Box Hora do Espanto: Série III

Edgar J. Hyde · Capítulo 3 de 17

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Box Hora do Espanto: Série III

Capítulo 3

 

 

– Como ela é, Tommy? – murmurou George na aula de Redação no fim do dia, em seu melhor estilo de ventríloquo. Mas não obteve resposta.

– Fala sério, ela é demais, não é? – ele insistiu.

Novo silêncio.

– Ok, vamos tentar novamente. Tommy, o boneco mudo, não tem nada para dizer. A garota mais bonita da escola resolve sentar perto dele e, ainda assim, ele continua sem nada para dizer. Será que vou ter que fazer esse papel também, Tommy? Ora essa, George… – disse George, imitando a voz grossa de Tommy – como você pode ver, estou cheio de magnetismo animal, as garotas não conseguem resistir a mim!

– Cala a boca, George – Tommy repreendeu-o, irritado.

– Brincadeira, Tommy. Mas vou dizer uma coisa: ainda bem que você não está interessado em beijar a Sally Anne, porque senão teria que enfrentar uma fila de um quilômetro, e eu sou o primeiro! – disse George, rindo sem mover os lábios. Tommy não respondeu.

Tommy não foi à biblioteca no intervalo daquela manhã. Em vez disso, ele decidiu procurar Sally Anne. Não para falar com ela, ele não era tão valente assim, mas só para olhar para ela. A garota era linda, não saía do pensamento dele.

Quando George viu Tommy no intervalo, parou de jogar futebol para falar com ele.

– Tudo bem, Tommy? – perguntou.

– Claro, por que não estaria? – Tommy respondeu, enfático.

– Tudo bem, tudo bem, é só que você parece meio perdido.

Eles viram Sally Anne conversando com algumas garotas da classe na fila da lanchonete.

– Vamos lá nos apresentar – disse George, caminhando em direção a Sally Anne.

– Como assim? O que vamos dizer? – perguntou Tommy, nervoso.

– Você vai dizer aquilo que você é bom em dizer: nada. Quando se trata de garotas, você é um boneco, lembra? – provocou George.

Será que George queria marcar um encontro entre Tommy e Sally Anne? Será que ele teria um superplano para reunir aquelas duas almas gêmeas? Era o que Tommy se perguntava. Almas gêmeas, Tommy pensava se essas coisas realmente existiam. Quanto mais ele pensava em Sally Anne, mais dizia para si mesmo: “Tudo bem, eu estou interessado em garotas. E agora?”

Conforme eles se aproximavam do grupo de garotas que incluía Sally Anne, Tommy sentia os nervos à flor da pele. Agora que ele tinha admitido que gostava dela, tudo o que precisava fazer era falar com ela, caramba! Ele estava em pânico.

– Você fala, gênio – ele implorou ao George.

– Tudo bem, deixa comigo.

George não fazia ideia de que Tommy estava a fim de Sally Anne. George falaria porque ele estava a fim de Sally Anne também.

– Consigo arrumar um lugar para você do meu lado na classe, se você quiser – ele disse para Sally Anne.

– Não, obrigada – ela corou, espantada com o descaramento de George. – Tudo bem, mesmo.

Tommy gelou. Seu melhor amigo, seu único amigo de verdade, estava falando com sua garota.

– É sério – George insistiu. – Vou prender o Jimmy Leach, que senta ao meu lado, no banheiro. Você e eu temos muita coisa para conversar, querida.

Sally Anne achou graça. É claro que George era charmoso e inofensivo. Mas, na verdade, ela queria que Tommy tomasse a iniciativa, já que ela havia se sentado ao lado dele na primeira aula. Ela havia reparado nele no meio da multidão quando se juntou à classe naquela manhã. Tommy era tão alto quanto ela, que se incomodava quando precisava olhar para baixo, para garotos como George. Sally Anne sentia-se mais velha por conta disso. Afinal de contas, ela tinha apenas 13 anos.

Mas Tommy não fazia ideia do que ela pensava.

E, como Tommy ficou calado, Sally Anne achou que ele não tinha interesse. Só estava lá para dar uma força a George, ela pensou.

– Posso pagar um almoço para você algum dia? – disse George na sua melhor interpretação de galã.

– Se você pode pagar um almoço para mim? – ela repetiu, admirada. E continuou: – Só se for num restaurante muito chique…

– Não, infelizmente não! – George se esquivou. Afinal, era ele que devia fazer as piadas. – Que tal dividirmos os meus lanches na hora do almoço?

– Só se forem de caviar e salmão defumado – ela brincou.

– Ótimo! – disse George. – Vou trazer champanhe, ou melhor, refrigerante, como é conhecido nestas bandas!

– Meio-dia e meia no salão? – ela perguntou, quase desinteressada.

– Combinado.

– Até mais tarde então, esbanjador – ela riu.

– É assim que se faz – George sorriu malicioso quando viu Tommy olhando para ele. – Alguma coisa errada, meu chapa? Não quer aprender a pegar garotas? Eu nem vou cobrar a aula!

George já havia apanhado algumas vezes. O punho de Ronnie Ryan tinha acertado em cheio o queixo dele. Às vezes, George podia fazer piadas sem problemas, outras vezes não. Naquele dia, quando foi ao chão assim que o soco de Tommy acertou seu rosto, ele percebeu que havia passado dos limites.

– Levante-se – ordenou Tommy.

Ao perceber que Tommy pretendia acertá-lo de novo, George se lembrou, entre outras coisas, de que sua própria altura não passava de 1,5 metro. Ele retrucou: – Está brincando, certo?

– De pé! – disse Tommy, ameaçando-o. – Talvez você precise de uma aula de boxe. Talvez você não seja tão esperto assim.

O rosto de Tommy estava vermelho. Ele estava com muita raiva ao gritar com George no chão.

Claro que a notícia da explosão de ira do Tommy logo se espalhou pela escola.

George não conversou com Tommy no dia seguinte na aula de Redação. De fato, Sally Anne sentou-se atrás de Tommy na primeira aula naquela manhã depois de olhar com desprezo para ele.

“Aposto que falaram um monte de mim” – pensou Tommy. Ele estava envergonhado de ter batido em George. Mas, principalmente, estava envergonhado porque não teve coragem de falar com Sally Anne.

Por isso, foi Tommy quem quebrou o silêncio quase no fim da aula de Redação.

– Bem, o beijo dela atende aos seus padrões? – Tommy perguntou com ironia.

– O quê? – replicou George, confuso.

Tommy percebeu o inchaço no rosto de George e lamentou o que havia acontecido no dia anterior.

– George, não sei o que deu em mim ontem.

– Do que você está falando, Tommy?

– Quando soquei você…

– Ah, isso? – respondeu George, como se estivesse pensando em outra coisa. – Não foi nada, Tommy. Não queria ser inconveniente, mas sei que sou, às vezes.

– Achei que não estava falando comigo por causa da nossa briga de ontem – disse Tommy.

Houve uma longa pausa antes de George cochichar:

– Nada disso. É que eu beijei a Sally Anne.

– Nossa! – exclamou Tommy tão alto que a professora Gray ouviu.

– Nada de conversas, Tommy – ela advertiu. – Além de não ter feito a lição de casa ontem à noite e de ficar brigando no intervalo, você ainda vai tirar a atenção de George? Francamente! O que há de errado com você ultimamente? De volta ao trabalho.

– Não quero saber de beijá-la novamente – disse George, sussurrando.

– Por que não? – perguntou Tommy.

– Já ouviu falar daquela aranha da América do Sul? Aquela que paralisa o macho com uma mordida e depois o mata? – pela primeira vez o tom de brincadeira de George parecia ter sumido.

– Eu… Sei lá!

– Pois bem, eu estava voltando com ela para a classe depois do almoço. A gente tinha acabado de dividir o meu sanduíche de carne…

– Claro, só para impressionar a senhora Champanhe… – retrucou Tommy.

– … quando saquei que era a hora certa do beijo.

– Com toda a sua experiência, né? E olha que você também só tem 13 anos. Então você sacou o momento? O seu método científico de tomada de decisões deu errado, doutor George Borden?

– Não, era o momento certo. Mas… – George fez uma pausa.

– Mas o quê? – perguntou Tommy, agora muito interessado.

– Bem, foi meio apavorante.

– Não me diga que você ficou com medo, grande beijoqueiro.

George fez uma nova pausa.

– Pois é, foi o que aconteceu – ele disse.

O sinal tocou, anunciando o fim da aula. Assim que eles saíram, Tommy disse a George:

– Vamos dar uma volta por aí.

– E cabular a próxima aula?

– Isso! Quero passar essa história a limpo. Ando meio intrigado com essa garota – revelou Tommy.

Eles foram sentar-se perto da banca de jornal para tomar sorvete. Tanto George como Tommy sabiam que perderiam a aula de Artes e que teriam que arrumar uma boa explicação para isso.

– Então, George, conte sobre o tal beijo.

Mais uma vez, George hesitou.

– Bem, eu meio que… – ele procurou escolher bem a palavra certa – congelei.

– Congelou – repetiu Tommy. – Deixa de frescura…

– Não tem graça, Tommy. Eu cheguei e me aproximei. Ela pareceu achar uma boa ideia. Eu a beijei. Mas os lábios dela estavam gelados demais.

– Em pleno verão?

– Exatamente, mas isso foi só o começo. Os lábios dela não estavam gelados, estavam congelados! Deu um branco na minha cabeça. Eu não conseguia me mexer. Não sabia o que pensar. Não só os meus próprios lábios ficaram gelados, mas o ar ficou frio, e eu me lembro de ter achado que parecia que estava beijando um fantasma.

– Fantasma? – Tommy engasgou.

– Isso, fantasma. Quer dizer, não acredito nessas coisas, mas foi muito esquisito.

– Tem certeza de que não andou imaginando tudo isso? – perguntou Tommy, irônico.

– No começo, sim, porque na minha cabeça comecei a ver todo tipo de coisa de outra época.

– O que quer dizer com isso? – indagou Tommy.

– Esquece, é muito estranho, você não vai acreditar em mim.

Hesitante, Tommy sentou-se enquanto devorava seu picolé, distraído com a conversa maluca de George. Ele imaginava se devia deixar George saber do seu próprio segredinho. Um segredo, aliás, que ele não entendia muito bem, mas que, depois da história de George, estranhamente fazia sentido.

– Acredito sim em você – disse Tommy, quebrando o silêncio constrangedor.

– É mesmo? Se você me contasse essa história bizarra, não sei se acreditaria em você.

“Lá vai” – pensou Tommy, enquanto se preparava para contar a George seu segredo.

– Promete não contar para ninguém o meu sonho estranho? – perguntou Tommy.

– Claro!

– Bem, um dia antes de Sally Anne começar na nossa turma, tive um sonho com uma garota linda, e, quando vi Sally Anne, ela me lembrou demais essa garota. Achei que era a mesma garota, mas isso é impossível, não é?

– Prossiga… – George incentivou.

– No sonho, ela disse: “Estou voltando. Temos assuntos pendentes para resolver. Você tem que me deixar ajudá-lo”. Mas, sempre que eu perguntava no que ela poderia me ajudar, ela olhava assustada e perguntava se eu não me lembrava. No sonho, ela parecia alguém familiar para mim, mas eu não conseguia me lembrar de onde a conhecia. Inclusive, ela ficou ofendida com isso. Então, eu acordei implorando para que ela me dissesse. Não pensei mais naquilo, até vê-la no dia seguinte, supostamente pela primeira vez. Achei que era pura coincidência ela ser parecida com a garota do meu sonho.

– Sonho? – George interrompeu. – Pois foi assim que me senti quando a beijei, como se fosse um sonho.

Nessa hora, ambos pararam de falar. Eles viram Sally Anne caminhando em direção à banca de jornal.

Conforme se aproximou, ela sorriu para eles.

Assustados e confusos, os garotos sorriram de volta para ela, mas não conseguiram disfarçar.

– O professor Mendel está procurando por vocês dois – ela disse.