que era ontem uma força na sociedade é hoje um clube de bordel. O artista deve eximir-se do amor, como o mais humilhante tirano. Amar uma mulher é pôr todas as suas forças da vida ao serviço... de um órgão! É como um glutão: como o glutão, não pensa, não vive, não trabalha, não se move, senão para o estômago. O amante não existe senão para servir, obedecer ao coração, para lhe dar um nome decente. Eu dei aos artistas do meu tempo uma grande lição. Suprimi o amor. Desta porta para dentro, nunca entrou uma mulher; uma mulher, isto é, um conjunto de caprichos, de fantasias, de nervos, de sensibilidades, de tiranias, de altercações, de volubilidades. Mas, como a Natureza é exigente, e o cérebro precisa estar desembaraçado, tomei uma fêmea.»
Aquela palavra aterrou Vítor.
— Escolhi-a. Escolhi-a, feita como uma estátua... porque me podia servir de modelo. Nesse tempo, eu tinha, sobre o génio, de juntar as ideias mais idiotas. Acreditava no nu. Acreditava em Vénus. Imaginava que uma arte plástica devia só ocupar-se de proporções, atitudes, cor e musculatura. Burro! Tinha esquecido esta pequena coisa: a ideia. Por não querer tomar a fêmea, tomei a bela. Custou-me a descobrir porque é que a maior parte das mulheres são medonhas... Porque hás de notar, menino, que não há meio termo entre o horror e a beleza na mulher; tudo o que conta na mulher — isto é o seios, os cabelos e os quadris... — quando o não divinizamos, degrada-se. Como são acréscimos falsos ao verdadeiro tipo humano, que é o homem, logo que não se salvem pela beleza, finura e ideal, são apenas excrescências, objetos doentes; quer os seios caiam, quer os quadris se agitem, quer o cabelo seja curto e macio, a mulher é um mito; é mais feia que o hipopótamo e que o macaco.
Mas a porta abriu-se e Vítor viu entrar, com um tabuleiro, uma criatura esplêndida: branca, com os olhos pretos, grandes e ardentes uma massa forte de cabelo magnífico, a sua cabeça pequena pousava nobremente sobre um corpo de estátua; sentia-se debaixo do vestido de chita amarelada uma magnificência de formas majestosas e de um relevo e de uma firmeza singulares. Pousou o tabuleiro, com as suas mãos grossas e enxovalhadas, e saiu com um passo sereno.
— É esta — disse simplesmente Camilo, sentando-se à mesa e partindo logo uma grande fatia de pão.
— É de Lisboa? — perguntou Vítor.
— Não. Lisboa não poderia produzir destes corpos; o tipo está viciado. E de ao pé de Ovar, do campo, e provém de uma combinação particular: aquela etnia entre a raça árabe e a raça céltica. É uma bela produção animal.
E passeando pelo atelier, com a fatia de pão na mão:
— Como fêmea de artista, é completa. E estúpida e é passiva. Come, obedece e despe-se. É um corpo às ordens. Não me importuna, não me interrompe, não me dirige a palavra: está ali. Quando necessito de fêmea, chamo a fêmea.
— E casaste?
— Casei. Não havia outro meio de a tirar de casa da mãe. Comprei-a, mas, em lugar de dar à velha um dobrão de oiro, atirei-lhe o sacramento. Paguei-lhe em moeda espiritual. Boa pilhéria, hem? E aqui a tenho. Todo o artista deve fazer o mesmo. A verdadeira é a amante; os nossos amores são as nossas criações; é o amor a que damos a nossa alma, o nosso sangue, a nossa vida, tirando o que há de bom em si. A fêmea é para os momentos em que o espírito repousa e a besta reclama.
— De modo que és feliz.
— Profundamente desgraçado — disse Camilo.
E sentando-se no divã, ao pé de Vítor:
— Porque imaginas tu? Tudo tão inteligentemente combinado. Só me esqueceu de uma coisa. Uma só: os filhos! Não me lembraram os filhos... Desprevenido, ao fim de nove meses, zás!... um marmanjo, uma sementezinha de carne, que grita, berra, ruge, faz-me da casa um inferno. Como é a família: a morte do artista. Tenho todos os tédios. Ouviste, há pouco, aquele ranger do berço? É da minha melhor música ordinária: pela manhã, gritos de atroar, à noite, berros de fugir, ecoam pela casa... e a mulher ocupada; a necessidade de tomar uma criada. Um inferno, um inferno! Corrigi a minha máxima e aqui digo: o artista necessita a fêmea estéril. Chama-se Joana. E, coisa extraordinária, a gravidez, o parto, não lhe alteraram uma linha do corpo: nem uma prega, nem uma ruga, nem um afrouxamento no primeiro dos contornos. Perfeita, perfeita, perfeita. Um soberbo modelo… para as bestas que acreditam na linha e na forma... Joana!
A mulher entrou. O seu olhar que, da primeira vez, se conservara baixo, ergueu-se agora para Vítor, alargou-se como admirado; um clarão passou-lhe nas pupilas. E tirando a bandeja do chá, saiu, com o seu andar sereno.
— E aí tens como compreendo o amor — resumiu Camilo, batendo-lhe no ombro.
Vítor tinha tomado o chapéu.
— E o retrato?
Vítor havia de falar a Madame de Molineux. Camilo refletiu, com um dedo no queixo.
— Nada positivamente. Pinto-a revolucionariamente. Que quadro!... Espera que te iluminem. Eu não vou, que não quero apanhar frio — e gritou: — Joana; ilumina este senhor, se fazes favor.
Vítor desceu; Joana atrás, com o candeeiro a petróleo. Mas aqueles passos serenos, o roçar do vestido nos degraus, davam uma vaga perturbação a Vítor. A porta, acendeu um cigarro e, chupando a chama do candeeiro, os seus olhos encontraram-se com os de Joana. Foi um momento, mas Vítor sentiu um desejo furioso alvoroçar-lhe o coração. Tirou o chapéu, agradeceu:
— Muito boas noites, minha senhora. Ela corou e respondeu:
Muito boas noites, meu senhor.