A Tragédia da Rua das Flores
Capítulo IX · Vítor, no outro dia, procurou por toda…
Vítor, no outro dia, procurou por toda a parte Camilo Cerrão, sem o encontrar. Nas Variedades, um rapazinho de blusa azul que passeava sobre uma «floresta» do pano do fundo, estendido no soalho, fumando um cigarro, disse-lhe que o Cerrão, quando a obra não apertava, desaparecia dois ou três dias. Tinha telha, o Cerrão, mas que o melhor era ir procurá-lo ao Botelho, com taverna na Rua dos Retroseiros.
Foi. Um frigir de peixe, uma vaga fumarada de um cheiro esquisito enchia a taverna; o chão negro mais parecia de terra calcada; de um bico de gás, desvairava uma luz crua e dura; e de um cubículo, forrado de tapigos e coberto por cortinas de chita velha, saia a voz dura dos fregueses.
Num dos recantos, ao anoitecer, Cerrão, com os cotovelos sobre uma toalha cheia de nódoas, comia o prato célebre do estabelecimento, frango com ervilhas, com uma rapazola amarelo, cheio de espinhas carnais, uma carita miúda e triste, que tinha um cachené azul.
O Cerrão apresentou-o como «o amigo Tadeu! O Tadeu!» E apenas ouviu as queixas de Vítor, que lhe exprobrava ter faltado à entrevista, ter-lhe causado um desapontamento, trovejou contra a exatidão.
— Se imaginas que um artista deve ser pontual, como um tabelião... Puh!... Não é verdade, amigo Tadeu?
Tadeu tossiu, cumprimentou, aconchegou o cachené, bebeu um trago de vinho e disse:
— Puh!
— Tu não conhecias o amigo Tadeu?
Vítor não tinha «essa honra».
— Mostra lá, ó Tadeu! — disse logo Cerrão.
Tadeu tomou ao pé de si, num banco, um rolo de papel e, abrindo-o sobre a mesa, expôs um desenho. Era uma composição confusa, tratada a esfuminho, em que mal se distinguiam, debaixo de umas ramagens, de uma atitude sacudida e violenta, algumas figuras vestidas de altas botas e chapéus à mosqueteiro, bebendo à porta de uma taverna; pareciam ser soldados ou cavaleiros; e eram todos de constituição obesa, apopléticos, transbordando de uma força hercúlea e exibindo uma jovialidade bestial; os punhos poderiam ter morto touros, com uma simples pancada, e a arca do peito tinha uma dilatação de força que parecia que as respirações deviam ser feitas como vendavais e as palavras atroantes como morteiros. Um tinha sobre os joelhos uma moça de formas colossais, transbordantes, com as faces cheias, os peitos enormes, os braços grossos como colunas; outra, das mesmas proporções, ria, de uma gargalhada estridente, mostrando gordos, amplos lombos, ancas, músculos, disformemente bestiais. E aquilo intitulava-se a Raça Forte; e a produção opulenta contrastava comicamente com o pintor esguio.
Vítor, interrogado, achou «magnífico, magnífico!»
— Há força, hem? Há poder! — exclamava Cerrão. — É a poesia brutal e fulgurante da carne! Todas estas figuras comem monstruosamente, têm uma jovialidade retumbante, têm a colossal musculatura, o esplendor da carnação, a expansão do forte, material, animal. É copioso, rico, opulento, forte, gordo, brutal e são. É a poesia da carne! O Tadeu é um Rubens! E gigantesco. É uma boa lição à raça moderna, magra, pálida, anémica, alcoólica, de raça mal alimentada, respirando o ar viciado dos cubículos, nutrindo-se nas confeitarias, bebendo orchata. Não há nada como a força!
Tadeu tomou o desenho, desoladamente, e disse, passando os dedinhos magros sobre o chupado amarelado do rosto:
— A força é tudo! E preciso pintar a força!
Cerrão então lamentou a civilização moderna, sobretudo o que ele chamava a «depressão nacional».
A pintura é impossível, em presença da raça portuguesa: não há homens nem mulheres; há figurinhas biscuit, criaturinhas dessoradas, cheias de humores linfáticos, de um mundo de figuras de romance, de uma amarelidão de hospital. Nem andam, nem riem, nem se movem, nem pensam; resvalam; têm um sorriso desfalecido, os rins quebrados, os braços moles, como de gelatina; é uma raça caquética, mirrada, espremida, lassa, cor de pele de galinha.
E lamentava os tempos heroicos, em que os homens eram colossais, as mulheres eram estátuas vivas; em que a distração era a guerra e a gala eram as matanças; bebiam-se odres de vinho, comia-se um javali sobre um prato doré; o sangue que corria era escarlate, duro, espesso. Que sangue!
— Que sangue! — murmurou debilmente Tadeu.
— O amor era de pura forma animal. O homem levava a mulher para o tugúrio e, durante a noite, se ouvia o rugido de uma sensualidade franca e heroica. Numa noite — exclamou ele — que o cavaleiro Ernalton de Espanha entrou na casa do conde de Fox notou que o fogo da chaminé era escasso, pudera! Ardia só um tronco de árvore; e imediatamente, descendo ao pátio onde tinham chegado da floresta burros com grades de lenha, tomou um burro com a carga e tudo atirou para as costas, subiu com ele os vinte e quatro degraus do prédio que levavam à galeria, e atirou para as chamas a lenha, a carga, o burro e tudo! Que homem!
— Que homem! — disse arregalando os olhos, Tadeu.
— Pinta-me esta cena, pinta-me esta cena, tu que compreendes a força. Não a vês daí?
— Estou a vê-la — disse Tadeu, com a boca cheia de frango.
— A alta sala de muralhas de pedra, com a chaminé onde cabem os despojos de uma floresta; os tonéis de vinho que se levam à boca e se emborcam; espadas e montantes pesando trinta quilos lançados a um canto; os gigantescos homens, bárbaros e primitivos, com cabelos sobre o peito cor de ferro, os olhos sanguíneos, conversando de batalhas e de saques; menestréis tocando na harpa as façanhas do feiticeiro Virgílio, mulheres com seios poderosos, à mostra, braços viris que podem matar um turco; narinas sensuais, por onde sai uma lufada quente, e achas numa pira lúbrica; depois de beberem hidromel, onde se lançou especiarias que vêm da Taprobana. Que tela! Ó Tadeu, compreendes?
— Se compreendi! A força! A idade bárbara!
E arranjava o cachené.
Vítor tinha um vago embaraço; pareciam-lhe doidos e não podia tirar os olhos do Tadeu, lívido, com um aspeto de doente dos intestinos, mórbido, cheio de tosse, amarelado, oleoso na pele, e comendo, uma a uma, as ervilhas, com a ponta do garfo. Disse então timidamente:
— Ó Cerrão, então quando?
— Amanhã. Amanhã, às duas.
Mas, antes de Vítor sair, queria-lhe fazer beber Colares e comer amêndoa torrada; fez-lhe as honras da taverna; e, para lhe mostrar uma curiosidade, chamou o Fabião. O Fabião veio. Era um galego de cara longa, com as mangas da camisa arregaçadas. Cerrão pediu-lhe logo que recitasse a lista. O Fabião, endireitando-se, pôs as mãos na cinta, cerrou os olhos e, com uma voz sem se interromper, de um jacto:
— Canja, sopa de ervas, arroz de marisco, bacalhau de cebolada, pescada frita, frango com ervilhas, salsichas com couve, chispe, mãozinhas de carneiro, vitela estufada, vitela assada, lombo de porco, cabeça de vitela com feijão, pato com azeitonas, orelheira, rins, carne para bifes, tudo pronto, preço único, vinho do lavrador, há rica amêndoa torrada! Salta que é uma ocasião, sem esquecer o Fabião.
Os dois pintores torciam-se.
— Mostra, mostra o bíceps!
O galego arregaçou a camisa até ao ombro e exibiu um braço de músculo saliente, resistente, disforme.
Fizeram-no beber. Ele, de um trago, esvaziou o copo e, passando devagar as costas da mão pela boca:
— Então não lhes dá querer mais nada?
— Traze umas belas ninfas nuas, de formas clássicas — disse Cerrão, rindo muito.
O Tadeu riu também.
— Traze uma mulher bárbara, coberta de pedras preciosas, que saiba esganar uma serpente entre os dedos.
Mas, num cubículo ao lado, ergueu-se uma altercação. Vozes roucas, com punhados na mesa, injuriavam-se. O Fabião foi tranquilamente ver a «festa». Tadeu, aterrado, procurava o chapéu. Mas a altercação acabou, houve risadas; vozes que pediam tinto, para a reconciliação.
Vítor, enfastiado, ergueu-se e, depois de obter de Cerrão a promessa de ser pontual, saiu, deixando os dois de novo mergulhados num louvor comum da força e da animalidade.
Mas só dali a dois dias pôde obter que Cerrão o acompanhasse a casa de Madame de Molineux. Ficou extremamente contrariado quando o viu aparecer com o seu paletó alvadio e o seu chapéu muito desabado. Que ideia faria Madame de Molineux daquele artista tão desleixado, de grande cabelo riço, feio, com as botas por engraxar? Mas, por timidez, não lhe fez nenhuma observação e partiram numa tipoia.
Justamente quando entravam na Rua de S. Bento, viu Miss Sarah, seguida pelo seu fiel nep, grave, vestida de preto, seca, caminhando com os cotovelos Unidos ao corpo, o passo certo, o olhar direito.
Vítor apeou-se, correu a perguntar-lhe se estava em casa Madame de Molineux.
Miss Sarah corou ao vê-lo, sorriu com os seus longos dentes carnívoros e pareceu muito surpreendida que ele não soubesse: que estavam, havia três dias, em Sintra.
Vítor ficou sucumbido.
Sim, tinham ido para Sintra os dois pombinhos, e ela ficara com Mélanie, para fazerem a mudança.
— Que mudança?
«Iam mudar de casa», explicou Miss Sarah. «Iam mudar para uma esplêndida casa!»
E firmemente plantada nos dois largos pés, direita, devorava Vítor com o olhar; quis-lhe ainda falar do tempo, prendê-lo um momento de conversa, mas Vítor despediu-se, atarantado, correu ao cupé e falando para dentro:
— Foi-se — disse, dando uma punhada no joelho, e imediatamente rompeu em acusações amargas ao Cerrão: «Tinha sido a culpa dele; tinha-se fartado de esperar, tinha partido. Agora, naturalmente, nem queria o retrato, nem pensava nisso. Tinha perdido uma ocasião! Havia de ser sempre assim, com os seus desleixos. Nunca havia de fazer carreira. Havia de morrer obscuro, pobre, cheio de filhos, uma ruína, um trapo!»
— Suspende! Suspende! — exclamava Cerrão, querendo suster aquela eloquência irritada. — Suspende, amigo!
E tua a culpa! É tua a culpa.
— Mea culpa, meu maxima culpa — disse Cerrão, rindo.
Mas Vítor estava desesperado. Exalava sobre Cerrão a cólera que o afogava.
— Se é decente fazer esperar uma senhora!... Se são maneiras...
Cerrão respondia, já exaltado:
— Os artistas... não sei; não estão às ordens dos burgueses. O papa Júlio humilhava-se diante de Rafael. Francisco 1 apanhava os pincéis de Ticiano.
— Vai para o diabo! — exclamou Vítor, saltando da carruagem, pagando ao cocheiro.
Cerrão desceu atrás, citando Rubens, implorado de joelhos por princesas, para que ele se dignasse fazer-lhes o retrato; Carlos I de Inglaterra, erguendo-se quando entrava Van Dick.
— A arte é uma realeza!
Vítor atirou-lhe uma obscenidade e afastou-se.
— E aqui me deixas — exclamou Cerrão —, nesta rua inóspita, entregue às feras, sem modelo, sem tipoia, como náufrago no bairro das Cortes!
— Para o Inferno! — atirou-lhe, já de longe, Vítor.
E deixou Cerrão atónito, na rua, com os braços abertos, olhando melancolicamente a tipoia que se afastava.
Vítor correu a casa de Madame de Molineux; queria falar a Mélanie, interrogá-la, saber o que era aquilo: Sintra, a mudança.
Achou, em cima, a porta aberta; bateu na porta, entrou em casa; levantou o reposteiro da sala e viu, diante de si, Mélanie e, pelo lado do quarto de Genoveva, desaparecerem as largas costas de um homem de jaquetão. Mas Mélanie, sem se perturbar, pediu-lhe que entrasse, festejou-o, perguntou porque não tinha aparecido, com modo familiar de dona de casa e intenções de confidente.
Na sala estavam duas grandes malas abertas que Mélanie arrumava; pelas cadeiras, havia vestidos, embrulhos diversos, caixas de chapéus; no chão estavam filas de roupa branca de onde escorregavam sachets; viam-se rendas, fitas de camisinhas de noite, toda uma revelação de intimidade feminina que dava a Vítor toda a vaga perturbação de nudezas entrevistas.
— Então, para onde se mudam?
— Para Rua das Flores, para o terceiro andar, da esquina. Uma casa linda e arranjada de novo. E gabava a casa, mas aqueles elogios irritavam Vítor.
— E onde estão em Sintra?
— No Lawrence. Só vou amanhã, pois fiquei para arranjar as malas. Demoram em Sintra quinze dias.
— Sim senhor, sim senhor — disse Vítor, começando a enrolar um cigarro.
Mélanie correu a buscar um fósforo e Vítor deu alguns passos pela sala. «Estava definitivamente estabelecida com a besta do Dâmaso!» E Vítor não sentia nem ciúme, nem tristeza; tinha-lhe ódio, achava-a reles, estúpida: «O que a desprezava, Santo Deus!», dizia consigo. «Podia vir de joelhos, aos meus pés, aquela tola, que não lhe pegaria, nem com tenazes!» Mas o seu pé, tendo encontrado um chapelino, deu-lhe um pontapé que o fez estoirar contra a parede. E todos aqueles lenços, saias; o aroma que saía daquele desarranjo irritava-o; eram aquelas rendas que Dâmaso amarrotava! Era naqueles lençóis bordados que o animal se refastelava! Não, realmente era cómico. O Dâmaso! Só o queria ter ali; só queria que ele lhe dissesse uma laracha! E riu-se consigo: «Ah, que coça! Como lhe quebrava, com prazer, costela por costela. Não por ciúme, puh! Mas porque sempre embirrara com ele; era um burguês, um estabelecido, um janota, Odiava-o!»
E como Mélanie entrava com a caixa de fósforos:
— Então, lua-de-mel em Sintra, hem?
Mélanie teve um gestinho de cabeça, um sorrisinho, encolheu os ombros, e dobrando, arrumando as malas, com os gestos ligeiros, ia dizendo:
— Quando se não tem aquilo de que se gosta, é necessário gostar-se daquilo que se tem.
— Como na Grã-Duquesa, bem sei — disse Vítor, estendendo-se numa voltaire, familiarmente. — Gosto de a ver tão forte nos clássicos. Mélanie.
Mélanie teve um risinho; repetiu, com um olhar para ele:
— Quando se não tem aquilo de que se gosta!
Vítor ergueu-se bruscamente e, chegando-se a Mélanie:
— Que quer isso dizer, Mélanie? Diga lá...
A sua voz era seca, os olhos brilhavam-lhe, e bastaram-lhe aquelas palavras de Mélanie para que o seu desprezo por Genoveva desaparecesse e se lhe viesse uma esperança imensa. Insistia com ela:
— Que é, diga.
Mélanie recuava, com modozinhos, passando as mãos diante do rosto, como para evitar um beijo.
— Eh! Eu não sei nada. Eu ando no meu serviço; a mim ninguém me diz nada.
— Diga, Mélanie, se é boa rapariga — disse. — Ela tem-te falado de mim?
Tinha-lhe tomado as mãos, que eram secas e finas, de grandes dedos, e Mélanie encolhia-se queria desprender-se, «não sabia nada, não sabia nada», e os seus olhos atiravam piscadelas de olho a Vítor, com uma vivacidade fina e uma atenção concupiscente.
Mas soltou-se das mãos dele e, correndo acima de uma jardineira, tomou uma caixa oblonga, de marfim, com o monograma de Madame de Molineux em prata; e afirmando sempre que Madame nunca falava em nada, era muito calada, limpava a caixa, acariciava-a, abria-a e fechava-a. Vítor, enfim, com uma desconfiança, disse.
— Deixa ver a caixa, Mélanie.
Ela apertou-a contra o peito, correu para a outra extremidade da sala, fingindo-se assustada, como querendo esconder uma revelação, com muitos trejeitos, rindo muito cantadamente.
Vítor perseguiu-a; queria apanhá-la. Ela tinha risinhos histéricos de cócegas na alma, pulava e o seu corpo magro tinha ligeiras formas de corça e movimentos quentes de pantera.
— Mélanie, dou-te duas libras, se me deixas ver a caixa. «Era tudo o que tinha; eram agulhas!» Mas uma curiosidade esperançosa dava-lhe uma prodigalidade atrevida.
— Duas libras, Mélanie.
Fê-las saltar na mão.
Mélanie, com a caixa atrás das costas, com o busto estendido, veio examinar as duas libras, com um olhar guloso.
— E não diz nada à Madame?
— Juro-te!
— E que me dá mais?
— Que diabo! Não tenho mais nada. Duas libras e um beijo.
— Palavra?
— De cavalheiro.
Mélanie, então, com solenidade, abriu-lhe a caixa, ao pé do rosto: havia um ramo de violetas murchas e duas luvas amarrotadas.
Vítor ficou furioso.
— Tu roubaste-me, Mélanie!
Mas Mélanie, muito séria, mostrou o ramo seco: «Não se lembrava? Era um que ele, um dia, tinha trazido, quando a veio ver e ela estava doente. E não se lembrava de ter perdido as luvas? Ali estavam.»
Eram umas luvas dele e cada um dos dedos estava apertado, num nó, a um dos dedos de uma luva de Genoveva.
Uma cor rubra de prazer subiu ao rosto de Vítor.
Mélanie estendeu a mão e a face.
— Escuta, Mélanie — disse ele perturbado. — Achas que ela gosta de mim?
— Madame? — E ergueu os braços ao céu; e então, rapidamente, baixo, com um tom seco: — Eu não o devia dizer e, se ela o souber, mata-me; mas eu não posso ver sofrer a Madame, a arrepelar-se. E aquela amizade do Dâmaso enguiça-me. Madame está doida por si. É uma loucura. É a suprema paixão.
O coração de Vítor bateu com pancadas precipitadas.
— Quando achou estas luvas, sabe o que fez? Não digo... Digo: atirou-se aos beijos a elas e agarrou numa luva dela e prendeu assim os dedos, como vê; disse que eram suas, que estava usando consigo. Tolices, hem?... Digo-lhe às vezes: «Ai, bem, a senhora é bem tola em se ralar com esse homem! Homens não faltam!» Mas ela não; para ela não há outro.
— É verdade, Mélanie? — disse Vítor, com o olhar profundamente perturbado.
— Então que há de ser, senão verdade? E não?...
Estendia a mão. Vítor deu-lhe as duas libras, com alegria. Desejava dar-lhe mais duas notas. Toda a casa lhe parecia transfigurada: as malas abriam-se com vagos lenços e roupas, num côncavo de leito cálido e amoroso; as rendas das camisinhas enterneciam-no; os perfumes pareciam-lhe o hálito de Genoveva. Um amor imenso, profundo, enchia, batia-lhe o peito, como as ondas crescentes de uma inundação. Uma ideia súbita, louca, tinha-lhe atravessado o espírito, enchendo-o de um vago rasto doce e luminoso, como um meteoro: «Ia vê-la, ter com ela.»
— Estão no Lawrence, hem?
— No Lawrence. E o beijo?
Vítor riu, agarrou-a pela cinta e, no movimento que fez, o rosto dela, beijou-a na boca. Mélanie fez-se um pouco pálida; os seus olhos embaciaram-se.
— Parece-me que a senhora tem razão — disse ela puramente.
Vítor tinha tomado o chapéu e, apontando o quarto por onde desaparecera o homem do jaquetão:
— Diverte-te.
— Puh! — fez ela, encolhendo os ombros.
Vítor, ao descer a rua, tinha o seu plano feito; ir a Sintra. Não considerara se ela gostaria daquela perseguição, se Dâmaso se enfureceria de ciúme. Queria vê-la; parecia-lhe a vida impossível, quinze dias sem ela; e julgava, agora que se sabia amado, que ela levara consigo o ar respirável, a luz necessária. De resto, iria por Cascais, de modo que parecia um encontro casual.
Demais, as palavras de Mélanie tinham-lhe desenvolvido a esperança, mas não lhe davam uma certeza e aquela certeza, queria-a. A cogitação, as dúvidas, a tortura em que passara toda aquela última semana, pareciam-lhe agora insuportáveis e, como um homem que se resigna diante de uma porta fechada, mas que se arremessa, se a porta se entreabre, agora que Mélanie lhe deixara entrever um relance do amor de Genoveva, queria vê-lo, intenso, completo, diante de si. E, se não fosse verdade, então que lho dissesse, que o desprezasse, que lhe voltasse as costas. Ao menos seria uma decisão: o fim. Esquecê-la-ia e consolar-se-ia.
E agora atribuía a si mesmo todas as indiferenças de Genoveva; ele não se amostrara nem bastante amante, nem pertinaz. O amor é sobretudo a paciência. Pedira-lhe paixão, à pressa, de repente, logo ao segundo dia, como um credor; e como ele se encalmasse, tivera as hesitações naturais de mulher, o retraimento instintivo do corpo desejado; ele, como um brutal, irritara-se, afastara-se. O que queria ele, então? Que ela, como uma mulher do Bairro Alto, mal ele a fitasse, se dirigisse logo para a alcova? Que estúpido que fora!
E a sua ida a Sintra era como uma reparação delicada desta impaciência grosseira. Mostraria a persistência, a humildade, a simpatia terna de cão que segue; mostrar-se-ia dependente dela, mas como lua, um satélite. Positivamente, devia ir a Sintra.
Mas não tinha dinheiro e aquela dificuldadezinha mesquinha, vindo atravancar-se diante da fulgurante marcha do seu desejo, irritou-o: «Que diabo, ia ter com o tio Timóteo.» Timóteo dava-lhe uma mesada. Vítor nunca fizera pedidos excecionais, fora daqueles quantos regulares. Estava por isso um pouco nervoso; desejaria saber se ele estava de bom humor. Chegou-se à porta do escritório, para ver se o sentia assobiar, o que era indício de uma disposição amável: havia um profundo silêncio, mas o seu desejo deu-lhe a decisão. Entrou e viu o tio adormecido na sua larga poltrona. A um movimento que fez Dick, o tio Timóteo abriu os olhos, com a cabeça de lado, como um pássaro, e rosnou vagamente.
«Que ferro: estava de um humor de cão de fila!» Vítor percebia-o também. Pôs-se a acariciar Dick, a brincar com ele, a dar-lhe beijos no focinho.
— Ah, meu famoso Dick!
— Que queres tu? — resmungou o tio Timóteo.
— Eu, nada, tio Timóteo.
Foi à janela, subiu um vidro e plantando-se diante dele:
— A dormir a sua soneca, hem?
O tio Timóteo bocejou, como um leão enfastiado.
E endireitando-se na sua cadeira:
— Encontrei o doutor Caminha. Diz que tu, ultimamente, não pões os pés no escritório.
Vítor jurou, mentalmente, espancar o Dr. Caminha.
— Eu! Que tolice! Tenho ido... Não tenho ido muito? Não...
O tio Timóteo, inteiramente despertado, acrescentou logo com violência:
— E porquê? Para andar a palmilhar o Chiado e o Pote das Almas, como um basbaque. O prazer de vadiar em Lisboa! Que se vadie na Índia, em Calcutá, enfim, compreende-se. Mas em Lisboa! A admirar o quê? A boneca do Godefroy? As figurinhas de loiça? A parelha do Anão? Bonito divertimento!
Vítor disse então:
— Não. Tenho estado adoentado. — E tossiu tristemente.
— Até estive com muita ideia de estar dois ou três dias em Sintra. Não me sinto bem... — e passou a mão pela cabeça; e cheio de coragem: — Até desejava que o tio Timóteo me desse algum dinheiro.
O tio Timóteo saltou na cadeira.
— A Sintra? Para quê?
Sintra era justamente um dos seus ódios; não suportava os elogios clássicos da sua paisagem; pareciam-lhe ser a admiração mesquinha e ignorante de quem nunca viu a maravilha dos bosques, a natureza da índia.
Vítor lembrou a vantagem de mudar de ar.
— Muda de vida. O ar é bom, a vida é que é má. Deita-te a horas, come com regularidade, não faças versos, vai higienicamente ao escritório, e verás que a saúde melhora. Sintra! É uma ida de tendeiro...
— Não. Realmente preciso... — rematou Vítor, com um ar dolente. Aí anda saia — disse Timóteo, com ar ameaçador.
E Vítor, conhecendo o fraco dele pelas aventuras libertinas, confessou, com um sorriso fátuo, que havia saia.
Quem é? — disse simplesmente o tio Timóteo, tirando uma grande pitada de um pote de rapé.
Vítor hesitou. Viera-lhe a ideia de contar tudo; tinha tanta necessidade de falar dela; demais, o tio Timóteo concorreria com o dinheiro, para proteger um caso galante; e não era ele o seu bom amigo, o velho e simpático?
Abriu os braços, numa lassitude de confissão.
— Pois bem, digo-lhe, tio Timóteo: é a do Dâmaso.
A do Dâmaso? Dá-te trela?
— Entendemo-nos.
— Quanto queres tu? — bradou com um júbilo imenso o tio Timóteo e, sentando-se no fauteuil, abriu rapidamente uma gaveta da escrivaninha. — A do Dâmaso? Homem, nunca as mãos te doam! Palavra de honra que me remoça isso. A besta é que paga e tu... Ótimo! Anda, meu rapaz. Queres ir a Sintra? Três dias? E necessário levar dinheiro.
E pôs-lhe sobre a mesa um castelinho de quinze libras. Ergueu-se, o olhar luzia- lhe.
— E é uma paixão? É ótimo! Gosto disso, homem. A besta do Dâmaso! E quando vais?
— Depois do jantar.
— Clorinda! — gritou Timóteo-, apresse o jantar.
Estava radioso e, esfregando as mãos:
— Hás-me me contar, depois. Contas tudo! Tudo.
E fitava Vítor com amor, com orgulho dele.
E às seis horas, Vítor, com a sua pequena maleta aos pés, rolava pela estrada de Benfica, no cupé do Toirão, um batedor. Ia muito nervoso. Como a encontraria, o que estaria a fazer? Que lhe diria?
Imaginava já os diálogos. Naturalmente estavam ao fim do jantar. Via-a bem à mesa do Lawrence, com os seus dois candeeiros de azeite, as duas janelas para o terreirozinho. Fingir-se-ia muito admirado, exclamaria: «Que surpresa!» E que história inventaria? Diria que vinha por causa de uma demanda, ver umas terras; palavras vagas e obscurecidas pela nomenclatura forense. Passariam a noite no salão; jogariam talvez e, se a noite estivesse serena, iriam tranquilamente passear sob a escuridão das árvores. Teria ocasião de lhe falar? Poderia resvalar-lhe na mão um bilhete! Referir-se-ia as duas luvas de dedos entrelaçados?
Redigia mesmo, chupando o seu cigarro, um bilhete, lacónico, profundo e poético:
«Faça à minha alma o que fez à minha luva; enlace-a com a sua.»
Pareceu-lhe medíocre. Achou preferível pôr em francês:
Que les deux gants soyent le symbole de nos existences.
Mas decidiu-se, com receio de Dâmaso e com respeito pelo chique, a escrever em inglês:
I saw the gloves. Might our souls be joint together so closely.
Tinha a vaga desconfiança que era mau inglês, mas achava o laconismo impressionador.
Na Porcalhota, enquanto os cavalos descansavam e o Toirão bebia um cálice de aguardente, foi andando a pé. Escurecia já e no ar frio, duas estrelinhas luziam; havia um silêncio e só à distância o ladrar lento de um cão. A estrada ia entre muros, baixa, de pedra solta e, para além, os campos negros estendiam-se e perdiam-se numa obscuridade difusa, com algumas árvores que faziam uma sombra mais carregada, com a sua ramagem despida.
E Vítor, andando devagar, pensava nela. Sentia agora um amor enchê-lo que, condizendo com o lugar, tomava alguma coisa do vago da noite e da solenidade do silêncio. Pensou como seria doce viver com ela no campo, nalguma aldeia afastada. Nas noites de Inverno, estariam ao canto do fogão, olhando, falando baixo; o vento, fora, fazia um rugido frio; os cães da quinta ladravam e quem passava na estrada, voltava-se, olhava curioso para o feliz da casa deles e cismando em família, em amor, em interesses superiores, continuaria o seu caminho na noite desolada; porque, para certos temperamentos, a inveja que provoca a felicidade é que lhes dá todo o seu sabor.
As duas lanternas do cupé corriam na estrada. Vítor parou e, saltando para dentro:
— Larga, Toirão.
Porque, o seu pequenino incidente lhe dava uma felicidade, contendo o picante do romance e da aventura; e só, no canto da tipoia, sentia um orgulho vago dilatá-lo ao saber-se levado a galope, por uma estrada solitária, para um capítulo da amor. Às vezes, descia o vidro, olhava; a charneca monótona e escura perdia-se aos dois lados, na escuridão; um vento frio rolava, a uma ondulação lenta, por cima do terreno liso; e as nuvens, estalando no ar, pareciam tremer de frio. Vinham-lhe ao cérebro formas de rimance, pedaços de árias, mas a melopeia do fado exprimia melhor o vago sentimentalismo dolente do seu espírito e pôs-se a cantá-lo, com os olhos cerrados, sentindo uma saudade infinita, uma ternura transbordante.
Mas a estrada entrava entre dois altos muros paralelos, donde soluçavam ramagens murmurosas. Era o Ramalhão. O ar parecia mais fino, como refrescado da abundância de águas; sentia-se uma vaga serenidade de parques e de árvoredo; alguma coisa de suave e de elegante circulava; havia o silêncio do repouso delicado e da existência ociosa. Era o Ramalhão.
Na praça, algumas lojas punham a claridade mortiça da noite de província; não havia ruído e bem depressa o cupé parava à porta do Lawrence. O criado, de jaqueta, que correu à portinhola, fê-lo subir pela escadinha do terraço para a sala de jantar. A toalha não fora levantada, havia pratos, garrafas de vinho e dois talheres apenas: os deles, decerto; e pareceu-lhe que havia na sala algum coisa do perfume dos seus vestidos.
— O senhor Dâmaso está cá, não?
— Estão lá em baixo, no salão — disse o criado.
Vítor foi ao seu quarto pentear-se, lavou as mãos. Através da vidraça, via a noite, com o vago rumor das árvores, por todo o vale; a beleza adormecida da serra.
E sem escutar o criado, que lhe perguntava se não queria tomar nada, desceu abaixo. A porta do salão estava entreaberta; aproximou-se. Ela estava só, sentada ao fogão. A luz das brasas penetrara a sua pele de uma cor rosada; estava vestida de preto, preguiçosamente recostada, com os olhos fitos no lume. Vestidos, roupa, arrastavam sobre as cadeiras; na jardineira, entre duas velas, havia um magnífico ramo de camélias.
Quando Vítor abriu de todo a porta, ela ergueu lentamente os seus belos olhos e soltou um gritinho.
— Não pude estar mais tempo sem a vir ver e aqui venho.
Um suspiro soluçado, de paixão, ergueu-a; os seus braços afastaram-se e Vítor, enlaçando-a, apertaram-se num longo beijo.
— Oh, querido amor! — murmurou ela, deixando pender a cabeça, triste de felicidade, sobre o ombro de Vítor.
O soalho do corredor rangeu e Dâmaso ficou à porta, petrificado.
Mas, quando Vítor lhe explicou o seu caso, complicado de nomenclatura forense, respirou fortemente e, batendo-lhe no ombro:
— Fizeste bem, homem! Vamos amanhã à Peninha.
Pediu logo conhaque, propôs uma partida de cartas e não parecia afetado pela presença de Vítor, ou porque acreditara num acaso, ou porque não duvidava da paixão de Genoveva. E mexendo-se, falando alto, importante, gordinho, parecia a Vítor odioso e sentia uma profunda felicidade em enganar aquele imbecil.
Genoveva conservava-se sentada ao lume, como fascinada pelas brasas; dissera algumas palavras vagas; um ar de lassidão dava ao seu corpo uma atitude triste.
— Tem estado assim, desde que está em Sintra — observou Dâmaso.
— Faz-me triste esta Sintra.
E indicava com um gesto vago, o vale, a serra, em redor, a melancolia que exala aquela natureza verde-negra, vagamente matagal, cheio da melancolia do artifício.
— Se estivesses aqui no Verão, tu verias. Piqueniques, o Vítor cheio, cavalgadas a Cascais, representações... É uma pândega.
— Ainda bem que é Inverno — murmurou Genoveva.
Ergueu-se e, saindo: «Que a noite estava agradável; queria ir dar uma volta.»
Foram. Genoveva tomara o braço de Vítor e iam calados, sob as árvores, até Seteais. A noite estava escura, mas serena; uma vaga humidade fria penetrava o ar e a grande maré de verdura, o vale profundo, em baixo, a solitária taciturnidade das quintas, das casas apagadas, davam uma tristeza; uma melancolia caía das árvores e, para além, tudo se afundava numa vaga treva parda, picada, aqui e ali, de uma luz de habitação pálida e doce.
Vítor e Genoveva, muito chegados, apertando os braços de uma pressão ardente e estática, não falavam, na mudez enleada que dá a suprema abundância de ternura. O vestido longo de Genoveva roçava o chão, puxando, às vezes, uma palha seca, um galhinho seco.
Dâmaso, ao lado, assobiava baixo a marcha do Fausto. Assim passaram um quarto de hora, até que Dâmaso disse:
— Vamos como tumbas! E está frio, diabo!
Começava a espirrar.
Vá para casa, não se constipe.
— Não te constipes — lembrou Vítor.
— Vá para casa! — disse-lhe Genoveva.
Dâmaso disse, meio a rir, meio despeitado:
— Homem, é a cena do Barbeiro de Sevilha: buona sera, buona sera! Não vou para casa, não quero.
Genoveva riu, Vítor também, para o lisonjear; e, contente com a sua pilhéria, Dâmaso confessou que detestava Sintra, no Inverno.
— Que diabo, isto é bom quando está quente, quando há cavaqueira! No Verão, é uma pândega.
Vítor era de outra opinião: gostava da isolação de Sintra, no Inverno. Havia em tudo, nas árvores, no ar, na luz, tons de muita melancolia; fez algumas frases literárias: o que havia de pior, em Sintra, era o burguês, o banqueiro, o janota do Vítor , as caleches cheias de espanholas, os ingleses de lunetas escuras e as toilettes por entre a folhagem; a serra tornava-se um suplemento do Chiado! Não havia como a solidão; lembrou os monges da Peninha, enlevou a tranquilidade dos conventos, citou Lord Byron.
E Dâmaso impacientado, rompeu:
— Eu cá não sou poeta.
Genoveva suspirou. E Dâmaso, tocando-lhe no braço:
— Também te dá para a poesia?
Genoveva parou e, com um tom resignado e doce:
— Não, meu amigo, realmente não posso acostumar-me a esse horrível tu!
Dâmaso, interdito, não respondeu. Vítor, receando alguma cena, apreensivo, disse:
— Não é verdade que estas árvores silenciosas, a escuridão, fazem pensar em legendas, em aparições?
— Fazem — disse Genoveva e, falando, os seus ombros colavam-se aos de Vítor, como no desfalecimento amoroso.
— Acredita em bruxas? — disse Vítor rindo.
Não, não acreditava, mas, em pequena, tinha ouvido casos bem singulares; tinha uma velha ama de Trás-os-Montes que lhos contava; e vieram-lhe as recordações; era uma velha que sabia toda a sorte de contos, de romances em verso.
— Ainda me lembro de algumas. Espere — e cantou:
Passou o conde almirante,
Na sua galé do mar.
Tantos remos há, por baixo,
Que não se podem contar.
— É bonita, não é verdade? Depois, havia uma princesa que o via, que se namorava.., mas não me lembro; mas a mais linda era outra que, as vezes, eu recito a mim mesma; acho que tem um chique especial:
Quem me quer a mim servir,
Quem quer o meu pão ganhar,
Há de levar esta carta
A Dom Clarim d'Além-Mar.
— …uma princesa que está numa torre… uma coisa assim? Às vezes a gente fica com estas recordações de pequena, que vivemos antes, ou de viagens, de países, nunca esquecem...
— Não é verdade? Assim eu lembro-me perfeitamente do que me cantava a minha ama; é uma música muito arrastada, muito triste. — E cantando:
Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua mãe foi à fonte...
«É triste, não é verdade?
Genoveva não respondeu. Vítor sentira o seu braço ter um vago movimento estremecido; e um vago suspiro passara-lhe nos lábios.
Continuavam calados. A terra, que a neblina amolecera, emudecia o ritmo dos passos, e Genoveva disse, então:
— Uma cantiga que usam muito as amas. A sua mãe morreu, há muito, não é verdade?
Vítor respondeu:
— Tinha eu um ano ou dois; nunca lhe vi mesmo o retrato; não deixou retrato, nem sequer um daquele tipo que se usava no tempo. Mas creio que era muito linda.
— E seu pai?
— O papá morreu na África.
Dâmaso, que aquela conversa irritava, ia assobiando o quarteto do Rigoleto. Estavam então junto da Penha Verde. Um ligeiro vento erguera-se e, brandamente, as árvores decrépitas ramalhavam melancolicamente.
— Quantas coisas se passam na vida! — murmurou Genoveva, como pensando alto.
Como a sombra até era quase tenebrosa, Vítor tomou-lhe a mão, apertou-lha com uma ternura extática: nunca a amara tanto. A melancolia taciturna e escura da noite, a vaga sombra difusa, o silêncio do árvoredo, algum vago murmurar gotejante de água, davam uma disposição sentimental, quase mística; e nunca Genoveva lhe parecera tão adorável; achava na sua voz um tom enternecido que ignorava, e nas suas palavras todo um espírito delicado, sentimental, acessível à poesia da legenda e à influência da natureza; parecia descobrir-lhe uma alma poética e, se a desejava tanto, pelo esplendor da sua beleza luxuriosa, amava-a agora pelo refinamento do seu espírito sentimental.
— Isto sempre vale mais do que o Bulevar — disse ela.
Dâmaso, interrompendo o assobio, apressou-se a protestar:
«Não isso não! Gostava de Sintra, no Verão, quando havia gente, boa camaradagem no Vítor, mas lá o Bulevar, isso não trocava por nada; ali pelas nove ou dez horas, com todas aquelas mulheres a passearem, ligeiras e janotas, e os cafés cheios...
— Hem? — disse ele para Genoveva. — Quem me dera lá! O Bulevardinho, hem?
Genoveva respondeu com o mesmo ar doce e resignado assim se fala aos idiotas mansos:
— Sim, meu amor, sim. Mas eu não costumava passear no Bulevar.
Dâmaso ia falar...
— E outra coisa — disse ela —, sinto perfeitamente que, após dizer uma frase, vai continuar a assobiar o Rigoleto. Pois bem, por quem é, não!... Voltemos, sim?
Vieram calados.
Quando voltaram, as vivas chamas dos carvões alegres saltavam, pondo, no quarto às escuras, os reflexos errantes e róseos. Dâmaso acendeu o lume e, sentando-se, cansado, bocejou escancaradamente.
Genoveva ergueu um pouco o vestido, estendeu ao lume o seu pezinho calçado de verniz, com meia de seda às listas pretas e amarelas. Vítor folheava um livro que estava sobre a mesa e, ouvindo Dâmaso repetir com ruído um bocejo, disse:
— São horas.
Genoveva voltou-se e deu-lhe um olhar profundo, negro, que tinha a carícia de um beijo e a solenidade de um juramento.
— Good night.
— Good night!
Vítor entrou no seu quarto, tonto de alegria e, pondo a vela no castiçal, ergueu os braços ao céu e, cerrando os olhos, disse sorrindo:
— Oh! Meu amor!
Deixou-se cair numa cadeira, ficou ali esquecido, com os olhos fitos no chão. A felicidade entorpecia-o, como fosse o acabrunhamento de um sol de Agosto, no campo; não pensava, tinha a alma imóvel, como num banho de leite e, diante de si, luziam aqueles olhos negros e destacava, com a nitidez de uma moeda de oiro sobre um pano preto, a forma daquele corpo.
Mas a porta abriu-se e Dâmaso apareceu com um castiçal e, logo atrás, a figura estremunhada e friorenta do criado.
Como havia outro leito no quarto, vinha dormir ali ao pé de Vítor e, para que o criado não percebesse, disse-lhe, num francês silabado e de vogais escancaradas, que Madame tinha um incómodo. Mas estava contrariado e fumava um enorme charuto, com uma expressão lúgubre.
«Estava mais arrependido de ter vindo para Sintra!», disse, mal o criado sonolento murmurou a «boa noite».
E exalou logo as suas queixas: Madame de Molineux, desde que tinha vindo para Sintra, estava de um humor de cão! Não se lhe arrancava uma palavra à mesa; em Lisboa era pândega, cantava; mas ali! E depois, nervos, caprichos. Ainda não saíra naqueles três dias de ao pé do fogão; e ele, então, era uma coisa com que embirrava: era uma mulher metida ao pé do fogão.»
— Hoje foi a primeira vez que saímos.., por tu vires...
E receando, decerto, ter revelado os seus vagos ciúmes, acrescentou:
— Que lá gostar de mim, gosta ela. Está doida! E lá mulher para a cama, é! Ah, lá isso, sim — e deu detalhes: contou os juramentos que ela lhe fizera, os nomes doces que lhe dava. — Lá isso está pelo beiço, mas é caprichosa! É caprichosa, como o Diabo!
E despindo-se, falava da casa que lhe ia pôr, da vitória que lhe ia comprar, fumava sempre o seu enorme charuto e citava a sua beleza as suas formas, que eram uma coisa de endoidecer.
Vítor escutava com uma indiferença afetada, o coração em palpitações, e Dâmaso, com a impudência de quem recita os seus «temas», numa estalagem, ia revelando todas as atrações de Genoveva.
Vítor não sentia ciúmes e, sem saber porquê, comparava-o vagamente ao Policarpo.
E antes de apagar a luz, voltou-lhe as costas, e Vítor viu que ele estava fazendo o sinal-da-cruz.
— Que manigâncias são essas? — disse Vítor, na sua cama.
Dâmaso acudiu logo, mentiroso, envergonhado da sua devoção.
— Hábito! Hábito de criança. Que eu não acredito em tolices. É hábito.
E esticou-se, exprimindo algumas opiniões obscenas.
Ao outro dia, amanheceu nublado; um nevoeiro opaco sobre a serra, todo o vale. Mesmo quando se encontraram ao almoço, uma chuvazinha miúda caía, toldava o ar e as primeiras árvores que se avistavam tinha o ar encolhido e friorento.
Ao sentarem-se à mesa, Genoveva disse de repente a Dâmaso, com muito carinho:
— Caro mio, esqueceu-me um lenço. Vai, sim? — e estendeu-lhe com olhos ternos: — Faz-me uma falta a Mélanie!
Dâmaso desceu imediatamente Genoveva estendeu os braços para Vítor; ele aproximou-se e ela, tomando-lhe o pescoço, premiu-lhe os lábios, num beijo longo, ávido, que o fez estremecer, como uma faísca elétrica. E dando-lhe uma carta:
— Parta esta manhã. Vá para Lisboa. Leia isso...
Tornou a atraí-lo a si e com um soluçar beijou-o outra vez; murmurava:
— Oh, meu amor! Oh, meu amor!
As passadas de Dâmaso galgavam a escada e, quando ele entrou, Genoveva, que desdobrava o seu guardanapo, tranquilamente disse:
— Obrigada, meu cavaleiro!
Dâmaso sentou-se ruidosamente e gritou:
— Salte o belo bifezinho de vitela.
— Esta noite sonhei com bruxas — disse Genoveva. — Foi de uma conversa de ontem, decerto.
— Também eu — disse Dâmaso. — Sonhei toda a noite; foi do lombo de porco, ontem; trabalhou-me no estômago... Uma cena de trapalhadas... O que eu trouxe! O Peixinho dos touros o Taborda, depois estava a arder o Castelo da Pena... O diabo!
— Ingrato! — disse Genoveva. — E não sonhou comigo?...
— Também me parece que sim...
— Eu — disse Vítor —, sonhei com o meu pai. Cena bem esquisita... Que estava à beira de um rio, e de repente, vejo um barco a descer, a descer... Vinham duas figuras, de pé: um homem e uma mulher de branco. Conheci-a logo a si — disse, voltando-se para Genoveva —, e só conheci meu pai num gesto que ele fez, que se debruçou. Eu atirei-me à água, comecei a nadar, mas meu pai agarrava numa vara e quis repelir-me o barco! Eu agarrava-me à borda, queria saltar para dentro... Qual! A vara repelia-me, fazia-me dar reviravoltas na água... Por fim, o barco começou a afastar-se...
— E eu? — perguntou Genoveva interessada.
— Meu pai tinha-a agarrado pela cintura, parecia desesperado, desejando querer afastá-la da borda do barco; mas eu via-a estendendo os braços nus e, com uma voz muito fina, muito cantada, ouvi-a dizer:
Quem me quer a mim servir,
Quem quer o meu pão ganhar
Há de levar esta carta
A Dom Clarim d'Além-Mar.
Todos riram. «Era extravagante. Fora da conversa da noite.»
— É um bocado de indigestão — resumiu Dâmaso, recostando-se.
Vítor, logo depois do almoço, mandou arranjar uma carruagem. Dâmaso, que estava jovial, insistiu para que ele ficasse. Genoveva também disse algumas palavras vagas:
«Pedia-lhe para fazer companhia, para irem à Pena.» Mas Vítor pretextava os seus afazeres e a conferência com o advogado seu colega — disse a Dâmaso —, levaria a tipoia e, de lá, seguia para Lisboa.
Ao entrar no cupé, Genoveva e Dâmaso olhavam-no da Janela da sala de jantar; mesmo Dâmaso acenou, por troça, com um lenço branco. Apenas a carruagem partiu Vítor abriu a carta; umas poucas de violetas caíram das dobras; apanhou-as, beijou-as, guardou-as no bolso do colete e leu na letra fina de Genoveva:
Meu querido amor.
Tive de impor àquele idiota, sob um pretexto decente... e mensal... e apenas ele voltou costas, sento-me a escrever-te: dizer-te que te amo, que te adoro, que te desejo... é tolice. Tu sabe-lo bem, ou antes, não o sabes. Os homens nunca sabem estas coisas, porque o amor deles é todo de um só peça: amam e aí está: rien de plus. Mas o nosso amor, de nós outras, pobre género feminino, é composto de tantas coisas, de tantas pequeninas coisas, de tantas pequeninas coisinhas. Dizer-te que te amo é dizer-te apenas o sentimento, por grosso e atacado; mas se tu soubesses o que nele há. É admiração por ti, pelo teu adorado olhar, pelos teus olhos divinos que me iluminam, que eu adoro, a que eu queria rezar, se eu soubesse rezar; é desejo do teu amor, dos teus beijos, dos teus braços, de ter-te contra mim, como se fosses uma criança pequenina; e há muito deste sentimento; porém, isto, decerto, de termos idades tão diferentes: tu com os teus vinte três anos e eu... pobre de mim, velha, feia, murcha criatura, com os meus trinta e dois, sou por isso uma pessoa experiente, uma mamã. Se tu soubesses o que eu pensei, quando tu me disseste que a tua mamã tinha morrido... Sabes o quê? Ser eu a tua mamã. Mas acredita, meu adorado Vítor, há alguma coisa deste sentimento em mim. Sabes o que eu faria, se fosse rica? Queria levar-te comigo para Paris, fazer de ti o mais elegante, o mais formoso, o mais cativante jeune homme de ton temps; queria que jogasses as armas, conduzisses cavalos; eu mesmo te aconselharia, te dirigiria, faria a tua educação, meu adorado, e que orgulho que eu teria em ti. Seria a tua mamã, mas uma mamã que amaria com delírio o seu bebé, que o devoraria de beijos, que passaria com ele as noites mais delirantes de amor, de delírio, de êxtase... Ao escrever-te, tenho a cabeça em fogo. Porque te vi eu? Porque vim eu a Portugal? E depois, há momentos em que me parece que te não amo, que o que tenho por ti é uma admiração de amiga... Mas não estou a dizer tolices, não creias. Tudo o que o amor tem de mais louco, de mais veemente, de mais absurdo, tudo sinto por ti. Que poderia eu fazer por ti? Inventa alguma coisa: uma exigência, um sacrifício, mas inventa-o; juro-te que o executo, já, sem discutir. Que felizes são os homens! Quando amam uma mulher, podem arruinar-se por ela, cobri-la de flores, orná-la como um ídolo. Deve ser um delicioso prazer, não é verdade? Atirar, para uma mulher, tudo o que o luxo, a arte, a fantasia criou; dar-lhe todo o seu dinheiro, a sua saúde, a sua honra. Pois bem, eu amo-te assim. Não te posso dar pulseiras, nem rivières de diamantes, mas a minha saúde, a minha vida, o meu sangue, a minha alma, são teus. E tu, há no teu coração um bocadinho-dinho-dinho de amor por esta pobre velha que está aqui sentada, à uma da noite, com o seu fogo quase apagado, a pensar no seu adorado bebé? Dize, amas-me? Se tu soubesses o que eu senti, quando te vi naquele teatro, com aquela sirigaita. Como podes tu aparecer com semelhante criatura em público? Mas é uma mulher indecente! Oh! Semelhantes mulheres deviam ser açoitadas publicamente! É feia, é estúpida. Mas, está tudo acabado, não é verdade? E a propósito, lembras-te que me chamaste ave de arribação? Mas, meu pobre querido, bem percebi que estavas ferido comigo e que o teu despeito era ainda o teu amor. E então, também estava implicativa. 1 was SO aggravating, darling! Meu amor, estou aqui a palrar, sem falar do essencial. O essencial é isto: eu demoro-me, aqui em Sintra, apenas o necessário para concluir certo negócio. Que negócio tenho em Sintra? Grande, grrrande! E Sr. D. Vítor, meu amante e o meu escravo, escusa de saber. Mas, estando tu aqui, não posso tratar dos meus negócios, mas, dentro de três ou quatro dias, estarei em Lisboa. Mas quero que me escrevas, hoje mesmo, em chegando, e que vás dar a carta à Mélanie, dizendo-lhe que ma remeta. A Mélanie dos onze homens sabe tudo. E quando eu chegar a Lisboa, então hablaremos d'espacio. Adeus adorado. E tarde. O fogão está apagado e estou cansada. Sabes o que eu queria? Entrar, pé ante pé, no teu quarto, não te despertar, pôr um beijo de leve, muito de leve, na tua boca adorada, e descer, sem te acordar... Só um beijo. Mas teria eu valor para tanto? Poderia eu resistir a dizer-te ao ouvido: sou eu, a tua Genoveva, a tua escrava; toma-me, sê o meu senhor. Meu adorado, quanto te adoro! As vezes, até me parece que me fazes melhor. És purificante; sinto com mais nobreza, penso com mais serenidade. Como o amor nos muda! Adeus meu adorado. Queria ficar a escrever-te, toda a vida, mas a minha pobre mãozinha, pauvre pettite menotte, está tão fatigada! Se eu tivesse aqui o teu ombro para me encostar! Oh, que bonito passeio debaixo das árvores, não foi? Sentiste o calor do meu braço? Foi-te ele ao coração?
Meu anjo adorado, vou rezar; nunca rezo, nem quase sei como é, mas quero pedir a Deus que te faça feliz, que te faça muito apaixonado por mim, que te dê tudo o que glorifica os homens e encanta as mulheres. Não que eu precise; bem enfeitiçada estou eu... Mas, diz positivamente, aquela sirigaita está posta de lado? Diz-mo. Porque te quero dizer uma coisa: é que esta carta é falsa; não representa o que eu sinto, o que eu penso; não é com este tom ligeiro que te amo; é profundamente. Mas não to quero deixar ver muito; quero guardar sempre um recanto do meu coração, misterioso para ti. De sorte que o que queiras adivinhar, que te interesses; e que todos os dias, pouco a pouco, vás tomando posse de uma alma que, desde o primeiro dia, te pertencia. Amo-te Vítor, juro-te. Nunca amei, nunca senti... podia dizer... nunca sofri, senão por ti. A minha vida começa agora. Para trás, não há nada: sensações, uma vida de animal ou de árvore. Agora vivo.. , porque te amo. Adeus: um beijo, mas profundo até à alma. Dou-to, de joelhos, adorando-te e dizendo-te amado, meu bebé, meu bebé. Adeus. Ponho aqui, nestes pontos... os meus lábios. Adeus. Tu esqueceste aqui o teu paletó. Vou pô-lo debaixo do travesseiro, ou dormir com a face sobre ele.
Adeus.
Tua G.
Quando Vítor chegou a Lisboa, o tio Timóteo perguntou-lhe logo:
— Já? Então falhou?
Vítor sorriu e tinha um aspeto tão radioso, tão próspero, tão enternecido, que o tio Timóteo disse:
— Bem, bem! Estás com esse papinho cheio!
E como Vítor negava:
— Bem, bem — resumiu o tio Timóteo —, a discrição é uma virtude. Não está no catecismo, mas é uma virtude.
Vítor respondeu, nessa mesma tarde a Madame de Molineux uma longa carta, preparada, onde, através da prosa literária, aqui e além, apareciam, como vegetações naturais num jardim cultivado, algumas explosões sinceras de paixão instintiva. Pôs no fim da carta uma infinidade de beijos, metendo-lhe nas dobras violetas secas; juntou um pequeno poema, um soneto, e era tal a sua vontade de exprimir a sua paixão que, se soubesse música, teria decerto juntado uma melodia ou uma meditação.
Depois, começou a esperar a sua resposta. Não tardou em vir, ardente, louca, cheia de gracejos piegas e de interjeições apaixonadas. Escreveu de novo, remeteu mais versos e passava a sua vida no desejo de carta dela, e na esperança da sua volta.
Tinha inteiramente abandonado o escritório, como incompatível com as suas disposições sentimentais. Ia ver, às vezes, Aninhas, todavia.., porque as exaltações ideais de uma correspondência criavam a necessidade física do amor. Achava-se um infame, mas tinha muita vaidade naquela infâmia. Desculpava-se dizendo a si mesmo que não podia romper com a pobre rapariga depois do sacrifício que ela fizera. Mas sentia-se cada vez mais desprendido dela. Aninhas tinha maneiras vulgares; embirrava com o velho que encontrava lá; detestava aquele constante movimento de coisas empenhadas, compradas, revendidas; não suportava o seu prosaísmo e não se sentia compreendido por ela... porque desejava uma alma que se elevasse a compreensões mais refinadas de idealismo, que compreendesse os poetas, amasse os silêncios da noite, se interessasse pelas personagens do romance, chorasse com a comoção da música e conhecesse a elegância da vida.
Achava todas estas excelências em Genoveva e, desde aquela conversa triste e poética, nas sombras escuras da Penha Verde, atribuíra-lhe delicadezas excecionais do coração e comparava-a a certas mulheres da Renascença: a Madame de Campvallon de «Monsieur de Camors», à doce heroína de O Lírio do Vale, a outras mulheres de Balzac, achando-lhe certas curiosidades vibrantes e incoerentes da Dama das Camélias.
Passava então uma vida que ele achava distinta e, em harmonia com a sua sensibilidade, ia a S. Carlos escutar, em sentida melancolia, as óperas mais amorosas. Não frequentava Cerrão, porque as suas teorias estéticas pareciam-lhe muito científicas; ia todas as tardes a casa de um amigo, o Serafim Galvão, que era músico; e estendido numa poltrona, com o cigarro na boca, pedia-lhe melodias febris de Chopin; canções de Schubert, onde achava lances místicos; de um Mendelssohn, que lhe punha um vago devaneio de um sonho delicado; Mozart, que o afogava em ternuras vagas; Gounod, que lhe dava os requintes elegantes da paixão moderna.
De resto, passeava pela rua, com um certo desprezo pelos seus amigos, pelos seus conhecidos, que supunha embaraçados nos cuidados da vida trivial, enquanto ele vivia no esplêndido mundo da paixão partilhada.
Genoveva, todavia, não voltava. Nas suas cartas dizia apenas, referindo-se a Sintra: «Aqui continuo a tratar os meus negócios; Sintra é o meu escritório; ce que j’y fais d'affaires!»
E aquilo prolongava-se já havia três semanas. Mélanie tinha feito a mudança para a Rua das Flores e partira para Sintra; a Miss Sarah, também. Às vezes Vítor tinha horas de impaciência, de ciúme, vendo que Madame de Molineux estava longe, com Dâmaso que, no fim, era o seu amante. Mas acostumara-se, com Aninhas, a esta forma subalterna de «amantes de coração». Tinha mesmo, nela, uma certa vaidade sentida: o outro era o caixa, o pagador, a bolsa; ele era o bem-amado. Desprezava tão profundamente Dâmaso que não tinha ciúmes dele. Genoveva não o podia amar: suportava-o. Como ele, se não tivesse dinheiro, teria de suportar uma próspera antipática e burguesa.
Dava-lhe o seu corpo, mas que era isso? A sua alma, os seus desejos, a sua devoção eram para ele. Vítor. Além disso, fazia a distinção singular, mas exata, tão vulgar nos que viveu com as mulheres libertinas: a distinção entre a voluptuosidade: fingida e a voluptuosidade sentida. Genoveva, com Dâmaso, decerto fingia; com ele, sentiria. Assim era a Aninhas com o Policarpo. Achava pontos de contacto entre si e o trivial e baixo personagem de Armand, de A Dama das Camélias. Mas não se julgava ignóbil... e considerava-se poético!
Por uma ocasião, uma noite, Vítor, subindo a Rua do Alecrim, encontrou e reconheceu, à luz de um candeeiro, o Palma Gordo.
O Palma, que brandia uma bengala enorme, com o chapéu deitado para trás, descobrindo toda a face mais larga e mais balofa, perguntou, com bamboleamento sarcástico da cinta:
Então o Dâmaso ainda está para Sintra, com a...? — e disse uma palavra obscena.
Vítor fez-se pálido, replicou com os lábios trementes:
— Eu sou relação dessa senhora e não admito essa palavra.
O Palma teve um risinho fadista.
— Olá, vá dar lições a quem lhas pediu.
Vítor assentou-lhe, na face bochechuda, uma bofetada sonora.
O Palma, furioso, ergueu a bengala. Vítor, a quem a cólera dava uma força nervosa e convulsiva, arrancou-lha e ameaçou-o, com os dentes cerrados, balbuciando:
— Seu canalha! Seu canalha!
— Largue a bengala! Largue a bengala! — roncava, o Palma. — Largue a bengala, ou chamo um polícia.
Um sujeito que passava, no outro lado, correu, separou, com tranquilidade.
— Então, que tolice essa, num lugar público? Uma pendência de honra!
— Que largue a bengala, que largue a bengala! — rugiu o Palma.
Vítor atirou-lha, com tédio, dizendo:
— Aí tem, seu covarde!
E, muito nervoso, afastou-se com o outro sujeito, que era o deputado Carvalhosa; e foi-lhe contando a questão.
O Carvalhosa exprimiu a sua opinião: tinha feito bem em se desafrontar com a mão; o duelo era uma tradição de tempos bárbaros. Um bom soco, numa bochecha gorda, era uma consolação e uma desforra decente.
— A brutalidade da injúria, a brutalidade dos punhos — resumiu com eloquência. — Para onde vai o amigo?
— Sem destino.
— Pois eu vou ver o Marinho, que está doente, coitado.
— Doente? Com quê?
E lembrando-lhe logo a história interrompida no jantar, no Hotel Central, exprimiu o desejo urgente de ir ver o pobre Marinho, «coitado!».
Encontraram-no no seu quarto no Hotel Universal, no Camões, com um barrete de dormir, a mesa-de-cabeceira coberta de garrafas de remédios, as janelas calafetadas, abafado na roupa. O quarto cheirava a cânfora, e havia nele uma ordem meticulosa, desde as botas, muito engraxadas, alinhadas como um batalhão, até à roupa dobrada sobre a cadeira, sem uma prega. Nenhum papel arrastava, nenhuma ponta de charuto caíra. Sentia-se o cuidado extremo de uma prudência sagaz.
Apertou silenciosamente a mão aos dois; com um sorriso triste, indicou, numa apresentação tática e curta, um sujeito com um magnífico paletó, debruado de pele, e calças cor de flor de alecrim. Mas tinham-no reconhecido logo: era o Sarrotini.
O ilustre cantor ergueu-se, deu shake-hands solenes e melancólicos e, estendendo os braços, como para soltar uma nota alta, murmurou mostrando Marinho:
— Il poveretto!
E tornou a sentar-se, fitando-o com piedade.
— Mas então o que é isso? — exclamou o Carvalhosa, sentando-se pesadamente no leito.
Marinho indicou a garganta; fazia com os olhos, com os lábios, a designação, grave!
— Doençazita de garganta? Beladona, beladona...
— La dona e mobile... — murmurou o Sarrotini, com uma recordação do Rigoleto. E teve uma risada calada, de ãs, com a boca muito aberta, para explicar aquela pilhéria; disse, baixo a Vítor, num português medonho:
— Per o distraire! Il povero!
E cruzando os braços sobre o peito aterrador, retomou uma atitude solene.
Então Carvalhosa, erguendo-se, enterrando as mãos nos bolsos, declarou que, como orador, interessavam-lhe muito as doenças de garganta; e voltando-se para Sarrotini, com curiosidade condescendente:
— O que bebem ordinariamente os senhores para clarear a voz?
Sarrotini explicou na sua linguagem, eriçada de francês e diluída de espanhol, que ele tomava um caldo de galinha, com um ovo batido. A Patti, por exemplo, essa era um cálice de Xerez, num copo de soda...
— Eu, é simplesmente água com açúcar, como José Estêvão. Nós outros, os oradores usamos sobretudo os emolientes; assim Thiers tomava orchata; Garreti bebia sangria muito doce. Precisamos ter o cérebro límpido para a dedução. E para Sarrotini, alteando o corpo: — Porque os senhores soltam notas e não ideias. A água com açúcar é excessivamente favorável.
De resto, acrescentou, achava excessivamente ridículas as antigas exigências clássicas de compêndios de retórica; que o orador devia ter a figura impressionante e natural, o peito saliente, a voz retumbrante... Tolices!... Garreti era uma figurinha de janota; Thiers é anão e tem uma voz delgada e áspera. A questão são as imagens a poesia, a inspiração.
— A questão é a arte: é o génio! — e, com um gesto rápido do dedo, feria a testa.
— Il genio! — aprovou o Sarrotini. E ergueu-se, foi debruçar-se sobre Marinho, e chamando-lhe nomes ternos: — Carino figlio mio, amato Marino!
Aconselhou-lhe sossego, paciência e silencio.
— No parlare, no parlare!
E debruçando-se mais, beijou-o na testa.
Foi tomar o seu chapéu, de largas abas retorcidas, e depois apertou a mão de Vítor, com uma expressão quase amorosa e expansiva: curvou-se diante de Carvalhosa.
— Salute, a voi, egregio oratore!
— Salute cantore! — disse Carvalhosa satisfeito.
E apenas o Sarrotini saiu:
— Parece-me um pobre diabo! — disse com complacência.
Marinho arregalou os olhos, exprimindo uma admiração muda.
Mas Carvalhosa tinha de ir a uma reunião da Maioria e, batendo no ombro de Marinho, despediu-se com estas palavras:
— Triunfa da fraqueza da natureza, pela energia da vontade!... E beladona, beladona!
E saiu, dizendo a Vítor:
— Adeus heroico Silva.
Mas, quase imediatamente, um sujeito de robe-de-chambre entrou com o castiçal na mão. Era um vizinho de quarto, o brasileiro Prudêncio. Deslizava subtilmente sobre o tapete, com as chinelas bordadas, e ao andar mexia os quadris; tinha um colar de barba grisalha e, numa face larga, trigueira, dois olhos vivos, penetrantes.
Quis logo saber se tinha vindo o doutor, se tinha tomado o «rimédio». E aos gestos lentos com que Marinho respondia, o Prudêncio acrescentava:
— Tal qual, tal qual!
E a estas palavras levantava sempre as mãos ao rosto e franzia os olhinhos.
Com um movimento desfalecido da mão, que tirou cautelosamente debaixo da roupa. Marinho apresentou Vítor. E o Prudêncio, imediatamente, disse com uma vozinha singular:
— A doença é uma grande tristeza.
— Decerto — disse Vítor.
— Tal qual — concordou Prudêncio.
E explicou que padecia do fígado. Vítor aconselhou-lhe Vidago.
— Tal qual — disse Prudêncio; ele já lá tinha ido e inutilmente, «bem inutilmente!»
E ficou calado, com os olhos fitos no tapete, coçando devagar a barba dura.
— O senhor faz o comércio? — perguntou bruscamente a Vítor.
— Não senhor.
— Empregado do Estado?
— Não senhor. Advogado.
— Tal e qual! — E retomou a contemplação do tapete, mas o rosto fez-se-lhe risonho; e pousando em Vítor os seus olhinhos penetrantes: — Defesa dos órfãos e das viúvas.
Vítor concordou, baixando cortesmente a cabeça.
— Tal qual! — E lamentou que o Marinho não tivesse jantado à mesa: — Um jantar delicioso! Delicioso! E uma conversa muito filosófica, muito filosófica!
Tornou a dirigir-se a Vítor:
— Eu gosto de uma conversa filosófica.
— E interessante.
— Tal qual!
Pareceu procurar uma palavra, as ideias pelo tapete, mas não achando decerto, foi retirando o castiçal e disse a Marinho:
— Faço votos pelo seu restabelecimento, vizinho.
Apertou a mão de Vítor.
— Senhor doutor! Quando queira, o Prudêncio... Terei muito gosto em que venha jantar. É o quarto número vinte. Tal qual, senhor doutor.
E saiu deslizando subtilmente nas solas ligeiras das chinelas.
Apenas ficara com Marinho, Vítor, sentando-se na cama, perguntou-lhe:
— Ó Marinho, mas você não me acabou de contar a história, o outro dia. Estava quando o brasileiro perguntara a Madame de Molineux se era da Guarda.
Mas o Marinho mostrou a garganta, levou o dedo aos lábios, com um gesto vivamente negativo, e exprimiu, numa pantomima cómica, que não o obrigaria a soltar um som! E ficou imóvel, com os olhos muito abertos, corado, mudo, atabafado, aterrado, lúgubre!
— Bem, adeus, Marinho. Estimo as melhoras.
No corredor, encontrou Sarrotini, que entrava e que lhe pareceu logo mais contente, mais jovial, faceto, tendo perdido o aspeto lúgubre do quarto do Marinho.
— E la signora, la signora Ginoveva?
— Bem, obrigado.
— L'altra notte, il baile... Precioso! Caramba! Havemi fatto una buona seratta noche divertida... Beaucoup!
E ria, fazia cócegas a Vítor.
— Passou-se bem, passou-se bem. Addio!
— Al rivedersi, cari no!
E correndo, atrás dele, com um ar confidente:
— E creia a mi amistade. No è olvidado lo que lei me a ditto; que era republicano. Anch io, uno republicano. Tuto per la libertá!
— Tudo!
E Sarrotini, no alto da escada, erguendo a mão, disse ainda sonoramente:
— Tuto per la libertà!
Vítor, nessa noite escrevendo a Madame de Molineux, contou-lhe que se vira obrigado a dar bengalaas num amigo de Dâmaso que falara dela pouco respeitosamente. E dali a dias, Genoveva respondendo:
Que importa o que os outros dizem de mim, se tu me amas? Decerto é bem próprio de amigos de D. serem, como ele, perfeitos imbecis. Meu amor, agora, a grande novidade; possa ela fazer-te feliz: chego aí, amanhã à noite. Vem ver-me, quarta-feira, pela manhã. A toi, ma vie, mes rêves, mes pensées, mes désirs, mes ardeurs et le petitcoeurda tua, for ever, G.