As Portas da Percepção e Céu e Inferno
As Portas da Percepção
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Moitessier, de Ingres) possa exprim ir a m ais austera, a m ais inflexível intelectualidade.
Mas isto não é tudo. As roupagens, percebo-o agora, são m uito m ais que sim ples artifícios para a introdução de form as desprovidas de sim bolism o nas pinturas e esculturas naturalistas. O que nós outros só vem os sob a influência da m escalina pode, a qualquer tem po, ser visto pelo artista, graças a sua constituição congênita. Sua percepção não está lim itada ao que é biológica ou socialm ente útil. Algo do saber inerente à Onisciência flui através da válvula redutora do cérebro e do ego e atinge sua consciência. Isso lhe dá um conhecim ento do valor intrínseco de tudo o que existe.
Tanto para o artista com o para quem ingere m escalina, o tecido é um hieróglifo vivo que representa, de certo m odo singularm ente expressivo, os insondáveis m istérios da existência. Ainda m ais que a cadeira, em bora talvez m enos que aquelas flores absolutam ente preternaturais, as dobras de m inhas calças de flanela cinzenta estavam im pregnadas de existência. Não sei dizer a que deviam elas sua privilegiada situação.
Seria porque as form as assum idas pelas dobras dos tecidos são tão esquisitas e dram áticas que atraem nosso olhar e, assim , produzem esse m ilagre de pura existência sobre a atenção? Quem poderá dize-lo? Mas im porta m enos a razão para a experiência do que esta em si m esm a. De olhos fitos nas saias de Judite, no m aior drugstore do m undo, fiquei sabendo que Botticelli — e não som ente ele com o tam bém m uitos outros — havia contem plado as roupagens e tapeçarias com os m esm os olhos transfigurados e transfiguradores que eu possuía naquela m anhã. Eles haviam visto o Istigkeit, a Totalidade e o Infinito das dobras de um tecido e haviam empregado ao máximo seu talento para representá-las na tela ou no mármore. É evidente que não poderiam, de forma alguma, triunfar, pois o esplendor e a maravilha da existência pura pertencem a uma ordem superior ao poder de expressão, mesmo da arte mais sublime. Mas, nas saias de Judite, pude ver claramente aquilo que, fosse eu um pintor de gênio, teria feito com minhas velhas calças de flanela cinzenta. Não seria muito — sabe-o o céu — em comparação com a realidade, mas bastaria para deliciar gerações e gerações de amantes da arte, para fazê-los compreender, um pouco que fosse, o verdadeiro valor daquilo que, em nossa patética imbecilidade, chamamos simples coisas e desprezamos em troca da televisão.
— É assim que precisam os ver — fiquei dizendo enquanto olhava para m inhas calças ou relanceava os olhos pelos livros recam ados de j óias nas estantes e pelos pés de m inha cadeira infinitam ente m ais que vangoghiana. — É assim que precisam os ver as coisas — tal com o elas são! — E ainda havia reparos a fazer. Pois se alguém visse sem pre as coisas sob esse aspecto, j am ais desej aria fazer algo diferente. Haveria apenas de olhar, de ser tão-som ente a sublim e Desindividualização da flor, do livro, da cadeira, das calças. Isso bastaria. Mas, nesse caso, e as outras pessoas? E as relações hum anas?
No registro da conversação daquela m anhã, encontrei, a cada passo, a repetição da pergunta: "Que m e diz das relações hum anas?". Com o poderia alguém conciliar essa infinita bênção de ver as coisas, tal com o elas devem ser vistas, com os deveres tem porais de agir com o se deve agir e sentir com o é m ister que se sinta? — É preciso que sej am os capazes — respondi eu — de considerar estas calças infinitam ente im portantes, e os seres hum anos ainda m ais infinitam ente im portantes. — É preciso! m as na prática isso m e pareceu im possível. Essa participação no m anifesto esplendor das coisas não deixava lugar, por assim dizer, para as preocupações com uns, necessárias, com a vida hum ana e, acim a de tudo, para as preocupações com os indivíduos. Pois as pessoas possuem individualidade e (ao m enos sob um aspecto) naquele m om ento eu não era eu m esm o, a um só tem po percebendo e sendo a Desindividualização das coisas ao m eu redor. Para essa Desindividualização recém -nascida, o com portam ento, a aparência, o próprio raciocínio do indivíduo que ela m om entaneam ente deixara de ser, assim com o os dos outros indivíduos — seus com panheiros de até então —, se não lhe eram desagradáveis (pois a aversão não figurava entre as categorias em term os das quais eu raciocinava), estavam , no entanto, bastante longe de suas cogitações. Com pelido pelo pesquisador a analisar e relatar o que estava fazendo (e com o desej aria ser deixado a sós com a Eternidade em um a flor, com o Infinito em quatro pés de cadeira e com o Absoluto nas pregas de urnas calças de flanela!), verifiquei que estava, deliberadam ente, evitando os olhares daqueles que m e faziam com panhia naquela sala; que, intencionalm ente, procurava não tom ar conhecim ento de sua presença. E, no entanto, um deles era m inha esposa, e o outro, um hom em que eu considerava e de quem m uito gostava. Mas am bos pertenciam a um m undo do qual, naquela ocasião, a m escalina m e havia tirado — o m undo dos personalism os, da dim ensão tem po, dos j ulgam entos m orais e das considerações utilitárias; o m undo — e era esse aspecto da vida hum ana que, acim a de tudo, m ais desej ava esquecer — o m undo da auto-afirm ação, da convicção, da supervalorização da palavra e das noções idolatra-m ente cultuadas.
Nesse ponto da experiência passaram -m e às m ãos um a grande produção em cores do conhecidíssim o auto-retrato de Cézanne, o busto de um hom em cuj a cabeça estava coberta por um grande chapéu de palha; rosado, de lábios corados, ostentando opulentas suíças negras e dono de olhos escuros e inam istosos. É um a obra excelente; m as não era com o obra de arte que eu a encarava, naquele instante. Pois a cabeça im ediatam ente adquiriu relevo e ganhou vida sob a form a de um hom enzinho que lem brava um duende, olhando através de um a j anela que era a página diante de m im .
Com ecei a rir. E, quando m e perguntaram a razão, disse, e continuei repetindo: — Que pretensão! Quem pensa ele que é? — Essa exclam ação, eu não a endereçava a Cézanne, em particular, m as a toda a espécie hum ana. Quem pensavam eles todos que eram ?
— Isso m e faz lem brar Arnold Bennett nos Dolom itas — disse eu, repentinam ente, recordando um a cena que um instantâneo feliz im ortalizara, cerca de quatro ou cinco anos antes de sua m orte, quando tateava através de um a trilha gelada em Cortina d'Am pezzo. Ao seu redor, a neve virgem ; ao fundo, a atração irresistível dos rubros despenhadeiros. E lá estava o caro, afável e infeliz Arnold Bennett, exagerando, conscientem ente, o papel de seu personagem favorito, corporificando-o ele m esm o. Lá vinha ele, vagarosam ente, sob o brilhante sol dos Apeninos, os polegares m etidos na cava do colete am arelo que se avolum ava, um pouco m ais abaixo, na curva graciosa de um a j anela estilo Regência — a cabeça j ogada para trás, com o que tentando vencer um a crise de gagueira, sob a cerúlea abóbada celeste. Já não m e lem bro de quais tenham realm ente sido suas palavras; m as seu porte, seu ar e sua atitude pareciam proclam ar: "Sou tão bom quanto essas m ontanhas do inferno!". E, de fato, sob certos aspectos, ele lhes era infinitam ente superior; m as — e ele bem o sabia — não o era pela form a segundo a qual seu personagem predileto, no reino da ficção, gostava de ser.
Feliz ou infelizm ente (dependendo do significado que se der à palavra) todos nós exageram os ao viver o papel de nosso personagem favorito. E o fato quase infinitam ente im provável de se tratar de Cézanne, de pouco lhe valia. Pois o renom ado pintor, com seu pequeno conduto para a Onisciência a burlar a ação da válvula redutora form ada pelo cérebro e o filtro do ego, era tam bém , e tão-som ente, um duende de grandes suíças e olhar inam istoso.
Para descansar, voltei às pregas de m inhas calças.
— E assim que precisam os ver as coisas — tornei a repetir. E bem que poderia ter acrescentado: "Isto é o tipo de coisa que precisa ser vista". Coisas sem pretensões, satisfeitas com serem apenas elas m esm as, conform adas com suas peculiaridades, não agindo de per si, não tentando, loucam ente, isolar-se do Dharm a-Corpóreo, em diabólico desafio à graça de Deus.
— O que m ais se aproxim aria disso — disse eu — seria um Verm eer.
Sim , um Verm eer. Pois esse m isterioso artista foi triplam ente bem aquinhoado — com a visão que identifica o Dharm a-Corpóreo com a sebe ao fundo do j ardim ; com o talento para reproduzir, com a m áxim a fidelidade, essa visão, dentro das lim itações im postas pela capacidade hum ana; com a prudência para se ater, em suas pinturas, aos aspectos da realidade m ais suscetíveis de serem reproduzidos. Pois, em bora Verm eer representasse seres hum anos, sem pre foi um pintor de naturezas-m ortas. Cézanne, que dizia a seus m odelos fem ininos que se esforçassem por parecer-se com m açãs, buscava pintar seus retratos dentro do m esm o espírito. Mas suas raparigas com ar-de-m açã associam -se m ais às idéias de Platão que ao Dharm a-Corpóreo na sebe. Elas são a Eternidade e o Infinito, não em areia ou por flores, m as pelas abstrações de algum a espécie de alta geom etria. Verm eer j am ais pediu a seus m odelos que buscassem parecer-se com m açãs. Ao contrário, insistia em que fossem o m ais fem ininas possível m as sem pre abstendo-se de se com portarem com infantilidade. Poderiam sentar-se ou ficar de pé, m as não deveriam apresentar-se com risos zom beteiros ou com arrogância, j am ais deveriam rezar ou suspirar por am ores ausentes, tagarelar, olhar com invej a os filhos de outras m ulheres, nam orar, am ar, odiar ou trabalhar. Se fizessem quaisquer dessas coisas iriam , indubitavelm ente, m ostrar-se m ais intensam ente elas m esm as; m as deixariam , por essa m esm a razão, de apresentar sua sublim e e essencial Despersonalização. É de Blake a opinião de que as portas da percepção de Verm eer estavam apenas parcialm ente lim pas. Um único painel atingira um a transparência quase perfeita; o resto da porta continuava enlam eado. A Despersonalização essencial pode ser perfeitam ente percebida em coisas e em criaturas vivas, no divisor entre o bem e o m al.
No hom em , só podem os vislum brá-la quando ele está em repouso, com a m ente desanuviada, o corpo estático. Nessas circunstâncias, Verm eer pôde ver a Peculiaridade em toda a sua celestial beleza — pôde vê-la e, até certo ponto, representá-la em sutil e suntuosa natureza-m orta. Verm eer é, indubitavelm ente, o m aior pintor de seres hum anos no estilo natureza-m orta. Mas houve tam bém outros contem porâneos de Verm eer na França, tais com o os irm ãos Lê Nain. Eles pretendiam , creio eu, dedicar-se à pintura descritiva; m as, o que em verdade produziram , foi um a série de retratos, tipo natureza-m orta, nos quais sua aguda percepção do infinito valor de todas as coisas está presente, não com o nos de Verm eer, por um sutil enriquecim ento das cores e texturas, m as por um a intensificação das luzes, um a obsessiva distinção das form as, dentro de um a tonalidade austera e quase que m onocrom ática. De nossos dias é Vuillard, o pintor inexcedível, com suas esplêndidas e inesquecíveis pinturas do Dharm a-Corpóreo sob a form a de um quarto de dorm ir burguês; do Absoluto consum indo-se em cham as no seio da fam ília de um com erciante à hora do chá, em um j ardim suburbano.
Ce qui fait que 1'ancien handagiste rem e Lê com ptoir dont lê faste alléchait lês passants C'est son j ardin d'Auteuil, ou veufs de tout encens, Lês Zinnias ont l'air d'être en tôle vem ie
O que faz com que o antigo loj ista despreze/ O faustoso balcão que atraía os fregueses/ É seu j ardim de Auteuil onde, à lisonj a im unes,/As zínias lem bram flores de lata envernizada.
Para Laurent Taillade, o espetáculo era sim plesm ente obsceno. Mas, se o antigo com erciante de m aterial ortopédico se houvesse sentado suficientem ente im óvel, Vuillard teria visto nele, tão-som ente, o Dharm a-Corpóreo; teria pintado, entre as zínias, o tanque dos peixinhos dourados, a torre m ourisca e as lanternas chinesas da vila — um recanto do Éden ao rom per do outono.
E, entretanto, m inha pergunta continuava sem resposta. Com o conciliar essa percepção aguçada com um a j usta preocupação pelas relações hum anas, com os deveres e as tarefas inadiáveis, para não m encionar a caridade e a piedade atuantes? A velha disputa entre ativos e contem plativos estava sendo renovada — e renovada, creio eu, com um a violência sem precedentes. Pois, até aquela m anhã, eu só conhecera a contem plação sob suas form as m ais hum ildes e encontradiças — a divagação do pensam ento; a arrebatada abstração na poesia, na pintura ou na m úsica; a paciente espera pela inspiração, sem a qual m esm o o m ais prosaico escritor não pode pretender realizar coisa algum a; com o vislum bres acidentais da natureza "de algo m uito m ais profundam ente interligado", no dizer de Wordsworth; com o o silêncio sistem ático que leva, por vezes, à noção de um "obscuro saber". Mas, desta feita, conheci a contem plação em sua puj ança. Em sua puj ança, sim , m as não em toda a sua plenitude.
Pois, quando esta é atingida, a estrada que leva a Maria inclui a de Marta e eleva a contem plação, por assim dizer, a seu m ais alto poder. A m escalina nos abre o acesso a Maria, m as fecha a porta que leva a Marta. Ela nos perm ite chegar à contem plação, m as a um a contem plação que é incom patível com a ação e até m esm o com a vontade de agir, com a própria idéia de ação. Nos intervalos entre suas revelações, quem tom a m escalina é capaz de sentir que, em bora de certo m odo tudo tenha a sublim idade que devera ter, por outro lado há nisso qualquer coisa de errado. Seu problem a é, essencialm ente, o m esm o com
que se defronta o erem ita, o arfoat {2} e, em outro plano, o paisagista e o pintor de retratos inanim ados. A m escalina j am ais poderá resolver tal problem a; servirá apenas para situá-lo, em term os obscuros, para aqueles aos quais ele j am ais se apresentou. Sua solução plena e definitiva só poderá ser encontrada por quem
estej a preparado para reforçar a verdadeira {3} Weltanschauung por m eio do com portam ento adequado e de um a vigilância constante, natural e apropriada. Ao erem ita se opõe o contem plativo-ativo, o santo, o hom em que, na frase de Eckhart, está pronto a descer do sétim o céu para levar de beber a seu irm ão doente. Ao arhat, refugiando-se do m undo exterior em um Nirvana inteiram ente
transcendental, opõe-se o {4} Bodhisattva, para quem a Peculiaridade e o m undo das contingências são um a m esm a coisa, e para cuj a piedade sem lim ites, a cada um a dessas contingências correspondem outras tantas oportunidades, não só para m editações transfiguradoras, com o tam bém para praticar a caridade m ais obj etiva. E, no universo da arte, a Verm eer e aos outros pintores de retratos inanim ados, aos m estres do paisagism o chinês e j aponês, a Constable e a Turner, a Sisley, Seurat e Cézanne, opõe-se a arte integral de Rem brandt. Esses são nom es célebres, inacessíveis em inências. Pelo que m e toca, nessa m em orável j ornada de m aio pude tão-som ente ser grato a um a experiência que m e revelou, m ais claram ente do que eu j am ais pudera discernir, a verdadeira natureza do desafio e o cunho inteiram ente em ancipador da resposta.
Marta e Maria, irm ãs de Lázaro, citadas no Novo Testam ento, Evangelho de São Lucas. Nas alegorias cristãs, Marta sim boliza a vida ativa; Maria, a contem plativa.
Sej a-m e perm itido acrescentar, antes de abandonar este assunto, que não há form a de contem plação, m esm o a m ais passiva, que não possua seu conteúdo ético. No m ínim o a m etade de toda a m oral é negativa, e consiste em evitar o erro. O pai-nosso contém m enos de cinqüenta palavras, e seis delas são dedicadas a pedir a Deus que não nos deixe cair em tentação. O contem plativo-passivo deixa de fazer m uitas coisas que teria de realizar; m as para se dispor a um a tal atitude, ele precisa abster-se de praticar um a série de ações que não deveriam ser levadas a efeito. O m al, acentuou Pascal, seria m uito dim inuído se os hom ens aprendessem a perm anecer serenam ente em seus aposentos. Mas o contem plativo cuj a percepção haj a sido esclarecida não precisará perm anecer encerrado em seus aposentos. Poderá sair para seus afazeres, tão perfeitam ente satisfeito em contem plar e em ser um a parte da divina Ordem das Coisas, que nunca ver-se-á tentado a entregar-se ao que Traherm e cham ou de "im puros Artifícios do m undo". Quando nos sentim os com o se fôssem os os únicos herdeiros do universo, quando "o m ar corre em nossas veias [...] e as estrelas são nossas j óias", quando todas as coisas parecem infinitas e sagradas, que m otivos poderem os ter para a cobiça ou a soberba, para a fom e de poder ou para as form as m ais doentias de prazer?
Os contem plativos não são propensos a se tornarem j ogadores, alcoviteiros ou ébrios; com o regra, não pregam a intolerância nem prom ovem guerras; não são levados ao roubo, à fraude ou à opressão dos fracos. E, a essas grandes virtudes negativas, podem os ainda acrescentar outra que, em bora difícil de definir, não só é im portante com o tam bém positiva. O arhat e o contem plativo sereno podem não praticar a contem plação em sua plenitude, m as m esm o assim nos poderão proporcionar inform ações esclarecedoras sobre outra e transcendente região da m ente. E, se praticarem -na com elevação, tornar-se-ão os condutos através dos quais poderá advir um a certa influência benéfica, dessa região ignota, para um m undo de personalidades atorm entadas, em constante agonia por falta desse auxílio.
Enquanto isso, eu m e voltara, a pedido de m eu interlocutor, do retrato de Cézanne para o que se passava em m inha m ente ao cerrar os olhos. E o que pude então observar foi curiosam ente decepcionante: m eu cam po de visão estava repleto de estruturas de cores vivas, em constante m utação, que pareciam feitas de plástico ou de folha esm altada.
— Vulgar — com entei. — Ordinário. Com o os obj etos de um a loj a am ericana.
Todas essas quinquilharias existiam em um universo acanhado, atulhado.
— E com o se alguém estivesse, debaixo do convés, em um navio — exclam ei.
— Um a loj a am ericana flutuante.
E, à m edida que eu a observava, tornou-se bem patente que essa loj a am ericana flutuante estava, de certa form a, relacionada com as pretensões hum anas. Esse interior sufocante de loj a barata em barcada era m eu próprio ego; esses vistosos m obiles vulgares, de lata e de m atéria plástica, eram m inhas contribuições pessoais para o universo.
chei a lição salutar, em bora não deixasse de ser constrangedor que ela m e tivesse sido m inistrada nesse m om ento e sob tal form a. De m odo geral, quem tom a m escalina descobre um m undo interior tão claram ente definido, tão axiom aticam ente infinito e sagrado quanto aquele m undo exterior transfigurado que eu havia visto de olhos abertos. A princípio, m inha própria experiência fora diferente. A m escalina m e proporcionara, tem porariam ente, o poder de ter visões de olhos cerrados; m as não pudera — ou, ao m enos naquela ocasião, não o fez — revelar-m e um a visão interior rem otam ente com parável às m inhas flores, à cadeira ou às calças de flanela "lá de fora".
O que ela m e perm itira perceber, interiorm ente, não fora o Dharma-Corpóreo por interm édio de im agens, e sim m inha própria m ente; não um padrão de Peculiaridade, m as um conj unto de sím bolos — em outras palavras, um substituto caseiro dessa Peculiaridade.
Os indivíduos de im aginação fértil são, em sua m aioria, transform ados em visionários pela m escalina. Alguns deles — e seu núm ero talvez sej a bem m aior do que geralm ente se adm ite — não necessitam de transform ação; são perm anentem ente visionários.
A espécie m ental a que Blake pertencia acha-se razoavelm ente bem distribuída, m esm o nas sociedades urbano-industriais da atualidade. A singularidade do artista-poeta não consiste no fato de, para citar seu Descriptive Catalogue, haver ele realm ente visto "aquelas maravilhosas entidades que a Sagrada Escritura denominava Querubins". Não reside em que "estes maravilhosos entes, surgidos em minhas visões, tivessem, alguns deles, cem pés de altura [...] todos repletos de m itológico e recôndito significado". Está apenas em sua habilidade para traduzir, por palavras ou (com um pouco m enos de êxito) com traços e cores, ao m enos certos aspectos de um a experiência algo incom um . O visionário desprovido de talento pode se aperceber de um a realidade interior não m enos assom brosa, bela e valiosa que o m undo observado por Blake; m as faltar-Ihe-á por com pleto habilidade para exprim ir, por m eio de sím bolos plásticos ou literários, aquilo que viu.
Conclui-se perfeitam ente, à luz dos docum entos e rituais religiosos, bem com o dos m onum entos da poesia e das artes plásticas que chegaram até nós, que, na m aioria das épocas e dos lugares, os hom ens têm atribuído m aior im portância a suas visões interiores que às coisas obj etivas que conhecem . Têm j ulgado que o que vêem , quando de olhos cerrados, possui m aior im portância espiritual que o visto à luz do dia. Qual a razão para isso? A fam iliaridade gera indiferença, e o problem a da sobrevivência é de um a prem ência que vai da tediosa rotina à tortura. É para o m undo exterior que abrim os os olhos todas as m anhãs, é nele que, de bom ou de m au grado, tem os de procurar viver.
No m undo interior não há trabalho nem m onotonia. Visitam o-lo apenas em sonhos e devaneios, e sua singularidade é tal que nunca encontram os o m esm o m undo em duas ocasiões sucessivas. Que há, pois, de espantoso em preferirem os seres hum anos, via de regra, olhar para dentro de si m esm os, em sua busca do sublim e? Isso, de fato, sucede com o regra geral, m as não necessariam ente: não som ente em sua religião, com o tam bém em sua arte, os taoístas e os budistas Zen procuravam ir além de suas visões, ao encontro e através do Vazio, até as "dez m il coisas" da realidade obj etiva. Graças a sua doutrina da Palavra tornada carne, poderiam os cristãos, desde o início, adotar um a atitude sem elhante com relação ao universo que os circundava. Mas, em razão da doutrina do Pecado Original, viram -se em grande dificuldade para fazê-lo. Há apenas trezentos anos, um a expressão de com pleta fuga ao m undo, e m esm o de sua condenação, era não só ortodoxa com o com preensível: "Nada há na Natureza que m ereça a nossa adm iração, a não ser a encarnação de Cristo". No século XVII, essa frase de Lallem ant parecia ter sentido. Hoj e, encontram os nela a aura da dem ência.
Na China, a ascensão do paisagism o à categoria de arte im portante ocorreu há um m ilênio; no Japão, há uns seis séculos; na Europa, há uns trezentos anos. A identificação da Divindade com a sebe foi obra desses m estres zen, que consorciaram o naturalism o taoísta com o transcendentalism o budista. Foi, pois, apenas no Extrem o Oriente que os paisagistas, conscientem ente, encararam sua arte com o obra religiosa.
No Ocidente, a pintura religiosa consistia em representar personagens sacros e ilustrar textos sagrados. Os paisagistas tinham -se na conta de secularistas. Hoj e reconhecem os em Seurat um dos suprem os m estres do que pode ser denom inado o paisagism o m ístico.
E, não obstante, esse hom em que era capaz, m ais do que outro qualquer, de representar o Im par em sua pluralidade, ficou indignado quando alguém lhe elogiou a poesia de suas obras. "Lim ito-m e a aplicar o Sistem a", protestou ele.
Em outras palavras, ele se considerava um praticante do pointillism e{5} e nada m ais. Passagem sem elhante conta-se de Constable: Blake, j á no fim de sua vida, conheceu-o em Ham pstead e exam inou alguns de seus esboços. A despeito de seu desprezo pela arte naturalista, o velho visionário soube dar-lhe o devido valor, em bora pensasse tratar-se de obra de Rubens. — "Isto não é desenho", exclam ou ele, "isto é inspiração!" Ao que Constable lhe teria retrucado, de m odo bem característico: "Fi-lo para que fosse desenho". Am bos estavam certos. Aquilo era desenho, preciso e fiel, m as ao m esm o tem po era inspiração — inspiração no m ínim o tão elevada quanto a de Blake. Os pinheiros na Urze foram realm ente identificados com a Divindade. O esboço era um a reprodução, necessariam ente im perfeita, m as assim m esm o profundam ente im pressionante, do que um a percepção sem peias revelara aos olhos abertos de um grande pintor. De um a contem plação segundo os m oldes de Wordsworth e Whitm an, identificando a Divindade com a sebe, e das visões introspectivas, tais com o as de Blake, das "m aravilhosas entidades", os poetas contem porâneos recuaram para um a investigação do que é pessoal, com o oposto ao m ais do que pessoal, subconsciente, e para um a reprodução, em term os altam ente abstratos, não dos fatos reais, obj etivos, m as de m eras noções científicas e teológicas. Coisa algo sem elhante ocorreu no cam po da pintura. Nela verificam os um a fuga generalizada da paisagem — form a predom inante dessa arte no século XIX. Essa fuga não se deu para aquele sublim e Princípio interior —ao qual se achavam ligadas, em sua m aioria, as escolas tradicionais do passado —, para aquele Mundo Modelo, onde os hom ens têm sem pre ao seu dispor estas duas m atérias-prim as: m ito e religião. Não; o que houve foi um a fuga para o Princípio exterior, para o subconsciente individual, para um m undo intelectual m ais esquálido e ainda m ais estreitam ente fechado que o da personalidade consciente. Essas quinquilharias de lata e de plástico, de cores berrantes, onde eu as havia visto antes? Em qualquer galeria de arte onde se exibam as últim as criações da arte não-representativa.
Técnica de pintura da escola neo-im pressionista, fundada por Seurat, na qual as tintas são aplicadas sobre fundo branco, em pequenos pontos, seguindo um rigoroso sistem a.
Naquele m om ento, alguém acabava de ligar um fonógrafo e de pôr um disco no prato. Ouvi com prazer a m úsica; m as nada há que se equipare à visão apocalíptica que tive das flores e de m inhas calças. Poderia um m úsico, prodigam ente aquinhoado pela Natureza, ouvir as revelações que, para m im , foram exclusivam ente visuais? Seria interessante fazer essa experiência. Entretanto, em bora não transfigurada, em bora m antendo a qualidade e a intensidade norm ais, a m úsica contribuiu, e não pouco, para a com preensão do que se passara com igo e dos problem as m ais am plos que esses acontecim entos suscitaram .
A m úsica instrum ental, por estranho que pareça, deixou-m e bastante indiferente.
O Concerto para piano em dó-m enor, de Mozart, foi interrom pido após o prim eiro m ovim ento e substituído por um disco de m adrigais de Gesualdo.
— Essas vozes — disse eu com prazer —, essas vozes são um a espécie de ponte que nos perm ite regressar ao m undo dos hom ens.
E com o ponte continuaram , m esm o quando cantando as com posições m ais povoadas de variações crom áticas dentre as obras do príncipe louco. A m úsica prosseguiu através das frases irregulares ; dos m adrigais, j am ais batendo na m esm a tecla em dois com passos l consecutivos. Em Gesualdo — aquele personagem fantástico de um m elodram a de Webster — a desintegração psicológica exagerara, levara aos lim ites extrem os um a tendência inerente à m úsica m odal, em contraposição à inteiram ente tonai. Daí suas obras darem a im pressão de terem sido escritas pelo últim o Schoenberg.
— E no entanto — sentim e forçado a dizer, enquanto ouvia esses estranhos produtos de um a psicose da Contra-Reform a atuando sobre um estilo de arte do fim da Era Medieval —, e, no entanto, pouco im porta que ela sej a toda em pedaços. O conj unto é caótico, m as cada fragm ento, de per si, é ordenado, é a representação de um a Ordem Superior. Essa Ordem Superior sobrepuj a a própria desintegração. Sente-se a unidade até nos fragm entos. Talvez ela sej a m ais sensível do que em um a obra inteiram ente coerente. Ao m enos, não serem os levados a um sentim ento de falsa segurança por qualquer im pulso m eram ente hum ano e artificial. Tem os de confiar em nossa percepção direta, de natureza fundam ental. Portanto, até certo ponto, a desintegração pode ter suas vantagens. Mas é fora de dúvida que ela é perigosa; terrivelm ente perigosa.
Suponham os que não m ais possam os voltar, fugir ao caos...
Dos m adrigais de Gesualdo pulam os, num salto de três séculos, para Alban Berg e sua "Suite Lírica".
— Isto — avisei antecipadam ente — será o inferno.
Mas, quando a m úsica com eçou, verifiquei que m e enganara. Na verdade, a m elodia parecia até alegre. Vindo do fundo do m eu subconsciente, o enlevo se m ultiplicava pelos outros tantos tons da orquestra; contudo, o que realm ente m e im pressionou foi a incongruência essencial entre um a desintegração psicológica talvez ainda m ais com pleta que a de Gesualdo e os prodigiosos recursos, tanto em talento com o em técnica, em pregados em sua expressão.
— Não parece que ele está triste consigo mesmo? — comentei com zombeteiro desagrado. E logo depois: — Katzenmusik!, douta Katzenmusik! — Finalm ente, após m ais uns poucos m inutos de tortura: — Quem se im porta com quais sej am seus sentim entos? Por que não pode ele dedicar-se a qualquer outra coisa?
Com o crítica de um a obra indubitavelm ente notável, ela era inj usta e parcial, m as não creio que fosse despropositada. Cito-a, não só pelo valor que possa ter, com o tam bém por ter sido assim que, em um estado de pura contem plação, reagi ante a "Suite Lírica".
Literalm ente, "m úsica de gatos"; expressão alem ã em pregada para definir um a m úsica desagradável.
Quando acabou sua execução, sugeriu-m e o pesquisador que passeássem os pelo j ardim . Gostei da idéia e, em bora m eu corpo parecesse ter-se separado quase por com pleto de m inha m ente (ou, para ser m ais preciso, em bora m inha perceptibilidade do transfigurado m undo exterior j á não m ais se fizesse acom panhar da de m eu próprio organism o), do ponto de vista fisiológico verifiquei ser capaz de levantar-m e, abrir a porta e sair para o j ardim com um m ínim o de hesitação. Era, na verdade, estranho sentir que eu não era a m esm a coisa que esses braços e pernas lá de fora; que esse tronco, esse pescoço, essa cabeça m esm a. Era estranho; m as em breve acostum am o-nos a isso. E, sej a com o for, o corpo parecia perfeitam ente apto a tom ar conta de si próprio. Na verdade, é ele quem sem pre tom a conta de si. Tudo o que o ego consciente pode fazer é form ular desej os, que são então transm itidos ao corpo por forças que ele controla m uito pouco e absolutam ente não com preende. Quando faz algo m ais — por exem plo, quando se esforça em dem asia, quando se aborrece ou se torna apreensivo sobre o futuro —, reduz a eficiência dessas forças e pode m esm o fazer com que o debilitado corpo adoeça.
Em m eu estado, no m om ento, a perceptibilidade não era encam inhada a um ego; estava, por assim dizer, entregue a si m esm a. Isso significava que a inteligência fisiológica que controla o organism o tam bém estava entregue a si m esm a. Nessa ocasião, aquele im portuno neurótico que, nas horas de vigília, se esforça por "dirigir o espetáculo" estava, felizm ente, fora de ação. Transpondo a porta, saí para um a espécie de pérgula, em parte coberta por um a roseira, em parte por ripas de uns dois centím etros de largo, a intervalos de um centím etro um as das outras. O sol brilhava, e a som bra das ripas form ava um zebrado claro-escuro no chão da varanda, no assento e no encosto de um a cadeira de j ardim que se achava próxim a à casa. Aquela cadeira! Poderei algum dia esquecê-la? As alternâncias de som bra e luz form avam , sobre a lona de seu estofo, listras de um anil intenso, porém luzente, sucedidas por outras de um a incandescência tão intensam ente brilhante que era difícil acreditar não fossem produzidas por cham as azuis. Por um tem po, que m e pareceu intensam ente longo, fitei-a sem saber, sem m esm o desej ar saber que é que tinha diante de m im . Em outra ocasião qualquer teria visto apenas um a cadeira com barras alternadas de luz e som bra. Mas, no m om ento, a percepção sensorial dom inara a idéia. Eu estava tão absorto na contem plação, tão estupefato pelo que via, que não pude ter consciência de nada m ais. Mobiliário, ripas, luz do sol, som bra — tudo isso não passava de nom es e noções; de m eras verbalizações para o aproveitam ento científico ou utilitário dos resultados. O resultado era essa sucessão de portas de fornalha azul-celeste, separadas por insondáveis abism os de genciana. Aquilo era indizivelm ente m aravilhoso; de um a sublim idade que tocava as raias do terrífico. E então, repentinam ente, tive um a vaga noção do que sej a sentir-se louco. A esquizofrenia tem seus paraísos, de par com seus infernos e purgatórios.
Lem bro-m e do que um velho am igo, de há m uito falecido, contou-m e sobre a doença da esposa. Um dia, nos prim eiros estágios da enferm idade, quando ela ainda desfrutava intervalos de lucidez, tinha ido visitá-la no hospital e dar-lhe notícias dos filhos. Ela o ouviu por algum tem po e então, de súbito, interrom peu-o: com o poderia ele perder tem po com um casal de crianças ausentes quando tudo o que verdadeiram ente im portava, ali e naquele instante, era a indizível beleza dos desenhos que ele criava, em seu casaco m arrom de xadrez, a cada m ovim ento de braços? Infeliz! Esse paraíso de percepção ilim itada, de contem plação pura, parcial, não iria durar. Os intervalos felizes tornaram -se m ais raros, m ais breves, até que, finalm ente, desapareceram de vez; só restou o horror...
Muitos dos que ingerem m escalina experim entam apenas as sensações celestiais da esquizofrenia. A droga só leva o purgatório ou o inferno àqueles que tenham tido um acesso recente de icterícia ou que sofram de depressões periódicas ou ansiedade crônica.
Se, com o acontece com outras drogas de poder incom paravelm ente m enor, a m escalina fosse reconhecidam ente tóxica, sua ingestão seria suficiente para provocar ansiedade.
Mas o indivíduo razoavelm ente saudável sabe antecipadam ente que, para si, esse alcalóide será com pletam ente inócuo e que seus efeitos terão cessado após oito ou dez horas, sem deixar sensações desagradáveis nem , conseqüentem ente, ânsias por novas doses. Fortalecido por essa convicção, ele pode entregar-se à experiência sem tem ores — em outras palavras, sem qualquer predisposição para converter um ensaio de um a singularidade sem precedentes, inum ano, em algo de aterrador, de verdadeiram ente diabólico.
Diante de um a cadeira que parecia um Juízo Final — ou, para ser m ais preciso, ante um Juízo Final que, depois de longo tem po e com considerável dificuldade, pude reconhecer com o sendo um a cadeira —, eu m e senti, de um a hora para outra, no lim iar do pânico. Aquilo, percebi repentinam ente, estava indo m uito longe. Longe dem ais, m uito em bora m archasse para um a beleza sem pre m aior, para um sentido cada vez m ais profundo. O tem or, analisando-o retrospectivam ente, foi o de m e ver esm agado, desintegrado sob um a pressão de realidade m uito superior à que um a m ente, acostum ada a viver a m aior parte do tem po em um confortável m undo de sím bolos, talvez pudesse suportar. Na literatura da experiência religiosa, abundam referências aos sofrim entos e terrores que esm agam os que se defrontam , com dem asiada rapidez, face a face com qualquer m anifestação do My sterium Trem endum . Em linguagem teológica, esse tem or é função da incom patibilidade entre o egotism o do hom em e a pureza divina; entre a m esquinhez auto-agravada do hom em e o Deus infinito. Segundo Bohem e e William Law, podem os dizer que a Divina Luz, em toda a sua intensidade, só pode ser percebida pelas alm as pecadoras sob a form a de cham as do purgatório. Doutrina praticam ente idêntica é a exposta no Livro tibetano dos m ortos, pelo qual a alm a que se desprega foge atorm entada da Serena Luz do Vazio, e até m esm o das Luzes m enos intensas, indo lançar-se, precipitadam ente, na confortadora escuridão da personalidade, reencarnando-se em um recém -nascido, transform ando-se até em anim al, em um infeliz fantasm a ou indo ter ao inferno. Há de preferir qualquer coisa ao ígneo refulgir da im placável Realidade — qualquer coisa!
O esquizofrênico é um a alm a, não só im pura, com o tam bém desesperadam ente desgostosa com sua situação. Seu torm ento consiste na incapacidade de proteger-se contra a realidade, sej a ela interior ou exterior (com o faz norm alm ente o indivíduo são) refugiando-se no universo do senso com um , por nós m esm os construído — esse m undo estritam ente hum ano das noções úteis, dos sim bolos com partilhados pelos dem ais, das convenções socialm ente aceitáveis. O esquizofrênico é qual hom em sob a influência contínua da m escalina e, pois, incapaz de deixar de experim entar um a realidade que ele não pode suportar por lhe faltar pureza; que não pode interpretar por ser ela o m ais inflexível dos fatos fundam entais e que, por j am ais perm itir-lhe encarar o m undo com olhos sim plesm ente hum anos, força-o a interpretar suas incessantes singularidades, sua candente intensidade de valores, com o a m anifestação da m aldade hum ana ou até cósm ica, levando-o às m ais desesperadas contram edidas que vão da violência assassina, de um lado da escala, até a catatonia — ou suicídio psicológico —, do outro. E, um a vez iniciada a descida pela ram pa infernal, ninguém poderá m ais deter-se. Isso, no m om ento, era por dem ais evidente para m im .