A Tragédia da Rua das Flores
Capítulo XI · Quando Vítor, às sete horas da tarde…
Quando Vítor, às sete horas da tarde do primeiro de Abril, entrou em casa de Genoveva, ficou surpreendido: não conhecia ninguém.
Com efeito, Genoveva tinha dito a Dâmaso:
— Para jantar aqui, tudo menos aquela gente da soirée; nada de académicos caturras, nem de poetas polémicos; nem de velhas de turbante. Quero gente lavada, com toilette e com graça.
E Dâmaso, depois de combinações complicadas, tinha submetido a Genoveva uma lista; ela conhecia algumas das pessoas; outras pareceram-lhe aceitáveis, pela sonoridade dos nomes e por excentricidades biográficas. E Dâmaso, radioso, reuniu enfim... como disse depois... «uma sociedade do primeiro chique».
A sala estava fortemente iluminada pelo lustre de gás; sobre a mesa, serpentinas doiradas punham o clarão elegante de muitas velas de estearina; ramos de camélias e de violetas, nos vasos; o piano estava aberto; as cores dos vestidos, as gravatas brancas dos homens, destacando na decoração um pouco escura dos estofos da sala, davam um aspeto rico que completava o murmúrio discreto das conversas e o palpitar brando dos leques.
Genoveva adiantou-se logo para Vítor. Estava maravilhosamente bela; tinha um vestido de faille, cor de milho, com magníficas rendas; o decote quadrado, mas baixo, mostrava o esplendor dos ombros, a delicada carnação do peito; a manga descia apenas até ao cotovelo, envolvendo o braço num fofo de rendas; os seus cabelos loiros, penteados simplesmente, a inglesa, ligeiramente ondeados, tinham apenas por enfeite barbeia de milho; tinha um vago ar branco-pálido e aquela combinação do tom pálido e da cor do milho tomava uma beleza imponentemente elegante e aristocrática; não tinha joias e, no corpete, uma soberba rosa magenta punha, na decoração delicada de uma curva, um ponto de cor vigoroso e atrevido.
E a pressão apaixonada da sua mão deu a Vítor uma sensação deliciosa de orgulho, de amores misteriosos. Por uma impressão, Vítor curvou-se e beijou-lhe a mão. Madame de Molineux foi logo apresentá-lo à senhora que ele devia conduzir à mesa: Madame Sivalli; era uma segunda dama de S. Carlos, alta, forte, com um nariz borbónico, o cabelo de azeviche, uns dentes esplêndidos; tinha feito a sua carreira italiana no teatro excêntrico da América do Sul; conhecia o México, o Peru, o Chile, um pouco o Brasil; fora muito tempo dama em Covent Garden, falava com finura todas as línguas, mesmo um pouco o português; e das suas viagens, das suas aventuras, ganhara uma vivacidade original de conversa, uma acumulação pitoresca de anedotas e atrevimentos masculinos; tinha uma toilette um pouco violenta, onde se ressentia o gosto aparatoso e detonante de Havana ou de Valparaíso, e as suas maneiras tinham o desenvolto de bastidor, combinado com um cerimonial veneziano.
Depois, Dâmaso apresentou-o a dois homens. Vítor conhecia-os da rua: um era o conde de Val-Moral; conservava-se de pé, imóvel, numa correção palaciana; já viera uma vez a casa de Genoveva e ela dizia que «sendo insuportável pela estupidez, era indispensável pela figura»; era com efeito um destes personagens mudos e impassíveis, muito apreciados em Londres e Paris, e cuja figura, bela e decorativa, era na sala como um vaso raro ou um quadro moderno. Sendo loiro, era todavia útil, porque as guarnições e os estofos tinham um tom escuro. «Em Paris» dissera Madame de Molineux, «este imbecil poderia viver, alugando-se, por vinte libras, para jantares de cerimónia.» Era alto, bem proporcionado, tinha uma fisionomia de raça, com certas linhas patriciais, uma bela barba loira, uma correção pura de toilette; educado no estrangeiro, as suas maneiras, a sua gravata de pintas quadradas, as suas meias de seda preta, tinham o estilo exato; passava pela «pessoa mais fina de Lisboa»; era casado e, sempre de pé, em atitudes convencionais e formalistas, com o peitilho resplandecente e rijo; exprimia-se com a imbecilidade de um figurino e a majestade de instituição, era grande jogador de whisz e casado com uma senhora ilustre que tinha um amante no comércio. Seria inteiramente feliz, se não sofresse dos calos.
— Tu conheces o Dom João Maia? — perguntou Dâmaso a Vítor.
— De vista.
E Dâmaso apresentou-o. D. João Maia era filho de uma das mais velhas casas de Portugal. Uma velha tia dele, senhora temível pela maneira de perguntar acerca das pessoas — peão?», «é vilão?» —, dizia ordinariamente «o nosso avô Egas Moniz». Mas D. João da Maia era republicano; era-o pelo menos secretamente, porque, tendo a convicção enraizada de que os republicanos não se lavavam, hesitava em publicar a sua simpatia revolucionária. Ligava-se porém facilmente com gente do povo, gostava de comidas ordinárias: caldo verde, bacalhau, etc. Era fácil encontrá-lo nas tavernas e apreciava a conversa dos fadistas; tinha porém as maneiras muito delicadas, os hábitos mais finos e predileção literária. Pertencendo a uma família devota, era ateu. Não acreditava em Deus e detestava os padres; a música de igreja comovia-o e tinha uma certa religião refinada, elegante e romanesca pelo Cristo poético, com túnica, o lenho branco perfumado por Madalena, loiro e dizendo parábolas, com jovens, à beira dos lagos doces da Galileia. Exaltava-se pela arte, adorava Alfred de Musset. E o seu normal era procurar o divertimento, fugir da seca. Falava com graça, tinha, de repente, ditos que faziam abrir os olhos e davam o encanto de uma linda luz doce.
Era alto, bonito, com o cabelo muito anelado, com ar lânguido; arrastava-se, meio deitado, pelo sofá; tinha com as mulheres um ar carinhoso e íntimo a que o seu sorriso dava muito encanto; era de uma generosidade de nababo, sendo pobre como Job. Os credores, todavia, não o torturavam; tinha com eles denguices sedutoras. Fora educado em Inglaterra; era recebido nalgumas balas aristocráticas de S. James Square; tinha entrado num dos clubes de Pall Mall, mas preferia dançar no Argile, ou jogar o boxe nas docas de Londres.
Dizia-se dele: «É um estroina!» Não lho diziam, todavia, alto, porque tinha uma facilidade extrema em dar bofetadas, ou quebrar uma cabeça; é verdade que, depois, era o próprio a levar o ferido, a pôr-lhe pontos na primeira botica, a metê-lo num trem e tornar com ele à família. Estava sempre em dificuldades de dinheiro ou de mulheres; mas aos seus amigos contava, rindo, os seus casos e achava sempre uma bolsa dedicada, ou uma atividade experiente. Vivia pelos hotéis, gastando muito, com os relógios muitas vezes no prego; fazia esmolas e, quando não tinha dinheiro, metia-se na cama, com um romance, um livro de ciências e uma garrafa de champanhe.
Em toda a parte estava à vontade; tinha um ar de príncipe bom rapaz. Genoveva admirava-o muito. Dizia: «É impossível ter uma paixão por ele, mas é difícil não ter um capricho!» Foi uma das personalidades mais simpáticas e destacou vivamente no fundo banal da Lisboa burguesa. Por isso, chamavam-lhe doido.
Mas uma das pessoas que mais impressionavam Vítor era uma senhora que, no sofá, conversava com Genoveva. Ouvira-lhe chamar D. Joana Coutinho. Era extremamente alta, magríssima, vaporosa, débil; tinha um vestido azul, com foles, tules, gazes, que flutuavam incertos, de cores fofas e leves; os seus olhos pretos tinham um olhar meigo e temo; os gestos dos seus braços tinham a impaciente volubilidade de asas; estava meio deitada e meio pousada no sofá e, com as suas formas transparentes, os seus tules, as suas gazes, parecia prestes a voar e desaparecer.
— Quem é — perguntou ele a D. João da Maia.
— Uma alma! — respondeu o descendente de Egas Moniz.
— E a outra? — E indicava uma mulher bem feita, com um vestido escarlate e justo, de um loiro cor de manteiga, e com os beiços tão finos que a sua boca era uma fenda, e o nariz um pouco arrebitado.
— Madalena Gordon. Nada que ver com o duque de Richmond e Gordon. Não. É uma dançarina; está com o barão de Means, o velho de chinó. Não está aqui. A donzela veio só. É um bom conhecimento; dá ceias, não se seca à gente. Mas muito virtuosa; estupidamente virtuosa, com um grande horror aos homens e um grande fraco pelas mulheres.
Mas davam sete horas no relógio da sala e imediatamente Genoveva foi tomar o braço do conde de Val-Moral; Dâmaso, gordinho e jubiloso, precipitou-se a agarrar o seu par, D. Joana Coutinho, e desfilaram com solenidade de préstito, com o frufru das caudas de seda, pelo corredor tapetado.
— Esta casa tem um estilo chique — observou Madame Sivalli a Vítor.
A mesa brilhava de luz viva de um lustre de gás; as facas novas reluziam ao pé dos pratos de ostras; em torno de dois vasos de flores estava disposta a sobremesa; os vidros, delgados e picados de luz, dos copos tinham uma doçura atraente e errava um vago aroma brando do cheiro de limão; e sobre um alto aparador, um alto globo carcel punha pontas vivas de luz na curva dos pratos e no bordo das travessas. Dois criados do Dâmaso serviam, com outro do Hotel Central.
Como a mesa era quadrada, cada um dos pares ocupava um dos lados. Genoveva, que tinha à sua esquerda o conde de Val-Moral, pôs logo o seu pezinho sobre o pé de Vítor, com uma pressão apaixonada. E cada um dos convidados, ao desdobrar o guardanapo, achou, na prega, um raminho de violetas.
— Vêem-se bem as opiniões bonapartistas da casa — observou D. João da Maia, à sua vizinha, a alemã Gordon, e à vaporosa Coutinho.
— É a minha flor predileta — respondeu a Coutinho. — Nenhuma flor tão poética...
E punha a cabeça de lado, com uma expressão desfalecida. João bem depressa se voltou para a Madalena, pedindo-lhe notícias daquele excelente barão. Ainda tinha a mesma sorte ao bacará? Tinha-o delapidado de oito libras, na última vez que ceara em casa dele; fazia verdadeiramente justiça ao provérbio que a felicidade ao jogo traz desventuras aos amores. A alemã respondia por monossílabos; os seus olhos frios e azuis, de pestanas brancas, não cessavam de admirar Genoveva.
— É adorável, não é verdade? perguntou-lhe João, seguindo a direção do seu olharzinho de uma lubricidade seca.
— E perfeita — disse a alemã.
João então quis saber o que ela considerava a mulher perfeita e, como ela hesitava, retraindo-se, franzindo os seus beiços secos. João erguendo a voz, pediu as várias opiniões, «como se estivessem no concílio».
D. Joana Coutinho achava perfeita a mulher com alma, «com uma alma nobre, entenda-se».
Dâmaso estendeu o pescoço no colarinho e, com um olhar sátiro para Genoveva, disse com autoridade:
A mulher perfeita é cá uma pessoa que eu conheço...
— Não vale! Não vale! Fala-se em geral — disseram.
E Vítor, interrogado, respondeu:
— A que se ama! — E o seu pé indicou a Genoveva em quem ele pensava.
Mas quiseram então conhecer a opinião do conde. Direito, ornando a mesa pela bela solenidade do seu aspeto, conservara-se calado, os cotovelos cerrados ao corpo, pegando no garfo e na faca com delicadeza escrupulosa e arrebitação de dedos que fazia reluzir os seus anéis; sorriu, refletiu, respondeu com voz espessa:
— Por exemplo, sua majestade.
— Não vale! Não vale! — exclamou logo João da Maia.
— Fala-se em geral e, além disso, é ferir sem razão os meus sentimentos republicanos...
— E os meus! acudiu Vítor.
E amargurar-nos a sopa! resumiu João.
O conde, assustado, disse, pondo a mão sobre o peito:
— Eu peço perdão, se...
Tranquilizaram-no, afirmaram-lhe que era uma brincadeira.
— O meu respeito pela opinião... — balbuciava o conde.
— Mas não! Não! — disseram. — São ares que se dão! São lá republicanos...
E João da Maia, então, para divertir as senhoras, contou uma conspiração de que tinha feito parte para proclamar a república. O local era um quarto andar, na Rua dos Capelistas; o santo e senha era: Sic itur ad astra , o que, segundo João, era excessivamente apropriado, quando se tinha de subir ao quarto andar.
«Era divertidíssimo», dizia, «nunca lá vira sequeira. O plano era simples: era reunir seis mil operários; compravam armas, atacavam o Castelo de São Jorge e depois, de lá, desciam para a Baixa da cidade: agora, ou a república, ou a metralha.»
— Todos os lojistas, todos os proprietários que têm os seus armazéns, os seus prédios na Baixa, votavam naturalmente pela república; depois, instituía-se o tribunal revolucionário; tínhamos já a lista das vítimas: na frente, a família real, depois... lá estavas tu, Dâmaso. Eram duas ou três mil cabeças. Cada um levaria, todas as noites, uma lista de pessoas que deviam ser sacrificadas, O padre Melo, um tipo, tinha dado os nomes de todos os bispos; eu dei o nome de todos os meus credores, já se vê. E a coisa gorou, porque faltou o dinheiro para as armas; nunca reunimos mais de sete mil e duzentos réis, dos quais eu dei uma libra. Por fim, o padre Melo desapareceu com o cofre... e a ordem prevaleceu... Sim, Chablis — disse ao criado que, por trás, se inclinava com a garrafa na mão.
E Dâmaso logo chamou a atenção do conde para o Chablis. «Que lhe parecia? Que lhe parecia!»
O conde provou, refletiu, concentrou-se cerrando os olhos, e disse com um tom profundo:
— Chablis.
— Sim, mas que tal? — insistiu Dâmaso, com a prospeção de dono da casa.
Depois, olhou para os criados; sorria, repoltreava-se, contemplava Genoveva.
— Que tal, que tal?
O conde, que não cessara de refletir:
— Bom Chablis.
D. Joana Coutinho dizia a João da Maia.
— Eu, o meu vinho é o Lacrima-Christi. Uma gota de Lacrima-Christi!
De resto, achava muito ridículo beber vinho e comer; não se devia comer em público; ficava sempre mal a uma senhora.
— A minha ideia tem sempre sido que as pessoas verdadeiramente delicadas deviam reunir-se para comer morangos e beber leite...
— E depois, na alcova, a portas fechadas — disse João —, devorar as boas postas de carne!
— Que horror! — fez ela enojada.
Mas comia: apenas com as pontas dos dedos, debicava migalhinhas de pão; os seus movimentos sobre a cadeira pareciam de uma ave assustada e constantemente em volta dela havia uma gaze, uma renda ou um tule, que punha sobre a sua pessoa transparências vaporosas e a ideia de asas.
Mas João da Maia tinha perguntado, através da mesa, a Vítor:
— Pois não é sua opinião?
E como quiseram saber a «questão», João disse:
— Dizia eu a esta senhora que achava horrível afetar horror pela comida sólida e necessária. Oh, não falo pela senhora dona Joana. Mas, por exemplo, é o mesmo que com o amor platónico. Há mulheres que não falam senão da alma, que dizem ao seu admirador: «Ah, meu amigo, os desejos carnais, que horror, que nojo», etc., e parece que vivem num estado de pureza ideal; pois bem, ordinariamente, ordinariamente são pessoas que têm maridos robustos, que lhes fornecem um...
D. Joana protestou horrorizada: «Que conversa!» Genoveva mesmo tomou uma expressão séria; a alemã franzia os beiços, numa desaprovação desdenhosa, e Dâmaso, debruçando-se para João, repreensivamente, quase aflito:
— Ó menino!...
João calou-se, sorriu e disse baixo a Dâmaso, num mau alemão de colégio:
— É um convento isto?
— É uma sala — respondeu pretensiosamente a concubina do barão.
«Bando de desavergonhados!», pensou João.
Mas a excelente Sivalli tinha retomado a «questão» com Vítor e dizia:
— Eu nunca acreditei no amor platónico; nos homens, já se entende o que é... — E ria, com muita malícia, com o guardanapo sobre o rosto. — Nas mulheres é desejo que se empregue a força...
— Claro — disse Genoveva, franzindo a testa.
— Ah, bem, não se pode rir um bocado; deixe-nos conversar; não há nada melhor do que falar de pecados, a não ser autênticos.
João quis ouvir, saudou-a, de longe, com o cálice do Bordeaux, confraternizando, no amor de conversas libertinas.
Mas algumas palavras altas de D. Joana Coutinho fizeram recair a conversa sobre as peregrinações a Nossa Senhora de Lurdes e sobre a água milagrosa.
As senhoras extasiavam-se sobre a virtude sublime daquela fonte.
— Tem? — perguntou D. Joana a Genoveva.
Infelizmente não tinha; em Paris, sim, que lhe dera o abade Beauvet da Madeleine.
— Eu tenho — disse a alemã.
E corou, com uma simpatia entusiasta, devota e satisfeita.
D. Joana disse, chegando o cálice aos lábios, bebendo um golo:
— É um bálsamo celeste.
Dâmaso, que julgava que ela exaltava o Bordeux, acudiu:
— Oh, excelente! É Chateau-Léonville; prefiro muito ao Margaux.
— Impiedade não! Impiedade não! — disse desolada D. Joana.
— É do mais detestável gosto — disse imperiosamente Genoveva.
— Minha rica... — exclamou Dâmaso, aterrado. — Eu supunha...
— Genoveva cortou secamente:
— Basta!
Dâmaso fez-se escarlate. Houve um leve silêncio. E João da Maia perguntou, com serenidade:
— Bebe-se com vinho, a água da nossa Senhora de Lurdes? — E vendo as expressões escandalizadas: — Oh, perdão, eu sei perfeitamente o que digo. É uma opinião que ouvi exprimir a altas autoridades eclesiásticas. O ano passado, em Roma, em casa da princesa de Barbaccini... — e tomando um tom pomposo de cerimonial —, estava o cardeal Cazabianca, monsenhor Bassorchi, dois prelados da Câmara, sua graça de Norfolk, estava... — e procurou recordar-se de outras ilustrações devotas.
As mulheres escutavam-no agora, atentas, atraídas; havia nas cabeças curvadas, no silêncio simpático; uma reverência elegante por aquela enumeração católica.
Estava, enfim, tudo, o melhor de Roma, e eu ouvi dizer ao abade de la Chermaye, um santo, que, em caso de doença, se podia tomar a água da nossa Senhora de Lurdes com um dedo de vinho de Espanha.
— Nunca ouvi! — disse D. Joana, admirada.
— Cito opiniões romanas, minha senhora!
Houve um silêncio discreto; pareciam saborear aquela revelação de uma verdade santa e João da Maia pensava, baixo: «Que grandes pândegas! Que patusca espécie de mulheres!»
Mas Dâmaso, então, a quem o jantar dava sempre uma alegria loquaz, um desenvolvimento, deixou cair, sobre Nossa Senhora de Lurdes, a sua opinião:
— Carolices!
D. Joana Coutinho pareceu muito chocada e Genoveva declarou excessivamente burguesas e de mau tom as facécias de ateísmo...
— Quanto mais — acrescentou Vítor, que queria enterrar a besta do Dâmaso — ... quanto mais que as crenças são as consolações de muitos infelizes, de entrevados, de doentes, que não têm outra esperança, para quem Nossa Senhora de Lurdes é a esperança suprema.
Aquilo pareceu muito bem dito, muito elegante, aristocrático. O conde mesmo aprovou com a cabeça. Genoveva disse:
— Fala como um coração.
E o seu olhar beijou-o, cheia de reconhecimento.
No entanto, o conde torturava o intelecto para dizer alguma coisa a Genoveva. Enfim, depois de grandes preparativos internos, perguntou-lhe se ela tencionava ir às corridas, a Belém.
Genoveva «não lhe parecia». Tinha ouvido dizer que era uma sensaboria mortal.
Dâmaso protestou, falou na tribuna do hipódromo, nos cavalos de raça, em jóqueis ingleses que deviam vir...
E Vítor, interrompendo-o:
— Madame de Molineux tem razão. As corridas fazem dormir. Falta tudo o que constitui a animação da corrida: as mulheres elegantes, drags a quatro cavalos, o champanhe bebido no alto dos breques, a excitação das apostas...
E irritou tanto Dâmaso, amesquinhando as pilecas, que o obrigou a exclamar, vermelho:
— Ora, que sabes tu disso?
— E tu? — disse Vítor.
Madame de Molineux declarou logo que Vítor tinha razão. O verdadeiro divertimento nacional eram os touros; para as corridas, nem havia público, nem cavalos, nem jóqueis, nem dinheiro...
João da Maia acrescentou:
— É uma caricatura! São como os saltos do Campo Grande: uns sujeitos, em cavalos de aluguel, a tropeçar numa sebe artificial e raminhos de árvores sustentados por dois galegos. É grotesco...
— Mas... — disse Dâmaso.
— Basta, meu amigo — disse Genoveva. — Como sportman, não tenho fé em si.
Dâmaso, rubro, humilhado, não achou uma palavra e bebeu, de um trago, um grande copo de vinho.
Mas D. Joana Coutinho achava todos esses divertimentos brutais e próprios de gente grosseira: «Touros, corridas, sports, luta atlética, croquete... que significa tudo isso? Um emprego estúpido da força. Pouca delicadeza de alma. Um homem devia ocupar-se de outras coisas.»
— De quê? — perguntou João.
— De coisas nobres, de sentimentos elevados, grandes ações.
— Mas uma pessoa não pode estar todo o dia a fazer grandes ações...
— Mas deve ler os poetas, cultivar-se pelos grandes homens — e voltando-se para Dâmaso: — Qual é o seu poeta favorito?
Dâmaso torceu a cara, balbuciou:
— Assim de repente, não me lembro...
— Ah! — acudiu Genoveva —, não lhe perguntem isso. Tem ódio à letra redonda.
— Perdão... — interrompeu ele.
— Um ódio irreconciliável à letra redonda e à água fria — acrescentou com um risinho, recostando-se na cadeira.
Todos riram. Dâmaso estava furioso. Porque eram aqueles ataques? Dera-lhe, nessa manhã, três contos de réis de inscrições e aquela hostilidade revoltava-o como uma ingratidão, assustava-o como um rompimento. E desesperado de não achar uma réplica vingadora, refugiou-se no Bordeux e no salmis de perdiz.
Mas D. Joana Coutinho, que se ocupava de literatura, «único emprego de uma alma nobre», e que admirava Vítor, pela sua beleza e pela sua devoção a Nossa Senhora de Lurdes, disse-lhe, com um sorriso muito afetuoso:
— Sei que faz versos...
Felicitaram-no, pediram-lhe logo para recitar, depois do jantar.
Vítor, com modéstia, disse que era apenas um curioso; não era poeta lírico de profissão; achava mesmo a profissão ridícula; mas havia certas sensações, certos entusiasmos, certas confissões, que se deveriam fazer em verso ou em música... e como não sabia música... «assim» pensava, «como se há de contar a uma mulher que se sonhou com ela, sem ser em verso? Como se lhe há de exprimir tantos sentimentos delicados, que o seu amor faz nascer...? A prosa não dá. As mulheres», disse, «havia-se de falar de joelhos, ou em verso».
Todos aplaudiram. Vindo de um rapaz tão bonito aquela sentimentalidade parecia deliciosa. D. Joana Coutinho tomava posições e atitudes de uma melancolia extática. Mesmo a Sivalli, apesar da sua vivacidade irónica, achava aquilo muito artístico. E Vítor, animado, dilatado na simpatia quente que o envolvia, um pouco surpreendido de achar em si um desembaraço tão fácil de palavras literárias, disse a Dâmaso:
— É o que tu fazes, penso! É impossível, como um elegante, que não mandes todas as manhãs à pessoa que amas um ramo de flores e um soneto. É o estilo. Qual foi o teu soneto de hoje?
Dâmaso estava tão desesperado que respondeu brutalmente:
— Ora mete-te com a tua vida...
— Oh, perdoa! Perdoa!
Genoveva fizera-se pálida, mordeu nervosamente os beiços; e todos pareciam surpreendidos daquela grosseria brusca. E João da Maia, que se divertia, disse:
— Não. Realmente o amigo Dâmaso tem razão: não se deve pedir a um amante a confissão das suas expansões.
— São sempre daquele género as suas expansões — disse Genoveva, secamente.
Começava a nascer um certo embaraço. Todos compreendiam que Genoveva queria humilhar Dâmaso. Porquê?
— Não me parece que estes dois estejam na lua-de-mel — disse João, baixo, à alemã.
— Eu acho-o desagradável — disse a alemã, olhando Dâmaso.
— É um imbecil, mas tem bom vinho. — E erguendo a voz: — Mas o senhor Silva, para poeta, não me parece muito pacífico. Viu-o, no outro dia, dar umas bengaladas, na Rua do Alecrim, com um desembaraço respeitável...
Todos o olharam com uma certa admiração.
— Ah! — disse Genoveva —, foi num amigo do Dâmaso.
— Os meus amigos não levam assim bengaladas...
— Não — acudiu Vítor. — Apenas ergui a bengala, gritou logo pela Polícia.
Desde esse momento, como disse João da Maia à alemã, o Jantar estava estragado. Realmente era absurdo convidar-se pessoas desprevenidas para assistirem a cenas de família, «não é verdade?»
No ânimo de todos estava estabelecida a certeza de que Vítor era amante de Genoveva e que havia ali uma pequena comédia de ciúmes assustadores. Um embaraço crescente tornava a conversa espessa, pesada. Dâmaso comia calado e soturno. O conde, que achava tudo aquilo pulha, mantinha um silêncio digno. A alemã admirava Genoveva; D. João da Maia, Vítor; e os outros continuavam diálogos, preguiçosos.
João da Maia e Vítor falavam de duelos; Genoveva e a Savalli, de Paris, de amigos comuns.
— Não acha que o senhor Silva se parece com Genoveva? — perguntou a alemã a João, baixo.
— Não me parece muito... Com efeito, há o que quer que seja. Se ela não pintasse o cabelo, realmente haveria uma semelhança...
Tinha-se servido o champanhe e quando, no fim da sobremesa, Madame de Molineux calçou devagar as suas luvas e se ergueu, houve em todos um alívio, porque, como se expressou João da Maia, «o jantar tinha estado secante».
Dâmaso, que ficara um pouco atrás, disse a Vítor, com um risinho amargo:
— Estiveste muito engraçado.
— E tu, muito mono, meu amigo.
Dâmaso não achou réplica e entrou na sala, mordendo o charuto com rancor.
O conde tinha-se sentado ao piano; preludiava; e Madame Savalli estava de pé, ao lado; trauteava baixo, batendo, de leve, o compasso com o leque sobre o piano, e atirando com o calcanhar a sua longa cauda, colocou-se por trás do conde; os seus lábios entreabriram-se e a sua voz de contralto elevou-se, num ritmo grave e solene. Era uma canção da Campânia; por vezes a melodia balançava languidamente, numa ondulação larga e voluptuosa; e elevando-se num crescendo amoroso, multiplicava as notas altas e apaixonadas, que tinham uma insistência ardente de uma suplicação amorosa; e a Sivalli inclinava a cabeça para trás, mostrando uma bela garganta branca de italiana nutrida.
Depois, algumas pessoas chegaram: o Sr. Elisiano Macedo, que trouxe o seu violoncelo; Sarrotini, jovial, palavroso, enchendo a sala com o espetáculo ruidoso da sua pessoa; Marinho, todo cheio de sorrisos discretos e shake-hands íntimos.
Genoveva recebeu-os a todos com uma graça cerimoniosa, com palavras simpáticas, mostrando, num sorriso igual, os dentinhos esmaltados. Parecia ter perdido a irritação nervosa do jantar, e a sua pessoa, a sua toilette, a nudez do seu colo, o seu pescoço branco de movimento doce, a beleza de figura, davam a Vítor uma exaltação tão profunda que era quase dolorosa. O vinho de Borgonha, além disso, punha-lhe no sangue um vigor amoroso e errava pela sala, procurando um momento de lhe dizer, baixo, toda a admiração da sua alma. E vendo, enfim, no sofá, um lugar ao pé dela, apoderou-se dele sofregamente e, baixo:
— Genoveva estás admirável. Queria-te ver só. Pelo amor de Deus, não me mandes hoje embora...
Ela abriu devagar o leque e, recostando-se no sofá, disse devagar:
— Escuta: às onze horas, sai, põe o teu paletó e fica, em baixo, na portaria; e espera. A Mélanie há de te ir buscar e mete-te no quarto dela. E não me fales muito durante a noite, nem te mostres muito alegre.
E inclinou-se para Sarrotini, que se curvava diante dela, perguntando se não teria a honra de escutar a sua voz divina.
Vítor afastou-se, tão perturbado que nem pôde responder ao Elisiano, que lhe perguntava por Cerrão. Sentia o coração bater-lhe no peito, com palpitações aflitas; um orgulho imenso dilatava-o. A luz, as toilettes das mulheres, as gravatas brancas dos homens, a música, eram outras tantas excitações para o seu amor e combustões numa fornalha. E a certeza de que ia possuir aquela mulher e o encanto do mistério davam-lhe um delírio indominável. Foi para o fumoir ao lado, deixou-se cair num sofá, afastou os braços, um suspiro profundo exalou-se do seu peito e ficou com os olhos cerrados, imóvel, como num espasmo de felicidade.
Um ranger de bota no tapete: Marinho estava ao pé dele, no sofá, e imediatamente encetou o elogio de Madame de Molineux: «Nunca a vira tão linda! Positivamente, andava na vida como os caranguejos: para trás. Ninguém lhe daria mais de vinte e cinco anos. Que mulher! O maroto do Dâmaso, hem? Estava-se a arruinar, mas que diabo! Il en avait pour son argent!
Deu uma risadinha e ia continuar, quando sons de violoncelo se elevaram plangentemente. Era o Elisiano que tocava uma composição sobre a Ave Maria de Gounod. Aproximaram-se devagarinho da porta.
Com o seu cabelo loiro um pouco desmanchado, Elisiano, amparando o violoncelo nos braços, com o corpo curvado, passava-lhe o arco sobre as cordas, com a lenta languidez de carícias suaves. Aquilo parecia divino a Vítor; os sons levavam a alma para regiões sentimentais e vagas onde se sentia desfalecer, num amor místico e elegante. Todos estavam imóveis, calados; as casacas e as gravatas brancas punham, na sala, um tom de vida aristocrática a que dava relevo faustoso o ramo de camélias, à luz das serpentinas; aqui e além, palpitava um leque e a toilette, cor de milho, de Genoveva, o seu cabelo loiro destacando-se na tonalidade escura da sala, parecia de uma natureza luminosa e de uma substância mais fina.
Às vezes Vítor encontrava os seus olhos e, como levantada na delicadeza do violoncelo, a sua alma lançava-se para ela, por impulsos tão fortes e movimentos tão ávidos que o esforço que fazia para não se afastar do umbral da porta fazia-lhe tremer as mãos, como folhas ao vento.
Mas o último acorde soou; houve bravos, e Elisiano, que limpava o suor, devagar, ergueu-se; um murmúrio de conversas enchia a sala de uma sussurração festiva. De repente, Vítor lembrou-se da história do Marinho, que ele nunca acabara, e ia perguntar-lhe o final, mas viu-o muito absorvido numa conversa com Madame de Savalli. E foi o Sarrotini que lhe veio tomar o braço; o excelente homem aborrecia-se um pouco: «A primeira soirée que ali tinha passado é que fora boa, não é verdade? Tinha sido uma pândega, mas hoje estava-se muito sério, havia ares; não gostava daqueles; para ele, queria franqueza, boa rapaziada e risadas livres. Ela, Madame de Molineux, estava realmente deslumbrante: uma beltá fulgurante!»
Todos lhe diziam o mesmo e era a sua amante; dentro de duas horas, estaria na sua alcova.
Olhou o relógio e empalideceu, vendo que eram onze horas!
Veio logo apertar a mão de Madame de Molineux e vestia, no corredor, o seu paletó, quando Dâmaso veio dizer-lhe:
— Então, já?
— Estou incomodado...
— E tu desculpa aquelas coisas à mesa...
— Oh, menino!
— Está uma bonita festa, hem? — disse Dâmaso. Parecia agora inteiramente satisfeito. Ajudou a vestir-lhe o paletó; chamou Mélanie para lhe iluminar; ainda do alto da escada lhe disse:
— E aparece, homem, aparece!
E entrou na sala, radioso.
Genoveva chamou, com um gesto.
— Quem saiu?
— O Vítor.
— Ah! Escute, sente-se aqui.
E começou falando devagar, a queixar-se de que ele tivesse estado de tão mau humor à mesa.
— Para que estiveste tu a implicar comigo? Parecia estares a mostrar a esta gente toda que me não podes ver!
— E porque disse impiedades? Sabe que detesto gracejos sobre religião.
— Mas tu, menina, às vezes...
— Bem, quando estamos sós, no quarto. E ainda assim... Mas, no mundo, numa sala, a religião é uma questão de boa educação...
Ele ia erguer-se.
— Sente-se. Parece que lhe custa estar ao pé de mim. E além disso, eu desejo que o meu amante converse, tenha espírito, brilhe... Fez um papel peludo...
— Não sou literato — disse ele com desdém.
— Mesmo sem se ser literato, se conversa e se entretém... Estou com dores de cabeça — acrescentou. — Sabe? Hoje não sei se lhe poderei dar hospitalidade...
Mas Dâmaso indignou-se. Hoje, nos anos dela; hoje, que estava tão linda; que ele a amava tanto...
— Mas, pelo menos, quero que saia quando os outros saírem...
— Mas volto depois...
Genoveva não respondeu.
— Volto depois, à meia-noite, ou à uma hora.
Genoveva abria e fechava o leque, como distraída.
— Volto, hem?
Ela teve um pequeno sorrisinho de hesitação e, erguendo-se:
— Sim, pode ser...
Deu uma volta pela sala, com uma palavra aqui, um sorriso além e, atravessando o fumoir, foi rapidamente ao seu quarto; tocou a campainha; deu velocidade no toucador, um pote cheio de opópanax, os lençóis estavam entreabertos. Olhou-se ao espelho, suspirou fortemente. «Está jogada a carta», disse falando alto. Mélanie tinha entrado.
— Pronto?
— Sim, minha senhora. Está no meu quarto, fechado à chave — disse Mélanie rindo.
— Pobre querido! Leva-lhe uma garrafa de champanhe, um bolo, qualquer coisa. E estás bem certa no resto, não?... Logo que esta gente saia, vai à campainha da porta, embrulha-lhe o badalo em algodão, ou cortas o cordão. E depois, quer volte, quer grite, nem sequer se ouve mais aqui em casa.
Mélanie disse então:
— Era melhor que não houvesse barulho.
— Aquele animal diz que quer vir à uma hora. Que venha! Às vezes o melhor é uma desfeita brusca; evitavam-se complicações.
Ajeitou o cabelo, revirou-se diante do espelho, deu um olhar ao quarto... e entrou na sala.
— Estes senhores — veio logo dizer João da Maia — lembram uma valsa.
— Perfeitamente — disse ela, com um sorriso feliz.
Sarrotini e Elisiano arrumaram a jardineira. Falava-se alto, ria-se. E o conde, sentando-se gravemente ao piano, bateu os compassos do Danúbio Azul.
Pela uma hora, Dâmaso, muito abafado no seu paletó, descia pelo Largo do Barão de Quintela. A noite fizera-se muito cerrada. Gotas de chuva tinham caído. Abriu a porta da rua com a sua gazua, e, acendendo fósforos, subiu a escada. No segundo andar, um clarão súbito iluminou a escada de uma luz lívida e logo um trovão próximo rolou estridentemente.
Ao chegar ao patamar de Genoveva, puxou rapidamente o cordão da campainha. Não sentiu nenhum som. Esperou, sacudiu a corda violentamente. Nada tilintou.
«Caiu-lhe o badalo», pensou furioso.
Agachou, colou o ouvido à porta; havia um silêncio escuro e adormecido.
— E esta!
Deu em puxar, desesperado, o cordão: nada. Bateu com os nós dos dedos, impaciente. Sentia no silêncio bater-lhe o coração. Relâmpagos iluminavam, de repente, a escada; trovões estalavam, com um estampido despedaçante, por cima do telhado. Desesperou-se e, com o punho fechado, esmurrou a cancela; sacudiu-a; a lingueta tremia na fechadura, aos sacões frenéticos. Dentro, um silêncio impassível. Pensou que a trovoada impedia que ouvissem. E num intervalo, em que sentia gotas de chuva baterem a claraboia, atirou a ponta do sapato contra a porta. A violência do ruído assustou-o e a sua covardia acanhou-se diante do escândalo. Chamou pela criada:
— Mélanie! Mélanie!
Um trovão medonho ribombou, fazendo todo o céu sonoro.
Dâmaso estava frio. Tinha um vago susto, um desespero, uma desconfiança.
«Aqui há maroteira...», e numa raiva, abalou a porta, com pancadas formidáveis dos tacões. Nada.
«Ah, grande bêbada!», pensou e, agarrado à cancela, dava-lhe puxões frenéticos; escoucinhava-a; sentia um suor à raiz dos cabelos e os relâmpagos sucessivos faziam fechar os olhos, enquanto, logo, o estalo do trovão lhe dava um choque ao corpo.
Então, perdeu o domínio de si e atirou-se à casa, com pancadas dos tacões. De repente, no segundo andar, uma porta abriu-se e uma pessoa berrou:
— Que pouca-vergonha é essa aí em cima?
Dâmaso, aterrado, respondeu de um momento:
— Sou eu, estou a bater à porta.
— Mas que quer o senhor? — bradou a voz rouca . — Aí mora uma senhora só. Que escândalo é este de estar a deitar a porta a baixo, a esta hora da noite, num prédio respeitável?
A raiva deu a Dâmaso um ímpeto de coragem.
— E que tem você com isso?
— O que tenho? — rugiu a voz. — Eu já lhe digo o que tenho. Eu já lhe, digo com uma bengala.
E a pessoa entrou em casa, berrando.
Dâmaso teve um terror agudo de escândalo, de desordem, e, agarrado ao corrimão, desceu correndo as escadas, perseguido apenas pelos clarões vivos dos relâmpagos.
Na rua, foi logo olhar as janelas dos dois lados. A casa estava cerrada, apagada, muda.
Uma chuva torrencial caiu. Dâmaso não tinha guarda-chuva. Os seus sapatos de verniz chapinhavam as poças. Teve um desejo feroz de quebrar as janelas com pedras. Mas receou a patrulha, o alvoroço, a bengala do outro.
«Ah, grande bêbada!», rosnou, andando desenfreado, aflito, às escuras, à volta da casa.
Às vezes, um relâmpago vinha e na sua claridade límpida, ardente, ele via com uma nitidez toda a casa, as nódoas da fachada, os caixilhos das janelas, a grade de ferro da varanda, até a cor branca das portadas por trás das vidraças, com os seus transparentes meio descidos. Depois, na luz amarela, uma vaga difusão de cor vermelha; depois, houve um resplendor tão intenso que tudo parecia de luz, de um fogo branco... e logo a obscuridade espessa cerrava-se, através da qual rolava surdamente o trovão.
«Ah, bêbada, bêbada!»
Pôs-se a correr, sob as cordas de água que caíam, até ao Largo de Camões; não encontrou nenhuma carruagem. Furioso, meio alucinado de raiva, veio à Rua de S. Francisco; o Grémio estava fechado; «tudo se conjura contra mim!», rosnou, numa raiva colérica.
Desceu ao Rossio. Nem uma tipoia. E a chuva caía em torrentes grossas; os enxurros sussurravam e as luzes dos candeeiros viam-se através de uma névoa espessa e com feitios riscados de fios luminosos de água. Tinha quase as lágrimas nos olhos. Foi subir para casa; tinha as meias de seda molhadas; as abas do claque de cetim, deformadas pela chuva, entornavam-lhe água no pescoço; arfava, cansado, suando sob a frialdade, enturvando-se em fúrias ao atravessar o mercado; sentia as canelas trespassadas do molhado; com lágrimas na garganta, amaldiçoando Genoveva, chamando-lhe os nomes mais obscenos, imaginando vingança, num frenesim aflito... esteve ainda a dar argoladas na porta, meia hora, e quando o criado, estremunhado, veio abrir a porta, rompeu pela escada, grunhindo injúrias e obscenidades.
CAPÍTULO XII
Ao outro dia, às onze horas, Dâmaso foi a casa de Genoveva. A campainha tinha recuperado o som, mas Mélanie, através da cancela, disse-lhe que a senhora estava ainda recolhida.
— Porque diabo não abriram ontem à noite? Estive a bater mais de uma hora.
Mélanie encolheu os ombros, abriu grandes olhos: «Não tinha ouvido senão a trovoada. Que trovoada!»
— Abre a cancela.
— A senhora não recebe antes das três — e fechou a porta.
Dâmaso conteve-se, desceu a escada furioso, pensando:
«Aqui há maroteira!»
Voltou às três horas; vinha profundamente perturbado; parecia-lhe entrever em tudo aquilo, vagamente, uma traição. Estava profundamente apaixonado por Genoveva; além disso, o dinheiro que lhe dera, as despesas que fizera com a sua instalação, tornavam-lha preciosa. A sua vaidade tremia de a perder, ser suplantado, e aquele sentimento dava-lhe uma emoção... a mais forte que sentira na sua vida burguesa e que lhe causava quase terror.
Foi ainda Mélanie que lhe veio abrir e disse-lhe logo:
— Madame saiu e deixou este bilhete para si.
Mesmo no corredor, abriu e ficou petrificado, lendo:
Ontem não pude recebê-lo pela simples razão de que não estava só. Compreendo que as nossas relações, desde esta confissão, estão cortadas. Agradeço-lhe todos os cuidados que teve comigo e acredite na minha amizade. Remeterei sem demora um paletó que aqui está seu e alguns lenços. Espero da sua delicadeza que não insistirá em me ver. Seria provocar um conflito desagradável.
Dâmaso, maquinalmente, entrou na sala com o papel na mão; não achava uma palavra, uma ideia, uma resolução.
Mélanie, de pé, com os olhos no chão, as mãos nos bolsos do avental branco, esperava. Dâmaso, muito pálido, deu alguns passos pela sala, tomou a ler o bilhete, passou a mão convulsivamente pelos cabelos e, deixando-se cair no sofá:
— Isto só a mim! — murmurou. E voltando-se bruscamente para Mélanie: — Quem é que estava, quem é o desavergonhado?
Mélanie encolheu os ombros; não sabia nada; ela estava no seu serviço, não tinha visto ninguém.
Dâmaso olhou-a com rancor; parecia-lhe odiosa, com o seu rostinho vicioso e murcho, a cinta fina, o pé lançado para diante, calçado num sapatinho de laço.
— Tão boa és tu, como ela. Súcia de bêbadas!
Mas Mélanie declarou que não podia ouvir chamar nomes à senhora; ele não estava na sua casa; não podia consentir...
— E quando eu te dava as libras, então não havia rabugice!
— rugiu Dâmaso, lívido. — E quando eu lhe dava a ela uns centos de mil réis... aquela ladra! Grande asno que eu fui! A minha vontade era pôr tudo isto em pedaços — rugiu, olhando em redor os espelhos, os cortinados.
Mélanie teve um risinho.
— Tinha de o pagar outra vez.
Dâmaso fitou-a com ódio, mas o olhar imperturbável e atrevido de Mélanie, o seu sorrisinho desdenhoso, assustaram-no. Se não tivesse medo da Polícia, do escândalo, tinha-lhe dado bengaladas. Agarrou no chapéu.
— Isto não há de ficar assim. Isto não há de ficar assim!... Eu voltarei.
— A senhora não recebe...
— Vai para o inferno e essa ladra da tua ama! — Mas à porta, detendo-se, desvairado de curiosidade: — Ouve lá, Mélanie, dou-te duas libras, diz-me quem aqui esteve. — E tirou da algibeira as duas libras. — Toma.
Ela estendeu a mão logo, fê-las resvalar no bolso do avental, bateu-lhes em cima, para tilintarem e, baixando a voz:
— Ai, não era segredo. Era o senhor Vítor.
— Grande pulha!
E desceu as escadas, trémulo de raiva.
Às cinco horas, voltou. Mélanie disse que a senhora estava, mas não recebia. E fechou a porta.
Dâmaso, frenético, repicou a campainha, com desespero. Mélanie veio dizer, com ar irritado, que a senhora dizia que, se ele continuasse a fazer barulho, mandava chamar um polícia...
— Ladra! — berrou Dâmaso, quando Mélanie fechou violentamente a porta.
«Expulso! Ameaçado com a Polícia! E tinha gasto com ela mais de doze contos de réis! E na véspera, tinha-lhe ainda dado umas inscrições de três contos! E mobilara-lhe a casa! Oh, que ladra!»
Arfava, em suores, pelo Largo do Quintela fora; o seu cerebrozinho estava numa ebulição frenética; planeava difamá-la pelos jornais. Arranjaria quem desse uma sova de pau em Vítor. Sentia por ambos um ódio feroz, vil, complexo, em que entravam as desesperações da paixão traída, a cólera do amor preferido, humilhado, a raiva do capitalista espoliado. «A ladra! E não haveria leis? Era impossível que não houvesse leis!»
Passou o dia, parte da noite, passeando no seu quarto, rogando pragas, expelindo obscenidades, dando punhados nas mesas.
Quis escrever-lhe uma carta, mas não achou uma palavra. Não ousava contar a sua derrota. Receava os sorrisos irónicos, as consolações humilhantes. «Que vergonha! Fora enganado, ludibriado, escarnecido; tinham feito dele um saco de dinheiro; tirada a soma, tinha caído o saco para a roupa suja. Ele, Dâmaso!» Um sono profundo sucedeu àquele desespero grotesco e, no dia seguinte, correu a casa do seu advogado, o Torres.
O velho rábula escutou o caso e, sorvendo a pitada:
— Não há nada a fazer. Porque se mete o amigo com francesas? É chuchar o dedo. Lamento, lamento... A mim aconteceu uma pior! Muito pior!
E contou longamente o caso dos seus amores com uma amazona do antigo circo do Salitre, «uma fera!»
— Lamento! Lamento!
Dâmaso subiu o Chiado, a tremer de raiva. «O que seria, quando se soubesse? E doze contos perdidos, estragados! Só a mim, só a mim, isto!»
A sua vaidade, então, sugeriu-lhe uma explicação: talvez fossem ciúmes. Talvez alguém o tivesse intrigado, contando a Genoveva que ele tinha outra amante. Foi logo escrever-lhe uma carta, em que disse que não podia explicar aquele rompimento, senão por alguma intriga; que lhe jurava que lhe fora fiel; «que nunca, nunca...», e acrescentava uma acumulação de provas de fidelidade, citando as horas a que se viam, falando na sua honra, desdobrando, numa letra convulsiva, uma prolongação de inépcias.
O galego tinha ordem de esperar pela resposta. E ficou num banco da Casa Havanesa, fumando nervosamente um charuto.
O Carvalhosa, que entrou, aproximou-se dele.
— Então, como vai a tua mulher?
— Bem — disse Dâmaso, fazendo-se vermelho.
— Continua a lua-de-mel?
— Pudera! — E tomou um ar satisfeito. o galego entrou, curvado, com o seu saco aos ombros, uma carta na mão. Dâmaso desvairou: era a sua, a que ele escrevera; e tinha nas costas, a lápis:
A sua epístola fez-me rir, a ponto de ficar doente. Não, meu caro senhor, ninguém se deu ao trabalho de o intrigar; mas eu tenho já o firme propósito de não me secar com a sua pessoa; e peço que não me perturbe com as suas cartas, nem com as suas missivas.
— É a tua bem-amada que te reclama? — disse Carvalhosa, que comprava charutos ao balcão.
— É para ir lá logo — balbuciou Dâmaso.
— Refastela-te, Romeu! — soltou o outro, saindo com ar pomposo.
Dâmaso veio para a porta respirar. Via tudo como numa névoa e o ruído da rua chegava-lhe como um zumbido distante. Procurava avidamente com a ideia numa vingança; não lhe importava que fosse vil; lembrava-lhe de lhe mandar pegar fogo à casa; de a ir matricular na Polícia; vinham-lhe recordações de vingança feitas outrora, em tempos mais violentos, por amantes desfeiteados; armar em embuçado, metê-la numa carruagem, com uma mordaça, e fazê-la violentar por lacaios ou por fadistas. Mas, no fim de toda esta combinação vinha-lhe o receio da Policia, de algum perigo pessoal de bengaladas perversas e, como covarde, recuava diante da vingança.
De repente, estremeceu. Vítor acabava de entrar na Casa Havanesa. Ao ver Dâmaso hesitou, fez-se pálido, mas, com uma resolução repentina, fez um movimento, disse-lhe familiarmente:
— Olá.
— Não falo a canalhas — bradou Dâmaso, com uma voz aflita, agitando a cabeça, pondo-se em bicos de pés —, não falo a canalhas.
Vítor ergueu a bengala. Dâmaso, instintivamente, agachou-se; um sujeito corpulento, que acendia um cigarro, precipitou-se, segurou Vítor e disse:
— Então, meus senhores. Prudência! Por quem são! Escutem, eu tenho experiência...
Vítor, pálido, sacudiu a boca, fechou os punhos e, branco, disse colericamente, com desprezo:
— Eu lhe mandarei dois amigos, seu covarde — e saiu muito direito.
Dâmaso ficou lívido; os caixeiros olhavam-no, pasmados; um sujeito de lunetas de oiro, que passava a língua sobre uma estampilha, aproximou-se com o olhar esgazeado; e o homem corpulento disse com um tom profissional, meneando a cabeça:
— É uma pendência de honra...
— É um canalha! Imaginar que eu me bato! Está enganado. Venha por cá. Racho-lhe os ossos.
— Então, então!
Dâmaso soprava e tinha os olhos vermelhos; mas não se conteve e duas lágrimas rolaram-se pelo nariz; fez-se muito pálido, oscilou.
— Um copo de água — disse o sujeito corpulento.
Um dos caixeiros correu com um copo de água. Fizeram-no beber.
— Que diabo, homem! Anime!
— Obrigado, obrigado — disse Dâmaso. E vindo-lhe a reação: — Eu não tenho medo. Pilhou-me de surpresa. O canalha! Um amigo, aí está o que são os amigos, quem quantas vezes lhe emprestei dinheiro. Mas hei de lhe rachar os ossos.
Ouvindo aquela voz excitada, pessoas que passavam paravam a olhar: havia um criadito, com uns embrulhos, um sargento aspirante; e vendo aqueles rostos desconhecidos, pasmados, Dâmaso, envergonhado, chamou um trem; o cocheiro bateu. A gente dispersou-se, rindo.
— Questão de mulheres — disse o sujeito robusto.
O que colara a estampilha disse com uma vozinha fina e com os olhos acesos de desejo:
— Temos duelo, hem?
O sujeito robusto encolheu desdenhosamente os ombros:
— Duelo! Em Lisboa! Uma pulhice! Comédia, tudo comédia!
— Graças à conciliação? Graças à conciliação? — disse o outro, abrindo a boca e passando a língua noutra estampilha, pondo-se em bicos de pés, com olhos arregalados.
O sujeito robusto fez, sobre a conciliação, uma observação obscena e afastou-se, fazendo girar a bengala.
A primeira preocupação de Vítor foi procurar padrinhos. Agradava-lhe a ideia do duelo com Dâmaso; era como uma desforra das humilhações miúdas e mesquinhas que tinha sofrido; ganhava uma auréola de bravura que seduziria Genoveva; se houvesse alguma coisa de menos delicado em ter suplantado Dâmaso e aproveitado as vantagens que ele tinha feito a Genoveva, tudo isso se limpava em saindo do duelo, como uma nódoa sob o forte resplendor de um foco de luz. E depois, era uma lição àquela besta!
«Mas quem podia ser o seu padrinho? Cerrão não era sério; Carvalhosa era muito teatral»... Tentou o Marinho; encontrou-o no quarto de cama, em robe-de-chambre, arranjando as escovas. As primeiras palavras de Vítor, recuou, fez-se pálido e exclamou:
— Mas eu sou um velho amigo do Dâmaso. Sou íntimo amigo do Dâmaso!
Fitou Vítor com olhos espantados e, indo fechar rapidamente a porta do quarto:
— Não seria possível arranjar-se esse negócio? — E como Vítor abanasse a cabeça: — Vejamos, vejamos... Que diabo! É necessário prudência. Sem escândalo; é um desgosto para seu tio! Pobre Dâmaso. Quero meu amigo que eu me encarregue de arranjar tudo? Acredite, tenho experiência.
Mas Vítor parecia inabalável.
— Mas, Vítor, o amigo não quer o sangue do pobre Dâmaso!
— Quero uma satisfação: dois amigos que lá vão e uma carta dele a pedir perdão: ou batemo-nos.
Tanta ferocidade espantava Marinho. Olhava Vítor quase com terror.
— Safa! Safa! — disse, esfregando as mãos e conchegando-se no robe-de-chambre.
E quando o Vítor ia a sair:
— O amigo desculpe, eu não posso, não posso! Sou amigo íntimo de Dâmaso, há anos. Conhecia-lhe a mãe. Santa senhora. Pessoa de muita devoção! Que desgraça, um duelo!
Vítor, à porta do hotel, lembrou-se de João da Maia. Caramba, esse é que era o homem! Foi logo ao Hotel Central; eram quatro horas e encontrou-o na cama, fumando, com uma limonada à cabeceira, um romance caído no chão, conversando com um rapaz de forma hercúlea, com o cabelo rapado à escovinha, uma fisionomia bondosa e meio ingénua.
Apresentou-o a Vítor como o primo Gonçalo Cabral.
Vivia ordinariamente na província, era morgado, formado em Direito. Vinha passar sempre alguns meses de Inverno à capital, que achava corrupta como uma Babilónia e atraente como um paraíso. Tinha, porém, uma timidez imperdível, porque achava as lisboetas muito finas; supunha-as desfrutadoras e, na rua, nos teatros ou nas salas, tinha um modo desconfiado e reservado, preparando-se sempre para esmagar, com os seus grossos punhos de aldeão, quem se atrevesse a fazer-lhe uma partida. Muito esmoler, muito honrado, tinha dentro de um peito de gigante um coração de rapariga. E tinha um fraco: o desejo ambicioso de ser conhecido em Lisboa e o apetite secreto de levar para a província uma espanhola, que ele julgava a mais alta expressão do luxo libertino e da beleza humana.
Vítor hesitava, ao princípio, em contar o seu caso, mas João da Maia disse-lhe:
— O Gonçalo é como se fosse eu mesmo!
Rapidamente Vítor fez o seu pedido. João atirou com o cigarro, tocou violentamente a campainha, sentou-se na cama, exclamando:
— Pronto, amigo, pronto!
E preparando-se para se vestir, declarou-se encantado. Aquilo caíra do céu; não tinha nada que fazer e estava mortalmente secado! E quem é o outro padrinho?
Era justamente o que Vítor não tinha.
— O Gonçalo! — exclamou João da Maia. — Vai vestir uma sobrecasaca preta, Gonçalo. Marcha.
E o excelente gigante partiu como uma bala, encantado da ideia que o seu nome apareceria nos jornais... sobre uma ata de desafio.
Vítor e João da Maia combinaram o que se devia arrancar ao Dâmaso: uma satisfação escrita que o achatasse; deviam pedir-lhe a escolha de dois padrinhos e bater-se à espada, na Cruz Quebrada, às oito horas da manhã, ao primeiro sangue. E Vítor viria, às seis horas, ao hotel, para saber a resposta da «besta do Dâmaso».
— O amigo joga à espada? — perguntou João da Maia, quando Vítor ia a sair.
— Alguma coisa, porém...
— É o que basta. Pode-se dizer a Dâmaso que a joga como o Petit. Addio!
Vítor saiu e pôs-se a caminhar, devagar, ao comprido do Aterro. Ia-se bater! Aquilo dava-lhe como um impulso de virilidade e dilatação do orgulho.
Depois, batia-se por ela! E, àquela ideia, julgou-se muito nobre, quase heroico. Mesmo já saboreava a emoção que lhe daria aparecendo-lhe com o braço ao peito, pálido, muito interessante. Mas lembraram-lhe então coisas que lera que assim, num duelo, pessoas que nunca jogaram à espada, ou dispararam uma pistola, eram mortas, por um acaso fatal. E via-se estendido sobre a erva e fios de sangue correndo. Aquilo fez-lhe bater o coração; veio-lhe como uma certeza súbita de que a vida era um bem delicioso. Olhou o céu, que lhe pareceu encantador, e a cidade, a que a luz dava a alegria suave dos tons de Inverno. Viu nuvens que se avermelhavam para os lados do mar; fez-lhe, de novo, pensar no sangue, em lábios roxos de ferida. Teria por acaso medo? E àquela ideia, sentiu o sangue fugir-lhe do coração. Mesmo para se reconfortar, entrou na Taverna Inglesa e bebeu dois cálices de Xerez. O calor do vinho reanimou-o e saiu desejando encontrar-se já no campo, em mangas de camisa, brandindo a espada com uma fúria de leão. E depois os jornais falariam, vir-lhe-ia uma celebridade de valente; as mulheres olhá-lo-iam, os homens temê-lo-iam. E agora quase tinha receio que o Dâmaso não aceitasse. E todavia, invejava vagamente as pessoas tranquilas que passavam, que não iam, decerto, bater-se em duelo, às oito horas da madrugada.
Àquela hora, João da Maia e Gonçalo Cabral chegavam numa carruagem da companhia à porta do Dâmaso. João julgou a carruagem da companhia necessária para o «efeito normal». E, introduzidos numa sala de repes verde, sentaram-se com solenidade. Dâmaso não tardou a aparecer, pálido, com os olhos vermelhos, o ar espantado.
Mas apenas João da Maia, com uma voz um pouco pomposa, tinha explicado «o fim daquela desagradável visita», Dâmaso, erguendo-se com os beiços muito brancos:
— Então Vítor manda-me desafiar? Ora essa! Então os senhores pensam que eu quero... que me vou bater? Que grande pouca-vergonha!
João da Maia, conservando-se sentado, observou friamente:
— Meu caro senhor, essas palavras constituem uma ofensa para o meu amigo e uma ofensa para nos.
— Ó João! Ó João! — E a voz de Dâmaso tinha uma profunda lamentação. — Eu não o quero ofender, homem, nem a este senhor. Livre de mim! Desculpe. Vossa excelência desculpe também... Mas é que é um abuso! Pois os senhores não sabem? Eu fui que o apresentei em casa daquela desavergonhada; fui sempre para ele um amigo; convidava-o a jantar, trazia-o no meu cupé, e era Vítor isto, Vítor aquilo; tudo o que ele quisesse. E prega-me uma destas! A mim! Uma pessoa conhecida na sociedade, que todo o mundo estima! Tira-me a mulher e manda-me desafiar...
Tomava, com gestos desordenados, o olhar lacrimoso, um fluxo labial inesgotável.
— Mas, perdão — disse João da Maia —, não nos afastemos da questão. O senhor Dâmaso chamou, ou não, «canalha» ao meu amigo?
— E chamo! — bradou o outro furioso. — É um canalha. Uma mulher que me custou os olhos da cara! E a ele, quantas vezes lhe emprestei dinheiro! Quantas vezes!
E cruzou os braços, no meio da sala, pondo-se em bicos dos pés.
— Perdão — acudiu João da Maia, desabridamente mas isso é uma nova fase da questão: existem, entre os senhores, questões de dinheiro? Deve-lhe ele dinheiro?
Dâmaso hesitou, corou, murmurou:
— Não. Pagou sempre.
— Bem, então é uma insinuação injuriosa. E advirto-o que é para mim uma ofensa...
Dâmaso gritou, aflito:
— O rapazes, dou a minha palavra de honra! Ó rapazes, juro-vos. — Tinha conscienciosamente a mão no peito. — Você não tem melhor amigo que eu, João! E este senhor, respeito-o. Mas, que diabo! Ponham-se no meu lugar...
João da Maia passou devagar o seu lenço sobre a testa e deixando cair sentenciosamente a palavra:
— Está o senhor Dâmaso resolvido a dar uma explicação categórica?
— Mas de quê? Que fiz eu? Que diabo fiz eu? Ele não levantou a bengala para mim? Até um sujeito de bigode, que estava na Casa Havanesa, o segurou...
— Mas então, bata-se — disse violentamente Gonçalo, que aquela verbosidade grotesca enfastiava.
Dâmaso abriu os olhos aterrado. E com uma resolução violenta:
— Não me bato, não me bato. Não me faltava mais nada! Para quê, para me dar à desfruta? E duelo, então, em Lisboa! Que é logo uma chatice! Mas eu não quero perder as minhas relações. E tenho família; que havia de dizer a minha tia? Não me faltava mais nada! Eu não tenho medo. Estou pronto, que venha para cá...
Os dois amigos ergueram-se.
— Bem. Recusando-se a dar explicações e a bater-se, teremos de fazer uma necessária declaração. O meu amigo fará o que julgar conveniente. — E João da Maia, tomando outra voz: — Mas, amigo Dâmaso, previno-o de que Vítor está resolvido a desfeiteá-lo publicamente.
— A desfeitear-me!... — E muito pálido, Dâmaso olhava-os com um aspeto imbecil. — Isto só a mim! Isto só a mim! — E levava a mão à cabeça. — E Jesus! Mas que hei de eu de fazer? Os senhores são meus amigos, você é meu amigo, João... Que hei de fazer?
— Mas estamos a dizer-lho: escrever uma explicação categórica?
— Escrevo tudo! Se se trata de escrever...
— Bem, redija-a e nós veremos... Mas, se quer consultar alguns amigos...
— Não — acudiu Dâmaso. — Eu, o que eu quero é que isto fique entre nós. Eu o que quero é evitar o escândalo. Isto só a mim, isto só a mim!
Foi ele mesmo buscar papel, tinta; enganou-se na porta, voltou atrás; olhou com os olhos esgazeados e, sentando-se a suar, com a pena que lhe tremia na mão, fitava o papel, com ar petrificado.
— Eu não tenho cabeça. Ó amigo João da Maia, escreva você.
João cofiou o bigode, deu alguns passos pela casa, refletiu e aproximou-se à mesa, com uma voz doce:
— Amigo Dâmaso, o caso é difícil, porque, enfim, se chamou canalha a Vítor... tem de lhe pedir claramente perdão. E esperou, fitando-o.
Dâmaso coçou desoladamente a cabeça.
— Pedir-lhe perdão! — E com uma voz melancólica: — Não lhe parece que é mostrar medo?
João teve um sorriso ambíguo.
— Pode também dar uma explicação, mas qual?
— Sim, qual?
Dâmaso olhava um e outro, alternadamente, com ânsia.
— A mim lembra-me — disse João — dizer que estava embriagado. Que te parece, Gonçalo?
— Sim, que estava embriagado...
Dâmaso disse:
— Pois sim, posso dizer que estava embriagado. Mas isto não se publica.
— Ah, perdoe; em todos os jornais.
Dâmaso deu um pulo.
— Mas então os senhores querem que o mundo se ria de mim? Então esse malvado quer-me desacreditar?
— Resta-lhe bater-se — disse João, encolhendo os ombros. — Como os ofendidos escolhem as armas: a espada. Os seus padrinhos marcarão...
Mas Dâmaso ergueu-se de braços no ar e exclamou:
— O que isto tudo é uma grande canalhice!
João da Maia zangou-se. Tomou o chapéu e, com severidade:
— Bem, esperamos os seus padrinhos. Devo dizer-lhe que essa palavra continha uma ofensa para nós e que, depois do duelo com Vítor, teremos a honra de lhe pedir explicações.
E iam a sair, mas Dâmaso agarrou-lhe os braços; tinha as lágrimas nos olhos.
— O rapazes, ó rapazes! Porque quem são! Eu não queria ofender. Peço perdão! E Jesus! Ó meu Deus! Pelas cinco chagas da cruz! Você conhece-me, João, sabe que eu sou incapaz... Estou por tudo. Escreva e eu assino.
Deixou-se cair no sofá e chorou.
João escreveu tranquilamente, consultou, baixo, com Gonçalo, apresentou algumas palavras e leu o papel a Dâmaso.
— Convém-lhe?
— Que lhes hei de eu fazer? Para evitar os falatórios...
Sentou-se e assinou.
E, ao acompanhá-los à porta, disse-lhes com a voz em que havia lágrimas ainda:
— E chamei eu àquele homem «meu amigo íntimo!» Obrigado, rapazes, obrigado!
No dia seguinte, Vítor e Genoveva almoçavam ao meio-dia. Vestida com um largo roupão de seda azul-escuro, o cabelo ainda um pouco seco do calor do travesseiro e desmanchado da voluptuosidade da noite, estava mais sensual do que nunca; o seu pescoço branco e firme movia-se serenamente. Havia alguma coisa de sublime e doce espalhada em toda a sua pessoa; uma vaga lassidão abandonada dava aos seus movimentos uma graça lânguida; e a paixão feliz punha no seu olhar um enternecimento húmido e mesmo dava ao esplendor da sua carnação alguma coisa de suave e de fresco. Do seu corpo saia um aroma doce e Vítor olhava-a com um êxtase humilde. Falavam pouco; às vezes, por cima da mesa, apertavam-se as mãos. As mangas do seu roupão largo deixavam ver os braços nus que Vítor, conversando, cobria de beijos, com os olhos banhados num fluxo voluptuoso.
— Sentes-te bem? Estás feliz? — disse ele.
Ela suspirou e, inclinando um pouco a cabeça:
— Tanto, que tenho medo!
Mélanie entrou; trazia o jornal que Vítor mandara comprar. E ele, desdobrando-o logo, percorreu-o rapidamente com os olhos e, com uma sensação de orgulho, a Genoveva:
— Ouve isto. É a declaração de Dâmaso:
Ilustríssimo e excelentíssimo senhor Vítor da Silva. Encarregado por vossa excelência de pedir ao senhor Dâmaso a explicação de uma palavra que a vossa excelência julgou ofensiva, dirigi-me a casa do senhor Dâmaso que, imediatamente e espontaneamente, num sentimento de conciliação, me deu a seguinte declaração:
«Ilustríssimo e excelentíssimo senhor Vítor da Silva: Tendo-se vossa excelência julgado ofendido com uma palavra descortês que dirigi a vossa excelência na Casa Havanesa, tenho o maior prazer em declarar que ela não continha nenhuma intenção insultante e que não tinha consciência do termo que empreguei, porque, nessa ocasião, me achava inteiramente embriagado. Renovo a vossa excelência os protestos da minha mais alta consideração e espero me continue a amizade com que até agora me tenho sempre honrado.
Dâmaso de V.»
Em vista de tão categórica explicação, julgamos terminada a nossa missão e somos
De vossa excelência, etc...
D. João da Maia Gonçalo Cabral
Genoveva atirou para o lado o jornal, com nojo.
— E há de haver ainda quem aperte a mão a este homem? — disse ela com orgulho.
— O Dâmaso? — disse Vítor. — Estimadíssimo na sociedade. Um dos seus ornamentos: o senhor Dâmaso!
Genoveva veio sentar-se nos joelhos de Vítor.
— E querias-te bater? E se fosses ferido? Se me ferissem esta linda cabeça?...
— Que é mulher?... — Ele teve um movimento de orgulho valoroso. — Puh! Se me batesse, cortava-lhe uma orelha e estava tudo acabado.
Ela deixara-se escorregar até ao chão, ficou de joelhos diante dele, tomou-lhe as mãos, beijou-lhas.
— Meu Vítor! Meu amor! Sou tão feliz que desejo morrer...
E com os olhos afogados numa ternura extática, estendendo devagarinho os braços para ele, com a mansidão lasciva do uma escrava namorada:
— Vamos ver as obras — disse ela, dali a momentos.
— Ah, vamos ver as obras!
As obras eram agora uma das distrações de Genoveva; queria transformar uma das janelas da sala em dois balcões envidraçados: para ter flores num canto; pássaros no outro.
Há dias que trabalhavam carpinteiros; tinham tirado as grades das varandas.
Entraram na sala, muito de braço dado.
— Então, senhor Tomás, como caminha? — perguntou Vítor.
O velho corpulento tirou o chapéu, disse:
— Saiba vossa senhoria que em menos de duas semanas está pronto.
Vítor aproximou-se, debruçou-se, mesmo sobre a pedra da varanda, para a rua em baixo. Mas Genoveva reteve o braço.
— Querido! Agora, sem a varanda, dá vertigens, tem cuidado.
— É um saltozinho bonito — disse o velho carpinteiro, rindo.