Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX
3 Adolfo Caminha, autor-editor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
só para fatigar-nos o corpo e o espirito conjunctamente, o dia
inteiro de modo que, á tarde, depois do jantar, sentimo-nos sem
força para qualquer empreza seja ella qual for.
– Deita-te e adormece tranquilamente, aconselha o corpo, em
quanto o outro, o espírito brada-nos alto:
– Levanta-te, vae passear, ou vae ler alguma coisa.
Por outro lado são os convites para bailes que nos deixam
n'uma duvida terrível.
Afinal, queridas patricias, somos obrigadas a tomar um
deliberação qualquer, e (é triste dizel-o) geralmente optamos
pela rede, preferimos dormir a ler algum livro bom ou qualquer
outro escripto menos indigesto que os romances do Sr. Ponson
de Terrail. [sic]
Ora, si o nosso meio não fosse tão saturado de politica, si a
sociedade cearense tratasse de cousas mais agradaveis do que
a maldicta politica, que eu detesto de morte, em vez de
adormecermos depois de um dia de trabalho continuo, leriamos
antes os jornaes da tarde á varanda de nossa casa, n'um dolce
farniente confortavel falariamos de coisas alegres e
desopilantes até que o somno viesse sorprender-nos em
flagrante.
Mas, não senhoras, aqui só se fala de politica: almoça-se
politica, janta-se politica, ceia-se politica, adormece-se
pensando em politica, e, no dia seguinte, antes do nascer do
sol, já a politica está comnosco, ao nosso lado deitadinha na
nossa rede.
Que trambolho! Sempre a politica!
E o mais interessante é que as senhoras cearenses tambem
fazem politica. Tal ha quem se diga – maloqueira, tal – cafinfin.
Pode haver nada mais ridículo do que isto?
Maloqueira, porque? Porque cafinfin?
Ora, queridas leitoras, é preciso cuidar d'outra coisa menos
sediça. A politica de calçada foi feita para homens e para
homens que não têm mais o que fazer.
Assignemos O DIARIO, leiamol-o todos os dias e demo-lh'o a
ver a nossos maridos quando voltarem do trabalho e a nossos
filhos quando tornarem da escola.
Ler O DIARIO é sempre mais util e agradavel que falar da vida
alheia ou perder tempo com politica.
Bem andaram os redactores deste jornal!
A sociedade cearense precisava de um jornalsinho tal qual O
DIARIO, amigo do todos e inimigo da politica.
Pena é que seja ainda tão pequeno para comportar tudo quanto
eu tenha a dizer-vos uma vez por semana.
Ainda hoje não vos falarei de modas e, é preciso dizer-vos
desde já, não escolherei assumptos para as minhas pobres
cartas. Conversarei sobre tudo quanto possa de algum modo
interessar-vos.
Por hoje basta. P. S. Não esqueçam comprar O DIARIO, o
jornal mais sympathico do Ceará, ia dizendo do Brazil.
Vossa, Iza.15
Não sabemos de fato quem foi Iza; para nós ela foi uma colaboradora de O Diário que dava às suas páginas e à sua redação um toque feminino. Tampouco sabemos se se tratava de um pseudônimo, e, nesse caso, desconhecemos quem estaria por detrás dele. Sabemos que morava em Fortaleza, como se verá a seguir ao citarmos um modelo que ela descreve e que o viu em um dos espetáculos de Enerib, um hipnotizador, que se apresentava na capital cearense junto com sua companhia e que também anunciou seus espetáculos realizados no teatro São Luiz na páginas de O Diário. Também sabemos que era solteira – "Si agora não temos responsabilidade porque somos solteiras, mais tarde grandes será [sic] os nossos compromissos" – afirmou no artigo publicado em' O Diário de número 50.
Vemos, porém, pelo seu texto que a articulista desejava falar, especialmente, às mulheres que tivessem condição financeira para consumir determinados produtos, que os reconhecessem com um valor e, obviamente, que comprassem o jornal no qual, a partir dos seus comptes rendus, poderiam instruir-se e civilizar-se. Ao citar os romances de Ponson du Terrail, certamente a articulista estava pensando na sua mais famosa personagem, o Rocambole e sua série de aventuras, que, segundo Marlyse Meyer (1996, p.106) "foram reagrupados sob o título geral de Dramas de Paris a partir da
reedição de 1865 do romance inaugural, 16 A herança misteriosa ". À
leitura de Ponson du Terrail ela opõe a leitura de O Diário.
Destaca-se desse primeiro artigo de Iza o fato de repetir alguns aspectos do programa, como o fato de criticar a política como único tema de interesse dos periódicos locais, citando o partido dos maloqueiros e o partido dos cafinfins, dos quais as mulheres da capital cearense, segundo Iza, diziam fazer parte. Assim como o texto de Zé Pacato, diferenciava-se do texto do editorial, na forma, pois o primeiro era escrito em quadrinhas populares enquanto o segundo era escrito em tom formal. O texto de Iza se diferencia do texto do programa, tanto por assumir-se como uma voz feminina falando às mulheres como pelo gênero em que o faz: a carta, o que pressupõe uma linguagem mais íntima, tratando de assuntos específicos e, supostamente, de interesse direto das leitoras a quem ela se dirigia por meio da correspondência.
Se o projeto era a publicação semanal das "Cartas femininas", assinadas por Iza – sempre às quintas-feiras – isso não se deu. Infelizmente, não sabemos o motivo do malogro da periodicidade das suas cartas. No entanto, o fato é que suas "palestras", destacando assim a proximidade de sua escrita e de sua relação com as leitoras, foram publicadas, além do número 4, nos números 12, de 30 de maio; 37, de 2 de julho; 50, de 20 de julho; e 59, de 4 de agosto, último número de O Diário. No número 12, Iza cumpriu a promessa de tratar de moda e a forma como o fez foi exatamente mostrando-se contra os modismos: "Porque Fulana usa vestido deste ou d'aquelle modo não se segue que eu, por força da moda, também deva usar igual, absolutamente não". Tratando de aspectos da moda passada, a articulista não deixa de usar da ironia, vejamos:
Destronadas (ou depostas, como quiserem) as caudas, vieram
os vestidos curtos e apertados como bainhas, rentes com o
corpo da cintura até ao meio das canellas em quanto a parte
superior – os braços e o collo – dansa folgadamente dentro
d'uma especie de balão mais exquisito que elegante.17 Nesse caso, a ironia tem algum aspecto político, uma vez que as caudas são, pelo menos ao que nos parece, uma referência direta à Monarquia, o que ainda se torna mais evidente se recuperarmos os significantes – destronadas e depostas – esse, especificamente, grafado em itálico no texto original e colocado também em destaque pelo uso dos parênteses, como que indicando um pensamento ou ideia dita nas entrelinhas. O fato de indiretamente tratar de política talvez tenha feito que o jornal de Caminha e d'Oliveira tivesse o seu propósito inicial de mostrar-se neutro em política contestado.
O aspecto mais forte, entretanto, das "Cartas femininas", é o seu teor crítico com tendência à educação dos usos e dos costumes, como é possível constatar no terceiro artigo dessa seção ainda a respeito da moda nos termos do artigo anterior. É assim que lemos: "A simplicidade, a singeleza, a naturalidade, emfim, é, na toilette como na obra d'arte, a condição sine qua non". Nessa mesma direção continua a articulista:
Foi-se o tempo dos bibelots e das fanfrelouches; as fitas e os
vidrilhos estão abolidos dos boudoir; modernamente todas as
toilettes, quer masculinas, quer femininas, são acabadas pelos
moldes inglezes, isto é, sem essas superfluidades de enfeites
que tanto afeiam senhoras e cavalheiros. Com effeito, não sei
nada mais exquisito e até certo ponto ridículo e intoleravel que
um rico vestido de seda ou de velludo coberto de fond en
comble dessas ninharias que nada tem de bello nem de
gracioso: refiro-me aos babados, refolhos, vidrilhos, fitas e
outras tantas bugigangas, de que costumam enfeitar-se as
senhoras de mão gosto.
A meu ver, quanto menos guarnecido o vestuário, quanto mais
simples, mais chic e elegante.
Se no trecho destacado anteriormente havia uma ironia implícita em relação à queda da Monarquia, já nesse é possível constatar uma crítica ao romantismo, que se efetua por meio da moda. Basta para tanto lembrar aqui das laboriosas descrições que José Alencar fez das roupas de Aurélia Camargo no romance Senhora. A riqueza dos detalhes apontava, exatamente, para modelos ricamente ornados, do qual se destacavam pedrarias e babados, fitas e rendas, tudo num exagero de exuberância e riqueza utilizado a cada entrada de Aurélia nos salões da corte com o forte objetivo de impressionar a todos que a vissem e, em especial, a Fernando Seixas.
Essa relação também pode ser feita à estética literária, sobretudo porque Iza é quem o faz ao dizer que a simplicidade, a singeleza e a naturalidade são condição indispensável também na obra de arte, categoria na qual podemos localizar a arte literária. Aos modelos de babados e pedrarias, Iza deu como alternativa um outro, que considerava bem mais adequado aos novos tempos:
Ha poucos dias, no teatro S. Luiz, em um dos espetaculos do
Enerib, observei com vivo interesse, uma senhora, cuja toilette
destacava-se dentre todas as outras por sua originalíssima
feição. Nada mais simples: vestido de casemira cinzenta,
casaco idem, aberto na frente, deixando sobresahir o peitilho
alvíssimo da camisa sobre o qual destacava-se uma esplendida
gravata de seda, creio que creme, entrelaçada à ingleza, com
um rico broche; colete branco falso, pregado ao casaco – nada
mais.
Ahi está o que é saber uma senhora vestir-se economicamente,
com correcção e atrahente elegancia.
Ao final dessa carta, Iza ainda fez questão de reforçar a sua ideia inicial: "O exagero é prejudicial em tudo e por tudo; por isto é que destacamos a moda tal qual nol-a querem impor certos figurinos de máo gosto". Mas o alvo de suas palestras não é somente a moda. Iza também se preocupa com a instrução feminina ao dar notícia às suas leitoras de que no Rio de Janeiro fora fundada uma sociedade de senhoras para criar um instituto de educação para mulheres:
Li num jornal do Rio de Janeiro que trata-se de fundar na
Capital da União uma sociedade de senhoras para o fim
utilissimo e humanitario de crear institutos beneficentes de
educação do sexo feminino de commum accordo com as
condições especiaes de cada classe, a maneira das que
existem na Alemanha e n'outros paizes adiantados da Europa.
A partir de então, as queixas de Iza se voltam para a situação da educação no Brasil à época, em especial, à educação que considerou popular:
É publico e notorio o nosso atrazo em matéria de instrução
popular; os governos do Brazil nunca deram-se ao espinhoso
trabalho de curar seriamente deste assumpto, reformando e
introduzindo melhoramentos indispensaveis nas escolas e
lyceos geralmente entregues á direcção de homens sem
competencia e sem patriotismo.
A maior parte da população brazileira é analfabeta e isto se
abserva [sic] em grande escala no sexo feminino, cuja
ignorancia é digna de lástima.
Antes de prosseguir, é preciso fazer aqui a chamada de alguns fatos a respeito do assunto de que tratam essas duas citações. Desde a chamada geração de 1870 que aglutinou a Academia Francesa do Ceará, que, segundo Sânzio de Azevedo, surgiu "por volta de 1873" e foi extinta em 1875, da qual participaram Tomás Pompeu, Rocha Lima, Capistrano de Abreu, João Lopes, Xilderico de Faria, Araripe Júnior, França Leite, Antônio José de Melo, Antônio Felino Barroso e Amaro Cavalcante, a partir da qual se discutiram as ideias de Comte, Taine, Darwin, Spencer, Buckle, Ratzel, Schopenhauer, Haeckel, Littré, Vacherot, Quinet, Burnouf, Jacoilliot e Renan, que o tema da educação popular e da participação feminina na sociedade estava sendo discutido, como podemos constatar, por exemplo, nas conferências da Escola Popular, criada por iniciativa dos membros da academia citada para, justamente, levar a instrução ao povo, como consideravam ser papel dos intelectuais.
A esse respeito e também tratando da participação de Rocha Lima afirmou Capistrano de Abreu (1968, p.77): "As discussões e estudos não bastavam todavia à sua atividade: com João Lopes e outros companheiros fundou a Escola Popular, escola noturna destinada aos pobres e operários". E ainda acrescentou Capistrano:
Grande foi a influência da Escola Popular não só sôbre as
classes a que se destinava, como sôbre a sociedade cearense
em geral, por intermédio de conferências ali feitas, em que o
ideal moderno era apregoado por pessoas altamente
convencidas de sua excelência. Maior ainda foi a influência da
Escola sôbre os espíritos audazes e juvenis, que congregou,
reuniu e fecundou uns pelos outros. (ibidem, p.78)
Dessas conferências proferidas por Rocha Lima destacamos duas, a propósito do assunto tratado por Iza naquela sua carta. São elas: A Mulher e Senhora, essa a respeito do romance de José de Alencar. O que Rocha Lima destaca em ambas é a condição da mulher ante a sociedade, de onde decorre a necessidade de instruí-la.
Ainda sobre a mulher, alguns textos foram dados ao público cearense nas páginas de A Quinzena, órgão do Clube Literário, como podemos constatar com os seguintes títulos: "A mulher cearense", de Abel Garcia (publicado nos n.2, de 30 de janeiro de 1887; n.3, de 15 de fevereiro de 1887; e n.4, de 28 de fevereiro do mesmo ano, no periódico referido); "A mulher na família", de Francisca Clotilde B. Lima (publicado nos n.5, de 15 de março; e n.6, de 30 de março, também de 1887).
O que mais impressiona desse conjunto de artigos é justamente o fato de Francisca Clotilde ter uma visão muito mais tradicional a respeito da mulher e do seu papel na sociedade do que Abel Garcia. Entre o tradicionalismo e uma certa vanguarda no pensamento a respeito do que aqui se trata, o mais importante é que, de algum modo, esse tema fazia parte da ordem do dia, ao menos do grupo de intelectuais e escritores que se uniam em grêmios, associações, sociedades e divulgavam as suas ideias por intermédio de periódicos dados ao público em geral, o que propiciava a circulação de ideias, mesmo que não fossem absorvidas pela grande maioria da população local.
Antes de voltar a tratar das "Cartas femininas", de Iza, é preciso destacar também que o tema da educação feminina foi abordado por Adolfo Caminha em seu romance de estreia, cujo título é exatamente A normalista, ou seja, a estudante da Escola Normal, cujo modelo de educação laica se opunha ao modelo religioso do Colégio da Imaculada Conceição. Esse é, aliás, um assunto discutido pelas personagens. Vejamos, por exemplo, o que afirmavam João da Mata e sua esposa D. Terezinha a esse respeito, e sobretudo João da Mata, que era leitor da Província, um periódico que, como já vimos, circula na trama do romance:
Também fora professor, olé! E sabia muito bem o que isso era –
"um coito de patifarias". Queria a educação como nos colégios
da Europa, segundo vira em certo pedagogista, onde as
meninas desenvolvem-se física e moralmente como a
rapaziada de calças, com uma rapidez admirável, tornando-se
por fim excelentes mães de família, perfeitas donas de casa,
sem a intervenção inquisitorial da Irmã de Caridade. Não
compreendia (tacanhez d'espírito embora) como pudesse
instruirse na prática indispensável da vida social uma criatura
educada a toques de sineta, no silêncio e na sensaboria de
uma casa conventual entre paredes sombrias, com quadros
alegóricos das almas do purgatório e das penas do inferno; com
o mais lamentável desprezo de todas as prescrições higiênicas,
sem ar nem luz, rezando noite e dia – ora pro nobis, ora pro
nobis. Era da opinião do José Pereira da Província: Irmãs de
Caridade foram feitas para hospitais. O diabo é que no Ceará
não havia colégios sérios. A instrução pública estava reduzida a
meia dúzia de conventilhos: uma calamidade pior que a seca. O
menino ou menina saíam da escola sabendo menos que dantes
e mais instruídos em hábitos vergonhosos. As melhores
famílias sacudiam as filhas na Imaculada Conceição como
único recurso para não vê-las completamente ignorantes e
pervertidas. Afinal, para não contrariar o Mendonça, que queria
a filha para santa, metera Maria do Carmo no "convento".
D. Terezinha participava das mesmas idéias do Janjão. Uma
menina inteligente como Maria devia educar-se no Rio de
Janeiro ou num colégio particular, mas um colégio onde ela
pudesse aprender o "traquejo social". Pode ser que a Irmãs
sejam umas mulheres virtuosíssimas e castas, mas filha sua
não punha os pés em colégio de freiras... (Caminha, 1998,
p.22)
Devemos destacar dessa citação, além do fato de tratar do assunto da educação feminina, que o citado José Pereira, da Província, é uma caricatura de João Lopes, um dos membros do Clube Literário, associação que fazia publicar A Quinzena e era também membro da Academia Francesa. A esse respeito afirmou Sânzio de Azevedo (1999, p.83-4):
Entre as figuras da vida real satirizadas no romance, destaca-
se, além do Presidente do Ceará na época, o jornalista José
Pereira, redator da Província. Lembrando que João Lopes (um
dos componentes principais do Clube Literário, como vimos) foi,
na década de 70 do século XIX, um dos membros da chamada
Academia Francesa, ao lado de Rocha Lima, Capistrano de
Abreu, Araripe Júnior e outros, fica mais do que evidente que
José Pereira é ele, quando o narrador diz que o jornalista do
romance começou a julgar-se um grande escritor: "Daí certo ar
autoritário, certa prosápia que ele afetava em toda parte,
dizendo-se 'contemporâneo de Rocha Lima', 'amigo de
Capistrano de Abreu', certo aprumo pedante que não condizia
com a sua velha sobrecasaca de diagonal cujo estado
incomodava deveras a alta sociedade cearense".
Além de João Lopes e de Caio Prado, então presidente da província do Ceará, foi caricaturizado em A normalista o professor José de Barcelos, à época diretor da Escola Normal, fato do qual tratou Rodolfo Teófilo na série de artigos que publicou a respeito daquele romance nas páginas do jornal O Pão nos seus números 19, 20, 21, 22 e 23.
O que pretendemos mostrar com a citação desses fatos é que todo o conjunto da obra de Adolfo Caminha está, de algum modo, entrelaçado. São constantes as relações entre os seus fazeres como vimos aqui. Os assuntos, os temas se cruzam, se encontram, criando uma espécie de unidade diversa. Como afirmamos anteriormente, não nos parece certo dizer que Iza seria um pseudônimo feminino do redator de O Diário, ou seja, de Adolfo Caminha, pois não temos elementos nem argumentos para tanto. No entanto, é clara a constatação de que havia um intercâmbio de assuntos e de preocupações, pelo menos nesse caso, entre as suas atividades de jornalista e de escritor, seja esse intercâmbio direto, isto é, a mão do jornalista colaborando com a mão do escritor, seja indireto, isto é, o romancista bebendo na fonte da articulista, nesse caso a citada Iza.
Se não podemos afirmar que Iza é um pseudônimo de Caminha, podemos afirmar, pelas constatações apresentadas, que entre ambos havia um interesse comum, o que aliás é compreendido, uma vez que Caminha não a chamaria para colaborar com o seu jornal se os seus interesses fossem divergentes dos dele, o que se mostra óbvio, no entanto, deve ser amplamente investigado, pois resulta num modo diferenciado de ver o conjunto da obra de Adolfo Caminha o que aqui temos perseguido, pois esse olhar diferenciado colabora com a sua compreensão como um autor polígrafo.
Por assim dizer, a presente tese se escreve a partir de uma prática ou de um conjunto de procedimentos que têm valorizado a análise sistemática, evidenciando a ligação e interseção entre os campos, campos do sistema literário e campos do saber em geral, sobretudo a literatura, nas áreas da história, historiografia, teoria e crítica literárias, e a história, nas áreas da teoria e historiografia, história das ideias e do conhecimento, da qual fazem parte a história da literatura e a história das artes em geral, historia material, da qual faz parte a história do livro e história dos sujeitos e práticas, das quais fazem parte o autor nas suas mais diversificadas ações.
É preciso sempre acentuar o fato de que no presente estudo essas áreas se entrelaçam, pois como já afirmamos, não cremos na possibilidade de uma problematização e análise polarizada em dois extremos, quais sejam, o dos elementos intrínsecos acima dos ditos extrínsecos, como numa religião da essência da obra de arte acima de todas as suas demais circunstâncias, com um sentido – o estético – dado prioritariamente sem que a recepção o demande, o exija, o forme, tenha carência dele e até o estranhe, seja pela forma ou pelo suposto efeito que produz. A esse respeito afirmou Pierre Bourdieu (1996, p.323-4):
A experiência da obra de arte como imediatamente dotada de
sentido e valor é um efeito do acordo entre as duas faces da
mesma instituição histórica, o habitus cultivado e o campo
artístico, que se fundam mutuamente: sendo dado que a obra
de arte só existe enquanto tal, isto é, enquanto objeto simbólico
dotado de sentido e de valor, se é apreendida por espectadores
dotados da disposição e da competência estéticas que ela
exige tacitamente, pode-se dizer que é o olho do esteta que
constitui a obra de arte como tal, mas com a condição de
lembrar imediatamente que não o pode fazer senão na medida
em que ele próprio é o produto de uma longa história coletiva,
ou seja, da invenção progressiva do 'conhecedor', e individual,
isto é, de uma freqüentação prolongada da obra de arte.
Feitas essas considerações de ordem metodológica, voltemos ao jornal O Diário, pois Iza ainda deseja se despedir. O seu artigo do número 50 de O Diário foi concluído com a promessa de que a articulista voltaria ao assunto da educação feminina. É bem verdade que antes ela convidou as mulheres cearenses a imitar as fluminenses, que por sua vez imitavam as alemãs:
As senhoras fluminenses tratam de imitar as allemães, por que
não imitamol-as, nós as cearenses? Em vez de gastarmos o
nosso precioso tempo fundando clubs de dança, tratemos de
nossa educação e da educação de nossa patricias pobres. Não
é em bailes e no Passeio Publico que havemos de preparar o
nosso espirito para as luctas da existencia. Si agora não temos
responsabilidade porque somos solteiras, mais tarde grandes
serão os nosso compromissos.
Em nome das minhas conterraneas, envio um hurrah! Ao bello
sexo fluminense.
Voltarei ao assumpto.
Como já dissemos e, por ocasião dessa citação reforçamos, o caráter de missão e de civilização está bem presente nos textos de Iza, bem como em alguns outros de O Diário, como veremos à frente. De fato, Iza não voltou ao assunto da educação feminina, pois no último número do periódico de Caminha e d'Oliveira ela voltou apenas para se despedir das suas leitoras, o que indica que elas não eram poucas ou que eram bastante consideradas pelos redatores. Mais uma vez o texto de Iza, assim como o de Zé Pacato, como vimos anteriormente, procurou reforçar uma ideia defendida no programa do jornal, o que se dá de forma bastante particular para cada texto, seja na sua linguagem, seja na sua forma, porém todos submetidos ao formato do jornal. Antes, porém, de tratar dessa questão, vejamos a página do editorial do último número de O Diário, que de certo modo já foi discutido quando citamos alguns dos seus trechos.
Vemos no editorial intitulado "A verdade no caso" que o principal problema que levou à paralisação da edição e publicação do jornal O Diário, segundo os seus redatores, estava relacionado à sua recepção, pois todas as queixas apontam para esse fato. Esse editorial foi o único assinado por AD. CAMINHA E R. D'OLIVEIRA E SILVA ao longo dos 59 números. Como já o dissemos, o último artigo assinado por Iza reforça a ideia defendida no editorial. Leiamos o artigo na íntegra. Os trechos grafados em itálico são destaques nossos, com exceção, é claro, dos títulos de jornais citados ou de expressões em língua estrangeira.
Queridas leitoras.
Acabo de receber a lamentavel noticia de que o Diario, o
symphatico jornal creado sob tão bons auspícios e que, sem
duvida, estava preenchendo uma lacuna sensível em nosso
jornalismo, vae suspender a publicação.
Mas isto é incrivel, mas isto dá má copia do bom gosto do
nosso publico!
Porque vae desapparecer o Diario? É triste dizel-o, e digo-o
tocada de fundo pesar: O Diario vae suspender a publicação
por falta de recursos financeiros! Triste verdade esta que enche
de pasmo e quiçá de indignação a quem se interessa vivamente
pela sorte desta terra. Pois é crível que haja alguem capaz de
recusar o seu recurso material para a manutenção de uma
empreza como a do Diario nesta capital que precisa tanto de
um jornal neutro em politica, ao alcance de todas as
intelligencias e de todas as bolsas? Effetivamente assim o é. E
o que mais admira é a tenacidade dos redactores do Diario,
rapazes pobres que, sem o auxilio do nosso publico cuja
indifferença é notoria, conseguiram manter durante quase
noventa longos dias este jornal, arcando contra a má vontade
de uns e o despeito de outros. Dir-me-hão, talvez, as leitoras:
mas só pode sustentar jornal quem tem dinheiro; pas d'argent
pas de... Journal. De accordo, mas esse dinheiro em parte deve
resultar do esforço do jornalista que apenas concorre com o
capital necessario para as despezas essenciaes. O jornalismo é
uma profissão e, como tal, deve render algo. Ninguém que
tenha juízo sujeita-se a trabalhar gratiuitamente para o publico,
e neste caso estão os redactores d' O Diario cuja resolução é
assaz louvavel uma vez que o publico recusa-lhes o seu
concurso.
Collaboradora do Diario não posso deixar de censurar um
publico que prefere ler pasquins a ler jornaes serios.
Sabe Deus com quanta difficuldade luctam A Republica, O
Combate e O Operario!
E são orgãos de partidos politicos e corporações mais ou
menos numerosas. Em minha ultima conversa havia eu
promettido falar-vos hoje de associações
beneficentes de senhoras; uma vez porém, que o Diario dá hoje
seu ultimo numero, cumpre-me despedir das leitoras, o que
faço agora, pedindo-lhes mil desculpas pela linguagem despida
de atavios com que sempre lhes falei destas columnas.
Al rivedere! Iza.
Figura 8 – Anúncios do jornal O Diário, n.8, Fortaleza, 18 de maio de
1892. Biblioteca particular de Sânzio de Azevedo.
Assim, reforçando muito do que foi dito no editorial, juntamente com o último número de O Diário, Iza e sua seção "Cartas femininas" desapareceram do conjunto de leituras possíveis na Fortaleza dos meses de maio a agosto de 1892.
Anunciar para faturar
Não sabemos ao certo, por exemplo, quanto os anúncios de casas comerciais e pequenas matérias pagas rendiam ao jornal, nem se Caminha e d'Oliveira contraíram grandes dívidas. O fato é que O Diário desapareceu, malogrado que foi o intento inicial apesar de contar sempre com um bom número de anúncios, sobretudo de casas comerciais, como é possível constatar nas suas páginas.
O primeiro número de O Diário já traz alguns anúncios, o que nos dá a entender que seus redatores se preocuparam em divulgá-lo entre os comerciantes da cidade, certamente na esperança de que a adesão daqueles significasse a garantia de lucro, tanto para o jornal como para os próprios anunciantes. Esse fato também reforça o que dissemos anteriormente, ou seja, que a empresa de Caminha e d'Oliveira não era uma aventura, uma vez que vincular anúncios de casas comercias significava também credibilidade junto a determinados setores da sociedade, entre ele a classe de comerciantes, fato que colocou lado a lado o mundo das letras e o mundo dos negócios, bem como os seus representantes, quais sejam, os homens de letras e os homens de dinheiro, unindo letras e números.
Não sabemos qual era a estratégia usada por Caminha e d'Oliveira para atrair os anúncios para o primeiro número de seu jornal; no entanto eles estão lá. As primeiras casas comerciais e produtos a anunciarem em O Diário foram: Mercearia Arruda, Taboado de Acapu e Andiroba, Café Aratanha, Alfaiataria de Olegário A. dos Santos, Charutos Paula Pereira e C, Relojoeiro Gonçalo J. do Nascimento, Armazém do Agente Motta.
À medida que o jornal é publicado, indicando que ele teria uma edição regular, não somente os anúncios dessas casas comerciais foram vinculados, mas outras casas aparecem como anunciantes. Se no primeiro número de O Diário os anúncios ocupavam apenas dois terços da quarta página, nos números seguintes, até o penúltimo, pois o último não traz anúncios, eles estão presentes em toda a quarta página e, às vezes, já a partir da última coluna da terceira página, indicando que os anúncios davam aos proprietários do jornais e das casas comerciais anunciantes algum retorno financeiro. É bem verdade que os anunciantes desse primeiro número são casas comerciais simples, o que pode ser constatado pelo tipo de produtos que oferecem, na sua maioria produtos de consumo diário, como aqueles oferecidos pela Mercearia Rossas: açúcar, maisena, arroz, bacalhau, sabão, farinha de trigo, manteiga em barril, pimenta. Os mesmos produtos poderiam ser comprados na já citada Mercearia Arruda, um pouco mais requintada, pois oferecia queijos, doces, vinhos e conservas "e muitos outros generos de superior qualidade recebidos ultimamente", como afirma o seu anúncio.
Somente a partir do número 9, de 25 de maio de 1892, é que surgiram anúncios de itens importados de fina qualidade, como é possível constatar no anúncio da casa Torre-Eiffel, cujo nome por si só indica a influência da França no mercado local e do tipo de produtos que colocava à disposição do público de Fortaleza: camisas inglesas, chapéus de sol, fitas, tecidos os mais diversos: cretones, voile, cetim, ligas de seda, perfumaria, sabonetes, pastas inglezas para dentes, pó de arroz, plumas para chapéus, leques de plumas, lenços de seda.
A partir do número 31, de 23 de junho de 1892, surgem anúncios maiores e graficamente mais trabalhados, porém não encontraremos ao longo da existência do jornal nenhum anúncio ilustrado. Aliás, é importante lembrar que nos 59 números de O Diário só encontraremos uma ilustração: a reprodução de um retrato do hipnotizador Enerib e sua companhia, o que demonstra que o jornal também fazia anúncio de eventos de lazer, pois o espetáculo do já citado hipnotizador se dava no Teatro S. Luiz.
No anúncio da Mercearia Luiz Moura podemos ver que o consumidor fortalezense poderia encontrar também produtos importados, como é o caso de cognac, queijo e licores. Além disso, uma prática se tornou comum em O Diário: a vinculação de um fato em andamento e o anúncio de uma casa comercial, qual seja, a revolução no Mato Grosso e o anúncio da casa comercial de Ovídio Leopoldo da Silva, que também se utilizava de quadrinhas populares: "O Ovídio é agradável,/ Vende o bom, é barateiro/ A todos presta attenção/ Vendo contar o dinheiro." A utilização de recursos literários em razão dos anúncios comerciais, o que significa também um relacionamento entre literatura e mercado, se intensificou ao ponto de um anúncio ser escrito como numa estrutura aproximada à estrutura de um conto, como podemos constatar no anúncio intitulado de "Um achado curioso". O próprio título – "Um achado curioso" – tem algo de ficcional, pois remete o seu leitor à sensação de mistério. E a própria dimensão do anúncio não parece ser a mais comum, pois, como sabemos, quanto maior o espaço ocupado, mais caro é o seu valor.
Nessa estrutura aproximada do conto podemos encontrar um narrador, duas personagens – os dois burgueses –, que, aliás, são estrangeiros, a criação de uma situação que justifica a ida de ambos à rua das Trincheiras, 19, ou rua Formosa, 135, essa um dos endereços mais nobres da cidade à época, ocupada pela burguesia que ali mandara construir casarões e mansões, onde, aliás, no romance A normalista, morava a personagem Zuza, o querido de Maria do Carmo: "Morava na rua Formosa, numa casa assobradada e vistosa com frontaria de azulejos, varandas, e dois ananazes de louça no alto da cimalha, à velha moda portuguesa" (Caminha, 1998, p.44).
Como esse anúncio não encontramos outro igual em O Diário, o que não significa que fosse uma criação de Adolfo Caminha, afinal não temos dados para afirmar que o texto fosse de fato dele; no entanto, a sua estrutura não parece ser a mais convencional entre as estruturas dos anúncios comerciais vinculados em jornais de circulação e, por esse motivo, achamos por bem destacá-lo. Mas destacamos também o fato de que pontos em comum unem a atuação de Adolfo Caminha como autor e editor de um periódico de circulação comercial. Esse fato provocou a convivência do homem de letras com os números, com a tarefa árdua e diária de colocar em circulação um periódico. Apesar de difícil, Adolfo Caminha não perdeu o interesse em editar periódicos. Após mudar-se definitivamente para o Rio de Janeiro, o autor dedicou-se novamente ao jornalismo, mas dessa vez à experiência junto ao jornalismo literário com a publicação de A Nova Revista, como veremos a partir daqui.
Figura 9 – Anúncio "Um achado curioso", publicado no jornal O
Diário, n.35, Fortaleza, 30 de junho de 1892. Biblioteca particular de
Sânzio de Azevedo.
A experiência de A Nova Revista
Adolfo Caminha editor de A Nova Revista: uma radiografia do periódico
Após a publicação de dois romances – A normalista (1893) e Bom-Crioulo (1895) – e já tendo passado pela experiência de redator-principal de O Diário, Adolfo Caminha atuou em A Nova Revista como seu diretor, a respeito do que nos diz Sânzio de Azevedo (1999, p.121): "Circulou no Rio de Janeiro, de janeiro a setembro de 1896, A Nova Revista, que tinha como Diretor Adolfo Caminha e, como Secretário, Oliveira Gomes (um dos que iriam visitar o escritor em seus momentos finais). Periódico mensal, teve nove números". É também de Sânzio de Azevedo que citamos um trecho retirado, segundo ele, do artigo que circulara no periódico português A Mala da Europa no qual lemos informações a respeito de A Nova Revista:
Caminha dirige presentemente A Nova Revista, magnífica
publicação literária, excelentemente acolhida no Rio, S. Paulo,
Pernambuco, Ceará e Pará. Em Paris fizeram-lhe uma
recepção entusiástica, fora do uso. N'esta revista, que é editada
diretamente por uma conceituada casa tipográfica do Rio, têm
colaborado: Clóvis Bevilácqua, Pilate Gaubast, Xavier de
Carvalho, Cruz e Souza, Bernardino Lopes, Duque-Estrada,
Colatino Barroso, Oliveira Gomes, Frota Pessoa, Teodoro
Magalhães, Francisco Pacheco, Artur Miranda, Alves de Faria,
Rodrigues Carvalho [sic], etc. (ibidem, p.127)
Vemos nessa citação algumas características da revista: a boa acolhida, a boa qualidade de impressão gráfica e um bom e conceituado número de colaboradores, entre eles vários nomes que à época se destacavam na vida nacional como o afamado jurista cearense Clóvis Bevilácqua. Além dessas informações, não sabemos a origem do capital da empresa, pois, infelizmente, o material que consultamos na Fundação Casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro, não traz essas informações, uma vez que os seus exemplares não possuem capas.
A revista, porém, chegou a ser mandada para fora do Brasil, como podemos constatar no número 2. Nele foi publicado um soneto intitulado "Épitaphe", de Louis-Pilate de Brinn Gaubast. Esse é o mesmo poeta cujo nome lemos na citação anterior com a abreviatura Pilate Gaubast. Em uma nota, na mesma página de publicação do soneto citado, lemos:
Figura 10 – Página 1 do primeiro número de A Nova Revista.
Coleção Plínio Doyle. Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro.
Accedendo ao convite que lhe dirigimos para collaborar n'A
Nova Revista, LouisPilate de Brin Gaubast, um dos novos
poetas francezes, honrou promptamente com a remessa de
duas bellas poesias inéditas – Épitaphe e Rencontre.Vivamente
interessado pela propaganda da literatura brazileira na Europa,
Louis-Pilate de Brinn Gaubast pede-nos que publiquemos as
suas louvadas intenções de tornar conhecidas naquele
continente os nossos productos litterarios: – Que l'on m'envoie
livres (anciens ou recents), revues, journeaux (isolés ou ...)
documents, notes BIO-BIBLIOGRAPHIQUES, et
PHOTOGRAPHIES TOUT sera [...] et utilisé ,en bonne place,
dans l'un des innombrables périodiques – em toutes [...] – qui
me sont ouverts, et qui ont fait le succés de ma campagne
portugaise. Ahi fica o appello de um nobre espirito. Já não
podemos dizer que lá ninguém se interessa pelo Brazil literario.
Louis-Pilate é o correspondente em França da revista Arte, de
Eugenio de Castro, 18 – 39, rue Froide, CAEN.
A citação confirma a recepção da revista na França, onde "fizeram-lhe uma recepção entusiástica, fora do uso", destacando-se o fato de o redator da nota, certamente Adolfo Caminha, destacar que lá, ou seja, na França – e o itálico é original –, já haver interesse pela literatura brasileira. Assim, a leitura dessa citação nos leva a crer que A Nova Revista foi um grande sucesso. Se essas são as informações que nos passam o artigo português de A Mala da Europa e a própria nota da revista, além das possíveis conclusões que possamos ter a esse respeito ao analisar o material consultado, ao continuarmos a leitura da biografia de Adolfo Caminha vemos que o caso é bem outro. Diz-nos Azevedo (1999, p.124):
Como ainda observa Plínio Doyle, 'A Nova Revista, apesar da
boa colaboração [...], não teve grande repercussão na época; a
Revista Ilustrada, de Ângelo Agostini, apenas registra o
recebimento de fascículos, sem qualquer comentário; nas
demais revistas consultadas, nenhhuma referência
encontramos.
A referência a Plínio Doyle, nesse caso, deu-se porque pertencia à sua coleção de periódicos os exemplares desta última revista editada por Adolfo Caminha, como nos informa também Sânzio de Azevedo: "Plínio Doyle, que possuiu a coleção completa da revista, mas sem as capas..." (ibidem, p.121). Já aqui é preciso afirmar que as condições do material como esse se encontra na entidade citada que nos impediu de fazermos uma radiografia mais detalhada da revista como procuramos fazer no caso do jornal O Diário, analisando o valor de seus números, o valor das assinaturas, os seus anúncios etc. Por não ter as capas, são sabemos inúmeras informações, como o valor dos exemplares ou se teve ou não assinaturas, anúncios etc.
Ainda assim, A Nova Revista é uma importante fonte para a compreensão da atuação de Adolfo Caminha no campo do jornalismo e, nesse caso, do jornalismo literário, uma vez que, diferentemente de O Diário, no qual circulavam também matérias informativas, A Nova Revista foi totalmente dedicada à literatura, certamente como a compreendiam os nosso intelectuais no século XIX, não faltando, assim, artigos de outras áreas do conhecimento, mas que de algum modo mantinham pontos de contato com a literatura de ficção. Em suas páginas circularam contos, capítulos de romances, poesia, teatro – como é o caso da peça O hóspede, um "drama em 5 actos e 6 quadros a propósito do romance A CASA DE PENSÃO de Aluizio Azevedo", cujo autor era F. Pinto de Almeida Júnior –, ensaios filosóficos, textos políticos e uma seção de "Notas bibliographicas", na qual os leitores tinham acesso aos diversos títulos recebidos na redação da revista. Interessa-nos analisar, assim como fizemos com O Diário, o programa desse periódico em causa.
O programa de A Nova Revista ou a crença no novo era uma novidade
Gostava que em sua casa houvesse um pouco de tudo. Não
aparecia por aí qualquer novidade, qualquer novo aparelho de
bater ovo, gelar vinho, regar plantas que o Campos não fosse
um dos primeiros a experimentar.
A mulher, às vezes, já se ria, quando ele entrava abraçado a
um embrulho.
– Que foi que se inventou?... perguntava com uma pontinha de
mofa.
O marido não fazia esperar a justificação do novo aparelho, e
tal interesse punha em jogo que parecia tratar de uma obra
própria, de cujo sucesso dependesse a sua felicidade.
(Aluísio Azevedo, Casa de pensão)
Mesmo não trazendo um título que identifique o artigo como um programa da revista, é fácil constatar que o primeiro artigo do número 1, de janeiro de 1896, de A Nova Revista funcionou com tal finalidade. Assim, achamos por bem reproduzi-lo aqui:
Nada mais facil do que traçar um programma politico ou
literario, quando não nos anima um ideal renovador, uma
fórmula nova de conquistas na politica ou na literatura – nada
mais dificil do que emprehender uma obra revolucionaria e
altamente civilisadora, demolindo falsos principios, idéas falsas,
velharías que repugnam a um cerebro bem orientado e ao
senso philosophico de uma geração robustecida pelo estudo e
pelo pensar proprio. Nós nos achamos no segundo caso ao
lançar A Nova Revista; no entanto, fazemol-o com
desassombrada autonomia intelectual, com verdadeira
independencia de caracter, apelando exclusivamente para o
esforço da mocidade, para os cerebros novos e educados no
amor ao trabalho, para os que ahi veem cantando a marselhesa
do ideal moderno e que hão de, necessariamente, completar a
civilização brazileira golpeando o favoritismo literario,
proclamando a era do trabalho e da intelligencia, creando uma
literatura original, uma critica nova, uma arte nova, emfim, que
seja o reflexo da vida que vivemos na larguíssima e
deslumbrante zona americana.
A reforma politica, fel-a o 15 de Novembro e consolidou-a o
governo civil; caíram, como anjos repudiados, os medalhões do
imperio e surgiram novos elementos de vida e propriedade
social. Por que tambem se não há de acabar de vez com os
medalhões literarios (aurea mediocritas) que andam a exercer
por uma especie de direito divino, a dictadura do preconceito e
da intolerancia burguesa sobre os melhores espiritos desta
geração?
É isto o que vamos tentar briosamente, com a collaboração de
moços cujo talento é a melhor garantia d'A Nova Revista e dos
nossos intuitos. Se houvessemos de apresentar um programma
de vida intelectual, nenhum outro encontrariamos melhor do
que este – Guerra ao convencionalismo em todas as
manifestações do pensamento; logar aos novos espiritos, aos
que desejam a renovação literaria do Brazil; disciplina da
mocidade para o triumpho e consagração da Sciencia e da Arte.
Uma revista literaria, philosophica e artistica, sem preconceitos,
nem orgulhos e falsa ostentação de patriotismo, com um
caracter accentuadamente universal e livre, é obra necessaria,
agora que vamos merecendo a attenção da Europa como povo
civilisado.
Literariamente, o nosso paiz é, sem dúvida, o mais prospero da
América. Nem os Estados-Unidos, apezar dos seus folkloristas
e dos seus Davis e Whitcomb Riley, nem o Chile pódem
competir comnosco em materia de arte escripta, quanto mais as
outras republicas sul-americanas, inclisive a financeira
Argentina, onde um pedaço de terra alheia preocupa mais os
espiritos que um poema nacional ou uma critica do Sr, Garcia
Merou. O jornalismo norte-americano e platino, muito mais
adiantado que a imprensa diaria do Brazil, não logra, todavia,
apontar, em qualquer dessas nações, movimento literario que
entre nós presenciamos em toda a zona brazileira. O que ainda
nos falta é a disciplina para o estudo e para as concepções
artisticas; o nosso temperamento, imaginoso e fecundo, perde-
se a maior parte da vezes, numa fantasia irriquieta e nem
sempre admiravel. Taine já dizia na introdução da HISTORIA
DA LITERATURA INGLEZA que – une œuvre n'est pas um
simple jeu d'imagination, le caprice isolé d'une tête chaude,
mais une copie des mœurs environnantes et le signe d'un état
d'esprit – No verso verso admittiriamos a bohemia do espirito
em eterno jogo de rimas sonoras; o mesmo não succede na
prosa – no romance ou no conto, generos que hão de,
necessariamente, triumphar, pela analyse, sobre os de mais
ramos literarios.
D'essa falta de disciplina intellectual nascem as produções
mórbidas, inconscientes e de modo algum proveitosas à Arte.
Não basta produzir muito, é necessario crear alguma cousa
immortal – poema ou romance em que a humanidade se veja e
se admire como na obras de Shakespeare e de Cervantes.
Temos poetas notaveis, excellentes rimadores, cujos versos
fluem num maravilhoso cascatear de gemmas sonoras, –
poetas que sabem tecer bellas estrofes de amor, concretizando
a vida no objeto amado; temos romancistas igualmente
notaveis, ainda que em numero relativamente pequenos,
autores de comedias e operetas; fantasiosos contadores de
historias galantes, mas o tallento d'elles é absorvido pela
obrigação diaria de escrever para os jornaes, ou, o que é peior,
fenece no elogio mutuo, asphixiado pelo incenso das oblações
reciprocas.
A bohemia literaria desappareceu com o Romantismo. A arte de
hoje, como a arte do futuro, há de ser grave, mesmo no ridiculo,
para sobreviver – grave, digamos estudada e sincera. O seu
lugar é entre a philosophia e a sciencia, com as quaes deve
marchar.
Felizmente não vingaram no Brazil, nem no velho mundo, os
chamados decadistas (a escola da loucura); esgotou-se o
vocabulario pedantesco dos incomprehendidos, não tardaram
as convenções, e os novos trocaram as flôres roxas do
symbolismo pelos fructos aeres da verdade.
Já ninguém ousa impunemente evangelisar absurdos e falsas
crenças literarias. O momento é o mais opportuno para uma
renovação. Admiremos a bohemia nas deliciosas e queridas
paginas de Henri Mûrger e trabalhemos com verdadeira fé no
nosso ideal.19
Do mesmo modo que não traz um título, o artigo também não é assinado; no entanto, pelo fato de Adolfo Caminha ter sido o diretor de A Nova Revista, acreditamos que se trate de um artigo seu. As evidências a esse favor também são constatadas pelo conteúdo do texto. Já no primeiro parágrafo, é clara a crença sempre presente no novo – "um ideal renovado", "uma fórmula nova" – apontando sempre para as mudanças de um futuro que se pretendia próximo. A crença no novo está presente logo no título do periódico: A Nova Revista. Caminha acreditava no novo quase do mesmo modo que acreditava a personagem Campos, do romance Casa de pensão, de Aluísio Azevedo, como constatamos na epígrafe desta seção. Evidentemente que se trata a Campos de paródia dessa crença. Mesmo assim, é possível constatar de que o novo e a novidade eram preocupações do final do século XIX.
Se a chegada de um novo século sempre fez sonhar, talvez
tenha sido o fim do século XIX o que melhor concretizou esse
tipo de utopia. As exposições universais passavam a