Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia

Adolpho Lutz · Capítulo 5 de 32 · parte 2/5

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Adolpho Lutz: Dermatologia e Micologia

Apresentação histórica/Historical introduction

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

 

Carl Wilhelm von Nägeli (1817-1891). Acervo do Institut für Geschichte der Medizin, Munique. Mazumdar (1995, p.25).

Como mostra Mazumdar (1994, p.4), essas tecnicidades estavam associadas a um conflito basilar, de longa duração, entre duas correntes ou estilos de pensamento que, naquela conjuntura das ciências da vida, cindia prioritariamente os botânicos, sem deixar de envolver outras categorias profissionais interessadas na biologia dos seres macro e microscópicos: de um lado, havia os "unitaristas", sempre em busca da unidade subjacente à diversidade da natureza, hostis aos esforços dos "pluralistas", que acentuavam essa diversidade em seu afã de ordená-la em sistemas classificatórios cada vez mais detalhados e precisos.

Na Alemanha, o primeiro a opor-se à botânica sistemática praticada pelos pluralistas, que seguiam a metodologia de Lineu, foi um dos fundadores da teoria celular:

Schleiden viveu numa época em que muitos intelectuais

radicais do mundo germanófono eram revolucionários na

política, erguendo barricadas pela democracia. Schleiden, o

radical, atacava seus antepassados, os botânicos lineanos da

tradição aristotélica, da mesma maneira que seu

contemporâneo, mais velho, Johannes Müller, atacava seus

antecessores na fisiologia, os Naturphilosophen, e que Karl

Marx e os "jovens hegelianos" atacavam os seus na filosofia e

teologia. (Mazumdar, 1994, p.16)

Na introdução a sua obra Grundzüge der wissenschaftliche

Botanik, 32 Matthias Schleiden propôs que o "burgo medieval" da botânica lineana fosse substituído por uma nova ciência indutiva, cujo fim seria encontrar princípios unificadores que possibilitassem a subsunção da multiforme diversidade da natureza. Schleiden e seu colega, Theodor Schwann, foram os primeiros a tomar a célula como o bloco básico de construção das plantas e animais, e como ponte com o mundo inorgânico, constituindo, assim, o elemento capaz de fornecer à nova ciência a chave para a compreensão da unidade subjacente aos fenômenos naturais (Ibidem, p.17-8).

O unitarismo foi, também, o traço constante de tudo o que escreveu Carl von Nägeli, discípulo de Schleiden. Lex continui in natura era seu princípio básico. Nägeli não buscava a diferenciação, mas as transições entre formas, a Abstufungen quantitativa que as conectava. As teorias de Schleiden e Schwann sobre a formação da célula, especialmente a idéia de que consistia numa cristalização de matéria em torno do núcleo similar à formação do cristal inorgânico, forneceram a Nägeli o modelo para sua teoria filogenética (1856). Haveria uma produção contínua de seres orgânicos simples a partir de matérias inorgânicas, e os seres que primeiro ganhavam existência dessa maneira eram as plantas unicelulares mais simples, os fungos e bolores (Mazumdar, 1994, p.31-5).

Nägeli publicou o primeiro trabalho a esse respeito em 1856. Três anos depois, veio a lume o livro de Darwin sobre a Origem das espécies. Ao comparar as duas teorias (1865), o botânico de Munique afirmou que ambas partiam do princípio de que as espécies superiores derivavam das inferiores; para Nägeli, além da competição e seleção natural, operava outro mecanismo na natureza: o impulso rumo à crescente perfeição ou progresso, que faria um organismo evoluir sempre para a complexidade crescente. Em contraste com a árvore umbelífera das famílias de Darwin, sua teoria evolucionária supunha "incontáveis caules filogenéticos", independentes uns dos outros, flutuando na superfície do presente e mergulhando a várias profundidades no passado (Mazumdar, 1994, p.39).

"Se no mundo material, em termos causais, tudo está relacionado a tudo o mais, se todos os fenômenos têm origem natural, se todos os organismos são feitos dos mesmos materiais que a natureza inorgânica, e no fim desintegram-se neles de novo, então, em sua origem, devem emergir de compostos inorgânicos. Negar a geração espontânea é o mesmo que invocar um milagre" – escreveu em 1884 o botânico de Munique em sua obra de maturidade,

Mechanisch-physiologische Theorie der Abstammungslehre.33

Os esquizófitos, as plantas unicelulares mais simples quanto à organização, eram produzidos em toda parte e a todo momento, e suas múltiplas formas pareciam-se tanto umas com as outras, e tão facilmente se transformavam umas nas outras, que era impossível ordená-las em espécies e gêneros fixos.

Ainda assim, em trabalhos anteriores,34 Nägeli havia diferenciado fungos e algas unicelulares; ao contrário destas, as células dos fungos não possuíam clorofila ou matéria colorante e não provinham de germes, mas da fermentação, putrefação ou desintegração de substâncias orgânicas.

Ao tratar dos mecanismos de produção das doenças num pequeno livro (1877) destinado a médicos e leigos, Nägeli dividiu em três grupos os "fungos inferiores": bolores, fermentos e "fungos fissíparos", incluindo aí as bactérias. No tempo de duração de suas experiências, não observara transformações entre os grupos, mas no âmbito de cada um, especialmente do terceiro, ocorriam o tempo

todo (Mazumdar, 1994, p.42). 35

É sabido que a idéia de geração espontânea remonta à Antiguidade, aplicando-se inicialmente a vermes, insetos e animais ainda maiores. A partir do século XVII, foi utilizada para explicar a origem dos animálculos presentes nas infusões de matérias animais e vegetais. A questão colocada pelo próprio Leeuwenhoek foi debatida com vigor pelos padres Lazzaro Spallanzani (1729-1799) e John Turberville Needham (1713-1781). Surgiam aqueles seres espontaneamente, por obra de uma força vegetativa, ou advinham, necessariamente, de outro ser vivo semelhante? Em termos religiosos, o que discutiam era se Deus criara a hierarquia toda dos seres vivos nos seis primeiros dias da gênese, ou se deixara à solta um demiurgo que desorganizava essa ordem. Em seu clássico estudo sobre os caçadores de micróbios, Paul de Kruif mostra que a idéia de geração espontânea era, na época, a mais evidente para o senso comum. Pois não se viam, a todo momento, os insetos brotarem do oco dos paus, os vermes das fezes, as moscas das frutas? Needham e Spallanzani conceberam, então, engenhosas experiências, o primeiro para confirmar, o segundo para infirmar o aparecimento de animálculos em infusões esterilizadas pelo calor e isoladas do meio externo.

O polimorfismo sobreviveu à derrota da geração espontânea na célebre polêmica Pasteur versus Pouchet (Martins & Martins, 1989, p.7-32). Permaneceu articulado ao conceito de heterogênese – alternância de gerações –, à luz do qual obtiveram-se importantes resultados experimentais com fungos e algas, objetos de grande interesse para os naturalistas. Seu estudo forneceu até mesmo combustível cognitivo para a diferenciação da zoologia, botânica e micologia como especialidades.

Em seus retrospectos históricos, os bacteriologistas também localizam aí, no período de 1830 a 1850, as primeiras dores do parto de sua disciplina, mas em tom ambíguo, mesclando a valorização do esforço de correlacionar doenças a organismos vivos com o repúdio à invasão dos fungos em domínio que teriam de conquistar para as bactérias.

Em 1835, Agostino Bassi (1773-1856) demonstrou a relação entre um fungo e a muscardina, doença que atacava o bicho-da-seda e que constituiria, mais tarde, importante objeto de pesquisa para Pasteur. Na década de 1840, descobriu-se que esses vegetais parasitas eram responsáveis por doenças de plantas (ferrugem, carvão etc.), e vários investigadores, inclusive Bassi, relacionaram-nos a doenças que afetavam os tegumentos e mucosas de homens e animais (Robin, 1847, 1853). As doenças micóticas no homem foram estabelecidas principalmente por David Gruby (1810-1898). Numa série de artigos publicados entre 1841 e 1844, esse médico húngaro radicado em Paris descreveu os fungos associados a quatro dos tipos mais comuns da tinha.

Como observa Ainsworth (1965-1973, p.15), em seu informativo estudo sobre a história da micologia,

após breve e exageradamente entusiástica recepção, os fungos

foram eclipsados primeiro pelas bactérias e depois pelos vírus

como patógenos para os homens, e a micologia médica

permaneceu quase completamente negligenciada até a última

década do século, quando Raymond Jacques Sabouraud

(1864-1938) teve de redescobrir e confirmar achados feitos por

Gruby cinqüenta anos antes.

William Bulloch situa o auge da 'fungomania' entre 1865 e 1875, quando esses vegetais parasitas e mutantes, às vezes travestidos de micrococos, foram incriminados como agentes de incontáveis

doenças, desde a malária até a endocardite. 36 Bulloch identifica duas visões antagônicas sobre o papel dos microrganismos vegetais ou animais. Uma decorria dos trabalhos de Pasteur sobre as fermentações: sua eclosão e diversidade eram conseqüência da ação de diferentes micróbios reconhecíveis por sua morfologia constante. Apesar de não ter como provar isso, em razão de seus parcos conhecimentos botânicos e do uso de meios líquidos de cultura, o bacteriologista francês aferrava-se à fixidez das formas, indispensável para sustentar a noção de especificidade dos fermentos e, logo, dos agentes etiológicos das doenças. Koch, por sua vez, forneceu poderosa arma aos contraditores do polimorfismo – e foi, ele próprio, seu mais radical adversário –, ao desenvolver as culturas em meio sólido, técnica que restringia a coexistência indesejada de muitas espécies bacterianas.

Por sua vez, os trabalhos dos irmãos Louis René (1815-1885) e Charles (1816-?) Tulasne, e de Anton de Barry (1831-1888) sobre o polimorfismo de certos fungos deram alento à convicção de que essa propriedade era extensiva a fermentos e bactérias. A doutrina foi levada a extremos na década de 1860 por Ernst Hallier (1831-1904), professor de botânica em Iena. As formas microscópicas dos parasitos não constituíam gêneros e espécies, apenas estágios no desenvolvimento de fungos mais complicados, em sintonia com mudanças ocorridas na umidade, temperatura e em outros fatores ambientais. Hallier estudou parasitos de vegetais e animais, alterando esses fatores de maneira a induzir mudanças de forma. Concluiu que, se os esporos de um bolor fossem depositados numa mistura de açúcar, água e sal de amônia, o plasma do esporo se dividiria em pequenos núcleos (cocos) que continuariam a se multiplicar por divisão. Essa era a base de todas as fermentações de meios ricos em nitrogênio, isto é, fermentações pútridas, e seu agente recebeu o nome de lêvedo nucleado (Kernhefe) ou Micrococcus. Se o nitrogênio fosse consumido até certo ponto, os núcleos alteravam-se. Produziam uma membrana que se expandia e lhes dava o aspecto de células de lêvedo, que se reproduziam, agora, por gemação. A fermentação passava a ser alcoólica, achando-se o fungo no estágio de Cryptococcus. Vinha em seguida a fermentação acética, quando o lêvedo passava ao estágio de Arthrococcus. Apareciam os filamentos: era agora um Leptothrix ou Mycothrix.

A crítica mais comum aos partidários do polimorfismo dizia respeito à contaminação acidental das culturas por micróbios levados pelo ar ou presentes no inóculo antes de ser inseminado. Apesar disso, a teoria de Hallier influenciou diversos investigadores, alguns muito conceituados na história da bacteriologia: Lister (1873), Ray Lankester (1873), Huxley (1870), Klebs (1873), Warming (1875), Nägeli (1877, 1882), Cienkowski (1877), Büchner (1882), Metchnikoff (1888) e, especialmente, Billroth (1874) e Zopf (1879-

1885).37

 

Ferdinand Cohn e a classificação das bactérias

Nem a geração espontânea, nem o pleomorfismo que esses investigadores viam acontecer no mundo microbiano eram aceitáveis para o botânico lineano Ferdinand Cohn. As formas unicelulares despertaram seu interesse graças, também, às especulações de Schleiden e Schwann sobre a origem das células.

Em trabalho publicado em 1854, Cohn procurou desembaraçar as confusas relações sistemáticas nesse domínio de maneira a definir com clareza boas espécies. Entre as formas unicelulares havia as que Christian Ehrenberg (1838) enfeixara na família Vibrio, distinguindo em seu âmbito quatro gêneros: Bacterium, Spirillum, Spirochaet e Spirodiscus. Em virtude de seus movimentos vigorosos, Ehrenberg incluíra-os no reino animal, mas Cohn julgava que eram plantas, e para demonstrar isso descreveu o ciclo de vida do organismo que Ehrenberg chamara Vibrio lineola. Encontrou-o em matéria em putrefação, onde formava massas gelatinosas semelhantes às da alga Palmella. Cohn propôs, então, a inclusão dos vibriões entre as plantas microscópicas incolores que viviam em infusões, especificamente no grupo dos fungos aquáticos ou Mycophyceae. Mas esta ordem não o satisfazia porque juntava artificialmente plantas pertencentes a diferentes famílias e gêneros. Julgava que seus membros deviam ser distribuídos entre as algas a que se assemelhavam, a despeito da falta de cor (Mazumdar, 1994, p.49).

Nägeli, como vimos, separara os fungos, que eram incolores, das algas que possuíam clorofila ou outro pigmento, classificando as verdes como Protococcus, e as que continham pigmentos verde-azulado ou laranja como Chroöcoccaceae e Nostocaceae. Os estudos de Cohn sobre pigmentos levaram-no a descobrir novas relações entre as algas, que dividiu em dois grupos, as Chlorosporaceae, que continham somente clorofila ou uma modificação dela, e as Phycochromacae, que continham clorofila associada a outro pigmento. Dessa divisão básica derivavam categorias taxonômicas baseadas na forma e no modo de reprodução.

 

Ernst Haeckel em seu laboratório (Johann e Junker, 1970, fig. 67).

A tradição de classificar as plantas com base prioritariamente nos órgãos reprodutivos remontava ao século XVI, ao botânico aristotélico Caesalpino, para quem a essência desses organismos residia em sua alma vegetativa, isto é, sua capacidade de crescer e reproduzir-se. Lineu foi fiel a esse princípio, mas ele se adequava aos fanerógamos, os vegetais cujos órgãos reprodutivos são bem evidentes. Cohn procurou respeitá-lo ao produzir, em 1872, uma sistematização mais elaborada dos criptógamos. Renunciou, assim, à divisão tripartite – Algae, Fungi e Lichen – por se basear apenas em marcadores secundários (habitus, órgãos vegetativos, anatomia e meios de vida), e dividiu a classe das Thallophyta em sete ordens, cada qual com diversas famílias. A primeira ordem, das Schizosporeae, que se reproduziam por simples divisão celular, incluía as famílias das Schizomycetae, Chroococcacea,

Oscillariaceae, Nostocaceae, Rivulariaceae e Scytonemaceae.38

Contra a tendência dominante entre seus pares, Cohn acreditava ser possível discernir espécies entre as bactérias colocadas agora

entre as algas.39 Mas tinha consciência das dificuldades do empreendimento:

Ainda que ignoremos o transformismo daqueles micologistas

que pensam que tudo pode surgir de qualquer coisa, e

desenvolver-se em qualquer outra coisa, à visão de um

aglomerado de bactérias somos acometidos pela dúvida de que

esses inumeráveis corpos minúsculos, de todas as formas

concebíveis, possam ser separados em espécies naturais ...

Ainda assim, estou convencido de que as bactérias podem ser

divididas em espécies tão boas e inconfundíveis quanto as das

demais plantas e animais inferiores. É apenas seu tamanho

excepcionalmente pequeno, seu hábito de viverem com muitos

tipos diferentes associados uns aos outros, e a variabilidade

dos tipos que tornam, em muitos casos, a diferenciação

impossível para nós, com os meios de que dispomos no

presente. (Cohn, 1875, p.133, apud Mazumdar, 1994, p.57)

Era difícil aplicar as regras da tradição lineana às bactérias porque pareciam não ter meio especial de reprodução, nem se podia acompanhar um ciclo de vida completo pela observação de um indivíduo. Em muitos casos, não se podia contar sequer com a forma, sendo necessário basear a classificação no pigmento ou na fermentação produzidos.

Apontado por muitos historiadores como o fundador da bacteriologia como ramo especializado da biologia, Ferdinand Cohn lançou as bases de seu sistema taxonômico no clássico Untersuchung über

Bacterien (1875).40 A resolução da controvérsia sobre a fixidez ou variabilidade das bactérias era crucial para a normalização da bacteriologia e para o reordenamento do mapa das doenças à luz dessa ciência, pois, como vimos, a noção de especificidade etiológica pressupunha a redução do magma microbiano a categorias fixas, com atributos morfológicos inconfundíveis.

Não obstante Cohn ressaltasse a insuficiência dos critérios morfológicos, seu sistema apoiava-se essencialmente na forma dos micróbios – e os leitores hão de reparar na freqüência com que Adolpho Lutz usa esta palavra – 'forma' – para designar cada organismo que lhe aparece sob as lentes do microscópio. Cohn repartiu as células bacterianas em quatro grupos ou tribos, com

seus respectivos gêneros e espécies. 41 Aprendendo a reconhecer estas formas típicas – micrococo, bactério, bacilo e espirilo – os estudantes de medicina eram iniciados na ciência dos micróbios à época em que Adolpho Lutz publicou seus trabalhos sobre o novo gênero em que desejava incluir os 'fungos' ou 'mixomicetos' da

lepra, tuberculose, malária e sífilis. 42

Um ano após a publicação de seu livro, em 22 de abril de 1876, Cohn recebeu uma carta de Robert Koch, então um médico desconhecido que atuava em Wollstein, remota aldeia do Grão-Ducado de Posen: informava ao "Herr professor", diretor do Instituto de Fisiologia das Plantas em Breslau, que depois de trabalhar por algum tempo com o contágio do antraz conseguira rastrear a história de vida do bacilo. Antes de publicar sua pesquisa, queria ouvir a opinião de Cohn, já que ele parecia ser o único botânico seriamente interessado em pôr ordem nas bactérias.

Laboratório de Robert Koch (1843 -1910). Acervo Biblioteca

Nacional da Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano, Bildarchiv.

Johann & Junker (1970, p.33, fig. 29).

Núcleos e grânulos de células de bactérias, mostrando formação e

germinação de esporos. 1. Bacilo do antraz. 2. Proteus vulgaris. 3.

Bacilo Megatherium, com núcleo corado (segundo método) de

Romanowski. 4. Bacilo do antraz com grânulo metacromático. 5. O

mesmo com grânulos de Babes-Ernest. 6. O último, isolado, após

coloração de Ernest. 7. Grânulo esporógeno de Bunges. 8. Grânulos

de Babes-Ernest numa bactéria do gênero Sarcina; 9. Em

Pyocyaneus; 10. Staphylococcus pyogen. aureus. 11. Bacilo do tifo.

12. Bacilo do antraz (forma vegetativa). 13. Vibrio Finkler-Prior. 14.

Esporos de antraz. 15. Esporos do bacilo subtilis. 16. Esporos do

tétano. 17. Germinação de esporos de antraz. 18.Germinação de

esporos de tétano. Kolle & Wassermann (1912, v.1, taf. II).

Desenho do Bacillus anthracis F. Cohn et R. Koch (carbúnculo). I. Preparado do sangue do baço de um camundongo. II. Preparado de

uma cultura de ágar. III. Formas involutivas em preparado de ágar

corado com fucsina. IV. Filamento de antraz em agar. V. Preparado

incolor em gota pendente de caldo de cultura; os esporos começam

a surgir. VI. Preparado do pulmão de uma cobaia: formação das

cápsulas. VII. Preparado do fígado de coelho: formas chamadas "de

bambu". Lehmann & Neumann (1910, prancha 43).

Segundo Mazumdar (1994, p.60-2), a demonstração de Koch causou forte impressão sobre todos os que a presenciaram. O crescimento do bacilo do antraz a partir dos esporos, as condições sob as quais estes se formavam assim como a relação de ambos com a doença – tudo isso respondia às questões que Cohn desejava ver esclarecidas. Um dos problemas mais importantes que ele enfrentava consistia em estabelecer a identidade específica de dado organismo e os limites em que variava em diferentes estágios de seu ciclo de vida. Koch mostrou-lhe que os bacilos não variavam além de limites prescritos, tinham um ciclo de vida bem definido, produziam uma doença bem determinada e pertenciam a uma única espécie.

Através de Cohn, Koch entrou em contato com a elite médica universitária de Breslau, especialmente Julius Cohnheim, diretor do Instituto de Patologia, e seu assistente Carl Weigert (primo de Paul Ehrlich), que estava desenvolvendo os já referidos métodos de coloração para bactérias a partir de anilinas.

Datam dessa época (1876-1878) os aperfeiçoamentos introduzidos por Koch na técnica microscópica e nos métodos de fixar, corar e fotografar microrganismos (estava convencido de que as microfotografias seriam muito mais convincentes que os desenhos para provar a existência de espécies diferentes de bactérias). O uso dos novos dispositivos microscópicos desenvolvidos pelo físico Ernst Abbé para a firma de Carl Zeiss, em Jena – o condensador que leva seu nome e o exame de imersão –, permitiram a Koch visualizar bactérias em tecidos animais sem a interferência das sombras projetadas pelos próprios tecidos. Nos trabalhos sobre a etiologia das infecções de feridas publicados nesse período, Koch acrescentou nova instância à verificação das espécies bacterianas: as espécies de doenças com as quais estavam associadas. "A cada doença corresponde ... uma forma bacteriana distinta, e essa forma permanece sempre a mesma por maior que seja o número de vezes

que a doença é transmitida de um animal a outro". 43 O corpo do animal tornar-se-ia, para ele, um aparato destinado à produção de culturas puras do microrganismo e, ao mesmo tempo, um indicador das propriedades das espécies cultivadas.

Um dos desenhos apresentados por Nägeli no livro que publicou em 1877 (Die niederen Pilze), resenhado por Koch para o Deutsche Medizinische Wochenschrift, mostrava diferentes tipos de esquizomicetos (Spaltpilze); uma linha ondulante feita de células interligadas dava a entender que as formas espiraladas nada mais eram que cordões de cocos.

Koch referiu-se a essa imagem em carta a Ferdinand Cohn, e comentou:

Estive especialmente atento a isso desde o início de minhas

investigações... a desintegração de Bacilli em Micrococci e vice-

versa, a formação de bastonetes a partir de micrococos; nossa

visão das bactérias será completamente diferente caso isso

seja confirmado ou se prove que é um erro. Essa, então, é a

mais importante questão em bacteriologia. Deve ser

solucionada para que se alcance algum entendimento entre os

bacteriologistas... (apud Mazumdar, 1994, p.65)

 

Adolpho Lutz em contradição com Koch

"A forma das bactérias é constante" – escreveram Kolle e Hetsch (1908, p.18), autores de um dos mais conhecidos tratados de bacteriologia do começo do século XX (La bactériologie expérimentale) – "queremos dizer com isso que, em seu estado normal, os cocos produzem sempre cocos, os bastonetes, bastonetes, e os espirilos, espirilos".

"Há muitas transições entre os micrococos e algumas formas até aqui designadas como bacilos" – divergia Lutz no segundo trabalho sobre o agente da lepra que publicou em 1886. E, de fato, bastonetes podiam desintegrar-se em formas semelhantes a cocos, mas os bacteriologistas que observavam tal fenômeno – no bacilo da tuberculose, por exemplo – tendiam a considerá-lo um artefato resultante das manipulações sofridas pelo microrganismo, ou uma manifestação de sua degenerescência.

"Quando um bastonete se desdobra em pequenas células redondas, isso não é necessariamente um processo de morte", escreve Lutz. As formas típicas da morfologia bacteriana eram facilmente identificáveis pelos métodos conhecidos, mas métodos específicos de preparação que ele desenvolvera tinham se revelado indispensáveis para dar sentido a certas formas que a uns pareciam bastonetes, a outros, cocos ou micrococos. Combinando as novas técnicas à precisão e meticulosidade que caracterizavam seu método de trabalho, Lutz pôs-se a investigar o meio e o invólucro que davam forma àquelas células anômalas, assim como seu modo de reprodução. Concluiu que não se justificava separar em ordens diferentes as formas clorofiladas e as não clorofiladas, e que certas propriedades observadas em algas revelavam-se pertinentes ao

comportamento de bactérias e fungos. Coccothricaceae, 44 a família criada por Lutz para abrigar os micróbios da lepra, da tuberculose e seus congêneres, dava sentido às propriedades que concatenara de forma tão original no laboratório de Unna. Ela apresentava características de duas famílias bacterianas – as Coccaceas e Bacillaceas – situando-se, porém, essencialmente no reino Fungi.

Sua proposta seria suplantada pela de Karl B. Lehmann e R. O. Neumann, que, dez anos depois (1896), incluiriam os agentes da lepra e da tuberculose no gênero Mycobacterium (do grego Mykes,

fungo). 45 Segundo Obregón (2002, p.34), cunharam aquele nome em virtude da aparência fungosa das cepas cultivadas em meio líquido. Segundo a definição atual, micobactérias são bactérias aeróbicas e álcool-acidorresistentes, com características de bastonetes delgados, retos ou ligeiramente encurvados, por vezes ramificados. O gênero compreende trinta espécies que diferem das demais bactérias por uma série de propriedades, muitas relacionadas com a quantidade e os tipos de lipídios contidos em suas paredes (Bier, 1963, p.129; Trabulsi, 1991, p.188).

Para Bertha Lutz (Lutziana), Arthur Neiva (1941, p.iii) e outros biógrafos brasileiros, Adolpho Lutz teria fornecido as evidências necessárias para que Coccothrix fosse o nome válido. Em 1936, o próprio Lutz ainda reclamava (p.374):

O germe considerado como causador da lepra é geralmente

denominado bacilo da lepra ou bacilo de Hansen. De fato, não é

um bacilo verdadeiro. Já em 1886, propus para o mesmo e o

germe da tuberculose o nome genérico de Coccothrix, o qual

tem prioridade sobre o nome Mycobacterium, cujo uso é geral.

A prioridade reivindicada por Lutz foi negada por juízo firmado por uma Comissão Judicial cujas origens remontam ao Primeiro Congresso Internacional de Microbiologia, realizado em Paris, em 1930. O Comitê de Nomenclatura Bacteriológica então criado formou aquela Comissão e deu-lhe a incumbência de preparar um código de nomenclatura para as bactérias, dirimindo os litígios que vinham se acumulando nesse domínio. Aprovado no Congresso Internacional de Microbiologia que teve lugar em Copenhague, em 1947, o código foi revisto por decisão do Congresso seguinte, realizado no Rio de Janeiro, em 1950. O International Code of Nomenclature of Bacteria and Viruses aprovado em Roma, em 1953, foi submetido a outras revisões decorrentes dos juízos emitidos pela Comissão Judicial. Em 1958, ela deliberou que o gênero Coccothrix Lutz 1886 não fora publicado de maneira válida porque o autor não usara aquele nome genérico em combinação binária com uma e outra espécie por ele incluída no gênero (bacilos da lepra e da tuberculose), e também porque não citara descrições destas espécies previamente publicadas sob outros nomes (Lessel

Jr., 1960, p.117). 46

Para Otto Bier (1963, p.538), as granulações encontradas no bacilo da lepra deveriam ser denominadas granulações de Lutz porque foram bem estudadas por ele. Apesar de haver ressaltado as similaridades entre os bacilos de Koch e Hansen, postulando a inclusão de ambos no mesmo gênero, há pouquíssimas referências a seu trabalho na literatura sobre lepra. O próprio Lutz não persistiu nessa linha de investigação, tanto que em 1906, em carta que lhe endereçou, Unna escreveu: "Lamento muito o senhor nunca mais ter se ocupado da questão dos grãos de bacilo (Coccothrix) e ter abandonado Ernst, Babes e Neisser completamente naquela época. Agora ela está em suspenso e ainda haveria muito o que fazer. Será

que o senhor ainda não teria ânimo?".47 Esperamos que os materiais disponibilizados na presente edição da obra do cientista brasileiro estimulem biólogos e historiadores a aprofundarem a análise desta questão que constitui um capítulo importante na trajetória de Lutz e na evolução dos conhecimentos sobre a etiologia do mal de Hansen.

 

Outros trabalhos sobre dermatologia de Adolpho

Lutz (1886-1889)

Durante sua estada em Hamburgo, Lutz estudou com Unna outros microrganismos relacionados a doenças de pele, estudos que deram origem a mais um artigo em Monatshefte für Praktische Dermatologie, sobre um esquizomiceto muito parecido com aquele descrito por Primo Ferrari em trabalho resenhado pelo próprio Lutz (1886d) nesse periódico. Ferrari distinguia somente dois tipos de pitiríase, a versicolor e uma forma eritematosa. Examinando a literatura sobre a doença, chegara à conclusão de que os organismos descritos por Malassez, Bizzozero e Rivolta eram idênticos e deviam ser denominados Saccharomyces furfur, diferindo do Mikrosporon anomaeon Vidal. Com base em suas próprias experiências, concluíra que a pitiríase eritematosa, nas partes peludas, era produzida por um Saccharomyces, e, nas calvas, pela Mikrosporon anomaeon. O fungo que Lutz e Unna encontraram nas escamas de um eczema semelhante à psoríase parecia ser o mesmo que Ferrari relacionara à pitiríase eritematosa, e assemelhava-se, também, aos esporos de herpes tonsurans (hoje conhecida como tinha tonsurante), mas inoculações que Lutz praticou em si mesmo, "na pele do braço anterior e por entre os dedos do pé", deram resultados negativos, levando-o a duvidar de que o fungo tivesse realmente significado patológico (Lutz, 1886e).

Em Hamburgo, publicou no periódico de Unna mais três resenhas (Lutz, 1886f; 1886g; 1886h). Resumiu nova comunicação de Ferrari à Accademia Gioenia di Scienze Naturali sobre micrococos e bacilos presentes na secreção da úlcera mole; outra resenha dizia respeito a um artigo de G. Lewin sobre o cisticerco, forma larvar dos animais platelmintos cestóideos que parasitam os vertebrados e que se transformam na solitária ao serem ingeridos pelo homem junto com a carne de porco ou boi infestada. Ainda estavam sendo decifrados o ciclo evolutivo desse helminto, o modo como infeccionava o homem e o diagnóstico da doença que ocasionava. No texto sobre as contribuições de Lewin a esta área do conhecimento, Lutz incluiu observações que ele próprio fizera no Brasil sobre a presença do cisterco sob a pele de dois pacientes seus. A terceira resenha que publicou em Monatshefte für Praktische Dermatologie tinha a ver, também, com doenças parasitárias, neste caso o trabalho de Sigmund Theodor Stein sobre a evolução dos cestóides humanos.

Pityriasis rubra pilaris, corte histológico. Vivier (2002, p.93).

Ao regressar ao Brasil, em meados de 1886, Adolpho Lutz ficou pouco tempo em Limeira, não obstante aí sua clínica renascesse como "Fênix das cinzas" e evoluísse "de forma magnífica". As expressões são de Unna, e traduziam o sentimento que lhe davam as cartas entusiasmadas de Lutz, que logo se mudou para a capital de São Paulo, atendendo ao desejo do colega de Hamburgo que via lá e, mais ainda, no Rio de Janeiro oportunidades melhores para ele desenvolver seu "talento para consulente". Lutz continuou a publicar, na Alemanha, artigos relacionados à dermatologia e helmintologia, e seu nome até passou a figurar na primeira página do periódico de Unna "como correspondente da literatura em

português da América do Sul". 48

A dificuldade que enfrentavam os bacteriologistas para cultivar in vitro e replicar em animais o Bacillus leprae – ou, se dermos razão a Lutz, o Coccothrix leprae – tornava indispensável o contato constante com doentes e cadáveres de leprosos para renovar as matérias orgânicas que davam origem às preparações utilizadas nos estudos sobre a morfologia e biologia do microrganismo, e sobre o modo como se distribuía nos órgãos e membros lesionados. Essas linhas de investigação levaram Lutz a passar curta temporada no Hospital dos Lázaros, no Rio de Janeiro, em 1887 (ver Lutz,

1887a). 49

Esse foi, aliás, um ano extremamente prolífico em sua produção científica. No periódico de Unna, publicou mais duas resenhas (Lutz, 1887b; 1887c), analisando os dados apresentados por Beaven Rake em seu relatório sobre a lepra em Trinidad, e as idéias sobre a etiologia e profilaxia da doença expendidas por J. L. Bidenkap.Em 1887, Adolpho Lutz enviou ao Monatshefte für Praktische Dermatologie outro trabalho importante sobre o mal de Hansen, com base em observações feitas em Limeira, dando ênfase, agora, aos aspectos clínico e terapêutico e, sobretudo, ao modo de transmissão da doença (Lutz, 1887d). Esse estudo foi reproduzido, quase na íntegra, nos Annales de Dermatologie et de Syphiligraphie, por iniciativa de seu editor, Adrien Doyon (1887).

A prática médica de Adolpho Lutz na cidade de São Paulo forneceu-lhe os elementos para a publicação de dois estudos clínicos sobre doenças de pele que eram raras no Brasil: o rinoscleroma, descrito pela primeira vez por Ferdinand von Hebra, e os líquens, um grupo de dermatoses que o médico de Viena dividira em dois grupos: o

escrofuloso e o rubro, este com as variedades acuminado e plano. 50

Paciente com rinoscleroma antes e depois do tratamento pelo rádio.

Terra (1921, p.16-8, figs. 4 e 5).

O artigo de Lutz (1887e) sobre o líquen rubro apoiava-se no estudo de um caso, o de um jovem farmacêutico de cerca de 25 anos que adoecera em dezembro de 1885, com fortes cardialgias, apresentando, em seguida, manchas vermelhas nos antebraços e no dorso dos pés. Três semanas depois, as manchas retrocederam espontaneamente, mas em agosto de 1886 – Lutz acabara de regressar de Hamburgo – ressurgiram e espalharam-se pelo corpo todo. No final daquele ano, depois de experimentar, por conta própria, solução de Fowler e pomada de crisarobina, o farmacêutico procurou o autor do artigo, e este, tendo feito o diagnóstico que julgava correto, prescreveu a pomada de carbol sublimado de Unna, que deu bons resultados.

Logo no primeiro exame, Lutz descartou o eczema papuloso e as pápulas sifilíticas, e verificou que se tratava de líquen rubro, parte das eflorescências apresentando características do líquen plano, outra parte, as do líquen obtuso. Não encontrou os sinais do líquen acuminado indicados por Hebra.

Em sua opinião, aquele caso suscitava questões interessantes: a relação que as cardialgias poderiam ter com a doença; a possibilidade, ainda que temporária, de cura espontânea; a localização do líquen plano na palma da mão, novidade até mesmo para Unna; e, do ponto de vista 'médico-geográfico', a ocorrência enfim comprovada, numa região 'tropical' do Brasil, do líquen rubro, afecção pouco freqüente em toda parte (Lutz não tivera notícia ainda de nenhuma outra observação de líquen na América do Sul).

A breve comunicação sobre a casuística do rinoscleroma foi publicada em julho de 1890. Baseava-se, também, num caso clínico observado em São Paulo que ele julgara importante divulgar graças "ao local de observação e à raça da pessoa afetada".

Florentino, negro de 30 anos de idade, percebera o início da doença dois anos e seis meses antes. Começara no pescoço, atacara o lábio superior e, em seguida, as narinas que se achavam totalmente fechadas quando Lutz começou a tratar do paciente. Ao vê-lo pela primeira vez, quatro anos antes, já havia passado pelas mãos de vários médicos na capital de São Paulo e em Limeira, e eles haviam diagnosticado câncer e sífilis. Somente o dr. Vergueiro, um colega formado na Europa, reconheceu o rinoscleroma e chamou a atenção de Lutz para aquele caso raro. Este confirmou o diagnóstico, e propôs-se a restabelecer a luz das narinas, o que conseguiu com tampões medicamentosos e cânulas de diferentes calibres, mas não conseguiu curar o doente. Tentou, sem muito sucesso, o ácido carbólico salicílico, o ácido pirogálico, a crisarobina e o sublimado corrosivo. O tratamento recomendado por Doutrelepont tampouco surtiu efeito. Não pôde experimentar mais medicamentos porque o paciente mudou-se para outro lugar.

Florentino – único caso flórido que encontrara em sua prática clínica – mostrara-lhe, primeiro, que o tratamento do rinoscleroma estava distante de uma cura rápida e definitiva, ainda que figurasse entre as doenças com pesquisa anatômica e etiológica quase concluída; segundo, comprovara a ocorrência, "lá" no Brasil, daquela doença que, como o líquen rubro, era também muito rara.

O advérbio entre aspas é apropriado porque Lutz publicou esse trabalho quando já se encontrava em Honolulu, na condição de Government Physician for the Study and Treatment of Leprosy. No intervalo entre o regresso de Hamburgo ao Brasil e a nova viagem ao exterior (1886-1889) publicara nada menos que nove artigos de grande valor no campo da parasitologia e seu primeiro trabalho concernente à protozoologia em outro importante periódico alemão, o Centralblatt für Bakteriologie und Parasitenkunde, e no Giornale della R. Accademia di Medicina di Torino (Lutz, 1887f; 1888a; 1888b; 1888c; 1888d; 1888e; 1888f; 1888g; 1888h; 1889). Por meio desses trabalhos, Lutz começaria a interagir mais fortemente com a comunidade de pares formada por Leuckart, Grassi, Laveran e outros médicos, zoólogos e bacteriologistas que vinham dando corpo ao que logo iria chamar-se "medicina tropical" (Worboys, 1996).

Como mostramos na apresentação histórica do Livro 2, o presidente do Conselho de Saúde do Reino do Havaí pediu a Unna que indicasse um médico para aplicar sua terapêutica no leprosário recém-instalado na ilha de Molokai. Unna indicou Adolpho Lutz. Em julho de 1889, este foi ao encontro do dermatologista alemão para, com sua ajuda, providenciar tudo o que iria necessitar em Molokai. De acordo com os biógrafos, o encontro teria se dado em Hamburgo, mas tudo indica que Unna e Lutz encontraram-se no âmbito de um evento que teve grande importância para a consagração das doenças de pele como especialidade médica autônoma: o Primeiro Congresso Mundial de Dermatologia, realizado em Paris, de 5 a 10 de agosto de 1889 (Shelley & Shelley, 1992, p.12-3).

 

O congresso internacional e a instituição da

dermatologia no Brasil

A capital francesa era o centro das atenções nas capitais do mundo inteiro. A ela afluíam milhares de visitantes, de todas as nacionalidades – letrados, altos funcionários, régulos e mandatários, homens do comércio, da indústria, das finanças ou dedicados somente ao ocioso desfrute de rendas, acompanhados ou não de familiares e criados. Todos estavam eufóricos por visitar a grandiosa exposição internacional que celebrava o centenário da revolução de 1789 – aquela que fizera rolar as cabeças de reis e aristocratas do antigo regime e, em seguida, as de jacobinos e outros revolucionários – todas elas já dissolvidas no húmus conservador que dera origem à pujança da indústria e cultura francesas, ali simbolizadas pela impressionante Torre Eiffel.

Enquanto transcorria a cosmopolita feira, realizavam-se as sessões do congresso mundial de dermatologia no mais antigo hospital do mundo especializado nesse tipo de patologias, o Saint-Louis.

Esse hospital surgiu em decorrência da epidemia de peste em 1562 que provocou 68 mil mortes em Paris, levando ao colapso o único 'hospice' que a cidade possuía, o Hôtel-Dieu. Henrique IV determinou, então, a edificação de novo estabelecimento para as vítimas das doenças contagiosas e para todos os desvalidos que eram atirados a esses lugares. O conjunto projetado por Claude Vellefaux chamou-se Saint-Louis em homenagem a Luís IX, que morrera de peste diante de Túnis, em 1270. Aberto em 1610, quando Luís XIII ascendeu ao trono, o hospital recebeu os primeiros doentes na epidemia de 1618, à razão de seis por leito. Em diversas ocasiões foi requisitado para outras funções, até que o incêndio do Hôtel-Dieu, em 1773, determinou sua abertura definitiva. Jean-Louis Alibert instalou aí sua clínica dermatológica em 1801. A reputação mundial do Saint-Louis como centro dermatológico foi conquistada por duas gerações de médicos, a de Alibert, Gibert, Devergie, Biett e Lugol e, em seguida, a de Cazenave, Bazin, Hardy, Vidal, Besnier e Fournier. O hospital sofreu grandes reformas para acolher o congresso de 1889. Seus participantes foram recebidos no salão do museu que abrigava, agora, as extraordinárias representações de

doenças de pele modeladas em cera por Jules Baretta.51

Hospital Saint-Louis, em Paris, que abrigou o Primeiro Congresso

 

Internacional de Dermatologia e Sifiligrafia, em 1889. Congrès

International de Dermatologie et de Siphiligraphie (1889).

Segundo Tilles (2002), os dermatologistas franceses organizaram aquele congresso para restaurar sua influência internacional, ofuscada pelo prestígio da Escola de Viena e pelo dinamismo de outros centros da Europa central, maciçamente representados no evento. Ele representou o coroamento da instituição desse ramo da medicina na França. Aí, diferentemente dos países de língua germânica, o estudo e o tratamento das doenças da pele foram atrelados, em assimétrica simbiose, aos da sífilis.

Como mostrou Carrara (1996, p.39), atribuía-se à sífilis o poder de se manifestar através de tantas formas diferentes que ela constituía uma espécie de princípio etiológico geral: "não se tratava mais de uma doença, mas de um princípio gerador de doenças".

"Ricordo dell'Esposizione del 1889 con la Torre Eiffel". A despeito da

 

indignação dos artistas parisienses, a Torre Eiffel tornou-se o

principal símbolo das comemorações do centenário da Revolução

Francesa e da cidade de Paris. Inaugurada na Exposição

Internacional de 1889, foi visitada por dois milhões de pessoas. II

Secolo XIX. Parigi Contemporanea. L'esposizione del 1900 (p.12).

Anúncio do museu do HospitalSaint-Louis, em Paris, publicado na

contracapa de lepra. Bibliotheca lnternationalis, periódico editado

em Londres, Leipzig e Paris por Besnier et al. (1900).

Um mês antes do congresso, em 22 de junho de 1889, fora fundada

a Société Française de Dermatologie e Syphiligraphie.52 Mas, cronologicamente, o primeiro marco do processo, na França, foi a criação, em 1868, dos já referidos Annales de Dermatologie et de Syphiligraphie, por iniciativa de Pierre-Adolphe-Adrien Doyon (1827-1907), médico que se empenharia em divulgar os trabalhos dos dermatologistas germânicos numa época em que as relações entre

seu país e a Alemanha eram as piores possíveis. 53

Já haviam sido criados periódicos similares com trajetórias mais ou menos efêmeras: Syphilidologie, lançado em Leipzig, em 1838, por F.-J. Behrend, desaparecera em 1862; os Annales des maladies de la peau et de la syphilis, iniciativa de A. Cazenave, foram publicados de 1843 a 1845, e depois, em colaboração com Maurice Chausit, de 1850 a 1852. O Journal of Cutaneous Medicine and Diseases of the Skin, fundado em Londres, em 1867, por Erasmus Wilson, durou apenas quatro anos. Seguia existindo o Giornale italiano delle malattie veneree e delle malattie della pelle, criado em Milão, em 1866, por G. B. Soresina.

Segundo o editorial do primeiro número dos Annales, eles forneceriam aos especialistas uma tribuna para que debatessem, à luz do dia, os pontos obscuros que se adensavam no campo das doenças dermatológicas. O progresso nesse campo seria assegurado por memórias originais, pela crítica teórica e prática dos novos métodos diagnósticos, terapêuticos e estatísticos empregados na sífilis e nas doenças de pele e, ainda, pelo inventário de tudo o que se publicava a esse respeito mundo afora. Os resumos e resenhas de congressos, livros e artigos produzidos em diversos países assegurariam o caráter cosmopolita dos Annales e, efetivamente, essa seção, observa Wallach (1994), redigida pelo próprio Doyon, ocuparia lugar considerável em suas páginas.

O periódico começou a circular num momento em que o ensino da especialidade era contestado no país.

A criação tardia da cadeira de clínica das doenças cutâneas e sifilíticas na Faculdade de Medicina de Paris, que Tilles (s.d.) qualifica como "peça essencial" da instituição da dermatologia francesa, enfrentou resistências que o autor atribui, de um lado, à ambiência intelectual hostil a tudo que não fosse um saber enciclopédico, de outro, aos conflitos de jurisdição entre dois pilares do sistema de saúde da França, a própria Faculdade parisiense e a Assistance Publique, que tinha a seu cargo os cuidados hospitalares aos doentes.

Após as jornadas revolucionárias de julho de 1830, o ministro da Instrução Pública da monarquia restaurada, duque de Broglie, convocou uma comissão para reexaminar a organização do ensino médico. O relatório escrito por Jules Guérin, líder da medicina social francesa, considerou indispensável à melhoria do ensino a criação de cadeiras especializadas: além das doenças de pele, sugeria as cadeiras de história da medicina; anatomia geral, comparada e patológica; patologia e terapêutica gerais e, ainda, clínica das doenças das crianças. As resistências opostas pela Faculdade e pela Assistência Pública permitiram apenas que fossem ministrados cursos livres, à margem da grade curricular: o de doenças da pele ficou a cargo de Cazenave, de 1841 a 1843, e foi retomado por Alfred Hardy após 1862. Verneuil deu cursos livres sobre enfermidades sifilíticas. Enquanto as escolas médicas da Alemanha e da Inglaterra promoviam resolutamente as especialidades, os mandarins da Faculdade de Paris aferravam-se ao ensino de cunho enciclopédico, considerando as clínicas e hospitais especializados como fatais "à ciência e à arte" (Tilles, s.d.).

Somente após a humilhante derrota impingida pelos alemães na guerra de 1870-1871, o Estado francês conseguiu impor à congregação da Faculdade e ao corpo médico dos hospitais um território comum no qual o ensino especializado pudesse fazer uso dos doentes, indispensáveis às demonstrações clínicas. A cadeira das doenças cutâneas e sifilíticas foi formalmente criada por decreto de 31 de dezembro de 1879. Instalada no Hospital de Saint-Louis, em 8 de janeiro de 1880, teve como primeiro titular Alfred Fournier, o

principal organizador do congresso internacional de 1889.54

Nesse intervalo, ocorria processo similar nas Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e Salvador, em decorrência da reforma Leôncio de Carvalho – Visconde de Sabóia (1882-1884), comentada

por Adolpho Lutz assim que iniciou sua carreira médica no Brasil.55 A disciplina denominada, à moda francesa, Clínica de Moléstias Cutâneas e Sifilíticas foi criada em 1883, e teve como titulares João Evangelista de Castro Cerqueira (1855-1935), em Salvador, e João Pizarro Gabizo (1845-1904), no Rio de Janeiro.

O primeiro identificaria a Tinea nigra em 1891. Na verdade, não publicou as observações que teria feito ao reproduzir experimentalmente a doença mediante a inoculação num voluntário de escamas extraídas de uma lesão. O registro consta da tese de doutoramento do filho, Antônio Gentil de Castro Cerqueira Pinto, sobre "Keratomycose Nigricans Palmar" (1916). Gabizo, o catedrático carioca, tampouco se destacou pela obra científica. Apesar de haver estagiado em Viena, na clínica de Hebra e Kaposi, publicou apenas um trabalho sobre a regulamentação da prostituição, uma conferência sobre lepra e outra sobre doenças venéreas (Carneiro, 2002, p.44-6; Mota, 1944, p.102).

O personagem mais criativo da dermatologia brasileira foi, sem dúvida, Antônio Pereira da Silva Araújo. Oriundo da Escola Tropicalista da Bahia, desde 1875 vinha tratando de temas relacionados à parasitologia e microbiologia nas chamadas Conferências da Glória (Fonseca, 1996), e já havia publicado trabalhos importantes sobre a filariose (1875, 1878), o Demodex folliculorum (1877) e o "Tratamento da elefantíase pela eletricidade" (1876).

Em 1881, com Júlio de Moura, Moncorvo de Figueiredo, Cypriano de Freitas e Moura Brasil, fundou a revista União Medica, que passou a "pressionar as autoridades para que tomassem medidas sanitárias contra a progressão da sífilis no país" (Carrara, 1996, p.82). No mesmo ano, participou com Figueiredo e outros médicos e 'benfeitores' da fundação da Policlínica Geral do Rio de Janeiro,

inspirada em instituição análoga existente em Viena.56 Um ano antes da criação das cátedras dermatológicas nas faculdades do Rio e de Salvador, Silva Araújo inaugurou o Serviço de Doenças de Pele e Sífilis na Policlínica, e começou a lecionar a especialidade em cursos muito concorridos, "impregnados de idéias pastorianas" (Rabello, 1974, p.262). Aí desenvolveu estudos sobre cancros sifilíticos e sobre dermatoses como a bouba ou framboésia, então considerada "uma forma tropical, muito maligna, da sífilis, atingindo especialmente os indivíduos da raça negra. Com seu discípulo, Bruno Chaves, estabeleceu o valor terapêutico para a sífilis de um sal de mercúrio, que iria ser utilizado no tratamento da doença até

os anos 1940". 57

Por volta de 1894, Oswaldo Cruz, recém-formado, seria convidado a organizar um laboratório de análises para diagnóstico de sífilis e moléstias internas na clínica de Silva Araújo. Junto com Salles Guerra, Werneck Machado e Alfredo Porto, comporiam o chamado "grupo dos cinco germanistas" por seu empenho em aprender o alemão, o idioma dos textos médicos mais avançados na época (Benchimol, 1990).

Em 1882, Silva Araújo foi eleito membro titular da Academia Imperial de Medicina e, no ano seguinte, de estréia da dermatologia nas faculdades brasileiras, lançou o Atlas de doenças da pele (1883), com gravuras coloridas e texto em francês. Ainda em 1883, proferiu conferências sobre a "Regulamentação sanitária da prostituição", tema ao qual voltaria em 1890, com Profilaxia pública da sífilis

(1891). 58

A emergente dermatologia brasileira fez-se representar no congresso de Paris através de Silva Araújo – um dos secretários estrangeiros adjuntos ao comitê de organização do evento – e ainda Pizarro Gabizo, Bruno Chaves, Oscar de Bulhões e Adolpho Lutz.

Os organizadores do Congresso propuseram, de antemão, questões para serem debatidas, que revelavam o horizonte de incertezas e controvérsias daquela especialidade médica. A primeira questão e, de fato, a mais debatida, dizia respeito ao "gênero" líquen, sob o qual os antigos dermatologistas enfeixavam grande número de afecções que os "modernos" consideravam diferentes umas das outras. Que "espécies" deviam ser conservadas no grupo e quais outras teriam de ser destacadas e rebatizadas? – indagavam os organizadores do congresso. Dúvidas semelhantes pairavam sobre as dermatites esfoliativas: quais eram as características distintivas da pitiríase rubra? A dermatose denominada pityriasis rubra pilaire não devia ser considerada uma afecção independente, ou espécie de outro gênero mórbido, a psoríase? Quais as relações entre as doenças cutâneas denominadas eritemas escarlatiniformes e a dermatite esfoliativa generalizada primitiva?

O pênfigo também era colocado sob o escrutínio dos congressistas, para saber-se se afecções até então chamadas pelo mesmo nome não constituíam espécies distintas. Quanto ao tricófito, objeto da quarta questão, sua história natural, suas manifestações, sua transmissão por contágio eram bem conhecidos, mas ainda havia dúvidas sobre o melhor tratamento, que não poderia ser o mesmo em todos os países.

Haveria já razoável consenso entre os especialistas em sífilis quanto à sua evolução, às características distintivas de suas manifestações e às medidas higiênicas e terapêuticas que requeria, mas era grande o desacordo entre os sifilógrafos quanto à oportunidade e duração do tratamento e o valor preventivo das medicações prescritas. Os organizadores do Congresso indagavam então: em que momento da infecção sifilítica e por qual agente terapêutico devia ser iniciado o tratamento? Quando convinha substituir as preparações iódicas (especialmente o iodeto de potássio) pelas mercuriais, ou associar as duas, e quais as contra-indicações de ambas? A sífilis terciária era uma questão importante a debater: sua freqüência relativa, a influência real das causas reputadas favoráveis à sua eclosão – idade, constituição, antecedentes mórbidos pessoais ou hereditários, profissão, alcoolismo e causas depressivas, entre outras.

Além de propor essas questões obrigatórias, o comitê organizador sugeria outras, deixando à escolha dos participantes debatê-las ou não: micose fungóide; Pruritus hiemalis; contagiosidade da lepra e o número de suas vítimas na Europa; o estado-da-arte com relação à natureza parasitária de afecções como o eczema seco circinado, a pitiríase rosada de Gibert e o eczema seborréico, por exemplo. O comitê organizador sugeria ainda o debate sobre as relações existentes entre a sífilis e algumas afecções do sistema nervoso, como o tabes e a paralisia geral; unicidade e dualidade do cancro venéreo; freqüência relativa do cancro mole em diversos países; pertinência de se amputar o cancro sifilítico; experiências nacionais no tocante à regulamentação e profilaxia das amas-de-leite e das crianças de peito abandonadas, ao ensino e à prática da especialidade.

O comitê propôs que fosse nomeada uma comissão para simplificar a nomenclatura dermatológica, e que se editasse um atlas internacional das dermatoses raras (Congrès, 1890, p.ix-xiii).

Na sessão inaugural, o renomado venereologista Philippe Ricord, presidente honorário do congresso, deu as boas-vindas aos 220 médicos inscritos. Entre os autores das setenta comunicações apresentadas nos seis dias seguintes figuravam celebridades como Kaposi, Unna, Radcliffe-Crocker, Pringle, Boeck, Fournier, Besnier, Hallopeau, Brocq e Wickham.

Kaposi tentou pôr ordem nas diversas dermatoses designadas como líquen, nome sob o qual Erasmus Wilson enfeixara todas as erupções de pequenas pápulas. Para o sucessor de Hebra, o líquen rubro descrito por este era idêntico ao líquen rubro acuminado, e ambos nada mais eram que o líquen plano de Erasmus Wilson. Sua afirmação de que a pitiríase rubra pilar, de Besnier, era apenas outra versão do líquen plano foi contestada por Unna e outros congressistas, que debateram, também, se esta forma de pitiríase era ou não uma fase, somente, da dermatite esfoliativa. Outra questão polêmica foi a dermatitis herpetiformis, descrita por William Tilbury Fox, em 1880, e Louis Adolphus Duhring, em 1884, doença crônica de pele, caracterizada por graves lesões pruriginosas e grupamentos de bolhas e pápulas, também conhecida como doença de Duhring. Para Kaposi, tratava-se de uma forma de pênfigo. Brocq, que publicara trabalho a esse respeito em 1884, defendeu a singularidade da dermatite herpetiforme.

No congresso de 1889 trocaram-se experiências concernentes ao tratamento da tinea capitis, enfatizando-se a abrasão da pele com lixa seguida da aplicação de uma solução de bicloreto de mercúrio. Muitos dermatologistas julgaram que convinha adiar o tratamento da sífilis até que se manifestasse o segundo estágio, recomendando, então, a aplicação de ungüento com 50% de oleato de mercúrio.

Continuar: parte 3 de 5