As Portas da Percepção e Céu e Inferno

Aldous Huxley · Capítulo 3 de 12 · parte 3/3

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As Portas da Percepção e Céu e Inferno

As Portas da Percepção

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Quem enveredar pelo cam inho errado — disse eu em resposta às perguntas de m eu inquiridor — encontrará, em tudo o que acontecer, um a prova da conspiração que se articula contra si. Tudo servirá de confirm ação. A própria respiração estará fazendo parte do sinistro plano.

— Com que então você acha que sabe onde se aloj a a loucura? Minha resposta foi um convicto e profundo "Sim ".

— E não poderia controlá-la?

— Não; não poderia fazê-lo. Quem com eça com m edo e ódio, com o principais prem issas, terá de ir até o fim .

— Você seria capaz — perguntou-m e m inha esposa — de fixar sua atenção naquilo que o Livro tibetano dos m ortos cham a de Serena Luz?

Fiquei em dúvida.

— Seria ela capaz de m anter o m al afastado, caso você pudesse encará-la? —insistiu ela. — Ou será que você não poderia fitá-la?

Pensei por algum tem po para poder responder e, por fim , disse: — Talvez; talvez o conseguisse. Mas só se houvesse lá alguém que pudesse esclarecer-m e a respeito da Serena Luz. Não é possível fazer-se isso a sós. Daí a razão, creio eu, para o ritual tibetano — assentar-se alguém ao nosso lado, durante todo o tem po, para dizer o que vai ocorrendo.

Depois de escutar a gravação dessa parte da experiência, apanhei m eu exem plar da tradução do Livro tibetano dos m ortos por Evans-Wentz e o abri ao acaso: "Ó tu, que nasceste nobre! Não perm itas que tua m ente sej a distraída". Esse era o problem a: perm anecer sem distrair-se. Sem se distrair ante a recordação de pecados passados; ante a evocação de prazeres, a am arga lem brança de antigos erros e hum ilhações; ante todos os tem ores, ódios e ansiedades que, de ordinário, eclipsam a Luz. O que esses m onges budistas faziam com os m ortos e os agonizantes não poderia ser feito com os insanos pelo psiquiatra m oderno? Que haj a um a voz para lhes assegurar, durante as horas de vigília — e até m esm o enquanto dorm em —, que, a despeito de todo o terror, de toda a perplexidade e confusão, a Realidade fundam ental perm anece im utável e é idêntica, em sua substância, à luz interior, m esm o à da alm a m ais cruelm ente atorm entada. Por m eio de artifícios tais com o gravadores, relógios de controle de circuitos, sistem as de alto-falantes, inclusive distribuídos pelos travesseiros, seria facílim o fazer com que os internados, m esm o em casas de saúde pobres em pessoal, fossem constantem ente doutrinados sobre esse fato prim ordial. Talvez algum as dessas alm as desgarradas pudessem ser assim auxiliadas na obtenção de um certo controle sobre o universo onde foram condenados a viver e que, a um só tem po m aravilhoso e aterrador, é, no entanto, perm anentem ente inum ano, sem pre totalm ente incom preensível.

Algum tem po depois fui afastado do inquietante esplendor de m inha cadeira de j ardim . Caindo em parábolas verdes do alto de um a sebe, a folhagem da hera luzia com um brilho vítreo que lem brava o j ade. Logo após, um arbusto em flor surgiu repentinam ente em m eu cam po visual. Suas flores rubras tinham tanta vida que pareciam a ponto de falar, voltadas para cim a, para o azul do céu. Tal com o a cadeira sob o caram anchão, elas cham avam dem ais m inha atenção. Desviei o olhar para as folhas e descobri um caprichoso intricado das m ais delicadas luzes e som bras no verde, a pulsar m isteriosam ente.

Roses:

The flowers are easy to paint,

The leaves difficult.

O haiku de Shiki (que cito na tradução de F. H. Bly th) exprim e, de m odo indireto, exatam ente o que então senti — a excessiva, a por dem ais evidente beleza das flores, contrastando com o m ilagre m ais sutil de sua folhagem .

Saím os para a rua. Um grande autom óvel azul-claro estava estacionado j unto à calçada. Ao vê-lo, fui repentinam ente tom ado de enorm e alegria. Que prazer, que absurda satisfação com igo m esm o provinha daquelas superfícies abauladas do m ais luzente esm alte! O hom em o criara à sua própria im agem (ou m elhor, segundo a im agem de seu personagem favorito no m undo de ficção). Ri até as lágrim as rolarem -m e pelas faces.

Rosas:/ É fácil pintar-lhes as flores, Difíceis são as folhas.

Voltam os para casa. A m esa estava posta. Alguém , que ainda não estava identificado com m eu ego, com eu com um apetite devorador. De longe, e sem revelar m uito interesse, eu o observava.

Depois de com er, entram os no carro e saím os para um passeio. Os efeitos da m escalina j á estavam se dissipando; m as as flores dos j ardins ainda vibravam no lim iar do sobrenatural, as pim enteiras e alfarrobeiras, ao longo das alam edas laterais, ainda pertenciam , visivelm ente, a um bosque sagrado. O Éden alternava

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com Dodona, Yggdrasil , com a Rosa m ística. Eis que, abruptam ente, param os em um a interseção, esperando nossa vez de cruzar o Sunset Boulevard. Diante de nós, passavam os autom óveis em um a torrente uniform e — m ilhares deles, todos brilhantes e polidos qual sonho de um anunciante, cada um deles m ais ridículo que o precedente. Mais um a vez caí num riso convulsivo. Por fim , o Mar Verm elho do tráfego ficou para trás e passam os a percorrer novo oásis de árvores, gram ados e rosas.

Em poucos m inutos chegam os a um ponto culm inante das elevações que dom inam a cidade, e pudem os observá-la a espalhar-se abaixo de nós. Foi com desapontam ento que constatei parecer-se ela, no m om ento, exatam ente com a cidade que eu vira dali em outras ocasiões. Para m im , a transfiguração era inversam ente proporcional à distância — quanto m ais perto, m ais sublim em ente diferentes m e pareciam as coisas. Não havia quase diferença em relação a esse vasto e confuso panoram a.

Dodona - tem plo de um fam oso oráculo de Zeus no Épiro. O Zeus de Dodona era m aterializado por um carvalho sagrado, cuj o m urm úrio da folhagem era interpretado pelo sacerdote.

Prosseguim os e, enquanto perm anecem os nas elevações, fom os descortinando, uns após outros, panoram as distantes que, por essa m esm a razão, não se apresentavam diferentes dos do nível norm al de percepção, o qual está bem abaixo do ponto de transfiguração. O encantam ento recom eçou quando descem os em direção a um bairro novo, deslizando por entre duas fileiras de casas. E, a despeito do notório m au gosto da arquitetura, houve repetição daquelas diversidades transcendentais, reflexos do paraíso entrevisto naquela m anhã. Cham inés de tij olos e com plicados telhados verdes brilhavam à luz do sol qual fragm entos da Nova Jerusalém . E, de súbito, vi aquilo m esm o que Guardi vira e (com que incom parável virtuosidade!) com tanta freqüência soubera transportar para suas telas — um a parede de estuque atravessada por um risco de som bra; nua, porém incrivelm ente bela; vazia, m as prenhe de todo o significado e todo o m istério da existência. Dentro de um a fração de segundo, m ais um a vez a Revelação se esvaiu. O carro prosseguira em sua m archa e o tem po havia posto a descoberto outra m anifestação da eterna Peculiaridade. "Dentro da sem elhança existe diferença. Mas não é absolutam ente intenção de Buda algum que a diferença sej a diversa da sem elhança.

Desej am eles que haj a tanto totalidade com o diferenciação." Assim , por exem plo, esta m oita de gerânios brancos e rubros é inteiram ente diferente daquela parede de estuque que ficou a uns cem m etros para trás. Mas o existir de am bas é idêntico, é a m esm a e eterna essência de sua transitoriedade. Um a hora m ais tarde, com m ais quinze quilôm etros de percurso e a visita ao m aior drugstore do m undo lá bem para trás, voltam os para casa, j á tendo eu tornado àquele estado reconfortante, em bora profundam ente insatisfatório, conhecido com o "estar em seu j uízo perfeito".

Parece extrem am ente im provável que a hum anidade, de um m odo geral, algum dia sej a capaz de passar sem paraísos artificiais. A m aioria dos hom ens e m ulheres leva um a vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão m onótona em suas em inências, tão pobre e lim itada, que os desej os de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves m om entos, estão e têm estado sem pre entre os principais apetites da alm a. A arte e a religião, os carnavais e as saturnais, a dança e a apreciação da oratória, tudo isso tem servido, na frase de H. G. Wells, de Portas na m uralha. E ha vida individual, para uso cotidiano, sem pre houve drogas inebriantes. Todos os sedativos e narcóticos vegetais, todos os eufóricos derivados de plantas, todos os entorpecentes que se extraem de frutos ou raízes, todos, sem exceção, são conhecidos e vêm sendo sistem aticam ente em pregados pelos seres hum anos, desde épocas im em oriais. E a esses m odificadores naturais da percepção, a ciência m oderna adicionou sua cota de produtos sintéticos — o cloral, a benzedrina, os brom etos e os barbituratos.

A m aior parte dessas substâncias não pode ser atualm ente adquirida, a não ser m ediante prescrição m édica ou então ilegalm ente e com graves riscos. O Ocidente só perm ite o uso irrestrito do fum o e do álcool. Todas as outras Portas quím icas na m uralha são rotuladas com o estupefacientes e seus consum idores ilegais são viciados.

Gastam os, hoj e em dia, m uito m ais em cigarros e bebidas que em educação. E nada há de surpreendente nesse fato. O im pulso para fugir a nós m esm os e ao que nos rodeia está presente em cada um de nós, quase todo o tem po. O estím ulo para fazer algo pelas crianças só é forte nos pais, e, m esm o neles, tão-som ente durante os poucos anos de vida escolar de seus filhos. Do m esm o m odo, não nos surpreende a atitude geral com relação ao fum o e à bebida.

A despeito das legiões sem pre crescentes de alcoólatras inveterados, das centenas de m ilhares de pessoas que são anualm ente m utiladas ou m ortas por m otoristas em briagados, os hum oristas populares ainda arm am situações j ocosas girando em torno do álcool e dos que a ele se entregam . E, a despeito das provas ligando os cigarros ao câncer do pulm ão, praticam ente todo o m undo encara o hábito de fum ar com o algo quase tão norm al e natural quanto com er. Do ponto de vista do racionalista utilitário, isto pode parecer estranho, m as, para o versado em história, não seria de esperar outra coisa. Jam ais a inabalável convicção na existência do Inferno conseguiu evitar que os cristãos fizessem aquilo que lhes sugeria a am bição, a luxúria ou a cobiça. O câncer pulm onar, os acidentes de tráfego e os m ilhões de criaturas m iseráveis e criadoras de m iséria em razão do alcoolism o são realidades ainda m ais positivas que o Inferno no tem po de Dante. Mas tudo isso é rem oto e secundário, se com parado com a realidade vivida e presente de um a ânsia por serenidade ou liberdade, por um cigarro ou um a taça.

Nossa era, entre outras coisas, é a idade do autom óvel e da vertigem da velocidade. O álcool é incom patível com a segurança nas estradas; e sua produção, bem com o a do tabaco, condena praticam ente à esterilidade m uitos m ilhões de hectares dos m ais férteis solos. Os problem as criados pelo álcool e pelo tabaco não podem ser — e isto não adm ite contestação — resolvidos pela proibição. O im pulso universal e perm anente para a autotranscendência não pode ser dom inado pelo sim ples fechar das solicitadas Portas na m uralha. A única política razoável seria abrir outras portas m elhores, na esperança de induzir os seres hum anos a trocar seus velhos m aus hábitos por práticas novas e m enos prej udiciais. Algum as dessas novas portas seriam de natureza social e tecnológica, outras religiosas ou psicológicas, e outras m ais seriam dietéticas, atléticas e educacionais. Mas é inevitável que perdure, apesar de tudo, a necessidade de freqüentes excursões quím icas para longe da intolerável personalidade e dos repulsivos arredores de cada um . Precisar-se-ia, pois, de um a nova droga que aliviasse e consolasse nossos sem elhantes que sofrem , sem lhes causar dano m aior, após um período prolongado de tem po, do que o bem que ela lhes pudesse proporcionar de im ediato. Tal droga teria de ser eficaz em doses dim inutas, e sintetizável. A ausência dessas características faria com que sua produção, tal qual a do vinho, da cervej a, das bebidas fortes e do tabaco, fosse interferir com a produção dos alim entos e das fibras essenciais. Teria de ser m enos tóxica que o ópio ou a cocaína, m enos propensa a produzir conseqüências sociais indesej áveis que o álcool ou os barbituratos, m enos prej udicial ao coração e aos pulm ões que o alcatrão e a nicotina dos cigarros. E, por suas características positivas, deveria produzir m odificações m ais interessantes na percepção, m ais intrinsecam ente proveitosas que a m era ação sedativa ou a propensão aos sonhos e às im pressões de onipotência ou o escape às inibições.

A m escalina é quase que com pletam ente inócua para a m aioria das pessoas. Ao contrário do álcool, ela não conduz o paciente a esse tipo de ações descom edidas das quais resultam alterações, crim es violentos e acidentes de tráfego. Um indivíduo sob a influência da m escalina vive sossegadam ente para si m esm o. Além do m ais, o que então o absorve é um a experiência das m ais esclarecedoras e que dele não exige, em troca (e isto é certam ente im portante), quaisquer sensações posteriores de angústia. Pouco sabem os acerca das conseqüências rem otas do uso sistem ático da m escalina. Os índios que m ascam pedaços de peiote não parecem ser física ou m oralm ente degradados pelo hábito. No entanto, as provas de que dispom os são ainda poucas e falhas.

Em bora indiscutivelm ente superior à cocaína, ao ópio, ao álcool e ao fum o, a m escalina ainda não é a droga ideal. De par com a m aioria de indivíduos que encontram a satisfação na ingestão do alcalóide, há um a m inoria a quem a droga só proporciona o inferno ou o purgatório. Além disso, para um produto que iria ser entregue, com o o álcool, ao consum o indiscrim inado, seus efeitos perduram por um prazo exageradam ente longo. Mas a quím ica e a fisiologia são, hoj e em dia, capazes de realizar praticam ente qualquer coisa. Se os psicologistas e sociologistas chegarem a definir qual sej a o ideal, pode-se confiar nos neurologistas e farm acologistas para descobrir os m eios de atingi-lo ou, no m ínim o, 2. O professor J. S. Slotkin, em sua m onografia Menom ini pey otism (O peiotism o entre os m enom ini), publicada em dezem bro de 1952 nos Anais da Am erican Philosophical Society, declara que "o uso costum eiro do peiote não parece produzir qualquer aum ento de tolerância ou dependência. Conheço m uitas pessoas que são peiotistas há quarenta ou cinqüenta anos. A quantidade de peiote que usam depende da m aior ou m enor solenidade em prestada à ocasião; via de regra, não aum entam as doses que costum avam tom ar vários anos antes. Além disso, ocorrem por vezes intervalos de um m ês ou m ais entre ritos consecutivos, e eles passam todo esse tem po sem fazer uso do peiote e sem sentir qualquer ânsia por ele. Eu próprio, m esm o após um a série de ritos em quatro fins de sem ana consecutivos, nem aum entei a dose de peiote, nem senti qualquer desej o continuado por ele". Há, evidentem ente, boas razões para que "o peiote j am ais tenha sido legalm ente declarado um narcótico ou tenha sofrido a proibição de seu uso pelo governo federal". Não obstante isso, "durante a longa história dos contatos entre índios e brancos, as autoridades brancas procuraram , repetidas vezes, proscrever seu uso, por crerem que isso violava seus costum es de civilizados. Mas todas essas tentativas foram infrutíferas". Em rodapé, o dr. Slotkin acrescenta que "é espantoso ouvir as histórias fantásticas dos efeitos do peiote e da natureza do ritual, contadas pelas autoridades brancas e índias católicas na reserva dos m enom ini. Nenhum a delas j am ais teve a m enor experiência pessoal com a planta ou com a religião, em bora algum as se arvorem em autoridade no assunto e sobre ele redij am relatórios oficiais".

Aproxim ar-se dele m uito m ais (m esm o porque, pela própria natureza das coisas, talvez j am ais se consiga conceber inteiram ente qual sej a esse ideal) do que foi possível com o vinho do passado ou com o uísque, a m aconha e os barbituratos do presente.

O im pulso para superar a personalidade autoconsciente é, com o j á o disse, um anseio capital da alm a. Quando, sej a por que razão, os seres hum anos vêem baldados os seus esforços para superarem a si m esm os pelo culto, pelas boas ações e pela atividade intelectual, tornam -se propensos a recorrer às drogas substitutas da religião — o álcool e as "pílulas inocentes" no moderno Ocidente, o álcool e o ópio no Oriente, o haxixe no mundo maometano, o álcool e a maconha na América Central, o álcool e a coca nos Andes, o álcool e os barbituratos nas regiões mais adiantadas da América do Sul. Em Poisons sacrés, ivresses divines [Venenos sagrados, êxtases divinos], Philippe de Félice escreveu exaustivam ente, e com riqueza de docum entação, sobre os laços im em oriais que ligam a religião à ingestão de drogas. A seguir, ora resum indo, ora transcrevendo, apresento suas conclusões:

O em prego, para fins religiosos, de substâncias tóxicas, é "extraordinariam ente difundido [...] As práticas estudadas neste volum e podem ser observadas em qualquer região da Terra, tanto entre os povos prim itivos com o no seio daqueles que j á atingiram um elevado índice de civilização. Não estam os, pois, lidando com fatos excepcionais que poderiam ser, com razão, postos à m argem ; m as com um fenôm eno geral e, dentro da m ais am pla acepção da palavra, hum ano; com um tipo de fenôm eno que não pode ser desprezado por quem quer que busque descobrir que é a religião e quais as necessidades profundas a que ela tem de satisfazer".

Teoricam ente, cada um de nós deveria ser capaz de encontrar a autotranscendência a partir de um a form a de religião pura ou aplicada. Mas, na prática, parece ser sum am ente im provável que esse anseio pelo apogeu sej a algum dia realizável. Há (e é fora de dúvida que sem pre houve) hom ens e m ulheres virtuosos e pios, para quem , infelizm ente, apenas a piedade não basta. O falecido G. K. Chesterton, que escrevia com lirism o idêntico tanto sobre a bebida quanto sobre a fé, pode servir de eloqüente exem plo desse grupo.

As igrej as m odernas, excluídas um as poucas seitas protestantes, toleram o álcool; no entanto, m esm o as m ais tolerantes j am ais procuraram converter a bebida ao cristianism o — isto é, sacram entar seu uso. O pio alcoólatra vê-se forçado a m anter, em com partim entos estanques, sua religião e seu substituto para ela. E talvez isso sej a inevitável. A bebida não pode ser incluída na liturgia, a não ser nas religiões que não dêem valor ao decoro. O culto de Baco ou da divindade celta da cervej a eram festins ruidosos e dissolutos. Os ritos cristãos são incom patíveis com a em briaguez, ainda que de cunho religioso. Isso não prej udica os fabricantes de bebidas, m as é m uito m au para o cristianism o. Um sem -núm ero de pessoas desej a experim entar a autotranscendência, e gostaria de encontrá-la no tem po. Mas "as ovelhas fam intas voltam -se para o céu e não são atendidas". Tom am parte nos ritos, escutam os serm ões, repetem as orações; m as sua sede não se aplaca. Desapontadas, voltam -se para a garrafa. Ao m enos por certo tem po, e de certa form a, encontram o que querem . A igrej a pode continuar a ser freqüentada; m as j á não será m ais do que o Banco Musical do Erewhon* de Butler.

Deus pode continuar a ser reconhecido com o tal, m as a Ele só será concedida divindade no cam po verbalístico, apenas em sentido estritam ente figurado. O verdadeiro obj eto de culto é a garrafa, e a única experiência religiosa é aquele estado de desregram en-to e belicosa euforia que se segue à ingestão do terceiro aperitivo.

Erewhon, anagram a de nowhere ("lugar algum "), é o título abreviado de um a novela fantástica de Sam uel Butler, escrita em 1872, que descreve um pais cuj o povo vira-se obrigado a destruir todas as m áquinas para não ser por elas destruído.

Vem os, pois, que o cristianism o e o álcool não se m isturam nem poderiam fazêlo. Já não há tanta incom patibilidade com relação à m escalina. Isso tem sido dem onstrado por várias tribos de índios, desde o Texas até o Estado de Wisconsin. Entre essas tribos, encontram -se algum as filiadas à Igrej a Am ericana Nativa, seita cuj o principal rito é um a espécie de Ágape Cristão Prim itivo ou Festa do Am or, em que fatias de peiote substituem o pão e o vinho do sacram ento. Esses índios am ericanos encaram o cacto com o preciosa dádiva de Deus aos índios e consideram seus efeitos m anifestação do divino Espírito.

O professor J. S. Slotkin — um dos pouquíssim os hom ens brancos que, até hoj e, participaram dos ritos de um a congregação peiotista — relata, falando de seus com panheiros de ritual, que eles "em absoluto ficam narcotizados ou em briagados [...]

Jam ais perdem o ritm o ou balbuciam , com o aconteceria com indivíduos inebriados pelo álcool ou por estupefacientes [...] São todos calm os, corteses e respeitam -se uns aos outros. Jam ais estive em qualquer tem plo de hom ens brancos onde pudesse encontrar tanto respeito e religiosidade". Poderíam os perguntar: "Que estariam esses devotos e bem -com portados peiotistas sentindo?". Claro que não há de ser o brando sentim ento de virtude que em bala o com um dos freqüentadores do ofício dom inical, durante noventa m inutos de solidão. Nem m esm o esses fervorosos sentim entos, inspirados pelos pensam entos no Criador, no Redentor, no Juiz e no Espírito Santo, que anim am os piedosos. Para esses m em bros da Igrej a Am ericana Nativa, a experiência religiosa é algo de m ais direto e esclarecedor, de m ais espontâneo, e tem m uito m enos de produto im perfeito da m ente superficial e restrita. Por vezes (ainda segundo as observações colhidas pelo dr. Slotkin) têm visões que podem ser até do Próprio Cristo. De outras, escutam a voz do Grande Espírito. Ainda em outras se apercebem da presença de Deus, bem com o de suas falhas pessoais, as quais terão de ser corrigidas para que possa ser cum prida Sua vontade. As conseqüências práticas dessa abertura quím ica das Portas para o Outro Mundo parecem ser excelentes. O dr. Slotkin testem unha que os peiotistas habituais são, em geral, m ais diligentes, m ais tem perantes (m uitos são com pletam ente abstêm ios) e m ais pacíficos que os não-peiotistas. Um a árvore que apresente frutos tão bons não pode ser condenada com o m aléfica. Ao sacram entar o uso do peiote, os índios da Igrej a Am ericana Nativa fizeram algo que é, a um só tem po, psicologicam ente correto e historicam ente respeitável. Nos prim eiros séculos do cristianism o, m uitos ritos e festas pagãos foram , por assim dizer, batizados e postos ao serviço da Igrej a. Essas festas nada tinham de edificantes, m as aliviavam um a certa fom e psicológica; e, em vez de tentar suprim i-las, os prim eiros m issionários tiveram o bom senso de aceitá-las pelo que de útil possuíam — perm itir à alm a satisfazer seus im pulsos fundam entais — e incorporá-las ao código da nova religião. Em essência, idêntico foi o procedim ento da Igrej a Am ericana Nativa. Adotaram um costum e pagão (por sinal bem m ais inspirador e esclarecedor do que as sensuais orgias e m ascaradas, retiradas ao paganism o europeu) e deram -lhe um significado cristão.

Em bora só recentem ente tenham sido introduzidos na região setentrional dos Estados Unidos, o consum o do peiote e o culto nele baseado tornaram -se im portantes sím bolos do direito do índio à independência espiritual. Alguns indígenas reagiram à hegem onia do branco tornando-se am ericanizados, enquanto outros se recolhiam a seus costum es tradicionais. Mas um terceiro grupo procurou fazer o m elhor uso das duas civilizações e desses outros m undos de transcendental experiência onde a alm a sabe que é livre e tem um a essência divina. Daí nasceu a Igrej a Am ericana Nativa. Nela, dois grandes apetites da alm a — o im pulso para a independência e a autodeterm inação, e o estím ulo para a superação de si própria — fundiram -se e passaram a ser interpretados à luz de um terceiro — a necessidade de render culto, de j ustificar, perante o hom em , as razões de Deus, de explicar o universo por m eio de um a teologia coerente.

Lo, the poor Inâian, whose untutored m ina Clothes him in front, but leaves him bare behind.

Mas, em verdade, som os nós, os brancos ricos e altam ente educados, que ostentam os a nudez de nossas costas. Cobrim os nossa paradisíaca aparência anterior com algum a filosofia — cristão, m arxista, físico-freudiana —, m as nos descuram os da outra face, deixando-a à m ercê de todos os ventos que possam soprar. O pobre índio, por outro lado, se tem valido do espírito para proteger-lhe a retaguarda, com plem entando a folha de parreira teológica com a tanga da experiência transcendental.

Índio infeliz, a quem a alm a falaz,/ Cobre-lhe a frente e o deixa nu por trás.

Não sou tão tolo a ponto de relacionar o que acontece sob o efeito da m escalina ou de qualquer outra droga, existente ou que possa vir a existir, com a com preensão do fim e do derradeiro obj etivo da vida hum ana: a Luz, a Beatífica Visão. Tudo o que estou sugerindo pode ser assim resum ido: a experiência com a m escalina é o que os teólogos católicos cham am de "um a graça gratuita", não necessariam ente para a salvação, m as potencialm ente valiosa e que, se realizada, será prazerosam ente aceita. Ver-se livre da rotina e da percepção ordinária, ser-lhe perm itido contem plar, por um as poucas horas em que a noção de tem po se esvai, os m undos exterior e interior, não com o eles se m ostram ao anim al dom inado pela idéia de sobrevivência ou ao ser hum ano obcecado por term os e idéias, m as tais com o são percebidos pela Onisciência — direta e incondicionalm ente —, eis um a experiência de inestim ável valor para qualquer indivíduo, especialm ente para o intelectual, pois este é, por definição, o hom em para quem , na frase de Goethe, "a palavra é essencialm ente proveitosa". Ele é o hom em para quem "o que percebem os pela visão nos é estranho e, pois, não nos deve im pressionar profundam ente". Não obstante, em bora fosse ele m esm o um intelectual e um dos suprem os m estres da linguagem , Goethe nem sem pre concordou com sua própria conceituação da palavra. "Falam os dem ais" — escreveu ele em sua m adureza.

"Deveríam os falar m enos e desenhar m ais. Eu, pessoalm ente, gostaria de renunciar por com pleto à fala e, im itando a Natureza organizada, com unicar por esboços tudo o que tivesse a dizer. Aquela figueira, esta pequena serpente, o casulo aguardando serenam ente o futuro no um bral de m inha j anela, tudo isso são im portantes signos.

Quem fosse capaz de decifrar corretam ente seu significado poderia pôr inteiram ente de lado tanto a palavra escrita quanto a falada. Quanto m ais penso nisso, m ais encontro futilidade, m ediocridade e até m esm o (sou levado a dize-lo) fatuidade na palavra.

Contrastando com isso, com o nos assom bram a gravidade e o silêncio da Natureza quando com ela deparam os face a face, concentrados diante de um a colina estéril ou da desolação de um outeiro que a erosão desgastou."

Jam ais poderem os passar sem a palavra e os outros sistem as de sím bolos, pois foi graças a eles, e som ente por eles, que nos elevam os acim a das bestas, atingindo o nível de seres hum anos. Mas poderem os facilm ente nos tornar tanto vítim as com o beneficiários desses sistem as. Precisam os aprender com o m anej ar eficientem ente as palavras m as, ao m esm o tem po, devem os preservar e, se necessário, intensificar nossa capacidade de olhar o m undo diretam ente, e não através da lente sem i-opaca das idéias, que distorce cada fato, diluindo-o no lugar-com um das denom inações genéricas ou das abstrações explanatórias.

Literária ou científica, liberal ou especializada, toda a nossa educação é predom inantem ente verbalista e, pois, não consegue atingir plenam ente seus obj etivos.

Em vez de transform ar crianças em adultos com pletam ente desenvolvidos, ela produz estudantes de ciências naturais que não têm a m enor noção do papel prim ordial da Natureza com o elem ento fundam ental da experiência; entrega ao m undo estudantes de hum anidades que nada sabem sobre a hum anidade, sej a ela a sua ou a de quem m ais for.

Os psicologistas adeptos do gestaltism o, tais com o Sam uel Renshaw, conceberam m étodos para am pliar a gam a e aum entar a acuidade das percepções hum anas; m as aplicá-los-ão nossos educadores? Não.

Mestres de todos os cam pos das atividades psicofísicas — da observação ao tênis, do equilibrism o à reza — descobriram , pelo m étodo das tentativas, as condições ideais de execução, dentro de seus setores peculiares. Mas teria algum a grande Fundação algum dia financiado um trabalho destinado a coordenar essas descobertas em píricas para encontrar as bases gerais, teóricas e práticas, do aum ento do poder criador? Novam ente, tanto quanto m e é dado conhecer, terei de responder negativam ente.

Adivinhos e charlatães de todas as espécies ensinam um sem -núm ero de m étodos para aquisição de alegria, saúde, paz de espírito.

E, para m uitos de seus clientes, a m aioria desses m étodos é realm ente eficaz.

Mas acaso vem os psicologistas, filósofos e sacerdotes respeitáveis descerem coraj osam ente a essas estranhas cavernas, por vezes infectas, no fundo das quais a pobre Verdade vê-se, tão am iúde, forçada a sentar-se? Mais um a vez, a resposta é "Não".

E, agora, exam inem os o histórico da pesquisa sobre a m escalina. Há setenta anos, hom ens de inegável capacidade descreveram as transcendentais experiências por que passaram aqueles que, gozando boa saúde, em pleno uso de suas faculdades m entais, e sob condições adequadas, ingeriram a droga. Quantos filósofos, quantos teólogos, quantos educadores tiveram a curiosidade de abrir esta Porta na m uralha? A resposta é: "Praticam ente nenhum ". Em um m undo onde a educação é transm itida principalm ente por m eio da palavra, às pessoas de grande instrução torna-se quase im possível dar séria atenção a quaisquer outras coisas que não sej am palavras ou idéias.

Há sem pre dinheiro a gastar, teses a serem defendidas, douta e insensata pesquisa a se orientar para aquilo que, na opinião dos eruditos, é o problem a fundam ental. "Que é que induziu quem a dizer tal coisa e em tal ocasião?" Mesm o nesta era da tecnologia, as hum anidades verbalistas são dignificadas. Os conhecim entos obj etivos que nos perm item tom ar contato direto com determ inados fatos de nossa existência são quase que com pletam ente desprezados. Um catálogo; um a bibliografia; as obras com pletas, palavra por palavra, de um poetastro de terceira classe; um estupendo índice que represente a últim a palavra em índices — enfim , qualquer proj eto de proporções grandiosas obterá fatalm ente aprovação e apoio financeiro. Mas, quando se trata de querer saber com o cada um de nós, nossos filhos e netos, poderem os nos tornar m ais perceptíveis, m ais intensam ente cônscios da realidade interior e exterior, m ais acessíveis ao Espírito, m enos aptos a adoecer vítim as de nossos próprios erros psicológicos e m ais capazes de controlar nosso sistem a nervoso autônom o — quando, pois, se trata de qualquer form a de educação obj etiva m ais im portante (e, portanto, m ais provável de alcançar aplicação prática) que a ginástica sueca, não haverá pessoa respeitável, em qualquer universidade ou igrej a de renom e, que faça qualquer coisa em seu benefício.

Os verbalistas desconfiam dos não-verba-listas; os racionalistas tem em os fatos concretos, não racionais; os intelectuais acham que "o que percebem os pela visão (ou por qualquer outra form a) nos é estranho e, pois, não nos deve im pressionar profundam ente". Além do m ais, a educação, no cam po dos conhecim entos obj etivos, não se adapta a nenhum dos esquem as existentes. Não é religião, neurologia, ginástica, educação m oral e cívica, nem tam pouco psicologia experim ental. Assim sendo, esse assunto sim plesm ente não existe, para fins acadêm icos e eclesiásticos, e bem pode ser com pletam ente ignorado ou então relegado, com um sorriso condescendente, àqueles a quem os fariseus da ortodoxia verbalista cham am m aníacos, im postores, charlatães e desprezíveis am adores.

"Sem pre achei" — escreveu Blake com um certo am argor — "que os anj os possuem a vaidade de se considerarem os únicos sábios. E isso eles o fazem com um a insolência confiante que brota de um raciocínio sistem ático."

Raciocínio sistem ático é algo sem o qual nós, sej a com o espécie ou com o indivíduo, não podem os passar. Mas creio que tam pouco poderem os prescindir da percepção direta — e quanto m enos sistem ática m elhor — dos m undos interior e exterior que nos serviram de berço, para que possam os preservar a sanidade m ental.

Essa realidade obj etiva possui um sentido infinito que ultrapassa toda a com preensão e, no entanto, perm ite ser direta e, de certa form a, totalm ente percebida. É um a transcendência característica de outra ordem que não a hum ana, em bora nos possa ser presente com o um a im anência palpável, com o experiência de que houvéssem os participado. Ser esclarecido é ser sem pre cônscio da realidade plena em sua diversidade intrínseca — ter ciência disso, sem deixar de velar por sua sobrevivência com o anim al, de pensar e sentir com o ser hum ano, de recorrer, sem pre que necessário, ao raciocínio sistem ático. Nosso obj etivo é provar que sem pre estivem os onde deveríam os estar.

Infelizm ente, tornam os a m issão excessivam ente difícil para nós m esm os Mas, nesse m eio-tem po, surgiram "graças gratuitas" sob a form a de realizações parciais e fugazes.

Sob um sistem a de educação m ais realístico, m enos verbalista que o nosso, deveria ser perm itido a cada Anj o (na acepção que Blake dava a essa palavra), à guisa de repouso sabático — e, se necessário, dever-se-ia incitá-lo ou m esm o com peli-lo —, realizar um passeio, vez por outra, valendo-se de Portas quím icas na m uralha, no m undo da experiência transcendental. Se isso os apavorasse, seria lam entável, m as ainda assim talvez lhes fosse salutar. E m elhor ainda seria se ela lhes proporcionasse, por uns breves m om entos, que haveriam de parecer eternos, um a radiosa inspiração. Mas, em am bos os casos, o Anj o haveria de perder um pouco da confiante insolência nascida do raciocínio sistem ático e da certeza de haver lido todos os livros.

Santo Tom ás de Aquino, j á próxim o ao fim de sua vida, conheceu a Contem plação Inspirada. Daí em diante, não m ais prosseguiu no livro que iniciara.

Com parado com isto, tudo m ais que ele havia lido, e sobre o qual discutira e escrevera — Aristóteles e as Sentenças, as Questões, as Proposições, as m agestosas Sum m as —, valia tanto quanto o j oio ou a palha. Para a m aioria dos intelectuais, tal greve de braços cruzados seria desaconselhável ou m esm o m oralm ente errada. Mas o Angélico doutor havia praticado m ais o raciocínio sistem ático que um a dúzia de Anj os com uns reunidos, e j á se achava próxim o a seu fim . Conquistara o direito, nesses últim os m eses de vida terrena, de trocar m era palha ou j oio sim bólico pelo pão da Verdade real e substancial.

Anj os de categoria inferior, e com m elhores perspectivas de longevidade, voltariam à palha. Mas o hom em que vem de cruzar de novo a Porta na m uralha j am ais será igual ao que partira para essa viagem . Será, daí por diante, m ais sábio, em bora m enos arraigado em suas convicções, m ais feliz, ainda que m enos satisfeito consigo m esm o, m ais hum ilde em concordar com a própria ignorância, em bora estej a em m elhores condições para com preender a afinidade entre as palavras e as coisas, entre o raciocínio sistem ático e o insondável m istério que ele procura, sem pre em vão, com preender.

Sum m a theologica e Sum m a contra gentiles, de Santo Tom ás de Aquino, sínteses do conhecim ento hum ano da época.