Box Hora do Espanto: Série III
Capítulo 8
– Não vai comer as batatinhas? – George perguntou.
Foi a primeira conversa entre George e Tommy desde que eles tinham visto o quadro. Tommy sentou-se, mergulhado em pensamentos profundos, na mesa deles no refeitório.
– É um quadro tão familiar – disse Tommy por fim.
– Claro! Você o viu na aula de Artes outro dia – disse George.
– Não, não o quadro – disse Tommy. – Quero dizer, a cena como um todo. Parece que já estive lá antes. A fábrica, o vilarejo, tudo parece tão familiar.
– Talvez você tenha visto num livro ou algo assim, ou então…
– Claro, foi no sonho!
– Qual sonho? – perguntou George.
– O sonho que tive na noite anterior ao dia em que Sally Anne chegou na nossa classe.
– Ah, esse sonho – disse George.
– É claro! – retrucou Tommy. – Foi muito estranho. Ainda não faz sentido para mim. Não consigo me lembrar do sonho muito bem, mas no instante em que vi a Sally Anne, tive certeza de que a reconheci. E agora esse quadro… Talvez a gente tenha vivido antes!
– Vivido antes? O que quer dizer com isso?
– Nada! Quem sabe? Vou perguntar a ela hoje à noite.
– Hoje à noite? – George agora se irritou. – Como assim hoje à noite? Ah, esquece, o que você quer dizer com “vivido antes”? Sabe, Tommy, talvez haja mesmo alguma coisa interessante acontecendo na sua cabeça!
– Falo com você a respeito disso amanhã, isto é, se fizer algum sentido – disse Tommy.
Tommy ficou calado pelo resto do dia. Quase não escutou George dizer “até amanhã” antes de pegar o ônibus escolar para casa naquele final de tarde. Tommy estava muito intrigado com Sally Anne, vidas passadas, o quadro, bruxas, fantasmas e um monte de coisas.
Entretanto, o que Tommy não sabia era que George tinha ficado sentado no pátio da escola parecendo totalmente ausente depois de beijar Sally Anne.. Por quê? Porque, além de sentir que beijava um fantasma, ele sentiu como se tivesse sido transportado de volta no tempo. Na verdade, ele parecia ter entrado num transe hipnótico, pois lembrava nitidamente do vilarejo, da fábrica, do velho cavalo cansado, da garota na carroça. Em outras palavras, quando George beijou Sally Anne, ele parecia ter sido transportado de volta no tempo, para a cena que Sally Anne pintou na aula. George achava que tinha sido sua imaginação. Mas, depois de ter visto a pintura, ficou muito apavorado. Porém, durante o transe, ele não reparou em ninguém sentado ao lado da sósia de Sally Anne na carroça do quadro. George lembrava dela carrancuda e sozinha. Fora esse único detalhe, o quadro era uma réplica exata da cena que ele lembrava do transe.
Claro! George, o bom e velho George, não era o tipo de cara que levava a sério transes e coisas assim. Mas ele sentia que havia alguma coisa acontecendo. Até mesmo Tommy, o supersensível Tommy McDonald, achava que o quadro era familiar. – “Mas de onde Tommy reconhecia aquele quadro? Apenas do sonho?” – pensou George. Parecia mais do que isso. George decidiu agir como se não estivesse tão interessado na história toda. No entanto, ele estava secretamente fascinado por tudo aquilo e mal podia esperar para saber o que Tommy diria no dia seguinte.