Box Hora do Espanto: Série III

Edgar J. Hyde · Capítulo 5 de 17

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Box Hora do Espanto: Série III

Capítulo 5

 

 

– Espero que o professor Mendel não tenha assustado você – ela zombou.

– Agora consigo entender por que você e o George se deram tão bem: ambos têm o mesmo senso de humor – disse Tommy.

– E o que mais você acha que temos em comum? – ela perguntou, sentindo Tommy um pouco amuado.

– Nenhum dos dois é engraçado – disse Tommy, continuando a andar.

– Não precisa ser grosso, Tommy.

– De qualquer forma, eu não sabia que você voltaria a falar comigo. Achei que você ficaria ao lado do seu parceiro de beijo depois que eu bati nele.

– Entendo – ela disse, pensativa.

– Bem, cheguei – disse Tommy, parando no portão de sua casa.

– Não vai me convidar para tomar um café? – ela se ofereceu, rindo.

Tommy ficou surpreso.

– Por quê? – perguntou, curioso.

– Porque temos muito a conversar.

Tommy não conseguia se lembrar muito bem de tê-la convidado para entrar, mas lá estava ele, colocando leite no café dela, nervoso ao oferecer biscoitos. Porém, sentia-se muito à vontade com ela, sem entender o motivo. Então, ela foi direta com ele.

– Tommy, por favor, não conte para ninguém, mas eu sou uma bruxa.

Sentado, Tommy a observava tomar calmamente um gole de café.

– O café está uma delícia, Tommy. É do Brasil?

Tommy apenas observava.

– Não diga que não adivinhou… – ela disse.

Tommy então começou a rir. Rapidamente se controlou, mas com dificuldades para se conter.

“Não vou rir na cara dela” – ele pensou. “Ela pode realmente acreditar que é uma bruxa. Afinal de contas, o George acha que é comediante, o professor Mendel acha que é professor de Artes, e ela acha que é uma bruxa. Vivemos num mundo maluco e confuso, não é mesmo?”

Ela continuou a tomar o café em silêncio. Tommy ainda tentava segurar o riso.

– Esses biscoitos de chocolate são deliciosos, não é? – ela disse. – É uma dica de que vou querer mais um.

Tommy pegou alguns e passou a lata de biscoitos para ela por cima da mesa, dizendo:

– Só se você prometer que não vai ler a minha mão – e riu da própria piada.

Ela apenas pegou os biscoitos e sorriu.

– Não preciso ler a sua mão – ela disse.

– Vá em frente, então, cartomante. O que o futuro me reserva?

– Você é obcecado pelo futuro. Está sempre pensando em ser aprovado nos exames, entrar na universidade e conseguir um emprego de repórter. De certa maneira, já está vivendo no futuro. Provavelmente é capaz de adivinhar o próprio futuro sem a ajuda de gente como eu – disse Sally Anne.

– Então, não devo pensar tanto assim no futuro. É isso o que está me dizendo?

– Não fui eu quem disse isso, foi o George, não é mesmo? – Sally Anne retrucou.

– Isso mesmo, o seu amiguinho George, que você conhece há uma semana – disse Tommy, arregalando os olhos.

– Mas estou certa. É o que ele sempre diz, viva o dia de hoje. Estou errada? – ela perguntou, séria.

– Tudo bem, você está certa. E daí? Então, eu sou do futuro, George é do presente e você… Onde se encaixa?

– Não se esqueceu de nada? – Sally Anne perguntou de modo intrigante.

– Não sei, me fale você, vidente – retrucou Tommy, desinteressado.

– O passado – ela disse.

– O que quer dizer? – perguntou Tommy.

– O futuro é importante – ela disse. – Mas George também está certo. Você também tem que viver o presente, é importante da mesma forma.

– Você mais parece uma conselheira do que uma bruxa.

– Mas o passado – ela continuou, ignorando o comentário de Tommy – também é importante.

– Você quer dizer a infância e o resto. Por acaso você é algum tipo de psicóloga da escola?

– Sou uma bruxa, não esqueça. Estou falando de vidas passadas, não de épocas anteriores da vida atual – disse Sally Anne.

Nesse momento, Tommy não conseguiu se segurar e explodiu de tanto rir.

– Perdão, sinto muito – ele repetiu entre risos e gargalhadas.

Quando o riso de Tommy passou, Sally Anne lembrou-o da pintura que havia feito na aula de Artes do professor Mendel.

– Sou uma boa pintora, Tommy, não sou? – ela provocou.

– Mas isso não faz de você uma bruxa.

– Talvez eu seja a artista mais rápida da classe, talvez do mundo.

Tommy parou. A risada tinha sido substituída pelo silêncio. Por fim, ele disse:

– Tudo bem, admito que isso foi um tanto perturbador.

– E a história de o George me beijar não deixou ambos encafifados? – ela disse.

– Como sabe que ele me contou isso?

– Eu estava na aula de Artes ontem e imaginei onde vocês dois estavam. Então, senti que estavam conversando sobre mim. É sério, quero que você, e ninguém mais, saiba a verdade a meu respeito. Foi por isso que interrompi o papo de vocês perto da banca. O professor Mendel sequer percebeu que vocês não estavam na aula. Inventei aquilo para vocês voltarem para a classe e pararem de falar sobre mim. Temia que George adivinhasse algo próximo da verdade.

– A verdade? – perguntou Tommy. – Acho que não havia perigo de nenhum de nós adivinhar que você era uma bruxa.

– Talvez não – disse Sally Anne. – Mas ele disse que me beijar era como beijar um fantasma, não disse?

– Você não estava lá quando ele falou isso. Como ficou sabendo?

Tommy parecia assustado. Primeiro ela havia dito que sentiu que ele e George estavam perto da banca. Tudo bem, podia muito bem ter sido por acaso. Ela disse que sentiu que falavam sobre ela. Certo, ela havia beijado George um dia antes, então podia ser um belo palpite da parte dela. Mas agora ela lembrou ao Tommy que George havia comparado o beijo dela ao beijo de um fantasma. Era algo específico demais.

Sally Anne sentou-se calmamente e bebeu as últimas gotas de café da xícara.

– Então o que você é? Bruxa ou fantasma? – perguntou Tommy, em tom desafiador.

– Somos todos fantasmas, Tommy. Todos nós já vivemos antes. Retornamos para corrigir as coisas erradas que fizemos da última vez.

– Não é nisso que os budistas acreditam?

– Não é apenas uma crença budista. Mas não importa no que as pessoas acreditam – afirmou Sally Anne.

A mãe de Tommy vinha chegando pela porta dos fundos. Ele conseguia vê-la através da grande janela da cozinha, atrapalhada com várias sacolas de compras.

– No que você acredita, Tommy?

– Acredito no futuro, não no passado – disse Tommy, levantando-se para sair e ajudar sua mãe com as compras. Ele olhou de volta para Sally Anne, que colocava a jaqueta da escola. Tommy sorriu para ela.

– Um dia, Tommy, você verá que grande parte do que você chama de presente é apenas ilusão – ela disse. – Quem é capaz de dizer o que é real?

Tommy dirigia-se para a porta dos fundos quando ela disse isso. Ele estava ansioso para apresentar Sally Anne para a mãe, contanto que ela guardasse a conversa de bruxaria para si mesma.

– Oi, mãe – ele disse, pegando algumas sacolas dela. – Deixe eu ajudar você. A propósito, gostaria de apresentar minha nova colega de classe. Ela gostou do seu café – Tommy falou, animado.

Embora Sally Anne não fosse sua namorada, ele sentia que, com certeza, um dia ela seria.

– Ela? – perguntou a senhora McDonald, espantada.

– Sem gracinhas, mãe, é apenas uma amiga – ele cochichou quando eles entraram na cozinha.

Mas a mesa da cozinha estava vazia.

– Então? – disse a mãe.

– Ela estava sentada bem aqui. Acho que ela ficou nervosa com o fato de conhecer você e foi embora – disse Tommy, muito aborrecido com a grosseria de Sally Anne, mesmo estando com os nervos à flor da pele.

– Não se preocupe, filho – ela disse.

A mãe de Tommy começou a lavar o pires e a xícara de café que estavam na mesa e emendou:

– Achei que você gostasse desse café brasileiro.

– Mas eu gosto – retrucou Tommy.

– Então por que não tomou uma xícara? – a mãe perguntou.

– Eu tomei! – disse Tommy, intrigado.

– Bem, vocês só usaram um pires e uma xícara? Você e a sua namorada… desculpe, sua colega de classe… dividiram a mesma xícara? – indagou a senhora McDonald.

– Não, claro que não.

– Bem, se você tomou uma xícara e ela tomou outra, onde está a outra xícara? – a senhora McDonald parou, olhou para Tommy e continuou: – Não precisa inventar histórias, Tommy. Em breve você vai trazer garotas para casa. Não tente impressionar o mundo contando lorotas. Não havia nenhuma garota aqui, não é, filho?

Tommy estava pasmo.

– Como assim? Você acha que eu inventei tudo isso? Se eu quisesse inventar histórias impressionantes, diria que tinha assaltado um banco, ou viajado até a lua. Mas tomar uma xícara de café com uma colega de classe, essa não! Você tem que acreditar em mim, ela estava bem ali.

Então, ele se lembrou de que ela havia comido alguns biscoitos de chocolate. – Veja, dê uma olhada nisso – ele disse, abrindo a lata de biscoitos. Para a sua surpresa, o pacote de biscoitos estava intacto.

– O que há de errado, Tommy? – a mãe perguntou.

– Nada – disse Tommy, contemplando o pacote de biscoitos cheio. – Acho que adormeci e tive um sonho.

Mas claro que ele sabia que não tinha sido um sonho.