A Tragédia da Rua das Flores

Eça de Queirós · Capítulo 11 de 12

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A Tragédia da Rua das Flores

Capítulo XIII · Daí a dias, Vítor da Silva encontrou,…

 

Daí a dias, Vítor da Silva encontrou, no Rossio, Camilo Cerrão. Parecia ter perdido a sua animação habitual; tinha o ar estremunhado e melancólico e, sem transição, começou a queixar-se, com uma fisionomia contraída, deitando olhares irados, para os lados, como se estivesse descontente da cidade, dos habitantes, da cor, da luz e do universo.

Os negócios iam mal. Tinha tido turras com a gente do Variedades e não se fazia um vintém. A culpa era do constitucionalismo e da lei dos morgadios; extintas as grandes famílias, tinham acabado as coleções ilustres. Os agiotas que tinham sucedido aos fidalgos só compravam litografias. O único freguês era o Estado... Mas o Estado era estúpido. A sua esperança era uma revolução. Mas devia vir «amanhã» que, se tardasse uma semana, via-o sem pão na casa.

Vítor escandalizou-se: «Que tolice! A tua bolsa...

— Não, não. O que me fazia conta era pensar outra vez no retrato dessa senhora estrangeira.

Vítor prometeu-lhe falar logo a Madame de Molineux. «Tinha a certeza», afirmava, «que ela o desejava imenso».

Deram algumas voltas no Rossio. Camilo, que as dificuldades da vida azedavam, mostrava a cidade «de um aspeto tão ignobilmente burguês e chato, as fisionomias inexpressivas do português moderno, a fachada idiota do Dona Maria, a vergonhosa vela de estearina que tinha por pavio a imortalidade da Carta Constitucional»... E consolado com estas pilhérias, declarou que «ia estudar o retrato, tinha uma ideia: pintá-la vestida de preto, sobre o fundo brilhante de uma cortina de damasco amarelo».

— Que efeito! Porque, enfim, que diabo, trata-se de chamar a atenção dos burgueses! Como? Por meio da estardalhada das corres berrantes! Ao amarelo, pois!

Genoveva, com efeito, comentou com alegria: «O retrato seria para Vítor, que o poria no seu quarto, tendo, por baixo, constantemente flores, como decoração votiva de um altar. Mas não poderia o artista fazer o retrato ali mesmo, na sala dela? Era tão secante ir a um atelier, todas as semanas! E era mesmo num quarto andar?»

Mas Camilo a esta proposta fez um trejeito ambíguo. «E a luz? A questão era a luz. Sem contar que os artistas recebiam, não procuravam; a arte era como a religião: esperava os fiéis, não vinha ter com eles. O atelier é o templo. Citou mais uma vez Francisco I apanhando os pincéis de Ticiano e declarou «que não! Que só trabalhava no seu atelier».

E para estudar a luz, conhecer Genoveva e combinarem a toilette, Vítor levou-o uma manhã à Rua das Flores.

— Como vai tua mulher? — perguntou-lhe ele a subir a escada.

Camilo encolheu os ombros.

— Deu-lhe para estar melancólica e suspirar. Permite-se suspirar! Creio que tem saudades da broa da aldeia e da cavaqueira da fonte. Com efeito, a criatura esmorece no quarto andar. Falta-lhe a verdura, o campo, o gado; está como uma vaca metida numa sala. Como todos os animais que vêm desterrados, definha longe do seu meio.

Vítor não respondeu. Pensava nas admiráveis formas do «animal» e no seu vestido de chita amarela.

Camilo pareceu admirar muito Genoveva. Teve mesmo um momento acanhado e, com o seu chapéu desabado nas mãos, os pés cruzados debaixo da cadeira, tinha uma atitude constrangida de plebeu deslumbrado. Mas Genoveva, com muita bondade, falou-lhe do seu génio, da sua obra; citou alguns pintores ilustres que conhecera; Carolus, Duran, Bonnat, Regnault; falou das exposições; teve mesmo uma palavra sobre o claro-escuro, e Camilo, como um peixe que se sente de novo na água, recuperava o dispersão dos movimentos e a facilidade do discurso.

E daí a pouco, de pé, com as abas do paletó deitadas para trás, os cabelos em confusão, falava com a sua abundância pitoresca. Começou por censurar a cor dos estofos e das guarnições da sala: «Aquele fundo cor de chocolate e amarelo não convinha à sua beleza: uma loira, alta e de perfil aquilino, com majestade nas formas, devia estar cercada de uma decoração severa; uma combinação sóbria e rica de carvalho escuro e de velas de cor de cereja; um ou dois quadros de mestres espanhóis, enegrecidos do tempo, onde destaca, no fundo tenebroso, um lampejo da face lívida e mística de um santo; e grande divã.»

Genoveva aprovava muito; achava talvez melhor aquela ideia para um quarto de cama: «Devia dar a um amor um carácter religioso e mais profundo e um laivo de misticismo e voluptuosidade.»

Cerrão olhou-a com espanto.

«Tinha perfeitamente razão; era uma ideia digna de uma bela italiana do século XVI. Positivamente, como a vou pintar é vestida de veludo preto, estendida num divã, ao modo veneziano, com o estilo de Ticiano!»

Combinaram então a toilette. Cerrão quis ver alguns dos seus vestidos. Mélanie ia transportando, pouco a pouco, o guarda-roupa para a sala; estendia os vestidos sobre as cadeiras. Cerrão dava um feitio artístico às pregas, e aquela exposição de sedas e de veludos, de falhe, punha na sala um ar de rico armazém de modista; estendida nas cadeiras, com as mangas caindo, como braços mortos; os corpetes chatos e flácidos; mostrando os enchumaçados e os espartilhados; alagava sobre o tapete a riqueza de caudas e pregas fartas; as failles claras mostravam a rica frescura das sedas alegres; os veludos desdobravam-se com o peso cerimonioso das pregas doces e ricas; as rendas percutiam a sua suave filigrana, sobre cores sombrias; e Cerrão, concentrado, com a mão no queixo, os beiços estendidos, passeava entre os vestidos, amarrotando, aqui uma seda, além a cauda de um veludo, estudando os tons, as espirais de luz, no rebordo das pregas, as sombras aniladas, nas dobras das pregas, a faiscação dos planos lisos.

Um vestido de veludo azul-escuro, sobretudo, atraiu-o, ora plantando-se diante dele, com um ar profundo, ora demorando em Genoveva um olhar estudioso.

Combinava as meditações de um filósofo e o cerimonial de um sacerdote: «Como diabo havia de atirar para a tela?»

— Positivamente de azul, sobre um veludo de pelúcia magenta-escuro! E a sua carnação, os seus cabelos loiros, destacando-se neste tom severo, comendo a luz, monopolizando um olhar e recebendo, das tonalidades graves do fundo e os gestos tinham a largura de quem brocha uma tela, como um velamento, um adoçamento geral que vem entremear certas securas fortes dos planos lisos...

— Percebeste? — disse Vítor, sorrindo a Genoveva.

— Há de ser um soberbo trabalho resumiu Camilo.

E, no seu entusiasmo, queria que começassem no dia seguinte. Mas Genoveva devia fazer uma visita prometida à alemã do barão. «Quando, então?» Combinaram que Vítor iria dizer a Camilo o dia exato.

— E eu, no entanto, disponho os pincéis no atelier. All right.

Daí a três dias, com efeito, Vítor subia a escada de Camilo Cerrão, para o avisar que, daí a dois dias, quarta-feira, Genoveva iria dar a primeira pose.

Ao entrar no atelier, viu logo que Camilo tinha feito preparativos: o chão estava lavado, os painéis e os gessos espanejados; sobre um pequeno estrado, coberto de um velho tapete verde, estava uma cadeira de coiro, com pregos amarelos e, por trás, suspensa, como num gabinete de fotógrafo, um reposteiro de velho veludo, cor de magenta-escura; no cavalete, havia uma tela nova e, sobre a mesa, um ramo de flores, um prato de maçãs e uma espécie de jarro de vidro, cheio de Colares.

Vítor riu alegremente; na disposição daqueles acessórios, reconhecera o desejo de Camilo em imitar, no seu atelier, a decoração conhecida do atelier de Rubens, popularizada pela gravura onde se veem, tudo acastelado em taças de prata, fruta da Boémia, vasos transbordantes de flores e a riqueza das altas existências aristocráticas.

Mas a porta abriu-se e a formosa Joana entrou. Apenas avistou Vítor, uma onda de sangue cobriu a sua face pálida. Cumprimentou e disse que Camilo tinha saído e que só voltava à noite...

Àquela certeza de que Camilo não voltava, Vítor, sem saber porquê, sentiu uma perturbação, uma vaga satisfação. Joana tinha o seu terrível vestido de chita amarela, mas Vítor observou que tinha os cabelos mais bem arranjados, uns punhos de renda.

— Eu vinha dizer-lhe que virei além de amanhã, à uma hora. Não esquece, não?

— Além de amanhã, à uma hora — repetiu ela.

Conservava-se de pé, com as pontas dos dedos apoiadas à mesa. Vítor via-a um pouco de perfil e o seu olhar não se podia desprender da beleza dos ombros, da maravilhosa linha do seio e do pescoço, forte como mármore e branco como o leite Mas o que o perturbava era aquele vestido de chita que parecia colado ao corpo, que revelava todas as curvas, todas as reentrâncias, que era mais irritante que a nudez e tinha, com a sua cor amarela, um ar estranho e picante.

Procurava uma palavra e disse, por fim, olhando em redor:

— Aquele mandrião não tem feito nada de novo?

Ela encolheu os ombros.

Era simplesmente ignorância, mas Vítor julgou ver um desprezo inteligente pelas fantasias contraditórias de Camilo.

— E como vai o seu pequerrucho?

— Bem, muito obrigada — respondeu.

Não se arredava de ao pé da mesa, mas os seus olhos fixavam-se em Vítor, com uma franqueza de um animal espontâneo. Aquilo perturbava-o; sentia alguma coisa de remanso, de langoroso, que o amoleceu. Levantou-se, pôs os olhos numa cabeça de mendigo, pintura suja e medíocre, que tinha um rótulo por baixo, com este dístico: «Estremadura — fatalidade social.»

— É bonita esta cabeça!

Ela aproximou-se, olhou e disse:

— Ah!

— O Camilo nunca fez o seu retrato?

— Não senhor.

E sentou-se no divã: o vestido colava-lhe ao corpo, de modo que parecia que não tinha camisa; havia, nas suas pregas coladas, toda a revelação de um mundo maravilhoso. Vítor disse:

— É pena!

Mas ela ergueu-se, aproximou-se da janela, voltou; e estavam agora no sofá, um junto ao outro. Vítor pareceu sentir, como vindo dela, um calor tépido, como de uma fogueira distante; via-lhe o seio arfar e a redondeza magnífica dos braços, nas mangas apertadas, dava-lhe um desejo atrevido de lhes tocar, como para lhes sentir a elasticidade. Repetiu:

— É pena!

— Acha? — disse ela.

A sua voz era tão cálida que Vítor voltou-se com um ligeiro estremeção. O olhos de Joana estavam como afogados num fluido e todo o seu corpo se adiantava, numa atitude de oferta e de passividade...

Fez um movimento instintivo, pôs-lhe a mão no ombro; ela cerrou os olhos e, inclinando a cabeça para trás, soltou um gemidozinho suave.

Vítor descia, daí a meia hora, as escadas, perfeitamente contrariado. «Que tolice! Fora evidentemente uma canalhice, porque, enfim, Camilo era seu amigo. Depois, não tinha por aquela bela lavradeira nem amor, nem capricho; fora o vestido de chita amarelo! Fora a explosão bestial de um momento sanguíneo. Além disso, as últimas palavras dela, «quero viver consigo», eram inteiramente insuportáveis! Viver com ela: um animal belo, mas estúpido, passivo.., uma fêmea!»

Estava agora vendo como faria para se não encontrar com ela, quando acompanhasse Genoveva. Felizmente, ela nunca vinha ao atelier quando Camilo trabalhava e, além disso, mesmo que visse Genoveva, mesmo que tivesse ciúmes, era tão passiva, tão nula, que não havia a recear nem recriminações, nem cenas.

Não era também possível que Genoveva soubesse. O mal não era grande. Ele fora estúpido e sentiu-se descontente, apesar de não poder pensar, sem um estremecimento, na magnífica beleza de Joana e na sua maneira calada, mas profunda, de sentir o amor.

E Camilo? Camilo desesperava-o. Aconselharia Genoveva de lhe dar, em lugar de quarenta, sessenta libras. E parecendo-lhe que estas vinte libras sanavam a traição, contente de si e da vida, correu a ver Genoveva.

Positivamente, dava no goto às mulheres!

Camilo foi pontual, daí a dois dias. O prato de maçãs estava ainda sobre a mesa, com o jarro de Colares e, com um casaco de veludo cheio de nódoas, uma espécie de gorro escarlate, Camilo, muito animado, disse a Genoveva:

— Vamos fazer uma grande obra de arte e digo vamos, porque o modelo é o colaborador do artista.

E imediatamente fê-la sentar na cadeira do estrado. Apesar de ser Maio, estava um dia frio.

O dia estava escuro, com uma sensação de chuva próxima. Genoveva tinha um largo paletó de fazenda escura, debruado de peles, um regalo muito grande; em torno do seu pescoço, a gola de peles fazia aparecer o seu rosto mais branco e mais delicado, dando alguma coisa de suave e de friorento; e um chapéu de veludo castanho-escuro, com a aba levantada adiante, sobre a qual desabrochava uma rosa de chá. E comprimindo uma vontade de rir, um pouco encolhida, porque o atelier era frio, parecia adorável.

Camilo teve a ideia de a pintar assim, de chapéu, sobre o fundo amarelo. Meditou, esboçou alguns sinais, na tela, mas, de repente:

— Com mil diabos, não! Melhor seria de vestido azul com algumas pérolas no cabelo. Estas toilettes de passeio são indignas de uma obra de arte.

Neste momento, Joana entrou no atelier, mas viu Vítor ao pé de Genoveva, abriu os seus grandes olhos negros, pôs-se vermelha e imediatamente pálida; e ficava de pé, imóvel, com um vago tremor nas mãos, quando Camilo reparando nela:

— Que é? Que tens? Estou a trabalhar. Adeus. Ela baixou um pouco a cabeça, desapareceu.

Quando soube que era a sua bem-amada, Genoveva deu-lhe os parabéns: «Era uma magnífica beleza»; e olhou de lado para Vítor, que fora encostar-se à janela, a esconder a vermelhidão das faces.

Nesse primeiro dia, Camilo desenhou as mãos e, trabalhando, dissertou muito sobre a arte. Estava ultimamente com vontade de se dedicar à pintura religiosa. «Porque, enfim, de onde provinha a decadência da sociedade moderna? Da falta de espiritualismo; e o que havia de mais próspero para levantar as almas do seu abaixamento e distrai-las do seu prosaísmo que a pintura dos grandes tipos e dos grandes caracteres dos santos e dos mártires? Mas sentia que lhe faltava a fé. Para pintar São Sebastião, é acreditar nele. Ora, acredito em São Sebastião? Para fazer pintura santa era necessário ser um santo. E invejava então», disse, «a excelência recolhida dos velhos pintores ascetas da raça de Fra Bartolomeu e da Fra Angelico, que, na paz seráfica dos claustros, possuídos do amor divino, tinham a visão nítida do céu e sabiam pintar uma alma, como hoje se sabe pintar uma árvore...»

Mas, recuando, examinou a sua tela e enfureceu-se. ..Não havia nada mais ridículo, nem mais prejudicial, do que estar a pintar o moderno, preocupado do antigo. Assim, instintivamente começara a pôr, no traço, a secura da pintura ascética.

— Que diabo! Falemos da Renascença, dos Bórgias, dos prelados lascivos, das galas católicas, dos feitos artísticos...

E falou muito tempo dos artistas da Renascença, até que Genoveva se declarou cansada.

E Camilo, todo preocupado dos artistas da Renascença e das suas maneiras régias, ofereceu a Genoveva maçãs e Colares, como Ticiano poderia ter oferecido as granadas do Tívoli, com vinho Lacrima-Christi.

Genoveva, ao voltar para casa, na carruagem, fez muitas perguntas a Vítor, sobre aquela bela criatura entrevista. «Se ele a conhecia? De onde era? Se a tinha visto muito?»

Vítor respondeu com uma vergonha, fazendo-se distraído.

«Se ele ia muito a casa de Camilo? Se ela tinha filhos?»

— Para que são tantas perguntas? — disse ele rindo.

— Hum! Não gosto dessas relações.

— Tens agora ciúmes daquela fêmea?

— Há homens que gostam de fêmeas...

— Mas eu, com os meus gostos de artista, a minha delicadeza de sentimentos...

Genoveva teve um sorrisinho.

— Que estranho vestido de chita amarela — disse ela. — Ela é bem feita.

— Hum! — fez Vítor.

— Hum, quê?

— Não acho muito.

Genoveva calou-se, olhando-o de lado, com um olhar faiscante.

— E bem secante ter de subir àquele quarto andar — disse ela.

Dâmaso, ao princípio, tinha tido uma ideia vaga de que aquela explicação impressa não era talvez muito honrosa para ele; fora, sobretudo, ao vê-la impressa, «em letra redonda», que se sentira vexado. Nesse mesmo dia, veio vê-lo um parente dele, o Sr. Casimiro Valadares; era um sujeito sério, de sobrancelhas cerradas, de quem se dizia: «O Valadares não é para graças. «Tinha tido, havia quinze anos, um desafio com um emigrado espanhol, em que fora ferido num dedo, ligeiramente, e, desde então, considerava-se e era considerado em questões de pacto de honra e um mestraço numa história toda de pendências entre cavalheiros. E agora, ao entrar no quarto de Dâmaso, atirou o Diário Popular para cima da mesa e disse:

— Isto é a vergonha das vergonhas!

Dâmaso fez-se escarlate e, abandonando-se a um fluxo labial desordenado, declarou que «queria evitar um escândalo, que realmente a verdade é que estava tocado», que o Vítor era o seu amigo íntimo, que era indecente bater-se por causa de uma prostituta, que não era medo, que estava pronto a bater-se a tudo, à faca, peito a peito, se fosse necessário».

— Palavreado, palavreado... — dizia o outro. — O que é isto: é que os padrinhos do Silva obrigaram-te simplesmente a uma vergonha; e a minha opinião é que tu deves-te bater com o João da Maia e com o tal senhor Gonçalo... Gonçalo quê? Gonçalo qualquer... Gonçalo Cabral. Devias já mandar-lhes os teus padrinhos. Se tu te tivesses dirigido a mim, as coisas corriam de outro modo: era o Vítor que havia de dar a satisfação. Assim, é indecente; é a minha opinião.

Dâmaso protestou que eles «se tinham mostrado seus amigos, que o tinham tirado de uma alhada que, além disso, «contava quebrar a cara ao Vítor; que, de homem para homem, era homem para ele».

E abria-se numa verbosidade transbordante, quando o Valadares o deteve com estas palavras secas:

— Eu, se fosse a ti, por decência, ia passar uns meses ao estrangeiro.

Dâmaso ficou aterrado. «Porquê? Aquilo desacreditava-o?»

— Declaraste-te simplesmente covarde e bêbedo; é a minha opinião.

Dâmaso, então, prodigalizou as queixas contra o João da Maia. «Ele não tinha experiência; fizera o que o João da Maia lhe dissera; fiara-se nele; além disso, jurara-lhe que não se publicava... »

— Desafia o João; é a minha opinião. Queres que eu lá vá? Mas Dâmaso recusou com violência: «Para camisa-de-onze-varas, já bastava! Estava farto de complicações. Havia duas noites que não dormia.»

E o Valadares saiu, dizendo-lhe com tédio:

— Homem, devias trazer uma roca à cinta! É a minha opinião.

Dâmaso começou a pensar se realmente lhe fariam má cara, na sociedade.

Durante alguns dias saiu, um pouco retirado, no fundo do cupé; não foi ao teatro; depois, arriscou-se, uma noite, a ir ao Grémio, passando rapidamente pela sala. Recebeu dois «olá, seu Dâmaso», muito amigáveis.

Animado, mostrou-se, pela tarde, na Casa Havanesa; recolheu, como sempre, os apertos de mão que mereciam os seus contos de réis de renda. Foi a S. Carlos; na visita que fez aos camarotes, todas as senhoras tiveram, sem diferença, os mesmos sorrisinhos, a mesma amabilidade. «Ou ninguém tinha lido, ou achavam natural», foi a sua reflexão. Achou o Valadares caturra e espadachim!... E uma noite, no Grémio, lembrou-se de falar violentamente de Madame de Molineux e de Vítor: «Em quanto ele, o desavergonhado do Silva estava vivendo simplesmente à custa da bêbada; de resto, estava farto dela», declarou. «Ele mesmo lhe tinha dito, dias antes, que procurasse outro; ele tinha melhor; de resto, a criatura não lhe custara nem um vintém, e depois, tudo era postiço, tudo era chumaço; despida não valia nada; e a besta do Vítor ainda acabava por casar com ela; o que ela quer apanhar é os oitenta contos do Timóteo.»

Foi também a opinião geral cada homem acreditando na sua vaidade que todos os outros eram amados por interesse.

Por esse tempo, publicava-se em Lisboa um pequeno jornal intitulado a Cometa do Diabo. O seu redator e o jornal pareciam-se fisicamente; havia na fisionomia do homem e no papel da gazeta o mesmo tom ordinário e baixo; o estilo dos parágrafos tinha a irregularidade miserável dos hábitos do escritor; e os tipos de impressão, como o carácter do homem, eram ambos «safados».

O fim do jornal era simplesmente a aquisição, para o seu redator, de alguns mil réis que lhe pagassem os litros de Colares, alguma parada nos valetes e nas damas e a tarifa das prostitutas; para tudo o mais, o dinheiro era-lhe desnecessário: tinha o calote. O meio de obter este rendimento era simples: era extorquir com usura ou simples ameaça de uma publicação infamante, ou receber dinheiro do covarde, pela impressão de alguma calúnia; o difamado trazia a calúnia e a espórtula; o redator virgulava a calúnia e guardava a espórtula. Quando lhe davam bengaladas, sacudia-as como um cão molhado, e em lugar de um litro, para se restaurar, bebia dois; quando lhe perdoavam ou desprezavam, alteava o peito, metia os dedos pela grenha e exclamava na batota, ou no bordel: «Teve medo! Que viesse para cá!»

Esta profissão era exercida num terceiro andar de uma travessa do Bairro Alto, mobilado de uma cama e de uma banca; na cama, imunda, o redator cozia o vinho, ou suava os suores de uma tísica, no segundo grau; em cima da banca, compunha... e havia artigos; depois expetorava... e havia escarros; vivia triste, entre todas aquelas nódoas, tremendo de medo da Polícia.

Uma manhã, Vítor recebeu pelo correio um número da Cometa do Diabo onde, na redação denominada «Comentador», um parágrafo estava marcado com um traço de tinta. Vítor furioso, leu:

«Ora viva, Sô Vítor! Então deixa-se o escritório do ilustre Dr. C? Já se não necessita de explorar a viúva e o órfão?» Esta pergunta era feita, no Chiado, a um certo Vítor, ao Vítor bonito. E um Pai Paulino que passava nessa ocasião e que tem olho, ouviu a seguinte cornetada: É que o Sô Vítor achou emprego mais bem remunerado e, em lugar de explorar a viúva, explora a estrangeira. E o que fará a certa Dulcineia de um certo mercador de panos?» Pois Só Vítor, se assim é, dizemos nós cautelinha que o Diabo cá tem uma cometa preparada para cornetar, por esse mundo, a fama das suas conquistas... rendosas! Ora viva, Sô Vítor!

Vítor acabou de ler este parágrafo com lágrimas de raiva. A sua primeira ideia foi sair e chicotear o Dâmaso, porque não havia dúvida que fora ele o difamador; reconhecia o estilo do Alípio, mas a vingança do Dâmaso. Mas bater-lhe faria um escândalo; não era criar em torno do facto uma publicidade terrível? O parágrafo do ilustre Diabo, que poucas pessoas teriam lido, seria então miseravelmente conhecido. Muitas diriam: «Que infâmia!» Mas outras diriam: «Tocou-lhe na ferida!», porque as calúnias são como as nódoas de certos óleos: quando se limpa a mancha fica a marca.

«Felizmente, Genoveva não teria lido.., ou rira. Mas o tio Timóteo? Tremia que lhe tivessem mandado o jornal. « Foi com o coração acanhado que desceu para a sala de jantar. Dobrado, em cima do aparador, estava a Cometa do Diabo.

O tio Timóteo, sentado na sua poltrona, esperava o jantar, como Times caído sobre o joelho.

Vítor, num relance, compreendeu que devia ser o primeiro a falar e, por uma indiferença, pareceu atenuar a importância.

— Ah, também lhe mandaram esta infamiazinha?

O tio Timóteo fez um gesto afirmativo. Aquele silêncio desarranjava um pouco a atitude de Vítor, e disse, afetando rir-se:

— É o Dâmaso furioso...

O tio Timóteo dobrou cuidadosamente o Times. E Vítor, já embaraçado, passando em roda da mesa, começou a dizer:

— Eu, bem me importa!... Quem se importa com o que diz a Cometa do Diabo?... Felizmente todos me conhecem...

O tio Timóteo ergueu-se, fitou Vítor. Tinha o ar preocupado; bateu as pálpebras, como embaraçado; e catarrou com a garganta e disse:

— Dize à Clorinda que traga o jantar.

Sentou-se, desdobrou o seu guardanapo e falou das probabilidades da guerra no Oriente. «O Times trazia um artigo tenso... Mas a Inglaterra ultimamente tinha uma política egoísta, de capuchinho, covarde. Covarde! Dizia-o a todo o mundo. Dizia-o na cara de Lord Beaconsfield e à rainha. Covarde!»

Vítor, encantado em ver que as preocupações do tio Timóteo estavam tão longe, no Danúbio e nos Dardanelos, animou-o e levou ainda mais para longe, para a América, para a Índia... deitando, de vez em quando, na conversa algumas palavras vagas, como achas numa fogueira, para não a deixar apagar. Mostrava-se irritado contra os Turcos.

— Uma asneira! Tenho pensado muito nisto — como para se mostrar interessado pelas ideias gerais —, e positivamente a Turquia é um cadáver!

— Mas o que é a Rússia?

E o tio Timóteo atacava a Rússia, o czar, a divisão da Polónia, o exílio da Sibéria e a escravidão dos trabalhadores. Traduziu mesmo um artigo do Times a Vítor, deu algumas punhadas na mesa e falou largamente sobre a ideia.

«Ou não leu a Cometa, ou fiz-lha esquecer», pensava Vítor.

E depois do café, ia levantar-se, quando o tio Timóteo, enchendo o cachimbo, disse, com uma voz vagarosa, grave:

— Pois eu li a infamiazinha...

Vítor tornara-se a sentar, corado.

— Li — continuou o tio Timóteo, consternado. — É uma infâmia, porque não creio que uma pessoa da minha família viva à custa de uma mulher...

— Oh, tio Timóteo! — acudiu Vítor, com um largo gesto de uma consciência escandalizada.

— Não creio, está claro. Mas não me faz muito feliz ver que te estás a arruinar por ela.

— A arruinar? — disse impetuosamente Vítor.

— Senta-te. Falo tranquilamente, escuta-me tranquilamente. A arruinar! Não de dinheiro, está claro, que o não tens...

E, acendendo o cachimbo, puxava a baforada, tranquilamente, aconchegando o tabaco com o dedo.

Vítor, nervoso, devorava-o com os olhos.

— Não o tens, mas um homem não é só feito de dinheiro, só. Há certas coisas que se podem arruinar: arruína-se a saúde, a reputação, a inteligência, o carácter, a profissão...

— Mas então... — começou Vítor.

— Chiu! — E o tio Timóteo, cerrando as pálpebras, estendendo a mão: — Meu amigo, eu chamo «arruinar» a um homem abandonar as suas relações, a sua carreira, os seus deveres, o seu escritório, as suas ambições, os seus planos, para viver nas saias de uma mulher, como um sigisbéu...

— Ó tio Timóteo, mas deixe-me...

— Tem paciência. Eu sou da opinião.., e disse muitas vezes.., que «um homem deve ter uma amante; quem aos vinte anos não é casado, nem tem uma amante, tem falta de limpeza»... — Tinha falado tranquilamente, mas, de repente, animando-se, deu uma punhada na mesa: — ...Mas com um milhão de diabos, uma coisa é ter uma amante e ir vê-la de vez em quando; ou todos os dias, ou horas, ou todos os momentos com prazer de ambos; e outra coisa é mandar tudo ao diabo, parentes, casa, profissão, carreira, e de dia, de noite, a todas as horas, estar colado à criatura, como um carrapato! É indecente.

— Mas eu...

— Mas tu almoças lá, passas lá a manhã, fazes às vezes a honra de vir jantar aqui e para voltar para lá, passar lá a noite; passeias com ela, vais ao teatro com ela, não tens outra ideia, nem outra ocupação, nem outro fim de vida! Ora eu digo que isto é babugice! E que um homem que tem os seus membros todos e o seu cerebrozinho dentro do casco deve realmente fazer alguma coisa de melhor que viver entre as saias de uma mulher! Dizer isto não é ralhar. Eu não sou tio de ralhar, pobre de mim. É dizer-te a verdade. Consulta a tua consciência. Ora agora, se te achas inteiramente inapto para outra qualquer coisa que não seja refrescar os ardores de uma senhora, então fazes bem; mas se sentes vontade, inteligência e força nesses braços, então emprega-as noutra coisa! Com franqueza, tenho ou não razão?

— Tem toda a razão, tio Timóteo — balbuciou Vítor, escarlate.

— Bem. Então, ponto na cena intima.

Ergueu-se e foi sentar-se na poltrona, com o Times.

Vítor ficou imóvel na sua cadeira, com o rosto abrasado, torcendo nervosamente o bigode e quebrando a cinza do cigarro na borda do pires.

Vítor contou a Genoveva a cena com o tio Timóteo.

— Ora, manda o velho ao diabo! — exclamou ela. E deitando-lhe os braços ao pescoço, com um modo arrependido:

— Perdão! Falar assim do nosso titi! Eu até gosto dele. Mas que quer ele que tu faças? Um homem como tu não nasceu para vegetar num escritório de advogado... E de resto, que me importa? A tua obrigação, a tua ocupação, o teu princípio, é amar-me. Dize, não é verdade? Diz-me...

Os seus olhos tinham uma paixão tão profunda, tinha uma palidez tão doce na sua face, o seu corpo pesava-lhe nos braços, num abandono tão amoroso, que Vítor, pálido, murmurou:

— Sim, é.

— Manda o outro ao diabo!

Com os punhos fez um gesto impertinente de quem arruma um cartapácio tedioso. Mas, no dia seguinte, ao almoço, falou com mais seriedade: .Que não queria, de modo nenhum, que o tio Timóteo começasse a embirrar com ela, a supor que ela estava pervertendo o menino; que era mulher para lhe fazer a vontade; podia ir todas as manhãs ao escritório, da uma às três; mais doce depois pareceria a sua volta; um homem realmente devia ter uma ocupação, e a de advogado parecia-lhe bonita: falar numa audiência, defender causas políticas ou crimes de amor; a toga havia de lhe ficar bem e, quando ele falasse, queria ouvi-lo.»

— Arranja a defender um assassino, para eu ver.

Mostrou-se, um outro dia, muito entusiasmada da profissão de advogado: «Que orgulho, salvar um homem que treme, palpita de terror; salvá-lo do fim, do degredo! Depois, a advocacia era a sala de entrada da política; podia ser deputado, seria um orador; e que orgulho para ela vê-lo em sessões tumultuosas, falando do alto da tribuna, polémico, a um ministério atónito e encolhido!»

E Vítor começou a achar-lhe razão. Desde que ela a estimava, a vida de advogado já não lhe parecia tão burguesa, tão monótona; começava mesmo a compreender-lhe certa poesia oculta. Começou a ir ao escritório, mas, como os elementos romanescos da advocacia não lhe apareceram logo e apenas viu os tédios habituais, como não encontrou imediatamente um assassino a salvar ou um crime de amor a defender, bem depressa lhe veio uma fadiga maior do papel selado e das frequentações dos clientes; começara a bocejar, a dar-lhe uma sonolência triste; agarrava o chapéu, corria à Rua das Flores; encontrava-a vestindo-se, ou lendo, e fumando cigarros Laferme.

Ela começava por censurar: era mal feito deixar o escritório, devia trabalhar; mas ele jurava-lhe que a lembrança dela não o deixava, que não podia estar um momento sem a ver... E ela, toda feliz, dava-lhe um beijo.

— Tens razão!

Um dia mesmo, disse-lhe:

— Deixa lá o escritório. Tenho outro plano.

E interrogada, respondeu em risinhos, beijos, toda a sorte de reticências carinhosas: «Achava-se desordenadamente apaixonada por um rapaz pobre e ela, pobre também; ter outro amante, nunca; parecia mais fácil viver numa trapeira, ou coser para fora, ou pedir pelas esquinas.»

O plano de Genoveva era este: as suas dívidas estavam pagas, tinha um capital de vinte contos, a seis por cento; as suas joias e a sua carruagem em Paris e as suas mobílias, vendidas, dariam quatro a cinco contos de réis: era um rendimento de um e quinhentos; era possível viverem dois. Iriam a França, poderiam ter, nos arredores de Paris, na margem do Sena, uma casinha, um chalet bonito, com doze metros de relva, quatro velhas árvores; tendo fundo de cores claras, cores lânguidas nos muros; sim, o Paris no ónibus, fariam a vida deliciosa e jovial dos estudantes namorados. Tinha escrito mesmo para Paris, ordenando a venda de tudo; para não «roer» o capital em Lisboa, faria economias. Tinha mesmo despedido a carruagem da companhia.

Uma noite, depois do jantar, estavam na sala. Vítor, estendido no sofá, fumava; Genoveva, sentada ao piano, tocava a partitura da Petite Mariée e, aqui e além, cantava alguns dos finos, delicados couplets. Vítor sentia-a numa hora deliciosa; aquela música punha-lhe nos nervos alguma coisa de amoroso e de petulante; via o seu perfil fino tocado de luz e a firmeza do seu colo, onde a claridade das velas punha brancuras de camélia viva; e bebendo o seu conhaque, aos golos, sentia-se feliz, e a vida, como uma combinação de cores, por toda a parte lhe oferecia um confeito doce.

— Sabes que despedi a carruagem da companhia? — disse ela, de repente.

E quando Vítor quis saber para quê:

— Porque não sou rica, meu filho. Preciso fazer economias.

Vítor fez-se vermelho. Sentia que era por ele que ela abdicava do seu luxo e desesperava-se de não lho poder continuar; e Genoveva, vindo estender-se no sofá, um pouco na sombra, começou a fumar repensadamente um Laferme, Pherseli très fort, e acrescentou:

— É necessário a economia, para realizar o meu plano.

Vítor veio sentar-se ao pé dela e, acariciando-lhe a mão, devagarinho, quis saber o plano; não falava senão do plano. Que era? Queria-se proclamar rainha da Ibéria?

Ela esteve um momento calada, soprando o fumo branco do cigarro; ergueu-se, foi bater no teclado alguns compassos alegres e, voltando-se bruscamente, veio ajoelhar-se diante dele e disse-lhe:

— Voilá! Nós vamo-nos embora.

E vendo-o muito surpreendido, disse-lhe a sua ideia de deixarem Lisboa, irem instalar-se ao pé de Paris, num delicioso chalet; viveriam com pobreza, como dois estudantes, e o egoísmo dos novos.

— E o pobre tio Timóteo? — perguntou Vítor.

Genoveva ergueu-se, devagar, falando, batendo ligeiramente as pálpebras:

— Como, o tio Timóteo?

— O tio Timóteo...

E Vítor, passeando pela casa, começou a dizer-lhe que realmente não podia deixar o tio Timóteo devia-lhe tudo, tinha-o educado; a sua fortuna era para ele; o pobre homem não tinha outra família, tinha-o a ele, só; estava velho, coitado, e achava uma ingratidão abandoná-lo.

— Pois não o abandones, diverte-te com ele, dorme com ele! — exclamou Genoveva.

Vítor achou, naquele arrebatamento, uma crueldade egoísta, mas, receoso de a desgostar, vendo naquela cólera uma paixão de amor, disse com uma voz quase lamentosa:

— Mas, meu amor...

Ela cruzou violentamente os braços.

— Pois eu estou pronta a fazer todos os sacrifícios, a abandonar a minha casa, os meus hábitos, as minhas relações, enterrar-me como uma merceeira retirada num horrível chalet, no campo... todo o ano; e tu não me podes sacrificar nem o tio Timóteo.

Teve uma pausa e os seus olhos devoravam-no. Vítor, sentado, com os cotovelos nos joelhos, fitava o chão, com a cabeça baixa, sob a presença daquela verbosidade dominante.

— Se fosse uma senhora — continuava ela —, se fosse tua mãe, tua irmã, que dependesse de ti, compreendo se fosse um velho inválido e pobre, vá! Mas um homem na força da idade, com fortuna, que tu vês todos os dias meia hora, quando muito... Em que lhe é necessária a tua companhia? Que perde com a tua partida?

Aquelas razões, sobretudo o calor da sua voz, a influência da sua beleza, convenciam-no. E foi com um vago acento de renunciamento, de adoração, que disse:

— Mas não podíamos passar isso mesmo em Lisboa?

«Era lá possível! Lisboa era tão monótona, tão enfastiadora, tão lúgubre, que a única maneira de viver é a compensação do luxo: um grande chefe de cozinha, uma criadagem numerosa, uma decoração de interior sumptuosa, jantares ricos, uma cocheira completa, etc., etc. A vida pobre só em Paris é possível», dizia ela.

Vítor reconhecia vagamente a verdade daquela opinião. Vinham-lhe mesmo perspetivas tentadoras de uma existência feliz: «Paris, um chalet com ela, visitas aos museus, vendo celebridades, um fundo de camarote num teatro alegre, os jantarinhos nos restaurantes, uma existência boémia e amorosa», mas calava-se, torcendo o bigode, soprando o fumo do charuto.

— Mas responde, diz alguma coisa — exclamou ela.

Ele suspirou e, franzindo a testa, como no esforço de uma resolução difícil:

— Minha querida, é que eu não tenho dinheiro para ir para Paris.

Ela ia falar, mas ele, detendo-a:

— Bem sei, tens tu, é o que vais dizer, mas realmente, Genoveva, eu não posso viver à tua custa!

Houve um ligeiro silêncio. Genoveva passeava pela sala, arrastando, sobre o tapete, um rumor de seda.

— Não sabia que eras tão orgulhoso — disse ela, sem o olhar, mexendo nuns livros, sobre a jardineira.

Ele aproximou-se dela, passou-lhe o braço pelo ombro.

— Não é orgulho. É uma questão de decência. Não. Realmente achas bonito eu viver à tua conta?

Ela ergueu para ele os seus belos olhos luminosos.

— Mas não se vê todos os dias que, quando um homem pobre casa com uma mulher rica, de facto, vive à custa dela?

— Ah, bem, sim, e quando se é casado?

Calaram-se. A mesma ideia, decerto os agitava. Genoveva veio sentar-se ao piano e, voltando com impaciência a folha da partitura, bateu alguns compassos, cantou:

 

Le roussignol chantait

Si tendrement...

 

E voltando-se novamente para ele:

— Mas, como não é sério, não é verdade?...

Vítor aproximou-se do piano.

— E sério, Genoveva... Mas realmente não posso. Que se diria? Todo o mundo sabe que eu vivo de uma mesada que me dá o tio Timóteo. Como podia eu ir para Paris? Era uma vergonha... A minha dignidade...

— Ora deixa-me com a tua dignidade! — exclamou impacientemente; erguendo-se: — Boa noite!

— Genoveva!

— O quê? Boa noite! Desde o momento em que a tua dignidade te não permite amar-me, fazeres um sacrifício por mim, dedicares-te a acompanhar-me, viveres para mim, adeus. Um bom aperto de mão e está tudo acabado. Boa noite!

E estendeu-lhe a mão. Vítor olhava-a, muito pálido.

— Pensas que não falo sério? — disse ela. — Conheces-me bem mal.

E saiu da sala rapidamente. Vítor ouviu chamar por Mélanie e o fecho do quarto dela fechar-se violentamente.

Vítor ficou muito embaraçado. A ideia de romper com ela nem sequer lhe acudiu, mas podia realmente aceitar aquela posição subalterna, ir para Paris, levado por uma senhora que lhe pagava os bilhetes de caminho de ferro, o jantar na gare, os livros que ele necessitaria, o vicioso cigarro que queria fumar? Não seria natural que o tio Timóteo lhe cortasse a mesada, se ele partisse com Genoveva? E mesmo quando, por uma generosidade sentimental, lha mantivesse, que eram dez libras em Paris? Lá só poderia fazer dívidas!

Ele confiava nela? E se ela, um dia, lhe passasse aquela paixão, ou lhe viesse um capricho por outro? Poderia continuar a viver à custa da mulher que o traia? E que faria em Paris, se se separasse dela e da sua bolsa? Teria de voltar a Portugal! E o que encontraria? O descrédito; ninguém de bem lhe estenderia a mão; seria, para sempre e para todos, o Vítor, o que era mantido pela do Dâmaso. E cada razão caía sobre a sua resolução, fixando-a como uma martelada sobre um prego.

Uma coisa o consolava: é que Genoveva o amava e que, passado o primeiro despeito do pedido recusado, se resignaria a viver em Lisboa, ou adiaria indefinidamente a sua partida, e depois veria!...

Bebeu outro cálice de conhaque e dirigiu-se ao quarto dela. A porta estava fechada por dentro; bateu, chamou: Genoveva!

Mas Mélanie correu logo, do corredor, com o paletó dele e o chapéu e disse, com ar embaraçado:

— A senhora diz que está incomodada, que amanhã lhe escreve.

E estendeu-lhe o paletó:

— Que brincadeira é esta? — exclamou ele.

— A senhora está muito zangada. Fechou-se por dentro, deitou-se.

E ofereceu-lhe o chapéu. Vítor correu para a porta, bateu com força, dizendo:

— Genoveva, estás doida?

O silêncio impassível irritou-o; deu um empurrão à porta, que abalou a fechadura. Mélanie, pálida, queria afastá-lo. «Ela não conhecia o senhor! Era muito feio fazer escândalo. Pelo amor de Deus! Estava tão desesperada!»

— Genoveva — gritou Vítor, sacudindo furiosamente a porta.

Não esperou muito. A porta abriu-se de repente e ele quase recuou. Diante dele estava Genoveva. Tinha agora uma longa saia vestida e a camisinha de seda, decotada, entreaberta, descobria o colo, os ombros, o seio; e os seus cabelos loiros, deitados para trás, davam à sua beleza um ar distanciado e voluptuoso; as velas ardiam sobre o toucador, o leito desfeito, tentava-o prodigiosamente. Vítor precipitou-se para ela, mas Genoveva, que conservava a mão sobre a chave, disse, com a voz vibrante:

— Juro-te que não entras aqui sem me dizeres que vens comigo.

E fitava-o, penetrada de um olhar ardente e trespassante, com a voz baixa, onde rugia todo o desejo da paixão.

— Vens?

— Juro-te que vou — disse ele.

Ela teve um suspiro de orgulho e Vítor caiu bruscamente nos seus braços.