Box Hora do Espanto: Série III
Capítulo 17
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Morrendo de curiosidade, Tommy foi até a biblioteca da escola depois da última aula, atrás de um mapa completo da região. Encontrou um, mas teve a impressão de que não acharia o que estava procurando. E não achou. Ele procurava Rolwell, local onde Sally Anne morava. A cidade natal dele, pelo que ela dizia. Mas ele sabia que era apenas um toque de esperteza dela para atraí-lo. Nenhum mapa mencionava Rolwell. O lugar não existia. Ele não ficou preocupado.
Naquela noite, ele foi até a estação de trem. Observou todos os destinos. Rolwell não estava lá, nem nas tabelas dos horários. Nenhum funcionário da ferrovia conhecia esse lugar. Ele não se surpreendeu.
Na volta da estação, ele viu um homem na fila do táxi lendo um jornal estrangeiro chamado Der Spiegel. Tommy reconheceu o homem. Esse homem, ao dobrar o jornal para pegar o táxi, reparou em Tommy.
– Não perca o seu bilhete do trem – ele comentou com Tommy. – Você pode querer ajudar alguém um dia.
O táxi desapareceu na curva da esquina.
– O meu bilhete? – Tommy se espantou.
Então, ele vasculhou os bolsos da calça até encontrar um pedaço de papel amarrotado. A parte do bilhete com o destino dizia claramente Rolwell.
Muitas vezes, nos anos seguintes, Tommy se perguntou se ele havia tido um colapso nervoso ou algo parecido na época de Sally Anne. George e ele continuaram amigos por muitos anos e raramente falavam de Sally Anne. Jamais discutiram o lado misterioso do caso. O professor Mendel, no final daquele ano letivo, jogou fora todos os trabalhos de artes dos alunos, então Tommy nunca mais teve a chance de examinar a pintura de Sally Anne.
Mas, sempre que se convencia de que havia imaginado aquelas coisas todas, ele ia até a gaveta de cima da escrivaninha de seu quarto e pegava o bilhete do trem. Era o que mantinha tudo real em sua mente.
Ele continuou a sonhar com Sally Anne, e, nesses sonhos, ela lhe dizia que estava feliz. Como ele acreditou na história toda, e acreditou para valer, ela foi capaz de recuperar toda sua força de bruxa e continuou a ajudar outras pessoas perdidas no tempo.
Tommy continuou trabalhando duro, mas vivia para o presente. Às vezes ainda se preocupava com o futuro, mas nunca mais se preocupou com o passado.
BILHETE DO ALÉM
Edgar J. Hyde
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Hyde, Edgar J.
Bilhete do além [recurso eletrônico] / Edgar J. Hyde; traduzidopor Silvio Antunha. -Jandira,
SP: Ciranda Cultural,2021.
112p.; ePUB ; 1,3MB.–(Hora do espanto)
ISBN: 978-65-5500-721-3(Ebook)
1. Ficção juvenil I. Título. II. Série.
CDD 028.5
2021-869 CDU82-93
Elaborado por Odilio Hilario Moreira Junior-CRB-8/9949
Índices para catálogo sistemático:
1.Literatura juvenil028.5
2.Literatura juvenil82-93
© 2015 Robin K. Smith
Esta edição de Hora do Espanto foi publicada
em acordo com Books Noir Ltd.
Título original: Pen Pals
© 2015 desta edição:
Ciranda Cultural Editora e Distribuidora Ltda.
Tradução: Silvio Antunha
1ª Edição
www.cirandacultural.com.br
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Livro digital: Lucas Camargo e Gabriela Fazoli
Sumário
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 1
– Natasha Morris, será que poderia dizer para mim e para o resto da classe o que há de tão interessante lá fora?
Com um sobressalto, Natasha se virou para a professora.
– Desculpe, professora Daisy, eu estava pensando… – a voz de Natasha sumiu.
Ela não conseguia pensar numa desculpa nem podia dizer a verdade: que aquela aula interminável de História era entediante e sem sentido! Afinal de contas, a aula de História não deveria ser sobre Henrique VIII e suas seis esposas, divórcio e decapitações sangrentas? Em vez disso, ela tinha que ficar sentada duas horas ouvindo sobre a Mesopotâmia! Mesopotâmia… Quem se interessava por isso?
– Não precisa. Não quero uma desculpa esfarrapada, apenas faça o favor de prestar atenção. Lembre-se que vou dar prova na semana que vem, e posso muito bem elaborar uma questão sobre a Mesopotâmia!
A professora Daisy olhou para o resto da classe:
– Então, onde estávamos? – a voz ressoava sem parar.
Olívia virou-se e sorriu para Natasha, sem graça. As duas eram melhores amigas desde os 4 anos de idade, quando estudaram na mesma creche. Agora, elas estavam no oitavo ano, desfrutando a adolescência, carregando livros de uma aula para outra pelos enormes corredores, sempre rindo porque se perdiam e chegavam vermelhas e sem fôlego à aula seguinte. Elas também tinham feito novas amigas, como a Elis, que tinha cabelos escuros e encaracolados e grandes olhos castanhos. Como Natasha invejava a beleza dela! Tinha também a Márcia, embora Natasha ainda não tivesse uma opinião formada a respeito dela, que era completamente o oposto de Elis: branquinha, loira, de cabelos compridos e lisos, e muito tranquila.
“Pelo menos ela tem orgulho de ter a pele tão clara” – pensou Natasha.
Às pressas, ela rabiscou um bilhetinho: “Encontro você às quatro, do lado de fora da biblioteca” e passou para Olívia, sem a professora perceber. Olívia rapidamente empurrou o bilhete para dentro do caderno e fingiu não ter recebido nada.
Natasha olhou para o relógio: dez para as quatro. Onde Olívia estava? Naquele momento, ela viu Olívia, Márcia e Elis, que vinham apressadas pelo longo caminho da frente da escola.
– Vocês demoraram – ela sorriu quando as três garotas pararam ao lado dela.
– Desculpe, Natasha, foi minha culpa – disse Elis. – Deixei o meu batom novo no banheiro e voltei para pegá-lo. Afinal, é sempre bom estar preparada, caso eu encontre alguém interessante no caminho.
Elis adorava experimentar batons e sombras, estava sempre à procura de amostras grátis. Toda tarde, ela voltava para a aula encharcada de perfume, pois passava a maior parte do intervalo na loja de perfume mais próxima!
– Você deveria experimentar um batom, Márcia. Veja, este é um cor-de-rosa claro, faria um contraste muito bonito com a cor da sua pele.
– Ah, não – disse Márcia. – A minha mãe teria um ataque! Ela diz que ainda vou ter muito tempo para usar essa “porcaria”, como ela chama, no rosto. De qualquer forma, prefiro guardar o meu dinheiro para coisas importantes. Vou comprar CDs novos no fim de semana. Pelo menos eles não se desgastam tanto quanto a sua maquiagem!
– Ei, Elis – alguém gritou atrás delas. As garotas se viraram e viram Scott Gregson quase na frente delas. Ele era o menino mais bonito da escola, e todas as meninas, todas mesmo, estavam de olho nele. – Está indo para casa? Posso acompanhá-la?
Elis sorriu.
– Viram o que a “porcaria” no rosto faz, garotas? – ela murmurou. – Claro, Scott. Eu só estava me despedindo das meninas. Até amanhã, gente.
E lá se foi ela, com os lábios cor-de-rosa brilhando, os cachos escuros ao vento e a mochila pendurada casualmente no ombro.
– Vocês não queriam ter a confiança dela? – suspirou Olívia.
– Sim, e também o cabelo, os dentes e os olhos dela – respondeu Natasha. – Não importa, “explore bem o que você tem de melhor”, é o que a minha mãe sempre diz. Agora vamos ver, o que nós três temos de melhor?
E as três começaram a voltar para casa. Elas riam juntas, escolhendo as partes que achavam que cada uma tinha de melhor.
– Certo, Natasha – disse Olívia. – Você me dá a sua cintura fina, a Márcia pode me dar seus pés perfeitos, eu posso pintar as unhas para deixar minhas mãos lindas. E pronto, é só colocar uma peruca, e teremos uma Barbie perfeita!
E a conversa continuou assim até as garotas quase chegarem em casa.
– Ah! Natasha – Olívia começou a falar –, da próxima vez que escrever um bilhete para mim na aula, não precisa colocar o meu nome completo nele. Eu sei quem eu sou!
Natasha olhou para Olívia, intrigada:
– Eu não escrevi o seu nome completo. Não escrevi nem o seu primeiro nome!
– Escreveu sim – Olívia riu, procurando o bilhete nos bolsos do casaco. – Você escreveu: “Olívia Goulden, encontro você às quatro, do lado de fora da biblioteca”. Caramba, não consigo encontrar o bilhete… Ah! Achei!
Elas tinham acabado de chegar à casa de Márcia, e Olívia tinha esvaziado a mochila na calçada. Ela mostrou para Natasha o bilhete rabiscado às pressas e, com certeza, o nome de Olívia estava escrito logo acima do recado de Natasha.
– Muito estranho, Olívia, não lembro de ter escrito isso. Nem parece a minha letra!
– Márcia, onde você estava? – as garotas ouviram a mãe de Márcia gritar da janela do andar de cima.
– Tenho que ir, meninas. Minha mãe quer que eu vá ao supermercado com ela hoje. Até amanhã.
– Claro! Tchau, Márcia – as duas garotas se despediram enquanto ela desaparecia pela porta da frente.
Natasha ainda olhava para o bilhete.
– Qual é, Natasha, pare de fazer graça. Se você passou o bilhete direto para mim e eu não coloquei o meu nome nele, quem colocou? – Olívia protestou. – De qualquer forma, preciso ir também. Esta noite vou ser babá dos gêmeos da dona Norma e quero fazer a lição de casa antes de ir. Até amanhã.
– Tudo bem – suspirou Natasha –, mas eu ainda não entendo.
Elas se separaram no fim da rua, e Olívia seguiu pela rua à esquerda, em direção à casa dela.
“Estranho” – Natasha pensou. Ela devia estar num estado de tédio maior do que imaginava naquela manhã. Como poderia escrever o nome de alguém e não lembrar?
– Suzanna Craigson – ela leu em voz alta numa lápide do cemitério.
Ela tinha que passar pelo cemitério todos os dias no caminho de ida e volta da escola. Embora nunca ficasse à vontade com isso, ela achava que a melhor maneira de contornar a situação era inventar histórias a respeito das pessoas que jaziam embaixo das muitas fileiras de túmulos. Assim, ela conseguia espantar o medo que o lugar lhe causava.
– Nascida em 2 de novembro de 1906, foi cruelmente tirada de seus amados pais em 1º de novembro de 1920.
Natasha nunca tinha reparado naquela lápide em particular. Ou talvez jamais tivesse percebido como Suzanna era jovem quando morreu.
“Ela era um ano mais velha do que eu” – ela pensou. “Gostaria de saber o que aconteceu com ela.”
O uso da palavra “cruelmente” parecia indicar assassinato ou alguma coisa sangrenta e terrível.
– É melhor parar de ficar pensando nisso – ela decidiu. – A mamãe sempre diz que a minha imaginação é muito fértil, e que vou entrar em apuros um dia desses.
– Lá vem a gorducha, lá vem a gorducha.
A cantiga do irmão caçula logo a despertou do devaneio.
– Venha cá, Tommy, seu pirralho – ela riu, correndo atrás do irmão sapeca de apenas 3 anos até o quintal. – Vou mostrar para você quem é a gorducha.
Ela agarrou o pequenino pela cintura e o abraçou forte, levantando-o do chão. Deu um beijo estalado nele e ficou coberta de uma substância verde pegajosa.
– O que você estava comendo? – ela sorriu.
– Monstros gosmentos! – ele disse e mostrou um pacote vazio.
– Tripas Verdes Pegajosas – ela leu em voz alta. – Feitas de gelatina, muito açúcar e cheias de aditivos. Os seus dentes vão cair – e cutucou a barriga dele, brincando.
– Não ligo para os dentes – ele respondeu. – Gosto de monstros gosmentos!
Enquanto entrava no quarto para se trocar, Natasha se lembrou de uma música que sua mãe cantava para ela quando era pequena. Açúcar, perfumes e coisas finas, claro; rãs, caracóis e rabinhos pequeninos, ou algo assim. Tommy era assim mesmo. Mas ela adorava cada pedacinho dele. Será que Suzanna Craigson teve um irmão?
Capítulo 2
Na manhã seguinte, Natasha não conseguia acreditar que elas estavam jogando hóquei sobre grama nas piores condições que ela já tinha visto. Tinha chovido sem parar desde a noite anterior, então o campo estava um lamaçal só! Mesmo assim, Betty, a professora de Educação Física, tinha insistido para que elas vestissem os uniformes.
– Vamos lá, garotas, um pouco de chuva não faz mal a ninguém!
Por isso, lá estavam elas, tentando desesperadamente acertar a bola no gol das adversárias. Mas elas geralmente acabavam estateladas no chão, com tacos e pernas voando para todos os lados, menos para o lado certo! Márcia se aproximou discretamente de Olívia no campo. As duas detestavam esportes, por isso tentavam parecer pequenas e insignificantes para que a professora não reparasse que elas não estavam participando do jogo!
– Estão tentando escapar, não é? – a professora cochichou para as duas.
Olívia levantou os olhos para o céu:
– Estou tão molhada e suja que vou ter que ficar de molho numa banheira com água quente e espuma por pelo menos três horas!
Natasha riu. No mesmo momento, uma garota do outro lado do campo começou a correr em direção a elas. Ela se aproximou, e Natasha percebeu que a garota era Elis, usando uma faixa laranja e verde novinha na cabeça. Elis levantou o taco e bateu na bola com toda a sua força.
A bola parecia ir em direção a Olívia. Natasha avançou para pegá-la, mas, para sua surpresa, Márcia entrou na sua frente. Márcia deu uma batida na bola, mas, calculando mal as condições do chão, inclinou-se demais para a frente e escorregou na lama. Ela deslizou por uma certa distância, girando até ficar virada para o lado oposto. Com a força da queda, o taco se soltou de sua mão e voou na direção das meninas. Natasha agarrou Olívia.
– Rápido, Olívia, abaixe-se! – ela gritou, e as duas se deitaram na terra, à espera do baque fatídico.
O taco caiu bem ao lado do pé direito de Natasha, quase no local exato onde Olívia estava alguns segundos antes. Por pouco não atingiu as duas. A professora Betty saiu correndo pelo campo, com os cabelos pingando, os olhos arregalados de horror, sem saber se alguém havia se machucado.
– Natasha, Olívia, vocês estão bem? Nossa, ainda bem! – ela disse quando as garotas se levantaram com o rosto cheio de lama e os shorts e as camisetas sujos e encharcados. – Vão para o vestiário e tomem uma ducha quente. Eu cuido da Márcia.
Márcia também se levantou.
– Desculpe, Olívia, professora, eu só estava tentando bloquear…
Ela começou a chorar, com as bochechas mais pálidas do que o normal.
– Vá para o vestiário, Márcia – disse a professora Betty. – Siga as meninas e tome uma ducha quente também. Vejo vocês em alguns minutos.
A professora Betty gentilmente conduziu as garotas para dentro da escola e voltou correndo para o campo.
Então, ela olhou o relógio: faltavam apenas dez minutos para o fim da aula. Ela ia deixar as três garotas ficarem um tempo no vestiário antes de levar o resto da classe para se limpar. A professora apitou para as garotas reiniciarem o jogo, e deixou escapar um suspiro de alívio, pois não teria que aplicar o que tinha aprendido no curso de primeiros socorros.
Betty olhou ao redor para ver aonde Elis tinha ido. A aluna não tinha a intenção de machucar ninguém. A professora sabia disso, mas tinha certeza de que Elis estava preocupada com Olívia.
Por fim, Betty avistou Elis parada na lateral do campo, sozinha. Que atitude estranha. A professora balançou a cabeça. Achava que Olívia e Elis fossem amigas, mas talvez estivesse enganada. Tentou sacudir um pouco da água do cabelo e correu para o campo, para garantir que mais nenhum acidente acontecesse!
Elis contemplava os tênis novos. Achou que o detalhe verde, nas laterais, combinava muito com sua faixa nova.
Márcia estava se enxugando depois do banho quente. A garota tremia só de pensar no que quase tinha acontecido.
– Eu sinto muito mesmo, Olívia – ela continuava a repetir. – Eu só estava tentando bloquear a tacada. Eu percebi que a Elis ia bater reto, quer dizer, não que ela quisesse acertar você, mas parecia que ela ia… Ah, não sei mais o que estou querendo dizer. Desculpe.
Olívia abraçou a garota chorosa.
– Márcia, eu agradeço muito o que você fez lá fora. O taco não me acertou, mas não sei como você conseguiu errar! – ela piscou para Natasha. – Mas o importante é que ninguém se machucou, e sou eternamente grata a você por ter me tirado daquele campo frio e molhado e me trazido para o chuveiro quente. Por isso, chega de choro, ok?
Márcia sorriu.
– Tudo bem, então. Obrigada por me perdoar.
– Ei, não era você que detestava hóquei? – Natasha brincou. – Mas lá estava você, mergulhando na frente das pessoas, dando tacadas com a maior empolgação do mundo… Uma ótima atleta, hein? Isso só mostra o que os amigos são capazes de fazer pela gente. Sorte sua, Olívia.
Márcia ficou um pouco apreensiva, mas percebeu que Natasha estava fazendo um elogio sincero e ficou bem mais tranquila.
– Vamos nos trocar e sair daqui – disse Olívia. – Antes que o resto da classe chegue e a gente fique presa no tumulto. E lembrem-se que hoje temos que pegar as nossas fotos da turma. Mal posso esperar para ver como estamos horrorosas e quem tem mais espinhas!
Capítulo 3
Márcia se ofereceu para pegar as fotos e entrou na fila do lado de fora da diretoria. Elis estava duas meninas à frente dela.
– Ei, Márcia, como você está? – Elis sorriu. – Que espetáculo hoje de manhã!
– Estou bem – Márcia respondeu. – Você também deve ter ficado em choque quando percebeu em que direção a bola estava indo.
– Próxima! – disse alguém de dentro da sala da diretora.
Elis deu um passo à frente.
– Até mais tarde, Márcia – ela falou, depois de pegar a foto e voltar para o corredor.
Márcia suspirou. Por que ela estava se sentindo tão culpada pelo incidente quando Elis, que teve a maior parcela de culpa, parecia não dar a mínima para o caso? Talvez fosse isso mesmo o que acontecia com garotas que viviam cercada por meninos: jogos de hóquei se tornavam insignificantes na sua vida e batons de longa duração eram mais importantes. Ela se perguntava se um dia se sentiria assim, mas não parava de imaginar se algum menino um dia se interessaria por ela. Talvez ela devesse pintar o cabelo.
Ela entregou o pequeno envelope para Natasha.
– Entreguei o da Olívia para ela – Márcia disse quase sem fôlego de tanto correr. – Ela disse que vai encontrar você na classe. Tenho duas aulas de Geografia, então até mais tarde.
– Obrigada, Márcia! Até mais.
Natasha enfiou a foto na mochila. Teria mais tempo para examiná-la depois. Foi para a aula de Francês do professor Jenkins e, como sempre, se sentou perto de Olívia. Natasha gostava de Francês, ainda mais porque o professor Jenkins era bem atraente. Ela podia ouvir o sotaque quase perfeito de seu lindíssimo professor e olhar para ele durante duas aulas, todos os dias, sem adormecer uma única vez! Ela sorriu para Olívia e abriu sua apostila.
Um pouco antes das quatro, Natasha se lembrou que, quando ela estava semiacordada, sua mãe tinha pedido para ela passar na lavanderia de manhã.
Ela teria que correr até a cidade se quisesse chegar antes de a loja fechar. Esperava que Olívia se lembrasse de que elas tinham planos para aquela noite, e escreveu um bilhete, só para constar. O sinal tocou, Natasha saltou da cadeira e colocou o bilhete na mão de Olívia.
– Preciso ir – ela disse. –Até mais tarde.
Olívia apertou o bilhete tentando não derrubar os livros, as canetas e a mochila e viu Natasha sair da sala de aula.
“Aonde ela vai com tanta pressa?” – Olívia pensou. “Hoje à noite eu descubro, eu acho.”
– Foi à lavanderia? – a mãe gritou, quando a porta da frente bateu.
– Sim, mãe, não esqueci – Natasha gritou em resposta, soltando um suspiro de alívio por ter lembrado a tempo!
Ela deu um beijinho rápido no rosto sonolento de Tommy quando passou pelo quarto dele. Ele brincava tanto que sempre precisava de uma soneca à tarde. Natasha foi para o quarto para trocar aquele uniforme horrível. A garota vestiu calça e camiseta de corrida e se atirou na cama, com as mãos atrás da cabeça.
“Acho melhor ver se tenho lição de casa para fazer, pois provavelmente não vou querer fazer nada mais tarde” – ela pensou, pegando a mochila.
Natasha remexeu na mochila e viu a foto de classe esquecida.
– Ah, a foto! – ela sorriu. – Pelo menos, os anos anteriores servem para alguma coisa: dar boas risadas.
Ela rasgou o celofane e procurou seu rosto em meio a tantos outros. Lá estava ela, com o cabelo desarrumado preso atrás das orelhas, com algumas mechas escapando dos lados. Ela nunca conseguia deixar o cabelo minimamente arrumado, com exceção da vez em que sua mãe a levou ao salão de beleza para fazer um penteado para uma dança que ela faria na escola. Ele ficou lindo, mas até a própria cabeleireira teve dificuldades de mantê-lo sob controle. Entretanto, ela usou tanto spray nele, que Natasha achou melhor que o cabelo parecesse rebelde do que preso com um coque!
Ela olhou de novo para a foto. Lá estavam Elis e Olívia em pé, juntas, e Márcia na fila da frente. Como ela era menor que as outras, o fotógrafo tinha sugerido que seria melhor se ela ficasse na frente. Márcia havia dito que queria ter usado seus novos sapatos de plataforma, para não ficar separada de suas amigas. Paul riu e disse que a posição dela em uma simples foto não mudaria em nada a amizade delas! Elis riu também, mas sorriu muito mais para o fotógrafo. Ela era muito fotogênica. Bastava ver a maneira como ela olhava para a câmera.
Natasha examinou o resto da fotografia rapidamente. Seus olhos foram parar no lado direito da fila de trás. Uma garota pequena e muito bonita aparecia ligeiramente separada das outras, sem olhar para a câmera.
“Mas quem é essa?” – pensou Natasha.
Ela nunca tinha visto a garota antes. Será que era uma aluna de outra classe que tinha sido colocada na turma delas no último minuto? Ela não se lembrava de ter visto nenhuma menina sendo apresentada. Provavelmente, era nova na escola. Porém, alunas novas sempre despertavam tanto interesse que ela com certeza teria se lembrado do fato. Quem era ela? Olívia certamente saberia. Natasha olhou para o relógio: eram só cinco e meia. Elas tinham combinado de se encontrar na casa de Natasha às sete da noite para discutirem as fantasias do Baile de Dia das Bruxas de sexta-feira. Natasha queria ir de Cleópatra, e sua mãe havia prometido ajudá-la a fazer o penteado. Seria também uma boa desculpa para colocar um monte de maquiagem e usar joias até a metade dos braços! Ela colocou a foto em cima do rádio e desceu para ver o que tinha para o lanche.
Capítulo 4
Olívia leu o bilhete de novo.
“Vejo você às sete no cemitério. Procure a lápide de Suzanna Craigson.”
Olívia ficou totalmente intrigada com o bilhete. Ela achou que as duas fossem discutir fantasias, e não passar uma noite sinistra no cemitério! Isso não era nada típico de Natasha também; ela não era corajosa quando o assunto tinha algo a ver com sepulturas e igrejas antigas, principalmente às sete da noite, quando começava a escurecer.
Ela suspirou e guardou o bilhete no bolso do casaco. Depois de ajudar a mãe a lavar a louça do jantar, ela se trocou e foi encontrar a amiga. Sem dúvida, tudo seria esclarecido quando ela encontrasse Natasha.
Sete e cinco. Natasha estava atrasada. Olívia encontrou a lápide facilmente, já que esta ficava quase na entrada do cemitério e podia ser vista claramente da rua. Olívia ficou contente por ter colocado um casaco pesado, pois começou a esfriar muito. Ela levantou a gola e afundou as mãos nos bolsos.
Sete e dez.
– Olívia – ela ouviu. Ela olhou para trás e viu um vulto vindo do portão do cemitério.
– Depressa, Natasha – ela disse. – O que você estava fazendo aí dentro?
Em uma fração de segundo, assim que chamou Natasha, Olívia percebeu que a pessoa não era de fato Natasha. A pessoa que vinha em direção a ela era menor e mais magra que a amiga, e estava mancando. Olívia tentou observar melhor a garota, mas a noite começou a cair e ela quase não conseguia analisar as feições daquele rosto. Quando a garota se aproximou, com lentidão e dificuldade, Olívia percebeu que ela tinha cabelo comprido quase dourado, enrolado em cachos que moldavam seu rosto e caíam em forma de cascata nas costas. Ela parecia estar angustiada.
– Você está bem? – Olívia arriscou.
A última coisa que ela queria fazer era estar ali oferecendo ajuda. Por alguma razão, a garota que estava se aproximando a assustava. Olívia se sacudiu.
“Não seja boba” – ela pensou. – “Você só está assim porque está perto de um cemitério, está anoitecendo e as árvores estão fazendo sombras escuras.”
Mas essa pequena autocensura só serviu para fazê-la se sentir pior, e ela desejava que Natasha chegasse logo. Um pouco de apoio moral seria bom!
A garota parou quase em frente a Olívia, que reparou na roupa estranha que ela usava. O vestido era longo, com babados nos punhos. Também usava um gorro do mesmo estilo na cabeça. Calçava um sapato especial esquisito, feito sob medida, no pé direito, justamente o pé que ela parecia arrastar quando caminhava.
Ela olhou diretamente para Olívia, que percebeu pela primeira vez que a garota tinha uma característica quase etérea: sua pele era tão pálida que quase chegava a ser transparente. Seus olhos pareciam estar cheios de lágrimas.
– Você é Olívia Goulden? – a menina sussurrou. – Preciso encontrá-la, por favor! Ela está correndo perigo, preciso avisá-la!
Ela estendeu a mão como se quisesse pegar na mão de Olívia, mas não houve nenhum toque. A mão da garota apenas pareceu atravessar a mão de Olívia, causando uma sensação de vento frio, que lhe gelou a própria alma.
Olívia estava literalmente congelada de medo. Sentia tanto frio que seus dentes começaram a tremer e ela só conseguia pensar em cair fora dali.
– Por favor, você precisa me ouvir – a garota disse de novo. Foi nessa hora que Olívia descongelou. De repente, ela virou, desviando-se da garota de cabelo claro, e correu como nunca havia corrido. Durante o percurso, ela tropeçou algumas vezes em buracos na calçada, até finalmente ver ao longe a casa calorosa e acolhedora de Natasha.
Ela nem sequer bateu à porta, apenas entrou e correu direto para o quarto de Natasha no andar de cima, empurrando Natasha, que estava no caminho e queria descobrir que confusão era aquela.
– Olívia, mas o que é isso?
Olívia parou de um lado da janela e abriu a cortina.
– Apague a luz! – ela instruiu Natasha.
– Não até você me dizer o que está acontecendo – Natasha respondeu.
– Apague a droga da luz! – Olívia gritou. – Ou eu mesma apago.
– Tudo bem, tudo bem – respondeu Natasha, pulando para desligar o interruptor. – Fale baixo, senão vai acordar o Tommy.
Natasha se juntou a Olívia para olhar pela janela do quarto, embora não soubesse o que deveria procurar.
– Veja, lá está ela! – Olívia indicou, quase histérica.
Natasha olhou pela janela e viu Márcia chegando.
– É a Márcia – disse Natasha. – Ela ligou aqui logo depois das seis para perguntar se poderia vir ajudar com as nossas fantasias. O que tem de errado nisso?
Foi então que ela percebeu que as mãos, e praticamente todo o corpo de Olívia, tremiam.
– Olívia, você precisa se acalmar e me dizer o que aconteceu lá fora. Não faço ideia do que está acontecendo. Venha, sente-se na cama comigo.
Olívia se deixou levar até a cama, e na mesma hora se sentou e rompeu em lágrimas. Márcia chegou e bateu à porta. Tommy acordou e começou a chorar. A senhora Morris atendeu a porta e Márcia entrou.
– Faça um favor para mim, querida – ela disse. – Esquente um pouco de leite para o Tommy. Ele gosta de tomar leite quente quando acorda a esta hora. Vou buscá-lo.
– Claro, senhora Morris – concordou Márcia, que adorava gorduchinhos como Tommy e que não se importou de ajudar a cuidar dele antes de se reunir com as amigas no andar de cima.
Enquanto isso, Olívia tinha acabado de contar sua história para a amiga.
– Mas o que você estava fazendo no cemitério? – perguntou Natasha.
Olívia olhou para Natasha, chocada.
– Você me disse para nos encontrarmos lá, no seu bilhete – ela respondeu.
– Qual bilhete? Aquele que eu passei para você na aula de Francês?
“Essa não, de novo não” – pensou Natasha. Será que ela estava ficando maluca?
– Posso ver o bilhete, Olívia? Eu não pedi para você me encontrar no cemitério, não mesmo. Deixe-me ver o bilhete, por favor.
Olívia tirou o bilhete amassado do bolso do casaco e o entregou à amiga. Com certeza, o bilhete confirmava o que Olívia havia dito. Só que, para Natasha, foi ainda mais assustador.
– Vejo você às sete no cemitério. Procure a lápide de Suzanna Craigson.
Suzanna Craigson! O túmulo que Natasha havia visto pela primeira vez no outro dia.
Natasha balançou a cabeça, desacreditada.
– Não tenho ideia do que aconteceu, Olívia, juro. Eu não escrevi “no cemitério” nesse bilhete. Só escrevi: “Vejo você às sete”. Você sabe como me sinto a respeito de sepulturas e coisas assim… Sem chance de eu ter pedido para você me esperar lá! – ela respirou fundo. – Não sei o que fazer, Olívia. Você acredita em mim, não é? – ela olhou para a amiga.
Olívia levantou os olhos manchados de lágrimas.
– Acredito, mas só porque você é você, e porque eu a conheço há tempo o suficiente para saber que você nunca me assustaria intencionalmente. Mas isso ainda não resolve a questão. O que está acontecendo? Primeiro, o meu nome completo apareceu escrito em um bilhete. Depois, surgiram palavras novas no segundo bilhete. E agora isso, essa menina lá fora a esta hora… – Olívia começou a tremer de novo.
– É melhor nos recuperarmos antes que a Márcia suba. Não vamos querer assustá-la com alguma história incompleta sobre bilhetes e aparições fantasmagóricas – disse Natasha.
– História incompleta? – Olívia protestou.
– Sim, sei o que você viu e acredito em você – disse Natasha. – Mas será que alguém vai acreditar? Sinceramente, é melhor mantermos tudo isso em segredo até sabermos exatamente o que está acontecendo.
– Então, qual será a fantasia da Elis na festa? – Márcia perguntou enquanto colava mais lantejoulas com a maior habilidade no vestido de Olívia, que tinha decidido ir fantasiada de personagem de filme de gângster.
Ela adorava filmes antigos e tinha acabado de assistir a uma temporada de filmes de gângsteres em que todas as mulheres usavam vestidos com lantejoulas, estolas de pele e toneladas de batom vermelho brilhante!
– Não sei, ela não comentou nada – respondeu Olívia.
– Nem pensem que vai ser alguma coisa sem charme. Conseguem imaginar a Elis fazendo algo sem charme? – Natasha sorriu. – Bem, nós vamos bem-vestidas para o evento, não é, meninas?
Ela olhou para Márcia.
– Quem você vai ser, Márcia? Ei, se você ainda não escolheu, que tal ir vestida de Al Capone? Aquele gângster malvado de Chicago. Você pode ser o par da Olívia. Posso pegar os suspensórios do meu pai para você. Você pode pegar um estojo de violino emprestado e fingir que é uma metralhadora. Márcia, ouviu alguma palavra do que eu disse?
Ela olhou para a amiga, que continuava sentada, cabisbaixa, colando lantejoulas no vestido de Olívia.
– Sim, Natasha, ouvi tudo – ela respondeu. – Obrigada, mas a minha mãe disse que acharia uma fantasia para mim, algo que tenha a ver com uma tradição de família.
Márcia abaixou a cabeça de novo e voltou à sua tarefa.
Natasha e Olívia trocaram olhares, mas não disseram nada. Às vezes elas se perguntavam sobre a família de Márcia, que parecia ter uma educação muito rigorosa. Talvez porque era filha única, elas achavam. De qualquer forma, era melhor não dizer nada.
Olívia atirou um cinto de couro enrolado para Natasha.
– Isso é para você, Natasha. É uma cobra, lembra? Cleópatra precisa de uma serpente.
Natasha deu um berro.
– Tire isso de perto de mim, Olívia. Eu não vou enrolar uma cobra em mim de jeito nenhum!
A porta do quarto de Natasha abriu e revelou a senhora Morris parada no corredor.
– Se vocês acordarem o Tommy de novo, não vão ao Baile de Dia das Bruxas – ela ameaçou. – Então, falem mais baixo, por favor.
Capítulo 5
No dia seguinte, Natasha, Olívia e Elis estavam conversando no pátio da escola.
– Continua saindo com o Scott, Elis? – Olívia perguntou.
– Sim, fomos ao cinema ontem à noite. Vimos um filme muito assustador. Aquele dos zumbis no shopping, sabem?
– Zumbis? Vocês ficaram loucos? – Natasha riu. – Achei que namorados assistiam a filmes românticos e se sentavam na última fila!
Elis também riu.
– Eu sei. Acho que o Scott e eu não somos um casal romântico. Prefiro ver um bom filme de terror a ficar beijando alguém na fila do fundo. Olívia, está tudo bem?
Olívia tinha se afastado das duas garotas e observava Márcia, que caminhava lentamente em direção a elas. Só que ela não estava andando normalmente, ela vinha mancando e arrastando a perna.
– O que houve com a sua perna? – ela balbuciou.
Márcia passou ao lado das garotas.
– Levei um tombo no chuveiro ontem, escorreguei no chão molhado – ela comentou. – Preciso ir. Tenho Estudos Sociais na primeira aula, e vocês sabem que o professor Andrew gosta de pontualidade.
– Tchau, Márcia – as garotas gritaram enquanto viam a amiga desaparecer pelos degraus de pedra e entrar pela porta da frente do colégio.
– Também preciso ir – disse Elis. – Vejo vocês na hora do almoço.
– Tchau, Elis. Olívia, está tudo bem com você? – Natasha perguntou à amiga.
Olívia se recompôs.
– Sim, estou ótima, Natasha. É que a cor do cabelo da Márcia e o fato de ela mancar me fizeram lembrar…
– Está tudo bem, Olívia, já sei de quem você se lembrou. Suzanna Craigson também não sai da minha cabeça, embora eu me esforce para não pensar nela.
No mesmo momento, o sinal tocou, e as garotas se lembraram da aula.
– Vamos! – Natasha pegou no braço da amiga. – Conversamos mais sobre isso no intervalo.
A hora do intervalo demorou para chegar. Natasha passou as duas primeiras aulas enfeitando a capa de sua apostila com desenhos de olhos de Cleópatra: com delineador preto e cílios dourados, com delineador verde e cílios azuis, com delineador prata e cílios dourados! Ela ainda estava pensando se devia ou não pintar as unhas de duas cores diferentes quando foi surpreendida pelo sinal. Enfiou os livros na mochila e se deparou com a foto que ela havia guardado para perguntar a Olívia quem era a garota misteriosa.
Ela se juntou a Olívia na fila da cantina.
– Dê uma olhada nisso! – Natasha tirou a foto de dentro da mochila e mostrou para Olívia. – Percebe algo estranho?
Olívia examinou a foto.
– Meu Deus, é ela! Natasha, é ela, a garota do cemitério, essa à direita no alto da foto – ela virou-se para Natasha. – Não entendo. O que está acontecendo aqui?
As pessoas começaram a olhar para as duas.
– Xiu, Olívia – Natasha pegou de novo no braço da amiga e a levou para longe da fila, em direção ao banheiro.
– Como assim, é ela? Não acredito – disse Natasha. – Você quer dizer que a garota da foto é Suzanna Craigson?
Olívia não estava mais ouvindo. Começou a vasculhar sua mochila.
– Aqui está! – ela disse, triunfante, quando pegou sua cópia da foto da classe. Retirou o celofane e mostrou a foto para Natasha.
– Olhe! – ela gritou. – Ela não está na minha foto… Não tem nada estranho na minha. Quem adulterou a sua? Nada disso faz sentido. Quem desenharia um rosto na sua foto? Quem é essa Suzanna Craigson? – ela começou a chorar.
Natasha pegou a foto de Olívia e a examinou atentamente. Com certeza as garotas da última fila eram todas colegas de classe, conhecidas delas, e não havia sinal da bela garota loira e magra no canto direito superior da foto.
– Não sei responder a nenhuma dessas perguntas, Olívia, mas quero esclarecer isso tanto quanto você. Vamos descobrir quem é essa Suzanna Craigson muito em breve. Não precisa chorar. Está tudo bem agora.
Olívia enxugou os olhos com a manga do casaco. Natasha segurou as duas fotografias nas mãos. Ela procurou manter a calma, pelo bem de Olívia, e pelo bem dela mesma. Ela virou as fotos e, ao ler os nomes, percebeu que as fotos estavam trocadas. Márcia devia ter misturado os envelopes quando os pegou no dia anterior.
– Olívia, parece que você estava com a minha cópia. Veja, o seu nome está na minha foto – e ela mostrou o verso das fotografias para a garota. – Mas isso não importa.
– Importa sim – Olívia retrucou. – Você não entende? Suzanna disse que tinha que falar comigo, que eu estava em perigo. De alguma forma, parece que ela está tentando entrar em contato comigo, acrescentando coisas nos bilhetes, aparecendo no cemitério, e agora aparecendo na minha foto! Não sei se consigo aguentar mais!
Olívia estava extremamente pálida. Natasha tentou tranquilizá-la.
– Vamos – Natasha disse, com firmeza. – Temos mais duas aulas. No intervalo, amiga, nós vamos à biblioteca.
– Mas no intervalo vamos encontrar a Elis, e provavelmente a Márcia.
– Droga! Bem, então teremos que esperar até as quatro da tarde. E nada de bilhetes – ela sorriu. – A partir de agora, vamos combinar nossos planos cara a cara!
– Mas por que na biblioteca? – perguntou Olívia, intrigada.
– Porque é lá que estão guardados os jornais antigos com as coisas interessantes que aconteceram na cidade nos últimos 100 anos ou mais. Se alguma dessas coisas tiver qualquer relação com Suzanna Craigson, nós vamos descobrir.
Olívia se arrepiou. Ainda bem que Natasha era corajosa e sensível, ou pelo menos fingia ser, porque Olívia não estava lidando nada bem com aquela situação. Natasha colocou as fotografias na mochila enquanto as garotas seguiam para a próxima aula. Nem ela nem Olívia perceberam que a garota no canto da foto de Olívia havia desaparecido completamente.
A senhora Florence olhou para as garotas por cima da armação de seus óculos.
– Que estranho ver vocês duas na biblioteca depois da aula – ela afirmou.
Natasha suspirou.
– Eu sei, senhora Florence, mas resolvemos participar de um projeto sobre a vida na década de 1900 aqui em nossa cidadezinha, e acreditamos que a melhor pessoa para nos ajudar seja a senhora. Não que eu esteja dizendo que a senhora é velha, nada disso! – ela continuou. – Mas talvez a senhora possa nos indicar alguns recortes de jornais, livros de história, fotos antigas, entre outras coisas, que auxiliem em nossa pesquisa. A senhora me entendeu.
A bibliotecária aparentemente fria, mas de bom coração, deu um pequeno sorriso.
– Por aqui, meninas – ela levou-as em direção à estreita escada em espiral da antiga biblioteca. – Apressem-se, antes que outros caçadores de conhecimento venham em busca de assistência.
As garotas nunca tinham ido ao andar de cima da biblioteca. Afinal, aquele não era um dos locais preferidos delas. Elas sempre encontravam coisas mais divertidas para fazer durante o horário escolar, pelo menos até então!
– Os livros que estão no alto à esquerda são sobre a história da atual Chalmersville. Nas prateleiras de baixo, existem pastas com jornais antigos, em ordem cronológica. Se forem mexer, coloquem tudo de volta na ordem correta! – ela acrescentou antes de voltar à recepção. – Se precisarem de ajuda, vocês vão ter que descer. Não posso deixar a recepção vazia, pois pode chegar alguém.
As palavras dela foram sumindo à medida que as garotas iam para a parte superior da velha biblioteca.
Natasha e Olívia trocaram olhares.
– Chegar alguém? – Natasha ergueu as sobrancelhas. – Quando foi a última vez que você viu uma fila do lado de fora da biblioteca?
Olívia riu.
– Xiiiu, ela pode escutar, e podemos precisar da ajuda dela mais tarde. Nunca se sabe.
– Ela não vai nos ouvir – retrucou Natasha. – Escute. Ela está carimbando! Ela adora usar o carimbo de “atrasado” nos livros devolvidos.
As garotas então chegaram ao destino.
– Nossa! Que cheiro de mofo – disse Olívia ao pisar o chão empoeirado.
– Vai ficar pior ainda quando terminarmos – comentou Natasha. – Veja só a camada de poeira em cima deste livro!
Ela pegou um grande livro marrom no alto de uma prateleira de cima e o abriu sobre a mesa.
– Tudo bem, Olívia! Você começa pelos jornais. Agora vamos ver, pelo que me lembro, Suzanna viveu de novembro de 1906 a outubro de 1920. Veja se consegue encontrar algo sobre ela nos jornais. Tome, pegue um petisco – ela retirou do bolso dois pacotes de batata.
Duas horas depois, as garotas tinham feito pouco progresso. Natasha havia descoberto que o nome Craigson era relativamente novo em Chalmersville. Ou melhor, era novo dois séculos atrás. A família havia se instalado numa casa da cidade, e a descrição da casa não significava nada para as garotas. Elas concluíram que a casa não existia mais ou, se existisse, o atual proprietário teria feito tantas reformas que ela não tinha mais nenhuma semelhança com a casa descrita no livro.
– Espere – disse Olívia, empolgada. – Veja isso! “Tragédia na residência Craigson. Uma jovem foi encontrada na lagoa perto de sua casa no bairro de Gatefells depois de um incidente fatal de afogamento.”
Natasha fechou o livro e prestou atenção ao que Olívia estava lendo.
– É onde a Elis mora, Gatefells. Continue, Olívia.
– “O senhor e a senhora Craigson, que perderam a única filha, estão naturalmente abalados e pediram para não serem importunados em seu luto.”
Nesse ponto, a história parava, embora as garotas tivessem descoberto mais a respeito da família em outro artigo. Aparentemente, pouco se sabia sobre o casal, que era relativamente novo em Chalmersville. Apesar disso, o senhor Craigson se tornou rapidamente uma figura bem conhecida na comunidade por seu incansável trabalho ajudando instituições de caridade. Elas descobriram que a garota que tinha se afogado se chamava, de fato, Suzanna. Ela tinha saído sozinha de barco, apesar de ter sido avisada pelos pais em ocasiões anteriores de que deveria estar sempre acompanhada. Não havia evidências de que ela havia sido acompanhada por alguém. O artigo também dizia que ela era fraca de saúde e usava um sapato especial feito sob medida, porque tinha nascido com uma perna mais curta do que a outra. Olívia respirou fundo.
– A garota da foto e a do túmulo só podem ser a mesma pessoa, Natasha. Mas por que ela está tentando entrar em contato comigo agora? Como eu queria entender o que está acontecendo. Eu nem mesmo acreditava em fantasmas!
Natasha continuou a folhear vários jornais.
– Pelo menos, encontramos algumas informações, Olívia. Não foi um dia completamente perdido. Pelo menos sabemos que Suzanna Craigson morava numa casa em Chalmersville, que ela morreu num acidente de barco e era filha única – ela parou.
– E daí, Natasha? Desculpe, mas não sei exatamente como isso vai nos ajudar a descobrir por que ela quer entrar em contato comigo – Olívia suspirou.
– Paciência, querida, vamos resolver esse pequeno mistério em breve – Natasha disse. – Ei, você reparou nessas datas, 2 de novembro de 1906 a 1° de novembro de 1920? Isso significa que ela morreu um dia antes de fazer aniversário e um dia depois do Dia das Bruxas. Isso deve significar alguma coisa. Não pode ser coincidência. Venha, vamos sair daqui antes que nos coloquem de volta nas prateleiras com o resto das relíquias daqui! Estou tão empoeirada que não vejo a hora de chegar em casa e tomar um banho.
As duas garotas desceram a escada tirando o pó do corpo no caminho.
– Obrigada, senhora Florence – elas agradeceram à bibliotecária.
– Silêncio, meninas! – ela levou o dedo aos lábios.
– Desculpe – elas riram. – Achamos que não tivesse ninguém aqui.
Na verdade, não havia mesmo ninguém lá. E, felizmente para elas, a senhora Florence não ouviu essa última observação.
Ela as acompanhou até a porta.
– Espero que tenham colocado tudo no lugar certo, em ordem cronológica – ela se inclinou para falar com as garotas. – Tive que trabalhar bastante para organizar esses jornais – ela finalizou.
– Sim, claro, arrumamos tudo – sorriu Natasha. – E muito obrigada pela ajuda, senhora Florence. Acho que vamos ter que voltar outro dia. É muito bom saber que podemos contar com a senhora – ela bajulou.
A senhora Florence colocou uma mecha de cabelo solto atrás dos óculos.
– É sempre um prazer ver vocês – ela corou. – Até mais, garotas!
Ela fechou a porta devagar.
– Natasha! – Olívia falou, já fora da biblioteca, assim que as duas atravessaram a rua para voltarem para casa.
– Sim? – disse Natasha, distraída.
– O que quer dizer cronológica?
Capítulo 6
Olívia estava animada para o Baile de Dia das Bruxas daquela noite e sentia que a aula de Geografia não terminava nunca. Ela e Natasha estavam com as fantasias prontas e não viam a hora de chegar em casa e se vestir.
“Gostaria de saber qual fantasia a Márcia e a Elis vão usar. Talvez elas tenham contado para a Natasha e ela tenha se esquecido de me dizer, ou talvez seja um grande segredo” – Olívia refletiu.
Olívia e Natasha tinham feito um pacto para esquecerem de Suzanna Craigson só naquela noite, para irem ao Baile de Dia das Bruxas e nada mais: só o baile! O sinal tocou e todos os alunos enfiaram os livros, canetas e todos os outros materiais na mochila. Olívia encontrou Natasha fora da classe.
– Achei que a aula não acabaria nunca! – ela sorriu para a amiga.
Natasha sorriu de volta.
– Ei, Elis! – Natasha chamou.
Olívia se virou para onde Natasha estava olhando e viu Elis saindo do prédio da escola. Ela cruzou a porta e seus cachos escuros desapareceram. No entanto, ela parecia não ter ouvido o grito da amiga e acelerou o passo.
– Estranho. Eu podia jurar que ela tinha nos visto, e tenho quase certeza de que ela não estava longe o bastante para não ter me ouvido gritar – Natasha ficou intrigada por uns instantes. – Bom, sei lá. Vamos dar o fora daqui. Temos muito o que fazer antes do baile, então vamos descobrir os segredos por trás das fantasias de Márcia e Elis!
O salão da escola estava bem iluminado, não só por luzes, mas por abóboras posicionadas estrategicamente, com a parte interna removida para dar lugar a velas pequenas e grossas. Um a um, os alunos chegaram, admirando as fantasias uns dos outros, tentando adivinhar a identidade dos mascarados. O equipamento de som no palco enchia o salão com uma música alta, e faixas suspensas no teto saudavam os alunos com as palavras: “Bem-vindos ao Baile de Dia das Bruxas de Chalmersville de 1997”. Natasha tinha acabado de chegar e estava tentando arrumar a peruca ao descer do carro da mãe.
– Pelo amor de Deus, Natasha, deixe isso quieto, ou você vai acabar sem peruca nenhuma! – a mãe suspirou.
– Tchau, Cléo!
Tommy sorria no banco de trás, e seus dedinhos abriam e fechavam em sua mão gorducha quando ele acenou em despedida. Ele não conseguia pronunciar Cleópatra direito, então Natasha achou que “Cléo” era uma bela solução.
– Tchau, querido! – ela soprou um beijo e foi para a rua.
– Natasha… – a mãe começou.
– Eu sei, mãe! – ela interrompeu. – Não vou voltar tarde.
A senhora Morris sorriu ao ligar o carro e se afastar do meio-fio.
– Divirta-se, Natasha. Tchau.
Natasha acenou para Tommy enquanto ele acenava de volta da janela traseira. Então, com um último puxão na peruca, ela se juntou aos outros festeiros que entravam no salão.
– Por aqui, Natasha – ela ouviu Olívia chamar.
Ela se virou para ver a amiga, que estava com uma piteira na mão, luvas de seda, vestido de lantejoulas e um pequeno chapéu com uma pena enorme na cabeça.
– Olívia, você está incrível! – ela riu e se aproximou da amiga.
– E você também, Nat. A sua maquiagem está fantástica. Você parece uma morta reencarnada, os seus olhos estão tão escuros!
As duas garotas riram e saíram à procura das outras colegas de classe. Haveria um prêmio para a melhor fantasia, e a maioria dos alunos tinha se esforçado bastante para entrar na competição. Um gorila passou rosnando para Olívia, que riu.
– Acho que nunca saberei quem ele é. Há pelo menos seis gorilas diferentes aqui.
As garotas foram para um canto do salão, onde eram servidos refrigerantes.
– Veja, o Batman! – sorriu Natasha. – E a Mulher Gato está com ele. Olhe só o comprimento das garras dela… E eu achei que as minhas unhas postiças eram compridas!
Uma índia muito gorda parou ao lado da mesa de refrigerantes, sorrindo de vez em quando para um Elvis cheio de lantejoulas.
– Isso não é divertido? – Natasha cutucou a amiga. – Olívia, mas o que está acontecendo com você?
Olívia parecia estar numa espécie de transe, mas o olhar de medo no rosto dela dizia a Natasha que havia algo muito errado. Ela seguiu o olhar de Olívia até o outro lado do salão e logo viu o que tinha chamado a atenção da amiga. Uma garota loira e magra tinha acabado de entrar no salão. Ela estava com um vestido longo de cor creme, muito fora de moda, com babados nos punhos e na bainha. Na cabeça, ela usava um chapéu esquisito no mesmo estilo.
– Oh, meu Deus! – Natasha respirou fundo. – Não pode ser… Será?
As duas garotas ficaram paradas como se estivessem pregadas no chão. Então, Natasha sentiu um puxão no braço.
– Oi, meninas.
Natasha se virou.
– Sou eu, a Márcia.
Ela estava usando um vestido azul-claro, com um avental branco curto amarrado na cintura. No cabelo, ela tinha uma faixa, e embaixo do braço, segurava um coelho branco. Natasha tentou se recompor. Ela esperava que a garota que elas tinham visto fosse de fato Márcia. Mas, se a garota parada ao lado dela era Márcia fantasiada de Alice no País das Maravilhas, essa possibilidade estava descartada!
– Oi, Márcia! – ela disse. – Olívia… – e puxou o braço da amiga. – Veja, a Márcia não está incrível de Alice?
Olívia virou-se.
– Ah, sim, sim! – Olívia hesitou. – A sua fantasia está ótima.
Ela tentou mostrar algum entusiasmo, mas seus olhos se arrastavam de volta para o vulto esguio do outro lado do salão.
– É como eu disse a vocês: tradição de família – Márcia continuou. – Aparentemente, a minha tataratia, na verdade não sei quantas gerações se passaram, ou outra parente dessa época conheceu Lewis Carroll que, como vocês sabem, foi quem escreveu Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho. Ele baseou a personagem da irmã de Alice nela. Quer dizer, sei que ela desempenhou apenas um pequeno papel, o da irmã. Porém, depois disso, a nossa família só quer saber de Alice. Todo Dia das Bruxas aproveitamos a oportunidade para homenagear um pouco os personagens do livro. Já me fantasiei de coelho branco antes, mas a fantasia era muito quente e abafada…
A voz de Márcia começou a ressoar em segundo plano e Natasha parou de prestar atenção, assim como Olívia.
– Márcia, não quero ser grossa, mas precisamos ver uma pessoa que está do outro lado do salão. Voltaremos em um minuto, com licença.
As duas se afastaram de Márcia e se apressaram. Márcia virou-se, sentindo-se um pouco ofendida, e mancou em direção à mesa de refrigerantes. Quando Natasha e Olívia se aproximaram, a bela garota loira virou-se em direção a elas com um sorriso nos lábios.
– Oi, Natasha, Olívia – ela murmurou. – O que acharam?
Natasha e Olívia pararam de repente. Olívia parecia intrigada com a garota.
– Elis? – ela questionou.
– Surpresa! – disse Elis. – Eu sabia que vocês adivinhariam que era eu! É por causa das sobrancelhas escuras, não é?
Natasha e Olívia voltaram a respirar de novo. Os olhos de Natasha foram direto para os pés de Elis, mas ela estava calçando sapatos normais, e não diferentes, como os da verdadeira Suzanna.
– Mas você está fantasiada de quê? – as garotas perguntaram.
– Ah, sei que eu não sou ninguém famosa – disse Elis –, mas minha mãe encontrou um baú no sótão e essa roupa estava lá. Serviu tão bem, e eu não tive tempo para fazer nada, e ainda por cima saindo com o Scott e tudo mais. Então, eu resolvi que viria vestida como uma jovem de Chalmersville se vestia cerca de 100 anos atrás! Mas vocês duas estão muito charmosas, acho que fiz a escolha errada – finalizou Elis.
– Não, ficou muito bom – Natasha elogiou. – Escute, a Márcia foi pegar refrigerante. Vamos voltar para encontrá-la. Você vem?
– Sim, eu já vou, só quero encontrar o Scott primeiro. Ele disse que está fantasiado de gorila. Por acaso vocês não o viram?
Olívia e Natasha se juntaram a Márcia.
– Márcia, desculpe – disse Olívia. – Deixe- -me olhar melhor sua fantasia.
Márcia sorriu.
– Bem, tenho que admitir que fiquei um pouco chateada antes, mas eu perdoo vocês duas – ela rodopiou para mostrar o babado da saia, com a anágua engomada por baixo. – Não sei como as mulheres aguentavam usar essas coisas. Prefiro a minha boa e velha calça de moletom!
As garotas riram. Natasha e Olívia sorriram uma para a outra.
– Vamos – disse Olívia enquanto elas iam para a pista de dança. – Vamos fazer o que viemos fazer: dançar!