A Tragédia da Rua das Flores

Eça de Queirós · Capítulo 3 de 12

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A Tragédia da Rua das Flores

Capítulo IV · Ao outro dia, pelas onze horas, Vítor…

 

Ao outro dia, pelas onze horas, Vítor estava no escritório. O Dr. Caminha advogava na Boa Hora e Vítor, com os autos abertos diante de si, os pés estendidos, fumava, olhando o teto. Sentia-se agora num estado de tédio, num vazio de vida que o enervava. A certeza de que Madame de Molineux amava Dâmaso tinha-lhe criado um vago sentimento de ódio por ela; desprezava-a, julgando-a banal, tola, estúpida. Apaixonar-se por aquele imbecil! E consolando-se com a ideia de que uma mulher de um espírito tão subalterno não o merecia a ele, com tanta beleza de alma, não se podia eximir a desejá-la, de um desejo constante e crescente. Desprezava o seu espírito, mas adorava o seu corpo e, como não podia adorar, pusera-se a detestá-la.

Não tornara a ver Aninhas e, perdendo toda a esperança de felicidade amorosa, quisera-se entregar à alegria da literatura. Tentara pôr o seu desprezo pela sociedade e pela vida em odes, mas, depois de noites passadas a triturar o cérebro, e a fumar maços de cigarros, desesperado com as rimas, não encontrando ideias, decidira que, para poder ser artista, devia começar por ser feliz; e como a felicidade não vinha e a arte não o inspirava, pensava vagamente em começar a ser um estroina, embebedar-se, afogar em orgias o seu tédio. Mas para isto faltava-lhe o dinheiro e, iludido no seu amor, estéril na sua literatura, com cotão na algibeira, sentia-se na vida como um homem errante que só vê diante de si portas fechadas.

De repente, a voz do Dâmaso, fora, na saleta, disse com pressa:

— O senhor Vítor da Silva? Preciso falar-lhe.

O escrevente ergueu o reposteiro e, metendo parte de uma corpulência, disse baixo, com uma voz pigarrosa:

— Senhor doutor, está ali um sujeito fino.

— Ah, estás só — disse Dâmaso, e tornou a pôr o chapéu; e sem transição, com a voz aflita:

— Teu tio fê-la boa! Teu tio fê-la boa!

Vítor abriu os olhos, muito espantado.

— Encontra Madame de Molineux e ferra-lhe uma descompostura.

Dâmaso deixou-se cair na poltrona respeitada do Dr. Caminha. Mas deu um grito medonho, com um pulo, numa contorção. Tinha-se sentado sobre a ponta de um prego de cabeça amarela e chata. O Dr. Caminha detestava que, quando estava fora, alguém se sentasse na sua almofada de veludo verde; mas, na possibilidade do crime, deixava preparada a vingança; e aquele poderoso orador forense, como diziam as bocas, punha sempre, antes de sair, um pregozinho na almofada; era a sua pilhéria prezada.

Dâmaso tinha corrido, por conselho de Vítor, à cozinha onde havia um bocadinho de espelho, ao pé da bacia. Voltou mais sereno. Era apenas uma arranhadura. Mas estava pálido, chamou «infame» ao Dr. Caminha; achou a brincadeira «digna de um verdadeiro canalha».

O escrevente, à porta, com o reposteiro erguido na sua mão poderosa, olhava por cima dos óculos, a pena na orelha, e exclamou com crueldade:

— Foi o prego? Havia de ser o prego.

Estava contente: «Era mal feito a um fidalgo.

Mas toda a exaltação de Dâmaso se tinha acalmado e foi com uma voz tranquila que contou a Vítor o «caso da véspera».

— Imaginem agora, por causa de uma criança!... põe-se na escada... chama-lhe toda a sorte... Eu, quando ela me disse que era um homem com uma perna de pau, uma gaforina branca, um trem, um bengalão e um casacão comprido, percebi logo que era o teu tio. Ele não te disse nada?

— Ele contou-me ao jantar, vagamente, mas, a falar verdade, não dei atenção. Todos os dias lhe acontece ralhar a alguém, por causa de alguma coisa.

Dâmaso, agora, passeava-se no escritório, embaraçado e levando de vez em quando a mão acariciadora ao sítio ferido.

— Pois sim, mas o desastre é que Madame de Molineux quer que eu lhe vá tomar uma satisfação. Vês uma destas?...

Vítor riu-se.

— Uma satisfação?

— Uma satisfação, homem, parece-me que falei português. Diz que foi insultada, que não tem marido, nem irmão, nem filho, nem ninguém aqui; que só me tem a mim... — e com uma afirmação cheia de fatuidade — e é verdade que eu é que a devo desafrontar. Sim, enfim...

Vítor agora estava serio.

— Homem, isso é curioso!

— ...E que se eu não lhe levasse uma explicação do tio Timóteo... que não me recebe mais! Estava furiosa; quebrou dois vasos, partiu o chicote, ia matando a inglesa. Numa fúria. Queria ir desafiá-lo, matá-lo com um revólver. Enfim, para a conter, jurei! E ainda por cima me chamou imbecil. E então, saia-se a gente de uma destas. Hei de desafiar o tio Timóteo! Eu não tenho medo — acrescentou —, eu não tenho medo, mas que diabo! Um velho! Uma pessoa respeitável. Isto só a mim!

Vítor escutava-o, considerava, vendo-o passear, a sua figura roliça e gordita, a cara balofa, a cabecinha estreita, com o cabelo muito lustroso. E parecia ver a bengala do tio Timóteo tirar sons baços, fofos, daquela nutrição, como se bate, na cozinha, untos almofadados, nas noites de um porco de Natal.

Mas Dâmaso estava realmente aflito. Depois, em tudo aquilo, pareceu-lhe que havia vagamente alguma coisa que o aproximava, por caminhos tortuosos, de Madame de Molineux e, a esta esperança, todo o seu despeito desvaneceu, como um nevoeiro à aproximação de um sol forte.

Falou em intervir, expor o caso ao tio Timóteo. Dâmaso apertou-lhe logo as mãos, com muitas palavras amigas, quase sentimentais. Que ele o salvava! Que o tirava de uma aflição!

— É falar-lhe hoje, falar-lhe hoje — acrescentava. — Eu contentava-me que ele fosse deixar-lhe um bilhete, nada mais. E tão pouco, é tão pouco!

Decidiram, então, ir logo falar-lhe. Àquela hora, estava a ler o Times. Dâmaso tinha, em baixo, o seu cupé; saiu e, ao vê-lo passar na saleta:

— Então, passou, hem? — perguntou o escrevente, com o cotovelo na mesa, a sua mão sustentando a pena. — Passou? É o prego! É o prego do senhor doutor.

Dâmaso sorriu. A corpulência e a voz pigarrosa do escrevente davam-lhe um vago temor. Desde a véspera, sonhava com perigos, desordens, duelos. E o escrevente, continuando a escrever lentamente sobre o papel selado:

— Corja de fidalgos — murmurava.

O tio Timóteo estava, com efeito, a ler o Times. Vítor deixou Dâmaso na sala, a ver um álbum de vistas de Calcutá, e foi expor ao tio Timóteo o caso, a dificuldade de Dâmaso, amansá-lo, convencê-lo.

— Mas que diabo tem esse tolo com a mulher? E marido? É irmão? É conhecido? E amante?

— Creio que é amante, tio Timóteo.

O tio Timóteo arregalou o olho.

— Olha o alarve! — E com uma palmada nos joelhos:

— Pois apanhou... Ora! Ora é uma mulher soberba! Isto aqui — e apontava o peito — é real!

E pondo-se de pé:

— Bem, como pedir-me satisfações era ridículo.., e como deixá-la, sendo amante, é duro, devo eu ceder — e com um grande gesto: — Faço-o por Vénus! — e teve um risinho. — diz a esse animal que entre.

Mas o aspeto de Dâmaso, com o seu rosto balofo que suava satisfação, de luvas amarelas, a perna gorda e o bigodinho muito arranjado, irritou-o e foi muito bruscamente, sem se levantar, que lhe perguntou:

— Então o senhor estava com ideias de me pedir satisfações?

O Dâmaso curvou-se, pálido.

— Oh!, senhor conselheiro! Pois podia supor? Eu! Ora essa! Por quem é!...

A sabujice daquele gordalhufo causava asco a Timóteo. Indicou-lhe uma cadeira, ofereceu-lhe conhaque e água pousando ele mesmo o seu copo sobre a mesa:

— Eu já disse a Vítor. Estou pronto a dar a satisfação; não quero ir perturbar-lhe o seu arranjinho. — E para Vítor: — Amanhã, vai deixar o teu bilhete com o meu e escreve-lhe, por baixo, «com os meus cumprimentos». Mas, já o disse, não o faço por ela que não me parece uma boa peça; nem pelo senhor, que eu não faço favores aos meus amigos. Faço-o por Vénus! E tudo por Vénus. Com que então, seu maganão!... Pois, senhores, apanhou boa moça!

Dâmaso, sentado à borda da cadeira, cumprimentava, com um ar próspero e enfatuado, passando os dedos pelo bigode. O tio Timóteo bebeu outro golo de conhaque e, pousando o cotovelo no joelho:

— E é grátis?

Dâmaso fez-se escarlate: «Ora essa! Era uma senhora! Era a viúva de um senador... »

— São as piores. Na Índia, é a viúva do coronel. A viúva do coronel é terrível. Eu fui vítima. A única letra que assinei na minha vida, três a quatro por cento ao mês, foi por causa da viúva do coronel. Mas foi a única, porque, no meu tempo... que diabo... havia desinteresse; fazia-se amor, tinha-se graça, havia paixão. Agora, esta rapaziada, fria, enfezada, com doenças secretas, raquítica, para apanhar o mais pequeno beijo, tem de abrir os cordões à bolsa. Um chupismo geral! Puh! Ouço às vezes dizer que as mulheres mudaram, estão interesseiras, especulam com o que Deus lhes deu... Qual! As mulheres são as mesmas. Os homens é que mudaram. No meu tempo, eram valentes, brutos, atrevidos, com pancadas prontas, guitarra prá frente e um bocadinho de touro; era um regalo, para uma pobrezinha de Cristo, abrir a porta, de noite, a um destes mocetões... Mas hoje... Vá lá uma mulher ter prazer com uns melquisedeques enfiados, magricelas, com a espinhela derreada, o queixo caído, sem pilhéria nem músculo. Que diabo, fazem elas muito bem; para aturar semelhantes bonifrates... e justo que o bonifrate pague. Eu sou por elas, coitadinhas!

E riu-se, com a sua viva fisionomia resplandecente de recordações.

— Pois é para a frente. Que é ela, francesa?

— É portuguesa, senhor conselheiro. Mas tem vivido sempre em França. Vive, há mais de vinte e cinco anos, em França.

Timóteo tirou o charuto da boca, devagar, fitou Dâmaso, perguntou, com a testa franzida:

— Como se chama?

— Genoveva.

E depois de um silêncio, Timóteo:

— Donde é?

— Da ilha da Madeira.

Timóteo encolheu os ombros. E repetiu:

— Pois é divertir-se! Que é o que eu digo cá a este São Sulpício — e indicou Vítor que, sentado sobre a mesa, cofiava melancolicamente o bigode. — Que diabo, há pais, há tios, que pregam moralidade! São asnos. Eu prego imoralidade. Um rapaz novo quer-se vivo, empreendedor, com dois ou três bastardos e duas meninas no convento, por paixão. Era assim no meu tempo. E seja quem for, criada, costureira, marquesa, tudo o que lhe calhar na mão. Um homem é um homem! Os conventos acabaram. Beba um golo de conhaque, que diabo, não pense mais nisso.

E retomando o Times, repetiu:

— O que lá vai, lá vai. Amanhã, lá vão os bilhetes.

Dâmaso, erguendo-se, agradeceu.

— Não tem que agradecer. Faço-o por Vénus.

E ria, esfregando vivamente a perna.

No sábado seguinte, pela manhã, Dâmaso entrou muito atarefado no escritório de Vítor, e indo sentar-se ao pé da banca, quase ao ouvido:

— E só uma palavra. A Molineux já recebeu os bilhetes. E manda-te pedir para ires lá passar a noite, amanhã... Sem cerimónia, hem?

Vítor sentiu o coração bater-lhe alto e, para disfarçar a perturbação:

— E quem vai mais?

Dâmaso fez um gesto desolado:

— Um capricho! Um diabo de um capricho. Imagina tu! Diz que para esta primeira soirée queria ter de todas as classes; deu-me uma lista: militares, jornalistas, poetas, membros da Academia, diplomatas, cantores. Eu, para reunir toda esta gente, tenho dado em doido.

E diz que pessoas da sociedade, não. Quer gente divertida. Queria um ator. Que diabo, não achei nenhum. Enfim, fiz o que pude... mas olha que é um diabo de um capricho. E adeus. Vou à casa do Carvalhosa e ver se ele vem, porque também quer um deputado.

E ia sair apressado, quando o Dr. Caminha emergia da contemplação de um bigode loiro, para dizer:

— E este é que foi o meu amigo que se sentou no prego?

Dâmaso voltou-se furioso.

— Lamento imenso!

Erguendo um pouco o seu alto corpo magricela e recaindo languidamente na almofada de veludo verde:

— Sinto imenso! É um gracejo patriarcal do escritório. Sinto imenso. É por causa dos intrusos. Foi minha esposa que bordou a almofada e aqui está o prego! Sinto imenso!

Cumprimentou e, repoltreando-se, estendendo o beiço, continuou a catar o longo bigode, pêlo a pêlo.

Vítor hesitou, muito tempo, se devia ir à soirée de Madame de Molineux de sobrecasaca ou casaca. Mas, recordando-se de ter ouvido tantas vezes o tio Timóteo louvar o costume inglês de pôr sempre casaca, à noite... que diabo, mesmo para estar em casa, a fumar... decidiu-se a vestir-se de baile.

Era um hábito estrangeiro que agradaria, decerto, a Madame de Molineux. Poria gravata preta, gravata branca? Resolveu a gravata branca, com uma camélia no peito. E no cupé de praça, muito agitado, sentiu como uma sensação semelhante àquela que os estudantes exprimem pelo nome de «cólicas» que é um vago medo que aperta o estômago e relaxa os intestinos.

Que lhe diria? Com que expressões delicadas, espirituais, lhe falaria? Estaria muita gente? Dançar-se-ia? E estava tão trémulo que mal podia apertar os botões das luvas. Imaginava diálogos, preparava ditos, apreciações; e à maneira que o cupé rolava, sentia como um receio de se ver tão perto da casa e um cuidado de que a sua camélia não se desfolhasse.

O cupé parou. Vítor viu, no terceiro andar, as janelas todas iluminadas que destacavam na noite escura, um pouco húmida de névoa: era a soirée.

Foi com uma comoção que bateu à campainha. Um criado de suíças pretas, casaca, luvas de algodão branco, com um cumprimento que o fez raspar a sola no chão, perguntou-lhe baixo o nome; e erguendo um reposteiro:

— O senhor Vítor da Silva — atirou com uma voz grossa.

Na saleta de entrada estavam paletós acamados, chapéus sobre cadeiras, uma manta de lã de mulher; as velas, sobre a mesa ao lado, ardiam; um murmúrio de vozes, na sala.

No primeiro olhar. Vítor viu-a a ela, ao fundo, quase deitada num sofá, vestida de seda branca, e logo os seus olhos pretos e grandes, o seu cabelo loiro, o seu decote e a beleza das suas mãos de uma cor pálida, com brilho de pedrarias, lhe davam uma impressão tão violenta que se sentiu como dobrarem-se os ombros.

Não reparou no que estava em redor e apenas sentia que estavam velas acesas e que havia reflexos de espelhos.

Dâmaso precipitara-se e dissera curvado para Madame de Molineux:

— O meu amigo Vítor da Silva, o sobrinho de...

E completou a frase com um gesto de cabeça, um piscar de olho. Ela ergue-se muito ligeiramente, teve um sorriso, uma ondulação do pescoço, e continuou conversando com um sujeito de barba preta, curta, lunetas de oiro, calvo. Tinha ao pé de si uma mesinha e um copo de oiro, de onde, a espaços, bebia, erguendo todo o corpo, com ondulações doces e um frémito de seda.

Vítor ficara na sala, de pé, embaraçado e olhava em redor. Todas as pessoas lhe eram conhecidas; mas viu, numa poltrona, um velho cuja cabeça calva, com repas grisalhas repuxadas para as fontes, parecia enterrado na alta gola de veludo de uma enorme casaca escura; a pele engelhada, muito barbeada, estava sulcada de pregas, e o queixo quase desaparecia numa alta gravata de seda preta.

Porque estaria ele ali? Ficou espantado ao pé dele. Era um velho de quase setenta anos; tinha publicado outrora um livro de fábulas de Esopo, de madrigais, outros originais, vivia às expensas do Estado. Pertencia à Academia Real de Ciências, já não tinha dentes e era como uma ruína.

— Muito prazer no ver por aqui, senhor Couto.

O velho fabulista ergueu a cabeça e, passando a mão espalmada pela cara, sorvendo um pouco:

— Viva, como vai isso?

Tinha a voz arrastada, um pouco fanhosa, e ficou calado.

— Há muito que não tinha o prazer de o ver — disse Vítor, falando alto, porque o velho era um pouco surdo.

O fabulista voltou a cabeça para ele e, em voz baixa:

— A que horas é o chá? — Era muito guloso e esperava naquela casa ter ocasião de comer bolos estrangeiros. Vítor não sabia e ia erguer-se, enfastiado, do seu curvamento, quando Dâmaso veio ter com ele. Examinava-o; havia no seu aspeto um vago ar contraído de inveja.

— Puseste casaca, hem? — disse ele, de repente; e depois de uma pausa, muito chegado para ele: — Eu estive para pôr, hem? Mas tive medo de parecer que me queria dar ares. Que ferro, hem?

E ficou preocupado, beliscando a asa do nariz.

Vítor olhou então pela sala.

Ao pé de uma mesinha de jogo, onde ardiam velas, estava um grupo: duas senhoras e dois homens; uma era chamada a Tia do Tolomeu; não sabia a origem desta alcunha, mas conhecia a pessoa, de vista. Era severa, muito alta, com um penteado riçado, erguido, que a fazia parecer mais esguia. Tinha, na toilette, um ar trapalhão e enxovalhado; o pescoço tinha um tom escuro, ao pé do cabelo, de um trigueiro sujo que têm certas desleixadas. Estava separada do marido, que era alferes. Tinha olheiras grandes e, em toda a sua pessoa, sentia-se o hábito do quartel e influência do regimento.

A outra, não a conhecia. Era uma quarentona de aspeto solteirão, grossa, quadrada, atrigueirada, com um buço, um sinal muito cabeludo no queixo, um enfeite singular na cabeça, em que havia veludo vermelho. Falava pouco e os seus olhos, que exprimiam muita inveja, muito azedume, uma grande sensualidade, não se desprendiam de Madame de Molineux, ou de revés, às vezes, passavam com uma rapidez fulgurante de uma chama que lambia um objeto.

A figura efeminada e quebrada de rins do Sr. Reinaldo, que conversava, sentado, ao pé da Tia do Tolomeu, torcendo e retorcendo o buço com as pontas dos dedos muito brancas.

Vítor entrou no fumoir, de onde vinham vozes. A sua entrada, três homens que conversavam, fumando, olharam com curiosidade a sua gravata branca. Era uma sala pequena, com cortinas, o sofá de cretone, um candeeiro direito, sobre uma mesa redonda, com um pano de veludo escarlate.

Um dos sujeitos estendeu-lhe a mão. Era o Carvalhosa, que fora seu contemporâneo em Coimbra, onde era conhecido pela sua porcaria e ilustre pelos seus vícios. Passava dias inteiros na cama e o cheiro do seu quarto estonteava. Agora era deputado e os jornais celebravam a sua eloquência e citavam os seus trechos. E logo, com a sua voz cantada, de papo, um aspeto de superioridade:

— Aqui vem — disse, com um charuto entalado entre dois dedos, à altura da boca — quem nos vai elucidar. Ó Silva, quem diabo é esta mulher? E surpreendente esta espécie de Vénus. — Aquele tom chocou Vítor:

— Tu deves saber melhor do que eu. É a primeira vez que venho a casa dela.

— E eu — exclamou ele.

— E nós — exclamaram outros dois.

Um, com uma cara muito chupada, o cabelo muito chato, de uma cor térrea, cheio de espinhas carnais, sempre a raspar o queixo com as unhas, muito corcovado, era um jornalista. O outro era um belo moço, com um ar vaidoso, fardado de oficial de Lanceiros.

— A mim, quem me trouxe foi o Dâmaso — disse o deputado.

— E a nós todos.

— Pediu-me, há três dias, para me trazer a casa de uma senhora da primeira sociedade de Paris.

— Diz que é a viúva de um senador. — E tomando tons declamatórios. — No segundo Império, os senadores eram uma coleção caturra de velhos debochados...

— Peço perdão — interrompeu o jornalista. — Havia grandes ilustrações: Saint-Beuve e Mérimée...

— Que levaram a França aos abismos — gritou logo o Carvalhosa.

— Pelo amor de Deus, não se fala no Império, meu caro amigo. O Império é a corrução, é a lei calcada aos pés, é a liberdade agrilhoada, é a orgia nas Tulherias.

Uma voz forte interrompeu, recitando:

— Mas ia por diante o monstro horrendo, dizendo nossos fados...

Carvalhosa voltou-se, escandalizado, mas, vendo entrar um sujeito baixo, com uma barba nascente que não fora nunca raspada, lunetas esfumadas, sorriu e estendendo-lhe a mão:

— Ora venha de lá o poeta.

— Meus senhores — disse ele, cumprimentando; e para o Carvalhosa: — Tu desculpa, eu acudiu-me aqueles versos do nosso Camões, quando entrei, mas... — E com uma voz compenetrada, de resto — ... sabes que ninguém aprecia mais do que eu o teu grande talento...

Mas, tendo reparado no jornalista, calou-se teve um gesto seco de cabeça e, embaraçado, tirou a cigarreira, começou a arranjar um cigarro. Mas Carvalhosa, triste, tinha então continuado:

— Não, meu amigo, os desastres do Império foram providenciais.

— Acredita então na Providência — disse o jornalista, raspando mais o queixo com uma vozinha baixa e um risinho.

Então Carvalhosa, aprumando-se:

— Alto com a questão religiosa!

Deus, segundo ele, estava em tudo; tanto no mais alto peito da História, como no grão de palha que a formiga... Lá diz Victor Hugo...

Mas o jornalista declarou:

— Victor Hugo é um asno! O asno Victor Hugo.

Acrescentou, com um desdém, que Victor Hugo estava velho, já não sabia o que dizia. Carvalhosa perdeu o domínio de si mesmo; defendeu Victor Hugo, com gestos possessos, estampidos de voz; chamou-lhe o profeta do século XIX, o inspirado de Hauteville House.

— Isso, isso — dizia o poeta, alçando-se e recuando.

— Os últimos livros de Victor Hugo — disse o jornalista, friamente, coçando o fígado, entre o colete e as calças — fizeram-me rir. — Sorria.

— Cavalheiro! — berrava o Carvalhosa. — Ri-se da Imprensa, ri-se da poesia, ri-se do sublime.

— Mais baixo — disse uma voz, de perto.

Era Dâmaso, aflito. Fez-se um silêncio. E Dâmaso explicou que, na sala, todo o mundo estava inquieto, que se supunha que era alguma altercação e que Madame de Molineux lhe perguntara se era questão de jogo e que, além disso, os ouviam, em baixo.

— Porém, se não se pode discutir...

— O cavalheiro tem a voz um pouco alta — disse o jornalista, que não cessara de se coçar.

Carvalhosa, que a contradição azedara, disse com grande altivez:

— Tão alta que o país escuta-a!

E voltou-lhe as costas.

— O senhor Carvalhosa tem a voz um pouco alta — disse o jornalista.

Carvalhosa fitou-o, furioso.

— O que quero senhor dizer com isso?

O outro replicou, coçando febrilmente o queixo:

— Perdão, isto aqui não é lugar...

Dâmaso, que interveio:

— Oh, rapazes, pelo amor de Deus!...

E queria arrastar Carvalhosa. O deputado estava lívido.

— Bem, nada de tolices — disse o lanceiro, torcendo o bigode. — Chega! Lá por causa da literatura.., e numa casa de fora...

Vítor deixou-os ainda falando, explicando-se e, envergonhado, tornou a entrar na sala. Madame de Molineux, de pé, conversava com a Tia do Tolomeu, mas, vendo-o, dando uma volta, que fez ondear a sua longa cauda de seda, aproximou-se dele.

— Eu tinha o maior desejo de o conhecer — disse ela.

Vítor curvou-se, balbuciou algumas palavras vagas; sentia-a muito perto de si, de pé, direita, e do seu olhar, do seu corpo, dos seus cabelos, saía alguma coisa de tão forte que o fazia instintivamente recuar, como diante de uma fogueira muito forte. Recuou, inclinando os ombros, como enfraquecido.

— Seu tio tem um génio muito mau — disse ela, sorrindo, abaixando os olhos sobre o leque que abria e fechava, devagarinho.

Era um grande leque negro onde havia duas figuras esbranquiçadas numa vaga floresta azulada. Vítor dominou um acanhamento que lhe contraia a voz.

— É um pouco arrebatado, mas...

— Oh, eu perdoei-lhe logo — disse. — De resto, gosto de gente assim; é uma espécie de dom quixote; a defesa das viúvas e dos órfãos... — e teve um pequeno risinho cantado. — Tem uma bela cabeça. Como se chama?

— Timóteo, minha Senhora.

— Parece-se um pouco com Crémier, não o que fez as óperas-cómicas.... o outro que fez a República — e teve outro risinho.

Vítor olhava-a, enleado. A proximidade da sua carne atraía-o, como um magnete atrai o ferro; tinha vontade de lhe tocar na carnação esplêndida do seio, de passar, de leve, a ponta do dedo, para sentir como era.

Havia, numa mesa próxima, duas luzes que a iluminavam plenamente: o queixo, o nariz, nas saliências mais saídas da claridade, mostravam o seu desenho puro, macio, que a luz acariciava nas curvas, com uma suavidade adorável.

Vítor reparara muito nos ligeiros vestígios de pó-de-arroz; os seus beiços cheios, sanguíneos, de uma pele fina e lisa, como uma folha de rosa; tinha uma maneira quente, lânguida, de sorrir, abrindo-se devagar, como sob a ação de um crescente calor do sangue, e o seu peito erguia-se, descia, com um ritmo doce.

— Que idade tem o tio?

— Sessenta anos, minha senhora.

— Ele estamos aqui a conversar, de pé, como duas cegonhas.

E foi andando, direita, com um passo lento, sereno, os braços muito juntos ao corpo, as mãos unidas, tendo o leque meio aberto, numa atitude de quadro ou de retrato.

Sentou-se no sofá, muito estendida. Indicou a Vítor uma poltrona, ao pé. Naquela posição, o vestido,, muito colado, revelava as linhas gerais das formas e, desde o pescoço até aos pés, podia-se ter uma ideia de uma nudez.

— Sei que é um íntimo amigo do senhor Dâmaso — disse ela.

— Conhecemo-nos bastante...

Vítor considerava Dâmaso um imbecil; queria-se mostrar superior, tendo apenas com ele um contacto social.

— Encontramo-nos muito...

Então, ela falando devagar, com uma voz um pouco lenta, dando a certas entoações um cantado parisiense, começou o elogio de Dâmaso: «Era um excelente companheiro; tinha-lhe feito toda a sorte de obséquios; saíam a cavalo; fora ele que lhe arranjara a casa; fora ele que trouxera as pessoas que estavam.»

E abaixando a voz, com um ar sério:

— Estou muito contente de ter um membro da Academia.

E olhou, com deferência, o velho Couto, que, só, na sua poltrona, estava meio adormecido.

— De resto, contava receber... Naturalmente demorar-me-ei todo o Inverno em Lisboa.

Falava devagar, examinando o leque; outras vezes, erguendo, por um momento lento, o olhar para Vítor; e de repente:

— Faz versos?

Vítor, admirado, quase envergonhado, não respondeu.

— Ah, pensei... — disse ela —, pois olhe, foi Dâmaso que me disse.

Dizia «Dâmaso», muito familiarmente!

Disse então as suas opiniões: ela adorava os poetas, os letrados. Monsieur de Molineux tinha sempre um ou dois a jantar; os que podia receber; nem todos se podiam receber; havia alguns tão... — e procurou a frase.

— Tão sebentos — disse. E com um risinho: — Não sei se a palavra é muito chique. Estou muito esquecida do português.

Vítor, ao contrário, estava pasmado como ela não o esquecera.

— Ah, não seja lisonjeiro!

Os seus olhos, por um movimento lento, lânguido, envolviam Vítor.

Vítor então declarou que, se ele vivesse no estrangeiro, a sua primeira preocupação seria esquecer o português, Portugal, os Portugueses; corou mesmo um pouco ao dizer os «Portugueses».

— Nem todos, decerto — disse Madame de Molineux. E com um sorriso: — Se ela ouvisse isso?

— Que ela?

— Ela, ou elas, aquelas que...

Mas Dâmaso aproximou-se; esfregava as mãos; inclinou-se ao ouvido de Madame de Molineux, que se retraiu um pouco, dizendo:

— Bom Deus! Hão de imaginar que me estava a fazer declarações. Diga alto, meu caro. Que é?

— E que está pronto, hem? É laranja e morango; está delicioso: é da melhor neve que tenho tomado este ano.

— Dava um bom entendente, não é verdade? — disse Madame de Molineux para Vítor, mostrando Dâmaso, com o leque.

Dâmaso protestou que sim; estava pronto a servi-la, até como trintanário; e preparando a fisionomia para uma pilhéria mais fina:

— Mesmo como criada de quarto...

Mas, tomando um aspeto sério, falando baixo:

— Eu estou realmente envergonhado; estive para pôr casaca, hem, como o Vítor. Mas tive receio de me dar ares... Que ferro, hem?

— Fez muito mal. À noite, está-se sempre de casaca... E outra coisa, meu amigo, não se está de botas engraxadas.

Dâmaso olhou para as suas botas de vila, para os sapatos de verniz de Vítor, fez-se escarlate, enfureceu-se:

— Também tenho sapatos de verniz. Nós também sabemos, minha senhora...

Ia-se fazendo rubro. Mas ela, batendo-lhe com o leque no braço:

— Não seja mau — disse com um olhar que o acalmou. — E olhe, que venha isso lá de dentro; bem, são quase onze horas.

— Pronto, pronto. — E Dâmaso precipitava-se.

Voltando-se logo para Vítor, com um sorriso:

— Estava eu a dizer-lhe que ela...

— Mas, minha senhora — exclamou Vítor que perdia o seu embaraço, achava facilmente as palavras —, juro-lhe que não há ela; desejava bem que houvesse; nada mais sublime que...

Mas hesitou, vinha-lhe uma frase literária sobre o amor; receou ser pedante.

— Acabe. Quero saber o que acha sublime.

A sua voz era mais abafada; tinha-se endireitado no sofá, estava muito chegada. Vítor, que sentia o calor da sua pessoa, o aroma da sua pele:

— Há muitas coisas que eu acho sublimes. — E com uma audácia: — A beleza.

— A beleza é toda relativa; assim é possível que haja muita gente que ache aquela senhora com um enfeite escarlate... não me lembra agora o nome dela... muito mais bonita do que eu.

— Impossível — exclamou Vítor.

— Para si, talvez não...

— Decerto que não!

E os seus olhos encontraram-se. Mas, naquele momento, Carvalhosa atravessava a sala, com uma das mãos na algibeira do colete, olhando; e dirigindo-se a Madame de Molineux:

— Vossa excelência está decerto muito fatigada da sua viagem?

— Mas eu cheguei há mais de mês e meio — disse ela rindo.

— Ah, tem tido tempo de descansar — disse, metendo os dedos pelos cabelos. E aproximou uma cadeira, sentou-se, traçou a perna e o elástico usado da sua bota apareceu sob a calça arrepanhada.

— E como vai a política, em Paris? — disse.

— Bem — disse Madame de Molineux, embaraçada, constrangida.

— Os republicanos têm sido admiráveis. O último discurso de Gambetta era bom... Que eu não me entusiasmo; faltam-lhe imagens, o brilho, a eloquência, as flores. Mas, enfim, começa uma nova aurora.

— Perdão — interrompeu ela, com um sorriso. E erguendo-se, com um passo muito subtil, um lento ciciar da sua cauda, foi sentar-se ao pé da mulher do alferes, que corou, arredou a cadeira, empertigou-se, bem devagarinho, e fez «boquinha».

Carvalhosa limitara-se a segui-la com o olhar; e baixo, a Vítor:

— É estúpida esta mulher. Não sabe cavaquear!

E erguendo o sobrolho, arremessando os dedos através dos cabelos, foi outra vez, através da sala, para junto do pianista:

— O homem tarda — disse-lhe o ilustre Fonseca.

— Que homem? — perguntou Carvalhosa.

— Para a surpresa.

E com um ar desolado, arregalando os olhos, encolhendo os ombros:

— É segredo, ordens superiores.

Mas Dâmaso veio passar o braço pelo do Carvalhosa.

— Ó Carvalhosa, por quem és, menino, vai falar com o Pascoal Pimenta.

— Eu, falar com esse suíno? — gritou o outro, orgulhosamente.

— É bom rapaz, coitado.

— É uma besta.

E o Sr. Reinaldo, que, desde que Madame de Molineux se fora sentar junto à Tia, errava pela sala, embaraçado, procurando uma simpatia, uma conversa, não podendo bastar-se a si mesmo, vivendo sempre dos outros, veio logo perguntar:

— Quem é a besta, quem é a besta?

Carvalhosa fitou Reinaldo. Dâmaso viu que não se conheciam; fez logo as apresentações, muito cerimoniosamente.

— Tenho muita honra — disse Reinaldo, cumprimentando. — Tive o prazer de o ouvir na Câmara. Eu vou muito à Câmara. Ainda ontem lá estive.

— Interessa-se pela... — começou Carvalhosa, brincando com os berloques do relógio.

— Não. É que fui a acompanhar uma rapariga espanhola que estava com muita curiosidade. Há de conhecer... É da... — e falou-lhe ao ouvido: — A Lola — disse alto —, a Magrita.

— Ah, sim, sim — disse Carvalhosa, e afastaram-se, muito unidos, cochichando.

Vítor voltara ao gabinete de cretone azul; no sofá, isolado, estava Pascoal Pimenta; roía as unhas, bamboleava as pernas.

Vítor não o conhecia, mas, sentando-se, lançando uma baforada de fumo:

— A questão, há pouco ia-se azedando — disse.

— É um asno — disse Pimenta, friamente.

Mas então o poeta lírico entrou, acendeu o cigarro, sentou-se noutro canto; lançava o olhar viperino, por trás de umas lunetas áureas, ao jornalista, com os braços cruzados, os pés cruzados. E todos os três fumando como chaminés, estavam imóveis e calados, como ídolos. Mas a figura de Madame de Molineux apareceu à porta.

— Cuidei que tinham fugido! — E o seu olhar foi direito a Vítor, mas, voltando-se para o poeta: — Sabe que chegou a sua vez? Aquelas senhoras estão ansiosas por o ouvir.

O poeta curvava-se, dobrava o espinhaço, mas a um gesto de Madame de Molineux, atirou o cigarro e, com um movimento, veio oferecer-lhe o braço.

— Outro asno — murmurou o jornalista.

Mas sentiu-se um prelúdio de piano. Vítor entrou na sala.

O ilustre Fonseca, com a cabeça no ar, o olhar errante, à parte, por trás dos seus óculos que reluziam à luz, passeava as pontas polpudas dos seus dedos de merceeiro, de leve, sobre o teclado sonoro. Uma lenta harmonia velada elevava-se; as duas velas do piano, com um enorme morrão, vermelhejavam, e ao lado, de pé, o poeta lírico passava, um pouco trémulo, as mãos pela barba. Olhou em redor, fincou a luneta, tossiu.

Ele estava de pé, ao piano; os seus cabelos, que a luz fazia parecer um pouco castanhos, compridos, com pêlos caídos sobre a gola; a barba, atravessada pela claridade da vela, parecia mais fraca, como uma penugem de algodão, e suja; e num movimento do seu rosto pálido, os vidros defumados das lunetas tinham reflexos negros. E de repente disse:

— Contemplação-Visão. É o título do poema. — Tossiu, declamou:

 

Tudo está lindo e calado.

Há crepes no horizonte.

A água que cai do monte

Geme no fundo do vale.

As aves vão emigrando

Pra os doces calores do sul.

Ébrias de luz e de azul

Vão fugindo ao vendaval.

Para que fugis para longe

O doces aves do céu?...

 

E o poeta apostrofava os passarinhos, pedia-lhes o segredo do seu voo: o que os fazia fugir? Era a injustiça dos grandes? Era ver o talento humilhado? A poesia tornava-se socialista, amarga. A voz do poeta tornou-se cava, e o ilustre Fonseca, procurando o pedal, com o gesto ansioso, bateu os bordões graves do teclado. Aquilo tornava-se lúgubre. Mas então, de repente, o poeta sorriu e, como uma aberta num céu de Inverno, saiu-lhe da boca, com o seu som fanhoso, uma estrofe alegre: a estação mudara; a neve tinha derretido; flores rebentavam:

É Primavera, é verdura. Tudo sorri: céu e terra. Cansados de infernal guerra. Cantam o espesso árvoredo, As margaridas no prado; As virgens falam de amor E está debruçada a flor, Dizendo ao lago um segredo!

— Muito bonito, muito bonito — disseram vários.

Mas então o poeta voltou a enlutar-se; a voz escureceu-se. O ilustre Fonseca procurou o pedal; um acompanhamento semelhante ao dobre dos finados ecoou na sala; os olhos da mulher do alferes alargaram-se com cintilações piedosas. E o poeta disse as suas amarguras; naquela festa da natureza só ele estava triste; desprezava o mundo, não via nele senão fel; desprezava os potentados, exércitos, o brônzeo canhão; preferia a tudo a singela violeta.

Mas de repente a poesia encheu-se de alegria; uma felicidade transbordava das estrofes, como de taças cheias, escorria pelas rimas. O que o consolava? O quê?

Porque sinto este meu peito. Que era um campo ressequido Tornar-se prado florido...

E todos esperavam, ansiosos, a explicação daquela felicidade. Mas então a porta abriu-se; dois homens entraram. Dâmaso fez-lhes «chut», com um olhar ansioso, o dedo sobre o nariz acachapado. E os dois homens ficaram imóveis, encostados à parede; um vestido de baile, com o hábito de Cristo, era o Marinho, que se mexia, encostado à parede; o outro era um homem alto, corpulento, de uma palidez de mármore, grandes cabelos luzidios. Deitava-os para trás, compridos; um chapéu, de parte, de cetim; o bigode levantado; todos os movimentos de um cantor e as atitudes de um charlatão.

Foi logo muito olhado. Cochichou-se baixo. O poeta percebeu que a atenção lhe fugia por entre as estrofes, como uma pouca de água por entre os dedos. E procurava cravar o interesse; o que o consolava? ELA!

Via-a numa noite doce, Em que o rouxinol cantava, E todo o céu se estrelava, Luminoso pavilhão:

 

Era Sintra! Sinto ainda

O doce correr das fontes

E a sombra nas nossas caras

Das árvores do Ramalhão.

 

A poesia tornava-se indiscreta: Roma cantava passeios comprometedores, apelava para os astros, para os balcões:

 

Não revelem o segredo,

Ó relvas do prado ameno!

 

Mas, ao seu ver, embruteciam-se. O ilustre Fonseca procurou o pedal; o Roma voltou às estrofes de desdém:

 

Tudo findou. Sobre a terra.

Erro, sombra fugitiva.

Tudo odeio: a flor mais viva

É para mim flor de Averno.

Por mais que as fontes murmurem.