A Tragédia da Rua das Flores

Eça de Queirós · Capítulo 9 de 12

Páginas do PDF

A Tragédia da Rua das Flores

Capítulo X · Vítor, na quarta-feira, acordou na maior exaltação.…

 

Vítor, na quarta-feira, acordou na maior exaltação. Era um dia definitivo na sua vida, porque não duvidava, decerto, que, naquela mesma manhã, a sua felicidade seria perfeita. Ela amava-o, estava enfim em Lisboa, livre a besta do Dâmaso não contava, e decerto, desde o primeiro beijo, ela abandonar-se-ia; e o seu coração batia com pancadas fortes, sob o delírio daquela esperança. Vestiu-se quase com devoção; foi-se florir e, fumando um charuto caro, dirigiu-se à Rua das Flores. Por um refinamento de voluptuosidade, não se apressava e ia gozando tudo devagar, o ar, o sol, as fachadas alegres, porque a tudo o seu amor transbordante lançava, sobre todas as coisas, como um reflexo amável.

Genoveva morava no terceiro andar; a casa fora restaurada, pintada, e Madame de Molineux tinha disfarçado, tinha dado àquele andar burguês alguns toques de elegância. Havia dois arbustos no patamar e uma campainha elétrica.

Quando ele entrou, Genoveva estava no quarto e Vítor esperou na sala, muito nervoso. Não estaria mais agitado, se ele tivesse chegado da Índia.

Um estofo original de um gosto oriental, vivamente colorido; havia dois quadros de flores que ele vira em casa de Dâmaso; e um polido de madeira, na frescura do tapete, tinha um ar novo, pouco habitado. Dois vasos imitando a velha majólica italiana, guarneciam uma consola de mármore, sob um espelho oval, com um caixilho trabalhado à maneira do século XVIII. Era uma instalação apressada, superficial e barata, onde se sentia a economia burguesa e um provisório de aventureiro.

— Faça o favor de entrar — veio dizer-lhe Mélanie.

E entrava num pequeno boudoir, quando Genoveva, atirando o reposteiro do seu quarto, correu para ele, com um robe-de-chambre solto e, deitando-lhe os braços ao pescoço, ficaram unidos num beijo ávido. E, abraçada nele, foi-o levando para o seu quarto, fê-lo sentar-se numa poltrona, ajoelhou-se aos pés, e, mergulhando os seus olhos nos dele, como se quisesse penetrá-lo até à profundidade da alma, fez-lhe toda a sorte de perguntas: «Se a amava, se tinha pensado nela, o que tinha feito, se tinha visto outras mulheres, onde tinha estado as noites, cobrindo as suas palavras de outras frases, de outros beijos, prendendo-lhe as mãos, num frémito convulsivo e frenético e perscrutando-lhe o rosto com o olhar, de uma insistência apaixonada e luminosa, como para tomar posse do seu cabelo, da sua cor da pele, dos seus lábios.

«Porque tinha ela estado tanto tempo em Sintra? Porque se demorara tanto?», e a voz de Vítor era cheia de repreensão amorosa.

Genoveva ergueu-se logo e, indo ao toucador, mexeu num pente, num frasco.

— Meu querido: negócios. Eu disse-te nas minhas cartas. Não as leste? Não foi possível vir mais cedo e vim para te ver, porque já não podia estar mais tempo... Quem sabe se a minha pressa não me prejudicou?

Vítor veio enlaçar-lhe a cintura e, com a voz desfalecida:

— Mas agora estás aqui e amas-me, não é verdade? diz que sim... que linda que estás! Eu adoro-te tanto!

Os olhos de Genoveva cerravam-se, empalidecia.

Ele deixou dar-lhe um beijo, devagarinho, na orelha.

Um soluço de ternura e voluptuosidade levantou o peito de Genoveva.

Disse quase com uma lamentação na voz:

— Faz-me adormecer.

E julgando-a inteiramente abandonada, arrastou-a para o pé do leito, com um movimento muito claro; mas ficou atónito, sentindo Genoveva desprender-se bruscamente dos seus braços, recuar, dizer, quase com cólera:

— Vítor! — E falando-lhe baixo, com fúria: — Não! Não!

Não!

— Porquê? — disse ele ansiosamente.

— Enquanto estiver aqui outro homem, não! — E tomando-lhe as mãos nas suas, murmurou-lhe, com uma ternura suplicante:

— Quero ser só tua!

— Desembaraça-te desse idiota — exclamou Vítor, na impaciência do desejo revoltado.

Genoveva franziu a testa e, voltando a cabeça:

— Não pode ser, por ora...

— Mas, porquê, porquê?

— Porque sim.

Houve um silêncio. Vítor sentia uma desconsolação dolorosa arrefecer-lhe o sangue e ela, apertando outra vez as mãos dele:

— Escuta... Não pode ser. Tu não sabes... Não te quero dizer. Não me faças perguntas. Não pode ser. É para o teu bem. Tenho um plano... Sofreremos, querido, vinte dias, mas depois... — E os seus olhos brilhavam. — Prometes obedecer-me?

— Mas...

— Não. Dize, prometes?

E amava-a tanto que condescendeu, humilhado, infeliz.

— Pois bem — disse ela —, tu vens ver-me todos os dias, às horas que eu te disser; quando eu não puder, encontrar-nos-emos algures... Mas deixa-me a minha liberdade, não faças perguntas, obedece em tudo. Dize, juras?

— Mas...

— Ela ergueu-se impaciente.

— Ah, bom, não queres; aí está o teu amor, as tuas promessas...

— Juro, juro — acudiu ele logo, abandonando-lhe todo a sua vontade, a direção da sua vida, o emprego do seu tempo, fazendo-se carrasco de si mesmo, escravizando-se.

— Bem, e quando eu disser que sou tua.. é para sempre.

Unindo a face dele à dela, murmurou, com a gravidade de um juramento sagrado:

— Nunca mais com ninguém!

Vítor tornou-se então o passante da Rua das Flores. Ia ordinariamente ver Genoveva ao meio-dia. Ao princípio, as vezes, encontrava-a ainda deitada, mas tão fresca, com o cabelo tão bem arranjado, que parecia ter feito já toilette e passado a noite num sono casto e solitário. No entanto, o desarranjo do quarto, o amassado da roupa, os braços nus de Genoveva, perturbavam-no tanto que não sentia força para falar; olhava-a, beijava-lhe as mãos e estava assim entorpecido por um desejo quase doloroso, sentia vertigens. Enfim, um dia Genoveva disse-lhe:

— Meu querido, não. Não te tornarei a receber aqui no quarto...

E apareceu-lhe sempre vestida, espartilhada, como se fosse sair; parecia recear todas as facilidades, mesmo a largura muito solta das suas roupas de manhã.

Ordinariamente Vítor falava do seu amor, mas Genoveva parecia que dava à conversa, sempre, um tom mais genérico, mais indiferente. Fazia música, cantava-lhe alguma melodia que ele gostasse; às vezes mesmo, fazia chamar Miss Sarah.

A inglesa entrava logo. A conversa, naturalmente embaraçada pela presença dela, arrastava-se dificilmente. Vítor falava mal o inglês; a preocupação que lhe dava a presença de Genoveva entravava-o mais, faltavam-lhe os termos e, às vezes, só podia responder a Miss Sarah com oh!, ah!, e um sorriso meio idiota. A inglesa, no entanto, procurava sempre dirigir-se a ele, vestia-se com muito cuidado, carregava-se de pó-de-arroz, tomava na presença dele atitudes sentimentais, tinha olhares que o embaraçavam e chegara mesmo a zangar-se, um dia que Genoveva lhe dissera:

— A pobre Miss Sarah está terrivelmente apaixonada por ti.

E Genoveva parecia gozar aquela paixão desesperada, ou pelo acréscimo de humilhação que ela dava à inglesa, ou pelo ser mais um efeito da perfeição de Vítor.

Outras vezes, encontrava Genoveva bordando; e não abandonava o seu trabalho. Com a cabeça baixa, levantando apenas, a espaços, o olhar para ele e, encontrando sempre os seus olhos fitos nela, com uma adoração devoradora:

— Não te ponhas assim a olhar para mim. Sabes que não pode ser...

Era um suplício! Aquela recriminação de Vítor voltava todos os dias. Genoveva mesmo, um dia, disse com uma cólera na voz:

— Sei que pensas que estou num leito de rosas. Mas dei a mim mesma a minha palavra de honra. Não! Quando estiver livre, sou tua escrava, a tua serva; podes matar-me se quiseres: Por ora, não!

No entanto, tinham manhãs tranquilas, muito doces, não havia alusões a uma paixão. Genoveva encantava-o, falando-lhe de Paris e de Londres. Era inteligente, cantava bem, sabia pintar, com pitoresco, uma fisionomia, um tipo. Da sua frequência com os homens de espírito, com os artistas, tomara alguma da sua linguagem colorida e forte; sabia anedotas sobre os homens ilustres, repetia os ditos que lhes ouvira, as apreciações originais.

Vítor não se fartava de a ouvir; era como uma crónica íntima, uma memória contemporânea onde ele encontrava os pormenores mais humanos, mais detalhados sobre as personagens da arte ou da ilustração que, até ali, só conhecera na atitude solene e convencional da glória. Com que prazer escutava as anedotas da vida sentimental do príncipe de Gales; havia naquelas historietas do príncipe voluptuoso como uma porta entreaberta sobre alcovas de duquesas e adultérios de corte.

Mas era sobretudo Paris, os seus políticos, os seus artistas, as suas cortesãs, que o interessavam. Como saboreava os seus pequenos pormenores sobre Dumas Filho, sobre Gustave Doré, sobre os bailes de máscaras d'Arsène Houssaye. Era como mundos novos em que penetrava. As anedotas sobre Napoleão III encantavam-no: o imperador encerrando-se horas e horas, com um empregado da Policia secreta, por gosto da intriga e amor mórbido da mexeriquice! O imperador fechando-se até noite, no seu gabinete, e, enquanto se pensava que ele meditava sobre os destinos da França, o augusto personagem recortava, com habilidade, figurinhas coloridas, que colava com um pincel, sobre um papel, formando grupos de fantasia; ou as noites em que se encerrava com quatro mulheres e se deixava ir a excessos que o deixavam embrutecido, idiota e taciturno, cismando e cismando, ora desejando a excitação de uma guerra, ora a paz de um convento. O mundo das cortesãs do Jockey Club, dos estroinas históricos, não o encantava menos. Genoveva pintara as excêntricas personalidades da casa real, as suas ceias que custaram milhares de francos, a petulância dos seus ditos, o delírio das suas respostas; depois a extravagância de damas ilustres; uma, com um nome histórico, cuja criada de quarto tinha a lista e os retratos dos homens mais lindos de Paris que sucessivamente introduzira na alcova da sua ama; outra que, num momento de alucinação, deixava o palácio e corria a um pequeno rez-de-chaussée da Rua dos Campos Elísios, propor ao seu amante fugirem e abandonar por ele um trono! Ia assim iniciando Vítor num mundo de elegância refinada de amores dramáticos, de mistérios deliciosos. E todas aquelas recordações que lhe adornavam o espírito seduziam mais Vítor do que as joias e as toilettes que lhe via.

Ao mesmo tempo, educava-o: dava-lhe conselhos de toilette, aconselhava-lhe a cor das gravatas e das meias de seda, iniciava-o no estilo sóbrio do dandismo inglês.

Queria que ele aprendesse a jogar as armas; ensinara-lhe o whist e a bouillotte; indicava-lhe livros que ele devia ler, ornando-o de qualidades que ela julgava eminentes, com a sagacidade de uma amante e a solicitude de uma mãe.

Quando ele tinha passado assim a manhã tranquila, escutando-a, recompensava aquela submissão amorosa com um beijo, uma palavra ardente, um olhar sentimental e doce.

Vítor vinha, às vezes, jantar, mas como encontrava sempre Dâmaso era para ele uma hora desagradável. Dâmaso era insuportável, com a sua importância ruidosa, as suas expansões amorosas com Genoveva, o seu ar protetor e insolentemente feliz; tinha um modo de se repoltrear na cadeira, com o charuto na boca, que dava a Vítor tentações homicidas; e afetava um tom fidalgo, estroina, de alta elegância; o Dâmaso! Achava a cozinheira de Genoveva atroz; lia o menu do jantar, silabando medonhamente o francês e encolhia os ombros.

— Não estamos no Café Inglês — resmungava.

E todavia, Vítor lembrava-se de o ter visto saborear com gula e gabar com exaltação os bifes de vitela do Hotel Pelicano! Mas Dâmaso transformava-se, ganhava chique! Trazia plastrons azuis, tendo por alfinete uma bota de montar, de prata, com uma enorme espora de oiro; tornava-se sportman. Dizia às vezes, com um ar profundo e concentrado:

— Quem ganhará o Derby, em Londres, este ano?

E afetava preocupações sobre a «grande corrida« de Paris.

Depois do jantar, invariavelmente, exigia a Genoveva cantigas de café-concerto de Paris; extasiava-se; era sua opinião que «a França era o primeiro país do mundo para a brejeirice»; já sabia cantar:

 

Chaque femme a sa toquade,

Sa marotte est un dada!

 

Atroava a sala, berrando aquele refrain, e aparecia sempre, à noite, de casaca e gravata branca; achava o país reles e falava de se ir estabelecer definitivamente em Paris, «naquela grande pândega».

Vítor saia sempre com os nervos tão irritados que pedia a Genoveva para não vir jantar. Começava agora a ter ciúme de Dâmaso; as semanas passavam e continuava a vê-lo instalado, possuindo Genoveva, fazendo arranjos na casa, como uma ligação permanente e retardando a sua felicidade.

Genoveva, quando ele se queixava, sorria, calmava-o:

— Meu amor, está por pouco.

Mas Vítor tornava-se sombrio. Diante dela resignava-se, como se os seus desejos encontrassem, na contemplação de Genoveva, uma satisfação calmante; a certeza do seu amor deleitava-o com uma pureza de alma; sentia-se tão feliz, vendo-a falar, bordar, sorrir-lhe, que quase esquecia as esperanças impacientes de uma felicidade mais absoluta.

Mas, longe dela, tinha desejos furiosos que o queimavam; tornava-se sombrio, nervoso, irritável; toda a ação lhe causava uma fadiga esmagadora. Abandonara o escritório, os seus amigos; não ia ao teatro; ficava, noite fora, tio quarto, relendo as cartas dela, reconstruindo, pelas recordações, as menores palavras que ela lhe dissera, de manhã. A mesa, fazia esforços para falar, disfarçar, diante do tio Timóteo, a sua melancolia. Mas falava com a lassitude de quem levanta pesos. E o que o afligia era que o tio Timóteo não aludia ao seu amor e mesmo tinha também silêncios largos, em que as suas sobrancelhas se franziam terrivelmente.

O tio Timóteo, com efeito, sabia que Vítor ia ver todos os dias Madame de Molineux, que abandonara o escritório, todas as ocupações, todos os hábitos antigos. Era, decerto, o seu desejo, como velho libertino e antigo espadachim, que Vítor tivesse uma «pequena» mas absorver-se, assim, numa paixão, viver agarrado às saias de uma mulher, perder a alegria e o apetite, fazer-se um vadio, não, era de mais!

Depois informara-se de Madame de Molineux; chegara-lhe aos ouvidos que era uma aventureira, feita de frieza e de rapacidade, que estava arruinando o Dâmaso. E o tio Timóteo julgava indecente que Vítor perdesse a sua carreira, o seu futuro, os seus bons sentimentos, talvez a sua dignidade, na intimidade ignóbil de uma barregã descarada. Além disso, tinha a desconfiança, natural nos parentes velhos, de amores ilegítimos. Genoveva era para ele a sereia, a mulher fatal, que arruína e impele a letras de câmbio e ao casamento vil... o ente pavoroso de mães assustadas e de avós devotas. «Que diabo», pensava. «Lá que se divirta, vá! E da lei, é da decência! Mas que deixe a sua carreira, a sua saúde, a sua liberdade, a sua honra, no saiote de uma desaforada... caramba, racho-lhes os ossos, a um e a outro!»

Mas, com a amizade apaixonada que tinha pelo seu Vítor, não se atrevia a falar-lhe com severidade. Vítor era para ele toda a sua família, a única que tinha no mundo; nunca o contrariara, nunca o repreendera, e agora, que chegara a ocasião de lhe impor uma grande contrariedade, de pôr obstáculo a uma paixão, aquele homem de palavra brusca e de paulada pronta sentia a timidez coibitiva de uma mãe fraca.

Mas, como ele dizia, «perdia o sono», afligia-se, se Vítor estava mais concentrado, ou com menos apetite; sentia-o passear horas e horas no quarto; fazia toda a sorte de conjeturas para imaginar a razão daquela melancolia; pensava que Genoveva, sabendo que ele tinha um rendimento que Vítor herdaria, o «trazia à corda» para o arrastar ao casamento; mas raciocinava:

«Se ela quisesse um marido rico, tinha a besta do Dâmaso. Teria ela tido um capricho por ele e, farta dele, o havia despedido, deixando-o apaixonado, desgraçado? Talvez uma viagem o distraísse. Um dia mesmo tinha-lhe dito, bruscamente:

— Queres tu ir a Paris? Um homem deve ver mundo.

Mas Vítor recusou-se tão decididamente, declarou-se tão bem em Lisboa, que o tio Timóteo atribuiu a sua tonteria ao embrutecimento da paixão feliz e consolou-se com esta reflexão:

— Tem o coração do asno do pai e o temperamento da bêbeda da mãe. É um desgraçado!

E furioso, não tornou a fazer perguntas intencionais a Vítor. Somente, às vezes, olhava-o de lado, com um olhar faiscante e desesperado, quando o não olhava, às escondidas, com a vista humedecida.

E a melancolia de Vítor crescia. Às vezes, tinha vontade de não ir vê-la, mas, chegando essa hora, uma força irresistível levava-o para a Rua das Flores: encontrava agora Genoveva nervosa e irritável; tinha silêncios longos, depois olhares que se devoravam.

— Mas, que vivemos nós, neste martírio? — disse-lhe um dia Vítor.

Ela não respondeu e ele, julgando ver naquele silêncio o assentimento de uma resistência expirante, apertou-a loucamente nos braços. Ela cobriu-o de beijos que quase o magoavam e em que havia como uma cólera de paixão. Mas, erguendo-se bruscamente:

— Não! O que disse está dito! Mas ouve: em duas semanas, sou tua.

Vítor achava-a extraordinária, fantástica. Às vezes passavam-lhe, como calafrios, suspeitas de que ela estava mangando com ele. «Matá-la-ia». Porque agora ao seu amor começava a misturar-se um vago ódio. Quase desejava saber que ela o iludia, o escarnecia: «Porque faria um escândalo, um crime»!, pensava. E achava na satisfação de vingança um apaziguamento da sua paixão.

Às vezes, quando Genoveva o tinha excitado mais, por um vestido mais colado ao corpo, ou por uma pressão de mão mais intensa, a sua exaltação era tão vibrante que, para a acalmar, para a dissipar, para a gastar, ia ver Aninhas; mas detestava-a; os seus modos triviais, a sua linguagem de gíria, o cheiro de refogado que havia no corredor, tinham-lhe dado um tédio enfadado.

Que diferença com Genoveva! E todavia, gostava de lá ir, porque ali era o senhor; mandava, falava alto, dispunha e desforrava-se, torturando Aninhas, das abstinências que lhe impunha Genoveva. Tinha sempre alguma coisa com que a censurar; ou estava mal vestida, ou mal penteada, ou mal calçada, ou o quarto estava desarrumado, ou as toalhas não estavam limpas.

— Nunca te vi tão impertinente — disse Aninhas. — Que tens tu? Não estás aqui bem?

Aquela doçura exasperava-o, as suas carícias humilhavam-no; aquela que era uma reles rapariga, que ele desprezava, prodigalizava-lhe um amor exuberante, e a outra, que ele adorava com um fanatismo frenético, escassamente lhe abandonava as suas mãos.

Às vezes repelia Aninhas:

— Não me maces, deixa-me!

A pobre rapariga torturava o seu pequenino cérebro mole, para achar o meio de o prender, de o cativar, mas, por uma fatalidade, os seus esforços para o seduzir eram tão desajeitados que faziam desesperar Vítor. Se ela, para o seduzir, tomasse uma atitude sentimental, Vítor não podia eximir-se a achá-la ridícula: se, para o atrair com conversas literárias, lhe falava dos livros que lia, era sempre citando o Rei Bandido, a Vingança da Calábria, As Casacas Negras e outros horrores: se se queria encontrar alegre, libertina, Vítor achava, nos seus abandonos, o desconchavo da libertinagem do Bairro Alto. E a pobre Aninhas só conseguia, com os seus esforços, torná-lo mais sombrio. Mas adorava-o e, às vezes, a necessidade da sua paixão arrastava Vítor. Era então que ele, por um processo vulgar de imaginação, lhe dava a ela as palavras, lhe dava os beijos, que queria dar a Genoveva.

Aninhas não compreendia aquele capricho de Vítor de querer estar no quarto, com a luz apagada, mas era inteiramente feliz, vendo-o então exaltado e louco. Vítor evocava a imagem de Genoveva e eram as palavras mais exaltadas de amor, as carícias mais devoradoras e, a cada momento, o renascimento delirante do desejo insaciável. E daqueles excessos, Vítor saía mais desprendido dela e a pobre tonta mais louca por ele.

A sensibilidade de Vítor, irritada por aquela paixão, tinha agora suscetibilidades femininas: uma mudança de tempo, um céu enevoado, um vento agreste, davam-lhe perturbações, como se fosse histérico; certas árias ou motivos da música traziam-lhe as lágrimas aos olhos; vinham-lhe desejos de devoções; entrara um dia na Igreja dos Mártires; rezava-se um ofício cantado e as vozes agudas, o som do órgão, deram-lhe uma perturbação mística, que ajoelhou e formou o plano de se refugiar na paz de um convento.

Foi num desses estados que ele disse a Genoveva:

— Escuta: tenho esperado quase dois meses; ou isto é sério, ou não volto aqui.

— Pois não voltes — disse-lhe ela, que estava também excessivamente nervosa.

Vítor teve um choque e, sob um excesso de tristeza, rompeu a chorar.

Genoveva caiu-lhe aos pés, deu-lhe as carícias mais loucas, beijou-lhe as mãos, torcia os braços e, entre soluços, disse-lhe:

— Mas tu disseste ter compreendido. Eu amo-te como nunca, nunca, amei ninguém. Mas quero viver só para ti. Por isso te retenho. Quando for tua, não quero ser de mais ninguém! — E com voz dilacerante: — Mas não sou rica, meu amor! Tenho dividas. Preciso pagá-las. Deixa-me tirar daquele estúpido o que eu puder.. E depois!...

E deixando-se cair sobre os calcanhares, abrindo os braços com um sorriso triste:

— Deixa-me ganhar o meu dote.

Aquele sacrifício, tão sinceramente exprimido, pareceu sublime a Vítor. Pediu-lhe perdão, jurou resignar-se, e, saindo com a obsessão do desejo, que não lhe deixava compreender a ignomínia da intriga, ia pensando:

«O seu dote, coitadinha! Que anjo!»

Genoveva falava verdade: «Anda a ver se apanha o dote. «Porque idolatrava Vítor. E sob a sua resistência aparente, tinha, mais que ele, todas as ânsias do desejo e todas as torturas da impaciência. Havia dias em que, apenas ele saía, rolava, beijando o encosto do sofá onde ele apoiara a cabeça, o rebordo da mesa onde ele encostara o braço. Ela a esta paixão física juntava um sentimento ideal: não suportava a ideia de ter de partilhar o seu leito com outro; quando lhe pertencesse a ele, queria que o seu amor fosse absoluto, completo, perfeito, sem interrupções, sem embaraços, sem reticências, sem intervalos, sem suspeitas, sem astúcias; não se queria esconder de ninguém, nem sofrer as interrupções de ninguém; não queria diminuir o seu prestígio; queria ter as mesmas toilettes, as mesmas joias, uma carruagem, uma casa bonita; como isso podia custar muito tempo, com a redução da sua beleza, queria aumentá-la, pela decoração da sua pessoa. E para isso era necessário dinheiro. Ele não o tinha, «pobre querido!» Ela também não. Tinha dívidas em Paris, é o que tinha! Precisava pagar as suas dívidas, ter um pequeno capital para os primeiros tempos e, depois, seria somente amante de Vítor, viveria sem cuidados, sem estreitezas, sem credores! Ao princípio, Dâmaso, ainda com os hábitos «pingas de português», se tinha retraído às exigências de dinheiro; ela não contara com ele, como um cofre; não hesitara em lhe mostrar a sua simpatia por Vítor, pronta a negar-lhe a porta, a despedi-lo. Mas depois, Dâmaso, ferozmente apaixonado, dominado, baboso, começara a ser mais generoso, a revelar todos os seus meios de fortuna, e ela ganhou por ele o respeito da prostituta pelo ricaço. Era um homem por quem se devia ter consideração. Representava, então, com ele, a comédia resignada do amor físico. Declarou-lhe que o amava, não com o coração, talvez, mas com os sentidos, sabendo que nada prende os imbecis como esta certeza dos prazeres que inspiraram. E em Sintra, fingindo-se louca por ele, caindo-lhe aos pés, com os olhos em alvo, representara habilmente delírios radiosos; prendera-o tão subtilmente, escravizara-o e, como numa caixa aberta, começou a tirar-lhe de dentro rolos de dinheiro. E um dia mesmo, Dâmaso pagara-lhe as suas dívidas que eram apenas de dez contos de réis; dera-lhe três contos de inscrições. Isto animou-a. De combinação com um agiota de Paris, por intervenção de uma amiga, fizera uma letra fictícia, aceite por ela, de cinco contos de réis. Declarou a Dâmaso que, se ele não pudesse pagar, devia ir a Paris, vender as suas mobílias, os seus dois cavalos que não tinha; chorou por ter de o abandonar, a ele, seu amor, seu Dâmaso; mostrou a carta em que um certo Sauvières que ela dizia um rapaz muito rico de Paris, agente dos Oppenheimer e que a amava, lhe fazia propostas robustas, se ela quisesse ir com ele para Francfort. E Dâmaso, comovido pelas lágrimas, receoso de a perder, contente de humilhar um agente dos Oppenheimer, pagou a letra. Tanta imbecilidade animou-a. Tinha agora já um pequeno capital de oito contos. Com eles iria para Paris, com Vítor e depois veria! Mas, como Dâmaso continuasse a «largar», queria-o despedir o mais tarde possível. Quanto mais ganhasse, mais tranquilidade assegurava à sua vida com Vítor. Venderia tudo em Paris, iria viver com ele em Auteuil, em Neully, e como ele tinha do tio Timóteo uma pequena mesada e uma fortuna a herdar, a combinação parecia-lhe excelente, cheia de felicidades futuras e toda radiosa de amor. No entanto, ultimamente, a paixão era mais forte que a prudência e teria despedido Dâmaso, se não se aproximassem os seus anos. Esperava dele um bonito presente; ele falara, ao princípio, em adereço: mas ela, mostrando um bom senso burguês, que agradava a Dâmaso, disse-lhe que joias não; tinha tantas! Que a ajudasse a constituir um pequeno capital. Quando ela o tivesse, não permitiria que ele lhe pagasse as despesas da casa.

— Porque te amo tanto que realmente vexa-me receber dinheiro de ti. Quero que me dês presentes, isso sim. Mas dinheiro, não! Estou ansiosa por ter um pequenino rendimento. Em Lisboa, com trinta libras por dia, vivemos perfeitamente. Dá-me dinheiro para isso.., e nada de joias.:. As joias chegam. Quero que o nosso amor seja desinteressado.

Dâmaso, extático, jurou fazer-lhe uma linda surpresa, nesse género. E Genoveva contava que ele lhe daria três ou quatro contos de réis. E no dia seguinte, fechar-lhe-ia, para sempre, a porta da sua casa. Estava-se então a dez de Março e os anos dela eram no primeiro de Abril.

Vítor continuava, às vezes, a ir jantar a casa de Genoveva; raras vezes, porque a presença de Dâmaso «embestava-o», como ele dizia. Mas, por esse tempo, uma ocasião, chegando às oito horas, ficou surpreendido, vendo Miss Sarah abrir-lhe a porta. Fê-lo logo entrar na sala, disse que Madame saíra com o Dâmaso, de tarde, tinham jantado fora e ido a um teatro, e que Mélanie desaparecera; tinha decerto ido divertir-se fora. Falava de uma maneira demasiadamente excitada, os olhos brilhavam-lhe, ria-se sem razão, e Vítor compreendeu, vendo na sala uma garrafa de gim, que a inglesa estava «picada». Achou graça e aceitou um pouco de gim, acendeu um cigarro e preparou-se para a desfrutar.

Miss Sarah estava com efeito loquaz e imediatamente começou a queixar-se de Madame de Molineux. Era, segundo ela, «uma pessoa de muito mau génio; não admirava que não tivesse educação; era bem triste que ela, Sarah, bem-educada e pertencendo a uma respeitável família, vivesse na dependência de semelhante criatura». Suspirou, consolou-se com mais gim. De resto «Madame não tinha princípios; nunca a vira frequentar as igrejas. Ela, decerto não aprovava as práticas, as horríveis práticas destes detestáveis católicos, mas, enfim, quando se tinha uma religião e se era uma senhora, devia-se, por dignidade, ir à igreja e aproveitar com o sermão. « E serviu-se de mais gim.

«Apanha uma "piteira" famosa», pensava Vítor, muito divertido.

Miss Sarah, então, veio sentar-se ao pé dele no sofá e começou a dissuadi-lo de dar tanta atenção a Madame de Molineux: «A mulher estava doida pelo Dâmaso; fazia indecências, sempre a beijá-lo, a apaparicá-lo; até de se fecharem no quarto, de dia, com todo o descaro.

— It is something schoking! It is something disgusting!

Vítor, subitamente interessado e desesperado, pediu mais detalhes. Miss Sarah deu-os: «Inclusivamente, o último domingo, não se levantaram senão às três da tarde! Ela ficara tão enojada que saíra para não respirar, na casa, aquele ar de corrupção e de iniquidade.»

E falando, bebia, chegava-se para Vítor: estava a um canto do sofá, e Vítor via o seu rosto vermelho, manchado, inflamado de palavras e de gim, aproximar-se do seu.

Queixou-se, então, da sua própria existência: «Via-se numa terra estrangeira, sem amigos, sem relações, sem ninguém que se interessasse por ela, neste vasto mundo. Ninguém!»

Deixava cair as mãos no regaço, fitando Vítor. Mas este então, lembrou-lhe Madame de Molineux...

«Oh, que não lhe falasse dela! Detestava-a!»

— I hate her!

«Era realmente justo que Madame de Molineux... uma mulher sem princípios, sem religião, sem moralidade... tivesse todos os regalos da vida, toilettes, uma casa confortável, pessoas que a estimavam, e ela, uma mulher bem-educada, uma mulher normal, se visse obrigada a estar na dependência e na necessidade? Madame de Molineux não era uma senhora!

E alteando o peito, soltando as palavras com um acento, disse:

— Not! She is not a lady!

E pousando a mão sobre o braço de Vítor, perguntou-lhe ternamente porque é que gostava daquela criatura que o não podia fazer feliz, que não o amava, que só gostava de dinheiro?

Vítor, um pouco embaraçado, mas vagamente divertido pela loquacidade de alcoólica da inglesa, disse que não a amava, mas que Madame de Molineux o divertia simplesmente.

«Era verdade? Era verdade?», perguntou animadamente a inglesa.

«Certamente que era verdade», disse ele repoltreando-se no sofá. «Mas porque tinha ela tanto empenho em saber?»

Miss Sarah, que não cessara de se servir de gim, lançou bruscamente os braços ao pescoço de Vítor e declarou-lhe que o amava.

Vítor ergueu-se, com um pulo, como com o contacto de um esqueleto e, na sua perturbação, falando português, exclamou:

— Ah, não! Isso não! Então, faz favor! A senhora faz favor!

Mas a inglesa prendia-o e chamava-lhe nomes doces: darling, pet — dizia. «Não podia viver sem ele, que era superior à sua força, que estava doida...»

Vítor sentia as suas mãos magras, secas e macias, correrem-lhe pelos ombros, pelo pescoço. Havia tudo: o seu rosto avermelhado estava tremendo de desejo; os dentes entrecortavam-lhe as palavras. Vítor estava furioso; sentia-se ridículo e, ao mesmo tempo, a excitação sensual daquela mulher magra e longa, exaltada pelo álcool, dava-lhe um certo desejo brutal, extravagante. Havia alguma coisa de irritante naquela devota puritana, ardendo nos furores da carne; mas, se cedesse, como desembaraçar-se dela, depressa?

Aquela ideia atravessou-lhe o cérebro, num relâmpago; repeliu-a secamente, arremessando-lhe as palavras:

— Schoking! — e disse-lhe, no seu inglês quebrado, «que se calmasse, que ficasse decente, que se fosse deitar... »

A inglesa ainda tentou, à força de carícias novas, mas ele tinha tomado o chapéu e, recuando, disse-lhe:

— Não, escusa de se cansar. Não! É indecente, é indecente!

A inglesa, humilhada, fitou-o com rancor e atirou-lhe:

— Oh you, blackguard! Oh, canalha!

E Vítor, ao sair, ouvia-a dizer que se havia de vingar...

Entrou em casa vivamente contrariado. Aquela súbita explosão de paixão, numa inglesa devota, não deixava de lisonjeá-lo. Sentia-se, todavia, ligeiramente ridículo e lembrava José e a sua capa; e receava mesmo que a inglesa não armasse uma intriga.

Não disse nada, no outro dia, a Madame de Molineux. Genoveva despediria a inglesa e seria trazer a ruína à pobre criatura, só, num país estrangeiro. Mas, daí a dois dias, ficou perturbado, recebendo um bilhete de Madame de Molineux, que lhe dizia:

Meu querido. É preciso que, pelo menos, nestes cinco ou seis dias, nem venhas, nem escrevas, nem me procures. Até que recebas uma carta minha, não darás sinal de ti. Grande parte da nossa felicidade depende da tua discrição. E horroroso isto, mas é necessário.

«É a intriga da inglesa», pensou logo Vítor.

Que teria dito? Que teria feito? Naturalmente, era fácil conjeturar, fizera revelações a Dâmaso. E teria dito invenções caluniosas? A incerteza desesperava Vítor... e não podia ir, nem escrever. Procurou encontrá-la na rua, no Aterro, num teatro. Não a viu. A noite, passava por casa dela, via as janelas com luz. Daria tudo para saber o que se passava. Que fazia? Com quem estaria? Que toilette teria?

Às vezes, via o cupé de Dâmaso, à porta, e aquilo exasperava-o, dava-lhe toda a cólera do ciúme. Procurou então relembrar, cismar, todas as provas de amor que ela lhe dera, as cartas que lhe escrevera, os seus beijos, as suas perturbações, para ganhar a coragem de esperar, de viver. Às vezes, voltavam-lhe as palavras dela: «Estou arranjando o meu dote. E vendo as janelas do quarto dela iluminadas, representava-a sentada nos joelhos de Dâmaso, abraçando-o, vendendo-se, para o «cardar».

Vinha-lhe então um tédio daquela paixão, como se visse, de repente, todas as nódoas que a cobriam, sujavam. E para quem era aquele dote? Para ele, também. Não era aquilo vil, indigno? Não era ele verdadeiramente um canalha? Pôr-se de acordo com uma mulher para «cardarem« um simplório e partilharem os resultados da especulação. E para isso, enquanto o simplório estava na sua alcova, ele rondava, esperava ali, com o coração angustiado, ralado de um amor ignóbil, os olhos postos naquele terceiro andar iluminado. Não era isso que faziam os chulos?.

Vinham-lhe então resoluções de a deixar, de a esquecer. Mas, podia lá? Pertencia àquela mulher todo: corpo, sangue, consciência, juízo. Jurava então nunca viver com ela maritalmente, conservar uma inteira separação de interesses, de modo que só ela aproveitava com o «dote» sacado.

Uma noite chovia e Vítor, desgraçado, cheio de ciúmes, passou pela porta de Genoveva e viu uma tipoia de praça parada. Os dois cavalos, com a cabeça baixa, recebiam tranquilamente a chuva, e dentro do cupé luzia o cigarro do cocheiro, abrigado. Havia luz no quarto de Genoveva. Veio-lhe uma desconfiança de que não era o Dâmaso quem lá estava e imediatamente toda a sorte de suspeitas lhe inundaram o coração. Seria outro? Ela, tão bela, tão elegante, devia ser desejada. Para completar o seu «dote», teria aceitado outro amante? Seria por isso que lhe proibia o visitá-la, para que ele não se encontrasse com outro além do Dâmaso? Dirigiu-se ao cocheiro, como para tomar a carruagem.

— Tenho freguês — disse o cocheiro.

— É o senhor Dâmaso, não é?

— É um freguês, não conheço. Pode ser que seja o senhor Dâmaso. Não conheço.

— Um sujeito baixote, gordo.

— Não conheço — disse com mau modo o cocheiro. — Não pertenço à polícia.

Vítor parou, resolveu esperar. A chuva caía e, envergonhado do cocheiro, tinha-se refugiado à esquina, na Calçada do Pimenta; não tirava o olhar da janela mas nenhuma mulher passava sob a vidraça da janela; e a luz, um pouco fraca, parecia ser das velas sobre o toucador.

Jurava a si mesmo que, se descobrisse que havia outro homem, romperia com ela; meditava já a carta violenta, fria, desesperada, que lhe escreveria. E se não fosse um homem para concorrer para o «dote»? Seria um amante, um capricho, uma fantasia? Se ela se tivesse querido desembaraçar dele?

A chuva caia, tinha os pés frios, os joelhos molhados; a rua estava deserta; o lajeado reluzia molhado, debaixo do candeeiro de gás; algumas biqueiras cantavam e a luz do quarto não desaparecia e, na névoa chuvosa, as duas lanternas da tipoia pareciam dois olhos baços de uma cor avermelhada.

De repente, uma voz, ao pé dele, disse com som ressequido, áspero:

— O senhor dá-me uma palavra?

Diante dele estava uma figura magra e alta, com um chapéu desabado um fraquezinho roto, pregueado sob a gola, umas calças maltrapilhas. E à luz do gás, via-se, sob a sombra do chapéu, um rosto macerado, com a barba um pouco crescida e os olhos reluzentes.

— Oh, Silva,! Ainda bem! — disse a figura.

Mas Vítor não o reconhecia. Olhava espantado aquele homem moço que tinha todos os andrajos da miséria e todo o abandono do vício.

O homem levantou a aba do chapéu, murmurou:

— Já não se conhecem os amigos...

Vítor ficou petrificado: era um seu antigo condiscípulo que, desde o segundo ano, abandonara a universidade; pertencia a uma família conhecida, e a batota, o vinho, o deboche, tinham gradualmente, de janota a vadio, de vadio a pulha, de pulha a canalha, de canalha, a mendigo, transformado aquele bonito rapaz que batia pela Sofia , a cavalo, naquele macilento desgraçado que, de noite, se abrigava pelas portas e pedia patacos a conhecidos.

O homem tinha-lhe estendido a mãos, mas Vítor sentira um certo nojo em lha dar.

— Podes tocar. Sarna ainda não tenho — disse o outro, com um tom solene.

Vítor envergonhou-se, deu-lhe a mão, disse vagamente:

— Que fazes tu por aqui?

— Estou ali abrigado e quero dois tostões.

Vítor apressou-se a dar-lhe um pataco. O outro meteu-o no bolso, dizendo com um ar jovial:

— Os tempos vão maus, as propriedades rendem pouco... Está tudo caro. E que fazes tu por aqui?

— Estou aqui à espera...

— Fêmea! E bem cheiinho esse ventre. Aposto que tiveste o teu cozido, assado e sobremesa! — Riu, rosnou: — Ora a porca da vida... Dá cá outros dois tostões.

Tinha uma mão meio ameaçadora, meio patética, e bamboleara o corpo, com um gingado de bêbado e um quebrado de fadista.

— E como vão os amigos? Como vai o titi?... Ora a porca da vida! Tens um cigarro?

Vítor deu-lhe um charuto.

— Caramba! Fumas charuto! Viva! E bom paletó.

Mostrou os seus andrajos e disse:

— O alfaiate faltou-me esta semana! E então não se cai com mais outra «placa»?

— Ouve lá — disse Vítor —, tu viste quem saiu daquela tipoia?

— Estava à espera do gajo. Não vi. Estava a espera dele, para pedir dez tostões emprestados... Uma letra, a três meses e juro pacato... Raios o partam!... Queres saber quem é?

— Queria... — E com uma ideia súbita: — Homem, se tu me fizesses uma coisa... Tu ficas aqui a ver quem sai e ias-me dizer algures; repara bem no tipo. Tu conheces o Dâmaso, vê se é o Dâmaso.

O outro coçava-se, como se tivesse bichos.

— E que pagas tu pelo servicinho? Vem «loira»?

— Dou-te uma «loira».

O outro tirou o chapéu até ao chão.

— Criado da vossa excelência! Ora a porca da vida! Vai-me esperar para o café da Rua do Norte. Espera até que eu chegue. Queres que quebre a cara ao gajo? Vê lá... E em picado, se queres... Eu cá sou assim para os amigos.

Vítor olhou ainda para a janela e dirigiu-se para o café da Rua do Norte. Estava quase vazio. A parede amarela, muito suja, defumada, comia a luz do gás; uma fumaça de cigarro enchia ainda a saleta e, numa vidraça ao fundo reluziam as cores amarelas e vermelhas de dormentes garrafas de licor intactas desde anos. A uma mesa, uma mulher escura, picada das bexigas, com o cabelo negro, uma saia branca tufada, bebia com três homens. Um dormia com a cabeça enterrada entre os braços cruzados, sobre a mesa; o outro, com um cachimbo ao canto da boca, o olhar mórbido errante e baço, estava tão bêbado que já não sustentava a cabeça, e na sua boca aparecia uma vaga espuma de baba; e o outro, um rapazola macilento de gravata vermelha, o chapéu para a nuca, os cotovelos sobre a mesa, falava baixo com a mulher, bebendo, a espaços, café por um copo.

Vítor sentou-se a um canto, pediu café, esperou. O rapazola tinha-lhe deitado um olhar de revés e a mulher compôs logo o lenço de cabeça e bateu nas saias, tomando uma posição requebrada.

Fora, agora, a chuva caia torrencialmente; um curto rodar de carruagem passava ao longe; e, por trás do compartimento envidraçado, uma chaleira de água fervia.

Vítor sentia um tédio, uma tristeza, invadi-lo, e o seu pensamento perdia-se em imaginações da existência calma que poderia ter. Porque havia de amar aquela mulher ignóbil que o traia, que o aviltava, que o levava decerto à ociosidade e a ações desonestas? E ali estava, às duas horas da manhã, num café de fadistas, esperando a informação de um canalha sobre o comportamento de uma prostituta; porque não duvidava que o homem que lá estava não era Dâmaso; Dâmaso não sairia por aquela noite de chuva; ou teria o seu cupé com o cavalo branco das noitadas de Inverno. Era outro, decerto. Enganava-o! Que diferença, se ele fosse casado com uma outra rapariga honesta! Estaria àquela hora na sua casa, junto de um bom fogo, fechando um livro interessante, sentindo a voz doce de uma mulher dizer-lhe: «É tarde, Vítor, vem!» E aquela amá-lo-ia! Porque é que a sua vida era assim tão irregular, sempre cheia de torturas, de dúvidas?

Era talvez de família. O tio Timóteo nunca casara e tivera toda a sorte de aventuras errantes; seu pai morrera novo em África; sua mãe, longe, no estrangeiro. Que faria ela, a sua alma, se houvesse um céu, se houvesse alma, e o visse ali, naquele momento tão ignóbil da sua existência sentimental? Como seria sua mãe? Porque não deixara um retrato?

A porta abriu-se bruscamente e, a escorrer água, cansado de ter corrido, o triste entrou; sentou-se logo ao pé de Vítor. Exalava um cheiro de humidade, de cavalariça e de deboche. Vítor via agora as suas mãos enegrecidas, de longas unhas; o seu fraque remendado, sem cor nem bolsos, pregado no pescoço com um alfinete; um trapo de camisa que aparecia na abertura, junto às calças ignóbeis.

— Vi o gajo. É um tipo de barba, homem novo. Salta a «loira».

— Não era o Dâmaso?

— Qual Dâmaso. Tinha barba. Salta a «loira».

— Vinha só?

— Meteu-se na tipoia, o cocheiro bateu e eu larguei. Barba forte, preta, chapéu alto, paletó comprido. Ó João, um café — gritou, ruidoso.

Vítor deu-lhe a libra e, ao erguer-se, o outro, agarrando-o pelo braço:

— Que diabo! Toma um café. Tens vergonha? Ora não sejas asno. Senta-te. Não queres? Vai para o inferno e recados ao titi... Dá cá outro charuto... O diabo te leve, dá cá outro charuto, homem! E quando quiseres algum servicinho, cá estou à mesma hora... E toda a espécie de serviço, toda, que eu cá não sou fidalgo e quem não trabalha não come; e eu quero comer, raios me partam se não quero comer. Até mesmo é a única coisa que quero. É bom comer, não é? Se é, homem!

— Adeus.

— Vai para o diabo! E obrigado!

Vítor desceu o Chiado, quase correndo. Não duvidava agora. Era outro, um de barba! Repassava todas as pessoas de barba preta que conhecia. Seria Fulano? Seria Sicrano? Mas, uns pareciam-lhe muito pobres para que ela os explorasse; outros, muito feios para que ela os amasse. Tinha-lhe ódio; desejava vingar-se e estava resolvido a romper com ela; e o que sentia, sobretudo, mais forte que o seu próprio ciúme, era o desejo de a tornar ciumenta a ela, ou de a fazer arrepender de o ter enganado.

Desejava agora a fortuna, para se mostrar em Lisboa, num luxo, num esplendor de trem, de casa, que a fizesse «torcer a orelha» por tê-lo desprezado; ou ter uma amante, condessa ou marquesa, que fosse a demonstração ruidosa da sua superioridade sentimental. E como estes triunfos eram mais difíceis, preparou outro; escreveria um grande livro, seria célebre, o seu nome chegar-lhe-ia com toda a sedução da celebridade e todo o esplendor da popularidade; seria um livro de versos e ela, através das páginas ardentes e sublimes, veria que grande, que alto coração teria desprezado.

Passou parte da noite escrevendo-lhe, mas rasgava os rascunhos; ora desejava uma carta ardente, com todas as exclamações de cólera e as apóstrofes do desprezo; ora um bilhete seco, frio e correto, alguma coisa como a lâmina lustrosa de um bisturi que lhe cortasse o coração. Depois decidiu-se por um silêncio desprezador, como se ela não existisse ou fosse tão vil que não valesse sequer desdém.

Às vezes, passeando no quarto, em chinelas, vinha-lhe como a alegria de ter findado aquela paixão; uma serenidade satisfeita enchia-lhe a alma, como se todos os elementos da sua vida reencontrassem um equilíbrio súbito. Onde o levaria semelhante paixão? Ela era uma prostituta, uma velha, calculista; perdera numa existência atribulada toda a santa frescura do coração, a ingenuidade da paixão. Que lhe reservava aquela ligação? Uma vida de ciúmes humilhantes, de tédios desconfiados? Abandonava a sua carreira, perdia o fervor de trabalhar, viveria obscuro, seria apenas o amante da do Dâmaso. Fora uma felicidade abrir os olhos a tempo; ainda bem que se lembrara de, naquela noite, rondar a casa. Que pena não saber quem era o homem da barba preta. Procurá-lo-ia e dir-lhe-ia, apertando-lhe a mão: «Meu amigo, disponha de mim, porque me fez um serviço colossal.« Mas, de repente, via-a a ela, Genoveva, sentada nos joelhos do homem de barba, ou abraçando-o, com aquelas doces ondulações do corpo que o encantavam, ou abandonando-se, no desfalecimento do desejo, e vinha-lhe uma cólera, um desejo de vingança, de morte e de sangue; e impotente, sentindo-se fraco para tanta dificuldade da vida, atirava-se de bruços, sobre a cama, arrepelava-se, chorava.

Um resto de orgulho fê-lo serenar. Disse alto: «Que a leve o diabo, que é uma bêbeda!»

Deitou-se e adormeceu profundamente.

E, ao outro dia, para recomeçar uma vida digna, foi ao escritório. Havia um mês que lá não tinha ido, e encontrou como sempre o Dr. Caminha repoltreado, agarrando com uma das mãos um pé, a outra catando, um a um, os longos pêlos do bigode loiro.

— Viva o vadio! — disse ele a Vítor.

Vítor desculpou-se logo com a sua saúde, afazeres particulares...

— Isto aqui não é obrigatório... É gratuito, mas não é obrigatório.

Riu com a sua pilhéria e, enterrando-se na poltrona, concentrou-se sobre os pêlos do bigode.

Mas, dali a pouco, um sujeito, com um passinho miúdo, entrou e, tendo pousado sobre uma cadeira, com cuidado, um chapéu de onde transbordava um lenço de seda da Índia, começou a explicar um caso, com uma voz pasmada e gestos lentos de mão, armando um o com o polegar e com o indicador. Tratava-se de uma ação de restituição de pensões.

O sujeito falava docemente; dizia: o advogado, «o amigo Caminha» folheava maços de papéis; de vez em quando, ia buscar o lenço amarelo, assoava-se e tornava a colocá-lo finamente no forro do chapéu. Parecia gozar com a consulta, dizendo com voluptuosidade, os termos jurídicos.

Vítor, folheando melancolicamente uns autos, ouvia aquela voz doce, como um zumbido, continuar:

— Mas pode o esbulhado intentar a ação contra o esbulhador?

— Contra o esbulhador...

— Mas, se o esbulhador morreu...

— O esbulhador tem ação contra os herdeiros representantes.

— Somente?

— Ou contra terceiros a quem o esbulhador haja transferido o caso, por qualquer título. É o artigo cinco ponto quatro do Código Civil.

— O facto do esbulho é recente — disse com um sorriso —, amigo Caminha.

— Prescreveria passado um ano.

— Mas, se o esbulho foi clandestino...

— Quando teve o esbulhado notícia?

— Há seis meses, amigo Caminha.

— Tem seis meses, amigo conselheiro: o parágrafo único do artigo cinco ponto quatro é explícito.., e bem... desde o facto do esbulho, ou de ter notícia dele o interessado, no caso de ter sido praticado clandestinamente.

— De modo que temos o esbulhador na mão.

— Se o esbulhado quiser...

Mas o procurador Gorjão entrou. Apesar de ser Inverno, por um hábito, apenas tirou o chapéu, fez menção de secar as repas grisalhas da testa, com o lenço; sentou-se discretamente, esperando. De repente, acavalou umas lunetas no nariz, cruzou os pés debaixo da cadeira e, fazendo o ventre proeminente, pôs-se a ler, passando os seus dedinhos gordos pelo queixo bem barbeado. E vindo sentar-se subitamente ao pé de Vítor, disse-lhe, observando-o por cima das lunetas, com brandura:

— Se uma inscrição de hipoteca, procedente do mesmo título, tiver sido tomada em diversas conservatórias, a ação devia de intentar-se no julgado onde estiver situada a maior parte dos bens onerados, onde esses bens pagaram mais contribuições diretas, ou no julgado do domicílio do registante? Hem?

Vítor olhou-o com terror. Não tinha percebido absolutamente nada da ideia do Gorjão. Fez-lhe repetir o caso. Torceu o bigode, com os olhos esgazeados.

— Vossa senhoria não se recorda? — E consultando uma nota: — Código, capitulo décimo, secção quarta, subscrição sétima, divisão quarta... Deve ser por aí. Vossa senhoria não se recorda...

— Não tenho agora presente...

— Eu estou que podem ser em ambas as partes, se, no domicílio do registante, existirem bens mencionados... Hem?

— E chegando-se-lhe ao ouvido: — E a quebra do Taveira...

Mas o amigo conselheiro tinha-se erguido, saindo com o seu passinho dançado, e o Gorjão foi cochichar com o Dr. Caminha.

Na saleta, fora, uma voz monótona, pasmada, que indicava um narrador satisfeito; dizia ao escrevente:

— Era uma eguazinha pequena rabã, e que fazia o seu dever. Pois, ali pelas alturas da Golegã...

— Pode, tanto num, como noutro lugar — disse o Dr. Caminha, voltando-se para Vítor.

— Perdão!? — disse Vítor.

— Pode intentar a ação, tanto no domicílio do registante, como no julgado onde houve maior número de bens onerados...

— Ah! — fez Vítor.

E a voz, na saleta:

— Eu não faço uma nem duas, seu aborígene. Apeio da égua, prendo-a a um galho de sobreiro...

Mas a voz interrompeu-se. Um homem de paletó comprido tinha entrado e logo a voz do escrevente, grossa e roncada:

— Faz favor de falar ao senhor doutor, faz favor de falar ao senhor doutor.

O homem do paletó entrou. A sua cara amarelada, com a barba mal feita, tinha um ar oleoso e macilento; trazia calças de lustrina que o uso fazia luzir sebaceamente; e, com um saco preto na mão, explicou que o Sr. Albuquerque, da Segunda Vara, queria os autos imediatamente e lhe tinha dito que não se fosse sem eles.

O Dr. Caminha ergueu-se e, com uma punhada na mesa:

— Diga ao senhor Albuquerque que quem quer negros manda-os vir do Brasil. Diga-lhe que vá...

Sentou-se, molhou violentamente uma pena, repeliu-a.

— Acho graça à exigência!... Não estava pronto, não estava pronto, não estava pronto! Caramba! — Outro punhado sobre a mesa. — Pensa que vou agora matar-me para fazer a vontade ao senhor Albuquerque. Com a faca ao peito, não trabalho. Não trabalho. Bem, acabou-se. Diga ao senhor Albuquerque... que história!

E o poderoso orador forense sentara-se, furioso.

O homem do paletó saiu, curvado e, por trás, viam-se as suas orelhas tão despegadas do crânio que pareciam ser duas asas de um vaso.

Houve um silêncio. Vítor sentia uma melancolia tão intensa que lhe vinham suspiros. Fora, o sol caia, abundantemente; carroças rolavam; às vezes um pregão cantava. Um tédio morno e triste parecia encher, com um fumo, o escritório; o aspeto do papel selado dava-lhe náusea; e os dorsos dos in-fólios, nas estantes, exalavam uma tristeza calma e lúgubre. E a voz do narrador continuava:

— Quando cheguei à Golegã, não foi uma nem duas, fui ao regedor...

E o Dr. Caminha, ainda na consulta com o procurador, dizia com uma voz monótona:

— Os ónus reais com registo anterior ao da hipoteca, que resultam a expropriação...

Vítor não se conteve, ergueu-se, tomou o chapéu, disse que voltava já...

— ... ou as da transmissão mencionada no artigo antecedente... — continuava o Dr. Caminha.

Ao passar pela saleta, Vítor ouvia o narrador — que era um homem corpulento, cor de tijolo, com esporas em grossas botas de prateleira — dizer satisfeito:

— Ou o homem há de fazer a alcorca, por fora do vale, ou hão de saber quem é o Pedro da Golegã!

Vítor saiu, bateu com a porta da saleta, desceu a escada. Na rua, respirou amplamente. Estava resolvido a não voltar ao escritório. Aquele tédio era superior às suas forças. Só ao entrá-lo, todas as suas faculdades se entorpeciam. Não compreendia as palavras, a linguagem jurídica; era como uma língua estranha e bárbara que lhe causava melancolia. Aquela figura de procurador, depois do feitor, as preocupações das demandas, as explicações maçadoras das partes, faziam como uma atmosfera espessa, onde mal respirava e se sentia entontecer. E aquela era a sua profissão!

Que lhe restava agora? Perdera Genoveva, a sua vida estava estragada: odiava a sua profissão, fora enganado no seu amor; e socialmente e sentimentalmente parecia-lhe que tudo findara para ele. Odiava Lisboa... E, de repente, lembrou-lhe a proposta do tio Timóteo de ir a Paris.

Veio-lhe um entusiasmo súbito; os planos, as esperanças precipitaram-se no seu espírito, iria por terra, veria Madrid. Via-se já no Bulevar, jantando nos cafés históricos, aplaudindo as peças ilustres, vendo passar na rua os génios. Talvez alguma mulher o amasse... Porque não? Não lhe dissera Genoveva que o seu tipo agradaria em Londres? Londres! Veria as corridas, iria visitar, descoberto, o túmulo de Shakespeare, ou passearia nos parques, onde brilha a plumagem dos pavões e gravemente passam os pescoços dos veados.

E logo nesse dia, ao jantar, explicou, acentuou a sua tristeza; falou pouco, suspirou, mostrou-se tão desolado que o tio Timóteo disse-lhe:

— Homem, eu, se fosse a ti, dava-me um tiro no ouvido.

— Porquê?

— Pois, aos vinte e três anos, essa melancolia, suspiros, ais, cara de frade místico... Que diabo. Mata-te, homem... Queres a minha pistola? Mas não te falhes. É ridículo e desfigura.

E Vítor perguntou-lhe então se ele ainda estava na ideia de o deixar ir viajar.

— Ah! Queres-te ir? — disse o tio Timóteo, tirando o cachimbo da boca e fitando-o. E sacudiu a cabeça. — Bem, o que está dito, está dito. Eu já estou um bocado velho para ficar aqui só, como um cão... mas vai, vai.

— Três ou quatro meses — lembrou Vítor.

— O que está dito, está dito. Quando quiseres, fala.

Vítor falou em partir essa semana, logo.

— O que está dito, está dito — rosnou o tio Timóteo. — Quod scripsi, scripsi, como dizia o amigo Pilatos.

Tossiu, fez estalar a língua e ficou calado, com um aspeto furioso.

Vítor, à noite, no seu quarto, saboreava já toda a alegria de partir. Parecia-lhe ter esquecido Genoveva; achava-se agora bem tolo em ter dissipado, naquela paixão, uns poucos de meses da sua vida. Mas, enfim, se ela lhe trazia uma viagem a Paris!... E o que o encantava e lhe dava um regalo alegre de vingança era o ir despedir-se de Genoveva; entrar, sentar-se friamente, dizer com o chapéu na mão: «Venho receber as suas ordens para Paris — «Parte?...» — «Por um ano ou dois, Aborrecia-me tanto em Lisboa!...»

E esperava que ela sofresse, tivesse ciúmes. Talvez quisesse vir...

Àquilo, todo o seu sangue se alvoroçava: ir com ela na mesma viagem, visitarem ambos os museus, jantarem num restaurante, passarem noites deliciosas no quarto de hotel, no imprevisto da aventura e no êxtase da paixão!

Mas, qual! Se ela quisesse, recusava. Desprezava-a agora. O homem da barba preta que a aguentasse, estafermo, prostituta vil!

A Clorinda abriu a porta do quarto e disse:

— Está ali um cocheiro que diz que há uma pessoa, em baixo, que lhe quer falar.

— Que pessoa?

— Não disse. Diz que está à espera, em baixo.

Vítor desceu, agitado. Um cupé de praça estava parado à porta. Abriu a porta e a voz de Genoveva disse:

— Vítor, entra — e atraiu-o pelo braço!

Achou-se sentado ao pé dela. O cocheiro imediatamente partiu.

— Querido — disse Genoveva abafadamente e, lançando-lhe os braços ao pescoço, cobriu-o de beijos ansiosos, com um murmúrio sufocado de palavras ardentes.

— Não pude estar mais tempo sem te ver. Estou como louca... Foi necessário. Se tu soubesses. Escreveram ao Dâmaso. diz que pensaste em mim, dize. Amas-me? Fala.

Vítor sentia-se tão subitamente nos braços dela, estava tão surpreendido, que apenas instintivamente respondeu aos seus beijos. O cupé descia a trote largo a Rua do Alecrim. Ele via, à luz, a grande roda da sua saia branca enrodilhar-lhe aos pés; tinha um casaco de seda onde havia peles; na cabeça, uma renda negra e da sua pessoa saia um frufru de sedas e um perfume penetrante.

— Vim mesmo como estava em casa. Tinha de escapar-me um minuto. Mas estamos livres, bem livres, dize, estamos livres... Que tens tu?

Vítor afastou-se para o canto da carruagem e disse:

— Mas perdão, perdão... Realmente não pode haver nada entre nós. Quem era o homem de barba que esteve na tua casa, até às duas da noite?

Genoveva não respondeu logo; e por fim:

— Que homem, quando?

— Ontem saiu da tua casa, às duas horas da madrugada.

— Havia de ser algum amigo de Dâmaso... — Hesitou e pareceu lembrar-se: — Cearam, estiveram a jogar até tarde; houve dois sujeitos: o visconde de Tovar e outro que não me lembro o nome — e acrescentou: — de barba loira.

— Não, não. Era um homem de barba preta; saiu só.

— Mas que sei eu disso? Eu sei lá? Talvez não fosse da minha casa. Há mais andares na casa; podia ser do primeiro ou do segundo, do quarto andar. Que pergunta ridícula!

Podia ser de outro andar! Como não lhe tinha lembrado logo! Ficara convencido que devia ser outro amante. Mas o que o persuadia era a voz dela, o calor das suas carícias, o perfume que saia das suas saias; tinha vontade de a devorar de beijos, mas, por um resto de resistência orgulhosa:

— Não havia luz nos outros andares.

— Que queres tu dizer? — E irritadamente, batendo nos vidros: — Pare! Pare!

— Que é?

— Quero que saias, quero que te vás! — E a voz de Genoveva tinha toda a vibração da cólera e do despeito. — Eu venho-te ver, com sacrifício, louca de amor, e tu recebes-me com insolência!... Pare!

O cocheiro parara. Genoveva, com fúria, abriu a portinhola, acamou as saias e disse-lhe secamente:

— Adeus, pode ir.

— Genoveva...

— Pois tu pensas que eu recebo homens de barba ou sem barba, às duas horas da manhã? Tu tomas-me pela tua Aninhas? Sai, vai.

— Continue cocheiro — gritou Vítor, fechando violentamente a porta.

— Não quero — fez ela.

Mas ele prendeu-a nos braços, devorou-a de beijos e disse-lhe:

— Perdoa! Mas tive tantos ciúmes! Ia a passar perto da casa, vi uma tipoia parada; havia luz no teu quarto. Genoveva, jura-me, não era ninguém, não?

— Não juro nada — disse ela com força. — Que direito te dei eu para me insultares?

— Perdoa...

— Conheces-me há dois meses; faço tudo por ti; sacrifico-me por ti; sabes bem a que repugnante serviço me dou... e, porque há um sujeito que sai do meu prédio, dizes-me que recebo homens.

— Eu não disse!...

— Disseste.

— Juro-te...

— Se havemos de começar com desconfiança, questões ridículas, amuos... bem, acabou por uma vez.

— Não, nunca, nunca. Mas diz que me perdoas. Estava doido. Queria ir para Paris! Queria ir amanhã despedir-me de ti; dizer-te, muito secamente, se querias alguma coisa.

— Tu — disse-lhe ela, pondo-lhe a mão no ombro —, ires para Paris, deixar-me! Nà, nà! — E chegando o rosto ao pé do dele: — Matava-te!

Apertou-o contra o seio; beijava-lhe os olhos, os lábios, a testa; as suas mãos errantes, como que tomavam posse dele.

— Meu adorado Vítor, meu amor! diz que és meu, só meu amor, a minha vida, o meu amante, o meu homem! Oh, querido!

Esteve um momento abraçada a ele, como desfalecida, e, de repente, erguendo o rosto:

— Não me posso demorar! Devo estar em casa às dez horas. Diz-lhe que vá para casa. Tu apeia-te no começo da rua.

Mas Vítor interrompeu-a logo:

— Mas explica-me agora o que se passa. Porque tem sido esta separação?

— Ah, não imaginas... Escreveram uma carta anónima ao Dâmaso, que eu te recebia, que eu era tua amante, que tu me ias ver, quando ele não estava... Sem perceber, eu que preciso dele agora, quis afastar toda a suspeita. Estes dias de separação valeram-me um par de contos...

— Foi a inglesa — disse Vítor. E contou-lhe a cena com Miss Sarah. Era a inglesa que se vingava.

Genoveva ficou petrificada.

— Ponho-a na rua, além de amanhã. Mas não digas nada. Ah, a infame! Se não devia chicotear semelhante mulher! E tu resististe?

— Como José do Egipto.

Riram. Ela beijou-o mais.

— Quem te não há de adorar, meu amor, com esses olhos? Escuta: o animal do Dâmaso há de ir procurar-te e convidar-te para vires jantar amanhã. Vai lá, meu amor. — E disse-lhe ao ouvido: — É o nosso jantar de noivado. Amanhã estou livre.

A carruagem parou ao começo da Rua do Alecrim. Vítor saltou. Ela tinha-lhe ainda a mão, pela portinhola, beijou-lha. Aquela carícia deu um enternecimento tão profundo a Vítor que lhe vieram as lágrimas aos olhos. Viu a carruagem afastar-se, com o olhar devoto com que seguiria, no céu, o rasto luminoso da aparição de um anjo. Olhou em roda de si. Queria falar a alguém, abraçar alguém, proteger alguém. Uma pobre aproximou-se, coberta com um véu. Vítor deu-lhe tudo o que tinha: quinze tostões!

«Amanhã, amanhã!», repetia, subindo a Rua do Alecrim.

Parecia levado no ar, suspenso pela dilatação da sua alma, ligeira, sublimada, e, num ímpeto de alegria, rompeu pela rua a cima, cantando a Marselhesa.