Box Hora do Espanto: Série III
Capítulo 9
Sally Anne se enfiou atrás de Tommy nos portões da escola e de repente gritou:
– Peguei você!
– Minha nossa! – Tommy berrou.
Então ele percebeu que era apenas Sally Anne brincando.
– Você continua sem graça – ele disse, seco.
– Ora! Anime-se, jovem ranzinza. E ande logo, ou vamos perder o trem! – ela disse, apressando-se.
– Trem? – gritou Tommy atrás dela.
– Isso, venha, não moro nesta parte da cidade! – ela chamou Tommy novamente.
“Se ela não mora nesta parte da cidade, por que frequenta esta escola?” – Tommy pensou.
Eles pegaram o trem bem na hora. Sally Anne mostrou seu passe de trem de estudante ao fiscal, que pareceu desanimado demais para verificá-lo direito.
– Você falou antes que eu deveria ficar apavorado – disse Tommy, não totalmente convencido de que deveria.
– Bem – ela respondeu –, isso depende se você tem a mente aberta.
– Como assim? – perguntou Tommy.
– Não sei se você está pronto ou não, mas vamos lá. Observe isto.
Sally Anne levantou-se no trem e andou até a porta do vagão.
– Com licença, pessoal. Atenção, gente – ela gritou. – Escutem, por favor.
Tommy ficou tão envergonhado que afundou no banco em que estava sentado. Sally Anne continuou.
– Gostaria de cantar uma música para vocês.
E ela começou a cantar: “She loves you, yeah, yeah, yeah”, o refrão de uma antiga canção dos Beatles. E ainda por cima dançou! Então, ela subiu num assento vago perto de um respeitável, mas muito mal-humorado senhor de meia-idade. Ela batia palmas e cantava a plenos pulmões.
Tommy estava inquieto. Fechou os olhos e fingiu dormir. Sally Anne percebeu e resolveu chamar a atenção para ele.
– Ouçam todos mais uma vez. Tenho uma notícia escandalosa para dar a vocês. Estão vendo ali, naquele assento? – Tommy sabia que ela estava apontando para o assento dele. – Ali está sentado Tommy McDonald, que nunca beijou uma garota, nenhuma.
“Fique quieta! Por favor, cale a boca!” – Tommy disse mentalmente, perguntando-se o que tinha acontecido com Sally Anne.
Nervoso, ele olhou ao redor, esperando que todos no vagão o encarassem. Para sua surpresa, tudo estava como antes. Ninguém se mexeu. Aliás, todos continuavam a fazer exatamente o que faziam antes de Sally Anne começar sua cena. Na verdade, parecia que Sally Anne era invisível para eles! Ele se levantou e disse:
– Sally Anne…
Mas, antes que pudesse continuar, quase todos no vagão olharam para ele sozinho, em pé, falando o nome de uma garota!
– Ninguém pode me ver nem ouvir – Sally Anne gritou.
– Mas eles me ouvem! – disse Tommy sem pensar. E, claro, os demais passageiros olharam mais uma vez para ele, achando que se tratava de um doido.
– Sim, eles podem ouvi-lo muito bem. Mas não a mim. Veja só!
Sally Anne falou com ar de travessura e foi até um senhor careca:
– Olá, carequinha, cadê o seu cabelo?
Mais uma vez, Tommy não pensou e deixou escapar:
– Sally Anne! Pare com isso! A falta de cabelo não é culpa dele!
O idoso sem cabelo encarou Tommy.
– Está falando de mim, rapazinho?
– Não, não, claro que não – Tommy negou.
Outro careca que estava mais adiante no vagão levantou-se furioso:
– Bem, nesse caso, o jovem insolente deve estar falando de mim.
– Não, não, desculpe, foi um engano. Sinto muito.
Agora Tommy estava realmente confuso.
– Bem, então ele deve estar falando de mim – disse outro homem, tirando o chapéu e mostrando a careca reluzente.
Era um pesadelo. Todos os três carecas se levantaram e começaram a se aproximar lentamente de Tommy.
– Você precisa aprender uma lição, seu moleque atrevido – disse um deles.
– É sério, foi um engano. Eu não estava falando de nenhum de vocês – ele implorou, afastando-se dos homens que avançavam.
– Nesse caso, você deve estar falando de mim! – disse a voz de um quarto homem com cabelo. Ele levou as mãos à cabeça e arrancou o cabelo. Era uma peruca! Ele também era careca!
– Como sabia que era peruca, rapaz? Você é espião? – perguntou o quarto homem.
“A coisa está ficando cada vez pior” – pensou Tommy.
– Como eu saberia que você é careca? Como assim, espião? Sally Anne? – Tommy chamou.
De repente, o trem parou. Não estava perto de nenhuma estação. Estranhamente, todos os passageiros estavam novamente sentados. O homem de peruca estava com a peruca no lugar. O careca de chapéu estava com o chapéu intacto. Ambos liam jornais como se nada tivesse acontecido. Tommy voltou a sentar-se e se perguntou se tudo não passava de um sonho, um transe.
O trem voltou a se movimentar. Sally Anne apareceu sentada ao lado de Tommy. Tudo o que ele escutava agora era o barulho do trem trepidando ao longo dos trilhos.
– Isso realmente aconteceu? – Tommy perguntou a Sally Anne.
– Sim – confirmou Sally Anne.
– Mas por que eles… – Tommy olhou para todos sentados como se nada tivesse acontecido.
– Eles não se lembram – interrompeu Sally Anne.
– Eles não se lembram? – repetiu Tommy, incrédulo.
– Não se lembram de nada – respondeu Sally Anne.
– Como é possível? – perguntou Tommy.
– Eu os hipnotizei. Está começando a acreditar em mim, que sou uma bruxa?
– Estou começando a perder a cabeça – respondeu Tommy, completamente desnorteado. – Como vou saber se você também não me hipnotizou e nada disso aconteceu?
– Boa pergunta. Você vai ter que confiar em mim.
O trem entrou na estação em uma parte da cidade que Tommy não conhecia.
– Onde estamos? – Tommy perguntou, tentando se recuperar do choque provocado pelo fantasmagórico incidente no trem.
– Estamos no vilarejo onde moro – disse Sally Anne.
– Nunca estive aqui antes – afirmou Tommy.
Ela olhou para ele e sorriu.
– Tem certeza de que nada lhe parece familiar? – ela perguntou.
Tommy olhou ao redor, procurando reconhecer alguma coisa. Lembrava-se vagamente do traçado geral da rua principal, mas todos os vilarejos tendiam a ser um pouco parecidos.
– Não, acho que não – ele disse.
– Mas devia. Você nasceu aqui – revelou Sally Anne.
– Mas eu nasci em Belldale, que fica a centenas de quilômetros daqui – ele disse.
– Talvez na vida atual. Porém, na vida anterior, você nasceu aqui.
– Não acredito em nada disso, é muito absurdo.
– Ora, realmente! Tenho certeza de que você acredita num monte de coisas absurdas.
– Do tipo?
– Você acredita no futuro. Acredita que será jornalista, que será aprovado nos exames e em muitas outras coisas – ela insistiu.
– Então! Eu sei para onde vou, do mesmo jeito que muita gente – Tommy afirmou. – O que há de errado nisso?
– Eu não disse que havia algo de errado nisso. Mas, se você acredita no futuro, por que não no passado? Quer mais provas?
Tommy pensou na cena do desaparecimento dela em sua casa, e na viagem de trem. Mas, embora essas coisas o assustassem, ele não tinha certeza de que Sally Anne era uma bruxa. Ela podia ser apenas uma garota confusa sem nada melhor para fazer. Mas por que ela havia cismado com ele?
“Por que eu?” – ele pensou.
– Tudo bem, se você quer apresentar mais provas, mande brasa, dê o pior de si – ele desafiou, embora estivesse um pouco apreensivo.
Sally Anne ficou decepcionada e, então, depois de pensar por um tempo, disse:
– Está bem, observe isto.
Sally Anne levou as mãos ao rosto de Tommy, segurou-o por um instante e o beijou.
Tommy não teve tempo para reagir e, antes que percebesse, sua cabeça girava. Sally Anne recuou e Tommy abriu os olhos, mas ele se espantou ao notar que estava num cenário muito diferente. Não conseguia acreditar no que via. Ele estava no mesmo lugar, mas havia cartazes na vitrine de uma loja nos quais estava escrito “Padaria Rolwell”, além de outras coisas, e todos na rua usavam roupas fora de moda, muito antiquadas, da época vitoriana, na verdade. Ele começou a sentir cheiros bastante estranhos. Então, percebeu que não existiam carros, apenas carroças puxadas por cavalos. Reparou ainda que a estrada não era asfaltada, era de terra, como num velho filme de faroeste. Os barulhos eram de cavalos trotando, carroças circulando e cocheiros estalando chicotes. Era como se ele tivesse voltado no tempo! Então, ele olhou para Sally Anne e viu que ela usava o mesmo vestido fora de moda que ele se lembrava de ela ter pintado na aula de Artes do professor Mendel. Ele ficou perplexo. Sua mente tentava entender o que estava acontecendo.
– Acorde – ele dizia em voz alta para si mesmo. – Acorde, Tommy!
– Você está acordado! Mais acordado que o normal. O que você considera acordado não é tão acordado quanto isto. Isto é real, Tommy! – afirmava Sally Anne.
Ele olhou ao redor e imediatamente reconheceu a velha fábrica da pintura. Na verdade, ali tudo era exatamente igual à pintura. De repente, Tommy percebeu que usava roupas diferentes. Ele estava vestido exatamente como o garoto na pintura de Sally Anne, com a mesma boina na cabeça, a mesma calça marrom com suspensórios, a mesma camisa branca listrada sem colarinho.
– Não pode ser real! Não pode ser! Não pode ser!
Tommy começou a sentir que estava adormecendo.
– Não pode ser, não pode ser, não pode ser… não pode…