Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra · Capítulo 6 de 10 · parte 2/5

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Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

3 Adolfo Caminha, autor-editor

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

O Diário demonstra bem essa influência, como, mais adiante, constataremos na problematização e análise dos seus anúncios comerciais. Além de civilizar mentes e corpos, era preciso civilizar a cidade, suas ruas e praças, dotá-la de equipamentos até então inexistentes. Esses equipamentos eram requeridos por um novo modelo de vida; eles eram tidos como necessidades fundamentais para a cidade que crescia. Eram produtos e serviços os mais diversos que países industrializados, como a França e a Inglaterra, estavam prontos para vender fosse por intermédio de casas importadoras, como a casa Boris Frères, de judeus franceses, ou por implantação de companhias de energia e transporte público cujo capital era de origem inglesa.

A esse fato o jornal O Diário não passou incólume, como podemos constatar nos números 56 e 57. No editorial do número 56, de 28 de julho de 1892, por exemplo, reclamava-se a necessidade de um teatro para vencer a monotonia da vida local. Em A normalista, o narrador pinta cenas da monotonia em que Fortaleza vivia mergulhada:

A cidade permanecia na sua costumada quietação provinciana,

muito cheia de claridade, bocejando preguiçosamente de

braços cruzados, à espera do Progresso. Suava-se por todos

os poros e respirava-se a custo, debaixo de uma atmosfera

equatorial, acabrunhadora. Estalava a distância, num ritmo

cadenciado e monótono, o canto estridente e metálico de uma

araponga, cujo eco repercutia em todo o âmbito da pequena

capital cearense. (Caminha, 1998, p.77)

Zuza, que morava no Recife, também se queixava da monotonia da vida local, como podemos constatar nesta cena em que o narrador fala pela personagem:

Uma vidinha estúpida aquela! Pensava o estudante estedendo-

se na rede. Morria-se de tédio e calor. Vieram-lhe saudades do

Recife. Oh! O Recife, o Prado aos domingos, os passeios, os

belos piqueniques a Caxangá... Lembrou-se da sua última

conquista amorosa – a Rosita, uma espanhola com quem

estivera seguramente seis meses. Um peixão! Morava na

Madalena. Vira-a uma vez no teatrinho da Nova Hamburgo,

sozinha num camarote, muito bem vestida, com um rico leque

de plumas, anéis de brilhante, esplêndida: era argentina.

(ibidem, p.78)

Essa queixa de monotonia era uma das mais recorrentes. Assim, a exigência de um teatro e de companhias teatrais se repetia constantemente. Não parece ser um acaso que Zuza tivesse conhecido Rosita em um teatro. Assim, o teatro era também o espaço de socialização conveniente para os novos tempos. Nas páginas de O Diário reclamava-se também da ausência de grandes companhias de artistas na capital cearense: "Cada vez accentua-se mais a necessidade de um theatro nesta capital onde a vida ordinariamente é tão monótona, sem outros atrativos que não o Passeio Publico e as sociedades dramaticas particulares que não satisfazem as exigências da sociedade cearense".

Observemos nessa citação que a construção do teatro foi apresentada como uma necessidade, como o foi também a presença de grande companhias artísticas, numa nítida vontade de inserir a vida cultural cearense numa estrutura que não somente aquela já conhecida e que não agradava aos apreciadores da arte teatral, mesmo que isso ocasionasse algum desagrado em determinados setores, como em alguns padeiros da Padaria Espiritual, entre eles o próprio Adolfo Caminha, que, como vimos, contestou o suposto efeito benéfico da importação cultural na cultura cearense e, em especial, na fortalezense. Essa necessidade de construir um teatro digno de uma cidade que se desejava grande e moderna só foi contemplada em 1910; portanto, já na primeira década do século XX, quando se deu a construção do Teatro José de Alencar existente até hoje na região central de Fortaleza. Ele mesmo é um exemplo da presença do capital inglês no Ceará, pois sua estrutura de ferro fundido era característica das construções que a Inglaterra exportou para diversos países à época.

No número 57, de 29 de julho de 1892, encontramos um editorial com o título "Civilisemo-nos", que colocou uma outra necessidade urgente para a capital cearense "a creação de um asylo de mendicidade em condições de abrigar e soccorer a indigencia desvalida que geme por estas ruas a mendigar o pão de cada dia". Essa situação colocava em cena a miséria em todos os palcos da cidade, mostrando que a Belle Époque não era bela para todos. Esse era uma espécie de teatro que horrorizava as classes mais abastadas, sobretudo nos logradouros onde se concentrava essa camada da população muito mais preocupada em concorrer com o dinheiro e o gosto para tornar-se, cada vez mais, próxima de um modo de vida distante, cujo empecilho maior seria a travessia do Atlântico, o que a levaria ao prazer de viver em Paris. Como uma viagem não era possível a todos os bolsos, procurava-se reproduzir Paris, à medida do possível, na taba de Alencar.

Aparentemente, atento aos gostos das diversas camadas da sociedade cearense à época, O Diário dava uma martelada no cravo e outra na ferradura, livrandose do modelo de vida burguês, mas entendendo a necessidade de equipamentos que movimentariam a vida cultural da cidade, sem esquecer de expor as tensões existentes em seu território. A cidade que se vestia segundo os modelos franceses, copiados das revistas que chegavam nos vapores que cortavam o país de Norte a Sul, muitos deles com suas chegadas e partidas anunciadas em O Diário, era a mesma que deparava com retirantes famintos, mendigos andrajosos, pedintes de todos os tipos, variolosos e bexiguentos, o que colocava em cheque a sua tão desejada Belle Époque. O quadro que justificava a solicitação de uma asilo de mendicidade foi pintado com traços e cores fortes:

Todos nós somos testemunhas das scenas de miseria que

diariamente se passam nas ruas da capital cearense; mal

amanhece o dia somos encommodados por vozes famintas que

nos entram em lufadas pela porta a dentro suplicando um

esmola. Grande numero de mendigos, uns em deploravel

estado de nudez, outros arrastando-se a custo, enchem os

adros das egrejas implorando a caridade publica, perseguindo

os devotos, atordoando os ouvidos dos crentes.

Aos domingos, depois da missa, maior é a vozeria á porta das

egrejas. Que isto se observe em épocha de secca, em

consequencia da immigração do centro, compreende-se, mas

em tempos normaes significa apenas que nenhuma capital de

certa ordem póde dispensar um asylo de mendicidade prompto

sempre a soccorer a pobreza desamparada.

Adolfo Caminha não viveria tanto para ver ou ter notícias de Fortaleza calçada em botas francesas. Sua morte prematura o impediu de chegar ao século XX, quando mudanças estruturais de maior monta marcaram a então pequena cidade, fazendo-a transbordar para além daquele quadrilátero inicial que fora palco de seu nascimento e teatro de seus dramas e comédias. Tratando dessas transformações afirmou Sebastião Rogério Ponte (1999, p.16):

Em Fortaleza, o movimento de remodelação urbana

impulsionou-se com o Mercado de Ferro (1897), o

"aformoseamento" das principais praças (1902-3) e a

construção do requintado Teatro José de Alencar (1910). A

onda remodeladora acabou por conferir à zona central da

cidade um harmonioso conjunto urbano, complementada com a

edificação de mansões, prédios públicos e dois grandes

cinemas – em sua maioria, construções marcadas pelo

ecletismo arquitetônico, estilo então em voga no país.

Enquanto isso, a compulsão em sanear a capital e higienizar a

população aprofundava-se através de medidas como a

implantação do serviço de abastecimento d'agua [sic] e esgotos

(concluído em 1924), a vacinação obrigatória, o Instituto de

Assistência e Proteção à Infância (1913), e inspeções sanitárias

a domicílio. Por outro lado, as tentativas de controlar o

crescente contingente de pobres intensificaram-se com

campanhas de erradicação da mendicância urbana, novas

instituições assistencialistas, organização de policiamento

específico para Fortaleza, e de colônias penais para a

recuperação da delinqüência adulta e infantil pelo trabalho ao

ar-livre ou em oficinas.

Ainda na sua primeira página, O Diário trazia uma espécie de editorial, tratando ao longo da sua existência dos mais variados assuntos – a abertura dos trabalhos do congresso; a emissão de vales na falta de moedas de menor valor destinadas ao troco das compras, os afamados e abominados "cartões"; o serviço doméstico; a saúde pública; o naufrágio do couraçado Solimões; no qual faleceu Alfredo Peixoto, autor de Memórias de um náufrago; poesias; a educação doméstica; a vacinação contra a varíola; o desabamento de dois prédios na rua do Carmo, no Rio de Janeiro; a revolução do Mato Grosso; a situação do Brasil sob o governo de Floriano Peixoto; a indústria cearense, destacadamente a indústria de vinho de caju; o imposto do fumo; as finanças do Brasil; o naufrágio do vapor Alcântara; a migração de cearenses para o Estado do Amazonas e para a capital federal; o desterro de José do Patrocínio; a Constituição; a morte do Dr. Moura Brasil; algumas notícias do júri; a necessidade de um teatro para a capital cearense e de um asilo de mendicidade, como vimos anteriormente, e por último, a ocorrência da morte anunciada do próprio jornal, encerrando, assim, a sua carreira.

O programa de O Diário

O editorial do número 1 era o programa de apresentação do periódico, do qual destacamos o fato de esse já se mostrar consciente de quão difícil era manter-se em funcionamento, parecendo prever o futuro malogro:

Nada mais problemático que o futuro de um jornal de província,

como este que ora apresentamos ao publico em formato

pequeno, sem programa político, sem odios partidários nem

ambições inconfessáveis, modesto, nascido no silencio e na

obscuridade, e tendo como unico objectivo promover o bem

estar do povo e o engrandecimento da pátria.

Diferentemente do que se costuma afirmar a respeito da inaptidão dos artistas para os negócios, Adolfo Caminha parecia estar consciente das dificuldades e dos requisitos para desenvolver um empreendimento jornalístico em Fortaleza: "A primeira condição para que um jornal tenha vida longa e prospera em um meio relativamente pobre qual o nosso – sabemol-o – é que elle represente os interesses de qualquer facção politica". E ao se dizer conhecedor desse fato, vai além, conceituando a seu modo a política e a relação dessa com a imprensa:

Entre nós a política é como uma doença epidêmica – apodera-

se sorrateiramente do individuo sem que elle aperceba-se de

que esta sendo contaminado talvez pelo mais cruel de todos os

vicios; transforma-lhe subitamente o modo de pensar e agir,

empede-lhe os movimentos livres e espontâneos, subordina-o

ao interesse pessoal e prende-o a uma cadeia impossível de

romper.

O fato de O Diário se dizer neutro em política foi bastante destacado pelos demais jornais, como é possível constatar na já citada seção "Nós e a imprensa", pois não são poucos os periódicos que realçam este ponto do seu programa, chegando mesmo a reproduzir parte do texto, como o fez, por exemplo, A República: "O novel campeão

[referindo-se ao 5 O Diário ] promette completa neutralidade em politica e plena defeza aos interesses públicos. Desejamos-lhe longa existência". A esse exemplo podemos juntar o do jornal O Operário, que, após saudar o intento de Caminha e d'Oliveira, afirmou: "Ao collega enviamos o abraço de camaradagem, desejando-lhe sua prosperidade e persistência no seu programma

para que não resvale na valla commum". 6 Essa "valla commum" era a da defesa de interesses de partidos políticos.

A pressão política

Antes de continuar com a problematização e análise desse jornal editado por Adolfo Caminha, é significativo mostrar que essa mesma crítica à influência do poder político partidário fez-se sentir também nos escritores ligados ao Clube Literário, associação fundada em Fortaleza em 1886, cujo órgão foi a revista A Quinzena. Esse periódico teve no total 30 números, que circularam na capital cearense entre os meses de janeiro de 1887 e junho de 1888. No editorial do número 1, datado de 15 de janeiro de 1887, lemos: "E, entretanto, é a imprensa partidária quem abre caminho para os empregos, quem sagra beneméritos os amigos, quem traz pela rua da amargura os adversário, quem institue tenentecoroneis e destitue

delegados". 7

Diante desse fato, ou seja, da permanência de entraves de todas as ordens e de uma ordem específica – a política –, parece-nos válido perguntar: então, como se comportariam os redatores de O Diário? O que fariam para driblar a influência do jogo político que parecia tanto incomodá-los e incomodar aos demais jornais que se pretendiam como livres das tais influências políticas?Vejamos o que nos diz o programa do periódico a esse respeito: "O DIARIO, porem, terá bastante energia moral para não deixar-se dominar por interesses individuaes, não afastando-se nunca das boas normas do jornalismo independente e criterioso".

Pode parecer estranho que Caminha e d'Oliveira acreditassem na neutralidade política. Mas, certamente, eles estavam tratando da política partidária, o que, de certo modo, nos faz retomar a ideia apresentada anteriormente de que Adolfo Caminha era um dos "paladinos malogrados", ou seja, um dos intelectuais decepcionados com o rumo que tomou o Brasil após o 15 de novembro e a adoção de um tipo de república bem diferente do que desejavam as classes letradas do movimento republicano, como nos informam Nicolau Sevcenko e José Murilo de Carvalho. Vemos nessa citação que a situação era fundamentada em aspectos morais, numa mistura de brio, decoro, ética e tudo o mais que formalizasse o programa.

Contando apenas com essas armas e diante dessas circunstâncias, as alternativas de Caminha e d'Oliveira não pareciam ser muitas. Restando, por exemplo, apelar para a solidariedade dos jornais que também professassem a mesma crença ou dela mais se aproximassem, como que procurando unir-se numa espécie de grupo de jornais não-políticos. Talvez, não banalizando aqui um conceito, bem como os sujeitos, as práticas e os objetos que o cercam e o conformam, essa fosse uma característica em comum, ao menos de um grupos específico, do que temos chamado, quase indiscriminadamente, de intelectuais e, ainda mais precisamente, dos intelectuais cearense à época em que Adolfo Caminha editava O Diário. Ainda a esse propósito, lemos: "Aos collegas da imprensa cearense nada mais pedimos senão os conselhos da experiência". O coletivo dos "collegas da imprensa" parece reforçar bem essa ideia. Restava também apelar para o povo, usando como recursos características que se supunha ou se desejava serem de todos: "Dar-nos-emos por felizes si durante a nossa penosa peregrinação no mundo do jornalismo, merecermos a symphatia do povo cearense, tradicionalmente generoso e hospitaleiro". Porém, como lemos anteriormente, a hospitalidade não foi das melhores e o periódico, como já sabemos, não durou muito. Mas a concorrência com os periódicos de partidos ou grupos políticos não era a única.

A concorrência dos "pasquins immundos"

Certamente, não foi fácil manter O Diário na praça, pois naquele mesmo ano surgiram em Fortaleza doze outros jornais, alguns de vida efêmera, com um único número circulando entre os leitores, alguns desses doze eram voltados para a sátira ou para a crítica política com tom jocoso, com o foi, por exemplo, A Cartola, cujo redator chamava-se Vago e os responsáveis eram Os Sete Phantasmas. Além de A Cartola, que andava fazendo a cabeça dos leitores, O Bemtevi distribuía o seu canto e não diferente do primeiro jornal citado era também humorístico: "Dizia-se orgam da chicana.

Redactores, Mundo, Diabo e Carne" (Studart, 1908).8 Se havia dificuldade de todas as ordens para fazer imprimir os periódicos, chega a ser incompreensível que tantos títulos circulassem por Fortaleza naquele período. Para Adolfo Caminha, a leitura desses jornais era o indício de que o público, que ele chamara ironicamente de civilizado e inteligente, era bem outra coisa:

Este publico, que compra e lê avidamente o Charuto, o Bemtevi

e tantos pasquins immundos que por ahi pullulam, verdadeira

affronta ao decoro social, e que não raro encontramos nas

casas de familia de envolta com livros escolares e outros

objetos preciosos; este publico, que sabe applaudir palhaços de

circos com um enthusiasmo verdadeiramente ridículo; este

publico não sabe ou finge ignorar que a imprensa, tal qual

comprehendemol-a, é uma das mais nobres missões da qual

depende grande porção de felicidade para a collectividade

humana.

Vale destacar, aqui, que esses jornais que Adolfo Caminha considerava "immundos" também participaram do seu romance A normalista, no qual a Matraca ajudou a compor o caráter do Ceará Moleque, ao qual Maria do Carmo e Lídia fazem referência.Vejamos como a Matraca, título por si só significativo desse tipo de jornal, se fez presente na trama do romance citado:

O dia seguinte era domingo. Todos em casa do amanuense

acordavam muito bem-dispostos. Havia missa cantada na Sé.

Espocavam foguetes e repicavam sinos. Meninos apregoavam

numa voz cantada a Matraca a 40 réis! – um jornaleco imundo

que falava da vida alheia e que por duas vezes trouxera

sujidades contra João da Mata. Maria do Carmo quis ver o que

dizia a Matraca, apesar de o padrinho ter proibido

expressamente a entrada do pasquim em sua casa. Ali só lhe

entrava a Província, dissera ele; isso mesmo porque o José

Pereira não exigia pagamento de assinatura. O mais era uma

súcia de papéis nojentos que só serviam para... – Maria deu um

pulo até a casa da viúva Campelo e aí pôde comprar a Matraca.

O padrinho estava no banho. – O namoro do Trilho de Ferro!,

gritavam os vendedores. Maria teve um palpite. Certo aquilo era

com ela. Que felicidade de o padrinho estar no banho! Pagou o

menino, pedindo-lhe pelo amor de Deus que não gritasse mais

o namoro do Trilho de Ferro. Abriu o jornal ansiosa. Que horror!

Havia, com efeito, uma piada sobre ela e o Zuza. Mais que

depressa correu a mostrar à Lídia.

– Estás vendo, menina? Lê isto aqui. E apontou com o dedo.

Eram uns versos de pé de viola que contavam o recente

namoro de Zuza:

A normalista do Trilho

ex-irmã de caridade

está caída pelo filho

e um titular da cidade

O rapazola é galante

e usa flor na botoeira

D. Juan feito estudante

a namorar um freira...

Eis por que, caros leitores,

eu digo como o Bahia

– Falem baixo, minhas flores,

Senão... a chubata chia!... (Caminha, 1998, p.38-9, grifo nosso)

Vemos por essa citação que Adolfo Caminha, seja no texto de O Diário, seja no romance A normalista, usa o mesmo adjetivo – "immundo" – para qualificar um certo tipo de jornal que foi bem presente na época. Vemos também que o valor da Matraca era o mesmo de O Diário: 40 rs (quarenta réis). Na economia do romance de estreia de Caminha, essa cena é capital para demonstrar o rumo que o suposto namoro das duas personagens – Maria do Carmo e Zuza – vai tomar. Nesse trecho há também o encontro de duas práticas de leitura: a leitura em silêncio e a leitura em voz alta, como práticas distintas, unidas nesta cena para dar-lhe contornos mais reais, utilizando como recurso a poesia popular das quadrinhas de pé-de-viola, que encontraremos também no jornal O Diário.

Um Zé Pacato não tão pacato assim ou controvérsias em volta do nome

Estas quadrinhas podem ser encontradas em uma das já citadas seções fixas de O Diário, intitulada "Balas e Bolas". Elas eram assinadas por um colaborador do jornal, cujo pseudônimo era Zé Pacato e que assim se apresentou no primeiro número do periódico:

Ora bolas!... Ora balas!

Eis-me aqui as cabriolas,

Posso agora, sem viral-as,

Minhas balas, minhas bolas...

Deu-me agora nas violas,

Inventar esta secção,

Para balas... para bolas...

Carambolas... que me dão!

O meu programma

É este sem mais:

Fazer versos

Que dem-me fama.

E sendo, leitor assim

Quero que a elas leitora

Rimando a canção sonora,

Bondosa, goste de mim.

E eu fugindo agora della

Mais ligeiro do que um gato

Humilde, sem mais aquella

Me assigno de

ZÉ PACATO

Esse Zé Pacato assinou também, como podemos constatar no número 17 de O Diário, de 4 de junho de 1892, um poema intitulado "A flor do leque", dedicado a M. Carvalho, que nos parece ser de um livro chamado Musgos e algas, cujo autor ainda não identificamos. Porém, aqui é preciso considerar um outro fato. Se anteriormente os editores de O Diário desejaram garantir um público conquistado e atrair um outro que se mostrava interessado por notícias vindas do Rio de Janeiro, Lisboa e Paris, como uma estratégia de fazer aumentar a renda e garantir os lucros da empresa, em seguida uma outra estratégia foi tomada, qual seja, a de trazer para si aquele público que consumia as mesmas jocosidades dos jornais que Adolfo Caminha considerara como immundos, afinal a linguagem de Zé Pacato era bem diferente daquela usada por outros colaboradores de O Diário, diferenciando-se, logicamente, no recurso formal, isto é, utilizando de quadrinhas populares em vez, por exemplo, dos sonetos que também estavam presentes no jornal. É importante destacar que esse tipo de poesia popular era muito mais presente nos jornais que Adolfo Caminha considerara como immundos, uma vez que se prestavam à sátira, utilizando, entre outros recursos, numa maior e suposta liberdade de escrita e criação de imagens, a ironia. Vale destacar também que o programa de Zé Pacato é alcançar a fama, fazendo versos que atraíssem a atenção de leitores e leitoras, sendo essas também contempladas, como veremos mais adiante, com uma coluna que lhes era destinada, assinada não por um homem, mas por uma mulher chamada Iza. Numa inversão da regra da etiqueta, deixemos por último a dama e continuemos com o irreverente Zé Pacato.

Foi por intermédio de Zé Pacato que os leitores de O Diário tiveram notícia da abertura dos trabalhos do congresso estadual; o surgimento de agremiações literárias e de intelectuais; o imposto sobre o fumo; a emissão de cartões por falta de moedas; o surgimento de um outro café na cidade, fundado pelo lendário Mané

Coco (Manuel Pereira dos Santos), 9 patrocinador da instalação da Padaria Espiritual no seu afamado Café Java; o naufrágio do navio Solimões; a greve dos condutores de bondes; os boatos e as fofocas da cidade; a apresentação musical de Henrique Jorge nos salões do Congresso e a simples notícia de um dia de chuva, o que pode parecer prosaico em outra terra, menos no Ceará, que a época, não menos de vinte anos, vivera uma das secas considerada a maior de todos os tempos: a de 1877/1878 e onde, por característica do "Ceará Moleque", vaiou-se o sol, que teimou em aparecer após três milagrosos dias de chuva.

Devemos ainda destacar o fatos de que essas mesmas notícias ou informações eram dadas também por outros colaboradores a partir de um outro tipo de discurso, o que reforça a ideia da utilização das quadrinhas como uma forma de atrair um público que se interessava por um modo e uma forma específica de dizer, de noticiar. Esse fato constituía, além de uma estratégia de venda, uma forma de leitura e de escrita. Vejamos como foi noticiada, por exemplo, a abertura dos trabalhos no Congresso, ou seja, a então Assembleia Estadual.Vejamos primeiro um texto que aparece na primeira página de O Diário intitulado "O Congresso" e, em seguida, o texto de Zé Pacato na seção "Balas e Bolas":

Começaram os trabalhos do Congresso Cearense.

Actualmente, mais do que emqualquer outra epocha, o Ceará

reclama os serviços desta illustre corporação.

Não é nossa competência aquilatar do valor moral e intelectual

de cada um dos membros do novo Congresso, alguns dos

quaes são bastante conhecidos do povo cearense. Cumpre,

porém, a todos, sem execpção, a grande somma de

responsabilidade de que acham-se investidos, promovendo,

sem medir sacrifícios, a prosperidade do Estado e o bem estar

do povo.

Ha muito que fazer, muito que edificar.

Vão longe os tempos em que os representantes da soberania

popular, sem curarem effetivamente dos interesses vitaes do

paiz, perdiam o tempo em longos e improficuos debates,

transformando a tribuna parlamentar em baluarte de ápodos e

discussões pessoaes com graves prejuisos para os negocios

que corriam a revelia.

Precisamos hoje, mais do que nunca, de ações, não de

palavras sem sentido.

O regimen de rethorica desappareceu com as velhas

instituições.

Os repetidos abalos que o Ceará tem soffrido nestes ultimos

tempos vieram de algum modo affectar todos os ramos da

administração publica, produzindo inevitáveis alterações de

ordem social.

O novo Congresso tem serios compromissos a satisfazer.

Urge accudir as necessidades do Estado que ora se reorganisa.

Nada de discussões estéreis, tudo em beneficio do Ceará –

este deve ser, em summa, o programma dos actuaes

legisladores cearenses.10

Agora, leiamos o texto de Zé Pacato:

Abrio-se agora o Congresso...

Vamos ter muita fartura,

Muita carne e rapadura,

Muita farinha e progresso.

E a Patria que os elegeu,

Vendo o povo sobre o abysmo,

Espera tudo do seu

Talento e patriotismo.

Que venham, pois, com urgência,

Por estes proximos mezes,

Novos actos, novas lezes,

De tão sabia sapiencia!

E nós, ficamos de novo,

De lado, para gritar,

Quando o Congresso passar:

– 11 Olha os eleitos do povo!....

Vemos pela leitura dos dois textos que o assunto é o mesmo, ou seja, a abertura dos trabalhos na Assembleia de deputados naquele ano de 1892. No entanto, o tratamento dado ao fato é diferente em ambos os textos. Se no primeiro texto há uma certa crítica, ela é feita em um tom mais formal. Já no texto de Zé Pacato há até o "desrespeito" gramatical em nome da constituição da rima, recurso fundamental nesse tipo de discurso para constituir a inteireza do seu objetivo. Foi assim que o plural de lei passou a ser lezes, em vez de leis, para rimar com "mezes", na segunda estrofe.

Além de atrair um outro público, esse tipo de discurso era também um modo de dizer algo que não se poderia dizer claramente, o que coloca em discussão a suposta neutralidade política do periódico de Caminha e d'Oliveira. Além desse exemplo, poderíamos citar outros, no entanto esse pareceu-nos bastante representativo, não somente por ambos os textos estarem no mesmo número do jornal, como por tratarem do mesmo tema, mas porque eles evidenciam simultaneamente uma questão relacionada à forma do discurso e constitui-se em uma estratégia de conquistar públicos supostamente diferentes. Depois de toda sua exposição, Zé Pacato, talvez por não alcançar a fama almejada, desapareceu, com sua graça e verve, no número 13 de O Diário.

"O ponto nos iii"

E quando o citado Zé Pacato desapareceu, foi a hora de colocar o "Ponto nos iii". Esse foi o título do editorial do número 14 de O Diário, que ora reproduzimos:

Assoalham pessoas sem criterio e má fé que O Diario é um

jornal politico desfarçado com mascara da neutralidade.

Maldizentes, em toda a parte os ha e não em pequeno numero,

rasão porque não extranhamos a calumnia com que se procura

envenenar o nosso programa intrigando-nos com o publico.

Esses que não trepidam em adulterar as boas intenções

alheias, indivíduos sem profissão honrosa e sem

responsabilidade de especie alguma, pobres parias agrilhoados

miseravelmente ao interesse pessoal, só merecem o nosso

despreso.

O Diário nada tem que ver com elles; e se não fosse

compromisso solemne que em boa hora contrahimos com os

nossos leitores e assignantes, certo não nos dariamos ao

trabalho de destruir os embustes que se levantam a nosso

respeito.

Porque somos neutros não segue-se que nos abstenhamos

completamente de affectar questões politicas de interesse

geral, o que ainda não fizemos. Não escolhemos noticias que

possam interessar mais a este ou áquelle partido, publicamol-as

indifferentemente, dando preferencia ás locaes e que dizem

respeito ao comercio e ás classes laboriosas.

Si durante o nosso tirocinio houvermos alguma vez de discutir,

em artigo edisctorial, quaesquer actos, quer do governo federal,

que do governo Estadual, fal-o-emos desassombradamente,

apoiados na justiça e no direito.

Longe de nós a linguagem virulenta dos embusteiros

chicanistas. Neutralidade e bom senso – eis a nossa divisa.

Não se illudam os alviçareiros ignorantes.12

Essa utilização é também uma outra proposta de unir o vivido ao representado, não por uma fronteira tênue entre a vida pessoal e privada do autor ou pelo filtro de seus sentimentos em relação à vida na província, mas pela sua capacidade de observação, de utilização de recursos que estão postos na vida cotidiana, diária, como o faz lembrar também o título do periódico em causa: O Diário. Se, ao longo de sua recepção, e em especial de sua fortuna crítica, o romance A normalista foi considerado peça de vingança pelo fato de a sociedade fortalezense não ter visto com bons olhos a união do seu autor, então segundotenente da Marinha, com Isabel Jataí de Paula Barros, então casada com Fausto Augusto de Paula Barros, também militar, vale considerar que o processo de sua formação pode ser bem outro, assim como os recursos, entre eles a acuidade da observação desenvolvida por Caminha, a atenção no mundo à sua volta, o aproveitamento do cotidiano, dos fatos simples da vida comezinha e ordinária. Pintar com traços fortes e cores escuras as cidades não foi mérito apenas de Caminha, o fizeram em especial os autores que cultivaram de algum modo a estética naturalista, desde os franceses, passando pelos portugueses, um deles Eça de Queiroz. No Brasil, o fizera Aluísio Azevedo com a sua São Luís natal em O mulato ou com o Rio de Janeiro adotivo em O cortiço. Mais do que umavingança, estava presente o sentimento de desencanto com uma nova estrutura social, marcadamente urbana, que se desenhava como excludente.

O fato de haver correlações entre o conteúdo ou a opinião de Adolfo Caminha defendida nas páginas de O Diário e nas páginas do seu romance A normalista, em relação ao tipo de imprensa que se cultivava em Fortaleza, não pode passar incólume, pois esse fato se nos mostra capital para a tese que defendemos: a de Adolfo Caminha como um autor polígrafo, capaz de reunir na ação de um sujeito supostamente único – o autor – diversas outras ações como a leitura, o jornalismo, a edição, a crítica literária e, evidentemente, a escrita.

O pão que O Diário de cada dia nos dá hoje ou as relações entre os periódicos

Além dos jornais que Adolfo Caminha considerava immundos, apesar de utilizá-los em sua ficção e alguns dos seus recursos no próprio periódico, datam também de 1892 outros dois importantes jornais cearenses: A Republica e O Pão. Esse já é conhecido nosso como órgão da Padaria Espiritual, da qual Adolfo Caminha fora um dos fundadores. Aliás, é preciso que se diga que foi na redação de O Diário, portanto no número 88 da rua Formosa, atual rua Barão do Rio Branco, em Fortaleza, que Adolfo Caminha foi convidado por Antônio Sales a participar da agremiação dos Padeiros. É o próprio Adolfo quem relata esse acontecimento na carta intitulada "Padaria Espiritual", que ele escrevera a um suposto amigo. No Rio de Janeiro, relembrando com saudades da terra natal e mais precisamente do bairro do Outeiro, à época afastado da cidade e caracterizado como uma região bucólica, Adolfo Caminha (1999a, p.128) narrou, assim, o nascimento da Padaria:

Perguntas-me, entre curioso e tímido, como é que nasceu a

Padaria Espiritual. Sei lá! Quem sabe a verdadeira origem das

cousas? O que desde logo te posso ir dizendo é o seguinte:

Aos tantos de maio de 1892, foram ao escritório do Diário,

jornal em que eu trabalhava, dois rapazes (lembra-me bem que

um deles trazia um pince-nez) convidar-me para fundar um

sociedade literária, cujo nome fosse Padaria Espiritual.

Surgidos, portanto, no mesmo ano e tendo laços de afinidade e amizade entre os seus membros, foi inevitável, também, que em O Diário figurasse informações e pequenas notas a respeito da Padaria Espiritual e de O Pão. No número 14, de 1º de junho de 1892, lemos em O Diário:

Sem as formalidades do estylo, realisou-se ante-hontem, ás 7

horas da noite, no respectivo forno, a installação desta

phenomenal sociedade de rapazes de lettras.

Phenomenal, dizemos porque effectivamente a Padaria

espiritual, a julgar pelos estatutos e pela boa vontade dos

forneiros constitue um phenomeno e dos mais curiosos deste

fim de seculo.

Ha muito não assistiamos uma festa tão original.

Basta dizer que não houve casaca, nem luvas, nem discursos e

nem chá de garfo.

A leitura dos estatutos, primeira parte do programma, provocou

geraes e estrepitosas gargalhadas, sendo para notar o vivo

interesse do auditorio pela nova especie de Padaria, que se

achava replecta de convidados.

Segui-se a leitura de cartas dirigidas pelos forneiros Moacy

Jurema [Antônio Sales] e Felix Guanabarino [Adolfo Caminha] a

Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro, as quaes foram ouvidas

ao som de palmas sucessivas.

Leram trabalhos litterarios os padeiros Polycarpo Estouro – uma

primorosa poesia dedicada a Alfredo Peixoto, verdadeira joia de

subido valor artistico; Lucas Bizarro, um espirituoso soneto, e

Alcino Bandolim, uma bella poesia, seguindo-se a parte musical Esse recurso das reticências para suspender o pensamento é também bastante presente no romance Tentação, de Adolfo Caminha, sendo, portanto, um recurso utilizado tanto nos textos jornalísticos como nos ficcionais, uma vez que o objetivo era dizer algo sem a utilização de palavras, deixando, desse modo, uma abertura para a participação do leitor. Porém, os problemas tipográficos já eram constatados no primeiro número no qual lemos: "Pedimos desculpa aos leitores si este numero d' O Pão não sahe tão nitido, queremos dizer tão bem amassado e assado como desejavamos. No proximo numero introduziremos algumas reformas

– execução ao piano da walsa Pão duro, composição do

maestro Nascimento, pelo professor Sr. Jorge Victor.

Em summa, uma bela festa a que assitiram diversas senhoras e

cavalheiros da nossa melhor sociedade.

Foram destribuidos gratuitamente os Estatutos impressos da

nova associação.

Agradecendo o convite que nos foi enviado, fazemos votos para

que os esperançosos padeiros consigam, a força de vontade e

perseverança, aperfeiçoar o gosto litterario entre nós.

(acréscimos nossos)

Já em O Diário de 1º de julho de 1892, lemos:

O PÃO – Assim denomina-se o novo periodico cujo primeiro

numero apparecerá nesta capital no próximo domingo.

O leitor de certo advinhou que se trata da Padaria espiritual.

Effetivamente. O Pão será producto semanal dessa impagavel

associação que já vae colhendo magníficos resultados. O Pão é

consequencia do art. XXXV do programa da Padaria.

Olha O Pão que saia!

Por essa data – 1º de julho – vemos que O Diário anunciou com a antecedência de nove dias a publicação do primeiro número de O Pão, que data de 10 de julho daquele ano, o que também indica os laços existentes entre os dois periódicos. Já no dia 9 de julho, ou seja, um dia antes do primeiro O Pão circular em Fortaleza, anunciava O Diário:

O PÃO

Amanhã, instranferivelmente, será publicado este periodico da

Padaria espiritual.

A julgar pelo que se diz á bocca pequena, O Pão vae ser um

successo como ainda não houve igual entre nós.

Fique, pois, prevenido o publico de que antes de tomar o

matinal café deve esperar pel'O Pão.

Na seção "Revistinha", que trazia os comentários a respeito de periódicos locais e nacionais, em O Diário de 11 de julho, portanto, um dia após a publicação do primeiro número de O Pão, lemos: "O Pão. Bem escriptinho, sim, senhor. Bôas pilherias, comprehensão nitida da vida moderna, magníficas poesias e tutti quanti... Diz que obedece a sugestões. Melhor p'ra elle". No mesmo número encontramos mais uma nota a respeito do lançamento de O Pão:

Recebemos o primeiro numero d' O Pão, publicado hontem.

Summario variadissimo: poesias, anedoctas, noticias

humoristicas, chronica.... Contem além disso uma carta de

Clovis Bevilacqua dirigida á Padaria, e uma apreciação de

Arthur Orlando sobre os estatutos da mesma.

Magnífica estréa.

Em uma palavra, O Pão insinua-se e promete ser lido todos os

domingos com voracidade.

Parabens e agradecido.

No número 48 de O Diário, novamente na seção "Revistinha", encontramos uma pequena, mas significativa, nota a respeito de O Pão: "O Pão – Péssima impressão... typografica e magnífica litteraria, salvo juiso mais competente". Nessa nota, vemos o jogo irônico a respeito da qualidade do jornal, não da qualidade literária, mas da qualidade gráfica. Ironia que se faz presente também pelas reticências, como que indicando uma suspensão de pensamento ou opinião ou ainda a suspensão de uma ideia diferente daquela pressuposta.

que tornarão 13 O Pão mais grato ao delicado paladar do publico".

De fato, observando o número 2 do órgão da Padaria, vemos que a impressão tipográfica não é boa e não podemos afirmar ao certo se esse foi o motivo; no entanto, o jornal parou de circular nessa data para retornar apenas em 30 de outubro de 1892. Vale destacar também que O Pão era impresso na oficina tipográfica de O Operário, jornal que também é referido em O Diário. Aliás, não somente referido, mas com o qual os redatores de O Diário pareciam estabelecer relações de aproximação e admiração recíprocas, pois, com base na coluna "Nós na Imprensa", que dava conta aos leitores da recepção de O Diário por outros jornais, vemos que esse foi saudado com simpatia por aquele. A respeito desse atraso, podemos ler o seguinte:

Queremos apenas deixar bem accentuado no espírito do leitor

que "O Pão" não sahiu ha mais tempo por falta absoluta de

typographia que o imprimisse, porque a todas que existem

nesta terra pediamos que imprimissem "O Pão" e todas

respondiam que não.

Não que houvesse da parte d'ellas o proposito de uma recusa

ao nosso modesto e bem intencionado jornal, que só tem pó

inimigos a burguezia; mas havia a deficiência de meios com

que satisfazer aos compromissos já tomados e imprimir "O Pão"

– o que tanto monta.14

Mesmo não se tratando de uma informação a respeito de O Diário, essa citação dá-nos a possibilidade de conhecer as condições materiais de edição e impressão de jornais na capital cearense naquele ano. Devemos observar o fato de que O Pão não era um jornal com grandes recursos gráficos, como ilustrações, que só viriam a aparecer na revista O Ceará Ilustrado, de 1894, como informou o Barão de Studart em seu livro já citado. O Pão tem, praticamente, as mesmas características de O Diário, sobretudo quando, a partir do seu sétimo número passa a um formato maior do que os anteriores, porém mantendo o mesmo número de páginas, cada uma com suas três colunas. Se a história do jornal é também a história das condições técnicas e intelectuais de sua produção, esse fato citado dá-nos bem a ideia das condições de sua produção, sobretudo porque os Padeiros não tinham tantos recursos financeiros para fazer editar e imprimir um jornal de melhor qualidade gráfica.

A concorrência com a imprensa política: o jornal A República

Além do jornal da Padaria Espiritual e dos jornais que considerou immundos, a empresa de Caminha e d'Oliveira concorria também com um outro periódico: A República, sendo esse de nítida feição política como afirmou o Barão de Studart (1908):

Jornal político, apparecido em Fortaleza a 9 de abril [de 1892].

Foi o resultado da fusão do Libertador e do Estado do Ceará,

organs do Centro Republicano e da União Republicana. É

diario. Pertence a uma sociedade anonyma denominada Ceará-

Libertador, fundada por escriptura de 30 de março de 1892.

Desde seu inicio tem sido encarregado da publicação do

expediente do Governo.

Seu actual redactor-chefe é o Dr. Antonio de Arruda.

A Sociedade Ceará-Libertador, escreveu a Republica de 8 de

julho de 1892, tem por fim restaurar a antiga officina

typographica em que se publicava O Libertador, isto para fins

de ser publicada A Republica, orgam do partido federalista. A partir dos comprovantes de pagamentos de autorizações e licenciamento de impressão e circulação de O Diário temos uma ideia do capital que requeria uma empresa do tipo. Infelizmente não temos informações dos gastos de cada número, mas como já vimos, esses foram maiores que os lucros, motivando, assim, a falência da firma. Antes de prosseguirmos, transcrevemos o texto dos documentos na ordem em que foram apresentados. As partes manuscritas no original serão destacadas em itálico. Os trechos ou palavras ilegíveis serão substituídos por reticências dentro de colchetes:

Os possuidores do velho material, em sua quase totalidade,

entraram para a nova empreza com o capital de 4:900$000, que

possuíam em títulos da extincta, representados pelo material

existente, parte em estado de aproveitamento, parte

imprestável.

Os novos socios subscreveram a somma de 4: 430$000,

pagavel em 10 prestações e destinada ao resgate dos antigos

títulos não liquidados, aopagamento de dividas não prescriptas

da extincta empreza, á acquisição de material preciso para

restauração da officina, etc. Encontra-se a listas das

assignaturas na dita Republica de 8 de julho.

Principiou a publicar-se á rua Major Facundo, n. 54, depois á

rua Senador Alencar n. 16b, depois á rua da Boa Vista ou

Floriano Peixoto n. 55, de onde mudou-se para a rua Major

Facundo n. 26 e em novembro de 1904 para a antiga casa á

rua da Boa Vista, onde permance.

Além do fato de tratar-se de um periódico político, com os valores aqui apresentados – ao todo 9:200$000 –, vemos que A República podia ser um grande concorrente de O Diário, destacando-se também o fato de que ela já contava com pelo menos parte do maquinário necessário para a sua impressão, podendo, portanto, servir como impressora de outros jornais e revistas, o que era muito comum, pelo menos no Ceará, como podemos constatar nos Anais escritos pelo Barão de Studart, pois na oficina impressora de jornais são impressos os números de outros periódicos. O poder político fazia de A República uma forte concorrente de O Diário, não somente pelo poder político, mas também pelo poder financeiro; afinal, para se colocar o jornal na rua havia um preço a pagar, fosse dos gastos em maquinários, fosse do material de impressão e da abertura da firma junto aos órgãos específicos.

Quanto custava pôr o jornal na rua? ou para não dizer que não falei de número$

ESTADO DO CEARÁ Conselho Municipal da Fortaleza

Faz saber que por despacho desta data foi concedida a

Raimundo de Oliveira e Silva licença para [...] com [...]

tipographia pertencente ao Sr. Rodrigues Junior, para a

publicação do jornal O diario, a rua Formosa nº. 88

Pelo que mandou passar o presente Alvará que terá vigor

durante o corrente anno

Conselho Municipal da Cidade da Fortaleza, Capital do Ceará,

em 20 de Maio de 1892

Imposto ...................... 20$000

Licença....................... 1$000

Emolumento .............. $

RS 21$000

O Presidente

Guilherme Cezar da Rocha

O Secretário

Júlio Cezar da Fonseca [...]

N. 1983

CONSELHO MUNICIPAL DA FORTALEZA

EXERCICIO DE 1892

Recebido de Raimundo de Oliveira e Silva

A quantia de Vinte e um mil réis

Proveniente de imposto e licença sobre a tipographia

pertencente ao Sr. Rodrigues Junior [...] do jornal O diario, a rua

Formosa N. 88 [...] ao corrt. anno.

Imposto ............................ 20$000

Licença............................. 1$000

Aluguel ............................ $

Multa .............................. $

Emolumento ..................... $

Deposito .......................... $

Somma ............................. 21$000

Fortaleza, 20 de Maio de 1892

Vicente Lopes de Araújo

Os documentos – ambos oficiais – já trazem a organização do Estado segundo a República proclamada três anos antes da publicação do jornal e dão-nos a ideia de que O Diário não era uma aventura, pelo menos não o era no que diz respeito ao seu modo de entrar em circulação. O modo como os analisamos no diz que o jornal de Caminha e d'Oliveira não era uma empresa clandestina que pretendesse fazer vincular ideias contrárias ao sistema de governo, o que corrobora com a ideia exposta no seu programa no primeiro número, ideia essa algumas vezes contestada, como vimos anteriormente.

Se O Diário não era uma aventura, então cabia aos seus redatores garantir o maior número possível de leitores, no qual também estavam incluídas as leitoras, público ao qual os autores de nossa literatura, desde os primeiros títulos de José de Alencar, procurava conquistar, fosse a partir da presença de personagens femininas e, em especial, de personagens femininas leitoras, como podemos encontrar, por exemplo, no romance A normalista, de Adolfo Caminha. Foi assim que, nas páginas de O Diário, entre tantas seções tratando dos mais diversos assuntos, as mulheres de Fortaleza passaram a contar com mais uma voz feminina na imprensa local, voz essa que viria a se juntar, por exemplo, à de Francisca Clotilde Barbosa Lima, ou simplesmente Francisca Clotilde, que já publicava, nas páginas de A Quinzena (1887-1888), órgão do Clube Literário, artigos, contos e poemas.

A participação de uma colaboradora já estava prevista no citado programa de O Diário no qual lemos: "As senhoras terão também uma secção especial; ás quintas feiras daremos ás leitoras um recado sobre as ultimas modas fluminenses, uma especie de compte rendu das mais chics toilettes usadas na capital brasileira no verão e no inverno, escrito por distincta patricia nossa". Era o caso de se dizer que naquele clube do Bolinha uma Luluzinha tinha um lugar.

Uma Luluzinha no clube do Bolinha

Eis que entra em cena Iza, a dita "distinta patrícia", que assinou uma seção intitulada "Cartas Femininas". A seguir reproduzimos a primeira carta:

Carissimas leitoras.

Esta bella capital, onde a vida é tão quieta e tão monótona,

reclamava há muito um jornal neutro, nas condições d'O

DIARIO, um jornal moderno que não fosse essencialmente

politico, uma folha mais optimista do que pessimista, que a

gente podesse ler sem cahir no desagrado desta ou daquella

parte da sociedade filiada a tal ou qual partido politico; alguma

cousa nova, sem longas estiradas doutrinarias, para ser lida de

relance no bond, no cafe ou no passeio, sem outro fim que não

distrahir o espirito das longas horas de trabalho, precisamente

quando ele fatigado das lidas quotidianas, precisa receber algo

util e agradavel.

Vejamos. Nós, as senhoras cearenses, que temos

responsabilidade e que temos deveres a cumprir, passamos os

dias atarefadas, a bordar, a coser ou a labutar com os filhos

numa faina verdadeiramente enfadonha; e muitas vezes não

são somente as costuras e os filhos que nos consomem a

actividade...

Si somos mães de família, os cuidados da casa bastam por si

Continuar: parte 3 de 5