Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra · Capítulo 6 de 10 · parte 4/5

Páginas do PDF

Adolfo Caminha: um polígrafo do século XIX

3 Adolfo Caminha, autor-editor

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

demonstrar didaticamente o progresso e a imaginar o amanhã;

os mapeamentos e inventos olhavam para os impasses do

presente, mas de esguelha miravam o século seguinte; a

"sciencia" impunha-se como forma de redimir incertezas.

Sonhou-se muito na passagem do século XIX para o XX. Era

esse o momento das realizações, da efetivação de projetos de

controle das intempéries naturais. Ainda não pairava no ar o

cheiro da guerra; a idéia do conflito parecia controlada pela

fantasia do progresso, e os novos avanços técnicos traziam a

confiança de um domínio absoluto sobre a natureza humana.

(Costa & Schwarcz, 2000, p.11)

Além disso, constatamos também a presença de elementos do discurso intelectual e cientificista do período como a crença na civilização, capaz de demolir "falsos princípios, idéas falsas, velharías", trata-se, nesse caso, da crença na ciência como nova possibilidade de afirmação de um novo estatuto ou de um estatuto diferente, por exemplo, da religião. Junto à crença na civilização está o conceito de "verdade", apresentado no artigo pelo seu antônimo: o falso. Não nos interessa aqui provar que se trata de um artigo de Caminha; o que nos interessa é mostra como esse texto está em consonância com o pensamento proposto e presente em sua obra e como alguns elementos do texto se juntam a outros já citados e nos dão uma ideia do tipo de pensamento que governou a obra de Caminha.

O lançamento de A Nova Revista foi colocado como um exemplo da ação de elementos supostamente modernizadores e civilizadores: "um cerebro bem orientado e ao senso philosophico de uma geração robusta pelo estudo e pelo pensar próprio". Junto à criação da locomotiva, da ferrovia, do rádio, do telegrafo, do automóvel, do metrô, dos dirigíveis aéreos, como foi o caso do Zeppelin, do avião, da máquina de escrever, da pilha, da eletricidade, do código Morse, era preciso inventar também um discurso que se unisse a esses inventos duros, discurso esse que justificasse e propagandeasse essas invenções como valores a serem seguidos, defendidos e consumidos. Era preciso, enfim, instaurar uma nova forma de ser e de estar bem diferente da que se acreditava até então, ou seja, o novo era a maior novidade, o que fazia que nem sempre fosse bem recebido: "Todas essas novidades não foram, porém, absorvidas com facilidade. Ao contrário, boa parte dos inventos mais bem-sucedidos foram vítimas de reprovações categóricas" (ibidem, p.19). O novo sempre esteve presente nos artigos de Adolfo Caminha, como no artigo "Novos e velhos", publicado no Rio de Janeiro em 1893 nas páginas da Gazeta de Notícias, bem como o artigo "Musset e os novos", publicado também no Rio de Janeiro, em 1895. No caso desses dois artigos citados, o novo era uma referência aos nefelibatas, decadentistas ou simbolistas, com os quais Adolfo Caminha manteve relações, mesmo que em muitas vezes os criticasse. Assim, nem sempre o signo do novo era sinônimo de uma situação com a qual o autor e crítico concordasse.

Os signos do novo, nos artigos de Adolfo Caminha, também revelam o rompimento com um comportamento que muitas vezes ele destacou como impedimento para desenvolver a literatura brasileira, como "a suave palestra, descuidada e livre, do beco do Ouvidor", a boêmia, o pouco caso com o trabalho do escritor. Civilização, verdade, trabalho, inteligência concorreram para a criação de uma "literatura original, uma crítica nova, uma arte nova", eram esses os seus desejos. Parte importante desses valores também tem origem nos pensamentos evolucionista e positivista de bases comtianas, spencerianas, hanckeans e darwinianas, que marcava os nossos intelectuais no final do século XIX, sobretudo aqueles de formação militar, como era o caso de Adolfo Caminha.

No segundo parágrafo do artigo, a discussão proposta passou da situação política do país, após o 15 de novembro, para a discussão literária. O autor do programa requeria o fim do que chamou de "medalhões literários", "que andam a exercer por uma especie de direito divino, a ditadura do preconceito e da intolerancia burguesa sobre os melhores espiritos d'esta geração". Assim, também encontramos nesse artigo uma espécie de personagem: os medalhões literários como tantos outros que encontramos nos artigos críticos de Adolfo Caminha.

No parágrafo seguinte constatamos o sentimento missionário que regia a criação e a publicação de A Nova Revista:

Se houvessemos de apresentar um programma de vida

intelectual, nenhum outro encontrariamos melhor que este –

Guerra ao convencionalismo em todas as manifestações do

pensamento; logar aos novos espíritos, aos que desejam a

renovação literária do Brazil; disciplina da mocidade para o

triumpho e consagração da Sciencia e da Arte.

Assim, A Nova Revista era também colocada na cena literária brasileira de então como uma necessidade para o país que supostamente se civilizava: "Uma revista literaria, philosophica e artistica, sem preconceitos, nem orgulhos e falsa ostentação de patriotismo, com um caracter accentuadamente universal e livre é obra necessaria, agora que vamos merecendo a attenção da Europa como povo civilisado". Juntamos a essas duas citações uma outra feita por Adolfo Caminha em seu artigo "Novos e velhos" e vemos claramente a relação dos conteúdos:

Se a mocidade brasileira compreendesse nitidamente o papel

civilizador da literatura, a importância absoluta da obra de arte,

com certeza os seus esforços duplicavam e o nosso país não

seria visto com desdém pela França literária e pelo próprio

Portugal, que, incontestavelmente, fulgura ao lado da Espanha

e da Itália e de outros países notáveis em desenvolvimento

intelectual.

E continua Adolfo Caminha (1999a, p.21) apontando para a causa do que ele considerou como atraso literário brasileiro à época:

A grande causa do atraso a que vou me referindo é a vadiagem

literária, o amor à popularidade barata, a falta de escrúpulo em

tudo que respeita as letras; e prova disso é que de todos os

gêneros o menos cultivado no Brasil é o romance, justamente

porque demanda mais esforço, mais concentração, mais estudo

e mais critério, enquanto por outro lado abundam poetas e

folhetinistas, com especialidade na zona fluminense, poetas e

folhetinistas de uma mediocridade lamentável.

Nessas três citações, destacam-se a crença na literatura como parte do processo civilizador e a crença na Europa como fonte de reconhecimento desse processo pelo qual o Brasil supostamente estava passando. Se juntarmos essas três citações àquela sobre o poeta francês Louis-Pilate de Brinn'Gaubast, veremos que uma unidade de pensamento vai se formando. A crença na civilização foi juntada à crença no progresso, no futuro, no novo. Essas eram as certezas dos nossos intelectuais, na verdade certezas um tanto incertas como dirão Costa & Schwarz (2000, p.25) ao chamarem o período dos anos de 1890 a 1914 de "tempo das certezas":

Afinal, a grande utopia dessa virada talvez tenha sido a

"certeza". A certeza das teorias deterministas que permitiam

prever – como na criminologia italiana de Cesare Lombroso – o

crime, antes que ele ocorresse. A certeza de classificar o

mundo das plantas, dos animais e dos cometas. A certeza do

controle sobre a natureza: sobre ventos, tempestades,

pântanos e redemoinhos. A certeza de prever o futuro. So

faltava mesmo desvendar a mente humana, esta sim sujeita a

"desequilíbrios e deslizes".

Enganam-se, porém, aqueles que acham que as reflexões

eram, assim, profundas. Os debates do dia-a-dia foram bem

mais rasteiros. Era preciso determinar se o século tinha início

em 1900 ou em 1901 ou se a passagem do cometa Biela,

naqueles anos, levaria ao final do mundo ou não. De qualquer

maneira, de forma mais ou menos direta é possível perceber o

ideário de uma época que, volta e meia, colocava em evidência

as conquistas científicas alcançadas pelo homem, bem como

seus efeitos contrários. Mesmo com tantas certezas, há sempre

a apreensão diante do que não se pode planejar com certo grau

de precisão. Utopias trazem certezas e, também, muitas

dúvidas. O mundo que se debruçou sobre o século XX mostrou

sua face mais idílica e otimista, mas não conseguiu esquecer o

temor do porvir. Ainda assim, modernidade combina com

avanço e – nesse caso – progresso. Que se esqueça o cometa

ou o inconsciente em nome dos ganhos e da civilização. Era

essa face brilhante do teatro da modernidade que o Brasil

pretendia acompanhar, já que não era possível tomar a

dianteira.

Ao tratar da literatura brasileira à época, como que montando um panorama rápido, lemos no citado programa de A Nova Revista:

Temos poetas notaveis, excellentes rimadores, cujos versos

fluem num maravilhoso cascatear de gemmas sonoras, poetas

que sabem tecer bellas estrophes de amor, concretisando a

vida no objecto amado, temos romancistas igualmente notaveis,

ainda que em numero relativamente pequeno, autores de

comedias e operetas: fantasiosos contadores de historias

galantes; mas o talento d'elles é absorvido pela obrigação diaria

de escrever para os jornaes, ou, o que é peor, fenece no elogio

muttuo, asphixiado pelo incenso das oblações reciprocas.

E o programa da revista parece ser ainda mais severo ao afirmar: "D'essa falta de disciplina intellectual nascem as producções mórbidas, inconscientes e de modo algum proveitosas à Arte": É importante destacar que valores como disciplina e consciência foram sempre importantes para Adolfo Caminha. Assim, os novos tempos requeriam novos sujeitos para uma nova literatura, muito mais funcional como já haviam se mostrado as invenções e os novos objetos que, aos poucos, invadiam o cotidiano, incluindo o brasileiro. Portanto, era preciso formar um novo tipo de escritor para um novo tipo de discurso; enfim, novos sujeitos, novas práticas e novos objetos que acordassem com os supostos novos tempos em que o Brasil pensava em viver. O programa da revista continua pintando esse quadro ideal:

A nossa actividade jornalistica é prodigiosa, mas se formos

rigorosamente aquilatar o que produzimos na critica, no

romance, no conto e no verso, nenhuma obra se nos impõe

com a grandeza e a força de um poema cyclico ou de uma

creação excepcional.

A bohemia literaria desappareceu com o Romantismo. A arte de

hoje, como a arte do futuro, há de ser grave, mesmo no ridiculo,

para sobreviver: – grave, digamos, estudada e sincera. O seu

logar é entre a philosophia e a sciencia, com as quaes deve

marchar.

Para uma nova literatura não poderia haver outro lugar senão esse que o programa de A Nova Revista lhe reservou e assim o programa foi concluído: "Já ninguém ousa impunemente evangelisar absurdos e falsas crenças literarias. O momento é o mais opportuno para a renovação. Admiremos a bohemia nas deliciosas e queridas paginas de Henri Mürger e trabalhemos com verdadeira fé no nosso ideal". Até então vimos o programa como um projeto, uma projeção das vontades dos seus editores; no entanto, é preciso considerar o que de fato se realizou desse projeto.

O programa de fato

Nos nove números de A Nova Revista, o lugar da literatura foi entre a ciência e a filosofia. O maior número de textos publicados foi de ficção: 18 contos; 19 poemas, na sua maioria sonetos; um texto de teatro: O hóspede. Tratava-se de um drama em cinco atos e seis quadros a propósito do romance Casa de pensão, de Aluísio Azevedo; um trecho do romance O Simas, de Pápi Júnior; e um poema em prosa. Foram publicados também 11 ensaios de crítica literária; um de política; dois de filosofia; um de economia; um de direito; dois de história; três de história literária; e uma tradução. Dito desse modo, parece pouco significativo; no entanto, a análise qualitativa do material publicado é bem mais importante para o tipo de análise que desenvolvemos. Destacamos o fato de que, no caso de A Nova Revista, Adolfo Caminha teve a oportunidade de transformar manuscritos em textos impressos, o que se configura como uma das atividades do editor.

Quanto à poesia, é importante destacar que parte significante do que foi publicado em A Nova Revista é de poemas simbolistas, como no número 1: "Tarde do Egypto", de Rodrigues de Carvalho; "Succube", escrito em francês, de Pethion de Villar, que era o poeta

baiano Egas Moniz Barreto de Aragão;20 no número 2 temos "Angelus", de B. Lopes, em que trechos da oração AveMaria são usados como refrão; "Réquiem do sol", de Cruz e Souza; "Inverno", de Frota Pessoa; "Épitaphe", do já citado poeta francês Louis Pilate de Brinn' Gaubast. No número 3 temos "Valle de Josaphat", de Alves de Faria; "Consoladora dos aflictos", de Franco Jatuba. No número 4 foram publicados os sonetos "Morta", de Silveira Netto; "Rencontre", de Louis Pilate de Brinn'Gaubast; "Constantinopla", de Rodrigues de Carvalho, dedicado a Guilherme Studart.

Já no número 5 deu-se a publicação do soneto "Tulipe noire", também em francês, do baiano Pethion deVillar; uma "Écloga", ou seja, uma poesia bucólica em que pastores dialogam, de Carlos Coelho. No número 6 foram publicados "Branca", de Silveira Netto; "Musa convalescente", de Julio Cesar da Silva, em que o poeta pinta um quadro funesto da sua musa: Gosto de ver-te assim, Musa, em convalescença:/ Fracos os membros, mansa a voz, tremula, o rosto/ Tão chupado e sem côr, tão magro e descomposto,/ Que inda lembra a feição que lhe imprimiu a doença". Nos números 7 e 8 foram publicado os sonetos "Visão", de Oscar Rosas, e "Merencória", de João Rego; "Suavíssima", de Xavier de Carvalho; "Succubat", mais um soneto em francês do poeta baiano Pethion deVillar. No último número da revista foram publicados "Alvorada", do cearense Rodrigues de Carvalho; "A caridade", de Fontoura Xavier; outro poema de Pethion de Vilar, mas esse em português, intitulado "A aranha".

Parada para reflexão I

Como vimos, não são poucos os poetas simbolistas que publicaram nas páginas de A Nova Revista. É até possível fazer uma coletânea dos poemas ali publicados. Se a revista teve uma vida efêmera, será que esses mesmos poemas foram publicados em outros órgãos ou ficaram restritos às suas páginas? A aproximação de Caminha dos chamados "novos" ou "nefelibatas", termo usado para referir-se aos poetas que hoje conhecemos como simbolistas, fez surgir um comentário de José Veríssimo. Esse, apesar de sequer citar o nome de Adolfo Caminha ou os títulos de suas obras na sua História da literatura brasileira, de 1916, não deixou de estranhar o fato citado:

O malogrado Sr. Adolfo Caminha, a quem sobrava talento, mas

a quem escasseava em grau não comum o senso crítico, tinha-

se feito o chefe dos "novos". Por singular aberração, que é a

mais eloqüente prova de quanto acerto asseverando que os

"novos" não compreendem o movimento que dizem seguir, o Sr.

Adolfo Caminha foi toda a vida um naturalista, isto é, pertenceu

à escola contra a qual, como ninguém ignora senão eles,

principalmente se fez aquele movimento. O seu último livro

Bom-crioulo, publicado quando já os nossos simbolistas,

decadistas, nefelibatas, místicos e quejandos agrupavam-se em

torno dele, é feito segundo os moldes do mais puro zolismo.

Este fato somente basta para mostrar o desconcerto que vai

entre eles, a incoerência das suas idéias, o indeciso e o

inconsistente da sua estética. (Veríssimo, 1976, p.80)

Ao certo, não há uma explicação para essa aproximação de Adolfo Caminha dos "novos", a não ser o fato de que todos – eles e os novos – estavam igualmente à margem do sistema literário. Sânzio de Azevedo (1990, p.122) tratando do fato afirmou:

Quanto ao fato de Caminha haver espalhado tantas farpas

contra os nefelibatas no livro de crítica e no ano seguinte estar

ombro a ombro com muitos deles poderia ser explicado pelo

processo de marginalização a que eram submetidos tanto

Adolfo Caminha quanto os simbolistas, pelos que eles viam

como representantes da "literatura oficial".

É certo que, em suas Cartas literárias, Caminha muito criticara os poetas que à época eram chamados de "novos", "nefelibatas" e "decadistas", os mesmos que hoje conhecemos como simbolistas; mas, tão certo quanto esse fato atestado inúmeras vezes nas páginas de seu livro citado, é que Adolfo Caminha (1999a, p.23) soube reconhecer o valor da poesia de Cruz e Souza quando esse, mais do que a crítica à sua poesia, sofria o preconceito racial:

Se me perguntassem, porém, qual o artista mais bem dotado

entre os que formam a nova geração brasileira – pergunta

indiscreta e ociosa – eu indicaria o autor dos Broquéis, o

menosprezado e excêntrico aquarelista do Missal, muito

embora sobre mim caísse a cólera olímpica do Parnaso inteiro.

Erro, talvez, de observação e de crítica, mas o certo é que eu

vejo em Cruz e Souza um poeta originalíssimo, de uma rara

sensibilidade estética, sabendo compreender a Arte e respeitá-

la, encarando a vida com a independência de quem só tem um

ideal – a perfeição artística. (grifo nosso)

Em desdobramento, podemos concluir que, para Adolfo Caminha, o que estava em discussão era o alcance artístico do poeta e não uma restrita aplicação programática da arte. Além desse fato, vale destacar que o simbolismo como movimento e estética se opôs aos valores sociais e artísticos advindos do processo crescente de industrialização do período. A esse respeito afirmou Alfredo Bosi (1975, p.297):

O irracionalismo literário não é capaz de substituir em forma e

universalidade as crenças tradicionais; nem o seu alheamento

da ciência e da técnica vai ao encontro das necessidades das

massas que ocuparam o cenário da História neste século e têm

clamado por uma cultura que promova e interprete os bens

advindos do progresso. Daí os limites fatais da influência. No

entanto, o irracionalismo dos decadentes valeu (e poderá ainda

valer) como sintoma de algo mais importante que os seus

mitemas: o incômodo hiato entre os sistemas pretensamente

"racionais" e "liberais" da sociedade contemporânea e a efetiva

liberdade do homem que as estruturas sócio-econômicas vão

lesando na própria essência, reduzindo-o a instrumento de

mercado e congelando-o em papéis cada vez mais oprimentes.

Os Simbolistas – como depois os vanguardistas surrealistas e

expressionistas – tiveram esta função relevante: dizer do mal-

estar profundo que tem enervado a civilização industrial; e o

fato de terem oferecido remédios inúteis, quando não

perigosos, porque secretados pela própria doença, não deve

servir para tardias excomunhões.

Colocando-se então como oposição ao racionalismo excessivo das crenças cientificistas, oriundas no bojo da industrialização, o simbolismo, de certo modo, encontrou par no pensamento de Adolfo Caminha, pois esse, nas páginas do já citado jornal O Pão, na sua coluna "Sabbatina", assinada com o pseudônimo Felix Guanabarino, criticou a invasão de hábitos franceses na cultura local cearense, que desestimulava os folguedos, que Caminha tanto estimava. Se em alguns momentos Caminha encantou-se com a civilização e o progresso, e isso é um fato em seus artigos, em outros momentos ele se mostrou consciente de que esse processo não era para todos e que nem todos os seus efeitos eram benéficos:

E o bumba meu boi? e os congos? e os fandangos? e todas

essas festas tradicionaes que o povo se incumbia de crear para

gaudio dos rapazes alegres?

...Tudo, tudo vai desapparecendo com o patriotismo nacional. O

Natal, como o S. João e como todas as festas de caracter

popular – vai degenerando em festa aristocratica.21

É ainda do jornal dos Padeiros, porém, que vem um interessante exemplo do que, de fato, interessava ao crítico Adolfo Caminha. Vejamos o que nos tem a dar O Pão:

Entre as novidades assombrosas d'estes ultimos tempos

nenhuma tão original, tão fim de século, como os sonetos

materialistas do Snr. Mario Chaves, que a Republica tem

publicado a guisa de papa-fina. Ao que nos parece toda a obra

de Darwin e Búchner vai ser traduzida em versos nephelibatas

pelo jovem(?) anthropologista.

Aqui para nós: o Snr. Mario Chaves faria muito melhor e

prestaria ate um serviço relevante ao leitores da "Republica" si,

em vez de poesias materialistas, escrevesse alguma cousa

mais util e menos indigesta, não só porque pouparia-nos o

trabalho de ler poesia sem arte, como também aproveitaria a

sua inteligencia, alias aproveitavel; dedicando-se a um estudo

serio da origem e evolução do homem. Sim, porque o Snr.

Chaves, discutindo em versos mau feitos, jamais achará a

chave da magna questão. Isso de rimar anthropoide com

concoide, terciario com "quaternario, geologico" com

cosmologico, afinal de contas é perder tempo e papel ou, como

lá diz o outro, malhar em ferro frio.

Concitamos o Snr Mario Chaves a estudar mais e a escrever

menos...puerilidades.22

Nesse trecho de O Pão, vemos mais uma vez que, para Adolfo Caminha, o que estava sendo analisado era o trabalho do poeta com a palavra e não o seu trabalho em razão de um ou de outro programa estético. Mario Chaves escrevia "poesias materialistas" a partir da obra de Darwin e Buchner, no entanto o fazia à moda dos nefelibatas. Em ambos os casos, isto é, seja pela fonte, seja pela forma, o crítico Adolfo Caminha, assinando-se Felix Guanabarino, não achou que o trabalho do poeta estivesse justificado. Ou seja, para Caminha não importava se o poeta defendia ou não o evolucionismo de Darwin como uma das correntes de pensamento que mais marcaram aqueles anos juntamente com outras de forte influência cientificista, o que importava era o valor poético. Assim, as relações, aparentemente contraditórias, de Adolfo Caminha com os novos estampadas nas páginas de A Nova Revista podem ser desse modo compreendidas.

Mais do que contradições, parece haver um projeto próprio, com razões, interesses e fundamentos pessoais; há, portanto, uma economia de ideias que nem sempre é utilizada com toda coerência ou usada com uma coerência interna cuja lógica é mutável. É importante lembrar também que Adolfo Caminha escreveu o conjunto de sua obra no momento em que o romantismo, o realismo, o naturalismo, o parnasianismo e o simbolismo eram estéticas vigentes, senão com toda a força de seus primeiros dias, como no caso do romantismo, mas ainda circulantes e mobilizadoras dos leitores, entre eles o próprio Caminha.

A sua obra foi produzida no cruzamento dessas estéticas e deve ser por esse fato que ele defendeu José de Alencar, Aluísio Azevedo e Cruz e Souza, ou seja, três escritores de estéticas e programas literários diferentes. Também sabemos que o movimento simbolista brasileiro não era marcado por uma unidade de fazeres, o que, de fato, nenhum movimento o foi, pois cada movimento é operado por inúmeros poetas, o que faz que cada um deles possa, mais ou menos, seguir padrão e programa próprios. A esse respeito afirmou Alfredo Bosi (1975, p.300):

Há, por outro lado, uma diferenciação temática no interior do

Simbolismo brasileiro: a vertente que teve Cruz e Souza por

modelo tendia a transfigurar a condição humana e dar-lhe

horizontes transcendentais, capazes de redimir-lhe os duros

contrastes; já a que se aproximou de Alphonsus, e preferia

Verlaine a Baudelaire, escolheu apenas as cadências elegíacas

e fêz da morte objeto de uma liturgia cheia de sombras e sons

lamentosos. Quanto aos "crepusculares", distantes de ambas,

prefeririam esboçar breves quadros de sabor intimista: mas a

sua contribuição ao verso brasileiro não foi pequena, pois

abafaram o pedal das excessivas sonoridades a que se haviam

acostumado os imitadores de Cruz e Souza.

Analisando a poesia de Teófilo Dias, e citando como exemplo o seu soneto "Ruínas", afirmou Wilson Martins (1996, v.IV, p.32):

O mais curioso é que, graças ao processo psicológico que fez

do Simbolismo, em grande parte, uma revivescência da escola

de 1830, o romantismo retardatário deTeófilo Dias corresponde,

por vezes, a uma clara antecipação da poética simbolista.

Aí [no soneto Ruínas] está tudo do futuro Simbolismo: o

vocabulário ("coruchéus", "catedrais", "déspotas feudais",

"viajores"); a temática (castelos, ruínas, idades desaparecidas,

misticismo); o estilo musical e melódico, mais sugestivo do que

descritivo, apesar das aparências. Claro não se trata de escola

simbolista, mas de poesia simbolista, aliás comum entre os

românticos.

Vemos, portanto, que escolas literárias são diferentes de realizações literárias, que essas podem antecipar recursos que serão sistematizados como pertencentes a um programa estético, a um movimento ou grupo literário. Vemos também a atuação da atividade pessoal do poeta, antecipando efeitos, vocabulário, imagens, estilo.

Aquele desconforto de José Veríssimo diz-nos não somente de Adolfo Caminha e da sua análise crítica, mas, sobretudo, da tradição da crítica literária brasileira que buscou ao longo de sua história e na prática dos seus fazeres analisar a regra e não a exceção, e ao fazê-lo, não soube que fim dar à descontinuidade, à fissura, à quebra, à dobra, à rugosidade que encontrava em seu caminho. Se não passou tudo a ferro para assim arrefecer as tensões e continuar escrevendo sobre uma superfície lisa, a crítica literária foi buscando meios de (des)qualificar essas situações, fosse no caso de adesões intelectuais, fosse no de filiação de obras e autores. Flora Süssekind (1984, p.33-4), analisando a paternidade autoral, afirmou:

Quando tal obra não corresponde a tal escritor e tal escritor, por

sua vez, a tal tradição literária, não é mais a família mas uma

cultura nacional que se deixa invadir pela inquietação. Uma

cultura cujos baluartes também estão fixos como a galeria de

retratos familiares no museu de La Nausée ou os ramos de uma

árvore genealógica dos Buddenbrook. Uma literatura tem sua

tradição equilibrada pela pedra das estátuas de seus "grandes"

escritores, pelas prateleiras de suas assépticas bibliotecas, pela

filiação de uns a outros, pela enumeração de escolas diferentes

que se sucedem" logicamente", pela continuidade de um

conjunto de obras e nomes que, sem ambigüídades, parecem

repetir-se numa trajetória idêntica.

A literatura de um país patriarcal, conservador, racista, misógino, sexista e homofóbico como o Brasil estava (ou está?) condenada aos valores da família, do respeito à ordem, ao progresso, à continuidade, à unidade, à lógica, não havendo, portanto, lugar para o fragmento, a contradição, o incerto, a diversidade, o hiato, a dúvida, a quebra, o rompimento, a fenda. Além disso, a literatura brasileira de fato e de direito esteve sempre preocupada com o nacional. O seu motivo é o empenho, como a designou Antonio Candido (2006, p.28- 30) – literatura empenhada: "Este ponto de vista, aliás, é quase imposto pelo caráter da nossa literatura, sobretudo nos momentos estudados; se atentarmos bem, veremos que poucas têm sido tão conscientes de sua função histórica, em sentido amplo". Tratando da "renovação literária" a partir da chamada "Geração de 1870" no Brasil, afirmouWilson Martins (1996, p.36): "As letras podiam e deviam concorrer para instituir o processo permanente do melhor na sociedade civil e política: o intelectual não podia permanecer silencioso, assim como tinha o dever de ser progressista e avançado".

Assim, nessa tradição da lógica, uma obra fendida é uma obra mal-acabada; é objeto cujo feitor não soube lidar com a matéria-prima disponível, no caso específico da literatura, a palavra; e no caso mais específico da literatura brasileira, a palavra em razão da nação. A lógica requerida pela tradição literária brasileira seria o caráter missionário de dizer o que é ou o que seria o Brasil, de conformar o corpo da nação, de dar-lhe um rosto. A tradição da crítica literária brasileira não soube lidar com as transgressões dos autores e o resultado dessas em seus textos. Para tal, a crítica literária procurava um qual (e estes tal e qual são para lembrar de Flora Süssekind) que os definissem mesmo que de modo indefinido: "obra menor", "texto circunstancial", "obra bissexta" etc. Süssekind (1984, p.34), ao tratar dessa tradição, afirmou:

De pai para filho, de um escritor a outro, de um período a outro,

espera-se que se repita a tradição transmitida senão

hereditária, ao menos literariamente. O texto deve reforçar as

características previamente conhecidas de seu autor. Deve,

antes de tudo, reforçar a própria noção de Autoria. Como,

afinal, fazer a estátua de alguém cujo perfil está cheio de

ambigüidades e rupturas? Deve, por fim, se tornar legível à

imagem e semelhança de sua própria nacionalidade. Como

reconhecer um texto que, ao invés de reforçar a identidade

nacional, produza inquietantes fragmentações? Como chamá-

lo? Parricida, bastardo, estéril? (grifo da autora)

É nesse sentido, então, que a aproximação de Adolfo Caminha dos "novos" institui um problema, não para ele somente, mas para aqueles que buscarem a compreensão de sua obra a partir da ideia de unidade, seja essa unidade formal ou temática, o que resulta em uma compreensão da categoria autor distante da diversidade. Nessa tradição, o editor deve manter-se mascarado, distante do autor de ficção, pois esse fora fichado e rotulado pela crítica literária como naturalista. A sua atuação de editor dos novos" seria como uma mancha em sua folha corrida de autor, o que o enquadraria como marginal de si mesmo. O que fazer com essa falha de Caminha? É o que se perguntaria o crítico tradicional, ou seja, o crítico que buscasse a verdade da obra. Ele talvez a escondesse, relegando o estudo da sua atuação como editor a um interesse menor dos estudos literários propriamente ditos, pois essa tradição nunca expôs as fraturas da nossa literatura, e se as expôs foi para mostrá-la como exemplo de seu desacerto.

Assim, a percepção desse problema e o diálogo com Süssekind reforçaram a compreensão que temos defendido a propósito do autor e da autoria, e, no caso de Adolfo Caminha, a sua conceituação como polígrafo. A poligrafia é, então, a reabertura dessa fenda por onde escapariam os supostos "fantasmas" do autor: o crítico, o jornalista, o editor. Não é por acaso que o estranhamento de José Veríssimo tenha sido tamanho, pois a obsessiva tradição da literatura brasileira de dizer a verdade parece não ter sido contemplada pelo simbolismo. Além disso, Veríssimo não via com simpatia essa estética literária: "José Veríssimo, que não apreciava nem o ideário nem a estética simbolista, chamou à corrente 'produto de importação'" (Süssekind, 1984, p.298).

Ainda sobre a desvinculação do simbolismo dos "problemas nacionais", afirmou Bosi (1975, p.301):

O fenômeno histórico do insulamento no fim do século XIX não

deve causar estranheza. O movimento, enquanto atitude de

espírito, passava ao largo dos maiores problemas da vida

nacional, ao passo que a literatura realista-parnasiana

acompanhou fielmente os modos de pensar, primeiro

progressistas, depois acadêmicos, das gerações que fizeram e

viveram a 1a. República. E é instrutivo notar: a expansão dos

grupos simbolistas no começo do século correu paralela à do

Neoparnasianismo. A novidade de Cruz e Souza precisou

descer ao nível da maneira e academizar-se para comover a

vida literária de alguns centros menores do país e partilhar,

modestamente aliás, a sorte dos epígonos parnasianos.

Além disso, devemos destacar o fato de que o contato de Adolfo Caminha (1999a, p.131) com o simbolismo já se dera em Fortaleza, quando ele participava da Padaria Espiritual. Em suas Cartas literárias lemos: "O único volume do Só, que aparecera misteriosamente na província, andava de mão em mão, era lido e relido, e entrava-nos pela alma como um jorro de luz setentrional, como uma onda quente de vida nova. O Só era a nossa bíblia, o nosso encanto, o nosso livro sagrado". Era também da Padaria o poeta Lopes Filho, que em 1893, portanto no mesmo ano em que Cruz e Souza teve publicado os seus Broquéis e Missal, deu à publicidade o seu livro Phantos. Sânzio de Azevedo (1976, p.209), a respeito do simbolismo no Ceará, defende a ideia de que a sua fonte era Portugal e "sem influência portanto do grupo da Folha Popular, do Sul do país, onde pontificava Cruz e Souza". Assim, a convivência de Adolfo Caminha com a estética simbolista já se iniciara em Fortaleza.

Retorno adiante: os contos em A Nova Revista

Voltemos, porém, à revista e vejamos os contos que foram publicados nas suas páginas, pois eles também são exemplos desse diálogo de Caminha com os simbolistas, o que não quer dizer que todos os contos publicados sejam simbolistas, bem como seus autores. No número 1 de A Nova Revista foram publicados os contos "Os zíngaros", de Collatino Barroso; "Poema do amor", uma espécie de poesia em prosa, de Frota Pessoa; "Um Stradivarius", de Evangelista da Silva. No número 2 foram publicados Goso secreto", de "Gonzaga Duqu'Estrada, e "Agonias", de Nestor Vitor. No número 3, "Via sacra", de Arthur de Miranda; "Bucólica", de Julio Perneta; "Job", de Oliveira Gomes, e "Pandemônio", de Collatino Barroso.

No número seguinte "Per Tenebras", de Frota Pessoa; "A musa da comedia", de Evangelista da Silva; "Para depois", de Raul Braga; "Visões", de Candido Jucá. O número 5 teve apenas uma publicação em prosa: "Perfil de mulher", de Afonso Celso. O mesmo aconteceu no número 6 com apenas a publicação de "Cinza", de Cunha Mendes. Nos números 7 e 8 foram publicados: "Diluencias musicaes", de Arthur de Miranda; "Oficio fúnebre", de Raul Branco; "A tarde no sertão", de Francisco Pacheco. e "Almas doentes", de Antonio Austregésilo. No último número foram publicados "A cachopa", de F. Carneiro, e "In Extremis", de Frota Pessoa.

Dos contistas aqui citados, são simbolistas: Collatino Barroso, Oliveira Gomes e Antônio Austregésilo, todos eles figurando no Panorama do movimento simbolista brasileiro, de Andrade Muricy. Vimos que Oliveira Gomes era o secretário de A Nova Revista, informação essa que não consta nos dados a seu respeito no citado Panorama. Sabemos, no entanto, que Oliveira Gomes passou por vários periódicos antes e após seu trabalho em A Nova Revista, como: a revista Vera-Cruz, órgão da sociedade que fundou com colegas chamada Os Novos; na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, onde Adolfo Caminha publicou as suas Cartas literárias, foi responsável pela organização e direção do Almanaque. A atuação de Oliveira Gomes no jornalismo foi intensa, ao ponto de Andrade Muricy (1951, v.2, p.112) afirmar:

A partir de 1906 não mais publicou trabalhos literários. O

jornalismo absorveu-o quase totalmente. Só fêz exceção para

alguma produção teatral, como a opereta do tipo das vienenses,

então em maior voga, que fêz representar por volta de 1909.

Depois de passar por vários jornais, entrou definitivamente para

A Notícia, onde foi primeiramente cronista teatral, e por fim

redator-chefe, função em que se conservou até à morte. "O

diretor tudo lhe confiava. Fôra-lhe o braço direito, tal o apuro e a

atividade que desenvolvia Oliveira Gomes na organização das

edições do simpático diário vespertino. Notícias, folhetins,

crítica, distribuição da matéria, o que dizia respeito ao bom êxito

da fôlha, durante ao menos algum tempo, dependia da

dedicação de Oliveira Gomes. Moirejava e aniquilava-se».

Vemos por essa citação que Adolfo Caminha se cercara de um profissional de reconhecido valor para a edição de A Nova Revista. O bom conhecimento de Oliveira Gomes a respeito do funcionamento dos jornais e revistas à época foi o que certamente o uniu a Adolfo Caminha naquela que foi a sua última empresa no jornalismo literário.

Apesar de não haver uma delimitação formal, uma primeira parte da revista era dedicada à ficção. Os artigos das demais áreas do conhecimento estavam agrupados em uma segunda parte, na qual também estavam os artigos de crítica literária, alguns deles escritos pelo próprio Adolfo Caminha, os demais eram de autores diversos como veremos na relação a seguir. No número 2 deu-se a publicação de "Os mortos", assinado simplesmente por W, em que se comentou sobre os escritores João de Deus, Paul Verlaine e Ambroise Thomas; o artigo "Pompeyo Gerner", de Adherbal de Carvalho, sobre o livro Literaturas malsanas. No número 3 foram publicados "Zola e os novos", de Adherbal de Carvalho; nas seção "Chronica de Arte" desse mesmo número foi publicado "Illustrações e Illustradores", de Gonzaga Duqu'Estrada. Nos números 7 e 8 lemos "Harpa Nocturna", de Sylvio Romero, sobre romance um homônimo.

Jornalismo, literatura e quem mais chegar

Também em A Nova Revista foram publicados artigos de diversas áreas do conhecimento, como filosofia, direito, economia, história, história literária. No número 1, o jurista Clovis Bevilacqua teve publicado o seu artigo "Repercussões do pensamento philosóphico sobre a mentalidade brazileira", que só foi concluído no número 3. Nesse mesmo número foram publicados: "O velho e novo mundo", de Francisco Pacheco, mais conhecido como Fran Pacheco, que era amigo de Caminha; "As Arcadias", de Theodoro Magalhães, que continuou no número 2. Além da continuidade dos artigos citados, no número 2 foi publicado "O Evangelho socialista", do já citado Francisco Pacheco. No número 3, "A doutrina Monroe", de A. J. Lamoureux, que, segundo consta em uma nota de rodapé, foi traduzido do inglês.

No número 4 foram publicados os" Ensaios Philosophicos", de Antonio Austregesillo, cuja publicação continuou no número 5. Neste mesmo número foi publicado o artigo "Finanças Brazileiras", de Hugo Bussmeyer, que teve continuidade no número 6, no qual também lemos "Os Theatros", de Oliveira Gomes, que, como vimos pela citação de Andrade Muricy, fora autor de operetas do tipo vienenses em voga à sua época. Esse artigo de Oliveira Gomes continuou a ser publicado nos números 7, 8 e 9 de A Nova Revista, "Lingua Portugueza", de Francisco Pacheco. Nos números 7, 8 e 9 tivemos publicado um longo artigo intitulo "A obra junqueiriana", novamente de Francisco Pacheco. Ainda nos números 7 e 8 tivemos o artigo "O direito de punir", de Theodoro Magalhães, que continuou no número 9. Nesse número, além das continuidades dos artigos anteriores, foi publicado o artigo "A Galáxia", de Raul Braga.

Parada para reflexão II

Esse arrolamento de poemas, contos, artigos dos mais diversos tipos e assuntos, bem como o nome de seus autores serve para demonstrar e problematizar o quanto a literatura se fez e se faz a partir de uma rede de contatos, de uma rede de relações em que a amizade e os interesses os mais diversos, sejam eles estéticos e econômicos, ajudam a conformar o sistema literário ou, de forma mais ampla, o campo literário. Aquilo que a história da literatura ou a história literária tendem a tornar homogêneo é, de fato, diverso e, sobretudo, controverso. Fez-se no exercício diário das redações de jornais e revistas, nas conversas entre pares, nos embates e nas uniões em torno do que poderia em comum provocar o interesse de todos: a literatura. No caso de A Nova Revista, cada nome aqui citado funcionava como um divulgador.Vemos que, entre esses nomes, alguns são consagrados, como era o caso de Sylvio Romero e Clóvis Bevilacqua. Outros tantos não constam do restrito grupo dos canônicos; no entanto, são exemplo de que a literatura se faz com o trabalho de inúmeros sujeitos, sejam eles os que estão na dianteira dos fatos ou sejam eles epígonos, ou ainda, lembrando aqui Robert Darnton, "os intermediários esquecidos da literatura".

Dos nomes citados, muitos só figuram em obras específicas a respeito de escolas ou estéticas literárias, como é o caso, por exemplo, do Panorama do movimento simbolista brasileiro, de Andrade Muricy. A obra de muitos desses escritores, grande parte deles também polígrafos, o que confirma a poligrafia como uma característica do século XIX, mas não somente dele, encontra-se ainda por publicar. Algumas obras ainda esperam por ser recolhidas nos periódicos literários e nos periódicos noticiosos no Brasil, o que também reforça a importância do estudo das fontes hemerográficas para a pesquisa em literatura.

Livros e revistas na vitrina

Infelizmente, nos números de A Nova Revista existentes no acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa não constam as capas, como já temos dito, o que nos impediu, por exemplo, de verificar se essa revista, assim como o jornal O Diário, vinculava algum anúncio comercial. No entanto, no material analisado no caso do periódico carioca, valorizamos as suas chamadas "Notas Bibliographicas" nas quais estão listados os títulos recebidos na redação de A Nova Revista. No caso do seu primeiro número, há uma "Synopse do movimento literário no Brazil de 1895", algo como já o fizera Araripe Júnior no seu artigo "Movimento literário do ano de 1893".

No caso de A Nova Revista, trata-se de algo bem mais simples, pois como o próprio título deixou claro, era uma "synopse", que fora organizada em cinco tópicos – poesia, conto, romance, crítica e obras diversas – seguido de mais um intitulado: Os livros de sciencia, philosophia, politica etc. publicados em 1895. Destacamos o fato de a revista dar publicidade a vários livros de poesia publicados, em 1895, no Ceará, como Trovas do Norte, de Antônio Sales; Clamydes, de Ulysses Sarmento; Os pescadores da Tahyba, de Alv. [Álvaro] Martins; Cromos, de Xavier de Castro. Dos romances, encontramos citados: Os brilhantes, de Rodolfo Teófilo, e Bom-Crioulo, do próprio Adolfo Caminha, sem designá-lo como sendo do Ceará, talvez porque o livro fora publicado no Rio de Janeiro.

Trovas do Norte foi o segundo livro de poemas de Antônio Sales, publicados cinco anos após aquele com que estreara em 1890: Versos diversos. A propósito desse, bateu-se com Adolfo Caminha na imprensa do Ceará. Os desentendimentos, felizmente, não foram suficientes para impedir que Caminha fosse convidado por Sales para fundar com ele e outros a Padaria Espiritual como também já vimos. Sobre Ulysses Teixeira da Silva Sarmento sabemos apenas que nasceu no Espírito Santo, indo ao Ceará como aluno da Escola Militar. Em Fortaleza, fez parte do Centro Literário, do qual fora um dos membros fundadores. Em 1895 o seu nome não consta mais na lista de sócios do Centro, como constara no ano anterior. Clamydes, diferentemente do que se pode concluir pela leitura de A Nova Revista, não é de 1895, mas de 1894. A seu respeito afirmou Sânzio de Azevedo (1996, p.175): "Publicou Clâmides (1894), livro imperfeito, que não pode ser qualificado de parnasiano, mas se ressente de forte influência bilaquiana".

Álvaro Martins, que também fora o padeiro Policarpo Estouro da Padaria Espiritual, desligou-se dela mesmo tendo sido um de seus fundadores e migrou com Temístocles Machado, seu confrade de forno, para o Centro Literário de onde hostilizava aquele grêmio. No jornal abolicionista Libertador assinava com o pseudônimo de Alvaris. Álvaro Martins, segundo Sânzio de Azevedo, militou no jornalismo carioca ao lado de José do Patrocínio. Os ditos Pescadores da Tahyba, de 1895, foi o seu livro de estréia. O livro de Xavier de Castro ou X. de Castro, conhecido entre seus amigos Padeiros como Bento Pesqueiro, foi publicado postumamente por esforço da Padaria Espiritual. Sânzio de Azevedo (1976, p.96-7), a respeito do citado Cromos, afirmou:

situam-se perfeitamente dentro daquela tendência que Péricles

Eugênio da Silva Ramos chamou de Realismo Agreste, e que,

tendo como principal representante no Brasil o poeta B. Lopes,

teve sua origem na "influência de Gonçalves Crespo, conjugada

a certa linha ingenuamente campesina de nossos românticos".

Não foram, porém, somente os autores cearenses que constaram nesse arrolamento de livros publicados naquele ano. Juntaram-se a eles cariocas, mineiros, gaúchos, paulistas, paraenses, o que evidencia o conhecimento de livros publicados em vários estados do país, o que conferia ao periódico um certo caráter nacional e dava a Adolfo Caminha o conhecimento do que se fazia em outras cidades. É preciso, portanto, estar atento a esse fato: a recepção e divulgação de livros em A Nova Revista fazia que ela fosse uma vitrina do que se produzia e certamente possibilitava a Adolfo Caminha a leitura de vários desses títulos, podendo eles também figurarem em sua biblioteca de formação. A partir do número 2, as "Notas Bibliographicas" passaram a ser organizadas em duas seções: "Livros" e "Revistas". No entanto, cada livro e periódico passou a ser comentado, como numa espécie do que hoje chamamos de resenhas, tão comuns atualmente nos jornais de circulação no país.

A citada seção do número 2 de A Nova Revista traz a seguinte nota quanto aos livros: "Não incluimos nesta secção as obras publicadas em annos anteriores a 1896, algumas das quaes nos foram enviadas.Vamos registando aqui os livros nacionaes e estrangeiros de que tivermos noticia, mas a começar de janeiro deste ano, sem excluirmos, comtudo, as novas edições". Nesse número 2 foram citados os livros Pátria, de Guerra Junqueiro; Amor, de Figueredo Pimentel. De revistas citadas: Arte, os dois primeiros números da revista editada em Coimbra por Eugenio de Castro. No caso dessa revista de Coimbra temos o retorno à nota a respeito do poeta francês Louis Pilate de Brinn'Gaubast: "O segundo numero traz o retrato de Louis-Pilate de Brinn'Gaubast, o notavel poeta francez (embora nascido na Luiziania...) que nos honrou com a sua collaboração, acompanhado de umas notas bio-bibliographicas do autor de Epithaphe e Rencontre".

La Revue Blanche, de primeiro de fevereiro de 1896, também foi brevemente comentada, destacando-se de suas páginas uma polêmica entre Zola e Verlaine. Seguem a essa revista os comentários a respeito de A Bruxa, revista dirigida por Olavo Bilac e Julião Machado. Ao final do comentário, A Bruxa foi chamada de "Moderna e scintillante". Tiveram também lugar nas "Notas Bibliographicas" os periódicos: Revista Contemporanea, de Recife; A Madrugada, de Lisboa, destacando os comentários sobre o poeta português João de Deus e informando que a primeira página do número de janeiro daquele ano era estampada por um retrato de Aluísio Azevedo; A Penna, publicada no Ceará, a respeito da qual afirmou:

A uma força de vontade realmente digna de applausos devem

os redactores d'A Penna a manutenção deste periodico, em que

figuram os nomes conhecidos de Thomaz Pompeu, Justiniano

de Serpa, Alvaro Martins, Rodrigues de Carvalho, Lopes Filho e

outros. É notavel a abundancia de revistas literarias que surgem

e desapparecem na capital cearense; mas A Penna, fazendo

excepção á regra e desdenhando da indifferença habitual do

burguez politicante, que lê as folhas para ver o seu nome nos

editaes ou nas felicitações de anniversario – dá um bello

exemplo de tenaz relutancia. (os grifos são do autor)

Não podemos dizer ao certo que o resenhista era Adolfo Caminha; no entanto, pelo conteúdo dessa citação sobre A Penna, vemos que se tratava de um conhecedor do jornalismo literário cearense. As palavras grifadas, sobretudo a expressão "burguez politicante", pertencia ao repertório de expressões usadas por Adolfo Caminha para caracterizar os seus desafetos no campo literário cearense, bem como foi usada várias vezes em O Pão, órgão dos Padeiros contra quem os burgueses de Fortaleza se mostravam contrário. Anteriormente, discutimos o significado do termo burguês usado à época.

Continuar: parte 5 de 5