Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia

Adolpho Lutz · Capítulo 32 de 32 · parte 2/4

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Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia

Anexo/Annex

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Caso de angioqueratoma simulando o pé-de-madura, pelo Dr. A.

Austregésilo 8

A. P., africano, preto, lavrador, morador em Itaperuna, Estado de Minas, entrou para a clínica médica em 1909, com uma afecção semelhante ao micetoma, diagnóstico esse não confirmado pelas pesquisas parasitológicas e histopatológicas.

Refere que cerca de 4 ou 5 anos teve, após resfriamento, uma dor no pé esquerdo que se estendeu para a raiz do membro, surgindo em seguida uma adenite na região inguinal. O pé foi se intumescendo e lentamente surgiram as tuberosidades, muitas das quais se ulceravam, sangrando facilmente e deixando sair uns corpúsculos, esbranquiçados. Lesões idênticas apareceram depois no pé direito, finalmente nas mãos, não tendo porém estas se ulcerado.

Status proesens – O pé esquerdo acha-se muito intumescido, crivado de tuberosidades na face plantar e dorsal, sobretudo na parte anterior.

Sangram facilmente, e comunicam-se por frinchas e crateras, o que se verifica com um estilete, não havendo, porém, os túneis próprios do micetoma. Não existem os corpúsculos do pé-de-madura, apenas alguns grânulos pretos fazem lembrar essa doença. Menos intensas são tais lesões no pé direito. Nas mãos vêem-se calosidades e tubérculos duros, mais escuros, predominando nas bordas radiais. Os gânglios da região crural são aumentados e entre eles vê-se uma cicatriz de antiga adenite supurada.

Com dificuldade o doente caminha, devido à inflamação dos membros, queixando- se de dor e prurido, e das crateras sai um líquido icoroso e fétido.

Histologia patológica – (Dr. Gaspar Vianna) – o exame macroscópico do nódulo, endurecido em solução de formol, mostrou na parte mais saliente uma esfoliação da camada epitelial, onde há uma abertura, com uma substância que parecia sangue coagulado, também visível na superfície da seção; aqui vêem-se duas zonas, a superficial esbranquiçada, a profunda vermelho-escura, mole, mostrando ser ricamente vascularizada. As colorações foram feitas pela hemateína, hemateína-eosina Van-Gieson-Curtis, tionina e azul policrômico.

A fraco aumento vê-se hipertrofia pronunciada da camada epitelial, principalmente da zona queratinizada, onde existem vários blocos de substância que dá as reações corantes da eleidina. As outras camadas estavam também aumentadas, se bem que em menor escala, exceção da germinativa. No meio da epiderme existiam acúmulos de células, ainda coráveis mas em degeneração, e leucócitos. Nos bordos a epiderme está reduzida à porção queratinizada.

Abaixo dessa camada nota-se desaparecimento completo das papilas, certamente por causa da compressão do tecido formado. Este compõe-se de células mesodérmicas, em geral fusiformes, em cujo interior existe às vezes pigmento hemático. Nesta parte a vascularização é extraordinária, vasos de parede simples como os capilares, porém maiores. Há pontos onde se reúnem em número elevado, separados por tratos conjuntivos. Numerosas vênulas muito dilatadas, algumas das quais situadas logo abaixo da camada epitelial. As paredes vasculares não sofrem hipertrofia, o que só excepcionalmente ocorre, e são circundadas por células migradoras. Além das zonas de vascularização riquíssima, vêem-se outras com espaços cheios de líquido, certamente linfa.

Neles existe uma rede de fibrina, encerrando leucócitos com predominância de plinucleares e eosinófilos; em alguns pontos tão abundante é o líquido que descola o epiderme. Raríssimos focos de infiltração leucocitária. Nenhum parasita.

Lembra o corte a estrutura do angioqueratoma.

As sementeiras feitas em meio sólido de Sabouraud pelo Dr. Eduardo Rabello foram totalmente negativas.

Na raça negra, várias afecções de caráter granuloso ou tuberoso surgem trazendo-nos à primeira vista dificuldade diagnóstica, mas no caso vertente pela ausência do Streptotrix e pela estrutura da lesão afastamos a idéia de micetoma.

O Dr. Eduardo Rabello diz que afora os casos de angioqueratoma de Mibelli, que se aproximam deste, apenas pela estrutura histológica, conhece um único semelhante ao vertente, o de Pospelow, publicado na Iconografia dermatológica.

Em indivíduo de cor preta é este o único fato conhecido.

O Dr. Adolpho Lutz acha que este caso não pode ser considerado como o angioqueratoma de Mibelli, que se apresenta com o aspecto de verruga nos dedos das mãos e pés. Lembra-se de haver visto um doente em São Paulo, em quem as lesões eram análogas às assinaladas nos de Mibelli.

Leishmaniose da mucosa bucal, pelo Dr. Eduardo Rabello e

interno João Pupo9

Desde as primeiras constatações de Splendore alguns outros observadores têm relatado em São Paulo casos de localização de leishmaniose na mucosa bucofaríngea.

Aqui entre nós, se bem que tivéssemos conhecimento do fato, e visto nas clínicas alguns casos que morfologicamente eram idênticos, contudo ainda não tínhamos conseguido achar o parasita nas lesões mucosas. O caso tem sua natural explicação no fato de quase sempre examinarmos os doentes já muito tratados, principalmente os que tendo vindo da zona noroeste, passaram por São Paulo, onde são medicados. Em dezembro último tivemos porém ensejo de examinar um desses doentes cuja observação resumida apresentamos. Esse indivíduo tinha se internado na Clínica Médica, 8ª enfermaria, para tratar-se de moléstia que foi verificada ser a tuberculose pulmonar, tendo nós também o mesmo achado pelo exame do escarro. Além disso, apresentava antecedentes de malária contraída em Bauru e de sífilis com Wassermann francamente positivo e como lesões do tegumento a úlcera do cotovelo, onde não encontramos germes de leishmânia nem pela punção profunda, e as da mucosa bucofaríngea, onde em frottis de um fragmento biopsiado da úvula foi o germe encontrado. Em tempo oportuno daremos não só o resultado do nosso exame das peças de necropsia bem como dos cortes da biópsia da úvula. Por enquanto pretendemos com esta nota assinalar o primeiro caso de leishmaniose mucosa aqui observado.

Antonio P. da S., brasileiro, de cor branca, com 33 anos de idade, solteiro, lavrador, residente em Bauru, deu entrada no serviço da Clínica Dermatológica a 11 de dezembro.

Seus antecedentes hereditários são destituídos de importância.

Teve há cerca de cinco anos um cancro, no pênis, seguido de dores de cabeça noturnas e há pouco apareceram acidentes ulcerosos. Há cerca de um ano, quando foi para Bauru, contraiu paludismo. Há cerca de 6 meses notou, na região do cotovelo direito, em conseqüência da picada de um mosquito, a formação dum pequeno botão seguido de outros que mais tarde se ulceraram, constituindo-se uma só lesão. Um mês após o aparecimento desta úlcera notou que tinha dificuldade em deglutir, sentindo ardor na garganta. O doente se apresenta profundamente debilitado e o exame revelou lesões adiantadas de tuberculose pulmonar, diagnóstico confirmado pela pesquisa microscópica e bacteriológica do escarro.

O exame do sangue feito em um dia em que se apresentou uma acesso típico de febre palustre demonstrou a presença o hematozoário de Laveran, tratando-se de uma terçã benigna. O Wassermann foi também positivo. No nível do cotovelo direito vê-se uma grande úlcera de cerca de dez centímetros de maior diâmetro no sentido do eixo do membro e da forma de um oito.

As bordas são elevadas e constituídas por uma série de botões carnosos que sangram facilmente, o fundo é irregular, granuloso, pouco secretante, de cor rósea. Na mucosa da parte membranosa do véu nota-se uma formação particular caracterizada pela presença de granulações e vegetações de cor avermelhada intensa, já tendo feito em parte desaparecer o véu e convertendo a úvula em um corpo muriforme, o que dava à voz um tom rouco.

Retirado um fragmento da úvula, foram feitos cortes e frottis, que coloridos pelo Giemsa revelaram a presença de leishmânia. Esse germe não pode ser encontrado na ulceração do cotovelo, aliás já muito contaminada, e tratada por diversos antissépticos e cáusticos. Esse doente portador de sífilis do paludismo, da leishmaniose e da tuberculose veio a falecer dos progressos desta última doença a 15 de janeiro de 1912, sendo o seguinte o resumo da autópsia:

Pulmão esquerdo – aderência da pleura na parte posterior e inferior do ápice, todo o lobo superior com tubérculos calcificados e pequenas cavernas, o resto do órgão congesto.

Pulmão direito – pequenas aderências da pleura, calcificação de todo o lobo superior com uma caverna no ápice.

Coração – Pericárdio aderente à pleura e com pequeno derrame citrino; miocárdio de consistência normal.

Baço – Aumentado de volume, de consistência dura, rangendo ao corte. Fígado – Congesto.

Rim esquerdo – Ligeira congestão das pirâmides de Malpighi e descorticando-se facilmente.

Rim direito – Mesmas lesões mas dificilmente decorticável.

Laringe – Profundamente ulcerada, com algumas lesões vegetantes.

O Dr. Gaspar Vianna viu na primeira pesquisa, feita em um doente, atualmente na Clínica Dermatológica, a leishmânia em frottis das lesões de mucosa bucal.

O Dr. Moncorvo Filho acentua o grande valor da microscopia clínica nesses casos duvidosos, onde mais de uma doença está envolvendo o indivíduo.

O Dr. Adolpho Lutz mostra que os casos que hoje sabemos serem de leishmaniose das mucosas eram outrora capitulados de lúpus, afecção esta muito rara entre nós.

7ª Sessão, 9 de agosto de 1912 10

Presidente – Dr. F. Terra

Secretário Geral – Dr. E. Rabello

Secretário de sessão – Dr. H. Aragão

Presentes – Drs. E. Crissiuma, Adolpho Lutz, A. Moses, G.

Vianna, Vieira Filho e Guilherme da Silveira.

Um caso pró-diagnose: sarcomatose de Kaposi?, pelo Dr.

Eduardo Rabello 11

[Homem] branco, português, solteiro, copeiro de hotel. Está no Brasil há 15 anos. Nega antecedentes venéreos. Já teve febre tifóide, e pneumonia na idade de vinte e tantos anos. Pai falecido sem saber de que doença. Colaterais relativamente sãos. Em janeiro deste ano começou a notar uma mancha roxa na planta do pé direito, no nível da articulação do 1º metatarsiano, aumentado depois a lesão. Há dois meses lesões semelhantes nas mãos, e há 15 dias também na planta do pé esquerdo. Atualmente vê-se o seguinte: no antebraço direito no terço inferior do bordo radial, quatro pápulas de cor vermelha intensa, lisas, as maiores de meio centímetro de diâmetro. Igual lesão na face dorsal do polegar e no bordo cubital da mão tomando a direção da palma, que está muito filtrada. No antebraço esquerdo lesões semelhantes simétricas. Na face dorsal dos dedos médio e anular da mão esquerda existem placas de pequenos nódulos reunidos, de cerca de dois centímetros de diâmetro. A planta do pé direito, com exceção do calcanhar, apresenta cor difusa avermelhada; verifica-se aí estado de umidade devido a hiperidrose. Em certas partes na zona de lividez há placa de infiltração, de tonalidade mais intensa, resultante da agregação de pequenos nódulos semelhantes aos acima descritos. A lesão é mais característica, formando placa uniforme, no meio do pé mais para o bordo interno, notando-se formação de calosidade nos pontos de maior pressão, como seja a articulação do grande dedo e o bordo externo do pé. Na face plantar do dedo mínimo nota-se também uma formação calosa, dolorosa à pressão, com a cor arroxeada das demais lesões. Sente dores nas plantas dos pés, espontâneas, e acusa prurido. Na face dorsal do pé o que chamava atenção é o estado de asfixia das extremidades digitais, que são arroxeadas, intumescidas. Estes fenômenos são mais notáveis no quinto dedo, em cuja base, na face de extensão, nota-se um nódulo infiltrado, roxo e bastante doloroso. As unhas são espessas, rugosas, principalmente no grande dedo. No pé esquerdo existe ligeiro rubor difuso na planta do pé, começando a se formar uma placa de infiltração, que da região média sobe pelo bordo interno, apresentando certa simetria com as lesões do pé direito e é ligeiramente dolorosa. No dorso deste pé vê-se o tom lívido que também se nota nos dedos, ainda mais acentuado do que no pé direito. As unhas, à exceção da do dedo mínimo, que é a atrófica, são rugosas e espessas. Abaixo do maléolo externo existe uma placa de infiltração arroxeada, irregular, com cerca de dois centímetros de diâmetro para 1 cm de altura.

Não há alteração da sensibilidade ao calor e ao tato; a sensibilidade dolorosa está aumentada, sobretudo no nível das lesões. Na planta do pé esses fenômenos se exageram na zona do plantar interno. A reação de Wassermann foi positiva e negativa a pesquisa do bacilo de Hansen. Foram feitas três injeções de 40 cg de Salvarsan no espaço de mês e meio, sem melhoras. Este caso é apresentado como pró-diagnose, tendo formulado a hipótese de uma sarcomatose do tipo Kaposi.

Dr. Adolpho Lutz – Tendo-se em vista a freqüência da lepra entre nós, e sendo rara a sarcomatose de Kaposi, aventa a hipótese de ser este um caso de lepra lavrada. É mister fazer-se a pesquisa do bacilo de Hansen nos gânglios e nervos. Impressiona-se com a retração da aponevrose palmar, aqui bem visível, além da pouca intensidade da coloração do tegumento. Outro fato é que a infiltração é mais difusa, ao contrário do que ocorre na sarcomatose de Kaposi, bem como no sarcóide. Este último podia ser igualmente evocado, porém confesso não ter dele observação pessoal.

Dr. Vieira Filho – Sendo considerada como curiosidade clínica a moléstia de Kaposi, e atendendo-se para o fato de haver a lepra no país, propende mais para esta última hipótese.

O Dr. F. Terra observou o caso com atenção e acha que, nesta fase de adiantamento das lesões já existiriam amiotrofias da região do tênar e hipotênar, e perturbações da sensibilidade. Acresce que a pesquisa do bacilo de Hansen nos nódulos e no muco nasal foi completamente negativa.

Um caso de bouba, pelo Dr. E. Rabello 12

Trata-se de um doente da Clínica de Dermatalogia, preto, 45 anos, o qual veio do interior, datando a moléstia de oito meses. Apresenta na face tubérculos úmidos, papilo- matosos, cobertos de crostas, as quais, retiradas, deixam ver o aspecto framboesóide das lesões.

Assestam-se nas proximidades das narinas e perto das comissuras labiais no mento, poupando as mucosas. Nos pés, por onde se iniciou o mal, encontram-se tubérculos ao lado de manchas pigmentares, também existentes em outros pontos da superfície cutânea, e resultantes de lesões regredidas.

Ausência de sífilis na história clínica. Foi positiva a pesquisa do Treponema pertenue pelo Giemsa e Burri, como também o Wassermann. As lesões entraram a regredir logo depois da primeira injeção de 40 cg de Salvarsan, feita há 2 dias.

O Dr. Adolpho Lutz acha ser caso extremo de dúvida não só pelas lesões, como pela prova microscópica.

9ª sessão, 2 de outubro de 1912 13

Presidente – Dr. F. Terra

Secretário Geral – Dr. Eduardo Rabello

Secretário de Sessão – Dr. Carlos Villela

Presentes – Drs. A. Moses, Mario Salles, Eduardo Jorge,

Werneck Machado, Victor Teive, Silva Araújo Filho, Henrique

Aragão e Adolpho Lutz.

A propósito da leishmaniose, pelo Dr. Adolpho Lutz 14

No Atlas de moléstias raras da pele encontra-se a descrição de lesões do tegumento cutâneo e da mucosa nasobuco-faringiana em um doente que estivera no Brasil, e que é visto em Paris pelo Dr. Vidal há anos. Não pode ser feito o diagnóstico, ficando o caso como de úlceras fagedênicas provavelmente de natureza tuberculosa.

Hoje, com a segurança que temos do diagnóstico, mesmo pelo lado clínico, da leishmaniose, podemos firmar a idéia de ser dessa doença o caso em lide, pelo aspecto das úlceras cutâneas, sua multiplicidade, e pela configuração vegetante das lesões das mucosas. Refere-se também a dois doentes de cor preta, brasileiros, que viu há tempos, com lesões verrucosas nos pés que acredita serem também de leishmaniose, pela analogia com casos idênticos vistos por Thomas, no Amazonas.

O Dr. F. Terra diz que este fato junto a outros vem esclarecer a história da leishmaniose no Brasil, mostrando que de há muito ela reina aqui, naturalmente confundida com outras doenças. Acha que a Sociedade deve tomar a iniciativa da sua profilaxia pela grande extensão que vai tomando.

Sobre a Lepra, pelo Dr. Adolpho Lutz 15

Na recente viagem que fez pelas zonas marginais do rio São Francisco viu alguns casos de eczema marginado de configuração especial, que se podia confundir com a lepra maculosa. Informa que nessa mesma região encontrou casos de pitiríase versicolor, filariose, alastrim, e de uma dermatose papulo-hemorrágica. Desenvolve considerações sobre o quadro clínico da lepra, e a marcha das suas lesões. A forma tuberculosa faz-se preceder por uma fase maculosa. Critica a divisão em maculoanestésica e tuberculosa por sua impropriedade, acontecendo que para muitos só existe a mancha, seguindo posteriormente o leproma. Ocupa-se demoradamente do modo de evolução da mácula; ao princípio há congestão da pele, depois evolução de nível e pigmentação, observando-se em geral a hiperestesia. Intercorrendo febre eruptiva as manchas mais se acentuam.

O processo regressivo se traduz por atrofia da parte afetada, ausência de pigmento e diminuição ou abolição da sensibilidade, sendo as lesões constituídas anatomicamente por endoarterite que ocasiona a diminuição regional do sangue. Em dado momento combinam-se os dois processos, vendo-se na lesão uma área em que a mancha é hiperêmica ao lado de outra anêmica e atrófica, fatos esses que fazem lembrar certas dermatoses como as micoses superficiais e a psoríase. A longa duração e discrição desses acidentes pode explicar a incubação prolongada, descrita na moléstia pelos autores, não tendo sido aparecida aquela fase.

10ª Sessão, 18 de novembro de 1912

Presidente – Dr. F. Terra

Secretário Geral – Dr. E. Rabello

Secretário de Sessão – Dr. Paulo Horta

Presentes – Drs. Adolpho Lutz, Arthur Moses, H. Aragão, Mario

Toledo, Silva Araújo Filho e Gaspar Vianna.

Prurigo de Hebra, pelo Dr. Eduardo Rabello 16

Mostra um doente de 16 anos, brasileiro, branco, natural do Rio, que há oito anos sofre de uma dermatose muito pruriginosa. Constitui esta uma erupção de pápulas, de pequenas dimensões, com pouco relevo, numerosas e confluentes, muitas das quais, em plena evolução, tendo no ápice uma vesícula; outras em regressão, secas com uma crosta central. Localizam-se as lesões, muito numerosas, na superfície de extensão dos membros superiores e inferiores, e muitas outras na face. Os gânglios inguinais e crurais aumentados de volume, móveis e indolentes. Não tem vestígio de sífilis hereditária ou adquirida, e o Wassermann foi negativo. Empregou o xarope de hipofosfito de cálcio, do Codex, visando corrigir a coagulabilidade do sangue, e conseguiu notáveis melhoras, tanto no estado local, como na remoção de certos fenômenos gerais, nervosos principalmente, como a insônia.

Em outros casos de urticária, empregou a tricalcina Pinel obtendo a cura em pouco tempo.

O Dr. Adolpho Lutz aceita o diagnóstico de prurigo de Hebra que aliás, em certos casos, é difícil pela confusão, que pode se estabelecer, com a urticária papulosa. Acha muito anêmico o doente, o que talvez corra por conta da presença do anquilostoma, como se sabe, freqüente entre nós.

Angioma do pavilhão da orelha esquerda, pelo Dr. Terra 17

Indivíduo de 20 anos, branco, brasileiro, e que tem há seis anos a afecção, manifestando-se logo após um traumatismo da zona. O pavilhão está muito aumentado de volume, consistente, e afasta-se da sua posição natural. A cor é escura, como cianótica, a superfície lobulada, e as lesões são contínuas, difusas.

Nenhuma alteração da sensibilidade acusa o doente, e no momento de se explorar a sensibilidade da parte com o alfinete deu-se hemorragia de sangue venoso. Tem-se empregado a neve carbônica, e é nosso propósito aconselhar a ligadura da auricular.

Dr. Adolpho Lutz – Trata-se evidentemente de um caso de angioma, e receia que a aplicação da neve carbônica dê ocasião à formação de embolias, pela coagulação do sangue.

De preferência empregaria instilação de água fervente. Faz-se, após compressão da base da orelha, instilação de gotas de água quente repetindo-se em várias sessões. De todos os tratamentos indicados nos angiomas e nevos vasculares é este o meio que se afigura mais inocente e eficaz.

Dois casos de blastomicose – Dr. Eduardo Rabello 18

O primeiro doente, de 30 anos, branco, brasileiro, morador em Niterói, contraiu há quatro anos blastomicose, e foi anteriormente examinado pelos Drs. Werneck Machado e Gaspar Vianna.

Começaram as lesões pela comissura labial direita, e propagaram-se pela mucosa da bochecha até o véu do paladar. Consistem em produções vegetantes, pequeníssimas, confluentes, contínuas, banhadas por secreção seropurulenta, e pequenos abscessos, muito superficiais, situados na circunvizinhança. Os gânglios submaxilares acham-se já enfartados. O doente acusa dor no nível das lesões e disfagia.

Tem sido tratado, sem colher benefício, pelo iodureto de potássio, e pelo sulfato de cobre internamente, sendo as doses pouco elevadas em vista da intolerância para ambos os medicamentos. Ultimamente ensaiou as injeções intravenosas de cuprion sem poder tirar já conclusões a respeito.

O segundo doente, branco, brasileiro, de cerca de 30 anos, lavrador, residente em Rio Bonito, Estado do Rio, apresenta lesões semelhantes às do outro, as quais começaram há oito meses junto à comissura esquerda, tendo já se propagado à mucosa da bochecha atingindo o véu do paladar. Do mesmo lado tem já um gânglio submaxilar enfartado. Encontrou blastomicetos nos frottis e cortes em ambos, e as pesquisas culturais estão sendo feitas.

O Dr. Paulo Horta, na Sociedade Argentina de Dermatologia, viu um doente de blastomicose no qual o quadro clínico muito se assemelha a este, e a propósito o Prof. Sommer rebateu as opiniões de Splendore, defendendo as idéias de Breda, sobre a criação do tipo mórbido que denominou bouba brasileira.

O Prof. Baliña, porém, pensa, como a escola brasileira, que, baseada na etiologia, acha que os casos classificados de bouba brasileira são ora de leishmaniose, ora de blastomicose. Refere-se também à espundia, que sabe-se hoje ser a leishmaniose.

Outrossim, chamou-lhe a atenção a grande freqüência do lúpus eritematoso em Buenos Aires, tendo ocasião de ver na consulta geral, em quatro dias, vinte e cinco doentes. Em dois destes a neve carbônica já mostrava efeito lisonjeiro.

O Dr. Adolpho Lutz tem observado nos doentes de blastomicose bucal que as lesões se assestam em pontos da mucosa correspondentes às arcadas dentárias, o que parece demonstrar ser o traumatismo uma causa adjuvante para essa localização.

Outro caso de blastomicose – Dr. Gaspar Vianna e interno

Gomes da Cruz 19

T. M., branco, português, de 32 anos, casado, morador nesta cidade, no qual o emprego de injeções endovenosas de solução a 1/1.000 de tártaro determinou algum alívio, diminuindo sensivelmente a disfagia. A doença começou há seis meses por uma ulceração na mucosa da bochecha direita, estendendo-se em seguida para a comissura labial. A superfície da úlcera é granulosa e na circunvizinhança existem microabcessos superficiais. O exame dos frottis feito a fresco revelou a existência de numerosas células de blastomicetos que também existem nos cortes histológicos corados pelo Van Giesson.

Os gânglios da região submaxilar acham-se aumentados de volume e o doente acusa dor não só nestes como também nas úlceras.

Dr. Adolpho Lutz – Conhecida, que é, a ação benéfica do antimônio nas moléstias de protozoários, o seu emprego no caso atual, de blastomicose, parece indicar uma volta à natureza animal do germe.

Aconselha que se verifique a influência do tártaro sobre o blastomiceto em cultura, tendo-se assim melhor base para sua utilização no doente. Sabe-se como é a blastomicose rebelde a todos os tratamentos, achando que se deve insistir no emprego dos raios X, com o qual colheu algum resultado em um caso, assim como também se deve insistir no rádio.

O Dr. Gaspar Vianna diz que na sífilis, moléstia de protozoário, e na esporotricose, de parasita vegetal, o iodureto de potássio revela-se agente medicamentoso de primeira ordem.

Isso parece não emprestar grande valor à ação do medicamento para apurar a natureza animal ou vegetal do germe causador da doença.

11ª Sessão, 30 de dezembro de 1912

Presidente – Dr. F. Terra

Secretário Geral – Dr. E. Rabello

Secretário de Sessão – Dr. Mario Toledo

Presentes – Drs. Arthur Moses, H. Aragão, Gaspar Vianna,

Adolpho Lutz, Juliano Moreira e Ernesto Crissiuma.

Úlceras cutâneas múltiplas, pelo Dr. Juliano Moreira 20

Trata-se de uma preta, brasileira, solteira, com úlceras assestadas na face dorsal das mãos e dos antebraços, achando-se os dedos volumosos, com alterações de forma, que fazem lembrar a spina ventosa. Há cerca de dois anos que dura a doença.

Outras úlceras, mais numerosas, assestadas nas nádegas, têm a forma oval, o fundo amarelado e coberto de detritos de tecido necrosado. Vêem-se cicatrizes, em alguns pontos, de cor escura. O diagnóstico oscilou entre micose e sífilis, sendo negativas as pesquisas empreendidas no sentido de micose. Tratou-se com o iodureto de potássio sem obter benefício aparente, entretanto o 606 e o 914 estão dando resultado muito apreciável.

Dr. Adolpho Lutz – acha que se trata de um caso de sífilis, diagnóstico que encontra apoio na ação do 606. Dado o iodureto de modo apropriado, por certo haver-se-ia colhido resultado benéfico.

O Dr. E. Rabello diz que tem impressão de sífilis, sobretudo pelo aspecto da lesão da nádega, que lhe parece uma sifílide gomosa en nappe. Acha que surtiria efeito o emprego do iodureto de potássio, se tivesse sido dado por mais tempo, e em maior dose.

Neurofibromatose, pelo Dr. Juliano Moreira 21

Trata-se de um indivíduo moço, brasileiro, pardo, apresentando tumores de diversos tamanhos, assestados no tronco, membros e região cervical. São de consistência vária, em geral pediculados, e alternam com manchas hipercrônicas. O doente não acusa perturbações da sensibilidade, nem outro qualquer incômodo. Em caso análogo, que viu há tempos, o diagnóstico de neurofibromatose foi confirmado histologicamente pelo Prof. Durk. No caso presente fará o exame histológico da lesão.

O Dr. Gaspar Vianna pergunta se os tumores do caso a que se referiu o Dr. Juliano eram pediculados, e se nos cortes histológicos foi feita a impregnação pela prata ou outra.

O Dr. A. Moses informa que naquele caso os tumores eram pediculados, uns assestavam-se profundamente, outros eram superficiais.

O Dr. Adolpho Lutz diz que se pode observar o fato da existência de neurofibromas, pediculados, e nos quais os tumores vêm do fundo, como que fazendo hérnia no tegumento. Quando Recklinghausen estudou primeiro o assunto ficou estabelecido que os neurofibromas provinham, não do nervo propriamente, mas da sua bainha, envolvendo maior ou menor número de fibras nervosas.

O Dr. Gaspar Vianna acha que o nome de moléstia de Recklinghausen não deve ser dado aos casos em que as lesões são exclusivamente conjuntivas.

Verificou em autópsia de um caso, capitulado de neurofibromatose, ausência de lesão dos nervos.

O Dr. Adolpho Lutz acha que em certos casos pode haver comprometimento de fibrilas nervosas, sem que tenha o fato grande importância, assim como nos tumores angiomatosos não importa muito o maior ou menor número de vasos, que entram na sua formação. Etiologicamente parece que nesta doença haja um processo infectuoso crônico. Sabe de um caso operado, em que se deu a propagação ao sistema nervoso, e talvez invasão de outros sistemas.

Tratamento do granuloma tropical pelo tártaro emético – Drs.

Gaspar Vianna e H. Aragão 22

O Dr. Henrique Aragão apresenta dois doentes da Clínica Dermatológica, um com a lesão assestada na região inguinal esquerda, outro na região perineal. O 1º caso foi objeto de demonstração na sessão de 15 de março.

A úlcera que se encontrou rebelde ao emprego de vários tratamentos, inclusive o 606, e localmente, entre outras aplicações, vapores de iodo em estado nascente, entrou em regressão com as injeções intravenosas de tártaro emético. Ao cabo de cerca de dez injeções feitas na dose de 10 cg do sal em 100 de solução fisiológica, deu-se a cicatrização completa da úlcera.

O 2º doente, brasileiro, de cor branca, de 20 anos de idade, tinha uma úlcera alongada ocupando toda a região perineal até a margem do ânus no limite da mucosa. A lesão tinha o aspecto fungoso, sangrava facilmente e era coberta por uma membrana pultácea sem haver alteração dos gânglios. Ausência de antecedentes venéreos.

Refere-se ainda a outros doentes já em estado de caquexia, em que as melhoras inclusive do estado geral já são bastante notáveis. O mesmo sucede a uma outra doente na qual tentou sem vantagem o emprego de vacina preparada com o próprio germe e na qual as melhoras vão se fazendo sentir, também com o emético. Em um dos doentes notou que após a 1ª injeção já os germes diminuíram.

O Dr. E. Rabello acha notável esse resultado curativo em vista da pertinência da doença da qual só conhece dois casos curados pelos raios X e pela raspagem; o resultado subirá de valor se se mantiver a cura. A rapidez de ação do emético é realmente comparável à do Salvarsan sobre as ulcerações sifilíticas.

O Dr. F. Terra julga que o termo de granuloma venéreo inclui formas clínicas que se afastam das descrições clássicas, predominando entre nós a forma exclusivamente ulcerosa.

Em relação à etiologia, reputa ainda merecerem estudos as conclusões tiradas por Flu e pelos Drs. Vianna e Aragão, que dão um diplobacilo encapsulado como fator dessa doença, quando foi isolado pelo Dr. Rabello um Sporotrichum, em dois casos em cujos frottis encontrou os mesmos corpúsculos ovalares.

O Dr. Gaspar Vianna diz que com o Dr. Aragão isolou em dois casos de granuloma um bacilo que reputa corresponder aos germes que se vêem nos frottis. Se é um Sporotrichum, este é completamente diverso dos que até aqui se tem visto.

As lesões anatomopatológicas também não confirmam a hipótese de esporotricose, assim como não são análogas as alterações estruturais de leishmaniose. A certeza absoluta só poderia ser dada com a reprodução da lesão em anima nobile. No rato a virulência do germe, causando uma septicemia rápida, não dá tempo à formação das lesões características.

Dr. E. Rabello – De fato, em dois casos de granuloma visto em épocas diferentes e de diversas procedências isolou um Sporotrichum, em um deles obtendo uma cultura pura por transfixação do tecido, o que também conseguiu o Dr. Dias da Silva, de São Paulo, nesse mesmo caso. Para se fazer a hipótese do saprofitismo deve-se ter em vista que este é raro na pele a não ser ao redor das úlceras esporotricósicas, como diz Gougerot. A anatomia patológica realmente diverge, mas lembre-se de que conforme o mesmo Gougerot, podem existir formas ectimatiformes da esporotricose. Pretende ainda estabelecer o valor patogênico do germe que isolou, sendo ocasião de lembrar que sem poderem tirar conclusões definitivas, outros pesquisadores têm encontrado fungos nessa doença. Acredita que os colegas estejam mais próximos da verdade convindo, todavia, tentar a inoculação.

O Dr. Gaspar Vianna pergunta se identifica a um Sporotrichum o germe encapsulado encontrado nos frottis.

O Dr. E. Rabello acha que o germe isolado deve ficar próximo do Sporotrichum schenkii, espécie mais rara e ainda não encontrada no Brasil. Gougerot descreveu formas oidianas do Sporotrichum, mais comuns com o schenkii e que podem ser comparáveis aos germes ovalares dos frottis.

Acresce que estas formas são mais virulentas, conservando-se tais em diversas passagens. O material obtido, em autópsia, do gânglio de um doente da Clínica Dermatológica e injetado no peritônio de um rato provocou no fim de seis meses o aparecimento de um cancro com forte endurecimento; nos frottis foram vistos os mesmos germes.

O Dr. Adolpho Lutz acredita que o fato de o emético ter agido sobre a doença é o suficiente para colocar o germe entre os protozoários.

O Dr. Gaspar Vianna lembra que o iodureto age sobre a sífilis, que é moléstia de protozoário, e sobre a esporotricose, que é causada por cogumelo. Pensa que a ação terapêutica não poderá por si só contribuir para a classificação dos germes.

Dr. Adolpho Lutz – A questão da classificação de certos germes é ainda controvertida, como por exemplo, a da sífilis, que não está provada ser um protozoário. Aconselha que se verifique a ação do emético sobre o germe isolado no granuloma.

 

1913

Sessão Solene

Homenagem ao Dr. Adolpho Lutz

O Dr. Fernando Terra (Presidente), em breve alocução, saúda o Dr. Adolpho Lutz entregando-lhe o seu retrato e o diploma de Presidente Honorário da Sociedade.

O Dr. Paulo Horta pronuncia, em nome da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o seguinte discurso:

Extremamente honrado com o convite do Sr. Prof. Fernando Terra para saudar o eminente Prof. Adolpho Lutz, em nome da Sociedade Brasileira de Dermatologia, é preciso que estabeleça a preliminar de que não fala, neste momento, um dos discípulos e amigos de Lutz, mas um simples membro desta companhia.

Os amigos e discípulos do Prof. Lutz já testemunharam, há dias, pela palavra eloqüente e entusiástica de Carlos Seidl, quanto admiram e prezam ao grande cientista brasileiro, glória de nossa nacionalidade.

Agora, são os cultores da dermatologia e, mais especialmente, os que sabem aliar os conhecimentos auferidos na observação clínica e os resultados das pesquisas dos laboratórios, que vêm prestar ao mestre de tantos anos a manifestação do profundo apreço e acatamento que sentem por este pioneiro da verdadeira dermatologia, desta dermatologia cientificamente estudada que, nas últimas décadas, viu seus horizontes alvejados, seus mistérios em grande parte desvendados, seu porvir entremeado com as mais risonhas e fagueiras esperanças.

E este extraordinário progresso, ultimamente notado na dermatologia, é tão grande, senhores, que se pode afirmar que a clínica dermatológica professada hoje nesta sala já não é a mesma que há menos de um qüinqüênio era aqui ministrada, este espontâneo movimento, a cuja frente vemos o nosso ilustre Presidente, foi em grande parte a resultante dos esforços do Prof. Adolpho Lutz.

Não é audaciosa a proposição que acabamos de proferir, antes firmada na valiosíssima contribuição que os trabalhos de Lutz trouxeram para o avanço da dermatologia. Somente quem tiver lido as suas onze notáveis monografias, exclusivamente relativas a moléstias da pele, além das numerosíssimas lições que se encontram esparsas em vários outros trabalhos e nas atas das associações sábias deste país e do estrangeiro, poderá aquilatar devidamente o valor sem par deste tão modesto, quanto grande mestre, cuja visão genial já vem nomeada em seus memoráveis escritos de 1886 e 1887.

Já então Lutz doutrinava sobre os cisticercos da pele, sobre o líquen obtuso e plano, sobre o rinoscleroma, sobre a lepra.

A missão ao Havaí, a convite de governo estrangeiro, nada mais foi que a sagração que impunham seus admiráveis trabalhos sobre essa moléstia. E, a propósito da lepra, deveis permitir, senhores, que eu relembre aqui um episódio, em que não se sabe o que mais admirar, se o resultado que em 1886 já retirava Lutz de suas observações, servindo- se de aparelhos e técnica muito inferiores aos que formam modestos laboratórios de hoje, se a sua robusta probidade científica, só registrando o que realmente via e ouvia, forçando os pesquisadores de nossos dias a confirmarem sempre as suas afirmações e conclusões.

Conheceis perfeitamente o belo trabalho, de minúcia, técnica e valor, publicado em 1910, nas Memórias do Instituto de Manguinhos, pelo ilustre Dr. Antônio Cardoso Fontes, sobre a tuberculose; é um dos mais notáveis e conhecidos estudos, uma das mais belas contribuições sobre a fina estrutura do bacilo de Koch.

Pois bem, Fontes, nesta sua magnífica lição, faz inteira justiça aos esforços de Lutz realizados 24 anos antes.

Assim é que escreve Fontes:

Já estava escrito e em provas o presente trabalho, quando tivemos conhecimento, pelo Dr. Adolpho Lutz, de uma publicação que fizera em 1886, e que saiu inserta no primeiro fascículo dos Dermatologishe Studien, do Prof. P. G. Unna, sob o título "Zur Morphologie des Mikrorganismos der lepra".

Por esse trabalho se vê que já o Dr. Lutz havia verificado o papel preponderante da granulação do bacilo da lepra na reprodução dela.

Mostra a verificação, feita por mim, 24 anos depois do que Lutz escreveu em relação à lepra e tuberculose, ainda que com interpretação diversa do processo de reprodução, a justeza de nossas observações. E isso será tanto mais digno de nota quando se pensar na dificuldade da técnica do início da bacteriologia, maximé em verificações desta natureza.

Foi Lutz o primeiro, entre nós, e um dos primeiros no mundo, que se ocuparam com a blastomicose e com a esporotricose. Nos mais cultos centros científicos europeus, as preparações de blastomicose feitas por Lutz, e por ele mostradas aos maiores especialistas estrangeiros, foram atribuídas por alguns a defeitos de técnica e, por outros, mais sensatos e prudentes, a alterações das células gigantes ainda não conhecidas.

Os estudos de Lutz sobre a esporotricose Beurmann em homens e ratos, em São Paulo, são agora trabalhos clínicos, e sua morfologia sobre a hiperblastomicose americana ainda é a melhor contribuição feita entre nós sobre a blastomicose. Ao grupo das tinhas não foi estranho Lutz, e pode-se dizer que na América do Sul foi o primeiro a isolar um microsporo.

Senhores, uma análise, mesmo ligeira, da monumental produção dermatológica de Lutz, demandaria largo tempo e não estaria nos moldes desta solenidade. Torno, pois, para a memória deste rápido esforço de seus trabalhos, e para que aqueles que não lidam mais diretamente com as moléstias da pele e que honram esta sessão com sua presença, possam avaliar quão grande avulta, para nós, a personalidade egrégia deste mestre.

A homenagem de hoje, senhores, é um atestado à modéstia de Lutz, e assim era preciso que fosse simples e sincera como a manifestação que ora fazemos a este benemérito das letras médicas.

Devíamos-lhe este preito de reconhecimento pelo concurso inexcedível que sua colaboração representa para nossa novel sociedade.

E enquanto seus discípulos não reúnem em edição especial todas as suas lições, resolveu a Sociedade oferecer-lhe o seu retrato, como uma significativa homenagem a quem, desde hoje, conta no número de seus Presidentes de Honra.

O Dr. Adolpho Lutz responde, agradecendo mais esta prova de estima que lhe era feita pela Sociedade de Dermatologia, que, por si mesma, havia demonstrado quanto as novas gerações se interessavam pelos progressos científicos. Ele, que já vinha de uma época anterior, sentia-se muito feliz em colaborar na obra científica por que tanto se empenha a Sociedade de Dermatologia.

1ª Sessão Ordinária, 7 de abril de 1913 23

Presidente – Dr. Adolpho Lutz

Secretários – Dr. E. Rabello e Zopiro Goulart

Presentes – mais os Drs. F. Terra, Werneck Machado, Gaspar

Vianna, H. Aragão, Arthur Moses, Cardos Fontes, Silva Araújo

Filho, Arthur Rocha, Paulo Horta, Aleixo de Vasconcellos e

Emilio Gomes.

Blastomicose, pelo Prof. Terra 24

É interessante o caso pela sua marcha rápida, visto como em meses deu-se a generalização da blastomicose, terminando-se pela morte.

Obs. – A. G. M., branco, de 32 anos, brasileiro, lavrador, morador em Duas Barras, Estado do Rio, entrou para a 19a enfermaria em 8 de março de 1913. Sem importância os antecedentes pessoais e hereditários. Em setembro de 1912 aparecera um pequeno nódulo na asa da narina esquerda, supurando logo; inflamou-se em seguida o gânglio retroauricular, e, posteriormente os axilares, indo todos à supuração.

Mais tarde surgiram úlceras na face e por fim na boca.

Ao examinarmos achava-se o doente muito magro, de cor amarelo-terrosa, e caminhava dificilmente.

Havia então nódulos de consistência mole, de diferentes tamanhos na região malar esquerda, na comissura labial, perto do lóbulo da orelha e na região masseterina direita. Tinham cor escura arroxeada e eram cercados de zona eritematosa, com pequenas crostas que cobriam pertuitos, de onde saía líquido seropurulento.

Aos nódulos sucediam úlceras, todas do mesmo aspecto, de contornos irregulares, de bordas elevadas com pequenos orifícios, de fundo vegetante.

Muitas das úlceras estavam cobertas de crostas moles, amarelas ou escuras.

Estavam as úlceras assestadas na região superciliar esquerda, asa da narina, sulco-nasolabial, junto à orelha, região parotidiana e na submaxilar, todas do mesmo lado.

Viam-se mais: pequena úlcera entre os supercílios e na região supra-orbitária, na malar, na masseterina, e, finalmente, na região parotidiana direita. Na mucosa bucal, perto da extremidade superior dos pilares existia uma ulceração de bordos vermelhos, com fundo vegetante, coberto de finas granulações esbranquiçadas.

De ambos os lados do pescoço, existiam gânglios aumentados de volume, dolorosos, pouco móveis, ao lado de outros já em via de supuração, e nas regiões axilares, úlceras devidas à supuração ganglionar. O doente acusava dor nas lesões, principalmente nas da mucosa bucal, o que tornava penosa a deglutição.

O exame a fresco do líquido retirado de gânglio, por punção, revelou grande quantidade de células de blastomicetos, redondas, muitas das quais em franca gemulação. O exame de um corte da pele ulcerada mostrou a existência de microabcessos intra- epiteliais, no cório células gigantes e a citologia própria das inflamações crônicas, sendo notável o número de blastomicetos vistos nos tecidos. O doente faleceu em março deste ano, e a autópsia revelou a existência de lesões blastomicóticas nas vísceras.

Dr. G. Vianna – A autópsia mostrou lesões pulmonares, com o aspecto próprio da tuberculose hematogênica. Os gânglios envolvidos no processo mórbido, alguns supurados, tendo visto nos seus cortes histológicos numerosos blastomicetos. No ventrículo esquerdo uma placa de pericardite. Lesões interessantes existiam nas cápsulas supra-renais, sendo que na esquerda o tecido próprio estava quase destruído, apresentando numerosos nódulos esbranquiçados; à direita, menos alterada, tinha também numerosos nódulos. No intestino havia vários nódulos, sobretudo no grosso intestino, e uma úlcera nas imediações da válvula ileocecal.

Fato interessante era o ataque ao apêndice, que estava bastante aumentado de volume, inflamado, e de paredes infiltradas por nódulos. O cérebro apresentava na base alterações próprias da meningite e granulações brancas. Os cortes histológicos das partes afetadas mostraram sempre a presença de blastomicetos. Nos rins existia abcesso embólico, no baço e fígado blastomicose hematogênica.

Dr. Adolpho Lutz – A observação clínica mostra que quase sempre dá-se a generalização da infecção, que ao começo fica confinada à pele ou às mucosas.

Parece que a generalização opera-se por via sangüínea, não se podendo tirar conclusão sobre a gravidade, porquanto pode ser ela devida ou à virulência maior do germe, ou à sua mais intensa proliferação. Nos casos menos graves a propagação faz-se antes por continuidade, e a marcha da doença é muito mais lenta. Ao começo passou despercebida a blastomicose, e só com os casos graves foi se despertando a atenção dos observadores, que logo viram o germe, pelo seu fácil reconhecimento. Com efeito, o exame dispensa o emprego de materiais corantes, os germes são constantes nas lesões, numerosos e de grande dimensões.

A moléstia tem sido mais estudada na América, onde já se registra grande número de casos; porém não é de estranhar que ela seja mais freqüente na Europa do que mostram as estatísticas, porque talvez tenha passado despercebida. Os estudos da blastomicose, como das micoses em geral, têm revolucionado os conhecimentos da patologia geral, trazendo a esta grandes descortinos. Nós a vemos sempre evolvendo no indivíduo, que vive no meio de outros, sem levar-lhes o contágio, registrando-se igualmente o aparecimento em uma localidade de caso isolado sem produzir aí pandemia.

Existirá a moléstia nos animais, e deles se transmite ao homem? Precisará que o germe passe por um organismo intermediário para depois se fixar no homem? Terá no organismo, que o alberga, um ciclo evolutivo?

2ª Sessão Ordinária, em 7 de maio de 1913

Presidente – Dr. Adolpho Lutz

Secretários – Drs. Eduardo Rabello e Silva Araújo Filho

Presentes mais os Drs. A. Austregésilo, E. Gomes, C. Villela, F.

Espozel, Zopiro Goulart, Mario Toledo, A. Moses, G. Vianna e

H. Aragão.

Tinha causada pelo Trichophyton violaceum, pelo Dr. Mario

Toledo 25

Trata-se de uma menina de seis anos, de nacionalidade russa, que veio para o Brasil como imigrante, desembarcando no Rio em fevereiro deste ano. Partiu de Odessa com destino a Bremen, onde permaneceu oito dias, notando-se que a sua cabeça achava-se coberta de abundantes escamas, pequenas, amareladas e com couro cabeludo com um colorido róseo difuso. Na hospedaria de imigrantes notei que além da grande quantidade de escamas que cobriam o couro cabeludo, havia em vários pontos da cabeça cabelos cortados pouco acima do nível do tegumento, que facilmente se destacavam a pinça sem provocar dor, e envolvidos em uma bainha esbranquiçada. Não existiam pústulas, nem a doente acusava prurido ou dor. Destacados alguns pêlos, foram feitas semeaduras em meio de prova de Sabouraud, desenvolvendo-se colônias de Trichophyton violaceum.

Com pincelagens de tintura de iodo ao quinto, de óleo de cade, e com o enxofre apresentou logo notáveis melhoras. Este fato merece ser assinalado para despertar a atenção das autoridades sanitárias na importação de novas moléstias.

Dr. E. Rabello – Sabe-se que cada país tem a sua flora tricofítica mais ou menos própria, e essa espécie de Trichophyton existe em maior escala na Itália e na Rússia.

Em São Paulo, o violaceum tem sido visto em italianos, vindos já contaminados, e só se registra em nacional um caso do Dr. G. Vianna.

O Dr. Adolpho Lutz encarece a necessidade de uma escolha cuidadosa dos estrangeiros contratados para a lavoura, devendo o exame de saúde ser feito nos pontos de embarque, e não aqui.

Caso de esporotricose, pelo Dr. E. Rabello 26

A esporotricose é aqui nova, registrando-se no Rio quatro casos, o primeiro por nós comunicado à Academia de Medicina em 1911; o segundo pelo Dr. Gaspar Vianna em 1912 ao Congresso de Medicina de Belo Horizonte. Sabendo-se, desde os estudos do Dr. Adolpho Lutz, que ela pode-se encontrar como epizootia dos ratos, não é de estranhar que deles partisse o contágio, porquanto refere o doente que à noite era muitas vezes despertado por eles que invadiam-lhe o leito. Além disso, é sujeito a fissuras nos dedos das mãos, tendo o primeiro nódulo surgido num dos auriculares.

As culturas deram colônias do Sporotrichum beurmanni, porém um pouco mais pigmentadas, idênticas às obtidas por Lutz e Splendore.

Obs. – A. I., branco, de 21 anos, brasileiro, solteiro, caixeiro, residente em Pinheiros, onde foi examinado pelo Dr. Luiz de Paula, entrou para a Clínica Dermatológica em 24 de abril de 1913.

Há 10 meses contraiu blenorragia, e há 15 dias teve orquite, gozando, fora disso, relativa saúde, sendo também sadios seus pais e irmãos. Há três meses apareceu no dorso da primeira falange do auricular esquerdo, onde havia fendas, um pequeno nódulo que amolecendo, ulcerou-se, dando saída a pequena porção de sero-pus.

Existe no mesmo sítio uma placa eritematosa, onde se assestam cinco pequenos nódulos, e outras iguais, dispostas em linha reta no bordo cubital da mão, terminando- se no punho.

No antebraço vêem-se nódulos subcutâneos, uns aderentes à pele, outros já ulcerados, distribuídos em fila, e rodeados de uma zona eritematosa.

No bordo interno do braço, pouco acima da articulação, acham-se quatro nodosidades subcutâneas. Como estas há no bordo radial do antebraço e extremo do braço, situadas nas proximidades da articulação. Como fenômeno subjetivo acusa o doente ligeiras dores nas lesões. Ensaiamos o tártaro estibiado em injeções endovenosas, sendo o resultado já muito favorável, porquanto os nódulos subcutâneos se reabsorveram, e os ulcerados entraram em franca reparação. Aconselhamos que na esporotricose se experimente esse medicamento.

Dr. Adolpho Lutz – A pigmentação mais acentuada das culturas é conseqüência da maior produção de esporos, e sua maturação mais rápida, concorrendo muito para isso o calor, a luz e a umidade do meio. Por ocasião de estudar a epizootia pestosa nos ratos, teve ocasião de encontrar em São Paulo alguns deles afetados de esporotricose, ora sob a forma generalizada, ora sob a forma cutânea, assestando-se nódulos na cauda ou nas patas.

O mesmo se observa na esporotricose experimental.

Quando se inocula o material em uma pata não raramente se vêem lesões em outros pontos, também inoculados pelos dentes e patas do animal, que transportam o germe de um para outro sítio.

3ª Sessão Ordinária, 28 de maio de 1913 27

Presidente – Dr. Adolpho Lutz

Secretários – Drs. E. Rabello e Arthur Moses

Presentes mais os Drs. F. Terra, Neves Armond, G. Vianna, H.

Aragão, Victor de Teive e Mario Toledo.

Distribuição geográfica no Brasil da leishmaniose, pelo Prof. E.

Rabello 28

Até agora têm afluído para o hospital doentes procedentes do Amazonas, inclusive Acre, Juruá e Purus, do Pará, do Espírito Santo, do Estado do Rio, de São Paulo, de Minas e de Mato Grosso.

Desta capital e da Bahia só tinham sido assinalados casos de formas cutâneas, ao passo que os doentes presentes vêm demonstrar que aí existe também a forma mucosa.

Obs. I – M. F. O., de 50 anos, pardo, solteiro, brasileiro, residente em Caravelas, estado da Bahia. Os antecedentes mórbidos pessoais e hereditários carecem de importância. Há cerca de seis anos começou a doença por uma pequena ulceração na mucosa da narina esquerda, estendendo-se em breve para a asa do nariz e septo cartilaginoso, e mais tarde várias lesões surgiram na faringe. Há seis meses formou-se na parte interna do lábio superior um tumor vegetante, que foi extirpado por um cirurgião.

Atualmente acha-se destruída a extremidade do nariz, e o septo cartilaginoso, apresentando a parte ulcerada um aspecto fungoso, com bordos baixos, de cor vermelho- escura, lustrosa, coberta de serosidade, e sangrando facilmente.

Na mucosa do lábio superior existe uma ulceração que continua pela da bochecha direita, junto ao sulco gengival, até quase o véu do paladar.

Outra, de forma linear, existe em toda a extensão da mucosa do palatino, assestada na sua parte média, indo terminar na extremidade livre do véu do paladar. São todas vegetantes, granulosas, vermelhas e sangram facilmente.

A úvula e partes laterais do véu desaparecem no meio dessa massa vegetante. Granulações semelhantes se vêem na faringe.

Obs. II – I. J. S., pardo, de 34 anos, brasileiro, solteiro, residente em Deodoro, nesta capital. Não tem antecedentes venéreos, e os antecedentes pessoais e hereditários são destituídos de importância.

Durante muito tempo teve uma úlcera na região glútea esquerda, que cicatrizou aos 18 anos.

A doença atual começou há cinco anos, por umas granulações na faringe, que se estenderam pelo soalho das fossas nasais ao lábio superior. Gradualmente formaram-se ulcerações, que destruíram as partes moles da extremidade nasal e o lábio superior.

Atualmente a úlcera se localiza na parte restante das asas das narinas, estendendo-se um pouco para os lados, propaga-se para o lábio superior, e daí para as bochechas.

Os bordos são lisos, no nível do tegumento, róseos, o fundo é vermelho, granuloso, sangrando facilmente. Existem produções vegetantes características na mucosa do lábio superior, na palatina e na da faringe, tendo a úvula já desaparecido.

Dr. F. Terra – Tem grande valor esta comunicação porque encerra dois fatos da geografia da nossa leishmaniose: o primeiro é ficar demonstrada a moléstia no Rio há cerca de cinco anos; o segundo é que na Bahia só se havia descrito a forma cutânea, e agora fica provado apresentar-se sob a forma mucosa.

O Dr. Werneck Machado trouxe à Sociedade uma doente afetada de leishmaniose, com lesões na mucosa bucal, contraída a doença no Espírito Santo, o que demonstra a sua existência nesse estado.

Dr. Adolpho Lutz – A área ocupada pela leishmaniose é muito maior do que se pensa, porquanto em outros países vai sendo demonstrada a sua presença. Assim, no Peru está identificada a spundia, que é uma forma mais benigna, e as coleções arqueológicas desse país mostram figuras com deformações que lembram as lesões da doença. Teria, pois, existido aí em tempos remotos? Para nós importa saber se a doença tende a aumentar no Brasil e os fatos demonstram que os seus domínios vão se alargando. Dizia-se ser freqüente na Bahia o lúpus ulceroso, e hoje podemos assegurar que esses casos eram de leishmaniose.

As lesões papilomatosas das mucosas podem-se confundir com a blastomicose; certos caracteres facilitam a diferenciação, como sua cronicidade, tolerância relativa do organismo, e maiores dimensões das lesões cutâneas. Outra questão é saber-se se há diferença entre a forma cutânea e a mucosa; parece que sim, porquanto conhecemos lugares onde só se encontra a forma cutânea, como se deu no Rio Branco. Há questões litigiosas em relação aos germes, porque pode haver entre eles uma diferença morfológica, ou apenas biológica, ou uma diversidade nos modos de penetração, segundo a modalidade.

Dr. Gaspar Vianna – Em sua recente viagem aos estados do Norte encontrou numerosos doentes de leishmaniose em localidades ainda não assinaladas. No lugar denominado Marco da Légua, em Belém (Pará), examinou doentes com a forma cutânea, no Maranhão um de forma cutânea, outro de forma mucosa, no Ceará encontrou, em companhia do Dr. Salgado, cinco doentes, todos de localização mucosa, do mesmo tipo viu em Cabedelo (Paraíba) alguns casos; no Recife reconheceu a doença em cerca de quatrocentos indivíduos recolhidos no Asilo de Mendicidade. Em Alagoas é pequena a freqüência.

Aproveita a ocasião para mostrar o resultado do emprego do tártaro sobre as lesões mucosas da leishmaniose. Um doente internado na Clínica Dermatológica com 16 úlceras na pele e lesões da mucosa nasal, rebeldes a vários tratamentos, viu desaparecerem com as injeções de tártaro; os acidentes cutâneos e os da mucosas estão quase extintos.

Úlcera fagedênica tropical, pelo Prof. E. Rabello 29

Em maio de 1912 vimos um caso idêntico, tendo a úlcera, localizada no mesmo ponto deste, a simbiose fuso-espirilar.

Obs. – J. de A., português, solteiro, pedreiro, residente na Penha, sem antecedentes venéreos e sem valor os hereditários. Há um mês, quando aqui desembarcou, no lugar de um calo no calcanhar direito formou-se uma úlcera que em breve estendeu-se até atingir cerca de cinco centímetros de comprimento sobre quatro de largura. Tem bordos elevados, cobertos de crosta amarelo-escura, fundo escavado, finamente granuloso, banhado por secreção saniosa e sangrando facilmente.

A pesquisa microscópica revelou em frottis corados pelo Giemsa a presença de espiroqueta, tipo refringens, e outros mais finos, tipo pálida sem identidade com este. O uso do Salvarsan vai já modificando a úlcera.

O Dr. Adolpho Lutz, quando se entregava a estudos da anquilostomíase viu úlceras análogas às fagedênicas tropicais, e que eram devidas à anemia e fraqueza do doente. Parece não haver muito rigor em dar-se o nome de úlcera fagedênica a certas lesões, porquanto são destituídas de determinados caracteres, com marcha rápida, semelhança com a gangrena hospitalar e presença da simbiose fuso-espirilar. Os casos agora referidos talvez sejam de úlceras fagedênicas, se bem que de marcha não muito aguda, talvez devido isso à atenuação do vírus.

Continuar: parte 3 de 4