Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia

Adolpho Lutz · Capítulo 32 de 32 · parte 3/4

Páginas do PDF

Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia

Anexo/Annex

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Dr. Arthur Moses – Nos casos de úlceras fagedênicas o Wassermann foi positivo, talvez devido a uma reação do extrato alcoólico do antígeno, porquanto o resultado foi contrário com o

emprego do extrato aquoso fresco.30

5ª Sessão Ordinária, 29 de julho de 1913 31

Presidente – Dr. F. Terra

Secretários – Drs. E. Rabello e Mario Toledo

Presentes – Drs. F. Terra, E. Rabello, M. Toledo, Zopiro Goulart,

Emilio Gomes, Werneck Machado, J. Marinho, Arthur Moses, C.

Rohr, F. Esposel, H. Aragão, Eduardo Jorge, Gaspar Vianna e

A. Neves.

Blastomicose, pelo Dr. Werneck Machado 32

Trata-se de um indivíduo de 50 anos, brasileiro, e que se acha doente há menos de um ano. Assesta-se a lesão principal na comissura labial esquerda, tendo menores ulcerações espalhadas na pele da face, junto ao lábio superior, e uma outra maior abaixo da mamila esquerda. O fundo das úlceras, de cor acinzentada, é coberto de finas granulações e de microabcessos. Os bordos nas lesões cutâneas são elevados e cobertos de crosta.

Afigurou-se-lhe, pelo aspecto das lesões, ser um caso de blastomicose, e o exame microscópico dos frottis revelou, neste momento, a presença de numerosos blastomicetos.

Dr. Adolpho Lutz – Este caso vem demonstrar mais uma vez a necessidade do exame microscópico para dirimir dúvidas em

doenças que facilmente se confundem clinicamente.33

9ª Sessão, 28 de novembro de 1913 34

Presidente – Dr. Adolpho Lutz

Secretários – Drs. E. Rabello e Arthur Moses

Presentes: Drs. F. Terra, M. Toledo, G. Vianna, Adolpho Lutz, A.

Moses e E. Rabello.

Caso pró-diagnose, pelo Dr. E. Rabello 35

Apresenta, em nome do Dr. Alarico Damásio, um doente de 22 anos, brasileiro, com uma úlcera situada na comissura labial direita, propagando-se para a mucosa do lábio inferior, e para a mucosa da bochecha.

Os gânglios submaxilares do mesmo lado acham-se aumentados de volume e dolorosos. Data a doença de um ano, conservando-se bom o estado geral do paciente. O aspecto das ulcerações faz lembrar em certos pontos a blastomicose, ao passo que em outros sítios a destruição dos tecidos é mais profunda do que ocorre em geral nessa micose. O exame microscópico dos frottis não revelou a presença de blastomicetos.

O Dr. G. Vianna acha que a fisionomia clínica dos acidentes afasta-se um tanto dos casos clássicos de blastomicose, e afigura-se-lhe que a lesão mais se aproxima de epitelioma.

Apela para o exame histológico que poderá dirimir a questão.

O Dr. Adolpho Lutz diz que pela simples ausência dos parasitas nos frottis não se deve excluir a blastomicose. Neste caso convém que as pesquisas se façam em cortes, onde eles poderão ser vistos.

10ª Sessão, 29 de dezembro de 1913 36

Presidente – Dr. F. Terra

Secretários – Drs. E. Rabello e A. Moses

Presentes – Drs. Adolpho Lutz, Werneck Machado, V. Teive, G.

Vianna, Doelinger da Graça, F. Terra, E. Rabello e A. Moses.

Cancro mole serpiginoso, pelo Dr. E. Rabello 37

É um caso de grande raridade, e que se mascarou com o aspecto de outras doenças. A úlcera, que começou há 24 anos, sucedeu a um bubão inguinal, do lado direito, subseqüente a um cancro venéreo simples de pênis. Durante esse tempo ela foi se estendendo para as regiões vizinhas, deixando atrás de si zonas de cicatriz com bridas fibrosas. Trata-se de um indivíduo robusto, de cerca de 40 anos, cujo estado geral tem se conservado bom durante toda essa longa enfermidade.

Atualmente existem lesões ulcerosas, em franca floração, nas seguintes regiões: espádua esquerda, região sacra do mesmo lado e no terço superior da face externa da coxa esquerda. Em qualquer desses pontos notam-se áreas de cor arroxeada, com pequenas ulcerações, que se assemelham à goma, e sendo os tecidos solapados pelo processo ulceroso, que os descola.

Diversas hipóteses foram sugeridas para o diagnóstico, tendo se detido, como sói acontecer com a maioria daqueles que têm visto cancros moles extensos, de longa duração, numa sifílide ulcerosa laminiforme (en nappe), tendo sido, entretanto, o Wassermann negativo. As injeções de Salvarsan, bem como as mercuriais, foram totalmente infrutíferas, e o exame cultural, orientado no sentido das micose, foi também negativo.

Encontrou no corte histológico células gigantes, o que fez no momento deter-se ainda na idéia de micose. Pesquisando a secreção das úlceras, viram-se germes semelhantes ao bacilo de Ducrey, como se pode verificar nas preparações que apresenta. Nos dois últimos números da Dermatologische Wochenschrift há um trabalho de Generisch, em que esse autor procura estabelecer como de cancros moles serpiginosos certos casos de granuloma ulceroso tropical. Esse artigo é ilustrado com gravuras, perfeitamente comparáveis com a afecção do caso presente. Não podendo aceitar as conclusões desse autor no tocante à identidade dessas doenças, pode-se, entretanto, retirar um argumento, que vem explicar a presença das células gigantes, que nos fizeram propender para a hipótese de micose.

É fato que no cancro mole serpiginoso, como em outras afecções crônicas, encontram- se as células gigantes, que, portanto, perdem diariamente a sua especificidade. De posse, como julga estar, do diagnóstico, vai convergir seus esforços para o combate da afecção que tem agora uma duração por demais longa.

O Dr. Adolpho Lutz acha realmente que é um caso muito raro. Os bacilos vistos aqui são idênticos aos descritos por Ducrey, quando examinados em frottis da secreção do cancro. A forma característica em cadeias paralelas, descritas pela primeira vez por Unna, é apreciada nos cortes histológicos, e com mais dificuldade na secreção, o que demanda cuidados especiais de técnica.

Acha que o exame dos cortes poderá descortinar a disposição em cadeias. Como tratamento lembra antes o iodofórmio.

O Dr. F. Terra reconhece o embargo em que se verá o clínico desprevenido para firmar a natureza da dermatose, que apresenta mais o aspecto de uma sifílide, ou de uma micose, do que o do cancro mole. Encarece, portanto, o valor, em casos tais, do concurso do microscópio, que granjeou a certeza do diagnóstico. Como tratamento, na falência do iodofórmio, aconselha a ducha de ar quente, que em casos similares tem-se mostrado eficaz.

O Dr. E. Rabello diz que mais raramente nessa mesma lâmina apresentada vêem-se germes com os caracteres morfológicos e de grupamento, assinalados por Unna. Vai fazer cortes histológicos, e empregar os métodos terapêuticos aventados.

Sifílide ulcerosa generalizada, pelo Dr. Werneck Machado 38

Apresenta uma doente que teve numerosas úlceras, espalhadas pelo corpo, achando- se então em estado de miséria orgânica. As hematêmeses, que por vezes se produziram, tornavam mais precário o estado geral. Com o fim especial de combate à fraqueza, antes de iniciar o tratamento específico submeteu-a a injeções de soro fisiológico. O resultado foi muito lisonjeiro, porquanto não só levantou as suas forças, como porque as ulcerações entraram em franca resolução. Este caso demonstra o efeito benéfico do soro, tendo anteriormente já assinalado o fato, por haver obtido idêntico resultado em uma doente nas mesmas condições desta.

O Dr. E. Rabello diz que há realmente casos de sífilis graves, onde até uma cura de ar consegue efeitos surpreendentes, pelo levantamento das forças, parecendo que a eficácia do soro possa ser atribuída a sua ação tônica.

O Dr. Adolpho Lutz acredita antes que a longa duração das úlceras entretendo a distrofia orgânica seja obra de associação de germes da pele, e sobre eles se exerça de preferência a ação do soro.

O Dr. Gaspar Vianna, a despeito da desnutrição da doente, empregaria antes o 914, que teria a dupla vantagem de atuar sobre a natureza da lesão e atuar como tônico. Não teria receio de que o Neosalvarsan produzisse acidentes, apesar da tendência manifesta para hemorragias, como demonstrou a constância das hematêmeses.

 

1914

2ª Sessão Ordinária, 29 de maio de 1914 39

Presidente do Dr. F. Terra, servindo de secretários os Drs. Silva

Araújo Filho e V. Teive.

Compareceram mais os Drs. Henrique Aragão, Arthur Moses,

D'Utra e Silva, Werneck Machado e Adolpho Lutz.

Acidentes do 914, pelo Dr. F. Terra 40

Poucos são os casos conhecidos entre nós de acidentes devidos ao emprego do 606 ou do 914, e assim mesmo não se tem bem apurado se os fatos assinalados têm realmente essa causa ou trata-se de distúrbios provocados por causas outras. Ofereceu-se ocasião para observar um caso grave, com desfecho letal, e que acredita ter como fator primordial o emprego do Salvarsan feito em condições desfavoráveis de resistência orgânica.

Foi procurado por um doente, branco de 60 anos, italiano, casado, professor, morador nesta cidade há longos anos. Sem antecedente venéreo, e com Wassermann negativo, foi-lhe entretanto diagnosticada uma lesão do fundo do olho de natureza sifilítica, submetendo-se na Europa ao tratamento pelo 606, de que tomou várias doses em injeções intravenosas. Profere que sentiu algumas melhoras, tendo readquirido um pouco a visão, quase extinta ao começar o tratamento. Aqui chegando quis continuar o tratamento pelo Salvarsan de acordo com a indicação que trouxe, por escrito, dos médicos de Paris, com quem se tratara. Aconselhou o Dr. Terra que fizesse uma cura mercurial prévia, a que se recusou, acedendo, entretanto, na substituição do 606 pelo 914.

As três primeiras injeções, em solução concentrada segundo o método de Ravaut, foram bem toleradas, apenas tendo tido na última um pouco de diarréia. À quarta injeção sobreveio um eritema, que se confinou às dobras articulares e depois foi gradualmente estendendo-se pelos membros superiores e pelos inferiores, em seguida ao tronco e face, tornando-se então universal.

Acusava sensação de calor e ardor, e posteriormente de prurido intenso, intolerável.

O rubor foi então se acentuando, os fenômenos inflamatórios da pele ganharam intensidade, formaram-se vesículas pequeníssimas e confluentes, que se romperam produzindo-se largas placas de exsudação serosa.

A erupção eritemato-exsudativa estendeu-se ao couro cabeludo, ficando os cabelos aglutinados pela secreção seropurulenta formada. Essas lesões alternaram com formações crostosas e escamosas, eliminando-se nas mãos e pés largos retalhados de epiderma córneo.

A inflamação da pele chegou ao fastígio, tornando-se ela luzente, infiltrada, dolorosa, em muitos sítios fendilhada, em outros oferecendo o aspecto da erisipela. Esse estado durou cerca de 20 dias, quando surgiram os fenômenos gerais, febre, e fenômenos para o lado do aparelho digestivo com o quadro do tifismo.

A erupção permaneceu nesse estado, com alternativas de recrudescência em uns pontos e regressão em outros. A urina não revelou a presença de albumina, açúcar e fosfato, permanecendo na densidade normal.

O doente veio a sucumbir em estado de adinamia.

Soube posteriormente que além do tratamento pelo Salvarsan e pelo 914 o doente havia tomado cerca de duzentas injeções de cacodilato de sódio.

O Dr. Silva Araújo Filho lembra casos de acidentes provocados pelo Salvarsan, observados na Clínica Dermatológica, porém não se revestindo de gravidade.

Entre outros decorre o de um rapaz, vindo de Portugal com blenorragia, e apresentando placas mucosas na boca e na região inguinescrotal. Foi-lhe injetada uma dose de 606, sobrevindo um herpes genital, que durou alguns dias. Um outro doente, após submeter-se a uma injeção de 60 centigramas de 606, teve uma

zona41 torácica que se reproduziu no mesmo lado depois de tomar nova dose do mesmo medicamento, que em outro indivíduo produziu eritema urticariano, tosse, e prurido generalizado.

Ao conhecimento da sociedade francesa de dermatologia levou Goubeau um caso ocorrido em sua clínica, que tem analogia flagrante com o que se acha em discussão. Após terceira injeção do Salvarsan, indicada por leucoplasia bucal, foi o doente acometido de vômitos e diarréia, e à quarta sobreveio eritema escarlatiniforme generalizado, acompanhado de fenômenos gerais graves, tendo o caso desfecho fatal.

Na discussão que em torno do fato se produziu divergiram as interpretações. Julgaram uns poder-se atribuir toxemia arsenical, outros porém deram mais importância à ação que poderia ter exercido o óxido de zinco, que entrara na composição de uma pasta aplicada largamente na superfície da pele desprotegida. À ação tóxica do arsênico juntou-se a do óxido de zinco, cuja absorção foi favorecida pela superfície extensa do eczema.

O Dr. Werneck Machado diz ter também observado acidentes da salvarsanoterapia para o lado da pele, em geral benignos. Um de seus clientes acusou um zóster supraorbitário, acompanhado de violentas nevralgias seis horas após a injeção de 914. Outra vez viu-se produzir, seis horas depois da administração do 914, um fortíssimo ataque de urticária com formação de placas volumosas, congestão da face e conjuntivas, febre alta. Considera o caso referido como um dos mais raros assinalados, propendendo a considerá-lo como a expressão do fenômeno de anafilaxia.

Leredde aconselha, como meio de prevenir os acidentes da arsenioterapia, se submeta o indivíduo a um preparo prévio, para se obter nele a necessária resistência orgânica, emprestando muito valor, para tal fim, a administração, na véspera da injeção, de um purgativo.

O Dr. Adolpho Lutz diz que se deve distinguir a anafilaxia de acúmulo de medicamento. Muitas vezes não são as doses empregadas que explicam o acúmulo. No caso vertente os acidentes lamentáveis, que se deram, não podem ser levados à conta da anafilaxia. É de regra, quando se dão acidentes, que possam ser atribuídos à ação do arsênico; por mais atenuados que sejam, deve-se logo interromper o tratamento para se evitar mal ponderável.

Pelas discussões que se tem travado nos centros científicos em torno do momentoso problema conclui-se que a extensão que se dava à eficácia do método de Ehrlich não é mais aceitável, e vê-se mesmo que há propensão para se restringir o emprego desse tratamento em face da gravidade dos acidentes que tem ele às vezes produzido. Por outro lado, está provado que era um exagero a afirmação de que ele conseguia esterilizar a sífilis, e portanto a sua vantagem não é tão grande como a apregoada.

O Dr. D'Utra e Silva refere casos de púrpura que se têm dado em seguida ao emprego das injeções de Salvarsan.

Registram-se mesmo fatos em que a terminação tem sido letal.

Úlcera fagedênica tropical, pelo Dr. Silva Araújo Filho 42

Apresenta dois doentes, afetados de úlcera dos países quentes, internados na Clínica Dermatológica em maio do corrente ano. Ultimamente as estatísticas têm mostrado um certo incremento dos casos dessa dermatose, e procedem sempre os doentes das cercanias desta cidade, e em geral se entregam a trabalhos de lavoura.

Obs. I – A. V., branco, de 21 anos, brasileiro, solteiro, lavrador, residindo em Queimados.

Nada de importância em seus antecedentes hereditários nem nos pessoais. Refere que há mês e meio apareceu sem causa apreciável um pequeno nódulo no terço médio da face posterior da perna direita, o qual em pouco tempo se ulcerou. Informa que na casa, em que residia, morava um indivíduo afetado de idêntica lesão, que já durava cerca de um ano.

De boa compleição, sem sintoma aparente de sífilis hereditária ou adquirida, apresenta no sítio indicado uma úlcera elíptica, de cerca de sete centímetros de diâmetro transversal, e de cinco no longitudinal. Os bordos são salientes, infiltrados, não descolados, regulares. O fundo da ulcera é coberto de botões de vários tamanhos, de cor vermelho-intensa, banho por serosidade sanguinolenta, que se renova constantemente e que corre pelo calcanhar indo ter ao solo. Não lhe cobre membrana polposa nem crosta. Pequenas ulcerações existem também no bordo posterior do pé esquerdo, e através do maléolo interno.

Obs. II – J. A., branco, espanhol, 16 anos, solteiro, trabalhador de lavoura, morador em Mangaratiba, entrou em 23 de maio para a enfermaria da Clínica Dermatológica. A não ser o paludismo, que contraiu na zona em que reside, não conta antecedente mórbido, tampouco doença venérea. Em abril sofreu [+] no pé direito, de que resultou, dias depois, a formação de uma úlcera. Esta se localiza na região do tendão de Aquiles, é circular e tem uma extensão de cerca de cinco centímeros. O fundo tem um aspecto gangrenoso, coberto de uma membrana polposa, e é banhado por abundante saniose.

O Wassermann foi negativo e a análise da urina nada revelou de anormal.

O exame do frottis, quer num quer no outro caso, revelou a presença de numerosos bacilos de Vincent associados aos espiroquetas.

O Dr. Adolpho Lutz acha que os casos aqui observados, e que são tidos como úlcera fagedênica dos países quentes, não se ajustam bem aos descritos pelos autores, principalmente os observados na África. Estes são muito mais graves, têm uma marcha fulminante, e se assemelham grandemente à gangrena hospitalar. Os fatos aqui assinalados têm na realidade um caráter maligno, porém não acentuadamente como naqueles, e é constante a simbiose fuso-espirilar. Agora convém estudar o papel desta com a úlcera tropical. Sabe-se perfeitamente que a simbiose fuso-espirilar não é apanágio da úlcera dos países quentes; ela é constante também na estomatite membranosa, e na angina de Vincent.

Em outros doentes atacados de úlceras de natureza diversa, como a leishmaniose, por exemplo, encontram-se muitas vezes nas lesões os espirilos, conferindo-lhes uma marcha rápida que impede mesmo a ação de uma terapêutica enérgica.

Se apelarmos para a espécie do tratamento com o objetivo de tirar conclusão sobre a natureza da doença, reconheceremos que realmente o tártaro emético mostra-se salutar no tratamento da úlcera fagedênica. Entretanto não é esse um argumento decisivo, por enquanto se conhece o efeito cicatrizante desse medicamento em úlceras de diversas naturezas. Torna-se mister, portanto, multiplicarem as pesquisas. Em muitas úlceras teve oportunidade de encontrar um bacilo semelhante ao da difteria, e entretanto verificou igualmente que se tratava da leishmaniose. Muitas vezes torna-se difícil estabelecer o diagnóstico clínico, porque se tem tido ocasião de ver que úlceras banais assestadas nas pernas, uma vez sofrendo traumatismos mais ou menos duradouros, ou sujas por terra, podem assumir o aspecto de úlceras fagedênicas.

Emprego do galyl, pelo Dr. Werneck Machado 43

Vem trazer ao conhecimento da sociedade o resultado de sua observação sobre o emprego do galyl não só no tratamento da sífilis como de outras doenças. Trata-se de um preparado arsênio-fosforado orgânico, descoberto pelo Dr. Monnerat, que parece levar certas vantagens sobre o Salvarsan, como por exemplo mostrar mais energia curativa, com doses menores, de 30 a 40 cg dados de 10 em 10 dias, e não se ter revelado neurotrópico, um dos maiores inconvenientes daquele.

Teve ocasião de empregar em uma doente com lesões ulcerosas nas regiões inguinal e vulvar, e cujo diagnóstico estava indeciso. Se por um lado o aspecto e a sede das lesões faziam propender o diagnóstico para o granuloma venéreo, por outro lado não era desarrazoado pensar-se em sífilis, visto como o Wassermann havia sido positivo. Trata-se de uma doente, de 30 anos, parda, viúva, com lesão genital e perigenital, de longa duração e banhadas por secreção serosa muito fétida. Foi submetida a três injeções de galyl, e as lesões adquiriram então melhor aspecto, tornando-se menos secretantes, perderam o cheiro desagradável, porém não lograram ainda cicatrização.

Uma outra doente apresentava lesões ulcerosas da sífilis, reincidentes, generalizadas, verdadeira sífilis maligna, e que haviam resistido ao emprego do mercúrio, do iodureto de potássio e do 606. Com o emprego do galyl operou-se em poucos dias a cicatrização das úlceras.

Na roséola e na sifílide papulosa a regressão dos acidentes faz-se em curto prazo. Em uma doente que apresentava a sifílide papulo-ulcerosa, o exantema cedeu ao emprego do galyl, porém em breve reincidiu, e com outra injeção desse medicamento desapareceram as manifestações definitivamente. Não podendo tirar já conclusões definitivas em presença de poucos casos, parece-lhe entretanto que os acidentes da sífilis secundária cedem muito mais prontamente que ao Salvarsan, o mesmo se dando em alguns casos de terciarismo.

Quanto à sua ação local, os fatos mostram que ele é um medicamento muito irritante, como o 606, e deve-se ter muita cautela, na injeção endovenosa, em evitar que a solução extravase, visto como determina logo dor intensa e inflamação posterior, rebelde.

Deve as observações sobre o galyl ou "116" à gentileza do Sr. Dr. Bastos Netto, assistente da 3a cadeira de Clínica Médica, que não só forneceu o medicamento como se prestou a fazer as injeções na doente de sua enfermaria. Com as observações feitas neste serviço e na clínica do Prof. Miguel Couto e em outros doentes, o Dr. Bastos Netto em tempo apresentará um trabalho completo, convenientemente documentado.

O Dr. Moses vai se ocupar exclusivamente do caso suposto de granuloma, doença na qual o 606 não tem dado resultado algum, e onde o galyl também pouca ação parece ter exercido. Serve, portanto, para ficar já firmado que se o galyl exerce certa influência nas doenças ulcerosas da pele, não tem ação específica sobre o granuloma.

No caso vertente as melhoras que se deram podem achar explicação no fato de ser um terreno sifilítico esse organismo, visto que Wassermann foi positivo.

Quanto à pesquisa microscópica, tem a declarar que não foram vistos corpúsculos ovais de Donovan, procurados em frottis. A ausência porém do germe não exclui o diagnóstico de granuloma, visto poder ter sido ela feita em condições desfavoráveis. Vai repetir a pesquisa.

Dr. Adolpho Lutz – Não se pode nas moléstias microbianas fazer depender o diagnóstico da pesquisa microscópica, por enquanto os sintomas bastam muitas vezes para firmá-lo. O diagnóstico assenta, portanto, em três elementos: no exame clínico, no descortino do parasita, e na terapêutica. A apreciação dos sintomas objetivos não dá margem a dúvida no caso vertente. Quanto ao parasita que se tem quase sempre encontrado no granuloma, não é ele extreme de contestação como causador da doença. Não basta para se tirar essa conclusão a sua presença na lesão. No rinoscleroma, por exemplo, o bacilo encontrado, e que se tem incriminado como patogênico, tem sofrido forte contestação. E um dos mais fortes esteios é que cultivado, e essa cultura se inocula no animal, não tem reproduzido a lesão.

Epitelioma da região umbilical, pelo Dr. D'Utra e Silva 44

O doente esteve em tratamento há cerca de três anos na Clínica Dermatológica, tendo a lesão já três anos de duração. Suspeitou-se tratar-se de lúpus tuberculoso ulcerado. Com um tratamento tópico a úlcera cicatrizou em parte, até que ultimamente a parte não modificada começou a se estender, obrigando o doente a recolher-se de novo ao hospital.

Indivíduo branco, de 32 anos, brasileiro, solteiro, empregado no comércio, morador nesta cidade, internou-se na enfermaria da Clínica Dermatológica em 2 de maio de 1914.

Sua história mórbida é destituída de interesse, dizendo o doente vagamente ter tido sífilis há muitos nos, sendo entretanto o Wassermann negativo.

A lesão iniciou-se por uma pequena pápula situada à direita da cicatriz umbilical, sangrando ao mais ligeiro traumatismo, e um pouco pruriginosa.

Assim permaneceu durante um ano até que se ulcerou, a úlcera resultante estendeu- se superficialmente e adquiriu o tamanho de uma moeda de 2$000. Fez-se a excisão de toda a parte afetada, ficando no lugar uma cicatriz densa e irregular.

Há cerca de sete meses, em um ponto mais saliente da cicatriz desenvolveu-se uma pequena ulceração, que rapidamente se propagou até a cicatriz umbilical. Atualmente ali se vê uma úlcera de forma oval, ocupando o centro do ventre, assestada ao redor da cicatriz umbilical, tendo o maior diâmetro no sentido transversal. Os seus bordos apresentam-se salientes, irregulares, não descolados, e muito consistentes. O fundo é irregular, sangra a qualquer contato, acha-se coberto de pequenos botões carnosos, e está banhado por secreção seropurulenta. Ela está em parte coberta por uma crosta escura, pouco aderente. Em alguns pontos deu-se já a reparação dos tecidos ficando uma cicatriz hipertrófica, irregular, e bastante espessa. Nas proximidades da úlcera existem esparsas pequenas ulcerações superficiais. O doente não se queixa de dor nem de prurido, apenas sente às vezes sensação de picada. Os gânglios da vizinhança não sofreram modificação alguma.

Foi já praticada a biopsia e oportunamente daremos a descrição das alterações estruturais do tegumento afetado.

O Dr. Adolpho Lutz é de opinião que se trata realmente de um epitelioma, principalmente pela prova oferecida com a análise histológica.

Clinicamente o aspecto atual é também o dessa espécie de neoplasma, porém torna-se digno de menção o fato de se desenvolver em um indivíduo moço, em idade, que não é o apanágio desses tumores, e pela sua marcha relativamente lenta, o que mostra certa benignidade. Pode-se incluí-lo na categoria do ulcus rodens.

O tratamento não parece ser difícil tendo-se em vista a superficialidade da lesão. Qualquer intervenção cirúrgica no sentido de ablação da lesão é contra-indicada porque iria determinar grande perda de tecido. Aconselha de preferência a aplicação do rádio, ou como recurso mais pronto os raios X.

O Dr. Silva Araújo Filho acha que o mais interessante a se considerar no caso é a idade um pouco imprópria dos neoplasmas malignos.

Recorda que o doente há tempos esteve aqui no serviço clínico, onde se fez a extir- pação do tumor, que naquele momento se apresentava muito menor que agora, e supôs- se então tratar-se antes do lúpus ulcerado. Nessa ocasião teve manifestações cutâneas de natureza sifilítica, que cederam ao tratamento mercurial, sem que este em nada influísse na ulceração do ventre. Outro fato digno de chamar a atenção é a sede do neoplasma, por isso que não são conhecidos os epiteliomas dessa região. Não será plausível a hipótese, que aventa, de se tratar realmente de um lúpus, no qual posteriormente se tenha implantado o epitelioma?

 

1915

1ª Sessão Ordinária, 7 de maio de 1915 45

Presidente – Dr. F. Terra

Secretários – Drs. E. Rabello e Arthur Moses

Compareceram mais os Drs. Adolpho Lutz, Henrique Aragão,

Eduardo de Magalhães, Victor de Teive, Lauro Travassos, Silva

Araújo Filho.

Inseriu-se em ata um voto de pesar pela morte dos Drs. Pedro

Sanches de Lemos e Eduardo Jorge, sócios fundadores da

Sociedade de Dermatologia.

Epiteliomatose múltipla primitiva, pelo Dr. Rabello 46

Refere-se a três doentes portadores de epiteliomatose múltipla cutânea, um da clínica civil e dois da hospitalar. O primeiro trata-se de um indivíduo branco, lavrador, de 70 anos, que se expunha aos raios solares. Apresenta há anos placas de seborréia concreta no rosto e mãos. As lesões, que datam de dois anos, acham-se no ângulo orbitário direito e na região alar do mesmo lado. O exame microscópico mostrou tratar-se de epitelioma espinocelular. O da região malar, que tinha dois centímetros de diâmetro e era vegetante, foi excisado e tratado pelo rádio na linha da incisão. A pequena lesão do ângulo orbitário foi tratada somente pelo rádio.

Outro doente que apresenta é lavrador, tem 53 anos de idade e mostra lesões múltiplas na região supra-orbitária esquerda, ombro, dorso e antebraço direito.

O último tem 35 anos, trabalha na alfândega e expõe-se também aos raios solares. Apresenta lesões idênticas aos outros assestados no ângulo orbitário esquerdo, lábios e atrás do pavilhão da orelha.

Tem igualmente placas de seborréia concreta sobre as quais se desenvolveram as lesões epiteliomatosas.

Do estudo desses três casos tiram-se noções interessantes, a saber; a) formas múltiplas primitivas da pele; b) desenvolvimento em placas de seborréia; c) ação provável dos raios actínicos do sol. São, portanto, fatos de valor que devem ficar registrados.

O Dr. Adolpho Lutz acha que os casos apresentados têm muita analogia com as placas seborréicas dos velhos, as quais se podem transformar em epiteliomas.

A ação do sol parece poder-se explicar como a dos raios X, que são capazes de provocar lesões semelhantes.

Casos de granuloma ulceroso, pelo Dr. Silva Araújo Filho 47

Apresenta três doentes e fotografias de mais um caso.

I – J. F., negro, de 40 anos, natural da Capital Federal, onde sempre residiu. As lesões se iniciaram há um ano, nas regiões inguinais. Apresenta uma grande ulceração circundando a bolsa e estendendo-se até o terço superior das coxas; parte superior da bolsa também ulcerada; pela parte posterior a ulceração abrange todo o períneo indo até o ânus.

Bordas da ulceração nítidas, elevadas, sinuosas; fundo vegetante, granuloso, rosado com pontos avermelhados, banhado por líquido seroso, muito fétido. A lesão é pouco dolorosa; pruriginosa e hemorrágica. Foi submetido a 15 injeções de tártaro emético, apresentando algumas melhoras.

II – G. E. S., pardo, 30 anos, residente nesta cidade, doente há dois anos. Apresenta uma grande ulceração assestada no sulco inguinal, com o aspecto característico do granuloma ulceroso. Foi tratado pelos raios X, fazendo aplicações de 5 H durante dez minutos, dose de Sabouraud para as tinhas. Fez três aplicações no espaço de duas semanas. Queixou-se de dores nas lesões e prurido logo após as aplicações. A ulceração está completamente cicatrizada.

III – A. R., espanhol, branco, 28 anos, residente no Brasil há dez anos, doente desde o começo de 1910.

Em 1912 esteve internado na 19a enfermaria, sendo curado pelo emético e tendo tido alta em abril de 1913. Em outubro de 1914 reapareceu a doença, iniciando-se por uma pequena ulceração na região inguinal direita.

Apresenta uma grande cicatriz, retraída e profunda, indo das espinhas ilíaco-anteriores e superiores ao púbis, numa extensão de 20 centímetros.

A reincidência deu-se ano e meio depois da primeira cura pelo emético, sendo que a cicatrização era completa. Fez agora, para cura do novo surto, 16 injeções de tártaro de 0,1 e lavagens cotidianas em uma solução de tártaro-emético a 1% em solução fisiológica; acha-se quase curado.

IV – V. G. P. S., pardo, 41 anos, natural do estado do Rio, entrou para a 19a enfermaria no começo de 1902, apresentando então o início da doença atual. Em abril de 1915 voltou para o hospital, apresentando uma enorme ulceração estendendo-se das espinhas ilíaco-ântero-superiores até a terceira vértebra lombar.

Tratara-se da forma atrófica do granuloma. Notava-se destruição da bolsa e do ânus.

Entrou para o hospital já em caquexia, falecendo três dias após. Nos frottis foi encontrado em grande quantidade o Kalymmatobacterium granulomatis.

O Dr. Aragão aproveita a oportunidade para exibir contribuição original relativa a inoculação de material do granuloma e cultura do germe.

Não obteve a reprodução da moléstia integral, mas num caso de inoculação obteve formação de lesões de onde obteve o germe nos primeiros dias. Logo após formaram-se abcessos com pus caseoso, não mais encontrando o germe. Ocupa-se da reinfecção apresentada, crendo tratar-se de uma reinoculação talvez pelas vestes do doente. Assim pensa ainda mais por ter surgido a lesão fora da zona primitiva, tratada pelo emético.

O Dr. Rabello acredita mais na revivescência da lesão antiga que escapou à influência do tártaro, empregado por tempo deficiente.

O Dr. Adolpho Lutz diz que talvez se possa excluir a idéia de reinfecção e insiste no tratamento demorado, mesmo após o desaparecimento das lesões.

O Dr. Terra acha que o tártaro dá um resultado brilhante no tratamento do granuloma, mas não logra a cura definitiva, o que prova a reincidência de todos os casos aqui observados.

O Dr. A. Moses diz ser um pouco cedo para se afirmar sobre o efeito definitivo do tártaro. Acha-o preferível ao tratamento pelos raios X, sendo os resultados até agora obtidos muito lisongeiros.

Larva migrans, pelo Dr. F. Terra 48

É fora de dúvida que são, geralmente, acometidas de miíase linear as pessoas que andam descalças na areia, e principalmente quando em uso de banhos de mar.

Conquanto não se conheça o parasita causador da dermatose, há fundamento para se acreditar que ele existe nas praias. Sobre o seu hábitat preciso dissentem os observadores, acreditando uns que é ele encontrado na areia, supondo outros ser ele hóspede das vegetações das praias.

O caso vertente interessa justamente por servir de subsídio a esse detalhe da etiologia. O indivíduo em questão estava em uso de banhos de mar quando surgiu a dermatose; andava descalço na praia, onde aliás faltava a vegetação habitual (coqueirinhos etc.).

Aí se encontram apenas algas, trazidas pelas ondas, e musgo, que reveste as pedras.

Essas informações podem servir de instrução para o ponto debatido.

Obs. – Trata-se de um menino de 8 anos, branco, brasileiro, de boa constituição, morador na praia da Saudade, em uso de banhos de mar há dois meses. Começou a dermatose há um mês por prurido um pouco intenso na borda externa do pé esquerdo, onde em breve apareceu uma linha sinuosa, avermelhada, em relevo. Cedeu com aplicações de tintura de iodo. Posteriormente surgiu outro túnel, também em relevo, no calcanhar, provocando o descolamento da epiderme córnea. Atualmente observa-se na borda interna do mesmo pé, parte média, um trajeto linear, sinuoso, formando curvas caprichosas, que se cruzam em vários sentidos. Formaram-se bolhas do tamanho de uma ervilha, de conteúdo transparente, vendo-se nitidamente, na epiderme de revestimento da bolha, uma linha irregular. Ao lado dessas lesões existe um outro túnel em formação, muito dificilmente reconhecível, fazendo ligeira saliência, de cor rósea, de trajeto irregular, sinuoso. O doente acusa, na sede das lesões, prurido, aliás tolerável.

O Dr. F. Terra insiste no fato de a criança andar descalça na areia da praia. Procurando- se inquirir sobre o hábitat da larva causadora da doença, aventou o Dr. Aragão a hipótese de a larva viver nos vegetais existentes nas restingas. Ora, no caso presente, a praia, onde o doente contraiu a miíase, não tem vegetação.

O Dr. Adolpho Lutz mostra o grande interesse que o assunto vai despertando, pela freqüência com que se encontra agora a larva migrans.

Viu ultimamente dois casos, sendo um deles em indivíduo que morava longe da praia; trabalhava em jardinagem e teve a dermatose na mão. Não logrou ver a larva em nenhum dos casos. Nos casos observados na América do Norte, constatou-se, em grande número deles, pois a doença é aí freqüente, que se tratava de indivíduos que lidavam com areia. Será um oestrídeo?

Não parece, porque nunca se observaram lesões como essas nos portadores de oestrídeo. Não acredita também que sejam cuterebrídeos.

Viu uma larva do gênero dolicopodial, que vive em água, no estrume e na areia.

Essa larva tem grande poder de penetração. Será, porventura, a causadora de semelhantes lesões? Precisamos de uma larva que tenha a propriedade de penetrar nos tecidos alimentando-se de líquidos orgânicos.

O Dr. Rabello diz que trata de uma senhora com lesões pertinazes nas mãos, de longa duração, resistindo a tratamento enérgico e variado, a qual não lidava com areia, mas tinha o hábito de estrumar as plantas do jardim, o que está de acordo com a hipótese aventada pelo Dr. Lutz.

O Dr. Silva Araújo Filho lembra a observação que referiu o ano passado, à Sociedade, de um doente que apresentou durante dois anos lesões características de larva migrans; esse indivíduo não lidava com areia e residindo num subúrbio, havia muitos anos, não ia às praias do Rio; no entanto possuía uma pequena chácara que cultivava, tendo assim ocasião de lidar com estrume. Estranha que o parasita possa viver tanto tempo em estado larvar, mas as lesões que apresentava, e que foram vistas também pelo Prof. Terra, constituindo uma epidermite, serpeante, linear, eram idênticas às habitualmente descritas como Larva migrans.

2ª Sessão ordinária, 21 de maio de 1915 49

Presidente : Dr. F. Terra

Secretários: Drs. E. Rabello e Victor de Teive

Compareceram mais os Drs. Arthur Moses, Henrique Aragão,

Antonio José Cajazeiro, Adolpho Lutz, Lauro Travassos,

Werneck Machado e Silva Araújo Filho.

Foram aceitos como sócios efetivos os Drs. Jorge de Gouvea e

Antonio José Cajazeiro.

Onicomicose rara pelo Dr. F. Terra 50

A importância do caso é flagrante por se tratar de uma localização imprevista do Epidermophyton de Sabouraud.

Uma senhora brasileira, solteira, branca, de 33 anos, de boa compleição, moradora no interior do estado do Rio, apresenta uma afecção das unhas dos pés e das de alguns dedos das mãos, datando de dez a doze anos. Não precisa por onde nem como se iniciaram as lesões, mas afirma não ter o hábito de lidar com animais domésticos. Refere também que em sua casa nunca esteve pessoa alguma que sofresse de doença da pele ou das unhas, nem se lembra de ter estado em contato com alguém que tivesse incômodo análogo.

Refere ter gozado sempre saúde e não ter em outra região do corpo qualquer afecção da pele, máxime na região inguinocrural. Apenas de vez em quando tem acentuado prurido nos dedos dos pés, seguido de espoliação epidérmica.

Todas as unhas dos pés estão afetadas, apresentando lesões idênticas às das mãos.

Nas mãos as lesões assestam-se nas unhas dos indicadores, estendendo-se acima das pregas superungueais. No indicador direito está muito mais alterada a lâmina ungueal, achando-se reduzida a delgada lamínula. Em ambos os indicadores, estão frágeis, irregu- lares, fareláceas e amareladas. Aplicada a tintura de iodo, e posteriormente a chrysarobina em verniz, foram notadas grandes melhoras.

Fizemos a semeadura em meio de prova de Sabouraud, e ao cabo de alguns dias começaram a surgir pequenas colônias, que só algum tempo depois atingiram seu completo desenvolvimento.

Formaram-se colônias vivazes de Epidermophyton inguinalis, de base cor-de-rosa, superfície branca, montanhosa, com depressões radiadas e penugentas.

Trata-se pois de uma localização muito rara do Epidermophyton inguinalis, que destarte vem demonstrar mais uma vez a pluralidade de suas formas clínicas, simulando muitas vezes outras dermatoses.

O Dr. Rabello referiu o caso de uma senhora que há vinte anos tinha

lesões de epidermofitose 51 espalhadas pelo corpo, com localizações muito adiantadas nas lâminas ungueais.

Nesse caso isolou o Epidermophyton purpúreo.

Refere-se à pluralidade desse Trichophyton, confirmada diariamente pelos fatos. Essas investigações estão de acordo com os trabalhos de Bang, que isolou o Tricophyton purpureum.

O Dr. Lutz acha que se deve pesquisar se esses doentes vítimas da epidermofitose sofriam de hiper-hidrose nas zonas onde se desenvolvem as lesões. Nos climas quentes a umidade constante da pele favorece o desenvolvimento das lesões e sua disseminação, explicando-se a localização atípica das epidermofitoses.

O Dr. Rabello confirma essa suspeita dizendo que observou doentes que apresentavam reincidências estivais de tricofícias tórpidas no inverno. Cita um caso de doente, em que a dermatose, datando de 34 anos, curou-se com prasiticidas em pouco tempo e era tida como manifestação própria do artritismo.

O Dr. Silva Araújo Filho lembra um caso idêntico ao do Prof. Terra, por ele comunicado, o ano passado, à Sociedade.

Blastomicose bucal, pelo Dr. F. Terra 52

Trata-se de um um indivíduo de cor parda, 40 anos, brasileiro, lavrador, residente no Engenho de Dentro, como antecedentes mórbidos individuais refere ter sarampo, varíola e paludismo, não havendo contraído doenças venéreas. Como antecedentes familiares nada de importante acusa.

Confessa que tinha o hábito, comum no interior, de mastigar folhas e talos de vegetais.

Há cerca de 11 meses manifestou-se grande inflamação na bochecha esquerda, em conseqüência de uma lesão pruriginosa que surgiu na gengiva do mesmo lado. Começou a sentir dor de garganta e disfagia há quatro meses mais ou menos. As lesões tornaram-se objeto de preocupação quando, há dois meses, surgiram também na comissura labial esquerda, estendendo-se pelo bordo livre do lábio até atingirem a comissura direita.

O doente acha-se atualmente bastante magro, enfraquecido, com a face edemaciada, os gânglios submaxilares inflamados e dolorosos, e tem tosse acompanhada de expectoração, existente, aliás, desde o começo da doença.

Nas comissuras labiais, bordo livre e face interna do lábio inferior, existe uma ulceração superficial, finamente granulosa, com pontilhado avermelhado e numerosas e minúsculas pústulas, muito superficiais. A ulceração, de aspecto farláceo (sic), é banhada por serosidade.

Lesões idênticas existem na gengiva da arcada inferior, e, seguindo uma disposição linear, na mucosa das bochechas, no nível do encontro das superfícies dentárias. Vêem-se também iguais ulcerações na mucosa do palatino e lesões com o mesmo aspecto no soalho do vestíbulo das fossas nasais.

Nos frottis foram encontrados blastomicetos em várias fases de evolução. Refere o doente que convivia com um indivíduo que tinha ulcerações no rosto.

Trata-se, pois, de um caso de blastomicose da mucosa, sendo, entre nós, freqüente a localização bucal.

O Dr. Aragão acentua o fato da localização bucal, parecendo indicar que por aí se faz a penetração do germe. Lembra que todos os doentes têm o hábito de mastigar vegetais, parecendo que estes são parasitados pelos blastomicetos.

O Dr. Lutz aconselha que se pesquise o blastomiceto nas fezes e no esputo.

O Dr. Rabello acredita que para a blastomicose se possa aplicar o que sabemos sobre o esporotrico, que é veiculado freqüentemente pelos vegetais crus.

Dois casos de botriomicoma humano, pelo Dr. E. Rabello 53

No primeiro, cuja preparação histológica apresenta, trata-se de um tumor que se desenvolveu no lábio inferior de uma moça, de cerca de 20 anos, consecutivamente a um ligeiro traumatismo. Após um mês de evolução apresentou-se o tumor pediculado, localizado no limite da pele e da mucosa, com cerca de meio centímetro de diâmetro; a preparação histológica mostra alterações angiofibrosas, peculiares a esse tumor.

No outro caso o botriomicoma localiza-se na face interna da coxa esquerda, em um indivíduo de 23 anos, e seguiu-se também a um traumatismo. Tem cerca de dois centímetros de diâmetro e um pedículo, longo de um centímetro, apresenta-se, como o anterior, coberto de crosta hemológica, pois a lesão sangra facilmente. O caso atual é de tumor dessa natureza dos mais volumosos que temos registrado.

A constituição é de um angiofibroma, predominando, porém, aqui a grande riqueza vascular.

O Dr. Moses indaga se nos cortes foi encontrado algum germe particular, e que elucidaria a natureza do tumor.

O Dr. Lutz acha que a estrutura angiofibrosa desses tumores não basta para dar característica a esses tumores.

Assim acontece com a célula gigante, que não pode mais servir de base para classificação, visto ser encontrada em doenças de várias naturezas.

O Dr. Moses acha que se deve aproveitar o material para fazer inoculações em animais. Talvez seja o meio de se apurar qual o

germe causador do tumor.54

3ª Sessão Ordinária em 9 de julho de 1915 55

Presidente – Dr. F. Terra

Secretários – Drs. E. Rabello e Silva Araújo Filho

Compareceram mais os Drs. Adolpho Lutz, Arthur Moses, H.

Aragão, Jorge de Gouvea, Zopiro Goulart, Daniel de Almeida,

Palmeira Riper, Victor de Teive, A. de Mattos, Augusto Vidigal e

Lauro Travassos.

Sarcomatose secundária hipodérmica, pelo Dr. Jorge de

Gouvea 56

Obs. – Martha S., 50 anos, branca, alemã, viúva, empregada de serviço doméstico, entrou para a enfermaria do Dr. Daniel de Almeida em junho de 1915.

Antecedentes mórbidos carecendo de importância. Há cerca de 15 meses apareceram na região inguinal direita dois nódulos indolores, móveis, com pele normal.

Progressivamente aumentaram, atingindo o volume de um ovo de galinha aproximadamente. Sentindo nesse tempo mal-estar e febre, foi operada em Buenos Aires. O exame anatomopatológico exigido pelo cirurgião mostrou ser uma sarcomatose, o que o induziu a prever uma generalização.

Gozou de saúde durante quatro meses até que se iniciou a generalização do processo mórbido com o aparecimento de vários pequenos tumores.

Acha-se a doente muito magra e depauperada, apresentando na perna direita vários tumores, sendo uns pediculados e outros sésseis. Alguns apresentam coloração vinhosa, outros, francamente preta. O tamanho varia, sendo os maiores da dimensão de uma noz, os menores de grão de milho. Uns isolados, outros reunidos em grupos de três a cinco. A plêiade ganglionar direita muito enfartada e o membro abdominal edemaciado.

Na perna esquerda não existe lesão alguma.

Resumindo, podemos classificar em três ordens os acidentes:

a) verdadeiros nódulos subcutâneos, móveis, indolentes, de colocação azulada mais ou menos intensa;

b) outras saliências, pendiculadas, de coloração variando de violeta escura ao negro;

c) manchas hipercrômicas, negras.

Nestes últimos dias começou a ter escarros sangüíneos, fazendo crer em generalização interna.

O Dr. Lutz não nutre dúvida sobre o diagnóstico, sendo que as localizações internas falam muito a favor da sarcomatose.

O Dr. Gouvea acrescenta que os cortes de um dos tumores mostraram a estrutura do sarcoma.

O Dr. Rabello acha que o caso já por si interessante torna-se mais curioso por se tratar de uma forma secundária. Os tumores do tipo hipodérmico são muito raros entre nós. Lembra o caso por ele apresentado de sarcoma primitivo da pele, sarcomatose de Kaposi. Podia-se pensar no caso presente em micose fungóide, pois há certa analogia de lesões; a última, porém, tem características que se afastam do caso vertente, sendo as lesões mais ulcerosas e havendo no começo prurido intenso e pertinaz. Trata-se de sarcomatose secundária da pele, posterior a sarc omatose ganglionar.

Leishmaniose e epitelioma, pelo Dr. E. Rabello 57

D. P., branco, 63 anos, italiano, pedreiro, vindo de Bauru, internou-se na clínica em abril de 1915. Sem antecedente mórbido digno de nota, viu surgir há cerca de quatro anos uma dermatose ulcerosa, localizando-se as lesões no dorso das mãos e no pé esquerdo; tratado pelo tártaro emético em injeções endovenosas, as úlceras cicatrizaram em 25 dias, mais ou menos.

No lábio superior, e no véu do paladar, vêem-se lesões típicas de leishmaniose. Há três meses a ulceração do nariz complicou-se com miíases, curada com lavagens de creolina. Atualmente apresenta, além da leishmaniose mista, essa ulceração nasal com bordas elevadas e duras, circular, profunda, que fez suspeitar um epitelioma, o que foi confirmado pelo exame histológico. As lesões de leishmaniose regrediram com o tártaro.

O Dr. Lutz diz que nesses casos de dermatose crônica, onde há suspeita de epitelioma, deve-se proceder a pesquisa histológica, como se fez no caso presente, vindo ele a confirmar a suspeita ditada pela observação clínica. Lembra o fato, raro, de um epitelioma complicando uma lesão leprosa da bochecha. No doente presente há também a assinalar- se a complicação de miíases, que é sempre a temer em doentes que residem em zonas do interior e que, exibindo lesões abertas, estão aptos para elas. Observou um caso de epitelioma da nádega, no qual a invasão de larvas dramatizou o quadro clínico, emprestando-lhe mesmo uma maior gravidade, dando maiores domínios à úlcera.

Miíase linear, pelo Dr. F. Terra 58

Teve ocasião de observar no começo de maio deste ano um novo caso de Larva migrans, desenvolvendo-se em uma menina branca, brasileira, com seis anos, que estava em tratamento de tinha microscópica, ainda em evolução.

As lesões, pouco aparentes, não foram notadas pelas pessoas da família, nem pela menina, que sentia apenas ligeiro prurido na zona afetada. Constavam elas de uma linha rósea, de pequeno relevo, com configuração caprichosa, irregular, voltando ao ponto inicial, para novamente cruzar outro ponto da linha, e de pequenas vesículas situadas em alguns lugares do seu percurso.

Essas lesões se assestavam na face dorsal da mão direita, junto ao espaço interdigital do anular com o médio. Datavam de seis dias. A família informou que a menina tinha o hábito de brincar com a areia do jardim, conquanto a casa seja distante da praia. Com a aplicação diária de tintura de iodo, tudo desapareceu, subsistindo no local escamas e manchas escuras.

Com grande surpresa, verificaram pessoas da família que os acidentes cutâneos reapareciam, formando-se de novo o trajeto linear, saliente e rubro.

O Dr. Lutz diz que seria muito desejável encontrar a larva no tegumento cutâneo, o que até agora não se conseguiu, não obstante as biópsias feitas em vários doentes.

Mantém as idéias exaradas na sessão anterior.

Apresenta à Sociedade as moscas e larvas de duas espécies de Dolichopodiaclae, colhidas no mangue e no estrume.

Oferecem hábitos muito semelhantes. A larva penetra na nervura das folhas podres e nos orifícios das rolhas de cortiça – alimenta-se com sucos orgânicos, estando em condição de parasitar a pele. Encontra um bom meio nutritivo no ágar a um e meio por cento, onde vivem igualmente bem as larvas dos tabanídeos, que têm propriedades semelhantes.

Aí penetram muito rapidamente e, sendo esse um meio transparente, pode-se ver bem o seu movimento. Preferem os meios úmidos.

4ª Sessão ordinária, 30 de julho de 1915 59

Presidente – F. Terra

Secretários – E. Rabello e Silva Araújo Filho

Compareceram mais os Drs. Adolpho Lutz, Alarico Damásio, Arthur Moses, Lauro Travassos, Roquete Pinto, D'Utra e Silva, A. Porto, Werneck Machado e Sampaio Vianna.

É lido um ofício do presidente da Associação Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, convidando a Sociedade para se fazer representar na comissão mista da profilaxia da lepra. A Sociedade elegeu para essa comissão os Drs. F. Terra, Adolpho Lutz e J. Moreira.

Foi lido também um ofício do embaixador americano, convidando a Sociedade para se fazer representar no Segundo Congresso Científico Pan-Americano, ficando resolvida a sua adesão e nomeados os Drs. Adolpho Lutz e Moses.

Foi aceito sócio o Dr. Murilo de Campos.

Caso pró-diagnose, pelo Dr. Werneck Machado 60

Trata-se de um indivíduo branco, português, casado, de 34 anos, empregado em restaurante, que apresenta uma lesão bucal há oito meses mais ou menos.

Ignora como se iniciou a lesão, referindo apenas ter surgido uma espinha na comissura labial esquerda.

Apresenta edema duro de todo o lábio superior, do meio para a parte externa, achando-se a pele lisa e cianótica. O edema prolonga-se para a pálpebra inferior. A mucosa do lábio e da bochecha mostra-se muito endurecida, apresentando pontos vermelhos, luzentes no local de contato dos dentes. Na mucosa do palatino, placas pequenas, amarelas. Dificilmente o doente abre a boca, sendo impossível ver-se a garganta.

Língua endurecida, seca.

Na região cervical esquerda um gânglio aumentado de volume, porém indolente. Ausência de sintomas subjetivos.

O Dr. Lutz lembra a necessidade de orientar as pesquisas no sentido da actinomicose, tendo em vista a rapidez da marcha das lesões e a dureza lenhosa da língua.

O Dr. Moses acha que se deve fazer o Wassermann, para eliminar a hipótese de sífilis.

Mais um caso de bouba, pelo Dr. Silva Araújo Filho 61

Este ano já teve oportunidade de apresentar cinco casos de bouba; hoje traz à Sociedade mais um exemplar dessa dermatose.

G. P. G. B., preto, 40 anos, residente em Maxambomba, lavrador, e que se acha internado na Clínica Dermatológica. Nada de importante como antecedente mórbido. Informa que residia em casa de uma família, onde havia uma menina afetada de erupção idêntica à que ora exibe. Em maio último surgiu-lhe na face interna do braço direito um pequeno nódulo, que logo se ulcerou, e outro idêntico apareceu atrás do maléolo externo do pé esquerdo. Atualmente existem três lesões circulares, cobertas de crosta amarelada, na região frontal, pouco salientes, vegetantes, com um centímetro de diâmetro.

Existe na parte externa da região superciliar esquerda um pequeno tubérculo exuberante, também coberto de crosta melicérica. No pavilhão das orelhas, na hélice, encontram-se acidentes análogos, já em via de regressão. Na região peitoral direita vê-se uma placa, circular, numular, de fundo papilomatoso, banhado por líquido seropurulento escasso.

Observam-se espalhadas, sem ordem, no tegumento cutâneo, eflorescências framboesiformes em vários estados de evolução. Na bolsa vêem-se também placas papilomatosas, porém mais úmidas. Nas palmas das mãos numerosas escamas, bastante aderentes, achando-se hipertrofiada a camada córnea do tegumento. Na região plantar os tubérculos se ulceraram, apresentando-se com o aspecto a que os doentes dão o nome de cravos boubáticos.

Digna de atenção é a erupção finamente papulosa, em forma de placas esparsas, que se nota em vários sítios da região torácica.

Gânglios inguinocrurais aumentados de volume, móveis e indolentes. O doente acusa prurido, principalmente nas lesões mais desenvolvidas.

Wassermann negativo.

O Dr. Lutz insiste na necessidade de excluir do quadro clínico da bouba o que aí se inclui do domínio de outras doenças, como gangosa, blastomicose, leishmaniose etc.

O Dr. Terra diz que nessa modalidade liquenóide há a distinguir-se se se trata de um novo sintoma da bouba, como que Baermann, ou se é um líquen pilaris ocorrendo em um boubático, aproveitando as condições de miséria orgânica propícia ao desenvolvimento de líquen.

Urge verificar a presença do treponema na pápula desse líquen.

5ª Sessão Ordinária, 11 de agosto de 1915 62

Presidente – Prof. Fernando Terra

Secretários – Drs. E. Rabello e Silva Araújo

Compareceram mais os Drs. Victor de Teive, Sampaio Vianna,

Lauro Travassos, Arthur Moses, Werneck Machado, Adolpho

Lutz e Henrique Duque.

Caso pró-diagnose, pelo Dr. F. Terra 63

Trata-se de um menino de 14 a 15 anos presumíveis, morador em Maxambomba, estado do Rio, que apresenta espalhados pelo corpo tumores subcutâneos, endurecidos uns, outros, em maior número, com um ponto de fusão purulenta, e alguns, já abertos para o exterior, deixando sair uma secreção seropurulenta.

Esses tumores, espalhados pelo couro cabeludo, antebraços, mãos, pernas e pés, alguns móveis sob a pele, mas aderentes quase sempre aos planos profundos, sendo a pele que os cobre, máxime nos amolecidos, de cor mais escura que a normal. São indolores, e o doente, de inteligência medíocre, nada informa quanto à data do aparecimento.

Nos membros esses tumores se alongam, como se seguissem o trajeto de um nervo ou vaso, longitudinalmente ao eixo do corpo.

Suspeitada uma micose, provavelmente a esporotricose, foram negativas por três vezes as culturas no meio glicosado.

Examinados dois desses nódulos, um já supurado, foi feito o exame microscópico da secreção, que nada revelou digno de nota. Dos cortes histológicos, ainda em estudos, nada de certo pode ser dito, podendo-se, todavia, fazer a hipótese, tanto pelo lado clínico, como pelo histológico, de sarcóides subcutâneos do tipo Darier-Roussy ou do nodular dos membros.

Posteriormente será a Sociedade informada do resultado final das pesquisas.

O Dr. Moses aconselha a inoculação em ratos, para bem se eliminar a hipótese de micose.

O Dr. Lutz diz ter verificado no exame dos cortes o espessamento das túnicas vasculares.

Continuar: parte 4 de 4