Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra · Capítulo 6 de 10 · parte 5/5

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Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

3 Adolfo Caminha, autor-editor

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Nesse mesmo número de A Nova Revista foram comentadas ainda: Revista do Instituto Didactico; Revista Academica, Revista Marítima Brasileira e A Palavra. No caso dessas três publicações, destacamos a segunda, por tratarse de uma revista da Marinha, instituição da qual Adolfo Caminha, como já vimos, fazia parte. Mesmo desligado oficialmente da Marinha, desde 1890, não deixou de divulgar a sua revista, o que nos dá algum fundamento para contestar a alegação de que ele escrevera o Bom-Crioulo objetivando apenas vingar-se daquela força armada nacional. Se a sua intenção era essa, então por que continuar anunciando o periódico citado? Que vínculos ele mantinha com a Marinha a ponto de lhe serem enviados números do periódico? Essas são questões que trazemos à cena, mesmo conscientes de que não as responderemos. Mas, ainda assim, achamos por bem fazê-las.

O número 3 de A Nova Revista teve sete de suas páginas dedicadas aos comentários sobre livros e revistas. Da seção de livros constam: Direito da família, de Clóvis Bevilacqua; I Nuovi poeti portughesi, do napolitano Antonio Padula; Petites proses, de George Oudinot, com a indicação de ser de Paris; A João de Deus, de Joaquim Araujo, indicando ser de Gênova. Na seção dedicada às revistas foram citadas e comentadas: A Questão Social, de Santos, São Paulo; Club Coritibano, de Curitiba, Paraná; Revista Critica de Historia y Literatura, de Madri; mais uma vez a Revista Contemporanea, de Recife, foi citada, indicando, com isso, haver uma continuidade no contato entre os dois periódicos; Revista dos Lyceos, do Porto; Les Temps Nouveaux, de Paris; Portugal Literário, de Lisboa; Journal des Artistes, de Paris; mais uma vez A Bruxa, segundo A Nova Revista, no número 2 "A prosa de Olavo Bilac scintilla no texto d'A Bruxa, tornando-a cada vez mais leve. Excusado é dizer que Julião Machado faz diabruras na critica dos acontecimentos"; novamente a Revista Maritima; O Cenaculo, de Coritiba; La Magazine Internacional, de Paris; Revue Encyclopédique Larousse, também de Paris.

Dessas revistas destacamos as portuguesas, a espanhola e as francesas, o que parece indicar um conjunto de leituras estrangeiras dos membros de A Nova Revista, entre eles Adolfo Caminha.Vários desses periódicos serão novamente citados em outros números, o que indicava uma continuidade do contato e das leituras. Destacamos também o fato de O Cenáculo ser citado, pois, como sabemos, tratava-se de uma das revistas dos simbolistas no Brasil.

Diferentemente do número 3, o número 4 trouxe poucos comentários nas suas "Notas Bibliographicas". Na seção de livros comentou apenas Versos de hontem, publicado no Ceará, de autoria de Pedro Moniz, que foi um dos membros do Centro Literário, chegando a ser seu secretário. Além desse livro, escreveu: Bíblia do amor, de 1895m e "uma novela realista, 'O estupro', na revista Iracema" (Azevedo, 1976, p.174). Na resenha do livro de Moniz, o crítico foi implacável:

Que lucrou a literatura nacional com a publicação d'este

livrinho? Positivamente nada, elle é um exemplo da paralysia

mental d'esta época, que se recommenda pelo diletantismo

ocioso e pela soffreguidão de glorias. O autor é, talvez, um

rapas de talento, como se usa dizer nas rodas literarias; mas,

se isto é verdade, o que não duvidamos, que significa este

livro? Uma aberração? Uma anemia? E' o que não sabemos

responder. Conhecemos de Pedro Moniz alguma coisa melhor

que os seus versos: a sua prosa. Ora, escrever bôa prosa já é

um dom precioso, mais precioso que escrever máus versos.

Dedique-se á prosa, ao romance, ao conto, á arte sem metro e

não se arrependerá. Os Versos de hontem, além de

defeituosíssimos, não têm espontaneidade, nem exprimem algo

nuevo. A poesia para ser bôa, há de ser de todos os tempos ou

não é poesia, e ninguém é poeta por um capricho da vontade.

Trabalhe Pedro Moniz, dê-nos um livro forte, uma obra menos

infantil e mais duradoura que os ephemeros Versos de hontem.

Julgamol-o capaz de melhores producções. (grifo do autor)

Essa crítica nos faz pensar que o resenhista de A Nova Revista era Adolfo Caminha. Quem mais conhecia Pedro Moniz? Quem mais escreveria com tanta veemência? Quem mais se interessaria por um poeta cearense? Na seção de revistas foram citadas e resenhadas: Revista Critica de Historia y Literatura, de Madri; Revista Masónica, de Buenos Aires; Revista Marítima Brasileira; Les Temps Nouveaux, de Paris, da qual o resenhista destaca o livro L'anarchie et les artistes, de Antoine Mornas, a respeito do qual afirmou:

O autor occupa-se dos artistas novos e debutantes que se

reconhecem ignorados ou como tal se julgam. Combate a arte

pela arte responsabilisando os editores pela miseria de alguns

escriptores obrigados a pagar, do seu bolso, a impressão de

suas obras. E' um artigo de propaganda socialista que merece

leitura.

Nesse mesmo número ainda temos: Revista dos Lyceos, do Porto, Portugal e A Bruxa, em seus números de 7 a 10.

Como vemos, os comentários a propósito das revistas estrangeiras continuaram, o que indica a continuidade do contato e da sua recepção por parte dos membros de A Nova Revista. Esses periódicos funcionavam, então, como uma ponte entre o conhecimento produzido na Europa e sua recepção no Brasil. A respeito dessa ligação entre o Brasil e a França, destacadamente no que diz respeito aos seus autores, livros e a vida intelectual, Clóvis Bevilacqua afirmou no seu artigo publicado na própria A Nova Revista: e as nossas symphatias pelos productos intelectuaes francezes são uma obsessão de que não nos curam nem as picardias asperas do governo francez, nem o conhecimento de expansões literárias, scientificas e filosóficas em outros paises,

ainda que mais brilhantes".23 A Nova Revista procurava balancear essa equação, uma vez que colocava em cena não somente periódicos franceses, mas também periódicos portugueses, espanhóis e argentino, apontando para uma nova possibilidade de diálogo, nova sobretudo no caso do diálogo com a América Latina, representada pela Argentina.

As "Notas Bibliographicas" do número 5 de A Nova Revista foram iniciadas com os comentários do livro Chromos, de B. Lopes. Nesses comentários, o resenhista não poupou farpas atiradas em Valentim Magalhães, com quem Adolfo Caminha se desentendera por críticas desse ao seu romance BomCrioulo, como já vimos na leitura e análise de seu artigo "Um romance condemnado". Se os louvores a B. Lopes e à segunda edição dos Chromos foram inúmeros, inúmeras foram também as críticas à Valentim Magalhães, críticas à moda do século XIX ou, mais especificamente, à moda de Sílvio Romero em seu Zeverissímações ineptas da crítica, com o uso, por exemplo, de epítetos e expressões esdrúxulas: parasita da literatura nacional , emérito abocanhador de reputações literárias , há-de estourar como a rã da fabula, na impotencia de se medir com o verdadeiro talento .

Ainda desses comentários sobre o livro Chromos, destacamos o que afirmara o resenhista a propósito da primeira e segunda edições:

Os Chromos, de B. Lopes, grangearam uma estima fóra de toda

a norma, sendo, entretanto, um livrinho de poucas paginas,

modestamente impresso e trazendo o nome de um poeta

obscuro. A nova edição [a primeira é de 1881] que agora

aparece reclamada pelo successo, tem outro valor mais artistico

e desperta maior interesse, por vir augmentada e ter passado

pelo cadinho da revisão escrupulosa do autor; é como se fosse

outro livro, desde o trabalho typographico até a parte inédita

Figuras e Festas intimas, sem excluir alguns sonetilhos novos e

o magistral soneto de abertura, impresso á tinta encarnada

verdadeiro rubi engastado na primeira pagina dos Chromos.

(acréscimo nosso)

Vemos por essa citação que o resenhista era interessado nos aspectos materiais da edição dos livros, destacando os elementos figurativos de cada uma das edições dos Chromos. A comparação dos elementos materiais das duas edições evidencia esse fato. Tratava-se, portanto, de alguém que em sua análise considerava o texto em seu suporte. Aos comentários do livro de B. Lopes seguiram os comentários do livro Vagas, esse também de poemas, de Sabino Baptista, que também fora da Padaria Espiritual, onde era conhecido como Sátiro Alegrete. Antes das Vagas, teve publicado Flocos, de 1894. Segundo Sânzio de Azevedo (1976, p.160), Foi secretário d' O Pão, e era casado com a poetisa Ana Nogueira Batista. Colaborou largamente na imprensa fortense, onde já se destacava mesmo antes da criação da Padaria Espiritual .

Diferentemente do que fizera com os Chromos, o resenhista de A Nova Revista não foi nada favorável com as Vagas, de Sabino Batista:

Aqui a pena sente-se constrangida. O assumpto é o mesmo

versos, mas versos de todos os dias, versos que estamos

cansador de lêr em livro e nos jornaes quotidianos, versos que

não impressionam e que nos fazem o effeito de versões

deturpadas. O livro é pequeno: cento e poucas paginas, edição

mignone, era natural que tudo ou quasi tudo nelle fosse bom; o

contrário, porém, é o que se observa: o livrinho é, em geral,

pobre, de uma pobreza commovente. Um invalido, que nos

viesse pedir esmola á porta de casa, não commoveria tanto...

Respeitamos os bons sentimentos do poeta. As suas Vagas

teem a consistencia de floccos que se desmancham a um

sopro.

Seguiram-se aos comentários das Vagas, a crítica a Artigos e chronicas, de Raul de Azevedo, publicado no Pará. Nesse caso, o resenhista também foi implacável. Mas não era somente a literatura de ficção que constava na seção de livros das "Notas Bibliographicas". Nesse citado número 5 da revista há também a crítica a três livros, um a respeito da jurisdição eleitoral, intitulado Catecismo municipal, de Domingos Jaguaribe, publicado em São Paulo; o outro livro é Elementos de finanças, de Amaro Cavalcante. Por último temos A Revolução de Cuba.

Na seção de revistas das "Notas Bibliographicas" do número 5 de A Nova Revista temos: Review of Reviews, de Londres; Journal des Artistes, de Paris; Les Temps Nouveaux, também de Paris; A Arte, do Porto, Portugal; Revista Moderna, de Lisboa; O Instituto, de Coimbra; Revista dos Lyceos, do Porto; Revista Critica de Historia y Literatura, de Madri; A Bruxa; Revista Azul, de São Paulo. Revista da Academia Cearense; La Revista Litteraria, de Buenos Aires, O Cenaculo, de Curitiba; A Questão Social, de Santos, São Paulo; Revista Contemporanea, do Recife, Pernambuco, A Penna e Iracema, ambas do Ceará.

Vemos pelos títulos citados que os contatos com periódicos nacionais continuavam e com os estrangeiros aumentavam. O recebimento deles pela revista de Caminha é um exemplo disso. A constância com que os números eram comentados, geralmente seguindo a publicação regular, é um exemplo do diálogo entre os periódicos. Não podemos afirmar se A Nova Revista era também enviada para aquelas cidades e países de origem dos periódicos citados e resenhados nas "Notas Bibliographicas", o que é muito provável, uma vez que a troca de volumes era uma forma, talvez a mais usual, de divulgação. Os comentários também são formas de dar notícias aos leitores do que se passava no campo literário, suas lutas internas, a relação de outros autores com editores, enfim o jogo de forças que conformam esse campo em lugares e tempos diferentes:

Theotonio Freire publica uma noticia literaria do Hydrophobo, de

Farias Neves Sobrinho. Este rapaz andou, há mezes, nesta

capital [Rio de Janeiro] com os originaes do seu romance

Morbus, cuja publicação não se realisou por falta de editores, e

foi obrigado a voltar á provincia inédito, fazendo, naturalmente,

pessimo juizo da civilisação fluminense. E', entretanto, um dos

melhores talentos do norte. O Hydrophobo foi editado em Paris,

pela casa Hugo & G, do Recife. Qual a razão porque não o

expuzeram á venda no Rio de Janeiro?

Assim, A Nova Revista era também o local de registro das tentativas malogradas, do que não deu certo em dado momento, do desejo não realizado. Publicar nem sempre foi o resultado final ou a entrada definitiva para a República das Letras. Podia-se publicar e por isso mesmo ser notícia. Theotonio Freire é um exemplo disso que afirmamos. Mas também, ser notícia não franqueava ao noticiado a participação no mundo das letras.

No plano nacional, por essas revistas os homens de letras dos Estados do Norte podiam dar notícias do que faziam aos seus pares do Sul. Assim como os periódicos comerciais, esses periódicos literários também serviam de vitrina para os produtos intelectuais dos diversos pontos do país, bem como eram vitrinas daquilo que chegava de fora. Por isso, não foram poucas as revistas citadas oriundas do Ceará, de Pernambuco e do Pará, mas percebemos claramente um maior número das revistas cearenses, fossem elas revistas científicas e literárias, como o foram, por exemplo, a Revista da Academia Cearense e a revista Iracema, órgão do já citado Centro Literário.

Foi assim que também se viu novamente citada a revista O Cenáculo, órgão do movimento simbolista curitibano. Fazendo par com o pensamento já divulgado pelo artigo "Catecismo socialista", os comentários sobre a revista Questão Social, de Santos, apontam para um possível direcionamento ou simpatia política de A Nova Revista. Mais uma vez tratou-se em suas páginas do socialismo, enaltecendo os feitos da Comuna de Paris e o significado do 1º de maio para a classe operária.

Pelos títulos até aqui citados, vemos que o repertório de leituras realizadas pelos membros de A Nova Revista era o mais diverso. Não podemos afirmar que todos os livros e revistas apresentados tenham sido resenhados unicamente por Adolfo Caminha; no entanto, há, em alguns casos, elementos que possibilitam essa associação. No entanto, esse não é de fato o interesse deste estudo. O que nos interessa, nesse caso específico, é apontar para um conjunto de leituras que faziam parte das práticas dos membros de A Nova Revista e como esse conjunto foi lido e apresentado aos leitores do periódico carioca dirigido por Caminha. Como veremos no capítulo sobre Adolfo Caminha leitor, as obras que foram lidas por ele só podem ser conhecidas a partir do mapeamento de seus livros. O mapeamento até então realizado pode acrescentar títulos à lista de livros presentes em sua ficção, o que redimensionaria a sua biblioteca e o seu repertório de leituras.

Antes, porém, de concluirmos esta seção, temos ainda alguns números de A Nova Revista. Vamos a eles. No número 6, as "Notas Bibliographicas" tiveram início com os comentários sobre os livros Esquifes, de Dario Velloso, e A derrubada, de B. Cepellos. A seção de livros trouxe em uma nota de rodapé a seguinte informação:

Historia Intima é o titulo de um pequeno romance de José

Braga, publicado em 1894. Limitamo-nos a registrar o recebimento, de conformidade com o nosso programa bibliographico . No caso do livro Esquifes, o resenhista mais uma vez foi severo ao afirmar:

O presente trabalho de Dario Velloso obedece, desde o titulo,

ao mot d'ordre nephelibata: poucas idéas originaes e muitas

palavras vazias. O talento debate-se na jaula de ferro do

convencionalismo; ouve-se-lhe a palpitação das azas na ancia

de subir, de galgar a transparencia do ether, de attingir o céo

puro, o céo luminoso da verdadeira arte; mas falta-lhe a

independencia, o querer proprio, e elle só consegue chegar a

meio caminho, agarrado á barquinha dos adverbios

espectaculosos e da declamação gogorica. A interjeição e a

reticência eis o recurso salvador, a linha recta para o ideal da

fórma.

E mais à frente, o resenhista mostrou-se um conhecedor da forma poética ao deparar com redundâncias como: Fluctuando numa IMPONDERABILIDADE INTANGIGEL de Fluido intelligente", e assim afirmou:

Onde a beleza e a originalidade? E' um erro pensar que a fórma

em arte é isso alinhar synonimos, interjeições e reticencias.

Os maiores prosadores e os maiores poetas até hoje

conhecidos foram sobrios no estylo e originaes na idéa. Um

adjectivo novo, bem empregado, tem sua graça e seduz; mas é

preciso que seja bem empregado, do contrario o effeito é todo

negativo, por mais brilho que a palavra ostente isolada. O

proprio Verlaine foi um simples no verso e na prosa, ainda que

o queiram fazer enygmatico e absurdo. Há muita nevoa nos

Esquifes, muita nevoa e muito artificio. Não sabemos como

justificar taes coisas em um espirito de primeira ordem... O

futuro nos dirá.

Quanto ao segundo livro – A derrubada –, o resenhista foi menos caustico:

Vinte paginas apenas, contendo a historia, em verso, de uma

arvore que resiste ao que nos sertões do Brazil se chama a

queimada (no norte!) ou a derrubada. Os versos em geral são

bons e o o poemeto interessante; o autor, se não é artista de

primeira ordem, mostra que sabe admirar a natureza e

descrever com as côres da verdade, os seus aspectos. Não

encontramos n'A derrubada qualidades excepcionaes; o livrinho

agrada, sobretudo, pelo bucolismo que elle transpira e pela

harmonia do conjunto. Preferimol-o, no entanto, a muito livro de

versos que por ahi passa como obra d'arte ou coisa que o

valha.

A esses dois livros seguiram-se alguns comentários sobre os documentos inéditos a respeito do levante occorrido na ribeira do Jaguaribe no tempo de Manoel Francez e do servidor Mendes Machado . Trata-se de um episódio da história do Ceará. O que nos confirma é o fato de os documentos inéditos terem sido reunidos e publicados por Guilherme Studart, mais conhecido na historiografia local como o Barão de Studart. A respeito desses inéditos afirmou o resenhista:

E' mais um subsidio para a história do Ceará que tanta

dedicação tem merecido do autor. Guilherme Studart vem, com

este opusculo, augmentar a sua preciosa colleção de

manuscritos, originaes e cópias sobre aquelle estado, revelando

ainda uma vez grande amor ao trabalho e raro interesse pelas

excavações historicas. O objecto do presente volume é a

celebre luta entre as duas tradicionaes familias que por muito

tempo espalharam o terror nos sertões do Ceará os Montes e

os Feitosas, no governo de Manoel Francez. Após ligeira

synthese dos factos então ocorridos, apresenta o auctor uma

serie de documentos importantissimos sob o ponto de vista

historico.

Terminada a seção dos livros, iniciaram-se os comentários a respeito das revistas, que, em sua maioria eram as mesmas do número cinco, a começar por A Bruxa, números de 16 a 20; Review of Reviews; Journal des Artistes; Les Temps Nouveaux; Revista de Crítica de Historia y Literatura; O Archeologo Portuguez; Revista dos Lyceos; Revista Masónica; Revista Maritima Brazileira; O Cenaculo; Revista Academica, Club Coritibano; A Questão Social; Revista de Educação e Ensino, do Pará; Revista da Comissão Tecnica Militar Consultiva e Revista Silva Jardim, do Rio Grande do Sul, a respeito da qual lemos:

Essa revista começou a sua publicação em 1891 no estado do

Ceará, reaparecendo agora com o mesmo programma da

phase inicial, empenhada em cultivar a sciencia e a literatura e

em defender a Republica. Tratando-se de moços que fazem as

primeiras armas na politica, visando o puro ideal republicano,

não podia ser mais bem escolhido o titulo.24

Por essa citação, e pela nota que segue, vemos que os periódicos também serviam como manutenção de contatos políticos, independentemente de onde estivessem os seus membros: no Ceará ou no Rio Grande do Sul, era preciso divulgar as ideias que defendiam e se fazerem mostrar na imprensa da capital nacional, vitrina maior de exposição onde todos buscavam ocupar o seu devido lugar, fossem em publicações de circulação nacional, fossem em periódicos específicos, como era o caso de A Nova Revista.

As "Notas Bibliographicas" dos números 7 e 8 abriram com a seção dos livros. Nessa, o resenhista volta a criticar a figura deValentim Magalhães, como leremos a seguir a respeito de Caustico, o livro em questão:

CAUSTICO é um pamphleto de desesseis paginas em verso,

contra o ridicularisado autor da Vida de seu Juca, homem

bastante conhecido nesta Capital e fóra d'ella pela admiravel

habilidade com que manipula drogas litterarias. Firma-o Cunha

Mendes, o jovem estreante dos Poemas da Carne. Muito justa a

indignação do poeta azorragando o dorso dos "farcistas da

arte", embora isto os torne ainda mais conhecidos por ahi além.

Não importa a gloria dos histriões. E' deixal-os fazer rir o povo,

comtanto que levem a marca do ferro em brasa, o V. M.

estigmatisador . – "Moreno imberbe, magro, espingolado,

pescoço longo... lymphatico, franzino, mendigo da selva...

coringa..." Nada d'isto define bem, nada d'isto caracterisa o

director de companhia de seguros feito clown de imprensa. A

marca indelevel, sim, bota-o p'r'ahi a dar saltos mortaes em

publico e raso, que é um gosto... (grifo nosso)

Sabemos que A vida de seu Juca é um livro deValentim Magalhães publicado em 1880. A confirmação também de que se tratava de Valentim Magalhães é a inscrição das suas iniciais – VM – no corpo do texto. Já aqui, tratamos de uma crítica sobre ele. Trata-se de mais um caso de farpa lançada por Adolfo Caminha contra Valentim Magalhães. Destacamos o fato de o resenhista de A Nova Revista chamar Valentim Magalhaes de "director de companhia de seguros" como também já o fizera Adolfo Caminha em seu artigo "Um livro condemnado", publicado no número 2 de A Nova Revista e que novamente trazemos à cena: "Actualmente a critica no Brasil, ou melhor no Rio de Janeiro, está entregue ao director de uma Companhia de seguros de vida".

Nesse caso, temos mais um indício que confirmaria o nome de Adolfo Caminha como sendo o resenhista, talvez não o único, do periódico carioca que editou naquele ano de 1896. Assim, a revista também era cenário de ataques característicos da crítica do século XIX, que, em muitos casos, deixava os limites do texto ou do livro para alcançar a vida particular e privada dos envolvidos, o que também não raramente resultava na criação de tipos, personagens esdrúxulos e caricaturas nas folhas diárias da imprensa nacional e na própria literatura, como já vimos com a personagem Valdevino Manhães do romance Tentação, de Adolfo Caminha. Entre uma e outra palavra sobre o texto ou livro, tanto na crítica literária como na literatura de ficção, aproveitava-se para disparar uma farpa contra os desafetos.

De fato, o citado Cáustico tem como título Cáustico cuidadosamente aplicado ao dorso do conhecido Valentim Magalhães, um opúsculo de autoria de Cunha Mendes, publicado em 1896 em São Paulo, como é possível constatar no Panorama do movimento simbolista brasileiro, de Andrade Muricy; no Panorama da Poesia brasileira de Fernando Góes (1959, v.IV, p.242) e no Dicionário literário brasileiro de Raimundo de Menezes (1978, p.433), que informou a respeito do seu Poemas da carne: "recebeu desabrida crítica de Valentim Magalhães". Talvez essa forma de revide tenha sido a menos dramática, pois nos idos do século XIX os homens de letras no Brasil chegaram a duelar em nome da sua honra, como podemos contatar com a citação que segue:

Alguns debates entre escritores chegaram a ser resolvidos com

combates armados. Olavo Bilac duelou com Pardal Mallet, em

1889, por questões literárias e quase se bateu, a espada, com

Raul Pompéia. Carlos de Laet foi desafiado ao combate por

Valentim Magalhães, que enviou Afonso Celso como

negociador. Laet se comprometeu a esclarecer, em carta

pública, suas observações sobre o escritor, tendo sido obtido,

sem luta, o que este chamou de "desfecho honroso para ambas

as partes" .

Aos comentários sobre o Cáustico, seguiu-se a resenha das Theses para o primeiro Congresso Pedagogico Paraense, que seria instalado em 1o de janeiro de 1897. Em seguida, foi a vez de Jerusa, de Collatino Barroso. A análise foi feita primeiramente do texto e, em seguida, como era de costume, do autor. Vejamos a primeira:

Não discutimos essa questão de escolas; procuramos, porém,

em toda a obra d'arte o critério, coherencia de idéas, o bom

senso artistico, numa fórma limpida e communicativa. O

atravancamento de imagens, a profusão exagerada de

symbolos, alguns dos quaes indecifraveis, que se observam em

Jerusa e os Anathemas, uma coisa logo notamos: a diferença

absoluta de linguagem, não porque o autor, que tanto zelo

infundiu na construção dos Anathemas, parece não ter ligado

importancia á estructura philologica do poema; isto sem falar no

francezismo inutil de certas palavras como rafinar, flambar,

guirlandar..., para não descer á minudencias grammaticaes.

A respeito do autor afirmou o resenhista:

Collatino Barroso é um inconstante, um nevrotico em ultimo

gráo, incapaz de longos esforços na obra d'arte; sente-se a

precipitação com que escreve, o delirio que o empolga no

momento de transmittir as suas sensações, a vertigem de tudo

dizer numa phrase, e d'ahi as incorreções de linguagem, o

abuso da retorica e a incoheencia das idéas.

Como vemos, a crítica literária no final do século XIX não deixava de considerar os supostos defeitos dos textos pelo comportamento de seu autor. A busca pela coerência de ambos – texto e autor – era mediada pelo comportamento, pelo tipo físico, pelas características e até doenças do autor, o que fazia dele uma personagem do crítico. Assim, a crítica nunca era somente do texto; ela ultrapassava os limites da linguagem, criando uma outra linguagem, cujo alvo era o autor, mas não o autor, e sim um tipo do autor, uma personagem autoral, criatura da crítica. Era o que poderíamos chamar de revancha mimética da crítica, uma espécie de efeito colateral da crítica retilínea, definida por caminhos e papéis bem delimitados. Além disso, a crítica de um modo geral não via a complexidade com que era feita a literatura, exigindo, sempre, coerência em uma situação nada coerente. Essa era uma das características da crítica brasileira do final do século XIX, buscar a coerência em um território acidentado.

Encerrada a seção dos livros, a seção de periódicos do número

7 e 8 de A Nova Revista iniciou-se comentando a Review of

Reviews, de Londres; a Revue Encyclopédique Larousse, de

Paris; Les Temps Nouveaux, também de Paris; Revista Critica

de Historia y Literatura, de Madri; O Archeologo Portugues, de

Lisboa; Revista dos Lyceos, do Porto; L'Egito Massonico, de

Alexandria, Egito, escrita em italiano; La Revista Literaria,

Revista Masónica, La Squadra, de Buenos Aires; Revista Silva

Jardim, do Rio Grande do Sul; O Cenaculo, de Curitiba; Revista

Azul, de São Paulo; Revista Academica; Sirius; Revista da

Commissão Technica Militar Consultiva; Revista Maritima

Brazileira; Boletim do Club Naval; Revista Mensal da Familia

Academica; Tribuna Literaria e Congresso Academico, do

Recife; Revista de Educação e Ensino, do Pará.

O último número de A Nova Revista trouxe também a sua seção Notas Bibliographicas". Na seção de livros foram comentados: Poemas da carne, de Cunha Mendes; Stelos, de Theotonio Freire; Atomos lyricos, de Bento Ernesto Júnior; e Contos da minha terra, de Armando Erse. O primeiro autor já foi aqui citado pelo seu inusitado Cáustico. Dos Poemas da carne, o resenhista destaca o interesse do poeta pela figura da mulher idealizada no modelo feminino grego, o que parece não o agradar muito, pois ao final da resenha afirmou:

O objectivo de Cunha Mendes começa e acaba na mulher formosa e sensual. Ingenuo, quando nos diz que "a mulher, unicamente a mulher, possue o vinho raro que, embriagando-nos, dá o esquecimento aos males e a alegria enganosa ás almas desenganadas" – os seus versos são o resultado de um temperamento, de uma predisposição normal a que não lhe é dado fugir. Assim como outros teem a acuidade do som, da côr, do olphato, elle obedece ao impulso intimo que o prostra ante a belleza de um corpo de mulher. O ideal grego ainda não desapareceu: vive ainda no espirito de poetas e artistas de hoje.

É preciso estar atento a essa crítica dirigida a Cunha Mendes, sobretudo quando nos diz que "a mulher, unicamente a mulher, possue o vinho raro que, embriagando-nos dá o esquecimento dos males e a alegria enganosa ás almas desenganadas". Do que estaria falando o crítico? Se não era somente a mulher, quem mais seria? Hipótese ou insinuação à parte, vale lembrar que Adolfo Caminha escreveu um dos primeiros livros em língua portuguesa a tratar do homoerotismo masculino: Bom-Crioulo. Poderíamos pensar como hipótese não somente o homem, o amor entre homens, mas também na arte, na poesia, na música e tantos outros valores espirituais; no entanto, parece-nos claro o tom erótico da afirmação do crítico.

O tema da mulher continuou a ser objeto de investigação do resenhista quando se ocupou do livro Stelos, de Theotonio Freire, a propósito do qual afirmou:

A imaginação do nortista é em geral apaixonada e ardente;

d'ahi o enthusiasmo com que os poetas do norte cantam a

mulher e fazem d'ella quasi que o único objectivo de seus

versos. Deslumbra-os a fórma nua das estatuas e a turgidez

dos seios virgens espicaça-lhes a concupiscência e a

nervorsidade artistica. Theotônio Freire é dos que ama a mulher

aos contornos dos quadris, na brancura das carnes, na pureza

das linhas, na subtileza dos gestos e na volupia do olhar.

O resenhista, como lemos, utiliza o conceito de meio, em voga a época, para tratar da" influência" do Norte sobre os poetas brasileiros, influência essa que, segundo se cria, atuava sobre a imaginação. No interior dessa análise também está uma discussão a propósito das diferenças entre Norte e Sul na literatura brasileira, diferenças essas que Adolfo Caminha abordou no seu artigo Norte e Sul" ao tratar do livro Missal, de Cruz e Souza. Para finalizar, o resenhista conclui a respeito do citado livro:" STELOS é um livro bem feito, mas não é obra de artista. Entre ser poeta e ser artista vae grande differença. De poetas o mundo está cheio; no entanto, são bem raros os artistas".

Não menos implacável foi o resenhista ao tratar do livro Atomos lyricos. Nesse caso, o resenhista convidou o escritor para dedicar-se à prosa, e não à poesia: "Porque não tenta escrever prosa, Bento Ernesto? Por que não ensaia noutro genero literario, se é que tem decidida vocação para estas coisas de rabiscar papel?". Depois dessa chamada, o resenhista concluiu: "muito fracas as poesias de Bento Ernesto Junior. E olhem que o Brazil já se ufana de ter bons poetas". Para o resenhista, mais feliz foi o português Armando Erse de Figueiredo, autor de Contos da minha terra, e concluiu a sua leitura afirmando: "Armando Erse tem estylo, espontaneidade e uma compreensão muito nitida da arte de contar. As paginas de Irmandinho, com que abre o livro, são disto um bello exemplo".

Esse foi o último livro analisado e resenhado na seção "Notas Bibliographicas" de A Nova Revista. Como nos números anteriores, seguiram-se os comentários a respeito das revistas. Nesse caso, os títulos citados e resenhados foram: A Bruxa, números 21 a 28; La Province Nouvelle, de Auxerre; Journal des Artistes, Les Temps Nouveaux, ambas de Paris; O Archeologo Portugues, de Lisboa; La Revista Literaria e La Squadra, Revista Masónica, as três de Buenos Aires; O Cenaculo, de Curitiba; Revista Azul, de São Paulo. Nesse caso, encontramos mais uma crítica a Valentim Magalhães:

Mas, meu Deus! No meio de tudo isso – como pedras falsas em

escrinio de ouro e brilhante – um conto para crianças, do

advogado Valentim Magalhães, em que há um verso que diz

assim: Foi pr'o céu dizer adeus á gente! E umas impressões de

theatro, também em verso, que fazem arripiar o cabelo de uma

estatua! A Revista Azul no proprio meio paulista encontra

elementos de vida artistica. Apellar para nomes que fazem rir

pelo ridiculo que encerram, é negar a existencia de uma

geração nova e admiravelmente compenetrada dos seus

ideaes. Para museu de mumias basta a Revista Brazileira, o

grande armazem de sêccos e molhados da nossa literatura.

Seguiram-se as críticas às revistas Sirius; Revista Academica da Faculdade de Direito, do Recife; Revista Maritima Brazileira e por último a Revista da Commissão Technica Militar Consultiva.

Concluir para ir adiante

A propósito do arrolamento dos títulos de livros e revistas apresentados em A Nova Revista, é preciso dizer que ele não seria de todo útil se dele não fosse destacado o fato que A Nova Revista como que passava em revista os livros e periódicos coetâneos. Além desse fato, é preciso também perceber que ao citar títulos nacionais e internacionais, A Nova Revista, e talvez possamos dizer Adolfo Caminha, tecia uma rede de relações, o que nos possibilita pensar num outro circuito de circulação do seu nome. Se hoje o desconhecido Louis-Pilate chegou ao Brasil, por que não pensar que o igualmente desconhecido Adolfo Caminha tenha chegando à França? O arrolamento de títulos e nomes de autores guarda em si uma movimentação dos muitos interesses que une e ao seu modo faz dos homens de letras iguais.

Conhecer e fazer-se conhecer eram os movimentos que estavam no interior dessa intrincada rede de títulos e autores. Era preciso estar presente de corpo, o que significa ir às recepções, tornar-se público, mas era também preciso ir aonde não se podia chegar, daí era preciso fazer presente o nome de autor e os títulos de sua obra. Assim, nomear-se era uma necessidade, o que evidencia que o nome do autor é muito mais uma possibilidade do que uma marca fixa. Se na Gazeta de Notícias, Caminha apresentou-se com C. A, nas páginas de A Nova Revista ele não duvidou em se fazer conhecer como editor e como crítico, assinando as suas "Chronicas de Arte", que veremos no capítulo sobre o autor-crítico.

Devemos destacar também que os periódicos citados não pertencem somente a grupos de homens de letras, mas a instituições. Assim, a relação se estabelecia não somente entre sujeitos, mas também entre sujeitos e instituições, sobretudo instituições estatais. Sem dúvida, foi neste último tipo de relação que se sustentou muito da literatura nacional, uma vez que o emprego como funcionário público atraia muito dos nossos homens de letras como declarou Antonio Candido (2007, p.15): "Num país como o Brasil do século XIX, ser funcionário público era estar perto dos 'donos do poder'. Era ser um pouco dono do poder, de maneira crescente à medida que se dava a subida na escala – tudo de um modo mais distintivo do que hoje". Vale lembrar que, além de homem de letras, Caminha foi, primeiro, militar, portanto um funcionário do Estado, em seguida trabalhou como praticante da Tesouraria da Fazenda, em Fortaleza, e no Rio de Janeiro trabalhou no Tesouro Nacional.

Assim concluímos este capítulo, em que analisamos a atuação de Adolfo Caminha como editor de periódicos, compondo, então, mas uma face do polígrafo. Ainda temos que ir adiante, investigando outras máscaras.

 

1 "Escritor editor: e reunião destas duas palavras que, na sua acepção corrente, designam duas funções bem distintas, dois mundos muito diferentes – de um lado o pensamento e a escritura, do outro a produção e venda, de um lado o texto e do outro o livro – permite delimitar de maneira rápida e cômoda nosso sujeito. O escritor é editor desde que ele intervém nisto que poderíamos chamar de 'campo editorial', isto é, todo o processo que começa uma vez colocado o ponto final no texto e acaba quando o livro chega as mãos do leitor; escritor é editor quando ele toma para si toda ou parte das funções editoriais (no sentido científico e no sentido técnico), quando ele edita suas próprias obras ou as dos outros: preparação do texto (escolha, ordem, estado etc.), a anotação, antes e após o texto, escolha de um sistema de 'enunciação tipográfica' (caracteres, formato, paginação, ilustração etc.), impressão, difusão. Único mestre do texto, o escritor entra no campo editorial em concorrência com outros atores, variáveis segundo as épocas: o mecenas, o financiador, o protetor, o censor, o juiz, o impressor, o livreiro, o editor, etc. A aposta é para ele conservar, contra ele e apesar dele, segundo modalidades historicamente variáveis,a mestria do texto e seus efeitos: controle do momento de sua publicação, de seu estado, parte dos benefícios alcançados na operação, influência sobre sua leitura por meio de uma 'poética do livro'" (Tradição nossa).

2 Adolfo Caminha, assinando-se Felix Guanabarino, seu pseudônimo na Padaria Espiritual, colaborou com O Pão na coluna Sabbatina, nos números 1, 2, 3 (mas no original numerado como 2 novamente), 4 e 5.

3 Cf. O Diário, ano 1, n.1, Fortaleza, 16 de maio de 1892, p.2.

4 Cf. O Diário, ano 1, n.19, Fortaleza, 7 de junho de 1892, p.1.

5 Cf. O Diário, ano 1, n.3, Fortaleza, 18 de maio de 1892, p.1.

6 Cf. O Diário, ano 1, n.3, Fortaleza, 18 de maio de 1892, p.2.

7 Cf. A Quinzena, ano 1, n.1, edição fac-similar, Fortaleza, 15 de janeiro 1887, p.1.

8 Nesse catálogo, o Barão de Studart, presidente do Instituto Histórico do Ceará, arrolou 951 periódicos existente em circulação no Ceará, grande parte em Fortaleza, entre os anos de 1824, de quando data o Diario do Governo do Ceará, primeiro jornal da então província, e 1908. Grande parte desses periódicos está ligada a partidos políticos, dividindo-se, na sua imensa maioria, entre conservadores e liberais. Porém, outra parte, muitas vezes de circulação efêmera, não indo além da primeira edição, destacou-se pelo caráter satírico, polêmico e caricato, formando o que mais tarde, na cultura cearense, ficou conhecido pela expressão Ceará moleque, isto é, o modo às vezes bem-humorado, satírico, sarcástico com que o cearense trata alguns aspectos do cotidiano. Essa expressão – Ceará moleque – pode ser encontrada no romance A normalista, de Adolfo Caminha (1998, p.39), sendo ele, possivelmente, o primeiro a incorporá-la como um traço da personalidade cearense: "Que se há de fazer, minha filha? Ninguém está livre destas cousas no Ceará moleque. Não se pode conversar com um rapaz, porque não faltam alcoviteiros". Aos poucos, os textos de caráter político dos jornais foram dando espaço para as crônicas do dia a dia, as observações da vida comezinha, sobretudo à medida que a cidade de Fortaleza crescia e, aos poucos, entrava num ritmo de vida de cidade com pretensão de metrópole, importando objetos e comportamentos mais condizentes com o espírito e o corpo de cidade grande que a loira desposada do sol foi tomando. No rol desse tipo de jornal podemos citar: O Periquito (1846), O Fagote (1852), cuja epígrafe era "quem tem telhados de vidro não atira pedra nos alheios", O Farol Cearense (1861), que se dizia "joco-serio"; O Tagarella (1865); Careca (1870) e, no ano seguinte Cabelludo; O Palhaço e A Urtiga, ambos do mesmo ano, sendo que este trazia abaixo do título os versinhos: "Não tenhas minha musa medo delles/ Vae de rijo esfregando urtiga nelles"; O Abelhudo (1874); Alcoviteiro e Morcego, ambos de 1891 e que também tiveram um único número, o último tinha como redator Adolpho Fuinha. Idiota (1881), cujos redatores era Piolho e Zaranza; O Chocalho (1882); O Trovão (1884), "Dizia-se orgam da pilheria e distração"; Frivolité (1887); O Charuto (1888), "De influência e predilecção entre os moradores dos subúrbios"; Zé Povinho (1889); O Dado (1890), "Dizia-se orgam dos curiosos"; O Moleque e O Patusco, ambos de 1890, este "Intitulava-se jornal serio-moleque". Tinha por epigrafe: "Ridendo castigat mores"; Pimpão (1891), "Dizia-se orgam do bello sexo, ter a redacção no Ouco do Mundo n. 00 e como redator Mané Cornim"; A Vacca, que no expediente dizia: "A Vacca sae quando convier"; A Trepação (1893) – "Dizia-se orgam hebdomadário humoristico e essencialmente trepador e redigido por Conte, Contista e Contente" –; Morcego (1894), jornal pornográfico e A Giririca. O Diabo (1895), "Dizia-se orgam infernal", Bolacha, do mesmo ano, cujo redactor era Nero e o gerente Teseu. Como não poderia deixar de ser: O Macaco (1896), "Dizia-se orgam dos mugangos e jocosidades" e, do mesmo ano, O Garoto, "Dizia-se orgam das moças e jacobino até a gata miar". É de 1897 O Ceará Moleque, "Revista caricata". Do mesmo ano, Pau de sebo, "Jornalzinho pornographico publicado em Fortaleza. Dizia-se orgam das mulheres e de feitura para homens. Foi appreendido pela polícia", e A Sarna, "Dizia-se orgam da coceira", A Troca, A Urtiga, "Dizia-se orgam das realidades". Também de 1895 foi O Matuto – "Dizia-se orgam roceiro e impresso na cidade de Castanhas, rua das Tapiocas n. 407.000". É de 1898 A Sogra, que em oposição tinha O Genro; o Peitica, cuja divisa era: "Ou vae, ou quebra ou desprega. Ri-se o sujo do mal-lavado e o roto do esfarrapado".

9 A respeito de Mané Coco fazemos questão de transcrever este trecho de Sânzio de Azevedo (1996, p.53): "Numas página de reminiscências, Antônio Sales evoca a figura de Mane Coco, ou Manuel Pereira dos Santos, oriundo do Aracati e fundador do Café Java, quiosque localizado na Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza, lembrando que esse homem, inteligente mas sem cultivo, que andava de fraque, com uma grande rosa à lapela, mas sem gravata (o que o excluía das festas e solenidades), tinha como única erudição o saber de cor A morte de D. João, de Guerra Junqueiro, poemas do qual 'recitava trechos a proposito de tudo ou mesmo sem propo sito nenhum'. Salienta o escritor a simpatia do comerciante pelos intelectuais, recordando que igualmente estes o estimavam".

10 Cf. O Diário, ano 1, n.2, Fortaleza, 17 de maio de 1892, p.1.

11 Cf. O Diário, ano 1, n.2, Fortaleza, 17 de maio de 1892, p.2.

12 Cf. O Diário, ano 1, n.14, Fortaleza, 1º de junho de 1892, p.1.

13 Cf. O Pão, ano 1, n.1, Fortaleza, 10 de julho de 1892, p.4.

14 Cf. O Pão, ano 1, n.2 [3], Fortaleza, 30 de outubro de 1892, p.4. [Trata-se, de fato, do número 3 e não do 2, como vem grafado no jornal.]

15 Cf. O Diário, ano 1, n.4, Fortaleza, 19 de maio de 1892, p.1-2.

16 A respeito de Rocambole, citamos este breve trecho de Marlyse Meyer: "Pierre Alexis Ponson du Terrail, simples pequeno-burguês nascido no sul da França em 8 de julho de 1829, atribuiuse imaginária linhagem que o tornava descendente do bravo cavalheiro Bayard, autorgando a si mesmo o título de visconde. Com estudo rudimentares, aos 19 anos alistou-se na Guarda Móvel e combateu nas ruas de Paris em 1848. Após as jornadas de junho, apresentou-se para pedir emprego no gabinete do diretor de um dos grandes jornais da época, e que também escreveu obra crítica – no sentido amplo da palavra – sobre o folhetim, Alfred Nettement. Começou a escrever aos 18 anos, era já célebre aos 24. Ele mesmo narra as circunstâncias de sua vocação: 'No dia em que li esta frase: Qual era essa mão? Qual era essa cabeça? Continua no próximo número', compreendi que tinha encontrado o meu caminho". (Meyer, 1996, p.106).

17 Cf. O Diário, ano 1, n.12, Fortaleza, 30 de maio de 1892, p.2.

18 Cf. A Nova Revista, ano 1, n.2." – Que me enviem livros (antigos ou recentes), revistas, jornais (isolados ou [...]), documentos, notas BIO-BIBLIOGRÁFICAS, e FOTOGRAFIAS TUDO será [...] e utilizado, no lugar certo, em um dos inúmeros periódicos – [...] que me são acessíveis, e nos quais eu faço com sucesso a minha campanha portuguesa" (Tradução nossa). Nessas citação o uso das reticências entre colchetes se deu para marcar palavras ou breves trechos ilegíveis. Sobre Louis-Pilate de Brin'Gaubast, sabemos que nasceu em 1865 e faleceu em 1944. Escreveu inúmeros títulos: Fils adoptifs e Sonets insolents, ambos de 1888; La vaccine du Génie, de 1892, La Téatrologie de L'Anneu du Nibelung, juntamente com Edmond Barthélemy, publicado por E. Dentu, em 1894; A propos de M. Mibeau, de 1909. Fundou com Edourd Dubus, Louis Dumur e Gabriel-Albert Aurier a revista La Pléïade. No site da Academia Brasileira de Letras (ABL), destacadamente nas Atas da instituição, constatamos que seu nome foi indicado para membro correspondente (Acta da sessão de 7 de dezembro de 1897), mas não sendo eleito para tal, como também consta nas notas referentes à ata citada: "que nunca chegou a ser eleito sócio correspondente da Academia". Louis Pilate era divulgador das literaturas brasileira e portuguesa na França. No entanto, seu nome ganhou maior destaque junto a seus pares em razão de um escândalo envolvendo o escritor Alphonse Daudet. Brin'Gaubast, que era preceptor dos enfants Daudets, foi acusado de roubar os manuscritos de Lettres de mon moulin (Cartas do meu moinho). Da temporada que viveu chez Daudets, escreveu um diário que veio a ser publicado com o longo título de: Temoignage sûr Alphonse Daudet. Document sûr l'affair du vol du manuscrit des Lettres de mon moulin (Testemunho sobre Alphonse Daudet. Documento sobre o caso do roubo do manuscrito das Cartas do meu moinho), publicado em 1997, em Paris, por Pierre Horay Edition.

19 Cf. A Nova Revista, ano 1, n.1, Rio de Janeiro.

20 Sobre Pethion de Villar, consultar Muricy (1951, v.2, p.49–58).

21 Cf. O Pão da Padaria Espiritual, ano 1, n.5, Fortaleza, 24 de dezembro de 1892, p.3 (grifos do autor).

22 Cf. O Pão da Padaria Espiritual, ano 1, n.5, Fortaleza, 24 de dezembro de 1892, p.3-4 (grifos do autor).

23 Cf. A Nova Revista, ano 1, n.1, Rio de Janeiro.

24 Informação idêntica nos deu o Barão de Studart (1908, p.61): "Scientifico, litterario e critico, propriedade da associação do mesmo nome. Impresso em O Libertador. O primeiro numero sahiu a 15 de novembro. Tendo desapparecido, renasceu em 1896 no Rio Grande do Sul, para onde tinham ido muitos dos seus redactores, alumnos da Escola Militar do Ceará".