Box Hora do Espanto: Série III

Edgar J. Hyde · Capítulo 13 de 17

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Box Hora do Espanto: Série III

Capítulo 13

 

 

– Tudo bem – disse Tommy, objetivo –, o que está acontecendo? Esse mistério vai ter que ser resolvido hoje à noite.

– E será – concordou Sally Anne.

– Ok, comece a falar – disse Tommy.

– Você é muito difícil de convencer, Tommy, não vai acreditar em mim se eu simplesmente contar. Quero lhe mostrar mais uma vez o que você chama de coisas estranhas. Acho que é a única maneira de convencê-lo a entender o motivo de eu estar aqui.

– Não sei se eu aguento mais. Os últimos dois dias foram muito turbulentos. Acho que não consegui dormir nem um instante. Sei que devo algumas explicações aos meus pais. Mas o que posso explicar? Não tenho a mínima ideia – disse Tommy, passando as mãos no cabelo.

– Tommy, se ao menos você tivesse fé. Assim eu não teria que fazer você passar por tudo isso.

– Sinto que estou perdido – afirmou Tommy.

– Não, essa não é a palavra certa – disse Sally Anne. – Tudo o que realmente aconteceu com você é que você abriu sua mente…

– Lá vem você de novo! – disse Tommy.

– Como você poderia entender coisas estranhas, coisas especiais, se não tivesse a mente aberta?

– Pois bem, doutora fantasma – disse Tommy, num tom amargo –, a minha mente está aberta o suficiente agora?

– Quase.

Tommy suspirou e então disse:

– E se eu apenas dissesse adeus e não pensasse novamente nessa coisa toda? E se eu pedisse para você me deixar em paz? Tudo cairia no esquecimento, não é mesmo? E se fosse o caso, nada disso teria essa importância toda. Eu não preciso continuar com isso. Pouco me importa se você é uma bruxa ou não. Só quero de volta a minha vida real. Aquela que me pertencia antes de você entrar em cena.

– Você pode até fugir, mas não pode se esconder. Venho perseguindo você há séculos, não porque eu queira, mas porque preciso!

– Vem me perseguindo há séculos! – exclamou Tommy. – Está cada vez pior… Estou tentando acreditar em você. Quero esse assunto resolvido! Mas não consigo. Eu simplesmente não posso aceitar essa situação.

– É por isso que vamos pegar o último trem para Rolwell. Eu sabia que você não acreditaria em mim. Desta vez, se você realmente quiser resolver a charada, terá que fazer o que eu disser.

– Caso contrário…

– Caso contrário, vou deixá-lo em paz pelo resto desta vida. Você será um jornalista bem- -sucedido, terá tudo o que quiser, merecidamente. Mas, quando envelhecer, vai pensar muito a respeito deste episódio, que vai infernizar a sua cabeça, e que ficará cada vez mais marcante para você à medida que você perceber os poucos anos que lhe restam. Você sentirá frustração por não ter ido atrás disso. Essa frustração vai amargurar os últimos anos da sua vida. Você vai perceber, como acontece com a maioria das pessoas quando corre contra o tempo, que um dos propósitos da sua vida seria enfrentar todos os problemas, com ou sem medo. Todas as suas glórias jornalísticas não terão nenhum valor ao lado dos seus arrependimentos. Porque, o que quer que você conquiste, você sempre vai achar que poderia ter feito mais. E, se tivesse ao menos enfrentado esse episódio com coragem, talvez tivesse descoberto um grande segredo. E quando pensar no sentido da vida, vai desejar ter explorado profundamente todos os mistérios dela.

Tommy ouviu até o fim. Ele sabia como planejar seu futuro, mas também sabia que Sally Anne dizia a verdade. Visualizou sua velhice, sentado numa poltrona confortável sobre a grama bem cuidada de um belo jardim mediterrâneo banhado pelo sol, pensando na vida. Sabia que o fato de ele nunca ter perseguido o que os jornalistas chamariam de uma grande história o aborreceria. Também sabia que de alguma forma perderia a chance de explorar o potencial das vidas passadas, a clarividência, os fantasmas, coisas das quais o mundo quer saber mais a respeito há séculos.

Sally Anne continuava a olhar para Tommy, esperando que ele concordasse em pegar o trem. A chuva continuava a desabar. Eles estavam na plataforma e o barulho do trem chegando à estação interrompeu os pensamentos de Tommy. Ele sabia que tinha de enfrentar o mistério que estava por trás de tudo aquilo.

– Preciso ficar apavorado? – ele perguntou novamente, sabendo a resposta. De qualquer maneira, já estava conformado de ter de pegar o trem.

– Depende se você tem a mente aberta – disse Sally Anne, sorrindo ligeiramente.

Tommy abriu a porta do trem para Sally Anne. Ela embarcou e procurou por Tommy, mas ele ainda estava na plataforma. Ele parecia juntar toda sua coragem antes de segui-la. O trem começou a se movimentar. Ele pulou para dentro. Eles procuraram lugares e sentaram-se.

– Por que Rolwell? – perguntou Tommy. – Qual a importância de Rolwell?

– Como eu disse – respondeu Sally Anne –, é a sua cidade natal. Vou mostrá-la para você se familiarizar gradualmente com ela conforme conversamos.

– Quer dizer que eu realmente vivi antes?

– Sim, muitas vezes!

– Você também? – ele perguntou.

– É claro! Todos neste trem já viveram. Todas as pessoas do mundo já viveram.

– Para quê? – perguntou Tommy.

– Calma, Tommy. Eu posso ser uma bruxa, uma bruxa do bem por sinal, mas isso não significa que eu saiba resolver o enigma da vida – ela riu.

– Mas você sabe mais sobre isso do que eu – disse Tommy, que esperava mais esclarecimentos do que Sally Anne até então oferecia.

– Bem, eu posso torná-lo consciente dos acertos e erros de nossas vidas passadas. Posso indicar quais mudanças você queria fazer na sua última vida. Não sei de tudo, mas sei que vivemos de novo para ter uma segunda chance de corrigir as coisas em que falhamos da última vez. Todos temos que seguir em frente, mas, se estivermos presos a alguma pendência, em cada nova vida precisamos de ajuda para superar o que quer que esteja nos segurando.

– Complicado. Não posso fingir que entendo tudo o que você está me dizendo – disse Tommy, intrigado.

Sally Anne pensou por um momento e, então, disse:

– Observe isto. Está vendo o rapaz sentado ao lado da janela? – ela perguntou, apontando para o outro lado do vagão.

– Sim… – respondeu Tommy, desconfiado.

– Posso lhe mostrar um pouco da história dele. Posso lhe mostrar como ele era nas vidas passadas.

Tommy não estava disposto a desafiá-la depois de tudo o que ele tinha passado, mas estava curioso para ver aquilo.

– Está bem – ele disse. – É um jeito original de passar o tempo durante uma viagem de trem!

Tommy tentava mostrar-se cético, mas Sally Anne sabia que ele já não era mais tão cético. Além disso, não faria mal algum.

– Primeiro – ela disse –, você tem que me beijar.

– Como?!

– Tommy, você e eu estamos ligados por um amor que é muito, muito antigo. O poder dele vem se consolidando há vários séculos. É um poder único e especial. É essa força que me permite lhe mostrar todas essas coisas estranhas. E é por isso que você tem que me beijar.

Tommy pensou um pouco. Sempre foi analítico. Achou que a afirmação de Sally Anne parecia lógica. Também notou que não sentia mais medo. Estava apenas curioso, muito curioso. Assim, por essa razão, ele se inclinou sobre a mesa que havia entre eles e disse:

– Venha cá então.

Sally Anne se aproximou, e eles se beijaram. No mesmo instante, Tommy caiu para trás no assento. Estava vendo estrelas. As cores de tudo no vagão mudavam a cada segundo. O homem para o qual Sally Anne havia apontado antes parecia brilhar. Levemente a princípio, depois gradualmente, seu casaco marrom-escuro parecia adquirir uma luz amarela brilhante ao redor. O homem continuava olhando pela janela do trem, sem sentir nada de estranho ocorrendo. Todas as cores nele – o rosado da pele, o escuro do cabelo, o verde dos olhos, o vermelho do nariz – começaram a se tornar incrivelmente brilhantes, cada vez mais brilhantes, até que uma imensa explosão de cores espalhou faíscas em volta dele, como se ele próprio tivesse explodido. Mas o homem continuava sem perceber o que estava acontecendo.

Tommy ouviu Sally Anne dizer:

– Essa explosão é como nós, vou tentar explicar, entramos em sintonia com ele. O passeio fica um pouco turbulento daqui em diante, Tommy, segure-se no assento com mais força agora – então ele a escutou rir, como se tudo não passasse de uma brincadeira!

Tommy olhou de novo para o homem. Ele parecia mais jovem. Primeiro, aparentava ter 35 anos, mas agora tinha cerca de 25. Vestia um paletó diferente, mais vistoso. Depois, ele pareceu ficar ainda mais novo, bem na frente dos olhos de Tommy.

Tommy piscou, e o homem se tornou um garoto da sua idade. Tommy tentou não piscar naquele instante, para não perder nada. No momento seguinte, ele era um menino. Depois, um bebê. Tommy não conseguia acompanhar o ritmo. Ele escutou um leve estouro, e o bebê pareceu explodir em cores brilhantes.

Agora só havia poeira, que sumiu para revelar um homem com uniforme de soldado alemão da Segunda Guerra Mundial!

Ele foi ficando mais jovem, mas num ritmo bem mais rápido que antes. Era quase como assistir a um borrão, que mudava constantemente. Um novo estouro, e o soldado agora era um marinheiro da época do almirante Nelson.

Outro estouro. Agora ele era uma criança vestida em trapos dos tempos de Shakespeare. O tempo todo o homem mudava, sua pele alongava e encolhia, seu rosto aumentava e diminuía, seguindo o ritmo.

Sally Anne então disse:

– Olhe em volta do vagão.

Todas as pessoas no vagão passavam pelas mesmas transformações. Todas as vidas passadas delas passavam diante dos olhos de Tommy!

De repente, o trem parou com um solavanco. Agora, em vez de as pessoas no vagão estarem apenas sentadas, todas se levantaram e começaram a vivenciar importantes experiências de suas vidas passadas!

Os homens que foram soldados nas vidas passadas estavam cobertos de sangue. Tommy podia vê-los sendo atingidos por disparos. Ele os via contorcerem os rostos de dor. Ele ouvia os gritos.

Viu outros homens lutando com espadas, como se estivessem na época dos piratas. Viu espadas penetrando na carne enquanto piratas lutavam até a morte uns contra os outros. Todas essas cenas medonhas aconteciam ao mesmo tempo. Tudo mudava instantaneamente para outras cenas conforme as vidas passadas dos outros passageiros do trem se desdobravam diante dos olhos de Tommy.

As cenas eram tão reais que ele podia sentir o cheiro do mar, dos campos, do sangue, de tudo. Aquilo também já o estava afetando. Ele fechou os olhos, o que não fez a menor diferença: continuou a ver tudo. Tapou as orelhas com as mãos, mas continuou a ouvir tudo. Gritou, mas nada mudou. Mesmo de olhos fechados, viu que os outros passageiros, todos envolvidos em cenas terríveis de vidas passadas, ouviram seu grito.

Os piratas riram e começaram a andar em direção a ele. Os soldados apontaram os rifles para ele. Todos zombavam dele, com vozes cheias de ira. Semblantes desfigurados, retorcidos de dor e de medo, estavam a poucos centímetros dele quando ele ouviu Sally Anne dizer:

– Grite para eles: “A vida de vocês chegou ao fim!”. Depressa, Tommy!

Sem hesitar, Tommy gritou:

– A vida de vocês chegou ao fim!

Todas as horríveis criaturas das vidas passadas dos passageiros explodiram no mesmo instante. Pedaços deles voaram contra janelas, poltronas e portas. Havia sangue espalhado por toda parte.

Nessa hora, o trem deu um solavanco para a frente. Tommy piscou. Quando reabriu os olhos, foi como se nada tivesse acontecido. Ele estava ofegante e sem fôlego. Um ou outro passageiro olhou para ele. Agora todos pareciam completamente normais. Depois, voltaram a ler jornais, conversar ou simplesmente olhar pela janela.

Sally Anne olhava para ele, preocupada. Novamente, o único barulho que se escutava era o som do trem avançando na linha.

Tommy espiou pela janela. Era dia, um dia brilhante e ensolarado! Mas quando ele e Sally Anne tinham entrado no trem, eram nove horas da noite, estava escuro e chovia.

– Está tudo bem? – ele ouviu Sally Anne perguntar.

– Deveria estar, depois de tudo o que passei? – perguntou Tommy.

– Isso depende.

– Do quê?

– Da sua determinação para consertar o passado – ela disse.

– Depois disso, determinação total! – ele disse, afinal, absolutamente convencido de que estava sob o domínio de forças mais poderosas do que ele.

– Bem, nesse caso, vai ficar tudo bem.

– Nossa, que alívio, só de ouvir isso!

Tommy sentou-se pensando em mil coisas ao mesmo tempo. Talvez fosse um truque. Não, de jeito nenhum. Era real demais. Toda vez que uma dúvida vinha em sua mente, bastava ele olhar pela janela para ver a plena luz do dia às nove e quarenta e cinco da noite, como ele conferiu no relógio.

O trem parou na estação de Rolwell, e todos os passageiros se levantaram. Como de costume, houve alguns empurrões enquanto os passageiros tentavam passar pelo corredor estreito. Acidentalmente, Tommy esbarrou no homem para o qual Sally Anne havia apontado, aquele que olhava pela janela do outro lado do vagão. Com essa pequena colisão, o homem deixou cair o jornal que segurava. Tommy se abaixou para pegá-lo.

– Danke schön – disse o homem, que imediatamente se corrigiu e falou em português claro: – Obrigado.

O homem sorriu e dobrou novamente o jornal. Tommy viu que era o Der Spiegel. Ele sabia que era um jornal alemão. Aquele era o homem que, se a estranha visão anterior de Tommy fosse verdade, teria sido um soldado alemão numa vida passada.

Se Tommy ainda tinha alguma dúvida, ela desapareceu naquela hora.

Ele cochichou timidamente para Sally Anne enquanto caminhavam pela plataforma:

– Será que todas as minhas vidas passadas foram tão agitadas como essas que você acabou de me mostrar?

– Sim, pode ter certeza. E é por isso que estamos aqui – ela disse em um tom sinistro.